INTERVENÇÕES FISIOTERAPÊUTICAS NA PREVENÇÃO DE LESÕES DE MEMBROS INFERIORES EM CORREDORES RECREATIVOS: REVISÃO DE LITERATURA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510171340


Gleyciane de Oliveira Cardoso1
Higor Gonçalves da Silva1
Matheus Mendes Barbosa1
Orientador: Isaac de Sousa Lourenço1


Resumo:

A corrida recreacional tem se destacado mundialmente como uma prática acessível e eficaz para a promoção da saúde, associando-se a diversos benefícios físicos, psicológicos e sociais. Entretanto, o crescimento expressivo do número de praticantes tem sido acompanhado por um aumento na incidência de lesões musculoesqueléticas, especialmente nos membros inferiores, resultantes de sobrecarga mecânica e desequilíbrios biomecânicos. Nesse contexto, o fisioterapeuta assume papel fundamental na prevenção e na educação do corredor, por meio de intervenções baseadas em evidências científicas. Este estudo teve como objetivo revisar a literatura acerca das estratégias fisioterapêuticas aplicadas à prevenção de lesões em corredores recreacionais. A busca bibliográfica foi conduzida nas bases PubMed, SciELO, PEDro e LILACS, contemplando estudos publicados entre 2020 e 2025. Os achados apontam que o fortalecimento da musculatura proximal, especialmente dos abdutores do quadril e do core, o controle e a progressão adequada da carga de treino, aliados à reeducação biomecânica, configuram-se como as estratégias mais eficazes na redução da incidência de lesões. Em contrapartida, o alongamento isolado demonstrou baixa efetividade preventiva. Conclui-se que programas multicomponentes supervisionados por fisioterapeutas são essenciais para promover uma prática de corrida segura, eficiente e sustentável.

Palavras-chave: Corrida; Prevenção de Lesões; Fisioterapia Esportiva; Biomecânica; Fortalecimento Muscular.

Abstract 

Recreational running has become globally recognized as an accessible and effective practice for promoting health, being associated with several physical, psychological, and social benefits. However, the significant increase in the number of participants has also led to a higher incidence of musculoskeletal injuries, particularly in the lower limbs, resulting from mechanical overload and biomechanical imbalances. In this context, physiotherapists play a key role in injury prevention and runner education through interventions grounded in scientific evidence. This study aimed to review the literature on physiotherapeutic strategies used to prevent injuries in recreational runners. The literature search was conducted in the PubMed, SciELO, PEDro, and LILACS databases, including studies published between 2020 and 2025. The findings indicate that strengthening of the proximal musculature, especially the hip abductors and core muscles, appropriate load control and progression, and biomechanical retraining are among the most effective strategies for reducing injury incidence. Conversely, isolated stretching showed low preventive effectiveness. It is concluded that multicomponent programs supervised by physiotherapists are essential to promote safe, efficient, and sustainable running practice.

Keywords: Running; Injury Prevention; Sports Physiotherapy; Biomechanics; Muscle Strengthening.

INTRODUÇÃO

A corrida consolidou-se como uma das práticas esportivas mais populares no mundo, especialmente entre corredores recreativos. De acordo com o relatório Year in Sport: Trend Report, o Strava (2024) destacou a corrida como o esporte mais praticado globalmente. Esse crescimento está associado aos benefícios da prática regular, como melhora da capacidade cardiorrespiratória, controle do peso corporal, redução do estresse, aumento da autoestima e promoção da saúde física e mental. 

À medida que a adesão aumenta, cresce também a incidência de lesões musculoesqueléticas, principalmente nos membros inferiores, em decorrência da sobrecarga repetitiva característica da corrida. Estudos indicam que entre 30% e 79% dos corredores recreativos desenvolverão algum tipo de lesão ao longo da prática (Dillon et al., 2023; Van Gent et al., 2007). As regiões mais acometidas incluem joelho, tíbia, tornozelo e pé, com destaque para síndrome da banda iliotibial, condropatia patelofemoral, fasciíte plantar e periostite tibial medial (Wu et al., 2024; Lopes et al., 2012).

Nesse cenário, a atuação do fisioterapeuta é fundamental, pois envolve avaliação biomecânica, prescrição de exercícios terapêuticos, monitoramento da carga de treino e orientação quanto a técnicas de corrida seguras e eficientes (Linton et al., 2025). Intervenções preventivas incluem fortalecimento muscular, treino proprioceptivo, reeducação postural e técnica de corrida, além da educação em saúde, considerando a individualidade e as demandas específicas de cada corredor.

Apesar da adoção crescente dessas estratégias, a literatura ainda apresenta divergências quanto à eficácia de diferentes intervenções e à melhor forma de aplicá-las para reduzir a incidência de lesões. O aumento da corrida recreativa nos últimos anos, especialmente após a pandemia, reforça a necessidade de revisões que integrem as evidências mais recentes sobre o tema.

Diante disso, o presente estudo tem como objetivo revisar a literatura científica sobre intervenções fisioterapêuticas para prevenção de lesões em membros inferiores de corredores recreativos, identificando estratégias eficazes e contribuindo para práticas baseadas em evidências, promovendo corrida segura, eficiente e sustentável.

METODOLOGIA

O estudo foi conduzido por levantamento bibliográfico nas bases PubMed, SciELO, PEDro e LILACS. A análise foi qualitativa, considerando tipos de intervenções e efeitos na prevenção de lesões, abrangendo publicações entre 2020 e 2025.

Foram utilizados os descritores: corredores, prevenção de lesões, tendinite, síndrome do estresse tibial medial, biomecânica da corrida e fisioterapia na corrida. Foram incluídos estudos sobre intervenções fisioterapêuticas voltadas à prevenção de lesões em corredores recreativos, como programas de fortalecimento, alongamento, treino proprioceptivo, correção biomecânica da corrida e estratégias educativas (Wu et al., 2024; Linton et al., 2025). 

Excluíram-se estudos duplicados, revisões sistemáticas, meta-análises, pesquisas com corredores profissionais e artigos sem acesso ao texto completo. Após a busca inicial, os artigos foram organizados em planilha, duplicatas removidas, títulos e resumos analisados quanto à pertinência e, finalmente, os estudos elegíveis avaliados integralmente para inclusão na síntese final.

RESULTADOS

Foram incluídos estudos que investigaram diferentes estratégias de prevenção de lesões de membros inferiores em corredores recreativos. As populações analisadas foram majoritariamente adultos jovens e de meia-idade, praticantes regulares de corrida de rua, abrangendo desde amostras observacionais amplas até ensaios clínicos randomizados de pequeno e médio porte (Dillon et al., 2023; Nielsen et al., 2014).

As lesões mais comuns foram fasciíte plantar, condropatia patelofemoral, síndrome da banda iliotibial e periostite tibial medial (Wu et al., 2024, 2022; Lopes et al., 2012). Entre as intervenções, destacaram-se programas de fortalecimento muscular, sobretudo de abdutores do quadril e core, modulação da carga de treino e reeducação da técnica de corrida. Outras intervenções, como uso de palmilhas, programas educativos e alongamento, mostraram evidências menos consistentes (Linton et al., 2025; Fredericson e Misra, 2007).

Ensaios clínicos demonstraram que protocolos de fortalecimento dos músculos abdutores do quadril e estabilizadores do tronco proporcionaram melhorias biomecânicas, incluindo redução do drop pélvico e menor valgo dinâmico do joelho, refletindo avanços no controle motor proximal (Wu et al., 2024; Ireland et al., 2003). Essas intervenções também resultaram em ganhos funcionais relatados pelos corredores, como maior estabilidade e redução de dor durante a corrida.

Estudos observacionais de maior escala evidenciaram que volumes semanais elevados e progressões abruptas de intensidade ou distância aumentam o risco de lesões por sobrecarga (Nielsen et al., 2014). O alongamento isolado não apresentou associação consistente com redução do risco de lesões (Dillon et al., 2023; Herbert e Gabriel, 2002).

DISCUSSÃO

Os achados desta revisão indicam que intervenções fisioterapêuticas voltadas ao fortalecimento proximal, à modulação adequada da carga de treino e à reeducação técnica são centrais na prevenção de lesões em corredores recreativos. A melhora do controle motor proximal, evidenciada pela redução do drop pélvico e do valgo dinâmico do joelho, é um fator determinante para a diminuição da sobrecarga em estruturas articulares e musculotendíneas do membro inferior (Lashien et al., 2024; Stenerson et al., 2023).

A modulação da carga de treino se mostrou essencial. Volumes semanais elevados ou progressões abruptas de intensidade aumentam significativamente o risco de lesões, como fasciíte plantar, síndrome da banda iliotibial e periostite tibial medial. A literatura sugere que aumentos graduais, limitados a 10% por semana, são eficazes na prevenção de sobrecarga (Van Gent et al., 2007; Fokkema et al., 2023).

O alongamento isolado apresenta efeito preventivo limitado. Evidências indicam que o alongamento estático não reduz significativamente o risco de lesões quando utilizado de forma isolada, sendo mais eficaz quando integrado a aquecimento dinâmico e programas de fortalecimento (Warneke et al., 2025).

Além disso, a educação do corredor sobre técnicas de corrida, aquecimento adequado, escolha de calçados e recuperação contribui para hábitos de corrida mais seguros, complementando as estratégias de fortalecimento e modulação de carga (Van der Worp et al., 2015). A prevenção de lesões em corredores recreativos deve, portanto, ser abordada de forma multifatorial, considerando fatores biomecânicos, musculares, estruturais e extrínsecos.

Entre as limitações observadas, destaca-se a heterogeneidade metodológica dos estudos incluídos, diferenças nas populações e nos tipos de intervenção, além da escassez de pesquisas de longo prazo. Futuras investigações devem priorizar ensaios randomizados com amostras maiores, padronização de protocolos e acompanhamento prolongado para fortalecer a evidência científica.

No quadro 1, apresentamos intervenções de fortalecimento muscular para corredores recreativos.

Quadro 1 – Intervenções de Fortalecimento Muscular.

Grupo MuscularObjetivo PreventivoEvidência Científica

Abdutores do quadril

Redução do valgo dinâmico do joelho
Lashien et al., 2024

Core (estabilizadores do troncoMelhora da estabilidade pélvica e controle motor proximal
Lashien et al., 2024; Stenerson et al., 2023

Flexores plantares e tornozeloAbsorção de impacto e redução de sobrecarga na tíbiaStenerson et al., 2023

O fortalecimento muscular melhora o controle motor proximal, reduzindo o valgo dinâmico do joelho e o drop pélvico. Isso diminui a sobrecarga em estruturas articulares e musculotendíneas, prevenindo lesões como síndrome da banda iliotibial, periostite tibial medial e condropatia patelofemoral.

No quadro 2, apresentamos modulações da carga de treino para corredores recreativos. 

Quadro 2 – Modulação da Carga de Treino.

Aspecto da CargaEstratégia PreventivaEvidência Científica
Volume semanalLimitar aumento progressivo a 10% por semanaVan Gent et al., 2007
Intensidade do treinoProgressão gradual, evitar picos abruptosFokkema et al., 2023
Frequência de treinoAlternar dias de treino intenso e leveWu et al., 2024

A modulação da carga reduz o risco de lesões por sobrecarga, permitindo adaptação muscular e tendínea adequada. O acompanhamento individualizado do corredor por um fisioterapeuta garante que os ajustes na carga sejam seguros e eficazes.

No quadro 3, apresentamos técnicas de corrida e educação do corredor para corredores recreativos. 

Quadro 3 – Técnicas de Corrida e Educação do Corredor

Estratégia Objetivo Preventivo Evidência Científica 
Reeducação da técnica de corridaOtimização da cinemática do quadril e joelhoStenerson et al., 2023
Educação sobre aquecimento Redução de lesões musculares e tendíneasWarneke et al., 2025

A reeducação da técnica corrige padrões de movimento que aumentam o risco de lesões. A educação do corredor sobre aquecimento promove hábitos de corrida mais seguros, fortalecendo a prevenção de lesões.

No quadro 4, apresentamos um Programa Preventivo Multicomponente para Corredores Recreativos.

Quadro 4 – Programa Preventivo Multicomponente para Corredores Recreativos.

ComponenteIntervenção Específica
Frequência/Duração


Impacto Esperado


Evidência Científica


Fortalecimento Muscular


Abdutores do quadril, core, tornozelo e pé


2–3x/semana, 6–12 semanas

Redução do valgo do joelho, maior estabilidade pélvica, menor sobrecarga musculotendíneaLashien et al., 2024; Stenerson et al., 2023

Modulação da Carga de Treino

Ajuste gradual de volume e intensidade, limites de aumento <10%/semana
Contínuo durante o treino

Prevenção de sobrecarga, redução de fasciíte plantar e síndrome da banda iliotibialVan Gent et al., 2007; Fokkema et al., 2023

Reeducação Técnica da Corrida

Otimização da postura e padrão de movimento1–2x/semana + prática contínuaMelhoria da cinemática do quadril e joelho, diminuição do risco de lesões
Stenerson et al., 2023


Educação e Estratégias Auxiliares

Aquecimento, alongamento dinâmico, escolha de calçados adequadosSessões semanais e orientação contínuaRedução de lesões musculares e tendíneas, hábitos de corrida mais segurosWarneke et al., 2025; Van der Worp et al., 2015

O programa multicomponente integra fortalecimento, modulação de carga, reeducação técnica e educação do corredor, oferecendo uma abordagem abrangente para reduzir o risco de lesões. A combinação dessas estratégias permite resultados mais consistentes na prevenção e promove a longevidade esportiva.

CONCLUSÃO

As evidências indicam que intervenções fisioterapêuticas voltadas ao fortalecimento da musculatura proximal e à modulação adequada da carga de treino são as estratégias mais eficazes para prevenir lesões de membros inferiores em corredores recreativos. Essas medidas promovem melhorias biomecânicas significativas e reduzem a sobrecarga em estruturas musculoesqueléticas. Programas isolados, como alongamento estático, apresentam impacto preventivo limitado, reforçando a necessidade de abordagens multicomponentes, integrando exercícios terapêuticos, educação em saúde e progressão gradual do treino. O fisioterapeuta assume papel central na prevenção, promoção da saúde musculoesquelética e prática segura da corrida recreativa.

REFERÊNCIAS 

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1FAP, Faculdade do Baixo Parnaíba, Chapadinha, Maranhão, Brasil.

Autor correspondente:
Gleyciane de Oliveira Cardoso. E-mail: agleyci90@gmail.com / Rua Benedito Oliveira Cunha N° 66 – Bairro Corrente – Chapadinha, Maranhão, Brasil. CEP: 65500-000

E-mail dos autores: agleyci90@gmail.com
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