IMPACTS OF THE INDISCRIMINATE CONSUMPTION OF DIETARY SUPPLEMENTS: A SYSTEMATC REVIEW
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202511300757
Thaís Rodrigues Melos1; Morgana Sousa da Cunha; Manoel Dias de Souza Filho2; Valécia Natália Carvalho da Silva3; Ana Carolina Machado Leódido4
RESUMO
No cenário atual, observa-se, cada vez mais, uma busca por saúde e, consequentemente, por alto rendimento esportivo, nutricional e estético. Nesse contexto, os suplementos assumem um papel de aliados no suprimento das necessidades relacionadas ao bem-estar. Entretanto, devido à ampla distribuição comercial e à facilidade de aquisição, a tendência de compra e uso abusivo torna-se cada vez mais preocupante. Dessa forma, o presente estudo tem por objetivo avaliar, analisar e compreender os efeitos e prejuízos clínicos associados ao uso indiscriminado de suplementos vitamínicos, minerais e esportivos. Trata-se de uma revisão sistemática da literatura, na qual foi empregado o protocolo Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA), a fim de assegurar uma descrição adequada das etapas do estudo. Os principais achados estão relacionados aos riscos do consumo excessivo ou não supervisionado de compostos nutricionais, destacando-se as resoluções negativas observadas, sobretudo aquelas referentes à toxicidade, aos efeitos neurológicos e aos danos renais. As evidências coletadas indicam a necessidade de maior fiscalização na comercialização de suplementos, bem como da implementação de estratégias educativas voltadas à conscientização da população sobre os riscos do consumo sem supervisão. Portanto, o uso de suplementos deve ser pautado em avaliação clínica criteriosa e acompanhamento profissional, evitando práticas de automedicação e protocolos sem respaldo científico.
Palavras chave: toxicidade, suplementos, dietético
ABSTRACT
In the current scenario, there is an increasing pursuit of health and, consequently, high athletic, nutritional, and aesthetic performance. In this context, supplements play the role of allies in meeting needs related to well-being. However, due to their wide commercial availability and ease of acquisition, the trend toward purchasing and abusive use has become increasingly concerning. Thus, the present study aims to evaluate, analyze, and understand the clinical effects and harms associated with the indiscriminate use of vitamin, mineral, and sports supplements. This is a systematic literature review in which the Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA) protocol was employed in order to ensure an appropriate description of the study stages. The main findings are related to the risks of excessive or unsupervised consumption of nutritional compounds, highlighting the negative outcomes observed, especially those related to toxicity, neurological effects, and renal damage. The evidence collected indicates the need for greater regulation of supplement commercialization, as well as the implementation of educational strategies aimed at raising public awareness about the risks of unsupervised consumption. Therefore, the use of supplements should be based on thorough clinical evaluation and professional supervision, avoiding self-medication practices and protocols without scientific support.
Keywords: toxicity, supplements, dietary
1 INTRODUÇÃO
Os suplementos alimentares (SA) são amplamente utilizados pela população mundial para diversas finalidades, tais como perda de peso, melhora do desempenho físico e intelectual, estimulação sexual e reforço do sistema imunológico (PATRÍCIO, 2018). Considerando o cenário atual, em que se observa, cada vez mais, a busca por saúde e, consequentemente, por alto rendimento esportivo, nutricional e até mesmo estético, os suplementos assumem o papel de aliados no suprimento dessas necessidades de bem-estar. Contudo, a prescrição de suplementos deve ocorrer após avaliação sistematizada, englobando critérios objetivos e subjetivos, a fim de identificar carências nutricionais e riscos decorrentes de sua deficiência (OLIVEIRA et al., 2015).
Entretanto, devido à ampla distribuição comercial e à facilidade de aquisição, a tendência de compra e uso abusivo torna-se cada vez mais preocupante quando se direciona a análise aos impactos à saúde que o uso indiscriminado pode causar. Para assegurar que os suplementos alimentares proporcionem os benefícios esperados, é fundamental a manutenção de suas características até o fim do prazo de validade, considerando as instruções de conservação e o modo de preparo indicados pelo fabricante, conforme o art. 10 da RDC nº 243/2018 (ANVISA, 2025). Assim, os critérios de fabricação, conservação e comercialização garantem maior confiabilidade; entretanto, o consumo precisa ser consciente por parte dos consumidores.
Atualmente, a alimentação da população em geral é composta, em grande parte, por produtos industrializados, muitas vezes pouco saudáveis. Devido à falta de tempo e à praticidade, a aquisição desse tipo de alimento tem se tornado frequente no cotidiano das pessoas, incluindo o uso de suplementos alimentares (FERREIRA et al., 2016). Esse cenário potencializa o consumo desequilibrado, com o objetivo de compensar hábitos alimentares inadequados e alcançar uma suposta “saúde”.
Segundo a Pesquisa de Mercado ABIAD (Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres), houve um aumento de 10% no consumo de suplementos alimentares no Brasil entre os anos de 2015 e 2021. Em 2021, 59% dos lares brasileiros possuíam ao menos uma pessoa que utilizava algum tipo de suplemento (FOOD CONNECTION, 2024). Por conseguinte, torna-se relevante compreender os impactos da suplementação indiscriminada, especialmente diante da falta de acompanhamento profissional, que atinge diversos grupos populacionais, desde atletas até indivíduos influenciados a utilizar suplementos de forma intuitiva.
Diante dessa problemática, o presente estudo tem por objetivo geral avaliar, analisar e compreender os efeitos e prejuízos clínicos associados ao uso indiscriminado de suplementos vitamínicos, minerais e esportivos. Por meio desta revisão sistemática, foram identificadas evidências que possibilitam responder aos riscos da suplementação não supervisionada. Dessa forma, busca-se promover reflexões e incentivar práticas mais conscientes relacionadas à saúde nutricional, a fim de reduzir o consumo desregulado de compostos nutricionais e evitar complicações futuras.
2 MATERIAIS E MÉTODOS
O referido trabalho trata-se de uma revisão sistemática da literatura, cuja finalidade é selecionar, analisar e sintetizar os indícios que evidenciam os prejuízos clínicos decorrentes do uso indiscriminado de suplementos vitamínicos, minerais e esportivos. Para a seleção dos descritores, utilizou-se o DeCS como estratégia de busca, garantindo precisão e consistência nos termos relacionados à área da saúde.
A combinação dos descritores foi realizada por meio dos operadores booleanos AND e OR, decidindo-se posteriormente incluir na triagem apenas os artigos encontrados com AND, devido à maior especificidade. Os principais descritores utilizados e com melhores resultados foram “toxicity”, “supplements” e “dietary supplements” para as buscas em inglês, e “toxicidade”, “suplementação” e “nutracêuticos” para as buscas em português.
A busca contemplou apenas estudos publicados nos últimos cinco anos, por meio das bases de dados PubMed, ScienceDirect, SciELO e LILACS (via BVS), sendo incluídos artigos nos idiomas inglês e português. Foram selecionados trabalhos do tipo ensaio clínico, meta análise, ensaio clínico randomizado e revisão, aceitando-se apenas aqueles realizados com seres humanos e com acesso livre ao texto completo.
O protocolo Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses – PRISMA (PAGE et al., 2021) foi empregado como estrutura metodológica da presente revisão sistemática, a fim de assegurar uma descrição adequada das etapas do estudo, desde a busca e seleção dos artigos até a apresentação dos resultados.
Na fase de elaboração do fluxograma, na etapa de identificação, contabilizou-se o número total de artigos, e, posteriormente, os duplicados foram removidos. Em seguida, na etapa de triagem, foram avaliados os títulos e resumos, sendo excluídos aqueles não elegíveis e, por fim, totalizaram-se os artigos selecionados para a leitura na íntegra. Na sequência, foram removidos aqueles que não contemplavam a questão norteadora da pesquisa, baseada nos prejuízos clínicos à saúde causados pela suplementação indiscriminada, até que se alcançasse o número final de artigos incluídos.
Figura 1. Fluxograma de identificação, triagem, elegibilidade e análise dos estudos incluídos nesta revisão sistemática.

Fonte: Dados da pesquisa 2025. Autoria própria.
No conjunto, foram identificados 465 estudos nas etapas iniciais de busca. Após a remoção de duplicados (40 registros excluídos), 425 estudos foram encaminhados à etapa de triagem por título e resumo. Destes, 20 artigos foram considerados elegíveis e seguiram para leitura na íntegra. Dessa forma, com base nos critérios previamente estabelecidos, 8 estudos foram incluídos na revisão, conforme demonstrado no fluxograma PRISMA (Figura 1).
Os estudos incluídos foram selecionados devido à sua relevância na área da saúde e à pertinência com o tema de interesse. Os critérios de inclusão abrangeram artigos nos idiomas português e inglês, com acesso livre ao texto completo. Os estudos elegíveis contemplaram ensaios clínicos, meta-análises, ensaios clínicos randomizados e revisões, realizados exclusivamente com seres humanos.
3 RESULTADOS
A pesquisa conduzida resultou em 8 artigos incluídos dentre os 20 selecionados para leitura, os quais atenderam aos critérios de relevância, qualidade metodológica e alinhamento com a questão norteadora. Esses 8 estudos abordam de maneira clara os efeitos clínicos associados ao uso indiscriminado de multivitaminas, minerais e compostos esportivos, envolvendo diversos grupos populacionais e diferentes abordagens metodológicas. Além dos achados principais, alguns estudos também apresentaram outras perspectivas relevantes, como a contaminação desses suplementos, a influência midiática no poder de compra e a facilidade de acesso a esses produtos.
As evidências coletadas permitiram identificar elementos como população-alvo investigada, tipo de suplemento utilizado, objetivo, metodologia e conclusões com resultados. A Tabela 1, a seguir, sintetiza as particularidades de cada estudo incluído, apresentando os principais achados relacionados aos riscos do consumo excessivo ou não supervisionado desses compostos nutricionais, destacando as resoluções negativas observadas, sobretudo aquelas referentes à toxicidade, efeitos neurológicos e danos renais.
Quadro 1. Características dos estudos incluídos.
| AUTORES/AN O | POPULAÇÃO | OBJETIVOS | METODOLOGIA | RESULTADOS |
| Daher et al. (2021) | Pré-adolescentes, estudantes adolescentes com idades variadas, universitários, atletas e treinadores | Revisar as intervenções educativas projetadas para melhorar o conhecimento , as intenções e as práticas sobre suplementos e agentes dopantes | Revisão narrativa com buscas realizadas em bases de dados do com finalidade de verificar os efeitos e características das intervenções educativas implementadas em relação ao uso de suplementos | Constatou-se que, apesar de as intervenções educativas sobre o assunto apresentarem efeito promissor, ainda há carência dessas ações, tornando necessária sua maior implementação. |
| Bertoldo et al. (2022) | Ele menciona estudos com a população geral italiana, pacientes com doenças metabólicas e indivíduos com fatores de risco para deficiência de vitamina D | Melhorar e padronizar a prática clínica, oferecer o melhor cuidado ao paciente e garantir uma referência para instituições e gestores de saúde | Revisão sistemática que avaliou a qualidade de evidências sobre a avaliação e tratamento da inadequação da vitamina D | Concluiu-se que a suplementação é eficaz quando bem indicada, trazendo benefícios apenas a pacientes com níveis séricos abaixo do recomendado e a idosos com doenças ósseas. |
| De Vincentis et al. (2020) | Mulher de 56 anos com esclerose múltipla | Apresentar os riscos da suplementação em dose elevada de vitamina D | Relato de caso e revisão narrativa de uma mulher com esclerose múltipla, com ingestão de megadoses de colecalciferol | Concluiu-se que a intoxicação por vitamina D pode ocorrer quando administrada em doses extremamente elevadas. |
| Shukla et al. (2025) | 3 pacientes adultos (2 mulheres e 1 homem) | Buscou mostrar a toxicidade neurológica causada por excesso de piridoxina (vitamina B12) | Casos clínicos observacionais que todos tinham um histórico de consumo excessivo de vitamina B6 e apresentavam sintomas neuropáticos | Verificou-se que o excesso de vitamina B6 pode causar sintomas neurológicos, sendo necessária a orientação quanto à avaliação das concentrações séricas ou até mesmo à interrupção do tratamento. |
| Lim et al. (2020) | Pacientes idosos, cita ainda crianças, adultos e pessoas com comorbidades | Evidenciar os riscos do uso de suplementação e as estratégias para diagnóstico, tratamento e prevenção da toxicidade | Revisão narrativa que analisou na literatura os casos clínicos mais importantes sobre a toxicidade da vitamina D | Concluiu-se que tanto a subdosagem quanto o tratamento excessivo com vitamina D podem acarretar consequências à saúde. |
| Santos et al. (2020) | Estudantes universitários do curso de Educação Física | Analisar o uso e a percepção de efeitos adversos de proteinados em um grupo de acadêmicos | Pesquisa quantitativa, por meio de um questionário aplicado a 90 alunos | Concluiu-se que o uso de suplementos proteinados vem aumentando, contudo de forma indiscriminada. |
| Oliveira et al. (2021) | Idosa de 67 anos | Alertar sobre os perigos do uso indiscriminado de vitamina D em doses muito altas | Revisão narrativa de relato de caso | Verificou-se que a suplementação excessiva pode acarretar consequências como intoxicação, lesões renais e desfechos fatais. |
| Knapik et al. (2022) | Militares das Forças Armadas dos Estados Unidos | Avaliar os efeitos autodeclarados por militares norte americanos após o uso de diversos suplementos dietéticos | Estudo transversal que examinou efeitos adversos de suplementos dietéticos de acordo com questionário respondido pelos voluntários | Concluiu-se que alguns suplementos estão associados a efeitos adversos, principalmente aqueles destinados à perda de gordura e ao uso pré/pós treino. |
Após a leitura e o fichamento dos textos, foi possível organizar os achados em três categorias temáticas principais: toxicidade e intoxicação por doses excessivas; efeitos adversos em grupos específicos; e uso indiscriminado e falta de orientação profissional.
1. TOXICIDADE E INTOXICAÇÃO POR DOSES EXCESSIVAS
Quatro estudos se enquadram nessa categoria, nos quais há evidências de efeitos adversos graves decorrentes do consumo excessivo de vitaminas. Em De Vincentis et al. (2020), é relatado o caso de uma paciente com esclerose múltipla que desenvolveu hipercalcemia e insuficiência renal aguda após ingerir, durante mais de um ano, altas doses de colecalciferol, seguindo o protocolo Coimbra. Após meses de tratamento, a paciente apresentou hipercalcemia com sintomas de náuseas, vômitos, fraqueza muscular e fadiga intensa, além de lesão renal aguda e níveis muito elevados de vitamina D, confirmando o quadro de intoxicação.
Oliveira et al. (2021) apresentam outro relato de caso, envolvendo uma paciente de 67 anos, previamente saudável, que procurou atendimento médico com sintomas inespecíficos e progressivos ao longo de três a quatro meses, incluindo náuseas, vômitos, constipação alternada com diarreia, fraqueza intensa, poliúria, perda de peso, falta de apetite e insônia. A paciente relatou uso de medicações manipuladas prescritas por profissional não médico, com objetivo de “modulação hormonal” preventiva, motivada pelo envelhecimento e histórico familiar de câncer. Entre os suplementos utilizados, destacavam-se doses elevadas e diárias de vitamina D, vitamina A, vitamina K2, ocitocina sublingual e zinco. Exames laboratoriais evidenciaram níveis elevados de vitamina D e, diante da suspeita de intoxicação, a paciente foi internada.
Três casos clínicos analisados por Shukla et al. (2025) descrevem pacientes com histórico de consumo excessivo de vitamina B6 (piridoxina), encaminhados à avaliação reumatológica devido a sintomas neurológicos inespecíficos. Em todos os casos, observou-se melhora clínica significativa após a suspensão da suplementação, com normalização progressiva dos níveis séricos de vitamina B6. O primeiro caso referia-se a uma paciente de 36 anos, com dor nas articulações das mãos e parestesia em membros superiores, sem alterações inflamatórias ou compressivas nos exames reumatológicos e neurofisiológicos. O segundo caso envolvia um paciente de 46 anos, com déficit de memória e concentração, tendo sido descartadas doenças autoimunes. O terceiro caso correspondia a uma paciente de 65 anos, com diagnóstico prévio de síndrome de Sjögren e sintomas de neuropatia periférica.
A revisão realizada por Lim et al. (2020) destacou o aumento significativo de casos de toxicidade por vitamina D nos últimos anos, especialmente em países desenvolvidos. Como consequência da alta prevalência mundial de deficiência ou insuficiência dessa vitamina, campanhas de saúde incentivaram a suplementação alimentar, o que, por outro lado, contribuiu para o crescimento dos casos de hipervitaminose D. A revisão também apresentou o caso clínico de um paciente de 72 anos com estado mental alterado e insuficiência respiratória aguda, evoluindo com anúria, necessidade de internação e hemodiálise. Exames laboratoriais evidenciaram hipercalcemia grave e níveis elevados de vitamina D.
2. EFEITOS ADVERSOS EM GRUPOS ESPECÍFICOS
Dos achados, apenas um estudo aborda os efeitos adversos em um grupo específico, discutindo como o uso de suplementos pode afetar negativamente uma população particular. Knapik et al. (2022) analisaram uma amostra composta por militares norte-americanos, que relataram o uso de 163 suplementos alimentares. Os sintomas mais frequentes entre aqueles que utilizavam suplementos para perda de peso incluíram palpitações, taquicardia, formigamento, distúrbios do sono, tontura e diarreia. Muitos desses produtos continham substâncias associadas, como cafeína e chá verde, além de extratos vegetais com potencial de interação medicamentosa ou toxicidade hepática.
No caso dos suplementos pré e pós-treino, foram identificadas formulações contendo doses elevadas de cafeína, creatina, aminoácidos, extratos vegetais e compostos como teacrina e L-Dopa, os quais podem exercer efeitos aditivos sobre o sistema nervoso central e cardiovascular. Entre os pró-hormonais, verificou-se um menor número de usuários, porém
com maior prevalência de efeitos adversos, incluindo sintomas gastrointestinais, distúrbios neurológicos e reações cutâneas. Alguns dos ingredientes presentes nesses produtos foram associados ao aumento de testosterona, enquanto outros apresentaram relatos de lesão renal, priapismo, distúrbios gastrointestinais e interações medicamentosas.
No que se refere aos multivitamínicos, vitaminas e minerais isolados, proteínas, fitoterápicos, produtos para saúde articular e outros suplementos, observou-se prevalência significativamente menor de efeitos adversos.
3.USO INDISCRIMINADO E FALTA DE ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL
A categoria referente ao uso indiscriminado e à falta de orientação profissional totalizou três estudos. O primeiro, de Santos et al. (2020), teve como objetivo analisar o uso de suplementos proteicos por um grupo de acadêmicos do curso de Educação Física de uma instituição de ensino superior, bem como a percepção dos participantes quanto aos possíveis efeitos adversos. Para isso, foi realizada uma pesquisa científica por meio de um questionário aplicado aos alunos do curso. As perguntas abordavam a prática de atividades físicas, o consumo de suplementos proteicos, a indicação do uso desses produtos, os efeitos colaterais e o conhecimento sobre a legislação que regulamenta sua comercialização e utilização. Quanto à indicação, entre os participantes que relataram utilizar suplementos proteicos, alguns o faziam sob orientação de nutricionistas, enquanto outros utilizavam por iniciativa própria, por recomendação de personal trainers ou por professores de Educação Física.
O estudo conduzido por Daher et al. (2021) buscou revisar intervenções educativas voltadas ao uso de suplementos dietéticos e substâncias dopantes, totalizando 25 estudos incluídos. Os resultados demonstraram efeitos positivos relacionados ao aumento do conhecimento sobre o uso dessas substâncias, refletindo em mudanças de atitudes e redução do consumo. Os conteúdos das intervenções concentraram-se principalmente em segurança e qualidade dos suplementos dietéticos, interações medicamentosas, nutrição esportiva, substâncias e métodos de doping, regras antidoping, efeitos colaterais de esteroides anabolizantes e riscos associados a suplementos esportivos. A maioria das intervenções apresentou melhora significativa entre os participantes, e os estudos indicaram que tanto usuários quanto não usuários de suplementos passaram a compreender melhor os produtos após as ações educativas.
Bertoldo et al. (2022) apresentaram uma revisão com recomendações clínicas sobre vitamina D, elaborada pela Sociedade Italiana de Osteoporose e Doenças Metabólicas do Esqueleto (SIOMMMS), evidenciando um aumento significativo nas prescrições de suplementação de vitamina D nos últimos anos, especialmente entre pacientes com distúrbios ósseos metabólicos. A suplementação é recomendada pela Agência Italiana de Medicamentos (AIFA) para pacientes com risco de fraturas por fragilidade ou em início de tratamento osteoporótico, embora a adesão às diretrizes nacionais seja reduzida.
A SIOMMMS revisou e atualizou suas recomendações, abordando aspectos como definição de níveis ideais de vitamina D, critérios para avaliação bioquímica, indicações de suplementação em diferentes populações e potenciais efeitos tóxicos. Dessa forma, as intervenções propostas incluem suplementação com colecalciferol em doses ajustadas ao perfil do paciente, considerando também a ingestão adequada de cálcio, preferencialmente por meio da dieta. Em pacientes com doença renal crônica ou hepática, a suplementação deve ser adaptada. Assim, as informações apresentadas indicam que, embora a suplementação de vitamina D seja segura na maioria dos casos, doses excessivas podem levar a efeitos adversos, como hipercalcemia.
4 DISCUSSÃO
A análise dos oito estudos incluídos na presente revisão evidencia que o uso indiscriminado de suplementos nutricionais, como multivitaminas, minerais e compostos esportivos, pode acarretar riscos clínicos relevantes. Embora os trabalhos apresentem limitações quanto à variedade de suplementos investigados, os resultados demonstram de forma consistente que o consumo excessivo e sem orientação profissional representa um fator significativo de perigo à saúde.
Os relatos apresentados por De Vincents et al. (2020) e Oliveira et al. (2021) indicam que a ingestão de doses muito elevadas de vitamina D pode desencadear quadros graves de hipercalcemia e insuficiência renal aguda, com recuperação lenta mesmo após a suspensão do suplemento. Contudo, ainda se observa escassez de pesquisas que definam com precisão os limites seguros de dosagem, visto que as evidências disponíveis sobre complicações decorrentes de megadoses são restritas, e os valores máximos de ingestão tolerável permanecem pouco estabelecidos (DE VINCENTS ET AL., 2020). Soma-se a isso a necessidade de acompanhamento profissional qualificado, uma vez que, no caso relatado por
Oliveira et al. (2021), a prescrição realizada estava em desacordo com recomendações legais e científicas, não apresentando benefícios comprovados e expondo a paciente a riscos significativos, caracterizando conduta imprudente.
De forma semelhante, Shukla et al. (2025) descreveram três casos de toxicidade por vitamina B6, nos quais os pacientes apresentaram manifestações neurológicas relevantes. Embora a literatura relate que tanto a deficiência quanto o excesso de piridoxina podem gerar alterações neurológicas, os autores sugerem que o consumo excessivo pode desencadear mecanismos metabólicos semelhantes aos observados na deficiência, resultando em sintomas neurológicos expressivos (SHUKLA ET AL., 2025). Assim, reforça-se a necessidade de cautela e acompanhamento médico adequado para o uso desse tipo de suplemento.
No estudo de Knapik et al. (2022), que investigou militares norte-americanos, observou-se grande diversidade de suplementos consumidos, com maior ocorrência de efeitos adversos associados aos produtos destinados à perda de peso, ao uso pré e pós-treino e aos pró hormonais. Esses achados apontam para a necessidade de monitoramento rigoroso, especialmente em grupos submetidos a alta demanda física, considerando que o Departamento de Defesa reconhece o potencial risco do uso desses produtos nas Forças Armadas (KNAPIK ET AL., 2022).
Os resultados relacionados à categoria de uso indiscriminado e ausência de orientação profissional também se mostraram preocupantes. Santos et al. (2020) identificaram que estudantes de Educação Física utilizam suplementos proteicos sem acompanhamento nutricional adequado, frequentemente influenciados por profissionais não habilitados, como instrutores de academia e personal trainers, o que contribui para o consumo inadequado. Já Daher et al. (2021) demonstraram que intervenções educativas podem reduzir práticas inadequadas e aumentar o conhecimento sobre riscos associados ao uso de suplementos, embora nem sempre resultem em redução significativa do consumo. Ademais, os autores destacam a escassez de programas educativos voltados a diferentes públicos e faixas etárias, evidenciando lacunas na educação em saúde.
As revisões clínicas também apresentaram contribuições relevantes. Lim et al. (2020) ressaltaram que, apesar de a suplementação com vitamina D ser necessária em casos de deficiência, o aumento indiscriminado de prescrições favoreceu o crescimento de episódios de hipervitaminose, especialmente devido à ampla disponibilidade do produto sem prescrição médica. Complementarmente, Bertoldo et al. (2022), em revisão da Sociedade Italiana de
Osteoporose, enfatizaram que a suplementação deve ser individualizada, considerando as necessidades do paciente, e que doses excessivas podem provocar hipercalcemia, reforçando a importância do acompanhamento clínico.
Em síntese, as evidências reunidas apontam para a necessidade de maior fiscalização na comercialização de suplementos, bem como da implementação de estratégias educativas voltadas à conscientização da população sobre os riscos do uso sem supervisão profissional. Apesar da relevância dos achados, reconhecem-se limitações, como o número reduzido de estudos e a heterogeneidade metodológica. Ainda assim, os dados reforçam a urgência de novas pesquisas que abordem diferentes tipos de suplementos e seus efeitos a longo prazo em distintas populações. Dessa maneira, torna-se evidente que o consumo responsável e orientado de suplementos é fundamental para assegurar benefícios à saúde e evitar danos.
5 CONCLUSÃO
A presente revisão evidenciou que o uso indiscriminado de suplementos nutricionais, especialmente vitaminas, minerais e produtos voltados ao desempenho físico, pode desencadear efeitos adversos relevantes, incluindo toxicidade e complicações clínicas. Observou-se também que determinados grupos apresentam maior vulnerabilidade ao consumo inadequado, sobretudo quando não há acompanhamento profissional. Além disso, embora a suplementação seja necessária em situações específicas de deficiência, o aumento de prescrições e a facilidade de acesso têm contribuído para maior incidência de hipervitaminoses, reforçando a necessidade de individualização terapêutica.
Dessa forma, conclui-se que a utilização de suplementos deve ser baseada em avaliação clínica adequada e orientação especializada, evitando práticas de automedicação. Destaca-se ainda a importância de políticas de fiscalização e ações educativas que promovam o uso seguro e esclareçam a população sobre potenciais riscos. Por fim, torna-se essencial ampliar pesquisas que abordem efeitos de longo prazo e estabeleçam diretrizes mais consistentes para a suplementação.
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1Discente do Curso Superior de Biomedicina da Universidade Federal do Delta do Parnaíba (UFDPar), Campus Parnaíba. Email: thaisrm59@gmail.com;
2Doutor em Biotecnologia – RENORBIO (UFPI). E mail:manoeldias@ufdpar.edu.br;
3Docente do Curso Superior de Biomedicina da Universidade Federal do Delta do Parnaíba (UFDPar), Campus Parnaíba. Doutora em Biotecnologia– RENORBIO (UFDPar). E-mail: valeciacs@gmail.com;
4Coordenadora e Responsável Técnica do Laboratório Escola de Biomedicina da Universidade Federal do Delta do Parnaíba – UFDPar
