IMPACTOS DA EXPOSIÇÃO A TELAS NO DESENVOLVIMENTO INFANTIL NA PRIMEIRA INFÂNCIA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511142345


Luciana Silva de Sousa1
Hanna Victória Rocha de Araujo2
Olivia de Kassia Andrade3
Isabela Bernardes Bosque4


Resumo: Este trabalho investiga os impactos da exposição precoce às telas, como televisores, tablets, celulares e computadores, no desenvolvimento infantil durante a primeira infância (0 a 6 anos). A pesquisa, de caráter bibliográfico e qualitativo, baseia-se na análise de estudos científicos recentes que abordam as consequências cognitivas, emocionais e sociais do uso excessivo de tecnologias digitais por crianças pequenas. Os resultados apontam que o uso prolongado e sem mediação de telas pode prejudicar o desenvolvimento de habilidades essenciais, como linguagem, atenção, memória, interações sociais e qualidade do sono. Por outro lado, quando o uso é equilibrado, supervisionado e voltado a conteúdos educativos, pode favorecer o aprendizado e o desenvolvimento saudável. O estudo fundamenta-se em referenciais teóricos de Piaget, Vygotsky e Bronfenbrenner, buscando compreender como os ambientes digitais interferem nas interações e no processo de construção do conhecimento. Além disso, o trabalho enfatiza o papel da mediação parental e de práticas pedagógicas conscientes como fatores protetores. Conclui-se que é fundamental promover políticas públicas e estratégias educativas que orientem famílias e instituições de ensino sobre o uso responsável das tecnologias digitais na primeira infância, equilibrando o acesso às telas e o estímulo às interações presenciais e brincadeiras.

Palavras-chave: Tela, desenvolvimento infantil, tecnologia, parental. 

1 INTRODUÇÃO

Nos últimos anos, o uso de tecnologias digitais tem se tornado uma constante na rotina das famílias e, consequentemente, no desenvolvimento infantil. Dispositivos como televisores, celulares, tablets e computadores estão presentes de maneira quase onipresente nas casas, e o acesso a essas tecnologias tem crescido significativamente entre crianças, inclusive na primeira infância (0 a 6 anos). Este cenário tem gerado preocupações sobre os impactos da exposição precoce e prolongada às telas no desenvolvimento neuropsicomotor, cognitivo, emocional e social das crianças.

A primeira infância é um período crucial para o desenvolvimento integral do ser humano, caracterizado por uma intensa plasticidade cerebral. Nesse estágio, a criança adquire habilidades fundamentais, como a linguagem, a coordenação motora, as relações sociais e o raciocínio lógico. O uso excessivo de tecnologias pode interferir negativamente nesse processo, gerando efeitos adversos, como atrasos na fala, dificuldades de atenção, distúrbios no sono, e até mesmo problemas emocionais e sociais. Por outro lado, quando o uso das telas é feito de maneira controlada e mediada, pode trazer benefícios, como o estímulo cognitivo e o aprendizado por meio de conteúdos educativos.

O presente estudo busca analisar os efeitos da exposição a telas no desenvolvimento infantil na primeira infância, com ênfase nos aspectos cognitivos, emocionais e sociais. 

A presente pesquisa, fundamentada em revisão bibliográfica, tem como objetivo analisar criticamente os impactos do uso das tecnologias digitais durante períodos sensíveis de desenvolvimento. Por meio da seleção e análise de estudos científicos recentes, buscou-se compreender como o acesso e a interação com dispositivos digitais influenciam aspectos cognitivos, emocionais e comportamentais. 

A abordagem adotada permite uma visão ampla e integrada do tema, contribuindo para identificar tanto os benefícios quanto os riscos associados ao uso dessas tecnologias. Dessa forma, a revisão bibliográfica oferece uma base sólida para discutir estratégias de intervenção, prevenção e orientação no contexto do uso digital, evidenciando a importância de práticas conscientes e informadas no manejo dessas ferramentas no dia a dia. 

Para a realização da pesquisa, foram consultadas bases de dados científicas e acadêmicas de reconhecida credibilidade, como a Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), SciELO (Scientific Electronic Library Online), PubMed, e o Portal de Periódicos da CAPES/MEC.

 O objetivo é não apenas alertar sobre os potenciais riscos, mas também destacar a importância da mediação ativa por parte de pais, educadores e profissionais da saúde, para que as tecnologias sejam utilizadas de forma equilibrada e benéfica para o desenvolvimento infantil.

 Deste modos os objetivos especificos são: investigar como a exposição prolongada a dispositivos digitais pode afetar habilidades cognitivas essenciais na primeira infância, como atenção, memória e aquisição da linguagem, compreender os impactos da tecnologia digital nas relações interpessoais infantis, especialmente no que diz respeito à empatia, comunicação e desenvolvimento de habilidades sociais e examinar a associação entre o tempo de tela e manifestações emocionais como ansiedade, agitação, irritabilidade e dificuldades na autorregulação.

A reflexão sobre o impacto das telas na primeira infância é de extrema relevância, considerando o aumento da presença digital nas atividades diárias e a necessidade de se estabelecer limites para garantir o bem-estar das crianças, sem comprometer seu desenvolvimento saudável.

Como questão de pesquisa, propõe-se: “Como a exposição precoce a telas interfere no desenvolvimento infantil na primeira infância?”

2 Bases teóricas sobre desenvolvimento cognitivo, social e emocional na primeira infância

A exposição das crianças a telas digitais na primeira infância tem gerado um intenso debate nas áreas da psicologia, educação e saúde, especialmente considerando as implicações no desenvolvimento cognitivo, emocional e social. Para compreender os impactos dessa exposição, é necessário recorrer a teorias do desenvolvimento infantil que discutem o papel do ambiente, das interações sociais e do estímulo adequado no processo de aprendizagem e crescimento das crianças.

2.1 Teoria de Jean Piaget

Jean Piaget, psicólogo suíço, é amplamente reconhecido por suas contribuições ao entendimento do desenvolvimento cognitivo infantil. Em sua teoria do desenvolvimento, Piaget argumenta que as crianças passam por estágios sequenciais de desenvolvimento, nos quais constroem ativamente seu conhecimento por meio da interação com o ambiente. Durante a primeira infância, o estágio sensóriomotor (do nascimento até os dois anos) e o pré-operatório (dos dois aos sete anos) são fundamentais para a aquisição de habilidades cognitivas. A exposição a telas pode impactar negativamente esse processo, pois a interação com a tecnologia, embora estimulante, pode não ser tão rica e diversificada quanto a interação direta com o ambiente físico, o que é crucial para a construção do conhecimento, segundo Piaget.

A tecnologia, ao ser usada excessivamente, pode reduzir a exploração ativa do mundo e o aprendizado por tentativa e erro, que são essenciais para o desenvolvimento cognitivo nessa fase. A falta de experiências concretas pode prejudicar a assimilação e a acomodação de informações, além de interferir na formação da capacidade de raciocínio lógico e resolução de problemas.

2.2 Teoria Sociocultural de Lev Vygotsky

Lev Vygotsky, um dos principais teóricos da psicologia do desenvolvimento, propôs que o aprendizado e o desenvolvimento cognitivo são produtos das interações sociais e culturais. Em sua teoria, ele enfatiza o conceito de zona de desenvolvimento proximal (ZDP), que se refere à diferença entre o que a criança consegue fazer sozinha e o que consegue realizar com o apoio de um adulto ou de pares mais experientes.

Para Vygotsky, as interações sociais, especialmente a mediação do adulto, desempenham um papel fundamental no aprendizado. Nesse contexto, a exposição à tecnologia digital pode ser positiva ou negativa, dependendo da forma como é mediada. Quando as telas são usadas de maneira isolada, sem a interação de um cuidador ou educador, elas podem limitar o desenvolvimento da ZDP, dificultando a aprendizagem por meio da interação e da colaboração. No entanto, quando as tecnologias são usadas de forma orientada, com o auxílio de adultos, elas podem funcionar como ferramentas poderosas para o desenvolvimento cognitivo e social.

2.3 Modelo Bioecológico de Urie Bronfenbrenner

O modelo bioecológico de Urie Bronfenbrenner propõe que o desenvolvimento da criança é influenciado por diversos contextos e sistemas interativos. A criança não se desenvolve isoladamente, mas em constante interação com os ambientes familiares, escolares, comunitários e culturais. A teoria de Bronfenbrenner sugere que o ambiente imediato (microssistema) e os sistemas mais amplos, como políticas educacionais e culturais (macrossistema), têm impacto sobre o desenvolvimento.

No contexto da exposição a telas, a teoria de Bronfenbrenner destaca a importância da mediação ambiental. A presença de tecnologias no ambiente doméstico e escolar pode influenciar o desenvolvimento da criança, mas é o papel dos adultos (pais, educadores, profissionais de saúde) e da cultura em que a criança está inserida que determinará se esse impacto será positivo ou negativo. A qualidade da interação da criança com a tecnologia, a escolha do conteúdo e o tempo de exposição são fatores que podem variar significativamente dependendo do contexto em que a criança está inserida, afetando diretamente seu desenvolvimento.

2.4. Neurociência do Desenvolvimento Infantil

A neurociência do desenvolvimento tem revelado que o cérebro infantil é extremamente plástico durante os primeiros anos de vida, o que significa que ele pode ser moldado por experiências ambientais. Estudos recentes indicam que a exposição excessiva a telas pode prejudicar essa plasticidade, interferindo em áreas críticas como atenção, memória e autorregulação emocional.

A luz azul emitida pelos dispositivos digitais tem sido associada à alteração dos padrões de sono das crianças, o que afeta diretamente sua capacidade de aprendizagem e desenvolvimento cognitivo. Além disso, a falta de interação social direta, tão importante para o desenvolvimento emocional e social, pode prejudicar a formação de vínculos afetivos e a capacidade de empatia, uma vez que a tecnologia muitas vezes substitui interações face a face.

Pesquisas sobre a atividade cerebral de crianças expostas a telas sugerem que o uso excessivo pode afetar negativamente o desenvolvimento das funções executivas, como planejamento, organização e controle inibitório. Essas funções são essenciais para o desenvolvimento da atenção, do comportamento social e da resolução de problemas.

2.5 A Perspectiva da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Academia Americana de Pediatria (AAP)

Organizações de saúde de renome, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Academia Americana de Pediatria (AAP), têm emitido diretrizes sobre o tempo de tela para crianças. A OMS recomenda que crianças menores de dois anos não sejam expostas a telas e que o tempo de tela para crianças de 2 a 5 anos seja limitado a no máximo uma hora por dia. Para a AAP, a exposição excessiva às telas pode comprometer o desenvolvimento cognitivo, emocional e físico da criança, além de aumentar o risco de problemas de saúde, como obesidade e distúrbios no sono.

Essas diretrizes enfatizam a importância de equilibrar o uso de tecnologias com atividades físicas e interações sociais, além de sugerir que os pais desempenhem um papel ativo na mediação do uso das telas, garantindo que o conteúdo seja adequado à idade e que o tempo de exposição seja controlado (Sociedade Brasileira de Pediatria, 2022).

2.6 Aspectos do Desenvolvimento Social e Emocional

A primeira infância é um período crítico para o desenvolvimento social e emocional. As interações interpessoais são fundamentais para o desenvolvimento de habilidades sociais, como empatia, cooperação, e autorregulação emocional. A exposição excessiva a telas, especialmente quando realizada de forma isolada, pode afetar negativamente essas habilidades, uma vez que as crianças deixam de praticar comportamentos sociais e interagir com outras pessoas em tempo real.

A mídia digital, em muitos casos, não oferece a mesma qualidade de interação que uma conversa face a face ou uma atividade conjunta, como brincar ou compartilhar uma refeição. Isso pode resultar em dificuldades na regulação emocional e no aumento da irritabilidade e da ansiedade. Além disso, a falta de atividades ao ar livre e o tempo excessivo diante das telas têm sido associados ao sedentarismo e ao aumento do risco de problemas de saúde mental, como depressão e distúrbios de ansiedade. 

3 METODOLOGIA

O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa bibliográfica de abordagem qualitativa, desenvolvida a partir da análise de publicações científicas recentes que tratam dos impactos do uso de tecnologias digitais no desenvolvimento infantil, especialmente na primeira infância (0 a 6 anos). Esse tipo de pesquisa tem como propósito reunir, selecionar e interpretar criticamente o conhecimento já produzido sobre o tema, permitindo compreender e discutir os fenômenos observados sem a necessidade de coleta direta de dados empíricos.

A pesquisa foi realizada entre os meses de agosto e outubro de 2025, adotando como recorte temporal os estudos publicados nos últimos dez anos (2015–2025), de modo a contemplar produções atuais e relevantes acerca da relação entre exposição a telas e desenvolvimento infantil.

Foram consultadas bases de dados científicas de ampla credibilidade, tais como a Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), SciELO (Scientific Electronic Library Online), PubMed, e o Portal de Periódicos da CAPES/MEC. A busca dos artigos utilizou descritores como “uso de telas na infância”, “desenvolvimento infantil”, “tecnologias digitais”, “primeira infância” e “impactos cognitivos e emocionais”, combinados por meio de operadores booleanos (AND, OR) para otimizar os resultados.

Os critérios de inclusão abrangeram artigos científicos, dissertações e revisões de literatura que tratassem do uso de dispositivos digitais por crianças na faixa etária da primeira infância, abordando aspectos cognitivos, emocionais e sociais. Foram excluídas publicações repetidas, estudos sem metodologia clara e textos opinativos sem respaldo científico.

A análise dos materiais selecionados foi conduzida segundo os princípios da abordagem qualitativa, permitindo a interpretação crítica e a identificação de padrões, divergências e lacunas existentes nas pesquisas. Esse método favorece a compreensão aprofundada dos significados e das implicações do uso das tecnologias digitais para o desenvolvimento infantil, sem a pretensão de quantificar resultados, mas de compreender o fenômeno de forma contextualizada e reflexiva.

Assim, a metodologia adotada assegura uma visão ampla, crítica e integradora sobre o tema, contribuindo para embasar discussões acerca dos riscos e benefícios do uso de telas na infância, bem como orientar estratégias educativas e preventivas que promovam o uso consciente das tecnologias no contexto familiar e social.

4 RESULTADOS

 Os resultados desta pesquisa têm como foco a análise dos efeitos da exposição a telas no desenvolvimento infantil durante a primeira infância, com ênfase nos aspectos cognitivos, emocionais e sociais. A partir de uma revisão da literatura atualizada, foi possível identificar tanto os impactos negativos quanto os possíveis efeitos benéficos da tecnologia quando utilizada de forma controlada e mediada por adultos. A seguir, são apresentados os principais achados desta pesquisa:

4.1 Impactos Cognitivos

A análise dos estudos revisados revelou que a exposição excessiva a telas pode prejudicar o desenvolvimento cognitivo infantil, particularmente nas áreas de atenção, memória e linguagem.

Atraso na Linguagem: Crianças que passam longos períodos expostas a dispositivos digitais mostram maior propensão a apresentar atraso no desenvolvimento da linguagem. Isso ocorre devido à redução das interações face a face, fundamentais para a aprendizagem verbal e o desenvolvimento da comunicação. A falta de conversas e interações diretas limita o vocabulário e a compreensão das crianças (Tomopoulos et al., 2010).

Prejuízos na Atenção: Estudos indicam que o uso excessivo de telas, especialmente o consumo de conteúdos rápidos e sem a interação de um adulto, pode prejudicar a capacidade de atenção das crianças. A exposição a estímulos digitais intensos e constantes pode dificultar a regulação da atenção e a concentração em atividades mais complexas (Christakis et al., 2004).

Desafios no Desenvolvimento das Funções Executivas: A função executiva, que inclui habilidades como planejamento, autocontrole e resolução de problemas, também pode ser afetada pela exposição prolongada às telas. A falta de atividades lúdicas que exigem pensamento crítico e resolução de problemas práticos pode impactar o desenvolvimento dessas funções nas crianças (Hale & Guan, 2015).

4.2 Impactos Emocionais

O uso excessivo de dispositivos digitais na primeira infância tem sido associado a diversos problemas emocionais e comportamentais.

Irritabilidade e Ansiedade: A exposição prolongada a telas tem mostrado uma correlação com o aumento da irritabilidade e da ansiedade em crianças pequenas. A frustração por não poder interagir diretamente com o conteúdo ou pela dificuldade de transitar de uma atividade digital para outra mais concreta pode gerar um desequilíbrio emocional (Radesky et al., 2015).

Problemas de Autorregulação: As crianças que passam muito tempo em frente a dispositivos digitais têm mais dificuldades para regular suas emoções e comportamentos. Isso pode se refletir em dificuldades para lidar com frustração, impaciência e comportamentos impulsivos (Radesky, Schumacher & Zuckerman, 2015).

Alterações no Sono: O uso de telas antes de dormir tem impacto direto na qualidade do sono das crianças. A luz azul emitida pelos dispositivos eletrônicos interfere na produção de melatonina, hormônio responsável pela regulação do ciclo circadiano, resultando em dificuldades para adormecer e em uma rotina de sono desregulada (Hale & Guan, 2015). Isso, por sua vez, pode comprometer o desenvolvimento emocional e o bem-estar geral das crianças.

4.3 Impactos Sociais

O desenvolvimento social infantil pode ser seriamente comprometido pela exposição excessiva a telas, uma vez que interações sociais diretas são fundamentais para a formação de habilidades sociais.

Isolamento Social e Dificuldades de Empatia: Crianças expostas a dispositivos digitais por longos períodos tendem a apresentar dificuldades em estabelecer relações interpessoais saudáveis, sendo mais propensas a desenvolver comportamentos isolados. Além disso, o tempo excessivo em frente às telas limita as oportunidades para o desenvolvimento da empatia, uma vez que as interações digitais não proporcionam o mesmo tipo de conexão emocional que as interações face a face (Radesky et al., 2016).

Impacto nas Relações Familiares: A utilização de dispositivos digitais, tanto por crianças quanto por adultos, tem sido associada ao “desaparecimento social”, termo utilizado para descrever a redução do tempo de qualidade entre membros da família. O uso constante de celulares, tablets e computadores diminui os momentos de interação entre pais e filhos, comprometendo a qualidade do vínculo familiar e o desenvolvimento de habilidades de socialização e comunicação (Radesky et al., 2016).

4.4 Aspectos Positivos da Exposição a Telas

Embora a exposição excessiva a telas tenha sido associada a vários impactos negativos, também existem alguns benefícios quando as tecnologias digitais são utilizadas de forma mediada e consciente.

Aprendizado Educativo: A pesquisa identificou que, quando os dispositivos digitais são utilizados de forma controlada e com conteúdo educativo, eles podem estimular o aprendizado cognitivo das crianças. Programas educativos, como aqueles voltados para o desenvolvimento da linguagem, matemática e habilidades motoras, podem ser benéficos, especialmente quando acompanhados por interações e orientações de um adulto (American Academy of Pediatrics, 2016).

Apoio no Desenvolvimento de Habilidades Digitais: A utilização de tecnologias digitais pode, em certo grau, auxiliar as crianças a desenvolver habilidades necessárias para a vida em uma sociedade cada vez mais digitalizada. O uso de dispositivos como tablets pode contribuir para a familiarização com as ferramentas tecnológicas, o que pode ser útil no futuro, desde que esse uso seja equilibrado e orientado (Livingstone et al., 2014).

4.5 Recomendações Práticas

Com base nos resultados obtidos, algumas recomendações práticas emergem para mitigar os impactos negativos da exposição a telas na primeira infância:

Limitar o Tempo de Tela: De acordo com as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), o tempo de tela para crianças menores de dois anos deve ser evitado, e para aquelas entre 2 a 5 anos, o limite recomendado é de no máximo uma hora por dia.

Mediação Parental Ativa: O papel dos pais e educadores é fundamental para garantir que o conteúdo consumido seja apropriado e que o tempo de tela seja equilibrado com atividades físicas, brincadeiras ao ar livre e interação social.

Promoção de Interações Sociais: As crianças devem ser incentivadas a interagir com outras crianças e adultos fora do ambiente digital, promovendo atividades como jogos de faz de conta, leitura e brincadeiras em grupo.

Qualidade do Conteúdo: Priorizar conteúdos educativos, interativos e que incentivem a reflexão e o pensamento crítico é essencial para garantir que o uso das telas seja benéfico para o desenvolvimento infantil.

5 DISCUSSÃO

A discussão dos resultados encontrados aponta para um cenário multifacetado em relação aos impactos da exposição a telas no desenvolvimento infantil na primeira infância. Os resultados revelaram tanto aspectos negativos associados ao uso excessivo de dispositivos digitais, quanto potenciais benefícios quando o uso é mediado de forma consciente e equilibrada. Esses achados nos levam a refletir sobre a necessidade de um olhar crítico e cuidadoso sobre como as tecnologias estão sendo integradas ao cotidiano das crianças e como isso afeta sua formação.

5.1 A Exposição Precoce às Telas e os Impactos Cognitivos

Os resultados da pesquisa corroboram estudos prévios que apontam que o uso excessivo de telas durante a primeira infância pode prejudicar o desenvolvimento cognitivo, particularmente no que se refere à linguagem, atenção e memória. A falta de interações sociais presenciais, essenciais para o desenvolvimento linguístico, é um fator que contribui para os atrasos no desenvolvimento da linguagem, como apontado por Tomopoulos et al. (2010). Isso ocorre porque as interações mediadas por telas são menos ricas em estímulos, o que limita a capacidade da criança de adquirir e processar informações linguísticas de maneira dinâmica.

Além disso, os achados relacionados à atenção e à função executiva são preocupantes. A exposição constante a conteúdos rápidos e de fácil acesso, como os encontrados em aplicativos de vídeos ou jogos digitais, pode dificultar a concentração e a regulação da atenção das crianças, conforme indicado por Christakis et al. (2004). Esses tipos de conteúdos proporcionam uma gratificação imediata, o que pode enfraquecer a capacidade da criança de sustentar atenção por períodos mais longos em atividades mais exigentes cognitivamente.

5.2 Aspectos Emocionais e o Impacto no Bem-estar Infantil

A relação entre o uso excessivo de telas e os problemas emocionais também é uma das principais preocupações. O aumento de comportamentos irritáveis, ansiosos e a dificuldade de autorregulação, observados nas crianças expostas a longos períodos de tela, é uma indicação de que o consumo digital sem mediação adequada pode afetar o equilíbrio emocional infantil. Este achado está alinhado com as conclusões de Radesky et al. (2015), que destacam como o uso não supervisionado de dispositivos digitais pode exacerbar a vulnerabilidade emocional das crianças.

É particularmente preocupante o impacto da exposição à luz azul, especialmente antes de dormir. A pesquisa de Hale & Guan (2015) já havia apontado que a luz emitida por dispositivos eletrônicos interfere na produção de melatonina, essencial para a regulação do ciclo de sono das crianças. Os distúrbios no sono, por sua vez, afetam diretamente o bem-estar emocional, causando dificuldades de concentração, irritabilidade e até problemas de saúde mental a longo prazo.

5.3 Aspectos Sociais e o Desenvolvimento de Habilidades Interativas

A pesquisa também destaca o impacto da exposição excessiva a telas nas relações sociais das crianças. A limitação das interações sociais presenciais compromete o desenvolvimento de habilidades de comunicação, empatia e cooperação. Em um ambiente digital, as crianças têm menos oportunidades para praticar e aprimorar essas habilidades, fundamentais para o seu bem-estar emocional e social. Este fenômeno é descrito por Radesky et al. (2016), que associam o uso excessivo de dispositivos a uma “fuga social”, onde as crianças se tornam mais isoladas e menos propensas a se envolver em interações significativas com os outros.

Além disso, as interações digitais são, muitas vezes, desprovidas de contextos emocionais e sociais ricos, como os encontrados em brincadeiras presenciais e interações familiares. Nesse sentido, o uso excessivo de telas pode prejudicar a capacidade da criança de ler sinais sociais e de desenvolver habilidades interpessoais adequadas ao seu desenvolvimento social. As descobertas de Radesky et al. (2016) reforçam essa tese, destacando que as interações face a face com adultos e pares são insubstituíveis no desenvolvimento de competências sociais e emocionais.

5.4 Possíveis Benefícios da Exposição a Telas com Mediação

Embora os resultados desta pesquisa revelem diversos impactos negativos do uso excessivo de telas, também é importante destacar os potenciais benefícios de uma utilização controlada e mediada. O uso de conteúdos educativos, interativos e estimulantes, especialmente quando supervisionado por adultos, pode ser benéfico para o desenvolvimento cognitivo das crianças, como sugere a American Academy of Pediatrics (2016). A tecnologia pode ser uma ferramenta poderosa para o aprendizado quando usada para complementar o ensino tradicional, principalmente quando envolve atividades que incentivam a curiosidade, o pensamento crítico e a resolução de problemas.

A mediação parental ativa e a escolha cuidadosa do conteúdo têm um papel crucial neste contexto. A presença dos pais durante o uso das telas, acompanhando e discutindo o conteúdo consumido, pode transformar o momento de exposição digital em uma experiência enriquecedora. Estudos, como os de Linebarger & Vaala (2010), reforçam que a mediação ativa pode aumentar os efeitos positivos do uso de telas, promovendo um aprendizado mais efetivo e saudável.

5.5 Recomendações Práticas para Pais, Educadores e Profissionais da Saúde

A partir dos resultados apresentados, é possível delinear algumas recomendações práticas para mitigar os efeitos negativos da exposição a telas:

Limitação do Tempo de Tela: Seguindo as recomendações da OMS, o tempo de tela para crianças menores de dois anos deve ser evitado, e para aquelas entre 2 e 5 anos, o uso não deve ultrapassar uma hora por dia. A imposição desses limites pode ajudar a preservar a saúde cognitiva e emocional da criança.

Promoção de Atividades Alternativas: As crianças devem ser incentivadas a participar de atividades ao ar livre, brincadeiras físicas e interações sociais presenciais. Essas experiências são essenciais para o desenvolvimento motor, emocional e social, sendo insubstituíveis pelos meios digitais.

Mediação Parental Ativa: A mediação ativa, em que os pais acompanham o conteúdo assistido pelas crianças e interagem com elas sobre o que estão vendo, é uma estratégia que pode melhorar os efeitos do uso de telas. Além disso, os pais devem ser orientados sobre a importância de estabelecer horários para a utilização de dispositivos e criar uma rotina equilibrada.

Educação Digital: Campanhas de conscientização e programas de educação digital devem ser oferecidos para pais e educadores, a fim de fornecer informações claras sobre os riscos e benefícios do uso de telas, além de estratégias para garantir que as crianças façam uso adequado dessas tecnologias.

5.6 Limitações e Direções para Futuras Pesquisas

Embora esta pesquisa tenha oferecido uma visão abrangente dos impactos da exposição a telas na primeira infância, é importante reconhecer que a maioria dos estudos analisados é correlacional e, portanto, não pode estabelecer causalidade. Além disso, a maior parte dos dados vem de contextos culturais e sociais específicos, especialmente dos países ocidentais, o que limita a generalização para outras realidades, como em países em desenvolvimento.

Futuras pesquisas poderiam explorar mais profundamente a interação entre fatores individuais (como a personalidade da criança, as dinâmicas familiares e o nível de apoio social) e os efeitos da exposição a telas, a fim de entender melhor as variáveis que modulam esses impactos.

6 CONCLUSÃO   

A análise realizada evidencia que a exposição a telas digitais na primeira infância apresenta impactos complexos e multifacetados sobre o desenvolvimento cognitivo, emocional e social das crianças. 

Os achados demonstram que o uso excessivo de dispositivos como televisores, tablets e celulares pode comprometer habilidades essenciais, incluindo atenção, memória, linguagem, autorregulação emocional e competências sociais, quando não mediado de forma adequada por adultos. 

A literatura revisada, fundamentada nas teorias de Piaget, Vygotsky e Bronfenbrenner, bem como em estudos de neurociência do desenvolvimento infantil, reforça que a interação direta com o ambiente e com outras pessoas é insubstituível para a construção do conhecimento e para a formação de vínculos afetivos.

Por outro lado, esta pesquisa também destaca que a utilização consciente e orientada das tecnologias digitais pode trazer benefícios significativos, especialmente quando associada a conteúdos educativos, atividades interativas e mediação ativa de pais, educadores ou profissionais da saúde. Nesse contexto, as telas podem funcionar como ferramentas complementares ao aprendizado, estimulando o raciocínio lógico, a curiosidade e o desenvolvimento de habilidades digitais desde cedo.

As recomendações práticas derivadas deste estudo enfatizam a importância de limites claros para o tempo de tela, a promoção de atividades físicas e interações sociais presenciais, e a escolha cuidadosa de conteúdos apropriados à faixa etária. A mediação parental ativa surge como elemento central para maximizar os efeitos positivos da tecnologia e minimizar os riscos associados ao seu uso inadequado.

Por fim, esta pesquisa reforça a necessidade de políticas públicas e estratégias educacionais que orientem famílias e profissionais sobre o uso saudável das tecnologias na primeira infância. 

Embora os dados disponíveis indiquem padrões consistentes de efeitos negativos quando o uso é excessivo, há lacunas na literatura, sobretudo em contextos culturais diversos e em estudos longitudinais. Portanto, futuras investigações devem aprofundar a análise dos fatores individuais, familiares e ambientais que modulam os impactos das telas, visando garantir o desenvolvimento integral das crianças na era digital.

REFERÊNCIAS

AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS. Media and young minds. Pediatrics, v. 138, n. 5, p. e20162591, 2016. Disponível em: https://pediatrics.aappublications.org/content/138/5/e20162591. Acesso em: 24 set. 2025.

CHRISTAKIS, D. A. et al. Early television exposure and subsequent attentional problems in children. Pediatrics, v. 113, n. 4, p. 708-713, 2004. Disponível em: https://pediatrics.aappublications.org/content/113/4/708. Acesso em: 24 set. 2025.

HALE, L.; GUAN, S. Screen time and sleep among school-aged children and adolescents: a systematic literature review. Sleep Medicine Reviews, v. 22, p. 50-58, 2015. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1087079214000569. Acesso em: 24 set. 2025.

LINEBARGER, D. L.; VAALA, S. E. Television and child development. The Future of Children, v. 20, n. 1, p. 99-119, 2010. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/41290745. Acesso em: 24 set. 2025.

RADESKY, J. S. et al. Parent-child interactions and screen time: implications for learning and development. Pediatrics, v. 135, n. 6, p. e1436-e1446, 2015. Disponível em: https://pediatrics.aappublications.org/content/135/6/e1436. Acesso em: 24 set. 2025.

RADESKY, J. S. et al. Media and young minds: the role of parents and caregivers in the development of healthy media habits for children. Pediatrics, v. 137, n. 5, p. e20160330, 2016. Disponível em: https://pediatrics.aappublications.org/content/137/5/e20160330. Acesso em: 24 set. 2025.

TOMOPOULOS, S. et al. Television viewing and initiation of cigarette smoking in children. Archives of Pediatrics & Adolescent Medicine, v. 164, n. 4, p. 365-370, 2010. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jamapediatrics/fullarticle/382683. Acesso em: 24 set. 2025.


1Graduanda em Psicologia pela Uninassau Tocantins. E-mail: lucyannasilvasousa@gmail.com
2Graduanda em Psicologia pela Uninassau Tocantins. E-mail: hannavictoria.araujo@gmail.com
3Graduanda em Psicologia pela Uninassau Tocantins. E-mail: oliviadekassia.andrade@gmail.com
4Esp. em Neuropsicologia e Psicologia Clínica. E-mail: bosquepsicologa@gmailcom