IMPACTOS DO CONSUMO INDISCRIMINADO DE SUPLEMENTOS  ALIMENTARES: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA

IMPACTS OF THE INDISCRIMINATE CONSUMPTION OF DIETARY SUPPLEMENTS: A SYSTEMATC  REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202511300757


Thaís Rodrigues Melos1; Morgana Sousa da Cunha; Manoel Dias de Souza Filho2;  Valécia Natália Carvalho da Silva3; Ana Carolina Machado Leódido4


  RESUMO  

No cenário atual, observa-se, cada vez mais, uma busca por saúde e, consequentemente, por  alto rendimento esportivo, nutricional e estético. Nesse contexto, os suplementos assumem um  papel de aliados no suprimento das necessidades relacionadas ao bem-estar. Entretanto, devido  à ampla distribuição comercial e à facilidade de aquisição, a tendência de compra e uso abusivo  torna-se cada vez mais preocupante. Dessa forma, o presente estudo tem por objetivo avaliar,  analisar e compreender os efeitos e prejuízos clínicos associados ao uso indiscriminado de  suplementos vitamínicos, minerais e esportivos. Trata-se de uma revisão sistemática da  literatura, na qual foi empregado o protocolo Preferred Reporting Items for Systematic Reviews  and Meta-Analyses (PRISMA), a fim de assegurar uma descrição adequada das etapas do  estudo. Os principais achados estão relacionados aos riscos do consumo excessivo ou não  supervisionado de compostos nutricionais, destacando-se as resoluções negativas observadas,  sobretudo aquelas referentes à toxicidade, aos efeitos neurológicos e aos danos renais. As  evidências coletadas indicam a necessidade de maior fiscalização na comercialização de  suplementos, bem como da implementação de estratégias educativas voltadas à conscientização  da população sobre os riscos do consumo sem supervisão. Portanto, o uso de suplementos deve  ser pautado em avaliação clínica criteriosa e acompanhamento profissional, evitando práticas  de automedicação e protocolos sem respaldo científico. 

Palavras chave: toxicidade, suplementos, dietético 

ABSTRACT

In the current scenario, there is an increasing pursuit of health and, consequently, high athletic,  nutritional, and aesthetic performance. In this context, supplements play the role of allies in  meeting needs related to well-being. However, due to their wide commercial availability and  ease of acquisition, the trend toward purchasing and abusive use has become increasingly  concerning. Thus, the present study aims to evaluate, analyze, and understand the clinical  effects and harms associated with the indiscriminate use of vitamin, mineral, and sports  supplements. This is a systematic literature review in which the Preferred Reporting Items for  Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA) protocol was employed in order to ensure  an appropriate description of the study stages. The main findings are related to the risks of  excessive or unsupervised consumption of nutritional compounds, highlighting the negative  outcomes observed, especially those related to toxicity, neurological effects, and renal damage.  The evidence collected indicates the need for greater regulation of supplement  commercialization, as well as the implementation of educational strategies aimed at raising  public awareness about the risks of unsupervised consumption. Therefore, the use of  supplements should be based on thorough clinical evaluation and professional supervision,  avoiding self-medication practices and protocols without scientific support. 

Keywords: toxicity, supplements, dietary 

1 INTRODUÇÃO  

Os suplementos alimentares (SA) são amplamente utilizados pela população mundial  para diversas finalidades, tais como perda de peso, melhora do desempenho físico e intelectual,  estimulação sexual e reforço do sistema imunológico (PATRÍCIO, 2018). Considerando o  cenário atual, em que se observa, cada vez mais, a busca por saúde e, consequentemente, por  alto rendimento esportivo, nutricional e até mesmo estético, os suplementos assumem o papel  de aliados no suprimento dessas necessidades de bem-estar. Contudo, a prescrição de  suplementos deve ocorrer após avaliação sistematizada, englobando critérios objetivos e  subjetivos, a fim de identificar carências nutricionais e riscos decorrentes de sua deficiência  (OLIVEIRA et al., 2015). 

Entretanto, devido à ampla distribuição comercial e à facilidade de aquisição, a  tendência de compra e uso abusivo torna-se cada vez mais preocupante quando se direciona a  análise aos impactos à saúde que o uso indiscriminado pode causar. Para assegurar que os  suplementos alimentares proporcionem os benefícios esperados, é fundamental a manutenção de suas características até o fim do prazo de validade, considerando as instruções de  conservação e o modo de preparo indicados pelo fabricante, conforme o art. 10 da RDC nº  243/2018 (ANVISA, 2025). Assim, os critérios de fabricação, conservação e comercialização  garantem maior confiabilidade; entretanto, o consumo precisa ser consciente por parte dos  consumidores. 

Atualmente, a alimentação da população em geral é composta, em grande parte, por  produtos industrializados, muitas vezes pouco saudáveis. Devido à falta de tempo e à  praticidade, a aquisição desse tipo de alimento tem se tornado frequente no cotidiano das  pessoas, incluindo o uso de suplementos alimentares (FERREIRA et al., 2016). Esse cenário  potencializa o consumo desequilibrado, com o objetivo de compensar hábitos alimentares  inadequados e alcançar uma suposta “saúde”. 

Segundo a Pesquisa de Mercado ABIAD (Associação Brasileira da Indústria de  Alimentos para Fins Especiais e Congêneres), houve um aumento de 10% no consumo de  suplementos alimentares no Brasil entre os anos de 2015 e 2021. Em 2021, 59% dos lares  brasileiros possuíam ao menos uma pessoa que utilizava algum tipo de suplemento (FOOD  CONNECTION, 2024). Por conseguinte, torna-se relevante compreender os impactos da  suplementação indiscriminada, especialmente diante da falta de acompanhamento profissional,  que atinge diversos grupos populacionais, desde atletas até indivíduos influenciados a utilizar  suplementos de forma intuitiva. 

Diante dessa problemática, o presente estudo tem por objetivo geral avaliar, analisar e  compreender os efeitos e prejuízos clínicos associados ao uso indiscriminado de suplementos  vitamínicos, minerais e esportivos. Por meio desta revisão sistemática, foram identificadas  evidências que possibilitam responder aos riscos da suplementação não supervisionada. Dessa  forma, busca-se promover reflexões e incentivar práticas mais conscientes relacionadas à saúde  nutricional, a fim de reduzir o consumo desregulado de compostos nutricionais e evitar  complicações futuras. 

2 MATERIAIS E MÉTODOS 

O referido trabalho trata-se de uma revisão sistemática da literatura, cuja finalidade é  selecionar, analisar e sintetizar os indícios que evidenciam os prejuízos clínicos decorrentes do  uso indiscriminado de suplementos vitamínicos, minerais e esportivos. Para a seleção dos descritores, utilizou-se o DeCS como estratégia de busca, garantindo precisão e consistência  nos termos relacionados à área da saúde. 

A combinação dos descritores foi realizada por meio dos operadores booleanos AND e  OR, decidindo-se posteriormente incluir na triagem apenas os artigos encontrados com AND,  devido à maior especificidade. Os principais descritores utilizados e com melhores resultados  foram “toxicity”, “supplements” e “dietary supplements” para as buscas em inglês, e  “toxicidade”, “suplementação” e “nutracêuticos” para as buscas em português. 

A busca contemplou apenas estudos publicados nos últimos cinco anos, por meio das  bases de dados PubMed, ScienceDirect, SciELO e LILACS (via BVS), sendo incluídos artigos  nos idiomas inglês e português. Foram selecionados trabalhos do tipo ensaio clínico, meta análise, ensaio clínico randomizado e revisão, aceitando-se apenas aqueles realizados com  seres humanos e com acesso livre ao texto completo. 

O protocolo Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses – PRISMA (PAGE et al., 2021) foi empregado como estrutura metodológica da presente revisão  sistemática, a fim de assegurar uma descrição adequada das etapas do estudo, desde a busca e  seleção dos artigos até a apresentação dos resultados. 

Na fase de elaboração do fluxograma, na etapa de identificação, contabilizou-se o  número total de artigos, e, posteriormente, os duplicados foram removidos. Em seguida, na  etapa de triagem, foram avaliados os títulos e resumos, sendo excluídos aqueles não elegíveis  e, por fim, totalizaram-se os artigos selecionados para a leitura na íntegra. Na sequência, foram  removidos aqueles que não contemplavam a questão norteadora da pesquisa, baseada nos  prejuízos clínicos à saúde causados pela suplementação indiscriminada, até que se alcançasse  o número final de artigos incluídos. 

Figura 1. Fluxograma de identificação, triagem, elegibilidade e análise dos estudos incluídos  nesta revisão sistemática.

Fonte: Dados da pesquisa 2025. Autoria própria. 

No conjunto, foram identificados 465 estudos nas etapas iniciais de busca. Após a  remoção de duplicados (40 registros excluídos), 425 estudos foram encaminhados à etapa de  triagem por título e resumo. Destes, 20 artigos foram considerados elegíveis e seguiram para  leitura na íntegra. Dessa forma, com base nos critérios previamente estabelecidos, 8 estudos  foram incluídos na revisão, conforme demonstrado no fluxograma PRISMA (Figura 1). 

Os estudos incluídos foram selecionados devido à sua relevância na área da saúde e à  pertinência com o tema de interesse. Os critérios de inclusão abrangeram artigos nos idiomas  português e inglês, com acesso livre ao texto completo. Os estudos elegíveis contemplaram ensaios clínicos, meta-análises, ensaios clínicos randomizados e revisões, realizados  exclusivamente com seres humanos. 

3 RESULTADOS 

A pesquisa conduzida resultou em 8 artigos incluídos dentre os 20 selecionados para  leitura, os quais atenderam aos critérios de relevância, qualidade metodológica e alinhamento  com a questão norteadora. Esses 8 estudos abordam de maneira clara os efeitos clínicos  associados ao uso indiscriminado de multivitaminas, minerais e compostos esportivos,  envolvendo diversos grupos populacionais e diferentes abordagens metodológicas. Além dos  achados principais, alguns estudos também apresentaram outras perspectivas relevantes, como  a contaminação desses suplementos, a influência midiática no poder de compra e a facilidade  de acesso a esses produtos. 

As evidências coletadas permitiram identificar elementos como população-alvo  investigada, tipo de suplemento utilizado, objetivo, metodologia e conclusões com resultados.  A Tabela 1, a seguir, sintetiza as particularidades de cada estudo incluído, apresentando os  principais achados relacionados aos riscos do consumo excessivo ou não supervisionado desses  compostos nutricionais, destacando as resoluções negativas observadas, sobretudo aquelas  referentes à toxicidade, efeitos neurológicos e danos renais. 

Quadro 1. Características dos estudos incluídos.

AUTORES/AN OPOPULAÇÃO OBJETIVOS METODOLOGIA RESULTADOS
Daher et al.  (2021)Pré-adolescentes,  estudantes  
adolescentes  com idades  variadas,  
universitários,  atletas e  
treinadores 
Revisar as 
intervenções  educativas  
projetadas  para melhorar  o  
conhecimento , as intenções  e as práticas  sobre  
suplementos e  agentes dopantes
Revisão narrativa  com buscas  
realizadas em  bases de dados do  com finalidade de  verificar os efeitos  e características  das intervenções  educativas  
implementadas em  relação ao uso de  suplementos 
Constatou-se que,  apesar de as  
intervenções  
educativas sobre o  assunto  apresentarem efeito  promissor, ainda há  carência dessas 
ações, tornando  
necessária sua  
maior  
implementação.
Bertoldo et al.  (2022)Ele menciona  estudos com a  população  geral italiana,  pacientes com  doenças  
metabólicas e  indivíduos  com fatores de  risco para  deficiência de  vitamina D
Melhorar e  padronizar a  prática clínica,  
oferecer o melhor  
cuidado ao 
paciente e  garantir uma  referência 
para instituições
e  gestores de 
saúde 
Revisão  sistemática que  avaliou a qualidade  de evidências  sobre a avaliação e  tratamento da 
inadequação da 
vitamina D
Concluiu-se que a  suplementação é  eficaz quando bem  indicada, trazendo  benefícios apenas a  pacientes com 
níveis séricos  abaixo do recomendado e a  idosos com doenças  ósseas.
De Vincentis et  al. (2020)Mulher de 56  anos com  esclerose  
múltipla 
Apresentar os  riscos da  suplementação em dose  elevada de  vitamina DRelato de caso e  revisão narrativa  de uma mulher  com esclerose  múltipla, com  ingestão de  megadoses de  colecalciferolConcluiu-se que a  intoxicação por  vitamina D pode  ocorrer quando  administrada em  doses extremamente  elevadas.
Shukla et al.  (2025)3 pacientes  adultos (2  mulheres e 1  homem)Buscou  mostrar a  toxicidade  
neurológica  
causada por  
excesso de  
piridoxina (vitamina B12)
Casos clínicos  
observacionais que  todos tinham um  histórico de  
consumo excessivo de  vitamina B6 e  apresentavam  
sintomas  
neuropáticos 
Verificou-se que o  excesso de vitamina  B6 pode causar  
sintomas  
neurológicos, sendo  necessária a  orientação quanto à  avaliação das  concentrações  séricas ou até  
mesmo à  
interrupção do  
tratamento.
Lim et al. (2020) Pacientes  idosos, cita  ainda crianças,  adultos e  pessoas com  comorbidadesEvidenciar os  riscos do uso  de 
suplementação e as  estratégias  para  diagnóstico,  tratamento e  prevenção da  toxicidade 
Revisão narrativa  que analisou na  literatura os casos  clínicos mais  importantes sobre  a toxicidade da  vitamina DConcluiu-se que  tanto a subdosagem  quanto o tratamento  excessivo com  vitamina D podem  acarretar  
consequências à  saúde.
Santos et al.  (2020)Estudantes  
universitários  do curso de  
Educação  Física 
Analisar o uso  e a percepção  de efeitos  adversos de  proteinados  em um grupo  de  acadêmicos Pesquisa  
quantitativa, por  meio de um  questionário  
aplicado a 90  alunos
Concluiu-se que o  uso de suplementos  proteinados vem  aumentando,  contudo de forma  indiscriminada.
Oliveira et al.  (2021)Idosa de 67  anos Alertar sobre  os perigos do  uso  indiscriminado de vitamina  D em doses  muito altas Revisão narrativa  de relato de caso Verificou-se que a  suplementação  
excessiva pode  acarretar  
consequências  como intoxicação,  lesões renais e  desfechos fatais.
Knapik et al.  (2022)Militares das  Forças  Armadas dos Estados  Unidos Avaliar os  efeitos  
autodeclarados por militares  norte  
americanos  
após o uso de  diversos  
suplementos  dietéticos 
Estudo transversal  que examinou  
efeitos adversos de 
suplementos  
dietéticos de  acordo com  questionário  
respondido pelos  voluntários 
Concluiu-se que  alguns suplementos  estão associados a efeitos adversos,  principalmente  
aqueles destinados à  perda de gordura e  ao uso pré/pós treino.

Após a leitura e o fichamento dos textos, foi possível organizar os achados em três  categorias temáticas principais: toxicidade e intoxicação por doses excessivas; efeitos adversos  em grupos específicos; e uso indiscriminado e falta de orientação profissional. 

1. TOXICIDADE E INTOXICAÇÃO POR DOSES EXCESSIVAS  

Quatro estudos se enquadram nessa categoria, nos quais há evidências de efeitos  adversos graves decorrentes do consumo excessivo de vitaminas. Em De Vincentis et al.  (2020), é relatado o caso de uma paciente com esclerose múltipla que desenvolveu  hipercalcemia e insuficiência renal aguda após ingerir, durante mais de um ano, altas doses de  colecalciferol, seguindo o protocolo Coimbra. Após meses de tratamento, a paciente apresentou  hipercalcemia com sintomas de náuseas, vômitos, fraqueza muscular e fadiga intensa, além de  lesão renal aguda e níveis muito elevados de vitamina D, confirmando o quadro de intoxicação. 

Oliveira et al. (2021) apresentam outro relato de caso, envolvendo uma paciente de 67  anos, previamente saudável, que procurou atendimento médico com sintomas inespecíficos e  progressivos ao longo de três a quatro meses, incluindo náuseas, vômitos, constipação alternada  com diarreia, fraqueza intensa, poliúria, perda de peso, falta de apetite e insônia. A paciente  relatou uso de medicações manipuladas prescritas por profissional não médico, com objetivo  de “modulação hormonal” preventiva, motivada pelo envelhecimento e histórico familiar de  câncer. Entre os suplementos utilizados, destacavam-se doses elevadas e diárias de vitamina D,  vitamina A, vitamina K2, ocitocina sublingual e zinco. Exames laboratoriais evidenciaram  níveis elevados de vitamina D e, diante da suspeita de intoxicação, a paciente foi internada.

Três casos clínicos analisados por Shukla et al. (2025) descrevem pacientes com  histórico de consumo excessivo de vitamina B6 (piridoxina), encaminhados à avaliação  reumatológica devido a sintomas neurológicos inespecíficos. Em todos os casos, observou-se  melhora clínica significativa após a suspensão da suplementação, com normalização  progressiva dos níveis séricos de vitamina B6. O primeiro caso referia-se a uma paciente de 36  anos, com dor nas articulações das mãos e parestesia em membros superiores, sem alterações  inflamatórias ou compressivas nos exames reumatológicos e neurofisiológicos. O segundo caso  envolvia um paciente de 46 anos, com déficit de memória e concentração, tendo sido  descartadas doenças autoimunes. O terceiro caso correspondia a uma paciente de 65 anos, com  diagnóstico prévio de síndrome de Sjögren e sintomas de neuropatia periférica. 

A revisão realizada por Lim et al. (2020) destacou o aumento significativo de casos de  toxicidade por vitamina D nos últimos anos, especialmente em países desenvolvidos. Como  consequência da alta prevalência mundial de deficiência ou insuficiência dessa vitamina,  campanhas de saúde incentivaram a suplementação alimentar, o que, por outro lado, contribuiu  para o crescimento dos casos de hipervitaminose D. A revisão também apresentou o caso  clínico de um paciente de 72 anos com estado mental alterado e insuficiência respiratória  aguda, evoluindo com anúria, necessidade de internação e hemodiálise. Exames laboratoriais  evidenciaram hipercalcemia grave e níveis elevados de vitamina D. 

2. EFEITOS ADVERSOS EM GRUPOS ESPECÍFICOS 

Dos achados, apenas um estudo aborda os efeitos adversos em um grupo específico,  discutindo como o uso de suplementos pode afetar negativamente uma população particular.  Knapik et al. (2022) analisaram uma amostra composta por militares norte-americanos, que  relataram o uso de 163 suplementos alimentares. Os sintomas mais frequentes entre aqueles  que utilizavam suplementos para perda de peso incluíram palpitações, taquicardia,  formigamento, distúrbios do sono, tontura e diarreia. Muitos desses produtos continham  substâncias associadas, como cafeína e chá verde, além de extratos vegetais com potencial de  interação medicamentosa ou toxicidade hepática. 

No caso dos suplementos pré e pós-treino, foram identificadas formulações contendo  doses elevadas de cafeína, creatina, aminoácidos, extratos vegetais e compostos como teacrina  e L-Dopa, os quais podem exercer efeitos aditivos sobre o sistema nervoso central e  cardiovascular. Entre os pró-hormonais, verificou-se um menor número de usuários, porém 

com maior prevalência de efeitos adversos, incluindo sintomas gastrointestinais, distúrbios  neurológicos e reações cutâneas. Alguns dos ingredientes presentes nesses produtos foram  associados ao aumento de testosterona, enquanto outros apresentaram relatos de lesão renal,  priapismo, distúrbios gastrointestinais e interações medicamentosas. 

No que se refere aos multivitamínicos, vitaminas e minerais isolados, proteínas,  fitoterápicos, produtos para saúde articular e outros suplementos, observou-se prevalência  significativamente menor de efeitos adversos. 

3.USO INDISCRIMINADO E FALTA DE ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL 

A categoria referente ao uso indiscriminado e à falta de orientação profissional totalizou  três estudos. O primeiro, de Santos et al. (2020), teve como objetivo analisar o uso de  suplementos proteicos por um grupo de acadêmicos do curso de Educação Física de uma  instituição de ensino superior, bem como a percepção dos participantes quanto aos possíveis  efeitos adversos. Para isso, foi realizada uma pesquisa científica por meio de um questionário  aplicado aos alunos do curso. As perguntas abordavam a prática de atividades físicas, o  consumo de suplementos proteicos, a indicação do uso desses produtos, os efeitos colaterais e  o conhecimento sobre a legislação que regulamenta sua comercialização e utilização. Quanto  à indicação, entre os participantes que relataram utilizar suplementos proteicos, alguns o faziam  sob orientação de nutricionistas, enquanto outros utilizavam por iniciativa própria, por  recomendação de personal trainers ou por professores de Educação Física. 

O estudo conduzido por Daher et al. (2021) buscou revisar intervenções educativas  voltadas ao uso de suplementos dietéticos e substâncias dopantes, totalizando 25 estudos  incluídos. Os resultados demonstraram efeitos positivos relacionados ao aumento do  conhecimento sobre o uso dessas substâncias, refletindo em mudanças de atitudes e redução do  consumo. Os conteúdos das intervenções concentraram-se principalmente em segurança e  qualidade dos suplementos dietéticos, interações medicamentosas, nutrição esportiva,  substâncias e métodos de doping, regras antidoping, efeitos colaterais de esteroides  anabolizantes e riscos associados a suplementos esportivos. A maioria das intervenções  apresentou melhora significativa entre os participantes, e os estudos indicaram que tanto  usuários quanto não usuários de suplementos passaram a compreender melhor os produtos após  as ações educativas.

Bertoldo et al. (2022) apresentaram uma revisão com recomendações clínicas sobre  vitamina D, elaborada pela Sociedade Italiana de Osteoporose e Doenças Metabólicas do  Esqueleto (SIOMMMS), evidenciando um aumento significativo nas prescrições de  suplementação de vitamina D nos últimos anos, especialmente entre pacientes com distúrbios  ósseos metabólicos. A suplementação é recomendada pela Agência Italiana de Medicamentos  (AIFA) para pacientes com risco de fraturas por fragilidade ou em início de tratamento  osteoporótico, embora a adesão às diretrizes nacionais seja reduzida.  

A SIOMMMS revisou e atualizou suas recomendações, abordando aspectos como  definição de níveis ideais de vitamina D, critérios para avaliação bioquímica, indicações de  suplementação em diferentes populações e potenciais efeitos tóxicos. Dessa forma, as  intervenções propostas incluem suplementação com colecalciferol em doses ajustadas ao perfil  do paciente, considerando também a ingestão adequada de cálcio, preferencialmente por meio  da dieta. Em pacientes com doença renal crônica ou hepática, a suplementação deve ser  adaptada. Assim, as informações apresentadas indicam que, embora a suplementação de  vitamina D seja segura na maioria dos casos, doses excessivas podem levar a efeitos adversos,  como hipercalcemia. 

4 DISCUSSÃO 

A análise dos oito estudos incluídos na presente revisão evidencia que o uso  indiscriminado de suplementos nutricionais, como multivitaminas, minerais e compostos  esportivos, pode acarretar riscos clínicos relevantes. Embora os trabalhos apresentem  limitações quanto à variedade de suplementos investigados, os resultados demonstram de  forma consistente que o consumo excessivo e sem orientação profissional representa um fator  significativo de perigo à saúde. 

Os relatos apresentados por De Vincents et al. (2020) e Oliveira et al. (2021) indicam  que a ingestão de doses muito elevadas de vitamina D pode desencadear quadros graves de  hipercalcemia e insuficiência renal aguda, com recuperação lenta mesmo após a suspensão do  suplemento. Contudo, ainda se observa escassez de pesquisas que definam com precisão os  limites seguros de dosagem, visto que as evidências disponíveis sobre complicações  decorrentes de megadoses são restritas, e os valores máximos de ingestão tolerável  permanecem pouco estabelecidos (DE VINCENTS ET AL., 2020). Soma-se a isso a  necessidade de acompanhamento profissional qualificado, uma vez que, no caso relatado por 

Oliveira et al. (2021), a prescrição realizada estava em desacordo com recomendações legais e  científicas, não apresentando benefícios comprovados e expondo a paciente a riscos  significativos, caracterizando conduta imprudente. 

De forma semelhante, Shukla et al. (2025) descreveram três casos de toxicidade por  vitamina B6, nos quais os pacientes apresentaram manifestações neurológicas relevantes.  Embora a literatura relate que tanto a deficiência quanto o excesso de piridoxina podem gerar  alterações neurológicas, os autores sugerem que o consumo excessivo pode desencadear  mecanismos metabólicos semelhantes aos observados na deficiência, resultando em sintomas  neurológicos expressivos (SHUKLA ET AL., 2025). Assim, reforça-se a necessidade de cautela  e acompanhamento médico adequado para o uso desse tipo de suplemento. 

No estudo de Knapik et al. (2022), que investigou militares norte-americanos,  observou-se grande diversidade de suplementos consumidos, com maior ocorrência de efeitos  adversos associados aos produtos destinados à perda de peso, ao uso pré e pós-treino e aos pró hormonais. Esses achados apontam para a necessidade de monitoramento rigoroso,  especialmente em grupos submetidos a alta demanda física, considerando que o Departamento  de Defesa reconhece o potencial risco do uso desses produtos nas Forças Armadas (KNAPIK  ET AL., 2022). 

Os resultados relacionados à categoria de uso indiscriminado e ausência de orientação  profissional também se mostraram preocupantes. Santos et al. (2020) identificaram que  estudantes de Educação Física utilizam suplementos proteicos sem acompanhamento  nutricional adequado, frequentemente influenciados por profissionais não habilitados, como  instrutores de academia e personal trainers, o que contribui para o consumo inadequado. Já  Daher et al. (2021) demonstraram que intervenções educativas podem reduzir práticas  inadequadas e aumentar o conhecimento sobre riscos associados ao uso de suplementos,  embora nem sempre resultem em redução significativa do consumo. Ademais, os autores  destacam a escassez de programas educativos voltados a diferentes públicos e faixas etárias,  evidenciando lacunas na educação em saúde. 

As revisões clínicas também apresentaram contribuições relevantes. Lim et al. (2020)  ressaltaram que, apesar de a suplementação com vitamina D ser necessária em casos de  deficiência, o aumento indiscriminado de prescrições favoreceu o crescimento de episódios de  hipervitaminose, especialmente devido à ampla disponibilidade do produto sem prescrição  médica. Complementarmente, Bertoldo et al. (2022), em revisão da Sociedade Italiana de 

Osteoporose, enfatizaram que a suplementação deve ser individualizada, considerando as  necessidades do paciente, e que doses excessivas podem provocar hipercalcemia, reforçando a  importância do acompanhamento clínico. 

Em síntese, as evidências reunidas apontam para a necessidade de maior fiscalização  na comercialização de suplementos, bem como da implementação de estratégias educativas  voltadas à conscientização da população sobre os riscos do uso sem supervisão profissional.  Apesar da relevância dos achados, reconhecem-se limitações, como o número reduzido de  estudos e a heterogeneidade metodológica. Ainda assim, os dados reforçam a urgência de novas  pesquisas que abordem diferentes tipos de suplementos e seus efeitos a longo prazo em distintas  populações. Dessa maneira, torna-se evidente que o consumo responsável e orientado de  suplementos é fundamental para assegurar benefícios à saúde e evitar danos. 

5 CONCLUSÃO 

A presente revisão evidenciou que o uso indiscriminado de suplementos nutricionais,  especialmente vitaminas, minerais e produtos voltados ao desempenho físico, pode  desencadear efeitos adversos relevantes, incluindo toxicidade e complicações clínicas.  Observou-se também que determinados grupos apresentam maior vulnerabilidade ao consumo  inadequado, sobretudo quando não há acompanhamento profissional. Além disso, embora a  suplementação seja necessária em situações específicas de deficiência, o aumento de  prescrições e a facilidade de acesso têm contribuído para maior incidência de hipervitaminoses,  reforçando a necessidade de individualização terapêutica. 

Dessa forma, conclui-se que a utilização de suplementos deve ser baseada em avaliação  clínica adequada e orientação especializada, evitando práticas de automedicação. Destaca-se  ainda a importância de políticas de fiscalização e ações educativas que promovam o uso seguro  e esclareçam a população sobre potenciais riscos. Por fim, torna-se essencial ampliar pesquisas  que abordem efeitos de longo prazo e estabeleçam diretrizes mais consistentes para a  suplementação. 

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SANTOS, S. O. et al. O uso de proteinados e percepção de efeitos adversos por acadêmicos do  curso de Educação Física. Journal of Health and Biological Sciences, v. 8, n. 1, p. 1-6, 2020.  DOI: https://doi.org/10.12662/2317-3076jhbs.v8i1.2489.p1-6.2020. 


1Discente do Curso Superior de Biomedicina da Universidade Federal do Delta do  Parnaíba (UFDPar), Campus Parnaíba. Email: thaisrm59@gmail.com;
2Doutor em Biotecnologia – RENORBIO (UFPI). E mail:manoeldias@ufdpar.edu.br;
3Docente do Curso Superior de Biomedicina da Universidade Federal do Delta do  Parnaíba (UFDPar), Campus Parnaíba. Doutora em Biotecnologia– RENORBIO  (UFDPar). E-mail: valeciacs@gmail.com; 
4Coordenadora e Responsável Técnica do Laboratório Escola de Biomedicina da  Universidade Federal do Delta do Parnaíba – UFDPar