INTERNAÇÕES HOSPITALARES POR TRANSTORNOS AFETIVOS E COBERTURA DE CENTROS DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL NO ESTADO DE PERNAMBUCO

HOSPITAL ADMISSIONS DUE TO AFFECTIVE DISORDERS AND COVERAGE OF PSYCHOSOCIAL CARE CENTERS IN THE STATE OF PERNAMBUCO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511191758


Rafaella Maria Silva de Souza1
Gisela Cavalcanti de Andrade Ralph2
Wagner Silva de Souza3
Maria Helena Queiroz de Araújo4


RESUMO:  O presente estudo avaliou o perfil epidemiológico das internações por transtornos afetivos e a cobertura de Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) no Estado de Pernambuco, no período de 2015 a 2024. Realizado através de  uma pesquisa epidemiológica, retrospectiva, de abordagem quantitativa e descritiva, que avaliou variáveis sociodemográficas, clínicas e territoriais relacionadas aos transtornos afetivos no Estado de Pernambuco, com base em dados do Departamento de  Informação e Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS) e do Cadastro Nacional Estabelecimentos de Saúde (CNES). Os resultados evidenciaram tendência crescente nas internações por transtornos afetivos até 2023, seguida por leve declínio em 2024, possivelmente associado ao fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e à ampliação da cobertura de CAPS no estado. Pernambuco registrou 9.791 internações no período, ocupando o quarto lugar no Nordeste. Observou-se predominância de casos em mulheres (66%), adultos jovens (30 a 49 anos) e entre pessoas autodeclaradas pardas (76%). Houve expressiva redução da média de permanência hospitalar, de 35 dias em 2015 para aproximadamente 12 dias em 2024, queda de 64% no período. Os custos hospitalares e totais com internações apresentaram declínio significativo após 2018, com exceção de 2020 a 2022 onde oscilações pontuais estão ligadas à pandemia de COVID-19. Pernambuco ampliou a cobertura de CAPS de 116 para 170 unidades, com abertura de 54 novos centros distribuídos nas macrorregiões de saúde. Apesar do avanço, identificou-se distribuição desigual dos serviços, com maior concentração em áreas urbanas e persistência de vazios assistenciais no interior. Em síntese, o estudo sugere que o aumento da cobertura de CAPS pode ter contribuído para a redução dos custos e do tempo médio de internação por transtornos afetivos, evidenciando o impacto positivo das políticas de desinstitucionalização e do fortalecimento da RAPS. No entanto, as disparidades regionais e a manutenção de taxas expressivas de hospitalização indicam a necessidade  políticas públicas  voltadas à equidade territorial, aprimoramento da vigilância epidemiológica no enfrentamento dos transtornos afetivos em Pernambuco.

Palavras-chave: Transtornos do Humor, Saúde Mental, Hospitalização

ABSTRACT: The present study evaluated the epidemiological profile of hospitalizations due to affective disorders and the coverage of Psychosocial Care Centers (CAPS) in the state of Pernambuco from 2015 to 2024. It was conducted through a retrospective epidemiological study with a quantitative and descriptive approach, assessing sociodemographic, clinical, and territorial variables related to affective disorders in Pernambuco. Data were obtained from the Department of Information Technology of the Brazilian Unified Health System (DATASUS) and the National Registry of Health Facilities (CNES). The results revealed an increasing trend in hospitalizations for affective disorders up to 2023, followed by a slight decline in 2024, possibly associated with the strengthening of the Psychosocial Care Network (RAPS) and the expansion of CAPS coverage in the state. Pernambuco recorded 9,791 hospitalizations during the period, ranking fourth in the Northeast region. A predominance of cases was observed among women (66%), young adults (30–49 years old), and individuals self-identified as mixed race (“pardo”) (76%). There was a marked reduction in the average length of hospital stay, from 35 days in 2015 to approximately 12 days in 2024—a 64% decrease over the period. Hospital and total costs associated with admissions showed a significant decline after 2018, except between 2020 and 2022, when fluctuations were linked to the COVID-19 pandemic. Pernambuco expanded CAPS coverage from 116 to 170 units, opening 54 new centers distributed across the state’s health macro-regions. Despite this progress, the distribution of services remains uneven, with greater concentration in urban areas and persistent care gaps in rural regions. In summary, the study suggests that the expansion of CAPS coverage may have contributed to reducing both costs and average hospitalization time for affective disorders, demonstrating the positive impact of deinstitutionalization policies and the strengthening of RAPS. However, regional disparities and persistently high hospitalization rates highlight the need for public policies aimed at promoting territorial equity and improving epidemiological surveillance in addressing affective disorders in Pernambuco.

Keywords: Mood Disorders, Mental Health, Hospitalization.

1 INTRODUÇÃO

A saúde mental, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como parte essencial do bem-estar e da qualidade de vida, tem ganhado crescente atenção devido à alta prevalência de transtornos mentais e o seu impacto socioeconômico. Entre esses agravos, os transtornos de humor – que englobam, principalmente, a Depressão e o Transtorno Afetivo Bipolar – destacam-se por sua elevada frequência e gravidade clínica, estando entre as principais causas de incapacidade no mundo, afetando funcionalidade, relações sociais e produtividade econômica de milhões de pessoas1,2. Além do sofrimento subjetivo, essas condições estão associadas a taxas de morbidade e mortalidade, representando importante carga para os sistemas de saúde3.

 Os transtornos de humor são caracterizados por alterações do estado emocional, que podem manifestar-se como episódios de depressão, mania ou ambos. O Transtorno Depressivo Maior (TDM) envolve humor deprimido, anedonia e alterações fisiológicas e cognitivas, enquanto o Transtorno Afetivo Bipolar (TAB), apresenta oscilações de humor, entre fases de humor eufórico, expansivo, irritado, dirigido a objetos ou da energia e fases de humor deprimido. O diagnóstico segue critérios conforme o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – 5º edição (DSM 5) e a Classificação Internacional das Doenças (CID-10)4,5,6, considerando do F30 ao F39. 

No Brasil, estima-se que cerca de 47,5 milhões de pessoas convivam com algum tipo de transtorno mental. Mais de 90% dos casos de suicídio, apresentam relação  com esses transtornos, sendo a depressão maior  a doença mais prevalente, e um dos principais fatores de risco7. O suicídio é a segunda causa de morte entre jóvens de 15 a 19 anos,  a quarta causa  entre adultos jovens de 20 a 29 anos 8

No cenário nacional, a atenção à saúde mental passou por profundas transformações a partir da década de 1980, impulsionada pela redemocratização do país, Reforma Sanitária e movimento antimanicomial8. A promulgação da Lei nº 10.216/2001 estabeleceu um marco legal para a proteção dos direitos das pessoas com transtornos mentais, se concentrando na redução de leitos psiquiátricos e desinstitucionalização9. Priorizando o tratamento em serviços comunitários, restringindo, assim, as internações hospitalares a situações em que os recursos extra-hospitalares mostrassem-se insuficientes9. Essa mudança fomentou a substituição progressiva do modelo hospitalocêntrico por uma rede territorializada de serviços, articulada por diferentes níveis de atenção, denominada Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)10.

A RAPS, instituída pela Portaria nº 3.088/2011, é composta por pontos de atenção que conectam a Atenção Básica, Atenção Psicossocial Especializada (CAPS – Centro de Atenção Psicossocial), atenção de urgência e emergência, atenção residencial de caráter transitório, atenção hospitalar, estratégias de desinstitucionalização e reabilitação psicossocial10. Os CAPS, em suas diferentes modalidades, tornaram-se dispositivos estratégicos para o acompanhamento contínuo e territorializado de pessoas com transtornos mentais graves e persistentes, atuando na prevenção de internações e na reinserção social3,9.

Estudos indicam que apesar das adversidades, a Política Nacional de Saúde Mental avançou em suas metas de reduzir progressivamente os leitos hospitalares e ampliar a oferta/cobertura de serviços substitutivos, sendo tais estratégias associadas à diminuição da taxa de internações psiquiátricas2,3,11,12.

Contudo, mesmo diante desse progresso, a cobertura assistencial da RAPS permanece desigual13. Ao considerar o Índice de Cobertura Assistencial da RAPS (IRAPS), 77% da população brasileira vive em localidades com baixa ou inexistente cobertura comunitária. Nesse sentido, as grandes metrópoles detém os maiores avanços quando comparados aos municípios, os quais detêm maior manutenção de vazios assistenciais9,14. Desigualdade que repercute nos indicadores hospitalares: o Nordeste, por exemplo, apresenta tempo médio de internação aproximadamente duas vezes maior que o das demais regiões, possivelmente devido à fragilidade da atenção primária em saúde mental¹.

Além disso, o panorama político recente introduziu mudanças que reacenderam o debate sobre o equilíbrio entre internação e cuidado comunitário. A Portaria nº 3.588/2017 e a Nota Técnica nº 11/2019 foram interpretadas por setores da saúde mental como retrocessos, ao ampliarem o papel dos hospitais psiquiátricos e preverem financiamento para recursos terapêuticos de abordagem hospitalar, como a eletroconvulsoterapia, em detrimento da expansão prioritária dos serviços substitutivos 10.

No campo específico dos transtornos afetivos, dados nacionais revelam que, embora o perfil epidemiológico varie regionalmente, há predomínio de internações de mulheres em faixas etárias economicamente ativas1,15. Dados recentes evidenciam aumento das hospitalizações no período de 2020 a 2023, possivelmente relacionado à pandemia de COVID-19, ao agravamento das condições de saúde mental e às limitações no acesso aos serviços comunitários. Assim como a diminuição das internações por transtornos de humor no início da pandemia, devido ao confinamento e à substituição de leitos destinados a esse fim por leitos de enfermaria e de terapia intensiva1,16,17.

O objetivo deste estudo consistiu em avaliar o perfil epidemiológico das internações por transtornos afetivos e a cobertura de CAPS no Estado de Pernambuco, no período de 2015 a 2024.

2 METODOLOGIA

Trata-se de um estudo retrospectivo caracterizado como epidemiológico com abordagem quantitativa. Apresenta-se como modelo de pesquisa descritiva, que avaliou o perfil de internações por Transtornos Afetivos no nordeste brasileiro, evidenciando o  estado de Pernambuco; e a cobertura dos CAPS, durante o período de 10 anos (2015  a 2024). 

Para isso, foram utilizados dados completos disponíveis no site do Departamento de Informática do SUS “DATASUS” e gerenciados pelo Ministério da Saúde, através das Informações de Saúde contidas na Ferramenta de Tabulação desenvolvida pelo SUS (TABNET),  Cadastro Nacional de Estabelecimento de Saúde (CNES) e no Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS). 

As informações foram coletadas a partir de dados completos, considerando variáveis sociodemográficas como sexo (masculino e feminino), raça (branca, preta, parda, amarela, indígena, e sem informações), faixa etária (20 a 29, 30 a 39 anos, 40 a 49 anos, 50 a 59 anos, 60 a 69, 70 a 79 anos, 80 ou mais) e variáveis clínicas:  relacionadas ao âmbito hospitalar (número e custo total das internações,  média de permanência em dias) e ao âmbito geral (custo total de todos os serviços demandados para os transtornos afetivos, ofertados pelo SUS). Também foram coletados dados sociogeográficos relacionados ao número de CAPS inaugurados, suas  distribuições dentro das quatro macrorregiões de saúde que compõem o estado de Pernambuco (Figura 1).

Foram excluídas do estudo informações administrativas duplicadas, com erro de codificação ou inconsistências detectadas na validação dos bancos de dados. E estabelecimentos de saúde mental não cadastrados no CNES ou com incompletude de dados quanto ao tipo de serviço, localização ou período de funcionamento.

Para a gestão e análise dos dados coletados, utilizou-se o software Excel (Microsoft Office®). As informações coletadas foram reunidas e posteriormente tabuladas em planilhas do Microsoft Excel® para realização da análise descritiva e apresentação por meio de  tabelas e/ou gráficos.

Como os dados utilizados são de domínio público, sem identificação dos participantes da pesquisa e suas informações, não houve a necessidade de aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) para sua realização, conforme as recomendações da resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde.

3  RESULTADOS 

A tabela 1 apresenta as internações por Transtornos Afetivos na região Nordeste do Brasil considerando as unidades federativas entre os anos de 2015 a 2024, considerando a classificação CID 10: F30-39 e/ou DSM 5. É possível verificar um total de  69.872 internações. O estado do Ceará lidera com cerca de 18,68% das internações. Seguido pelos estados da Bahia (15,25%) e do Maranhão (15,14%). O Estado de Pernambuco registrou 9.791 (14,01%) internações no período, ocupando a 4ª posição.

Tabela 1. Internações por Transtornos afetivos por Unidades Federativas do Nordeste brasileiro no período de 2015 a 2024

 Fonte: Ministério da Saúde – Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS), PE, 2025.

A tabela 2  apresenta a distribuição das variáveis sociodemográficas das internações por Transtornos  afetivos no estado de Pernambuco  (2015 a 2024), considerando a classificação CID 10: F30-39 e/ou DSM 5. A maior prevalência dos internamentos concentrou-se na faixa etária de 30 a 39 anos, seguida por 40 a 49 e 20 a 29, correspondendo a um total de 2.652, 2.436 e 1.969, respectivamente. A menor, foi encontrada na faixa etária a partir de 80 anos. Para raça, verificou-se predominância da população parda (75,96%) seguida pela branca (14,62%). No que diz respeito ao gênero, destaca-se uma proporção de aproximadamente 2:1 para a população feminina. 

Tabela 2. Distribuição das variáveis sociodemográficas nas internações pelos transtornos de Afetivos em Pernambuco – 2015 a 2024

Fonte: Ministério da Saúde – Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS), PE, 2025.

O gráfico 1 representa a  média de permanência em dias das internações hospitalares dos transtornos afetivos em Pernambuco (2015 a 2024), distribuído por gênero, considerando a classificação CID 10: F30-39 e/ou DSM 5. A média de permanência hospitalar em 2015 foi superior a 35,2 dias, enquanto em 2024 foi 12,7 dias. De 2016 a 2018, o sexo masculino 32,7 e 29,0 apresentou médias ligeiramente mais altas que o feminino 31,1 e 25,2, respectivamente. Entre 2019 e 2021, ocorreu uma redução acentuada para ambos os sexos. Entre 2021 e 2022, as médias se mantiveram em torno de 20 dias, com queda consecutiva nos anos seguintes, quando os valores de ambos os sexos convergem para níveis semelhantes, em torno de 10 dias. A média total acompanha um comportamento intermediário entre os sexos,   evidenciando uma redução contínua de aproximadamente 64% ao longo do período analisado.

Gráfico 1 –  Média de permanência em dias das internações hospitalares dos transtornos afetivos em Pernambuco – 2015 a 2024, distribuído por gênero

                 Fonte: Ministério da Saúde – Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS), PE, 2025.

O gráfico 2, apresenta o valor das internações hospitalares por transtornos afetivos em Pernambuco (2015 a 2024) distribuídos por gênero, considerando a classificação CID 10: F30-39 e/ou DSM 5.  Ao analisar a série temporal, observa-se que o valor total gasto apresentou redução significativa ao longo do período, especialmente após 2018. No início da série, em 2015, o custo total ultrapassava R$ 1.200.000. Havendo redução em 2023, R$ 800.000 e 2024, R$ 700.000. Em todo período, os gastos com as internações femininas superaram as masculinas.  

Gráfico 2 –  Valor dos serviços hospitalares por transtornos afetivos em Pernambuco – 2015 a 2024, distribuído por gênero

         Fonte: Ministério da Saúde – Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS), PE, 2025

      O gráfico 3 apresenta o panorama do custo total dos serviços de saúde mental  e do custo hospitalar das internações por transtornos afetivos no estado de Pernambuco, no período de 2015 a 2024, considerando a classificação CID 10: F30-39 e/ou DSM 5. Há uma tendência geral de redução dos custos totais e hospitalares relacionados a transtornos afetivos em Pernambuco, com picos transitórios e equilíbrio entre ambas as variáveis. Houve redução dos custos ao longo da série temporal, embora com flutuações pontuais entre os anos. Em 2015, ambos os custos atingem seus valores mais elevados – o custo total ultrapassa R$ 1.400.000, enquanto o custo hospitalar se aproxima de R$ 1.200.000. A partir de então, há queda gradual até 2019, quando os valores atingem cerca de R$ 700.000 a R$ 800.000, representando uma redução de quase 50% em relação ao início do período. Entre 2020 e 2022, observa-se nova ascensão dos valores. Entretanto, a partir de 2023, a tendência de queda se restabelece, culminando em 2024 com os menores valores registrados em toda a série – cerca de R$ 900.000 para o custo total e R$ 700.000 para o custo hospitalar.

Gráfico 3 – Panorama entre custo total dos serviços de saúde mental e custo das internações hospitalares por  transtornos afetivos  em Pernambuco – 2015 a 2024

                         Fonte: Dados da pesquisa. Elaborado a partir de dados do DATASUS, PE, 2025.

O gráfico 4 apresenta a evolução do número de CAPS no estado de Pernambuco, no período de 2015 a 2024, considerando o total de serviços em funcionamento de cada ano, além do número de novos CAPS abertos anualmente. A diferença entre as linhas de janeiro e dezembro reflete a quantidade de CAPS inaugurados ao longo de cada ano, representada mais claramente pela linha cinza (“Abertos”). Nota-se que o número de novas unidades abertas varia de forma discreta, mantendo-se geralmente abaixo de 10 por ano, com pequenas oscilações – no ano de 2019 é observado inversão da tendência de expansão dos serviços, com o fechamento de 4 unidades CAPS, seguida de estabilização e ligeiro aumento após 2021. 

Gráfico 4 –  Quantidade de CAPS abertos por ano em PE – 2015 a 2024

 Fonte: Ministério da Saúde – Cadastro Nacional dos Estabelecimentos de Saúde do Brasil – CNES, PE, 2025.

O gráfico 5 apresenta a quantidade de CAPS por Macrorregião de Saúde do estado de Pernambuco, no período de 2015 a 2024. Observa-se a tendência crescente do total de CAPS, dispondo de 116 centros em janeiro de 2015, e 170 em dezembro de 2024. Com expansão mais acentuada entre 2017 e 2020 e estabilização a partir de 2021. Considerando a variação nas Macrorregiões isoladamente, no Vale do São Francisco e Araripe houve aumento de 3, no Sertão de 10, no Agreste de 22 e na Metropolitana de 19.  Em variação absoluta, o estado de Pernambuco contou com a abertura de 54 CAPS. 

Figura 1.  Macrorregiões de Saúde do Estado de Pernambuco em 2011

Fonte:  Revista Brasileira de Geografia Médica e da Saúde (adaptada pelos autores).

 Gráfico 5 – Quantidade de CAPS por Macrorregião de Saúde em PE (2015 a 2024) 

Fonte: Ministério da Saúde – Cadastro Nacional dos Estabelecimentos de Saúde do Brasil – CNES, PE, 2025.

4 DISCUSSÃO

No presente estudo, observa-se que as internações hospitalares por transtornos afetivos  no estado de Pernambuco mantiveram tendência de crescimento durante o período avaliado (2015 a 2024). Considerando a região Nordeste, também há uma tendência crescente do número de internações ao longo desse tempo. Esse comportamento acompanha, em parte, a evolução observada das Unidades Federativas do Nordeste que juntas registraram mais de 69 mil internações no período analisado. Reforçando a relevância dos transtornos de humor como um importante problema de saúde pública no Brasil, especialmente em regiões com menor cobertura assistencial comunitária como o Nordeste 1,8,13

A  predominância verificada de internações em mulheres e adultos jovens converge com os dados nacionais, que apontam maior vulnerabilidade do sexo feminino aos transtornos afetivos, possivelmente devido à interação de fatores hormonais, psicossociais e culturais1,2,15. Além disso, a maior concentração de casos nas faixas etárias economicamente ativas reforça o impacto desses agravos na produtividade e nos custos sociais associados às doenças mentais, corroborando dados encontrados por outros autores3,6,9,12

Em relação à raça/cor, houve presença expressiva da “parda”, o que reflete em parte a composição demográfica  brasileira, majoritariamente composta por pessoas não brancas. Estando em consonância com estudos nacionais, que apontam maior prevalência de transtornos depressivos entre pardos (95%)15 e pessoas não brancas (38,9%) em comparação às pessoas brancas (9,4%)18. Em contrapartida, um estudo verificou uma prevalência ligeiramente menor entre pessoas não brancas (22,7%) do que entre brancas (27,5%), embora sem significância estatística para essa diferença2 . Não há evidências de relação biológica entre raça/cor e saúde mental. As diferenças observadas tendem a refletir fatores de risco ou causais, a exemplo dos determinantes sociais – condições econômicas, sociais e ambientais2,20.  

Considerando a média de permanência hospitalar, ocorreu redução progressiva – de cerca de 35 dias em 2015 para aproximadamente 12 dias em 2024 – sugerindo um avanço no manejo terapêutico e na efetividade da rede substitutiva, ainda que parcialmente. Essa tendência pode estar relacionada à consolidação da RAPS e à ampliação dos CAPS13. Concordando com estudos anteriores2,6,10,11 que demonstram o aumento da cobertura de CAPS, associado à diminuição das internações hospitalares. 

Houve uma queda acentuada nos custos totais dos serviços de saúde mental e hospitalares a partir de 2018, podendo evidenciar a melhoria na resolutividade dos serviços extra-hospitalares. Entre 2020 e 2022, observa-se um pequeno aumento dos custos, possivelmente relacionada à pandemia de COVID-19, devido ao aumento temporário da demanda por internações entre 2020 e 2023. Em contraponto, estudos demonstraram decréscimo expressivo de internações em 20201,15,16,17, no início da pandemia, devido ao período de confinamento social e voltando a ascender  em 2022 e 2023 atingindo maiores valores16, o que pode ser atribuído às consequências psicossocioeconômicas, como desemprego e instabilidade financeira17.

A análise das variáveis custo total de serviços de saúde mental e custo hospitalar revela que a última  representa a maior parcela do custo total, embora o gap entre ambas se mantenha relativamente estável ao longo dos anos. Sendo também revelado um controle progressivo das despesas, possivelmente associado à redução da média de permanência hospitalar e à ampliação dos serviços de atenção psicossocial (CAPS), responsáveis por favorecer o manejo extra-hospitalar e diminuição da manutenção de internações prolongadas, conforme referido em pesquisas anteriores ¹.

O aumento da cobertura de CAPS, cuja expansão em Pernambuco foi de 54 unidades ao longo da série temporal analisada, está  associado à diminuição de custos com hospitalizações psiquiátricas, concordando com dados de outros estudos9,10,11.  Esse achado reforça a importância do investimento em dispositivos comunitários como estratégia para redução de custos e de promoção do cuidado integral. 

No ano de 2019 houve fechamento de 4 unidades de CAPS. Nesse ano foi emitida a  Nota Técnica nº 11/2019‑CGMAD/DAPES/SAS/MS – Esclarecimentos sobre as mudanças na Política Nacional de Saúde Mental (PNSM) e nas Diretrizes da PNAD que pode ter tido impacto na forma de organização, credenciamento ou priorização de destes serviços21. Além disso, no mesmo ano, foi instituída a nova Política Nacional Sobre Drogas, através do decreto decreto nº 9.761/201922. Marcando uma mudança normativa que pode ter afetado os serviços, cobertura assistencial, atenção aos usuários de drogas e  internações relacionadas ao uso de substâncias à época. O enfoque nessas, pode ter alterado momentaneamente a continuidade de investimentos para a manutenção e/ou expansão de CAPS.

A desigualdade na distribuição territorial dos CAPS nas Macrorregiões de  Saúde (figura 1) e ocorrência de insuficiência de serviços mesmo em regiões metropolitanas, encontradas no estudo, demonstram desafios estruturais para a consolidação do modelo comunitário, estando em consonância com outros estudos 10,11. Para Pernambuco, vale ressaltar que embora tenha ocorrido crescimento gradual dos serviços, a expansão foi heterogênea entre as macrorregiões, com maior concentração de unidades na região Metropolitana. Apesar disso, a macrorregião do Agreste apresentou maior coeficiente de abertura de novos serviços, seguida pela Metropolitana, Sertão e Vale do São Francisco e Araripe, respectivamente. Tal discrepância pode sugerir, a manutenção de taxas expressivas de internações e sobrecarga dos serviços hospitalares, nos grandes centros urbanos. Uma vez que recebem a demanda das áreas com ausência ou escassez desses serviços.

Os achados do presente estudo apontam que a ampliação dos CAPS pode ter   contribuído para a redução da média de permanência e dos custos hospitalares por transtornos afetivos no estado de Pernambuco. Todavia, a persistência de desigualdades regionais e a insuficiência de cobertura assistencial apontam a necessidade de políticas públicas que priorizem o fortalecimento da RAPS, com foco na equidade territorial, na integração intersetorial e na continuidade do cuidado.

5 CONCLUSÃO 

O presente estudo evidenciou uma tendência crescente das internações hospitalares pelos transtornos de humor até 2024, associada à redução da média de permanência hospitalar dessas internações. Concomitantemente, os custos hospitalares apresentaram tendência de queda. Quanto ao perfil epidemiológico das internações, houve  predominância para as mulheres de raça/cor parda, e faixa etária economicamente ativa,  podendo ter relação com a influência de determinantes sociais da saúde. O aumento da cobertura de CAPS evidenciado no período do estudo, demonstrou o impacto positivo da política de desinstitucionalização. Contudo, a manutenção de taxas expressivas de hospitalização, a desigualdade regional e os  vazios assistenciais reforçam a necessidade de políticas públicas que considerem além da expansão numérica dos serviços assistenciais, à priorização de equidade no enfrentamento dos transtornos de humor. Por isso, deve-se questionar de que forma a ampliação da RAPS tem influenciado na reintegração psicossocial dos pacientes.

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Braga JO, Crispim LM, Cunha PM, Albuquerque RMC, Ferreira TLP, Ribeiro LRM, et al. Internações por transtornos de humor afetivo no Brasil de 2012 a 2023. Rev DELOS. 2024;17(60):1-17.

2.Smolen JR, Araújo EM. Raça/cor da pele e transtornos mentais no Brasil: uma análise a partir da Pesquisa Nacional de Saúde. Cien Saude Colet. 2017;22(12):4021-4030.

3.Chaves AAC, Costa GLB, Peixoto ALA, Pol-Fachin L. Avaliação da epidemiologia das internações por transtornos de humor em Alagoas no período de 2018-2022. Braz J Health Rev. 2024;7(3):1-12.

4.Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – 10ª Revisão (CID-10). Genebra: OMS; 2010.

5.American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – 5ª edição (DSM-5). Porto Alegre: Artmed; 2014.

6.Bispo MVB, Gazzola DB, Delos TSM, et al. Panorama epidemiológico hospitalar de pacientes com transtornos de humor no Brasil. Braz J Implantol Health Sci. 2024;6(3):1-10. Disponível em: https://bjihs.emnuvens.com.br/bjihs/article/view/3716.

7.  Pereira LHM, Angel DJ. Aspectos sociodemográficos do suicídio em adultos no Brasil nos últimos quatorze anos com ênfase na depressão. RCMOS – Rev Cient Multidisciplinar O Saber. 2025;1(1). doi:10.51473/rcmos.v1i1.2025.956.

8.Macêdo CTM, Andrade FB. Transtorno mental no nordeste brasileiro: variações e diferenciais da mortalidade e morbidade de 2007 a 2016. Mundo Saude (Impr). 2020;44:e1792019.

9. Rocha HA, Reis IA, Santos MAC, Melo APS, Cherchiglia ML. Internações psiquiátricas pelo Sistema Único de Saúde no Brasil ocorridas entre 2000 e 2014. Rev Saude Publica. 2021;55:14.

10. Fernandes CJ, Lima AF, Oliveira PRS, Santos WS. Índice de Cobertura Assistencial da Rede de Atenção Psicossocial (iRAPS) como ferramenta de análise crítica da reforma psiquiátrica brasileira. Cad Saúde Pública. 2020;36(4):e00049519.

11. Dias BM, Badagnan HF, Marchetti SP, Zanetti ACB. Gastos com internações psiquiátricas no estado de São Paulo: estudo ecológico descritivo, 2014 e 2019. Epidemiol Serv Saúde. 2021;30(2):e2020907.

12. Vargas DS, Vargas DS, Jacobi LF, Souza AM. Custos hospitalares em saúde mental: uma revisão sistemática. Rev Gest Sec. 2025;16(3):1-15.

13. Gama CAP, Guimarães DA, Coelho VAA, Carvalho RC, Campos CG, Fraga AMS. A implantação da rede de atenção psicossocial na Região Ampliada de Saúde Oeste de Minas Gerais-BR. Cad Saúde Colet. 2020;28(2):278-87. doi:10.1590/1414-462X202028020301.

14. Teles MPSF, Coelho TCB, Santos JV, Teles AS. Evolução da Rede de Atenção Psicossocial no Brasil, 2012-2018. Cad Saúde Colet. 2024;32(3):e32030437.

15. Leite NJJ, Leite SCCM, Soares AM, Barros GHS, Bezerra VS. Análise epidemiológica das internações por transtornos de humor (afetivos) no Piauí no período de 2018-2022. Rev Contemp. 2024;4(4):1-15.

16.Silva DS, Araújo LS, Cavalcante MC, et al. A importância da reabilitação psicossocial na recuperação de pacientes com transtornos mentais: um estudo de caso. Rev Bras Ter Ocup. 2021;9(2).

17.Santos JNG, Arenhardt AS, Moreira AMA, Vaz HJ, Souza MVS, Oliveira TIC, Vasconcelos LA, Vallinoto IMVC, Cruz MNM, Coêlho KAA. Internações por transtornos mentais e comportamentais, região Norte, Brasil, de 2017 a 2021. Res Soc Dev. 2022;11(10):e300111030593. doi:10.33448/rsd-v11i10.30593.

18. Almeida-Filho N, Lessa I, Magalhães L, Araújo MJ, Aquino E, James SA, Kawachi I. Social inequality and depressive disorders in Bahia, Brazil: interactions of gender, ethnicity, and social class. Soc Sci Med. 2004 Oct;59(7):1339–53. doi:10.1016/j.socscimed.2003.11.037.

19. O Federalismo Sanitário Brasileiro e a Regionalização da Saúde no Estado de Pernambuco. Hygeia Rev Bras Geogr Méd Saúde. 2019;15(34):115–28.

20. Theodoro H, Souza MLP, Cruz FMS. O racismo como um determinante social da saúde e os seus mecanismos de atuação no Brasil: uma revisão de escopo. Cien Saude Colet. 2021;26(10):4339-4352.

21. Brasil. Decreto nº 9.761, de 11 de abril de 2019. Aprova a Política Nacional sobreDrogas. Diário Oficial da União. Brasília, DF; 2019. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/decreto/D9761.htm

22. Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 11/2019-CGMAD/DAPES/SAS/MS:Esclarecimentos sobre as mudanças na Política Nacional de Saúde Mental e nas Diretrizes da Política Nacional sobre Drogas. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2019. Disponível em: https://pbpd.org.br/wp-content/uploads/2019/02/0656ad6e.pdf


1Doutora em Clínica Odontológica Integrada pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, Recife, Pernambuco, Brasil.
Mestre em Clínica Clínica Odontológica Integrada pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, Recife, Pernambuco Brasil.
Especialização em Endodontia pela FACSETE – Minas Gerais, Brasil.
Cirurgiã – Dentista pela Universidade de Pernambuco – UPE/FOP, Recife, Pernambuco, Brasil.
Acadêmica de medicina pelo Centro Universitário Maurício de Nassau, Recife, Pernambuco, Brasil.
E-mail: rafaellamaria24@gmail.com
2Acadêmica de medicina pelo Centro Universitário Maurício de Nassau, Recife, Pernambuco, Brasil.
E-mail: giselaralph@gmail.com
3Pós-doutor em Direitos Humanos e Sociais pelo Departamento de Direitos Humanos pela Universidade de Salamanca, USAL, Salamanca, Espanha. Doutor em Psicologia Social pela Universidade Argentina John F. Kennedy, C. A. B. A., Buenos Aires, Argentina.
Mestre em Psicanálise pela Universidade Argentina John F. Kennedy, C. A. B. A., Buenos Aires, Argentina.
Medico pela Faculdade de Ciências Médicas da Paraíba, Paraíba, Brasil
Psicólogo pelo Centro Universitário Estácio do Recife, Pernambuco, Brasil.
https://orcid.org/0000-0003-3090-0280. E-mail: wagnerlines@hotmail.com.
4Orientador – Doutora em Biotecnologia, Renorbio, Brasil.
Mestre em Ciências da Saúde FCM-UPE.
Residência médica de reumatologia e Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Reumatologia – UFPE, Recife, Pernambuco, Brasil.
Médica pela Universidade Federal de Pernambuco, UFPE, Recife, Pernambuco, Brasil.
E-mail: mham62@gmail.com.