INFLUÊNCIA DAS LIGAÇÕES SEMI-RÍGIDAS NO DESEMPENHO  ESTRUTURAL DE PÓRTICOS PRÉ-MOLDADOS DE CONCRETO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202511281041


Felipe Costa Ferrari1
João Francisco Otrente2
 José Eduardo Quaresma3


RESUMO

O presente trabalho teve como objetivo avaliar a influência das ligações viga-pilar semi-rígidas  em pórticos pré-moldados de concreto no que tange ao dimensionamento dos elementos,  esforços solicitantes, deslocamentos e estabilidade global. Para tal, foi realizada uma pesquisa  bibliográfica e um estudo comparativo entre uma estrutura com ligações monolíticas e uma com  ligações semi-rígidas. A análise de esforços e deslocamentos foi conduzida via programa  computacional FTOOL, utilizando como estudo de caso um edifício comercial de 7 pavimentos. Os resultados demonstraram que a consideração das ligações semi-rígidas pode promover um  nível de rigidez comparável ao da estrutura monolítica. Especificamente, as ligações semi-rígidas contendo armadura de continuidade de 8,0 cm² promoveram engastamento parciais de  55,51% e 52,14% para diferentes tipologias (tipologia 1 e 3 da ABNT NBR 9062:2017) valores  muito próximos do engastamento de 54,66% obtido para a situação monolítica. Além disso, o  dimensionamento resultou em uma redução da armadura longitudinal positiva para o caso semi-rígido (15,43 cm²) em comparação com a estrutura monolítica (18,87 cm²). Ambas as estruturas  apresentaram deslocabilidade reduzida, classificadas como de nós fixos, sendo 1,05 o  coeficiente gamaz para a pré-moldada de concreto e 1,03 para a monolítica indicando que os  efeitos de segunda ordem são desprezíveis. 

Palavras-chave: Análise estrutural; Concreto Pré-Moldado; Ligação viga-pilar; Semirrigidez. 

1. INTRODUÇÃO 

A utilização de estruturas de concreto pré-moldadas está amplamente relacionada com a maneira de construir buscando sempre atender as demandas da sociedade de maneira  econômica, segura e eficiente. Os sistemas pré-moldados vêm conquistando espaço  constantemente em vários segmentos do mercado. Este avanço consolida o consenso de que os elementos pré-moldados (pilares, vigas, lajes, painéis, etc) garantem maior rapidez na execução  do projeto, maior organização no canteiro de obras, maior durabilidade, sustentabilidade,  desempenho estrutural e versatilidade arquitetônica (OTRENTE, 2022). 

A principal diferença estrutural entre uma estrutura pré-moldada de concreto para uma  moldada in loco (monolítica) é a presença de situações transitórias e das ligações entre os  elementos. Para Hadade (2016), a necessidade de se estabelecerem ligações entre os vários  elementos componentes de uma estrutura pré-moldada é certamente a principal barreira a ser  transposta para a elaboração de projetos envolvendo esta classe de sistema construtivo. Tais  ligações devem ser concebidas levando-se em consideração requisitos indispensáveis como  resistência e rigidez aos esforços solicitantes, durabilidade, ductilidade, resistência ao fogo e  construtibilidade.  

Ferreira (1999) descreve a ligação como uma região de comportamento singular e  concentração de tensões, onde deformações e deslocamentos são notáveis. Essa característica  da ligação provoca uma redistribuição de esforços que impacta diretamente o dimensionamento  dos elementos e o comportamento global da estrutura, indicando que o êxito do sistema pré-moldado depende crucialmente do desempenho eficaz de suas conexões.

Além disso, as ligações não se comportam exatamente conforme dito na análise  estrutural clássica, ou seja, não são totalmente articuladas e nem totalmente rígidas. O que  ocorre é um comportamento intermediário sendo denominado de semi-rígido, o qual permite  um certo nível de deformação e engastamento na região conectada. (OTRENTE, 2023).

Com a consideração do efeito da ligação semi-rígida no comportamento da estrutura, é  possível a obtenção de significativa economia ligada a redução de mão-de-obra necessária para  produção de ligações rígidas, além da redução das dimensões da estrutura no caso das ligações  articuladas. (CATOIA, 2007).  

Nesse sentido, o trabalho tem como objetivo avaliar a influência das ligações viga-pilar  semirrígidas em pórticos pré-moldados de concreto no tocante ao: dimensionamento dos  elementos estruturais, esforços solicitantes, deslocamentos e estabilidade global. Para tal, foi  realizada uma pesquisa bibliográfica com modelos de cálculo e parâmetros normativos  relacionados: ligações viga-pilar semi rígidas, comportamento estrutural de pórticos pré-moldados de concreto, tipologias de ligações empregadas no Brasil e rigidez das ligações.

A avaliação da influência das ligações semirrígidas foi realizada por meio de uma  comparação entre a estrutura com ligações monolíticas e semi-rígidas. O cálculo dos esforços  solicitantes e deslocamentos do pórtico foi realizado via programa computacional FTOOL, software de análise estrutural desenvolvido pela PUC-RIO. Com relação ao dimensionamento  e verificação dos elementos empregou-se os modelos de cálculo presentes nas normas vigentes.  

2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 

2.1 LIGAÇÕES EM ESTRUTURAS PRÉ-MOLDADAS DE CONCRETO

O tema das ligações é crucial nas estruturas em concreto pré-moldado, pois o  entendimento de seu comportamento é essencial para a análise de todo o sistema. A função  primária das ligações é a transferência de forças entre os elementos, buscando reproduzir o  monolitismo da estrutura. Conforme lembram Chastre e Lúcio (2012), as ligações são regiões  de comportamento complexo com concentração de tensões, o que gera a redistribuição de  esforços e deslocamentos, interferindo no comportamento global. 

Além disso, o projeto de ligações vai além da simples escolha de um dispositivo. É uma  filosofia que exige que as conexões atendam a múltiplos critérios de desempenho. Segundo  Acker (2003), estes critérios englobam aspectos como comportamento estrutural (rigidez,  ductilidade), tolerâncias dimensionais, resistência ao fogo, durabilidade, manutenção e  facilidade de montagem. 

Com relação as ligações viga-pilar, existem diversos tipos de arranjos para tal  convenção, os quais apresentam variação na montagem, comportamento mecânico e custo. A  Figura 1 ilustra dois tipos de ligação viga-pilar pré-moldadas, com as seguintes características:

Figura 1: Tipos de ligação viga-pilar: a) Ligação com consolo embutido no pilar; b) Ligação  sobre consolo aparente; c) Vigas e pilares descontínuos; d) Pilar descontínuo com viga  contínua. 

Fonte: FIB, 2008.

2.1.1 Classificação das Ligações Viga-Pilar 

De acordo com Otrente (2023), as ligações viga-pilar podem ser classificadas pela sua  capacidade rotacional (restrição ao giro). Em uma ligação com rotação livre (articulada), não  há mobilização de momentos fletores, enquanto uma ligação com rotação nula (rígida) deve  mobilizar uma certa quantidade de momento fletor. Essa relação define a classificação pelo  grau de rigidez rotacional das ligações:  

  • Ligação articulada: Apresenta incapacidade de resistir ou mobilizar momentos  fletores. Não há restrição quanto à rotação. Também é conhecida pelo termo  ligação “rotulada” mediante ao seu comportamento de rótula supracitado 
  • Ligação rígida: Apresenta elevada capacidade de transmitir e resistir a todos os  esforços solicitantes. Também é conhecida pelo comportamento monolítico (engaste), situação está, em que se mobiliza o momento de engastamento  perfeito. Há restrição quanto à rotação 
  • Ligação semi-rígida: Trata-se do comportamento intermediário entre o rígido e  o articulado, ou seja, a ligação pode mobilizar uma parcela do momento de  engastamento perfeito e restringir parcialmente à rotação da viga com o pilar. 

Na prática, ligações totalmente rígidas são raras e antieconômicas (ou mesmo  impraticáveis) devido ao alto consumo de material necessário para impedir a rotação viga-pilar.  Isso implica que, para gerar qualquer grau de travamento rotacional, a ligação deve possuir uma  rigidez específica. O desafio reside em determinar essa rigidez da ligação e os parâmetros de  seu dimensionamento, um tema que será aprofundado no capítulo seguinte em relação ao  cálculo estrutural de concreto pré-moldado. 

2.2 EFEITOS DA RESPOSTA SEMI-RÍGIDA DE UMA LIGAÇÃO VIGA-PILAR

As ligações viga-pilar semi-rígidas em concreto pré-moldado alteram a resposta  estrutural ao redistribuir esforços e modificar deformações, funcionando como elementos com  característica de mola. Isso resulta em um pórtico menos deslocável (comparado ao rotulado),  o que otimiza o projeto, gerando peças menos solicitadas e, consequentemente, reduzindo a  necessidade de armadura em vigas, pilares e fundações.

A Figura 2 ilustra o esquema estático de uma viga pré-moldada com ligações viga-pilar  semirrígidas.

Figura 2: Viga pré-moldada com molas nas extremidades i e j.

Fonte: Monforton e Wu, 1963.

A rigidez rotacional de uma ligação depende do momento fletor que ela consegue  suportar em relação ao giro correspondente. Essa relação é expressa por um fator de restrição à  rotação, um valor adimensional. O aceno histórico e o modelo matemático por trás disso podem  ser encontrados em Otrente (2024), que menciona esse parâmetro, originalmente introduzido  por Monforton e Wu (1963). A norma ABNT NBR 9062 (2017) utiliza essa formulação da  seguinte maneira:

Onde:

Figura 3: Comprimento efetivo da viga para o cálculo do fator de restrição à rotação.

Fonte: ABNT NBR 9062, 2017.

Resumidamente, o fator de restrição à rotação é uma medida da relação entre as  rigidezes, ou seja, trata-se da proporção entre a rigidez à rotação da ligação e da rigidez à flexão  da viga. Diversos autores se dedicaram a estudar o comportamento de uma ligação viga-pilar  frente a sua rigidez, proporcionando assim melhorias nos modelos analíticos, computacionais e  normativas técnicas.  

2.2.1 Resposta Semi-Rígida no Comportamento dos Elementos de Viga

O trabalho de Ferreira (2017) apresenta um procedimento prático para calcular os  momentos fletores e deslocamentos em vigas pré-moldadas que utilizam ligações viga-pilar  semi-rígidas. O procedimento se aplica a uma viga com carregamento distribuído (P) em vão  (L) e ligações semi-rígidas idênticas nas extremidades, permitindo definir o momento fletor de  apoio por meio da Equação 2.

Sendo:

Onde:

O momento fletor em vigas com ligações semi-rígidas é sempre menor do que na  situação de ligações rígidas, pois é apenas uma parcela desse valor integral. Essa parcela  depende do fator de restrição à rotação. A Figura 4 é usada para ilustrar como as ligações semi rígidas (em comparação com as bi-articuladas e bi-engastadas) influenciam a distribuição dos  momentos fletores na viga.

Figura 4: Influência da rigidez da ligação nos esforços solicitantes de uma viga: a) Ligações  Articuladas; b) Ligações Rígidas; c) Ligações Semi-Rígidas.

Fonte: Otrente, 2023.

Seguindo na mesma linha de raciocínio, é possível determinar os deslocamentos da viga  levando em consideração a deformabilidade dos apoios. A flecha no meio do vão e a rotação  na ligação são calculadas via Equações 4 e 5. Note que para obter o efeito semi-rígido no âmbito  dos deslocamentos, é necessário conhecer esses parâmetros para a situação articulada.

Onde:

A Figura 5 ilustra a influência das ligações semi-rígidas na deformada da mesma viga  descrita anteriormente. 

Figura 5: Influência da rigidez da ligação nos deslocamentos de uma viga: a) Ligações Articuladas; b) Ligações Rígidas; c) Ligações Semi-Rígidas.

Fonte: Otrente, 2023.

2.2.2 Resposta Semi-Rígida no Comportamento dos Pórticos Pré-Moldados

Para avaliar o efeito das ligações semi-rígidas em pórticos pré-moldados, é  indispensável uma análise linear semi-rígida que simula a flexibilidade das conexões com molas  rotacionais. Devido à sua complexidade, esta análise é praticamente inviável analiticamente/manualmente, exigindo o uso de programas computacionais. A consideração  deste modelo é crítica, pois a flexibilidade da ligação aumenta os deslocamentos laterais de 1ª  ordem, modifica a redistribuição de momentos e, consequentemente, amplifica os efeitos  globais de 2ª ordem. 

Programas de computador que não modelam diretamente ligações semi-rígidas em  pórticos de múltiplos pavimentos exigem uma metodologia substituta para simular a  flexibilidade do nó viga-pilar. Tal representação, validada pela revisão de Huber, Kronenberger  e Weynand (1998) por Otrente (2023), é alcançada através da equivalência de rigidez. Este  processo consiste em inserir elementos de barra com rigidez modificada nas extremidades das  vigas, transformando um nó inicialmente considerado rígido em um nó semi-rígido, conforme  expresso matematicamente pela Equação 8.

Onde:

De maneira simplificada, o que ocorre é uma compatibilização de rigidezes entre a  ligação e a barra, de modo a não alterar a deformação do nó. A Figura 6 ilustra a presença da  barra conectada de maneira representativa.

Figura 6: Equivalência de Rigidez.

Fonte: Huber, Kronenberger e Weynand, 1998.

Conforme mencionado, a presença das ligações semi-rígidas altera a deslocabilidade do  pórtico de concreto devido à flexibilização dos nós, que por sua vez modifica os efeitos de  segunda ordem do edifício. Em Ferreira (2005) e Ferreira (2010) consta um modelo para  analisar a estabilidade global de um pórtico pré-moldado de concreto com essas ligações.

Para analisar um pórtico com ligações semi-rígidas, o processo simplificado é dividir o  problema em dois: 

1. Cargas Verticais (Peso/Carga de Serviço): A estrutura é tratada como um pórtico  contraventado. As ligações semi-rígidas afetam apenas a região da viga (comportamento  local). 

2. Cargas Horizontais (Vento): A estrutura é tratada como um pórtico não contraventado. 

As ligações semi-rígidas afetam a estrutura como um todo (comportamento global).

Para o dimensionamento, utiliza-se dois critérios: as ligações são calculadas como se fossem rígidas (momentos elásticos), mas as vigas e pilares são dimensionados usando os  resultados da análise semi-rígida. A Figura 7 ilustra a superposição.

Figura 7: Superposição para o pórtico deslocável com ligações semi-rígidas: a) Pórtico  original com ligações semi-rígidas; b) Pórtico indeslocável submetido as ações gravitacionais; c) Pórtico deslocável submetido as ações laterais.

Fonte: Ferreira, 2010.

O tratamento das ações horizontais, a proposta de Ferreira (2005) sugere simular um  pórtico monolítico (rígido) e aplicar uma correção na inércia das vigas. Essa correção é feita  para diminuir a rigidez das vigas, o que efetivamente flexibiliza os nós (simulando o  comportamento semi-rígido da ligação viga-pilar). Após essa modificação, a análise prossegue  para determinar os deslocamentos de primeira ordem e os momentos na base dos pilares. Esses  resultados permitem, então, avaliar a estabilidade geral do pórtico pré-moldado, levando em  conta a semi-rigidez das suas ligações. A Figura 8 ilustra o processo de correção.

Figura 8: Procedimento simplificado para análise da estabilidade: a) Pórtico deslocável com  ligações semi-rígidas; b) Pórtico monolítico equivalente; c) Procedimento de segunda ordem.

Fonte: Ferreira, 2005.

A correção na inércia das vigas é realizada via Equação 9.

Onde:

Onde:

A partir dos valores de deslocamentos obtidos pelo método acima, aplica os critérios da  ABNT NBR 9062 (2017) para avaliar a estabilidade:

Onde:

A ABNT NBR 9062 (2017) estabelece que os efeitos de segunda podem ser  considerados de maneira simplificado via coeficiente majorados gama z:

Se esse coeficiente for maior ou igual a 1,30, é obrigatório realizar um cálculo mais  rigoroso, que inclua a consideração das não linearidades física e geométrica da estrutura. Além  disso, os momentos finais (resultantes da soma dos efeitos de 1ª e 2ª ordem) obtidos no cálculo  devem ser menores que o momento no limite de escoamento da armadura de continuidade da  ligação viga-pilar. 

2.3 CÁLCULO DA RIGIDEZ SECANTE DA LIGAÇÃO VIGA-PILAR

Inicialmente, para se determinar a rigidez de uma ligação é necessário conhecer como  ela se deforma. Diversos autores estudaram os mecanismos de deformações das ligações viga  pilar, com destaque para Ferreira, El Debs e Elliott (2003); Alva, Ferreira e El Debs (2009),  Ferreira (2010) e Ferreira (2022). Basicamente os dois mecanismos mais importantes são 

  • Mecanismo 1 (No Pilar): Está relacionado ao alongamento da armadura de continuidade  embutida no pilar (em bainhas grauteadas). Isso causa a abertura de fissuras na interface  viga-pilar, devido à perda de aderência e ao escorregamento entre o aço e o concreto; 
  • Mecanismo 2 (Na Viga): Está relacionado ao alongamento da armadura na própria  região da ligação, sendo influenciado pela propagação de fissuras na extremidade da  viga (zona de descontinuidade). 

Em resumo, a capacidade efetiva de rotação da ligação depende crucialmente do alongamento  das barras de continuidade que unem a viga e o pilar. A Figura 9 ilustra tais mecanismos.

Figura 9: Mecanismos de deformação em ligações viga-pilar de extremidade: a) Alongamento  das armaduras negativas de continuidade da viga no trecho Le; b) Deformações por flexão no  trecho da zona de descontinuidade.

Fonte: Alva, Ferreira e El Debs, 2009.

Otrente (2024) chama atenção ao fato de que no âmbito normativo, a ABNT NBR 9062  (1985) não apresentava recomendações analíticas para o cálculo da rigidez secante de uma  ligação viga-pilar pré-moldada de concreto com solidarização no local. Levando em conta a  dependência de vários parâmetros que influem no resultado dessa rigidez, Ferreira (2014) apresenta uma proposta simplificada para a realização desse cálculo, sendo incorporado na  ABNT NBR 9062 (2017):

Em que:

Onde:

Quadro 1: Valores normativos para os parâmetros k e Led.

Fonte: Adaptado de ABNT NBR 9062, 2017

Figura 10: Comprimento de embutimento: a) Tipologia 1; b) Tipologia 2; c) Tipologia 3; d)  Tipologia 4; e) Tipologia 5; f) Tipologia 6.

Fonte: Otrente, 2024.

3. ESTRUTURA PRÉ-MOLDADA DE CONCRETO EM ESTUDO 

Para o presente trabalho, foi realizada uma releitura do projeto de Knöner (2013) de  modo a adequar aos parâmetros normativos vigentes e utilizá-lo como exemplo de estudo de  caso e alcançar objetivo proposto. No presente capítulo apresenta-se todas as informações do  projeto necessário para os cálculos e verificações. 

3.1 DADOS GERAIS E PARÂMETROS ENVOLVIDOS  

A edificação em estudo trata-se de um edifício comercial situado na cidade de São  Carlos/SP com 7 pavimentos em concreto pré-moldado. As lajes são do tipo alveolar (piso e  cobertura) com 20 cm de espessura e fck = 40 MPa, com capa de concreto moldado no local de  resistência fck = 30 MPa e espessura de 5,0 cm. A altura de piso a piso é 3,0 m, inclusive o  pavimento térreo, o qual a altura refere-se à distância do piso acabado ao topo do cálice de  fundação.  

As vigas apresentam seção transversal retangular de 40×80 cm em concreto pré moldado com resistência de fck = 40 MPa. Os pilares apresentam seção transversal quadrada  de 50×50 cm e altura de 300 cm, com resistência de fck = 40 MPa. Abaixo constam algumas  figuras com as plantas baixas e esquema estático em elevação do prédio para a consideração da  ação do vento.

Figura 11: Planta baixa da estrutura.

Fonte: Adaptado de Knöner, 2013.

Na direção y, as estruturas dos pórticos são consideradas de contraventamento, com as  lajes trabalhando como “diafragmas” rígido em ambas direções. Nesse sentido, a análise é  realizada na direção y devido a uma contribuição menor da estrutura aporticada. 

3.2 AÇÕES ATUANTES NO PÓRTICO  

Determina-se inicialmente as ações permanentes devido ao peso próprio dos elementos  estruturais. Para tal, utiliza-se o peso específico do concreto como sendo 25 kN/m³ conforme  recomenda a ABNT NBR 6118 (2023). Na Equação 14 consta o peso próprio das vigas: 

Na sequência determina-se o peso próprio dos pilares que será considerado por meio  de uma carga concentrada no nó do pórtico:

O peso próprio da laje alveolar considerado é 2,87 kN/m², o que resulta na distribuição  de carregamento para as vigas situadas na direção de:

Com relação as sobrecargas nas estruturas, será considerado uma carga de utilização de  5,0 kN/m², que resulta sobre as vigas pré-moldadas na direção x o seguinte carregamento:

A capa da laje apresenta contribuição do seu peso próprio como uma sobrecarga  permanente sobre a viga pré-moldada na direção x: 

Para a alvenaria de vedação, foi considerada uma carga de 6,75 kN/m nas vigas. Na  sequência, estuda-se o carregamento proveniente da ação do vento na estrutura mediante as  diretrizes da ABNT NBR 6123 (2023). A velocidade básica (V0) do vento para a cidade de São Carlos foi estipulada via  isopletas como sendo 42 m/s. Para o fator topográfico (S1), adotou-se o valor igual a 1,0 devido  a presença de terreno plano. O fator estatístico (S3) é igual a 1,0, devido ao fato da edificação  de enquadrar nos requisitos do grupo 3 da Tabela 4 da norma ABNT NBR 6123 (2023). Para o  cálculo do fator de rugosidade (S2), é necessário conhecer os parâmetros bm, Fr e p que são  respectivamente 0,85, 0,98 e 0,125 extraídos das Tabelas 1 e do 2 da mesma norma devido a  edificação atender aos critérios da categoria IV e classe B. Com isso é possível determinar o  fator S2, velocidade característica do vento (Vk), pressão dinâmica do vento (q), carregamento  estático equivalente (qeq): 

O coeficiente de arrasto (Ca) foi obtido por meio do ábaco da Figura 4 da ABNT NBR  6123: 2023 e o fator de vizinha foi adotado com o valor 1,0. O comprimento L trata-se da distância perpendicular à ação do vento, ou seja, 37,50 m. Os cálculos foram organizados no  quadro abaixo.

Quadro 2: Ação do vento nos pavimentos e nós do pórtico.

Fonte: Autor, 2025

Nas Figuras abaixo tem-se o pórtico pré-moldado com os carregamentos aplicados  modelados no programa computacional FTOOL. Inicialmente a estrutura é carregada com as  ações do seu peso próprio em fase transitória articulada. Posteriormente, considera-se a ação da  carga de utilização, demais permanentes e o vento já em situação de ligação solidarizada. Os  valores abaixo são característicos. 

Figura 12: Carregamentos atuantes: a) Peso próprio das vigas, lajes, pilares e capa em fase  articulada; b) Sobrecarga e demais permanentes em fase solidarizada.

Fonte: Autor, 2025

Figura 13: Ação do Vento: a) Carregamento estático equivalente em cada pavimento; b)  Diagrama de momento fletor devido a ação do vento.

Fonte: Autor, 2025.

3.3 DIMENSIONAMENTO DA LIGAÇÃO 

Para o cálculo da armadura de continuidade da ligação viga-pilar foi utilizado as  diretrizes já mencionados na revisão bibliográfica, bem como a metodologia de cálculo de  Carvalho e Figueiredo Filho (2024) baseada na ABNT NBR 6118 (2023). O esquema estático  para a determinação do vão da viga é dado via Figura 14.

Figura 14: Esquema estático das vigas pré-moldadas de concreto.

Fonte: Autor, 2025

As ações que são mobilizadas pela ligação são: sobrecarga, vento e demais  permanentes. Para tal, foi realizada uma combinação de ações em E.L.U para obter a envoltória.

Utilizando uma distância de 5,0 cm do C.G da armadura até a fibra tracionada da seção  (d’neg), calcula-se a armadura da ligação da seguinte maneira: 

Verificando se a armadura calculada é menor que a máxima e maior que a mínima,  condição exigida pela norma.

Na sequência determina-se a rigidez da ligação decorrente da quantidade de armadura  (7,49 cm²) sendo 4 barras de 16 mm (8,0 cm² de área efetiva). Na Figura 15 consta o esquema  das ligações que serão utilizadas no pórtico.

Figura 15: Esquema de cálculo da ligação viga-pilar pré-moldada a) Tipologia 3; b) Tipologia  1.

Fonte: Autor, 2025

No Quadro 3 foram calculadas as rigidezes das ligações de tipologias 1 e 3, por meio das expressões presentes na revisão de literatura. Para o cálculo foi utilizado o módulo de  elasticidade do aço (Es) CA50 de 210 GPa, coeficiente redutor de rigidez para as vigas (αNLF) de 0,50. O cálculo do módulo de elasticidade inicial do concreto, momento de inércia bruto da viga e da rigidez secante da viga foram obtidos da seguinte maneira:

Quadro 3: Parâmetros de cálculo da rigidez da ligação viga-pilar.

Fonte: Autor, 2025

Na sequência determina-se a quantidade de armadura da ligação viga-pilar para a  situação da viga moldada in-loco. Para tal, determina-se o momento na extremidade da peça  considerando a presença simultânea dos carregamentos com a sua devida combinação de ações:

 A quantidade de armadura da ligação viga-pilar para a situação monolítica corresponde  a 6,70 cm², ou seja, 4 barras de 16 mm (8,0 cm² de área efetiva). 

3.4 DIMENSIONAMENTO DAS VIGAS  

Para o cálculo da armadura positiva da viga foram extraídos do programa FTOOL os  momentos de cálculo em duas situações com seus carregamentos: fase isostática  (1,3.gviga+1,3.glaje+1,4.gcapa) e fase solidarizada (1,4.g4 + 1,5.q + 1,4.0,6.vento). Para a  consideração do vento, foi realizado um processo mecanicamente equivalente de transferência  de esforços.

Figura 16: Momentos de cálculo (kN.m): a) Fase isostática; b) Fase solidarizada.

Fonte: Autor, 2025

Para o cálculo da armadura positiva, seria necessário uma quantidade de 6 barras de 16  mm.   A mesma viga, será calculada apenas para o esquema estático bi-apoiado, prática  usualmente utilizada nos cálculos de viga em concreto armado, desde que sua armadura  negativa seja determinada viga engastamento viga-pilar, conforme realizado no item anterior.  Para tal foi utilizado a mesma combinação de ações acima, no entanto todas as cargas vão entrar  juntas no esquema estático (1,4.gviga+1,4.glaje+1,4.gcapa +1,4.g4 + 1,5.q + 1,4.0,6.vento).

Figura 17: Momentos de cálculo (kN.m) para a situação in loco.

Fonte: Autor, 2025

A armadura longitudinal positiva para a situação in-loco corresponde a 10 barras de 16  mm. 

3.5 AVALIAÇÃO DA ESTABILIDADE GLOBAL 

Para a avaliação da estabilidade global da estrutura foi utilizado o processo do gama z  conforme descrito na ABNT NBR 6118 (2023). Para essa verificação, a combinação normal de  ações em E.L.U é dada conforme as expressões abaixo para o pórtico pré-moldado de concreto,  em que se considera a ação do vento como variável principal:

Inicialmente é necessário determinar os deslocamentos de primeira ordem devido a ação  do vento (majorada). Para tal, foi modelado o pórtico no programa FTOOL já considerando o  engastamento parcial das ligações por meio do coeficiente de modificação da rigidez (γmod) e  as não linearidades físicas das vigas e pilares. Na sequência foi elaborado uma tabela para  organizar os cálculos e combinações de carregamentos. É importante destacar que as cargas  verticais decorrente das ações nas vigas são obtidas para cada pavimento mediante o produto  da carga distribuída pelo vão total dos tramos do pórtico (15m), enquanto os pilares são obtidos  pela soma das cargas concentradas nos pavimentos (3×18,75 kN).

Figura 18: Deslocamentos no pórtico semi-rígido devido ao vento: a) Ação do Vento como  variável principal; b) Deslocamentos em cm.

Fonte: Autor, 2025

Quadro 4: Análise do efeito de 2° ordem do pórtico pré-moldado de concreto.

Fonte: Autor, 2025

Nota-se que a estrutura é de nós fixos pois o coeficiente resultou no valor de 1,05 <  1,10. Tal fato evidencie que o momento de segunda ordem (com a estrutura deslocável) é muito  menor quando comparado com o momento primeira ordem (com a estrutura indeslocável).

Na sequência, foi realizada a análise da estabilidade global para a estrutura monolítica,  também obtendo os deslocamentos causados pela ação do vento majorada. É importante  destacar que no pórtico monolítico simulado foram consideradas as não linearidades da vigas e  pilares por meio dos seus coeficientes redutores de rigidez à flexão, sendo 0,40 para as vigas e  0,80 para os pilares. 

Figura 19: Deslocamentos no pórtico monolítico devido ao vento: a) Ação do Vento como  variável principal; b) Deslocamentos em cm.

Fonte: Autor, 2025

Para a análise da estrutura monolítica foi utilizado a mesma combinação de ações  anterior, no entanto, todas as cargas permanentes são multiplicadas por 1,4: 

Quadro 5: Análise do efeito de 2° ordem do pórtico monolítico de concreto.

Fonte: Autor, 2025

Nota-se que a estrutura é de nós fixos pois o coeficiente resultou no valor de 1,03 <  1,10. Tal fato evidencie que o momento de segunda ordem (com a estrutura deslocável) é muito  menor quando comparado com o momento primeira ordem (com a estrutura indeslocável). 

4. ANÁLISE DE RESULTADOS  

Com base nos cálculos apresentados anteriormente, é possível comparar o desempenho da estrutura pré-moldada de o concreto com a estrutura monolítica em diversos aspectos como:

  • Nota-se que do ponto de vista de combinações de ações ambas apresentaram a mesma  situação crítica de cálculo, ou seja, para a determinação da armadura longitudinal a  carga acidental deve ser a principal e o vento como variável secundária, enquanto que, para a análise da estabilidade global o vento deve ser tomado como variável principal  devido a magnitude dos deslocamentos laterais causados no pórtico; 
  • Com relação as armadura da ligação, a situação semi-rígida resultou em 7,49 cm² (4 barras de 16 mm) e a monolítica em 6,70 cm² (4 barras de 16 mm), ou seja, a mesma  quantidade de armadura;
  • As mesmas quantidades de armaduras na região da ligação para ambos os casos  resultaram em engastamentos diferentes. A tipologia 1 (ligação da viga com o pilar de  centro) promoveu um engastamento de 55,51%, enquanto a tipologia 2 (ligação da viga  com o pilar de canto) promoveu um engastamento de 52,14 %. Já a situação monolítica,  resultou em um engastamento de 54,66% evidenciando assim que as estruturas pré moldadas de concreto podem atingir um nível de rigidez com ordem de grandeza  similar as de estruturas monolíticas sem a utilização de solda nas ligações;
  • Para as armaduras longitudinais positivas foi necessário 15,43 cm² (6 barras de 16 mm) na situação semi-rígida, enquanto a situação monolítica resultou em 18,87 cm² (10  barras de 16 mm); 
  • Com relação a análise da estabilidade global, o pórtico pré-moldado de concreto  apresentou o coeficiente gama z de 1,05, enquanto o pórtico monolítico resultou no  valor de 1,03 para esse coeficiente. Tais valores mostram que uma estrutura com  ligações semi-rígida pode apresentar deslocabilidade semelhante a de uma moldada no  local, ou seja, apresentando nós fixos. Esse é um fato interessante pois os  deslocamentos da estrutura pré-moldada de concreto tende a ser maior do que a  monolítica, no entanto, a rigidez promovida pela ligação tem reflexo positivo no  cálculo. 

5. CONCLUSÃO 

A partir da análise dos resultados, foi possível concluir que as estruturas pré-moldadas  de concreto podem (quando corretamente dimensionadas) promover um nível de rigidez  semelhante as estruturas monolíticas sem a utilização de solda nas ligações. Do ponto de vista  de dimensionamento, a consideração das cargas nas estruturas pré-moldadas de concreto deve  ser feito com critério e majoradas de maneira correta pois essa etapa irá refletir diretamente no  comportamento da mesma em E.L.S e E.L.U para o cálculo das armaduras e análise da  estabilidade global. Nesse sentido, o crescente uso dessas estruturas sempre estará em potencial  de aplicação, pois é possível obter uma estrutura com desempenho estrutural semelhante a de  uma monolítica com tempo reduzido e racionalização dos materiais otimizada.

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1Graduando do Curso de Engenharia Civil da Universidade de Araraquara- UNIARA. Araraquara-SP.
E-mail: ferrari02Felipe@gmail.com

2Orientador. Docente Curso de Engenharia Civil da Universidade de Araraquara- UNIARA. Araraquara-SP.
E mail: jfotrente@uniara.edu.br

3Coorientador. Docente Curso de Engenharia Civil da Universidade de Araraquara- UNIARA. Araraquara-SP.
E-mail: jequaresma@uniara.edu.br