INCIDÊNCIA E PREVALÊNCIA DAS FRATURAS DE COLUNA VERTEBRAL EM UM CENTRO DE REFERÊNCIA DA AMAZÔNIA OCIDENCIAL ENTRE OS ANOS DE 2022 E 2024

INCIDENCE AND PREVALENCE OF SPINAL FRACTURES IN A REFERENCE CENTER IN WESTERN AMAZONIA BETWEEN 2022 AND 2024

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511131531


Idevaldo Galvão Costa Filho; Fernando Costenaro; Anna Carolina Becker Tschurtschenthaler Costa; Amom Mendes Fernandes Rocha; Hallan Rodrigues Mendonça1; Guilherme Augusto Foizer2


Resumo

INTRODUÇÃO: As fraturas de coluna vertebral representam importante problema de saúde pública, com impacto significativo na qualidade de vida e nos custos hospitalares, especialmente em regiões com recursos limitados. Estudos apontam maior ocorrência em mulheres acima de 50 anos e em adultos economicamente ativos expostos a traumas de alta energia, como acidentes de trânsito e quedas. Contudo, há carência de dados epidemiológicos na Amazônia Ocidental, dificultando o planejamento de ações preventivas.  OBJETIVO: O presente estudo teve como objetivo estimar a incidência e prevalência das fraturas de coluna vertebral atendidas no Hospital de Base Dr. Ary Pinheiro entre 2022 e 2024, caracterizando o perfil epidemiológico quanto a sexo, idade, mecanismo do trauma e segmento acometido. METODOLOGIA: Trata-se de um estudo transversal, retrospectivo e quantitativo, com análise de 265 prontuários do Instituto de Neurocirurgia e Neurologia da Amazônia Ocidental. As variáveis demográficas, clínicas e traumáticas foram descritas por frequências absolutas e relativas, aplicando-se teste qui-quadrado para associações com nível de significância de 5%.  RESULTADOS: Os resultados revelaram predominância do sexo masculino (83,7%), principalmente entre 31 e 60 anos. Acidentes de trânsito foram a principal causa em ambos os sexos, seguidos por quedas de altura e da própria altura — estas últimas mais frequentes em mulheres idosas. O segmento toracolombar foi o mais acometido (55,8%), seguido pelo cervical (44,2%). Fraturas cervicais associaram-se a traumas de alta energia, como colisões e mergulhos em águas rasas, enquanto quedas afetaram principalmente os segmentos torácico e lombar. A maioria dos casos exigiu tratamento cirúrgico.  CONCLUSÃO: Conclui-se que há predominância de fraturas vertebrais em homens adultos jovens, com destaque para os segmentos toracolombar e cervical. A prevalência de acidentes de trânsito e quedas reforça a urgência de políticas públicas preventivas e protocolos de manejo adequados à realidade da Amazônia Ocidental.

1 INTRODUÇÃO

As fraturas vertebrais representam um importante problema de saúde pública, com impacto significativo sobre a qualidade de vida e os custos assistenciais, especialmente em regiões com recursos limitados. Nota-se um padrão de prevalência de fraturas vertebrais morfométricas em mulheres acima de 50 anos variando entre 11 % e 19 % na América Latina, inferior às taxas observadas na Europa e América do Norte.1

No Brasil, a incidência padronizada dessas lesões foi estimada em aproximadamente 40,3/1.000 usuárias‑ano e 30,6/1.000 usuários‑ano em população idosa residente em áreas de baixa renda.2

Apesar da ampla relevância clínica e social das fraturas vertebrais, ainda há escassez de levantamentos epidemiológicos aprofundados sobre essas lesões no contexto hospitalar brasileiro. Estudos realizados em instituições de alta complexidade revelam padrões repetitivos, como a predominância de pacientes do sexo masculino, adultos em idade economicamente ativa e com lesões localizadas preferencialmente nos segmentos torácicolombares da coluna.3

Além disso, evidencia-se a frequência elevada de fraturas decorrentes de mecanismos traumáticos de alta energia, como quedas e acidentes de trânsito, o que reforça a associação direta entre esses eventos e a dinâmica urbana e ocupacional das regiões analisadas. A carência de dados regionais sistematizados sobre essas ocorrências compromete a construção de políticas públicas eficazes e a adoção de medidas preventivas específicas para diferentes realidades socioespaciais.3

Nesse sentido, esse perfil epidemiológico é reforçado por análises nacionais que apontam diferenças marcantes na distribuição das fraturas vertebrais segundo sexo e faixa etária. Homens jovens tendem a ser mais acometidos por traumas de alta energia, frequentemente relacionados a atividades laborais e acidentes de trânsito, enquanto entre as mulheres, especialmente a partir da meia-idade, predominam fraturas por fragilidade, muitas vezes vinculadas à osteoporose e às quedas da própria altura.4

Esses achados demonstram que, para além das causas externas, fatores biológicos e sociais também modulam a ocorrência dessas lesões, exigindo abordagens direcionadas de prevenção e manejo em diferentes grupos populacionais.4

Há falta de estudos regionais, dificultando o planejamento de políticas públicas e intervenções preventivas adaptadas às condições locais, como acesso restrito à saúde e padrões específicos de trauma. Este trabalho visa estimar a incidência e prevalência de fraturas de coluna vertebral atendidas em um hospital de referência da Amazônia Ocidental entre 2022 e 2024. Serão descritos perfil epidemiológico, idade, sexo, etiologia e segmento afetado. O objetivo é preencher lacunas de conhecimento e subsidiar ações regionais de saúde.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

De acordo com Larsson et al. (2021), as fraturas constituem um importante problema clínico que requer avaliação cuidadosa e manejo especializado, estando entre as principais causas de morbidade e mortalidade no cenário mundial. Conhecer o perfil dos pacientes que chegam aos hospitais com esse tipo de lesão é essencial para aprimorar a qualidade do atendimento, otimizar o uso de recursos e orientar estratégias eficazes de prevenção, tratamento e reabilitação.

Conforme Santiago et al. (2025), essas lesões podem ter diversas origens, como acidentes, quedas, prática esportiva ou doenças que comprometem a estrutura óssea. As quedas são a causa mais frequente de fraturas em idosos, enquanto os acidentes automobilísticos predominam entre adultos jovens. Ressalta, ainda, que o perfil dos pacientes com fraturas varia de acordo com fatores como idade, sexo, tipo de atividade, local anatômico envolvido e gravidade da lesão. A análise desses aspectos é fundamental para orientar o planejamento assistencial, direcionar recursos e definir medidas preventivas mais eficazes.

A análise do perfil dos pacientes com fraturas pode contribuir para a identificação de fatores de risco associados a lesões específicas e a compreensão das implicações clínicas e funcionais dessas fraturas. Por exemplo, certos grupos demográficos podem estar mais propensos a fraturas osteoporóticas, enquanto outros podem apresentar maior incidência de fraturas decorrentes de acidentes automobilísticos ou quedas.6

De acordo com Dias et al. (2025), a dor lombar é uma das principais responsáveis pelo afastamento de trabalhadores em idade produtiva, além de representar um dos maiores custos entre as doenças musculoesqueléticas. Na maioria dos casos, sua origem está relacionada a lesões de natureza mecânica, resultantes de esforços excessivos, posturas inadequadas ou movimentos repetitivos. Essas condições podem reduzir a movimentação do líquido sinovial nas articulações, o que favorece o desgaste precoce da cartilagem e o surgimento da dor.

3 METODOLOGIA 

Trata-se de um estudo transversal, retrospectivo e quantitativo, baseado na análise de dados secundários obtidos a partir de registros institucionais do Instituto de Neurocirurgia e Neurologia da Amazônia Ocidental (INAO), vinculado ao Hospital de Base Dr. Ary Pinheiro, em Porto Velho, Rondônia. Os dados analisados abrangem o período de 2022 a 2024 e foram extraídos do relatório anual interno da instituição.

As variáveis observadas incluíram sexo, faixa etária, local de residência, nível da fratura (cervical, torácica ou lombar), mecanismo do trauma, tipo de tratamento (cirúrgico ou conservador) e desfecho clínico (óbito ou recuperação). A seleção dessas variáveis permitiu a análise do perfil clínico-epidemiológico das fraturas da coluna vertebral atendidas na instituição.

A análise estatística foi realizada com o auxílio do programa Microsoft Excel®, por meio do cálculo de frequências absolutas e relativas, além da elaboração de gráficos para melhor visualização dos dados. Para avaliação das associações entre variáveis categóricas, foi utilizado o teste qui-quadrado, com nível de significância de 5%, excetuando-se situações com frequências zero em diversas categorias, nas quais o teste não foi aplicado.

Complementarmente, foi realizada uma revisão qualitativa da literatura nas bases SciELO, LILACS e PubMed, considerando publicações entre 201 e 2025. A busca foi realizada utilizando os descritores “Fraturas da Coluna Vertebral”, “Epidemiologia das Fraturas”, “Incidência”, “Prevalência”, “Traumatismo Raquimedular” e “Traumatismos da Coluna Vertebral”, além de termos associados como “trauma raquimedular”, “tratamento conservador”, “cirurgia de coluna” e “neurocirurgia emergencial”. Foram selecionados artigos originais, publicados em português, inglês ou espanhol, excluindo-se aqueles sem foco direto nas fraturas vertebrais ou duplicados entre bases.  

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES

No período de 2022 a 2024, foram analisados 265 casos de pacientes acometidos por fratura de coluna vertebral tratados no Hospital de Base Dr. Ary Pinheiro, sob acompanhamento do Instituto de Neurocirurgia e Neurologia da Amazônia Ocidental. Observou-se predomínio do sexo masculino em todos os anos, com 81,82% dos casos em 2022, 75,64% em 2023 e 84,09% em 2024. O sexo feminino representou 18,18%, 24,36% e 15,91% dos casos, respectivamente.

A distribuição por faixa etária (Tabela 1) revelou que os grupos de maior incidência foram aqueles entre 31 e 60 anos, que concentraram, juntos, mais de 57% dos casos em cada ano. Em 2022, o grupo de 31 a 45 anos representou 30,30% dos casos, seguido por 27,27% entre 46 e 60 anos. Em 2023, ambos os grupos (16-30 e 46-60 anos) apresentaram 25,64%, cada. Já em 2024, o grupo etário mais acometido foi de 31 a 45 anos (32,95%), seguido de 46 a 60 anos (30,68%). Os extremos de idade (0-15 e 75-100 anos) somaram uma pequena proporção em todos os anos, totalizando menos de 5% dos casos individualmente.

Tabela 1 – Número de pacientes segundo sexo e idade entre os anos de 2022 e 2024

Fonte: Autoria própria

A análise conjunta dos três anos de estudo evidencia um padrão consistente na relação entre sexo e causa das fraturas vertebrais (Tabela 2). Observa-se que os homens foram mais frequentemente acometidos por traumas de alta energia, enquanto nas mulheres houve maior proporção de fraturas decorrentes de quedas de menor impacto.

Os acidentes de trânsito predominaram em ambos os sexos, mas com maior representatividade entre os homens, reforçando o papel das atividades laborais e de locomoção de risco no perfil epidemiológico masculino. Já entre as mulheres, mecanismos como quedas de altura e quedas da própria altura tiveram peso proporcionalmente maior, sugerindo a influência de fatores domésticos e de fragilidade óssea.

Ao se analisar com mais rigor as causas dos acidentes, nota-se que os acidentes de trânsito se mantiveram como a principal etiologia para homens e mulheres em todos os anos analisados, respondendo por cerca de metade dos casos masculinos (50,57 % em 2022; 51,56 % em 2023; 46,84 % em 2024) e por um terço dos femininos (33,33 % em 2022; 35,71 % em 2023; 33,33 % em 2024). As quedas de altura ocuparam a segunda posição, sendo proporcionalmente mais frequentes nas mulheres em 2023 (35,71 %) e 2024 (44,44 %), enquanto nos homens permaneceram estáveis (entre 22,99 % e 28,12 %).

Esse contraste pode refletir diferenças na exposição ao risco, com homens mais sujeitos a acidentes ocupacionais e mulheres a quedas acidentais em ambientes não laborais, conforme demonstrado na Tabela 2.

As quedas da própria altura apresentaram clara predominância proporcional entre as mulheres, alcançando 33,33 % dos casos em 2022, 21,43 % em 2023 e 22,22 % em 2024, contravalores significativamente menores nos homens (5,75 %, 6,25 % e 3,80 %, respectivamente). Esse padrão é compatível com fraturas de baixa energia, comuns em idosas com osteoporose ou sarcopenia.

Outras causas menos incidentes, como derrubada de árvore, acidente de trabalho, acidente de mergulho em águas rasas e PAF, ocorreram quase exclusivamente entre homens, o que sugere forte vínculo com atividades de risco típicas de determinados setores laborais e recreativos presentes na realidade amazônica.  

Tabela 2 – Número e porcentagem de pacientes segundo sexo e causa.

Fonte: Autoria própria

Com relação aos segmentos da coluna acometidos, o segmento cervical (C1–C7) apresentou a maior incidência em dois dos três anos estudados: 43,81% dos casos em 2022 e 44,21% em 2024. Em 2023, entretanto, observou-se uma inversão, com predominância de fraturas no segmento lombar (L1–L5), que representaram 35,96% dos casos naquele ano. O segmento torácico (T1–T12) manteve proporção estável nos três anos, variando entre 30,53% e 34,29%.

Ao se comparar os dados anuais, nota-se que o número absoluto de casos apresentou leve variação: 99 em 2022, 78 em 2023 e 88 em 2024. A maior proporção de pacientes do sexo masculino foi registrada em 2024 (84,09%). O ano de 2023 apresentou uma distribuição mais equilibrada entre os segmentos da coluna vertebral, com valores similares entre fraturas cervicais (32,58%), torácicas (31,46%) e lombares (35,96%).

Em relação à associação entre sexo e segmento (Tabela 3), embora os dados por cruzamento direto não estejam tabulados nos relatórios, observa-se que a alta prevalência de pacientes do sexo masculino nos três anos sugere que a maioria das fraturas em todos os segmentos acometeram este grupo. Ademais, o padrão de distribuição indica que a atividade física e ocupacional de risco, mais comum em homens entre 30 e 60 anos, pode estar fortemente associada ao perfil de trauma observado.

Tabela 3 – Número de pacientes segundo sexo e segmento entre os anos de 2022 e 2024

Fonte: Autoria própria

A distribuição dos mecanismos de trauma por faixa etária revelou padrões coerentes com os grupos de risco esperados (tabela 4). Pacientes entre 31 e 60 anos foram os mais acometidos por acidentes de trânsito, com valores absolutos elevados e consistentes nos três anos: 23 casos em 2022, 18 em 2023 e 20 em 2024, concentrando mais da metade das ocorrências por essa causa. Esse grupo representa a faixa etária economicamente ativa, mais exposta a deslocamentos por rodovias e ao uso de motocicletas — realidade comum em regiões urbanas e periféricas da Amazônia Ocidental.

As quedas de altura também se mostraram mais frequentes nos adultos entre 31 e 60 anos, embora com distribuição mais homogênea entre as demais faixas etárias. Já entre os idosos (acima de 61 anos), os acidentes de trânsito mantiveram relevância, com 10 casos em 2022, 9 em 2023 e 7 em 2024, reforçando o risco persistente mesmo em idade avançada, seja como pedestres, passageiros ou condutores. Crianças e adolescentes (0–15 anos) foram pouco representativos no conjunto geral, com participação mínima e associada, predominantemente, às quedas e traumas de baixa energia.

No caso das quedas da própria altura (QPA), observou-se predomínio entre pacientes com mais de 60 anos, com maior proporção em 2022 (3 casos entre 61–75 anos e 1 entre 75– 100), e persistência nos anos seguintes. Esse padrão está em consonância com o envelhecimento populacional e o aumento da prevalência de osteoporose, sarcopenia e instabilidade postural nessa faixa etária. Ainda que menos frequente no total geral, a QPA representa uma causa significativa de fraturas no idoso, com impacto funcional e prognóstico frequentemente desfavorável.

Tabela 4 – Número e porcentagem de pacientes segundo idade e causa

Fonte: Autoria própria

Adultos entre 31 e 60 anos, os mais acometidos nos três anos, estão geralmente mais expostos a acidentes de trânsito, quedas de altura e acidentes ocupacionais. A predominância de fraturas cervicais em 2022 (46 casos, 43,81%) e 2024 (42 casos, 44,21%) sugere traumas de alta energia, como colisões automobilísticas ou mergulhos em águas rasas.

Em 2023, o aumento do número de fraturas lombares (32 casos, 35,96%) indica possível associação com quedas de altura ou acidentes relacionados ao trabalho físico, como construção civil e derrubada de árvores, situações comuns na realidade amazônica. Esses padrões sugerem que os mecanismos de trauma variam conforme o ano, mas permanecem relacionados à rotina laboral e à mobilidade urbana da população economicamente ativa.

Tabela 5 – Número e porcentagem de pacientes segundo idade e segmento

Fonte: Autoria própria

A correlação entre os mecanismos de trauma e os segmentos da coluna vertebral afetados demonstra que os acidentes de trânsito foram a principal causa de fraturas cervicais em todos os anos do estudo (Tabela 6). Esse tipo de trauma esteve associado a 24 casos de fraturas cervicais em 2022, 14 em 2023 e 22 em 2024. A frequência elevada nos segmentos cervicais reforça o impacto biomecânico de traumas de alta energia, frequentemente relacionados a colisões veiculares ou ejeções, onde o pescoço sofre desaceleração brusca e hiperextensão.

Por outro lado, as quedas de altura apresentaram padrão mais distribuído entre os segmentos da coluna. Em 2022, 9 fraturas cervicais, 10 torácicas e 5 lombares foram associadas a esse mecanismo. Essa tendência se repetiu nos anos seguintes, com leve predomínio das fraturas torácicas e lombares em 2023 e 2024. Esse dado sugere que as quedas de maior altura produzem impacto axial ou compressivo, atingindo segmentos inferiores da coluna com maior frequência, embora o padrão da queda e a superfície de impacto também influenciem no nível lesional.

As quedas da própria altura (QPA), por sua vez, concentraram-se majoritariamente em fraturas cervicais e torácicas de menor complexidade, sendo associadas a 5 casos cervicais em 2022, 4 em 2023 e 4 em 2024. As fraturas lombares foram raras nesse contexto. Isso confirma o perfil de trauma de baixa energia típico da QPA, com repercussão mais comum em vértebras de transição, especialmente quando há fatores predisponentes como osteoporose ou doenças degenerativas.

Tabela 6 – Número e porcentagem de pacientes segundo causa e segmento entre os anos de 2022 e 2024

Fonte: Autoria própria

Por fim, em todos os anos analisados, o predomínio dos casos cirúrgicos em detrimento dos conservadores foi mantido, refletindo a gravidade das lesões tratadas: 88 pacientes submetidos à cirurgia em 2022 (vs. 9 conservadores), 61 em 2023 (vs. 20), e 75 em 2024 (vs.11).

1.1. Predomínio Masculino e Fatores Associados às Fraturas Vertebrais

Para entender o panorama geral evidenciado, é fundamental compreender detalhadamente os fatores que influenciam nessa temática. Diante disso, nota-se que homens tendem a concentrar a maior parte das fraturas vertebrais traumáticas por maior exposição ocupacional e comportamental a cenários de alto risco, como trânsito, atividades manuais pesadas, uso de motocicletas e jornadas itinerantes, bem como padrões de mobilidade e lazer que ampliam a chance de impactos de alta energia.

Em nossa análise, realizada no Hospital de Base Dr. Ary Pinheiro entre 2022 e 2024, os pacientes do sexo masculino corresponderam a 83,7% do total de 265 casos, predominando especialmente na faixa etária entre 31 e 60 anos, coincidindo com os segmentos mais expostos a deslocamentos diários e tarefas com potencial de queda de altura ou colisão veicular. Esses achados corroboram coortes hospitalares brasileiras recentes, em que a participação masculina variou de ~70% a 75% dos casos.8

Nesse sentido, o predomínio masculino também se explica por determinantes populacionais do trauma no Brasil: acidentes de transporte seguem entre as principais causas de morbimortalidade, afetando desproporcionalmente homens jovens e adultos, especialmente motociclistas, pedestres e trabalhadores do transporte e construção civil.

1.2. Mecanismos de Trauma e Padrões Epidemiológicos

Em nossa série Em nossa série, acidentes de trânsito representaram 50,57% dos casos masculinos em 2022, 51,56% em 2023 e 46,84% em 2024, reforçando que a maior parte das lesões traumáticas graves recaem sobre homens na idade economicamente ativa. Fatores como exposição ao tráfego intenso, condução de motocicletas e comportamentos de risco — incluindo velocidade e álcool — ajudam a sustentar a diferença por sexo observada, refletindo diretamente a realidade analisada no centro de referência da Amazônia Ocidental.9,10

Cabe ainda pontuar a necessidade de avaliar porque determinados mecanismos superam outros, tendo em vista que o padrão brasileiro combina elevada motorização de duas rodas, deslocamentos extensos e infraestrutura rodoviária/urbana heterogênea, condições que fazem dos acidentes de trânsito a principal etiologia nas séries hospitalares de fratura vertebral. Em nosso estudo, colisões e atropelamentos foram responsáveis por parcela substancial das fraturas cervicais e toracolombares, condizentes com a biomecânica de alta energia (desaceleração/hiperflexo-extensão), reforçando padrões observados em serviços de grande volume.8,9

Em contraponto, as quedas, sejam elas de altura ou da própria altura, despontam como segunda via crítica, com perfis distintos conforme idade e sexo. No Hospital de Base Dr. Ary Pinheiro, quedas de altura corresponderam a 22,3% a 28,1% dos casos masculinos, associadas principalmente a contextos ocupacionais e construção civil, enquanto quedas da própria altura foram significativamente mais frequentes em mulheres (33,33% em 2022 e 44,44% em 2024), refletindo fragilidade óssea, sarcopenia e instabilidade postural.

Esses dados reforçam o padrão descrito na literatura nacional e evidenciam que a participação proporcionalmente maior de QPA em mulheres mais velhas está intimamente ligada à idade avançada e menor T-score lombar.11,12,13

1.3. Distribuição dos Segmentos Acometidos e Aspectos Biomecânicos

Além disso, no presente estudo, que analisou 265 casos entre 2022 e 2024, observou-se que o segmento toracolombar foi o mais acometido, com 55,8%, enquanto o cervical representou 44,2% dos casos. Sob essa constatação, pode-se inferir que essa distribuição reforça a região toracolombar como área de maior fragilidade biomecânica da coluna.

Assim, estudos descrevem que a transição toracolombar, principalmente T12 e L1, é a área mais suscetível a fraturas em virtude da mudança abrupta entre a rigidez torácica, sustentada pelas costelas, e a maior mobilidade lombar.14 Essa discrepância proporciona a concentração de forças compressivas e cisalhantes no local.15

Os achados do estudo são compatíveis com as literaturas da traumatologia. Nesse sentido, um estudo retrospectivo realizado em Uberlândia com 202 pacientes, foi observada uma alta prevalência de fraturas toracolombares, especialmente em L1, com 12,4%, e T12, com 8,9%, seguidas de C6, com 7,4%.16 Esses trabalhos fortalecem a premissa que, em diferentes regiões do Brasil, o toracolombar permanece como o segmento mais vulnerável, com impacto direto sobre a capacidade funcional dos pacientes.

Apesar da região toracolombar ter sido predominante, o segmento cervical também apresentou alta frequência no presente estudo, com 44,1% nesta série, valor superior a outros estudos, nos quais as fraturas cervicais costumam variar entre com taxas menores de incidência. Nesse contexto, pode-se correlacionar essa incidência com os mecanismos de trauma, uma vez que na amostra observou-se que acidentes de trânsito representaram uma proporção elevada das causas, e estes estão frequentemente associados a fraturas cervicais de alta energia, muitas vezes, com repercussão neurológica grave.17

5 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

O desenvolvimento do estudo e a sua análise conjunta referente aos anos de 2022 a 2024 possibilitaram a identificação do perfil epidemiológico das fraturas vertebrais atendidas no serviço. Assim, foi observado que há um predomínio do sexo masculino, principalmente entre os indivíduos entre 31 e 60 anos. Em relação ao segmento acometido, foi notória uma maior prevalência de fraturas na região toracolombar, visto que o segmento cervical também apresentou uma frequência expressiva, em razão dos traumas de alta energia.

Ao se deparar com as causas, destacaram-se os acidentes de trânsito e as quedas de altura, seguidos por outros mecanismos de menor incidência, como mergulho em águas rasas e projéteis de arma de fogo. Esses cenários demonstram a importância de medidas preventivas voltadas tanto para a redução de acidentes automobilísticos, com campanhas de conscientização e fiscalização, quanto para a prevenção de quedas, especialmente em idosos.

Portanto, os resultados obtidos proporcionam também a promoção de subsídios para a formulação de estratégias de prevenção, protocolos de atendimento e políticas públicas. O reconhecimento da maior frequência das lesões toracolombares e cervicais, associadas a mecanismos de trauma distintos, reforça a necessidade de um cuidado multidisciplinar, desde o diagnóstico precoce até a reabilitação integral, com o objetivo de reduzir a morbimortalidade e o impacto social dessas lesões.  

REFERÊNCIAS

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1 Membro do corpo médico da Ortopedia e Traumatologia do Hospital de Base Dr. Ary Pinheiro, Porto VelhoRO. e-mail: idevaldo.gcf@gmail.com
2 Especialista em Ortopedia e Traumatologia da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. Mestre em fisiopatologia cirúrgica (UNICAMP). e-mail: drfoizer@gmail.com