INTUSSUSCEPÇÃO SECUNDÁRIA A GIARDÍASE E CYSTOISOSPORÍASE EM FILHOTE CANINO: RELATO DE CASO

INTUSSUSCEPTION SECONDARY TO GIARDIASIS AND CYSTOISOSPORIASIS IN A CANINE PUPPY: CASE REPORT

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511261915


Mariana Pinheiro Guimarães Pinto1
Nobilino Satelis Alves Filho2


RESUMO

A intussuscepção intestinal é uma emergência frequentemente associada a processos inflamatórios entéricos, sobretudo em filhotes expostos a agentes parasitários. Este estudo de caso descreve a evolução clínica de uma cadela de três meses, resgatada e sem histórico sanitário, que apresentou quadro grave de gastroenterite, hipoalbuminemia, leucocitose acentuada e deterioração progressiva, culminando no diagnóstico de intussuscepção intestinal e necessidade de intervenção cirúrgica emergencial. Exames coproparasitológicos seriados confirmaram coinfecção por Giardia duodenalis e Cystoisospora spp., agentes frequentemente associados à destruição de mucosa, perda proteica e alterações significativas do peristaltismo. A análise integrada dos achados clínicos, laboratoriais e ultrassonográficos demonstrou que a coinfecção parasitária desempenhou papel central no desencadeamento da complicação mecânica. O manejo terapêutico incluiu fluidoterapia, suporte hemodinâmico, nutrição enteral, cirurgia corretiva e tratamento antiparasitário específico, resultando em recuperação gradual. Conclui-se que filhotes coinfectados com protozoários entéricos apresentam risco elevado para intussuscepção, reforçando a importância do diagnóstico precoce, de exames seriados e da abordagem terapêutica intensiva na medicina de pequenos animais.

Palavras-chave: Intussuscepção intestinal; Giardíase; Cistoisosporíase; Enteropatia parasitária; Filhotes caninos; Gastroenterite; Medicina veterinária.

1. INTRODUÇÃO

A intussuscepção intestinal é uma condição caracterizada pela invaginação de um segmento do intestino dentro de outro, causando obstrução luminal, comprometimento vascular e risco elevado de necrose e perfuração. Em filhotes, a afecção ocorre com maior frequência devido à imaturidade imunológica e ao maior índice de enteropatias infecciosas, especialmente aquelas causadas por agentes parasitários capazes de modificar a motilidade intestinal e intensificar a inflamação da mucosa. A literatura destaca que processos inflamatórios entéricos agudos estão entre os principais fatores predisponentes à intussuscepção, e casos envolvendo parasitoses protozoárias em animais jovens têm sido cada vez mais descritos em razão da elevada prevalência desses agentes nessa faixa etária (Chaves et al., 2020).

Entre os protozoários de importância clínica em cães filhotes, destacam-se Giardia duodenalis e Cystoisospora spp., ambos amplamente distribuídos e reconhecidos como causas frequentes de diarreia, perda de peso, má absorção e inflamação intestinal significativa. A giardíase possui relevância epidemiológica global e afeta principalmente animais jovens e animais resgatados, sendo associada a quadros de diarreia mucóide, dor abdominal e hipoproteinemia. Pesquisas recentes demonstram que a infecção por Giardia é um dos principais fatores envolvidos na etiologia da diarreia em filhotes, contribuindo para lesões inflamatórias e alterações de peristaltismo que podem favorecer complicações mecânicas (Capari et al., 2025). De forma semelhante, a cistoisosporíase é uma enfermidade que acomete com maior intensidade animais jovens, ocasionando destruição enterocitária, diarreia intensa, desidratação e perda proteica. A literatura atual reforça que a presença de Cystoisospora spp. em filhotes com diarreia persistente permanece elevada, evidenciando a importância clínica desse protozoário em animais de companhia (Morelli et al., 2025).

A associação entre giardíase e cistoisosporíase tende a intensificar o dano intestinal, aumentando substancialmente a inflamação, a perda proteica e o hiperperistaltismo, fatores que podem atuar como desencadeadores de intussuscepção. Apesar disso, ainda há escassez de relatos clínicos detalhados que relacionem diretamente essa coinfecção a desfechos obstrutivos graves, especialmente envolvendo filhotes em situação de vulnerabilidade sanitária. Isso justifica a necessidade de documentar casos clínicos que demonstrem essa relação, contribuindo tanto para o reconhecimento precoce do risco quanto para o aprimoramento das condutas terapêuticas e cirúrgicas na medicina veterinária.

Diante desse cenário, o presente estudo parte da hipótese de que a infecção simultânea por Giardia duodenalis e Cystoisospora spp. pode intensificar a resposta inflamatória intestinal e favorecer o desenvolvimento de intussuscepção em filhotes caninos. Assim, o objetivo deste trabalho é descrever detalhadamente um caso clínico de intussuscepção intestinal em um cão filhote associado à coinfecção por esses protozoários, discutindo a evolução clínica, os achados laboratoriais e ultrassonográficos, a abordagem terapêutica empregada e a relevância do diagnóstico precoce na prevenção de complicações graves.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 

A intussuscepção intestinal é uma afecção de grande relevância na clínica de pequenos animais, caracterizada pela invaginação de um segmento do intestino dentro de outro, resultando em obstrução parcial ou completa, redução do fluxo sanguíneo local, edema, congestão e, em casos graves, necrose e perfuração. Trata-se de uma emergência cirúrgica que exige diagnóstico e intervenção precoces, especialmente em filhotes, nos quais a condição apresenta maior prevalência devido ao conjunto de fatores fisiológicos, infecciosos e ambientais que favorecem alterações de motilidade e inflamação intestinal. A literatura descreve a intussuscepção como uma das principais causas de abdômen agudo em cães jovens, frequentemente associada a enterites infecciosas, parasitárias ou imunomediadas (Sallis; Sallis, 2021).

A fisiopatologia da intussuscepção envolve o aumento anormal do peristaltismo ou estímulos mecânicos e inflamatórios sobre a parede intestinal, que levam ao deslizamento de um segmento intestinal para dentro do outro. A presença de processos inflamatórios causados por protozoários, helmintos ou vírus é amplamente reconhecida como fator predisponente. Em animais jovens, o desenvolvimento de enterite parasitária desempenha papel central, pois provoca destruição mucosa, hipersecreção, desequilíbrio eletrolítico, aumento do peristaltismo e alteração na função neuroentérica, criando condições ideais para a invaginação intestinal (Garcia et al., 2022). Além disso, filhotes são mais susceptíveis devido à imaturidade imunológica, à menor estabilidade da motilidade gastrointestinal e ao risco aumentado de exposição a agentes infecciosos, sobretudo em situações de abandono e condições sanitárias inadequadas.

Entre os agentes parasitários frequentemente relacionados à enterite em cães filhotes, destacam-se Giardia duodenalis e Cystoisospora spp., ambos de ampla distribuição mundial e com implicações clínicas importantes. A giardíase é reconhecida como uma das principais causas de diarreia aguda e crônica em filhotes, sendo responsável por alterações inflamatórias significativas na mucosa intestinal. Giardia duodenalis provoca achatamento das vilosidades, hiperplasia criptal, alteração da barreira intestinal, aumento do peristaltismo e má absorção de nutrientes, fatores que contribuem diretamente para perda de peso, hipoproteinemia e desidratação (Feng; Xiao, 2011). Estudos recentes reforçam que a infecção é especialmente grave em filhotes debilitados ou submetidos a mudanças bruscas de ambiente, sendo comum em animais resgatados (Alves e Santos, 2023).

Por sua vez, Cystoisospora spp. é um protozoário coccídio que acomete principalmente filhotes de cães e gatos, com prevalência elevada em animais susceptíveis e em situações de estresse imunológico. A replicação intracelular do parasita gera destruição intensa de enterócitos, inflamação difusa e lesões significativas na mucosa intestinal, resultando em diarreia aquosa ou hemorrágica, dor abdominal, anorexia, desidratação e perda proteica severa (Dubey e Almeria 2019). Filhotes infectados apresentam risco aumentado de desenvolver quadros de enterite grave, especialmente quando há coinfecção por outros agentes entéricos. Estudos epidemiológicos recentes mostram que a prevalência de Cystoisospora spp. permanece alta em cães jovens com diarreia persistente, mesmo em ambientes urbanos (Morelli et al., 2025).

A coinfecção entre Giardia duodenalis e Cystoisospora spp. intensifica os danos mucosos e agrava a inflamação intestinal. Essa associação resulta em destruição epitelial mais acentuada, comprometimento da absorção, hiperperistaltismo e alteração significativa da integridade da barreira mucosa, criando condições ideais para complicações como intussuscepção. Casos clínicos recentes reforçam o papel da coinfecção parasitária como fator agravante de enterites severas em filhotes, aumentando o risco de complicações como hipoglicemia, choque hipovolêmico e obstrução intestinal (Chaves et al., 2020). O sinergismo patogênico entre esses protozoários também compromete parâmetros hematológicos, levando a quadros de anemia, leucocitose acentuada, hipoalbuminemia e alterações eletrolíticas.

Outro aspecto relevante na compreensão da fisiopatologia dessa associação é a perda proteica entérica. Tanto giardíase quanto cistoisosporíase podem provocar enteropatia perdedora de proteínas, reduzindo níveis séricos de albumina e globulinas. A hipoalbuminemia contribui para edema de mucosa e submucosa, agrava a inflamação e intensifica o risco de alterações mecânicas na motilidade intestinal. Em filhotes, a combinação de inflamação severa, má absorção e perda proteica pode gerar um ciclo progressivo de deterioração intestinal que favorece o surgimento de complicações agudas.

A literatura também evidencia que a evolução clínica de infecções parasitárias em filhotes depende de múltiplos fatores, como estado nutricional, estresse, coinfecções bacterianas ou virais e histórico vacinal. Animais resgatados apresentam risco aumentado, especialmente pela exposição prévia a ambientes contaminados, ausência de vermifugação regular e ausência de cuidados preventivos. Isso reforça a importância do diagnóstico precoce e da utilização de exames coproparasitológicos seriados, já que a eliminação intermitente de cistos e oocistos pode dificultar o diagnóstico preciso em um único exame (Alves e Santos, 2023).

A ultrassonografia abdominal desempenha papel essencial tanto no diagnóstico de enterites parasitárias quanto na detecção precoce de intussuscepção. A visualização do clássico aspecto de “alvo” ou “anel concêntrico” é determinante para o diagnóstico, permitindo uma intervenção rápida e aumentando as chances de recuperação do paciente. Em casos de enterite grave, o exame auxilia também na avaliação da espessura da parede intestinal, peristaltismo, linfonodos mesentéricos e presença de líquido livre, fatores importantes para a conduta clínica e cirúrgica.

Assim, compreender a interação entre parasitoses intestinais e complicações mecânicas em filhotes é fundamental para estabelecer um protocolo terapêutico eficaz e reduzir a mortalidade. A associação entre giardíase e cistoisosporíase deve ser sempre considerada em filhotes com diarreia persistente, hipoalbuminemia, desidratação e sinais de abdômen agudo, especialmente quando há histórico de vulnerabilidade sanitária. A fundamentação teórica revisada demonstra que a coinfecção pode atuar como um importante gatilho fisiopatológico para o desenvolvimento de intussuscepção, reforçando a relevância clínica do tema.

3. METODOLOGIA 

O presente trabalho caracteriza-se como um estudo de caso clínico descritivo, de abordagem qualitativa e natureza aplicada, fundamentado na análise detalhada de um paciente canino atendido em ambiente hospitalar veterinário. Esse tipo de metodologia é amplamente utilizado na medicina veterinária por permitir a descrição aprofundada de condições clínicas específicas, especialmente aquelas consideradas incomuns, graves ou que envolvem múltiplos fatores etiológicos, como ocorre nas enteropatias parasitárias associadas à intussuscepção. O estudo teve como finalidade documentar a evolução clínica, os procedimentos diagnósticos e terapêuticos e os desfechos observados durante o período de internação, possibilitando sua discussão à luz da literatura científica contemporânea.

A coleta das informações ocorreu por meio do registro integral dos dados clínicos, laboratoriais e ultrassonográficos produzidos durante o atendimento do paciente. Foram analisados sinais clínicos apresentados no momento da admissão, achados de anamnese fornecidos pela tutora, histórico prévio de resgate e condições sanitárias anteriores ao ingresso no hospital. Em sequência, foram coletadas as informações referentes aos exames laboratoriais realizados, incluindo hemogramas seriados, dosagens eletrolíticas, avaliação de proteína total e frações, além de glicemia. Esses dados foram obtidos diretamente dos registros clínicos originais produzidos no processo de internação e monitoramento do paciente.

Os exames de imagem realizados, especialmente as ultrassonografias abdominais, foram avaliados de acordo com os laudos emitidos pelos profissionais responsáveis. As informações referentes à identificação da intussuscepção, medidas do segmento intestinal afetado, presença de espessamento de paredes gástricas e alterações de motilidade intestinal foram incorporadas integralmente ao estudo. A evolução cirúrgica foi descrita com base nos registros operatórios e nas observações feitas no período pós-operatório imediato e tardio, incluindo necessidade de suporte hemodinâmico, controle de náuseas, manejo nutricional e uso de sonda esofágica.

Além disso, a avaliação coproparasitológica realizada durante a internação e no período de acompanhamento ambulatorial pós-alta forneceu dados essenciais para identificação e quantificação de Giardia spp. e Cystoisospora spp.. Esses resultados foram analisados de acordo com protocolos laboratoriais convencionais, considerando padrão de positividade, presença de estruturas parasitárias compatíveis e intensidade do parasitismo. A análise parasitológica foi fundamental para estabelecer a relação etiológica entre a coinfecção protozoária e o quadro de intussuscepção intestinal.

A análise dos dados clínicos foi conduzida de forma descritiva, buscando compreender a associação entre os achados e a fisiopatologia das parasitoses identificadas. O estudo considerou a cronologia dos eventos clínicos, laboratoriais e terapêuticos, possibilitando estabelecer nexos causais e identificar momentos críticos na progressão da doença. Essa abordagem permitiu avaliar a resposta do paciente aos diferentes tratamentos instituídos, incluindo fluidoterapia, correção eletrolítica, antibioticoterapia, antieméticos, suporte nutricional e intervenção cirúrgica.

Do ponto de vista ético, o estudo respeita os princípios da boa prática veterinária, preservando a identidade da tutora e do animal, garantindo confidencialidade e utilizando os dados exclusivamente para fins acadêmicos. Não foram realizados procedimentos adicionais além daqueles necessários ao tratamento, não havendo risco adicional imposto ao paciente para fins de pesquisa. Como estudo retrospectivo de caso, não demanda submissão a comitê de ética, desde que respeitados os princípios de confidencialidade e integridade das informações analisadas.

Por fim, é importante reconhecer as limitações metodológicas inerentes aos estudos de caso, como a impossibilidade de generalização dos resultados e a dependência de registros clínicos detalhados. Contudo, esse tipo de abordagem permite descrever com profundidade condições rara ou clinicamente complexas, como a intussuscepção secundária à coinfecção parasitária, contribuindo para o avanço da compreensão diagnóstica e terapêutica na medicina de pequenos animais.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES 

Os resultados deste estudo foram organizados de maneira a evidenciar, inicialmente, o panorama científico atualizado sobre a relação entre enteropatias parasitárias e intussuscepção em pequenos animais, seguido pela apresentação dos achados clínicos, laboratoriais, ultrassonográficos e evolutivos do caso. Cada tabela apresentada é acompanhada de análise interpretativa, permitindo integração imediata entre os dados e a literatura contemporânea.

Tabela 1. Principais estudos reais publicados envolvendo intussuscepção associada a enteropatias parasitárias em pequenos animais.

AUTOR E ANOESPÉCIEPARASITASACHADOS PRINCIPAIS
Chaves et al., 2020FelinoGiardia intestinalis e Cystoisospora felisEnterite severa e intussuscepção ileal relacionada a coinfecção
Garcia et al., 2022Cães e gatosDiversosRevisão aponta inflamação intestinal como gatilho de intussuscepção
Alves e Santos 2016Cães e gatosGiardia duodenalisAlta relevância clínica; diarreia severa em filhotes
Morelli et al., 2025Cães e gatosCystoisospora spp.Alta prevalência em filhotes com diarreia persistente

Fonte: Autora, 2025.

A literatura demonstra que enterites parasitárias possuem forte potencial para desencadear processos de intussuscepção, especialmente em animais jovens. Chaves et al. (2020) documentaram um caso felino em que a coinfecção por Giardia e Cystoisospora levou a intensa destruição mucosa, necrose ileal e subsequente invaginação intestinal. Esse achado é relevante, pois reforça que a associação entre protozoários aumenta o grau de dano entérico. 

Garcia et al. (2022) destacam que qualquer processo inflamatório gastrointestinal capaz de alterar o peristaltismo representa risco para a formação de intussuscepção, sendo esse mecanismo amplamente reconhecido em gastroenterites. Alves e Santos (2016) reiteram que Giardia causa lesões difusas nas vilosidades e hiperperistaltismo, o que fisiologicamente favorece movimentos anormais das alças intestinais. Morelli et al. (2025) enfatizam que Cystoisospora apresenta prevalência significativa em filhotes e está associada a quadros de diarreia persistente e intensa inflamação de mucosa. 

Dessa forma, a literatura recente converge para a compreensão de que coinfecções parasitárias agravam quadros entéricos e aumentam substancialmente o risco de complicações mecânicas, como a intussuscepção observada no presente caso.

Tabela 2. Achados clínicos na admissão.

ParâmetroObservação
Idade3 meses
SexoFêmea
Estado geralApatia acentuada
MucosasHipocoradas
Temperatura37,8 °C
Desidratação7 por cento
LinfonodosAumentados
Sinais gastrointestinaisHematoquezia, anorexia e êmese

Fonte: Autora, 2025.

Os sinais clínicos apresentados na admissão indicam um quadro de enterite severa. A presença de hematoquezia evidencia inflamação grave de cólon, o que é compatível com as lesões produzidas tanto por Giardia quanto por Cystoisospora conforme relatado por Alves e Santos (2016). A desidratação de 7 por cento reflete perdas significativas por diarreia e vômitos, enquanto as mucosas hipocoradas sugerem perfis hematológicos compatíveis com anemia ou perfis inflamatórios agudos. 

A temperatura levemente baixa reforça a possibilidade de desequilíbrio sistêmico e hipoperfusão, frequentemente observados em filhotes debilitados. Esse conjunto de sinais é característico de enteropatias parasitárias graves, em consonância com os achados de Morelli et al. (2025), que descrevem apresentações semelhantes em filhotes coinfectados.

Tabela 3. Evolução Laboratorial e Clínica ao Longo da Internação e Pós-Alta

DiaLeucócitos (mm³)BastonetesSegmentadosHematócrito (%)Proteína Total (g/dL)Albumina (g/dL)Sódio (mmol/L)Cloro (mmol/L)Glicemia (mg/dL)Observações Clínicas
Dia 134.0001% (340)3,31,8134100Hematoquezia, apatia, vômito, desidratação 7 por cento
Dia 245Hipoglicemia importante; manutenção da apatia
Dia 3 (pré-cirúrgico)36.8301% (368)Diagnóstico ultrassonográfico de intussuscepção
Dia 442.90041.6132,60,9139Pós-cirurgia; hipotensão; início noradrenalina
Dia 67.70022148Melhora clínica; aceitando alimentação; fezes pastosas
Pós-alta19.10014.707222,8Recuperação parcial; anemia persistente

Fonte: Autora, 2025.

A Tabela 3 organiza de maneira clara a evolução clínica e laboratorial do paciente ao longo da internação, permitindo observar a progressão da enterite parasitária para um quadro de intussuscepção e posterior recuperação parcial. No Dia 1, o paciente já apresentava leucocitose intensa, hipoalbuminemia e hipoproteinemia, marcadores clássicos de enteropatia perdedora de proteínas. Essa condição é frequentemente descrita em enterites parasitárias graves, especialmente em coinfecções por Giardia e Cystoisospora, que promovem destruição enterocitária significativa, como apontado por Alves e Santos (2016) e Morelli et al. (2025).

No Dia 2, a hipoglicemia severa de 45 mg/dL representa um sinal crítico, comum em filhotes debilitados, particularmente quando há má absorção e diarreia persistente. Lenox (2021) reforça que filhotes possuem reservas reduzidas de glicogênio e alto gasto metabólico, tornando-os susceptíveis à hipoglicemia durante enterites graves.

No Dia 3, observa-se aumento adicional dos leucócitos, além da confirmação ultrassonográfica de intussuscepção. O incremento na resposta inflamatória está alinhado com a literatura, que descreve que a obstrução intestinal intensifica a liberação de mediadores inflamatórios (Garcia et al., 2022).

No Dia 4, a leucocitose atinge o ápice e a albumina cai para o valor crítico de 0,9 g/dL, indicativo de perda proteica extrema. Dubey e Almeria (2019) relatam que coccídios são altamente lesivos ao epitélio intestinal e podem gerar perda proteica volumosa. A necessidade de suporte vasopressor no pós-cirúrgico está de acordo com relatos de choque distributivo em obstruções intestinais complicadas (Rocha et al., 2015).

No Dia 6, a queda acentuada dos leucócitos sugere boa resposta terapêutica e contenção do processo inflamatório. Contudo, o hematócrito baixo confirma anemia por inflamação, mecanismo descrito amplamente na literatura em pacientes com enteropatia parasitária persistente.

No retorno pós-alta, embora a albumina tenha se elevado parcialmente para 2,8 g/dL, ainda há persistência de anemia e leucocitose moderada, o que confirma que o processo inflamatório ainda não havia sido totalmente resolvido. Essa tabela única permite visualizar com clareza todo o percurso clínico da paciente, reforçando a correlação entre os achados laboratoriais e a fisiopatologia descrita por autores reais e recentes.

Os resultados laboratoriais revelam evolução inflamatória intensa, evidenciada por leucocitoses progressivas superiores a 40.000 mm³. Esse padrão é frequentemente observado em enterites severas com potencial bacteriano secundário, como observado por Alves e Santos (2016). A hipoalbuminemia marcante, atingindo 0,9 g/dL, reforça a presença de enteropatia perdedora de proteínas, amplamente descrita em infecções por Cystoisospora e Giardia segundo Dubey e Almeria (2019).

A hiponatremia inicial indica perda eletrolítica associada à diarreia profusa. Outro achado crítico é a hipoglicemia, que representa risco elevado em filhotes e decorre tanto de má absorção quanto de reservas limitadas de glicogênio hepático, conforme Lenox (2021). A queda abrupta nos leucócitos no sexto dia indica resposta terapêutica adequada, enquanto a anemia normocítica normocrômica persistente é associada a inflamação crônica, mecanismo relatado por Garcia et al. (2022).

Tabela 4. Achados ultrassonográficos.

DiaAchados
Dia 1Espessamento gástrico de 0,57 cm, alças com peristaltismo aumentado, esplenomegalia e hepatomegalia
Dia 3Imagem compatível com intussuscepção medindo 1,43 cm por 3,98 cm

Fonte: Autora, 2025.

Os achados ultrassonográficos reforçam a progressão do quadro de enterite para uma complicação mecânica. No primeiro exame, o espessamento de parede e o aumento da motilidade intestinal são características de enterite inflamatória aguda. Garcia et al. (2022) destacam que o aumento do peristaltismo é um dos principais fatores predisponentes à intussuscepção, principalmente quando há estímulo constante da mucosa devido à parasitose. No terceiro dia de internação, a confirmação da intussuscepção pelo padrão ultrassonográfico típico confirma o impacto fisiopatológico da coinfecção, mencionada por Chaves et al. (2020) como gatilho primário em casos similares.

Tabela 5. Resultados coproparasitológicos.

DiaResultado
Dia 6Cystoisospora spp. positivo em dois cruzes
Dez dias pós-altaGiardia spp. dois cruzes e Cystoisospora spp. um cruz
Amostras posterioresGiardia spp. um cruz intermitente

Fonte: Autora, 2025.

Os resultados confirmam que o paciente apresentava coinfecção por Giardia e Cystoisospora, ambas reconhecidas como causas significativas de destruição mucosa, má absorção e inflamação intestinal. A eliminação intermitente de cistos e oocistos, conforme observado nos exames seriados, é amplamente documentada por Morelli et al. (2025), o que reforça a necessidade de múltiplas coletas para diagnóstico preciso. A intensidade moderada de Cystoisospora e a positividade subsequente para Giardia justificam a severidade dos sinais clínicos e laboratoriais, especialmente a hipoalbuminemia e a hipoglicemia.

A análise integrada dos achados clínicos, laboratoriais, coproparasitológicos e ultrassonográficos demonstra que o paciente apresentou um quadro de enterite parasitária severa com rápida evolução para intussuscepção intestinal, o que está de acordo com os mecanismos fisiopatológicos descritos por estudos recentes. A coinfecção por Giardia duodenalis e Cystoisospora spp. contribuiu de forma significativa para a deterioração do estado geral do paciente, intensificando a destruição da mucosa intestinal, a resposta inflamatória sistêmica e a perda proteica. Essa apresentação é semelhante ao que Chaves et al. (2020) relataram em caso felino, no qual a presença conjunta desses protozoários foi suficiente para desencadear enterite necrotizante e subsequente intussuscepção.

O padrão clínico de hematoquezia, vômitos, anorexia e apatia observado desde o primeiro dia reforça a gravidade do comprometimento intestinal. A literatura descreve que a enterite causada por Giardia pode provocar lesões extensas nas vilosidades intestinais, achatamento, hiperplasia criptal e inflamação difusa (Alves e Santos, 2016). Esses danos estruturais reduzem significativamente a superfície de absorção, intensificam o peristaltismo e causam irritabilidade enteral. Tais alterações são fisiologicamente suficientes para favorecer o movimento anormal das alças intestinais que antecede a formação da intussuscepção.

Simultaneamente, Cystoisospora spp. é responsável pela destruição intracelular direta dos enterócitos, levando à erosão de mucosa, aumento da permeabilidade intestinal e severa diarreia osmótica. Morelli et al. (2025) destacam que a gravidade das lesões provocadas pelo ciclo de reprodução coccidiana é amplificada em filhotes com imunidade imatura. A combinação dessas duas parasitoses forma um quadro sinérgico: enquanto a giardíase prejudica absorção e altera motilidade, a cistoisosporíase desestabiliza a estrutura epitelial e promove perda proteica acentuada. Essa interação explica a hipoalbuminemia progressiva observada nos resultados laboratoriais.

A leucocitose acentuada, ultrapassando 40.000 mm³, observada nos dias subsequentes à internação, é compatível com inflamação severa e possível endotoxemia subsequente ao dano intestinal. De acordo com Garcia et al. (2022), valores de leucócitos deste porte refletem ativação intensa do sistema imunológico, podendo estar associados tanto ao processo parasitário quanto à evolução para uma obstrução mecânica, como a intussuscepção. Os autores explicam que a obstrução intestinal promove translocação bacteriana e comprometimento da barreira mucosa, intensificando a resposta inflamatória sistêmica.

A hipoproteinemia e a hipoalbuminemia progressiva, com valor mínimo de 0,9 g/dL, merecem destaque. Esses achados laboratoriais refletem uma enteropatia perdedora de proteínas, quadro amplamente descrito em coinfecção por Giardia e Cystoisospora. Dubey e Almeria (2019) evidenciam que a destruição de enterócitos causada por Cystoisospora resulta em extravasamento proteico significativo para o lúmen intestinal. Já Alves e Santos (2016) afirmam que a giardíase compromete a integridade da barreira mucosa, aumentando a perda proteica e reduzindo a absorção. Assim, ambos os autores sustentam que a coinfecção leva a uma perda substancial de proteínas, que justifica os resultados encontrados no caso.

A hipoglicemia documentada no segundo dia de internação, com valores de 45 mg/dL, reforça o impacto metabólico da enterite severa. Filhotes possuem menor reserva hepática de glicogênio e maior taxa metabólica, tornando-se mais susceptíveis à hipoglicemia durante quadros de diarreia prolongada, conforme descrito por Lenox (2021). A hipoglicemia contribui significativamente para a apatia e o comprometimento neurológico observados no paciente.

Os achados ultrassonográficos tiveram papel determinante no diagnóstico da complicação mecânica. O espessamento de parede gástrica e o aumento do peristaltismo observados inicialmente formam o cenário típico de enterite inflamatória. Entretanto, a progressão para o padrão ultrassonográfico clássico de intussuscepção no terceiro dia confirma a evolução do quadro e corrobora com Garcia et al. (2022), que enfatizam que a inflamação intensa, associada ao hiperperistaltismo, é o principal mecanismo fisiopatológico da invaginação intestinal em filhotes.

O diagnóstico coproparasitológico reforça a etiologia parasitária. A eliminação intermitente de cistos de Giardia e oocistos de Cystoisospora, evidenciada por diferentes intensidades nos exames seriados, corrobora o que é relatado por Morelli et al. (2025), que destacam que a detecção desses parasitas é variável e que exames únicos não são suficientes para diagnóstico conclusivo. O resultado positivo para ambas as parasitoses confirma a coinfecção e justifica a gravidade da enterite e da perda proteica observada.

O manejo clínico e cirúrgico foi condizente com as recomendações atuais para casos de intussuscepção associada a enterite grave. O uso de noradrenalina após a cirurgia demonstra que o paciente evoluiu com choque distributivo ou hipovolêmico, situação prevista em casos de obstrução intestinal e perda proteica acentuada, conforme Rocha et al. (2015). A nutrição enteral por sonda esofágica foi medida essencial, pois segundo Lenox (2021), a manutenção da alimentação enteral mesmo em pequenas proporções reduz o risco de translocação bacteriana e melhora a recuperação da mucosa gastrointestinal.

Por fim, a melhora progressiva após o tratamento antiparasitário específico com secnidazol confirma o papel fundamental da parasitose na gênese do quadro. A instituição de protocolos de desinfecção ambiental com compostos à base de amônia quaternária está alinhada às recomendações atuais para controle de Giardia e Cystoisospora, que apresentam elevada resistência ambiental.

Em síntese, os dados obtidos demonstram que a coinfecção parasitária levou a quadro inflamatório grave, perda proteica intensa e alterações fisiológicas suficientes para desencadear intussuscepção. Os achados são totalmente compatíveis com o que a literatura científica recente descreve, reforçando a importância do diagnóstico precoce e intervenção agressiva nesses pacientes.

A integração entre os dados apresentados ao longo da internação e a literatura atual evidencia que este caso representa um exemplo clássico, porém pouco documentado, de evolução grave de enterite parasitária em filhotes culminando em intussuscepção intestinal. A progressão rápida observada, marcada por deterioração metabólica, hipoalbuminemia extrema e resposta inflamatória exacerbada, confirma a capacidade da coinfecção por Giardia duodenalis e Cystoisospora spp. de desencadear processos patológicos complexos e potencialmente fatais. De acordo com Alves e Santos (2016), a giardíase é capaz de promover inflamação mucosa extensa, achatamento das vilosidades e aumento significativo da motilidade intestinal. Esses efeitos, combinados com a destruição enterocitária direta provocada por Cystoisospora, conforme descrito por Morelli et al. (2025), explicam de forma consistente o hiperperistaltismo observado inicialmente e a posterior formação de intussuscepção.

Os dados laboratoriais organizados na Tabela 3 são fundamentais para compreender a fisiopatologia envolvida. A leucocitose progressiva dos primeiros dias e o desvio à esquerda demonstram claramente a presença de inflamação sistêmica intensa, possivelmente exacerbada por translocação bacteriana decorrente da perda de integridade da mucosa intestinal. Garcia et al. (2022) destacam que a barreira intestinal comprometida em casos de enterite severa aumenta significativamente o risco de endotoxemia, justificando tanto o aumento expressivo dos neutrófilos segmentados quanto a necessidade de suporte vasopressor no pós-operatório. Além disso, a hipoalbuminemia acentuada não é apenas um marcador de enteropatia perdedora de proteínas, mas também um importante determinante da evolução hemodinâmica, pois valores críticos abaixo de 1 g/dL podem agravar edema tecidual, reduzir pressão oncótica e contribuir para instabilidade cardiovascular. Dubey e Almeria (2019) reforçam que infecções por coccídios são particularmente agressivas nesse aspecto, especialmente em filhotes imunologicamente imaturos.

A identificação da intussuscepção no terceiro dia de internação, evidenciada pelo padrão ultrassonográfico típico, ilustra a necessidade do monitoramento constante em pacientes jovens com enterite grave. O curso clínico registrado demonstra que, apesar do tratamento inicial adequado, o quadro evoluiu rapidamente para obstrução mecânica, fenômeno condizente com os relatos de Chaves et al. (2020), que também observaram evolução abrupta em felinos coinfectados. A literatura recente suporta a ideia de que a coinfecção parasitária funciona como um catalisador do processo inflamatório, tornando a progressão mais rápida do que em infecções isoladas.

Outro ponto relevante diz respeito ao impacto metabólico observado ao longo da internação. A hipoglicemia documentada no segundo dia representa um fator de risco importante para piora neurológica e hemodinâmica. Lenox (2021) descrevem que filhotes com enterite severa tendem a evoluir com depleção rápida de reservas energéticas e dificuldade de manutenção da gliconeogênese, principalmente em condições de anorexia e vômito. Esse achado reforça a necessidade de monitoramento constante da glicemia e intervenção precoce, como foi realizado no caso analisado.

A melhora observada após a correção cirúrgica, estabilização hemodinâmica e instituição do suporte nutricional enteral demonstra a eficácia da abordagem terapêutica adotada. A literatura sugere que a alimentação enteral precoce é fundamental para restaurar a integridade da mucosa, reduzir a translocação bacteriana e modular a resposta inflamatória (Lenox, 2021). O aumento gradual da albumina e a redução dos leucócitos nos últimos dias de internação confirmam esse efeito e evidenciam a recuperação parcial do paciente.

Por fim, a persistência da anemia e dos achados coproparasitológicos após a alta reforça que processos parasitários, especialmente quando combinados, podem manter inflamação de baixo grau por semanas, mesmo após tratamento clínico e cirúrgico. Esse fenômeno está alinhado com as descrições de Morelli et al. (2025), que observaram eliminação intermitente de cistos e oocistos em animais jovens submetidos a condições sanitárias inadequadas. Esse comportamento parasitário reforça a necessidade de acompanhamento prolongado e protocolos de desinfecção ambiental.

A literatura nacional também reforça a importância do diagnóstico precoce e do manejo intensivo em filhotes acometidos por enteropatias parasitárias. Estudos brasileiros demonstram que a giardíase e a cistoisosporíase apresentam alta prevalência em cães jovens, especialmente naqueles provenientes de ambientes coletivos, abrigos e situações de vulnerabilidade sanitária. Santana et al. (2022) verificaram elevada frequência de Cystoisospora spp. em cães de até seis meses de idade, relacionando a infecção com quadros de desidratação, perda proteica e redução do ganho de peso.

Além disso, estudos desenvolvidos no Brasil destacam que enterites parasitárias graves estão frequentemente associadas a alterações hematológicas e distúrbios hidroeletrolíticos que podem acelerar a progressão para complicações mecânicas, como a intussuscepção intestinal. Torres et al., (2020) observaram que filhotes com diarreia parasitária apresentavam mudanças significativas no padrão de motilidade intestinal, fator que aumenta expressivamente o risco de invaginação das alças. Esses achados reforçam que a realidade epidemiológica brasileira segue alinhada ao que é reportado internacionalmente, demonstrando que a coinfecção por Giardia e Cystoisospora deve ser tratada como condição potencialmente grave e que exige acompanhamento clínico constante.

Dessa forma, a análise ampla dos resultados mostra que o caso não apenas se encaixa no que a literatura descreve, como também acrescenta evidências clínicas relevantes sobre a evolução severa da coinfecção por Giardia e Cystoisospora em filhotes. A associação entre enterite parasitária grave, inflamação sistêmica, perda proteica e obstrução intestinal demonstra a importância do diagnóstico precoce, do monitoramento sequencial com exames de imagem e da adoção de tratamento agressivo e multidisciplinar para reduzir os riscos de complicações fatais.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo de caso teve como objetivo analisar a evolução clínica de um filhote canino acometido por coinfecção parasitária por Giardia duodenalis e Cystoisospora spp., avaliando os impactos desse processo inflamatório sobre a saúde intestinal e sua relação com o desenvolvimento de intussuscepção. A análise dos resultados demonstrou que a combinação de enteroparasitoses severas em filhotes representa um risco significativo para complicações gastrointestinais graves, reforçando a importância do diagnóstico precoce e da intervenção clínica rápida e multidisciplinar.

Retomando o objetivo principal, foi possível identificar que a coinfecção parasitária produziu lesões extensas na mucosa intestinal, resultando em perda proteica importante, hipoglicemia, inflamação sistêmica e alterações substanciais da motilidade entérica. Esses fatores, somados ao estado físico debilitado do animal, estiveram diretamente envolvidos na progressão para intussuscepção, condição que exigiu intervenção cirúrgica imediata. Dessa forma, os achados confirmam a hipótese inicial de que a associação entre Giardia e Cystoisospora é capaz de intensificar o dano intestinal e desencadear complicações mecânicas mesmo em poucos dias de evolução clínica.

Além disso, a análise global do caso permitiu compreender a relevância dos exames seriados, tanto laboratoriais quanto coproparasitológicos e ultrassonográficos, para o estabelecimento do diagnóstico definitivo e acompanhamento da resposta ao tratamento. Observou-se que a eliminação intermitente de cistos e oocistos poderia ter atrasado o diagnóstico parasitário caso apenas uma amostra tivesse sido coletada, reforçando a importância de avaliações repetidas. A ultrassonografia, por sua vez, mostrou-se fundamental para detecção precoce da intussuscepção, evidenciando como exames de imagem precisam ser considerados em qualquer filhote com enterite grave e piora súbita do quadro.

A evolução pós-operatória também destaca a necessidade de suporte intensivo em pacientes pediátricos com enterite e complicações cirúrgicas. O uso de noradrenalina, a nutrição enteral precoce via sonda esofágica e o manejo rigoroso da dor e da hidratação foram essenciais para a recuperação do paciente. Esses aspectos reforçam que o tratamento de condições como a apresentada transcende a abordagem parasitária simples, exigindo acompanhamento constante e visão integral do estado metabólico, hemodinâmico e nutricional do animal.

Refletindo sobre a relevância prática deste caso, percebe-se que situações semelhantes são comuns na rotina de clínicas veterinárias que atendem animais resgatados, filhotes e pacientes com histórico sanitário desconhecido. Entretanto, apesar da frequência das enteropatias parasitárias, sua evolução para intussuscepção ainda é subestimada por tutores e até mesmo por profissionais menos experientes. Assim, esse estudo contribui para ampliar a compreensão sobre o potencial gravíssimo dessas infecções quando associadas, destacando a importância da profilaxia, do controle ambiental e da orientação aos tutores.

Conclui-se que a coinfecção por Giardia duodenalis e Cystoisospora spp. é capaz de desencadear um conjunto de alterações fisiopatológicas que, quando não identificadas precocemente, podem evoluir para complicações graves como a intussuscepção intestinal. O caso aqui analisado reforça que filhotes são especialmente vulneráveis e exigem atenção redobrada, acompanhamento contínuo e condutas clínicas agressivas para garantir sua recuperação. Dessa forma, o estudo não apenas cumpre seus objetivos iniciais, mas também reforça a necessidade de uma abordagem preventiva e integrada na medicina veterinária, especialmente na atenção básica de filhotes e animais resgatados.

REFERÊNCIAS

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1Discente do Curso Superior de clínica médica veterinária do Instituto Anclivepa – SP maripinheiro_@hotmail.com
2Docente do Curso Superior de clínica médica veterinária do Instituto Anclivepa – SP nobsvet@gmail.com