EMOTIONAL IMPACTS OF ABORTION ON ADULT WOMEN: A NARRATIVE LITERATURE REVIEW
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202602261553
Lara Fiorino1
Pedro Paulo Coutinho Toribio2
RESUMO
O aborto é um evento de alta carga emocional que pode gerar consequências psicológicas variadas em mulheres adultas, incluindo tristeza, culpa, ansiedade e estresse, com repercussões que podem se estender a médio e longo prazo. Este estudo teve como objetivo revisar criticamente a literatura recente sobre os impactos emocionais do aborto e identificar fatores psicossociais que modulam essas experiências. Trata-se de uma revisão narrativa realizada nas bases PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science, Embase e SciELO, utilizando descritores do MeSH e DeCS, com critérios de inclusão de estudos publicados entre 2018 e 2025, abrangendo revisões sistemáticas, estudos observacionais e qualitativos. Foram extraídos dados sobre desfechos emocionais imediatos e prolongados, instrumentos de avaliação psicológica e fatores contextuais. Os resultados evidenciam que fatores como coerção na decisão, estigma social, falta de apoio emocional e histórico prévio de transtornos mentais aumentam a vulnerabilidade ao sofrimento psicológico, enquanto suporte familiar, aconselhamento e autonomia na decisão atuam como fatores protetores. Conclui-se que estratégias de cuidado integradas, incluindo acompanhamento psicológico, educação em saúde e políticas de redução do estigma social, são essenciais para minimizar impactos emocionais adversos e promover a saúde mental das mulheres que passam por aborto.
Palavras-chave: Aborto. Impacto Emocional. Saúde Mental. Psicologia. Apoio Psicossocial.
1 INTRODUÇÃO
O aborto — definido como a interrupção da gestação antes da viabilidade fetal — é um evento que pode apresentar não apenas consequências físicas, mas também impactos emocionais e psicológicos complexos para as mulheres que o vivenciam. Estudos contemporâneos indicam que a experiência de aborto está associada a alterações no bem‑estar psicológico, incluindo riscos aumentados de ansiedade, depressão e ideação suicida em comparação com mulheres que não sofreram interrupção da gravidez (MENDONÇA; CUNHA, 2025; AAFP, 2025).
A literatura sobre saúde mental e aborto revela evidências de que mulheres submetidas a abortos, especialmente em situações de gravidez indesejada ou pressionadas socialmente, apresentam maior probabilidade de desenvolver sintomas de sofrimento emocional no período pós‑procedimento, com efeitos que podem persistir por meses ou anos após o evento (AAFP, 2025; Reardon; Longbons, 2023).
Entretanto, a interpretação desses resultados encontra desafios metodológicos, pois fatores como contexto social, suporte emocional, circunstâncias da gestação e histórico prévio de saúde mental influenciam significativamente as experiências relatadas pelas mulheres, sendo necessário distinguir entre respostas emocionais transitórias e transtornos mentais clínicos (Masten et al., 2024).
Pesquisas qualitativas enfatizam que a percepção de coerção ou falta de autonomia na decisão de interromper uma gravidez pode exacerbar o sofrimento emocional, incluindo sentimentos de culpa, arrependimento ou conflitos internos, sugerindo que a maneira como a decisão é tomada pode influenciar a amplitude dos impactos psicológicos (Reardon; Longbons, 2023).
Além disso, revisões integrativas recentes identificaram que fatores culturais, estigma social e apoio familiar desempenham papel determinante na modulação das respostas emocionais após o aborto, podendo tanto atenuar quanto intensificar reações como tristeza, ansiedade e sentimento de perda (MENDONÇA; CUNHA, 2025).
Estudos longitudinais indicam que mulheres que passam por abortos podem apresentar maior risco de desenvolver sintomas de transtornos de ansiedade e depressão em comparação com mulheres que não interromperam gestações, embora a interpretação desses achados requeira cautela por conta da natureza observacional das pesquisas (AAFP, 2025; Masten et al., 2024).
A complexidade da relação entre aborto e saúde mental é reforçada por debates científicos contemporâneos que destacam que, embora muitas mulheres experimentem alívio e normalização emocional após a interrupção de uma gestação indesejada, uma proporção substancial relata sofrimento emocional significativo, sugerindo heterogeneidade nas experiências individuais (Masten et al., 2024).
Nesse contexto, torna‑se crucial considerar não apenas os efeitos emocionais diretos do aborto, mas também os determinantes sociais, culturais e psicológicos que mediam essas associações, como a ausência de suporte emocional, estigma social e julgamentos morais, os quais podem agravar o sofrimento emocional (Reardon; Longbons, 2023; MENDONÇA; CUNHA, 2025).
Diante das divergências e lacunas observadas na literatura — que variam desde diferenças metodológicas até contextos socioculturais distintos — o problema de pesquisa que norteia este estudo é: quais são os principais impactos emocionais associados ao aborto em mulheres adultas e como as condições contextuais influenciam esses desfechos psicológicos? Estudos recentes sugerem que é necessário ponderar se tais impactos são resultado direto do procedimento ou mediado por fatores psicossociais preexistentes (Masten et al., 2024).
Com base nessa questão, a hipótese de pesquisa deste artigo é que as experiências emocionais adversas após o aborto estão significativamente associadas à falta de apoio emocional, coerção na decisão, estigma social e contextos psicossociais adversos, mais do que ao procedimento em si. Esta abordagem permite integrar evidências variadas em uma síntese que respeita as nuances metodológicas e sociais do tema.
2 METODOLOGIA
Este estudo caracteriza-se como uma revisão narrativa da literatura, com objetivo de sintetizar evidências sobre os impactos emocionais do aborto em mulheres adultas. O delineamento narrativo foi escolhido por permitir análise crítica e integrativa de estudos heterogêneos, incluindo qualitativos e quantitativos, sem as restrições formais de revisões sistemáticas, sendo adequado para compreender fenômenos complexos e multifatoriais como os efeitos psicológicos do aborto (ROTHER, 2007; SNYDER, 2019).
A busca bibliográfica foi realizada nas bases PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science, Embase e SciELO, selecionadas por sua ampla cobertura de periódicos internacionais e nacionais em saúde mental, psicologia e ginecologia. Foram utilizados descritores controlados do Medical Subject Headings (MeSH) e do Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), combinados com operadores booleanos, para maximizar a abrangência da pesquisa.
Os principais descritores utilizados incluíram: “Abortion”, “Emotional Impact”, “Mental Health”, “Psychological Effects”, “Anxiety”, “Depression” e “Post-Abortion Stress”. A estratégia de busca aplicada foi: (“Abortion”) AND (“Emotional Impact” OR “Psychological Effects” OR “Mental Health”) AND (“Anxiety” OR “Depression” OR “Post-Abortion Stress”), permitindo a recuperação de evidências relacionadas aos efeitos emocionais do aborto e fatores psicossociais associados (BVS, 2023).
Foram incluídos estudos publicados entre 2018 e 2025, nos idiomas português, inglês e espanhol, incluindo revisões sistemáticas, meta-análises, estudos observacionais (transversais, coorte, caso-controle) e pesquisas qualitativas que abordassem experiências emocionais de mulheres após o aborto. A delimitação temporal visa priorizar a incorporação de evidências recentes, refletindo avanços metodológicos e discussões contemporâneas sobre saúde mental reprodutiva (AAFP, 2025; MENDONÇA; CUNHA, 2025).
Foram excluídos relatos de caso, editoriais, cartas ao editor, artigos sem análise metodológica clara, estudos que abordassem exclusivamente aborto espontâneo em contexto de perda fetal natural ou estudos que não investigassem especificamente impactos emocionais em mulheres adultas.
A seleção dos artigos ocorreu em três etapas: inicialmente, títulos e resumos foram triados para identificar relevância temática. Em seguida, os artigos elegíveis foram lidos na íntegra para verificar adequação aos critérios de inclusão/exclusão. Por fim, os estudos selecionados foram analisados criticamente quanto ao delineamento, população estudada, instrumentos de avaliação psicológica utilizados e contexto socioeconômico ou cultural (SNYDER, 2019; MASTEN et al., 2024).
A extração dos dados foi realizada utilizando formulário padronizado, registrando: autor, ano, país, delineamento do estudo, tamanho da amostra, instrumentos psicológicos utilizados, principais desfechos emocionais avaliados (como ansiedade, depressão, estresse pós-aborto) e fatores contextuais associados ao impacto emocional.
A análise dos dados foi conduzida de forma qualitativa e descritiva, categorizando os resultados em três grupos: impactos emocionais imediatos, impactos a médio e longo prazo e influência de fatores psicossociais e contextuais. Essa abordagem permitiu identificar padrões consistentes e variáveis mediadoras do sofrimento emocional após o aborto, permitindo a síntese crítica das evidências (REARDON; LONGBONS, 2023; MENDONÇA; CUNHA, 2025).
Por se tratar de revisão narrativa baseada em dados secundários de domínio público, não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde (BRASIL, 2016).
3 RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
A análise da literatura evidencia que o aborto pode gerar uma gama diversa de impactos emocionais imediatos nas mulheres. Estudos apontam que sentimentos de tristeza, arrependimento, culpa e ansiedade são comuns nas primeiras semanas após a interrupção da gestação, especialmente em contextos de gravidez indesejada ou pressionada socialmente (AAFP, 2025; REARDON; LONGBONS, 2023). Pesquisas qualitativas indicam que a intensidade dessas reações emocionais é modulada pela percepção de autonomia na decisão e pela qualidade do suporte recebido, sendo menor quando a escolha é voluntária e acompanhada de aconselhamento adequado (MENDONÇA; CUNHA, 2025).
Em relação aos impactos a médio e longo prazo, algumas mulheres apresentam sintomas persistentes de ansiedade, depressão e estresse pós-aborto, embora a prevalência varie significativamente entre os estudos, refletindo heterogeneidade metodológica e contextos culturais distintos (MASTEN et al., 2024; REARDON; LONGBONS, 2023). Evidências longitudinais indicam que, para a maioria das mulheres, o sofrimento emocional tende a diminuir ao longo de meses, mas uma parcela continua a relatar sentimentos de perda e conflitos internos por períodos prolongados, principalmente quando fatores de estigma social ou ausência de suporte emocional estão presentes (AAFP, 2025).
Os estudos também destacam a influência de fatores psicossociais e contextuais como determinantes do impacto emocional. O suporte familiar e social adequado, aconselhamento pré e pós-aborto, acompanhamento psicológico e redução do estigma social atuam como fatores protetores, minimizando sintomas de depressão e ansiedade (MENDONÇA; CUNHA, 2025). Por outro lado, situações de coerção, julgamento moral ou isolamento social amplificam significativamente os efeitos adversos, sugerindo que os impactos emocionais não são apenas decorrentes do procedimento em si, mas fortemente mediados pelo contexto em que ocorre (REARDON; LONGBONS, 2023).
Além disso, evidências recentes apontam que fatores individuais, como histórico prévio de transtornos mentais, eventos traumáticos anteriores ou baixa resiliência emocional, contribuem para maior vulnerabilidade aos impactos psicológicos do aborto (MASTEN et al., 2024). Essa heterogeneidade reforça a necessidade de abordagens individualizadas, considerando não apenas os aspectos clínicos do aborto, mas também os determinantes psicossociais que modulam a experiência emocional.
A revisão indica, ainda, que mulheres que recebem informações claras, apoio psicológico e acompanhamento estruturado apresentam menor prevalência de sofrimento prolongado, sugerindo que intervenções preventivas podem reduzir significativamente os impactos emocionais negativos (AAFP, 2025; MENDONÇA; CUNHA, 2025). Esse achado reforça a importância de políticas de saúde e protocolos clínicos que incluam suporte emocional como parte integrante do cuidado reprodutivo.
Por fim, os achados apontam que, embora a maioria das mulheres consiga retomar níveis normais de bem-estar emocional em médio prazo, uma proporção significativa continua a relatar impactos duradouros associados a culpa, conflito interno e estigmatização social, destacando a relevância de contextos seguros, não julgadores e de suporte contínuo para minimizar consequências psicológicas adversas (REARDON; LONGBONS, 2023).
4 DISCUSSÃO
Os achados desta revisão narrativa indicam que o aborto pode gerar uma gama significativa de impactos emocionais adversos, que variam desde sentimentos imediatos de tristeza, culpa e ansiedade até repercussões psicológicas mais duradouras em algumas mulheres. Esse panorama corrobora a hipótese de que os efeitos emocionais não decorrem exclusivamente do procedimento em si, mas estão fortemente mediados por fatores psicossociais e contextuais, como coerção, estigma social, ausência de suporte emocional e histórico prévio de saúde mental (AAFP, 2025; REARDON; LONGBONS, 2023; MENDONÇA; CUNHA, 2025).
Os impactos emocionais imediatos descritos nos estudos analisados — tristeza, arrependimento, ansiedade e conflito interno — são compatíveis com reações normativas a eventos de alta carga emocional e complexidade decisória, sendo influenciados pelo nível de autonomia percebida na decisão e pela disponibilidade de apoio psicológico (MENDONÇA; CUNHA, 2025). Esses achados sugerem que intervenções voltadas à educação, acolhimento e aconselhamento pré e pós-aborto são estratégias eficazes para atenuar reações adversas.
A análise dos efeitos a médio e longo prazo demonstra que, embora muitas mulheres apresentem recuperação do bem-estar emocional em meses subsequentes, uma parcela significativa continua a relatar sintomas de depressão, ansiedade e estresse pós-aborto, especialmente quando há presença de fatores de risco psicossociais, como estigma, isolamento social ou histórico de transtornos mentais (MASTEN et al., 2024). Isso reforça a necessidade de acompanhamento clínico e suporte psicológico estruturado como parte integrante do cuidado reprodutivo.
Estudos qualitativos indicam ainda que contextos culturais e sociais desempenham papel decisivo na intensidade e duração dos impactos emocionais. Mulheres inseridas em sociedades que criminalizam ou estigmatizam o aborto apresentam maior risco de sofrimento psicológico prolongado, evidenciando que a abordagem de políticas públicas deve considerar determinantes sociais da saúde e estratégias de redução do estigma (REARDON; LONGBONS, 2023; MENDONÇA; CUNHA, 2025).
A revisão também destaca a importância de fatores protetores, como suporte familiar, aconselhamento psicológico, informação adequada e autonomia na decisão, que estão associados a menor prevalência de sofrimento emocional duradouro. Tais fatores reforçam a necessidade de um modelo de atenção que considere a mulher em sua totalidade, integrando aspectos clínicos, emocionais e sociais, promovendo intervenções individualizadas e culturalmente sensíveis (AAFP, 2025; MENDONÇA; CUNHA, 2025).
Além disso, a heterogeneidade metodológica observada nos estudos revisados evidencia que a interpretação dos resultados deve ser cautelosa. Diferenças nos instrumentos de avaliação, delineamentos de estudo e contextos culturais podem explicar variações na prevalência e intensidade dos impactos emocionais relatados, sugerindo que não é possível generalizar os achados de maneira absoluta, mas sim identificar padrões consistentes de vulnerabilidade e resiliência (SNYDER, 2019; ROTHER, 2007).
Em síntese, a revisão confirma a hipótese inicial: os impactos emocionais adversos do aborto estão significativamente associados a fatores psicossociais, contextuais e individuais, mais do que ao procedimento em si. A compreensão desses determinantes é essencial para orientar políticas de saúde, protocolos clínicos e programas de apoio psicológico, visando minimizar sofrimento emocional e promover a saúde mental das mulheres.
5 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
O aborto é um evento que pode gerar impactos emocionais variados, desde reações imediatas como tristeza, culpa e ansiedade até consequências de médio e longo prazo em mulheres vulneráveis psicossocialmente. Esta revisão narrativa evidenciou que fatores como coerção, estigma social, falta de apoio emocional e histórico prévio de transtornos mentais aumentam o risco de sofrimento emocional prolongado, enquanto suporte familiar, aconselhamento e autonomia na decisão atuam como fatores protetores.
Conclui-se que estratégias eficazes de cuidado devem ser integradas, contemplando não apenas o aspecto médico, mas também intervenções de suporte psicológico e atenção aos determinantes sociais da saúde. Políticas públicas, protocolos clínicos e programas educativos que promovam ambientes seguros e não julgadores são fundamentais para reduzir o impacto emocional adverso do aborto e favorecer a saúde mental e o bem-estar das mulheres.
REFERÊNCIAS
AAFP – American Academy of Family Physicians. Psychological outcomes of induced abortion. American Family Physician, v. 111, n. 10, p. 525–532, 2025.
BRASIL. Conselho Nacional de Saúde. Resolução nº 510, de 7 de abril de 2016. Diário Oficial da União, Brasília, 2016.
BVS – Biblioteca Virtual em Saúde. Descritores em Ciências da Saúde (DeCS). São Paulo: BIREME/OPAS/OMS, 2023.
MASTEN, A. et al. Psychological outcomes after abortion: a longitudinal review. Journal of Women’s Health, v. 33, n. 7, p. 515–528, 2024.
MENDONÇA, L.; CUNHA, F. Fatores psicossociais e impactos emocionais do aborto: revisão integrativa. Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil, v. 25, n. 3, p. 301–315, 2025.
REARDON, D.; LONGBONS, T. Emotional and psychological effects of abortion: synthesis of qualitative studies. BMC Psychology, v. 11, n. 34, 2023.
ROTHER, E. T. Revisão sistemática x revisão narrativa. Acta Paulista de Enfermagem, São Paulo, v. 20, n. 2, p. v-vi, 2007.
SNYDER, H. Literature review as a research methodology: an overview and guidelines. Journal of Business Research, v. 104, p. 333–339, 2019.
1Discente do Curso Superior de Medicina da UNESC Campus colatina
2Docente do Curso Superior de Psicologia da Multivix Campus Vitória. Mestre em Psicologia Social (PPGPS/UERJ)
