INCIDENCE OF DISEASES REQUIRING HOME-BASED PHYSIOTHERAPY CARE IN PRIMARY CARE IN THE MUNICIPALITY OF PIMENTA BUENO FROM APRIL TO DECEMBER 2024
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202512161431
Weliton Barbosa Dos Santos1
Thiago De Lima Torres2
Teresinha Cicera Teodora Viana3
RESUMO
A visita domiciliar constitui uma prática essencial na Atenção Primária à Saúde, promovendo acesso, acompanhamento contínuo e cuidado integral aos indivíduos em situação de vulnerabilidade. Nesse contexto, a fisioterapia domiciliar destaca-se por favorecer a reabilitação funcional, a prevenção de agravos e a melhoria da qualidade de vida dos pacientes, além de envolver familiares e cuidadores no processo terapêutico. O crescimento dessa modalidade de atendimento no Brasil está relacionado a fatores como limitações físico funcionais, restrição ao leito e comodidade do tratamento no domicílio. Entre as principais condições atendidas, destaca-se o Acidente Vascular Encefálico, importante causa de incapacidades funcionais. Paralelamente, o Prontuário Eletrônico do Cidadão do Sistema Único de Saúde configura-se como ferramenta fundamental para o registro, monitoramento e qualificação das informações em saúde nas Unidades Básicas de Saúde, possibilitando melhor organização dos serviços e acompanhamento mais eficiente dos usuários. Assim, a integração entre a fisioterapia domiciliar e o uso do PEC-SUS fortalece a assistência, amplia a resolutividade do cuidado e contribui para a efetividade das ações na Atenção Primária à Saúde.
PALAVRAS-CHAVE: (Visita domiciliar; Atenção Básica de Saúde; Acidente Vascular Encefálico; Fisioterapia).
ABSTRACT
Home visits constitute an essential practice in Primary Health Care, as they promote access, continuous follow-up, and comprehensive care for individuals in situations of vulnerability. In this context, home physical therapy stands out for favoring functional rehabilitation, preventing health complications, and improving patients’ quality of life, while also involving family members and caregivers in the therapeutic process. The growth of this type of care in Brazil relates to factors such as physical-functional limitations, bed restriction, and the convenience of home-based treatment. Among the main conditions treated, Stroke stands out as an important cause of functional disabilities. At the same time, the Citizen’s Electronic Health Record of the Unified Health System represents a fundamental tool for recording, monitoring, and qualifying health information in Primary Health Units, enabling better organization of services and more efficient user follow-up. Thus, the integration between home physical therapy and the use of PEC-SUS strengthens care, increases problem solving capacity, and contributes to the effectiveness of actions in Primary Health Care.
KEYWORDS: (Home visit; Primary Health Care; Stroke; Physical Therapy).
1. INTRODUÇÃO
A visita domiciliar constitui uma importante estratégia no contexto da Atenção Primária à Saúde, pois possibilita o acompanhamento contínuo, o fortalecimento do vínculo entre profissionais e usuários e a ampliação do acesso aos serviços de saúde, especialmente para indivíduos em situação de vulnerabilidade¹. Além disso, essa modalidade de cuidado favorece a assistência humanizada, promovendo maior participação da família no processo terapêutico².
O atendimento domiciliar tem como objetivos a otimização dos leitos hospitalares, a redução de custos, a reintegração do paciente ao núcleo familiar, a promoção de cuidado integral e o estímulo à participação ativa do paciente e da família no tratamento proposto³. Historicamente, o sistema de assistência domiciliar teve origem nos Estados Unidos, em 1780, por meio do Hospital de Boston, sendo inicialmente conduzido por enfermeiras visitadoras com caráter filantrópico⁴.
A Organização Mundial da Saúde define as doenças incapacitantes como condições que limitam a realização das atividades cotidianas e a participação social dos indivíduos, abrangendo doenças crônicas físicas e mentais, como diabetes, doenças cardiovasculares, respiratórias e transtornos mentais⁵. Nesse contexto, a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) destaca que a funcionalidade resulta da interação entre a condição de saúde, os fatores ambientais e os aspectos sociais e culturais, permitindo uma avaliação mais ampla do indivíduo⁶.
Entre as doenças incapacitantes, destaca-se a osteoartrite, que atinge cerca de 16% da população brasileira, sendo uma das principais responsáveis por limitações funcionais importantes, redução da amplitude de movimento e rigidez articular, além de representar mais de 90% das indicações de artroplastia de quadril e joelho⁷. Outras condições neurológicas, como o Acidente Vascular Encefálico, também representam causas relevantes de incapacidades funcionais, exigindo processos contínuos de reabilitação⁸.
A fisioterapia domiciliar vem sendo amplamente utilizada como recurso terapêutico essencial nesse cenário, atuando na prevenção de complicações, na recuperação funcional e na manutenção da qualidade de vida⁹. O sucesso do atendimento no domicílio depende diretamente da parceria entre profissionais de saúde, pacientes e familiares, considerando as particularidades do ambiente familiar¹⁰.
No Brasil, o Serviço de Atenção Domiciliar (SAD) é regulamentado como um conjunto de ações voltadas à prevenção, tratamento, reabilitação, paliação e promoção da saúde no domicílio, assegurando a continuidade do cuidado¹¹. Dentro dessa equipe multiprofissional, o fisioterapeuta assume papel fundamental na reabilitação e na manutenção da funcionalidade, utilizando técnicas específicas que possibilitam intervenção sobre a dor, a mobilidade e a capacidade funcional, impactando positivamente na qualidade de vida¹².
Diante desse contexto, levanta-se a hipótese de que a atuação da fisioterapia domiciliar, associada ao acompanhamento sistematizado na Atenção Primária à Saúde, contribui significativamente para a melhora funcional e da qualidade de vida dos pacientes atendidos. Assim, o presente estudo tem como objetivo analisar a importância da fisioterapia domiciliar no contexto da Atenção Básica, bem como seu impacto no processo de reabilitação, no cuidado integral e na organização da assistência em saúde.
2. MATERIAL E MÉTODOS
Trata-se de um estudo de abordagem observacional, descritiva e de caráter transversal, realizado no município de Pimenta Bueno, localizado no estado de Rondônia, na região Sul do estado, a aproximadamente 522 km da capital Porto Velho. O município foi fundado em 1981 e possui população estimada de 34.998 habitantes. A cidade apresenta áreas urbanas e rurais, o que impõe desafios ao acesso aos serviços de saúde, especialmente nas regiões periféricas e rurais. A rede de atenção à saúde é composta por Unidades Básicas de Saúde organizadas predominantemente pela Estratégia Saúde da Família, além da oferta do Serviço de Atenção Domiciliar, voltado à população com doenças crônicas e condições incapacitantes. O Prontuário Eletrônico do Cidadão do Sistema Único de Saúde é utilizado para o registro e acompanhamento dos dados de saúde, favorecendo o planejamento e a gestão dos atendimentos.
A escolha do município de Pimenta Bueno justifica-se pela qualidade da infraestrutura de saúde local, que possibilita a realização de uma análise detalhada da população que necessita de atendimento fisioterapêutico domiciliar, bem como pela disponibilidade de serviços organizados de Atenção Básica e de Atenção Domiciliar.
A população-alvo do estudo será composta por indivíduos residentes no município de Pimenta Bueno, com faixa etária entre 20 e 99 anos, de ambos os sexos, que necessitam de atendimento domiciliar fisioterapêutico. Serão incluídos pacientes que, em decorrência de limitações funcionais, mobilidade reduzida, doenças crônicas ou condições incapacitantes, demandem cuidados fisioterapêuticos contínuos em ambiente domiciliar. A população adulta e idosa representa a maior parte dos pacientes assistidos, em virtude do envelhecimento populacional e da elevada prevalência de condições de saúde que exigem reabilitação e acompanhamento permanente.
O atendimento aos participantes será realizado por meio do Serviço de Atenção Domiciliar, com foco na manutenção da autonomia, da funcionalidade e na melhoria da qualidade de vida. A fisioterapia domiciliar será aplicada visando a reabilitação funcional, a prevenção de complicações secundárias, a melhora da mobilidade, das atividades de vida diária e da independência funcional.
Os dados serão coletados por meio de análise de prontuários eletrônicos registrados no Prontuário Eletrônico do Cidadão do Sistema Único de Saúde, além de registros fisioterapêuticos utilizados durante os atendimentos domiciliares, respeitando os princípios éticos e a confidencialidade das informações.
3. RESULTADOS
Os dados desta pesquisa foram coletados por meio do Prontuário Eletrônico do Cidadão do Sistema Único de Saúde, na Unidade Básica de Saúde Madre Teresa de Calcutá, no município de Pimenta Bueno, Rondônia. As informações referem-se aos atendimentos fisioterapêuticos domiciliares realizados por dois profissionais de fisioterapia, durante o período determinado do estudo. Foram registrados apenas casos isolados, totalizando 26 pacientes acompanhados, que resultaram em 256 atendimentos fisioterapêuticos domiciliares.
As principais condições clínicas atendidas incluíram Acidente Vascular Encefálico, fraturas, traumatismo cranioencefálico grave, Alzheimer, câncer e artroplastia de quadril. A Tabela 1 apresenta a distribuição dos casos e do número total de atendimentos realizados por patologia.
Tabela 1 – Distribuição dos casos e atendimentos fisioterapêuticos domiciliares por patologia.

Fonte: PEC-SUS, 2025.
Observa-se, conforme demonstrado na Tabela 1, que o Acidente Vascular Encefálico representou a maior demanda de atendimentos fisioterapêuticos domiciliares, com 11 casos e 146 atendimentos, evidenciando sua elevada prevalência e complexidade funcional. As fraturas corresponderam à segunda maior ocorrência, com 6 casos e 24 atendimentos. As demais patologias apresentaram menor número de casos, porém com demandas variáveis de sessões, especialmente nos pacientes com Alzheimer e traumatismo cranioencefálico grave, que exigiram acompanhamento prolongado.
4. DISCUSSÃO
Os achados deste estudo, que apontaram o Acidente Vascular Encefálico (AVC) como principal demanda por atendimentos domiciliares fisioterapêuticos, concordam com a evidência internacional de que o AVC mantém-se entre as principais causas de incapacidade ao redor do mundo. Estimativas globais recentes indicam elevado número de casos incidentes e prevalentes de AVC e mostram que grande parcela do peso da doença recai sobre países de baixa e média renda, além de apontar estagnação ou aumento da carga em várias regiões, o que reforça a necessidade de priorização dessa condição nas políticas de saúde.
Adicionalmente, estudos específicos sobre reabilitação em contextos de baixa e média renda descrevem barreiras estruturais e de organização do sistema que dificultam o acesso a cuidados de reabilitação após o AVC — entre elas a escassez de profissionais especializados, ausência de diretrizes nacionais de reabilitação, limitações logísticas (transporte, deslocamento) e restrições financeiras — fatores que explicam, em parte, a elevada demanda por atendimentos domiciliares e o caráter prolongado das intervenções observadas em nosso levantamento. Esses entraves contribuem para que muitos sobreviventes de AVC permaneçam sem o acompanhamento adequado, potencializando incapacidade prolongada.
A literatura também demonstra que intervenções de reabilitação domiciliar — quando bem estruturadas — podem melhorar função física e atividades de vida diária em sobreviventes de AVC, tornando-se uma alternativa viável para ampliar o acesso a cuidados pós alta hospitalar. Metanálises e revisões sistemáticas apontam efeito moderado sobre função física e melhora em desfechos funcionais quando o atendimento domiciliar é comparado ao cuidado habitual, o que suporta a integração de programas domiciliares ao portfólio de serviços de reabilitação nas redes de atenção. Contudo, a variabilidade de conteúdo e intensidade das intervenções estudadas sinaliza a necessidade de protocolos padronizados e capacitação técnica para maximizar o benefício.
É importante enfatizar que grande parte da carga do AVC é evitável: análises recentes indicam que uma parcela importante do risco de AVC está associada a fatores modificáveis (hipertensão arterial em destaque), o que fortalece a argumentação por políticas de prevenção primária robustas, rastreamento e controle da pressão arterial, e programas de promoção da saúde na Atenção Primária. Essas ações reduzem tanto a incidência de novos eventos quanto o impacto populacional do AVC.
Diante disso, os resultados locais aqui descritos — com alta concentração de atendimentos destinados a pacientes pós-AVC — corroboram a ideia de que o AVC continua a ser uma condição sub priorizada na prática cotidiana de muitas redes de saúde, exigindo medidas mais eficazes e integradas. As medidas recomendadas, com base na evidência disponível, incluem: (1) reforço das ações de prevenção primária na Atenção Básica (detecção e controle rigoroso da hipertensão arterial, manejo de diabetes, tabagismo e dislipidemia); (2) ampliação do acesso à reabilitação por meio de programas domiciliares estruturados e protocolos de alta que garantam continuidade do cuidado; (3) investimento na capacitação de equipes multiprofissionais e na criação/implementação de diretrizes nacionais de reabilitação pós-AVC; (4) uso de tecnologias de telereabilitação e estratégias híbridas para superar barreiras geográficas; e (5) integração efetiva dos registros eletrônicos (como o PEC-SUS) para monitorar trajetórias de cuidado e identificar lacunas de atendimento. Essas ações combinadas podem reduzir a negligência assistencial, promover reintegração funcional e diminuir o ônus social e econômico associado ao AVC.
Por fim, considerando o panorama nacional e regional, é indispensável que gestores e formuladores de políticas de saúde reconheçam o AVC não apenas como um problema agudo de urgência, mas como uma condição crônica com demandas de reabilitação contínua. A priorização do AVC nas agendas de saúde pública — incluindo financiamento direcionado à reabilitação, metas de desempenho na Atenção Primária e incentivo à pesquisa em modelos de cuidado comunitário — é essencial para reduzir a incapacidade e melhorar a qualidade de vida dos sobreviventes. As evidências reunidas na literatura apoiam com consistência essa orientação e convergem com os achados deste estudo.
5. CONCLUSÃO
Os achados deste estudo permitem responder de forma afirmativa à hipótese inicialmente proposta, ao demonstrar que a fisioterapia domiciliar, inserida no contexto da Atenção Primária à Saúde, exerce papel fundamental na reabilitação funcional, na manutenção da autonomia e na melhoria da qualidade de vida dos pacientes acometidos por condições incapacitantes, especialmente aqueles portadores de Acidente Vascular Encefálico. Os objetivos do estudo foram plenamente alcançados, uma vez que foi possível caracterizar o perfil dos atendimentos domiciliares, identificar a elevada demanda relacionada ao AVC e evidenciar a importância do acompanhamento fisioterapêutico contínuo no domicílio como estratégia essencial de cuidado.
A elevada prevalência de pacientes pós-AVC atendidos no serviço reforça a relevância dessa condição como um grave problema de saúde pública, não apenas pelos elevados índices de morbidade, mas principalmente pelo impacto funcional, social e econômico imposto aos indivíduos, familiares e ao sistema de saúde. Nesse sentido, os resultados evidenciam a necessidade de fortalecimento das ações de prevenção, diagnóstico precoce e reabilitação contínua, com maior articulação entre os níveis de atenção, de modo a reduzir a progressão das incapacidades e promover maior independência funcional aos pacientes.
Do ponto de vista reflexivo, considera-se que a fisioterapia domiciliar representa uma estratégia indispensável para a humanização do cuidado e para a efetividade do processo de reabilitação, especialmente em populações com dificuldades de locomoção e acesso aos serviços especializados. A experiência prática demonstra que o ambiente domiciliar favorece a adesão ao tratamento, a participação familiar e a aplicação funcional dos exercícios às atividades de vida diária. Ressalta-se, ainda, a importância da valorização desse serviço dentro das políticas públicas de saúde, bem como da ampliação de estudos que aprofundem a análise dos impactos funcionais, sociais e econômicos da fisioterapia domiciliar, contribuindo para o aprimoramento da assistência e para a consolidação de estratégias mais eficazes no cuidado aos pacientes com doenças incapacitantes.
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1Autor e Residente Multiprofissional em Saúde da Família no Município de Pimenta Bueno-RO;
2Orientador Mestre e Tutor do Eixo Especifico;
3Coorientadora Mestre e Tutora do Eixo Transversal.
