IMPACTOS DA CICLAGEM DE PESO NA SAÚDE DE EX-ATLETAS DE ESPORTES DE LUTA: UMA REVISÃO DA LITERATURA

IMPACTS OF WEIGHT CYCLING ON THE HEALTH OF FORMER COMBAT SPORTS ATHLETES: A LITERATURE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202508111222


Kleber Torres Scarano1
Tatiane Rossafa Balieiro Scarano2
Jean Donizete Silveira Taliari3
Viviane Kawano Dias4
Fabiana Felício Costa Silva5
Juliana Petini Passerini6
Gustavo Marson Viana7
Neuler Scapin8


RESUMO

A ciclagem de peso, prática recorrente em esportes de combate, caracteriza-se por perdas rápidas e repetidas de peso corporal com o intuito de se enquadrar em categorias competitivas. Este estudo de revisão tem como objetivo analisar os efeitos da ciclagem de peso em ex-atletas de lutas, com foco nos impactos metabólicos, fisiológicos e na qualidade de vida no período pós-carreira esportiva. Foram selecionados artigos publicados entre 2018 e 2024, disponíveis em bases como PubMed, Scielo e Scopus. Os resultados apontam para prejuízos persistentes no metabolismo basal, aumento da prevalência de obesidade, distúrbios alimentares e alterações hormonais, além de comprometimento da saúde mental e da qualidade de vida. Conclui-se que a ciclagem de peso pode causar danos duradouros à saúde dos ex-atletas, sendo necessária a implementação de estratégias preventivas e de acompanhamento longitudinal desde o período competitivo até o pós-carreira.

Palavras-chave: Ciclagem de peso; Esportes de combate; Metabolismo; Qualidade de vida; Ex-atletas.

ABSTRACT

Weight cycling, a recurrent practice in combat sports, is characterized by rapid and repeated weight loss in order to meet competitive weight categories. This review study aims to analyze the effects of weight cycling in former combat sport athletes, focusing on the metabolic, physiological, and quality of life impacts in the post-career period. Articles published between 2018 and 2024 were selected from databases such as PubMed, Scielo, and Scopus. The results indicate lasting impairments in basal metabolism, increased prevalence of obesity, eating disorders, and hormonal changes, in addition to compromised mental health and quality of life. It is concluded that weight cycling may cause long-term health damage to former athletes, highlighting the need for preventive strategies and longitudinal follow-up from the competitive phase to post-career life.

Keywords: Weight cycling; Combat sports; Metabolism; Quality of life; Former athletes.

INTRODUÇÃO

Nos esportes de combate, como boxe, judô, MMA e taekwondo, os atletas são divididos em categorias de peso para garantir uma competição justa. Entretanto, muitos atletas adotam a estratégia de competir em uma categoria de peso abaixo do seu peso corporal natural, acreditando que isso lhes dará uma vantagem competitiva. Esse fenômeno é amplamente observado em esportes de luta, onde os atletas tentam reduzir drasticamente seu peso corporal pouco antes da competição, apenas para restaurá-lo rapidamente após a pesagem oficial (FRANCHINI et al., 2020; KIRK, 2022). A prática tem como objetivo permitir que o atleta se beneficie de uma maior massa corporal e força no momento da luta, enquanto enfrenta adversários de categorias mais leves (RIVERA-BROWN et al., 2023).

A ciclagem de peso refere-se à perda intencional e rápida de peso seguida pela recuperação em um curto espaço de tempo, geralmente entre a pesagem oficial e a competição. Essa prática é comum em esportes de combate, onde os atletas perdem entre 5% e 10% do peso corporal nas semanas ou dias que antecedem o evento, utilizando métodos como desidratação, dietas hipocalóricas extremas e treinamento extenuante. O objetivo é reduzir o peso para se qualificar em uma categoria inferior, com a expectativa de que o atleta recupere o peso perdido rapidamente antes da luta (FRANCHINI et al., 2020; SANTOS et al., 2019). Esta prática, apesar de generalizada, é criticada por seus efeitos deletérios à saúde e ao desempenho esportivo (KIRK, 2022).

Os métodos mais comuns de perda rápida de peso (Rapid Weight Loss – RWL) incluem desidratação severa, restrição drástica de calorias e manipulação de macronutrientes (CARLSON et al., 2018). Algumas estratégias específicas incluem uso de saunas, exercícios com roupas de plástico ou múltiplas camadas para induzir a sudorese, e a restrição de líquidos e sal na dieta nos dias anteriores à competição (RODRÍGUEZ-GARCÍA et al., 2023). Embora tais práticas possam resultar em uma perda de peso significativa em um curto espaço de tempo, elas também podem levar à fadiga, diminuição da força, alterações hormonais e comprometimento cognitivo, o que pode prejudicar o desempenho do atleta (DALLAGLIO et al., 2022).

A ciclagem de peso acarreta uma série de consequências negativas à saúde, especialmente quando realizada repetidamente ao longo de uma carreira esportiva. A rápida desidratação pode causar distúrbios hidroeletrolíticos, comprometendo a função cardiovascular e aumentando o risco de lesões durante a competição (FRANCHINI et al., 2020). Além disso, a perda drástica de peso pode levar à diminuição das reservas de glicogênio muscular, resultando em menor capacidade de realizar atividades de alta intensidade, o que é crucial para esportes de combate (SANTOS et al., 2019). Alterações hormonais, como a redução nos níveis de testosterona e aumento do cortisol, também foram observadas, o que pode afetar negativamente a recuperação e o estado psicológico do atleta (KIRK, 2022; RODRÍGUEZ-GARCÍA et al., 2023). Além disso, em longo prazo, a ciclagem repetida de peso pode estar associada a distúrbios metabólicos e aumento do risco de doenças cardiovasculares, principalmente em ex-atletas (CARLSON et al., 2018).

OBJETIVO

O presente estudo tem como objetivo investigar o perfil de peso corporal em ex-atletas de esportes de luta que realizaram ciclagem de peso durante suas carreiras. A pesquisa busca compreender os efeitos a longo prazo dessa prática, suas consequências metabólicas e de saúde em ex-atletas, assim como suas implicações para o desempenho esportivo e qualidade de vida pós-carreira.

Objetivos Específicos

  • Analisar a frequência e intensidade da ciclagem de peso em ex-atletas de esportes de combate.
  • Identificar os principais métodos de perda rápida de peso utilizados por esses atletas ao longo da carreira.
  • Avaliar os impactos metabólicos e fisiológicos a curto e longo prazo decorrentes da ciclagem de peso.
  • Comparar os efeitos em ex-atletas com diferentes durações de carreira e níveis competitivos.
  • Discutir estratégias de mitigação dos efeitos negativos da ciclagem de peso com base na literatura existente.

METODOLOGIA

Este estudo trata-se de uma revisão de literatura com o objetivo de investigar o perfil de peso corporal em ex-atletas de esportes de luta que realizavam ciclagem de peso durante suas carreiras. Para a realização desta revisão, foram seguidos os seguintes passos:

Estratégia de Busca:

A pesquisa bibliográfica foi conduzida em bases de dados científicas amplamente reconhecidas, incluindo PubMed, Scielo, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Periódicos CAPES e Google Acadêmico, visando identificar artigos relevantes publicados entre 2010 e 2024. Foram utilizadas combinações de palavras-chave em inglês e português, como: “combat sports”, “weight cycling”, “rapid weight loss”, “ex-athletes”, “metabolic effects” e “ciclagem de peso em esportes de luta”. A busca também incluiu termos MeSH (Medical Subject Headings) para garantir a abrangência dos resultados nas bases de dados biomédicas (SALLES et al., 2017).

Critérios de Inclusão e Exclusão:

Os critérios de inclusão utilizados para a seleção dos estudos foram:

  • Estudos originais, revisões sistemáticas ou metanálises que abordassem a ciclagem de peso em esportes de luta e seus efeitos metabólicos e fisiológicos;
  • Artigos publicados em periódicos revisados por pares;
  • Publicações disponíveis em inglês, espanhol e português;
  • Estudos que incluíssem ex-atletas ou atletas ativos que relataram a prática de ciclagem de peso.

Os critérios de exclusão foram:

  • Estudos que abordassem esportes de luta sem categorização por peso;
  • Relatos de caso ou estudos com amostras muito pequenas (menos de 10 participantes);
  • Artigos que não estivessem disponíveis na íntegra ou que não fossem revisados por pares.

Processo de Seleção dos Estudos:

A seleção dos estudos foi realizada em duas etapas. Na primeira fase, os títulos e resumos dos artigos recuperados foram analisados para verificar sua relevância. Estudos duplicados foram removidos e, em seguida, uma leitura integral foi realizada para os artigos que atenderam aos critérios de inclusão na fase inicial. Dois revisores independentes realizaram a avaliação dos artigos, e as divergências foram resolvidas por consenso. O diagrama PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses) foi utilizado para documentar o processo de seleção dos artigos (MOHER et al., 2009).

Extração e Análise dos Dados:

Os dados dos estudos incluídos foram extraídos de forma padronizada, abrangendo informações sobre o delineamento do estudo, características da amostra (número de participantes, idade, modalidade esportiva), métodos de ciclagem de peso utilizados, e efeitos relatados na saúde e no desempenho dos atletas. A análise foi conduzida de forma qualitativa, com ênfase na identificação de padrões recorrentes e nas conclusões dos autores sobre os efeitos a curto e longo prazo da ciclagem de peso. Além disso, foram discutidas as implicações dos achados para ex-atletas e a necessidade de intervenções preventivas (KIRK, 2022; RIVERA-BROWN et al., 2023).

Limitações do Estudo:

Reconhece-se que a revisão pode estar sujeita a viés de publicação, uma vez que estudos com resultados negativos ou neutros sobre a ciclagem de peso podem ser menos frequentemente publicados. Além disso, a heterogeneidade das metodologias utilizadas nos estudos analisados pode dificultar a comparação direta dos resultados.

RESULTADOS E DISCUSSÃO 

Diversos estudos discutem os impactos negativos da ciclagem de peso em atletas de esportes de luta, tanto durante a carreira quanto no período pós-competitivo. Franchini et al. (2020) e Rodríguez-García et al. (2023) relatam que a ciclagem de peso, principalmente quando realizada repetidamente ao longo da trajetória esportiva, está associada a alterações hormonais e metabólicas significativas, incluindo redução da flexibilidade metabólica, resistência à insulina e risco aumentado de síndrome metabólica. Esses efeitos se somam a um risco cardiovascular elevado, o que é particularmente relevante para ex-atletas.

O trabalho de Carlson et al. (2018) confirma que ex-atletas com histórico de ciclagem de peso apresentam maior propensão a desenvolver doenças cardiovasculares e metabólicas, possivelmente em decorrência de adaptações fisiológicas adversas acumuladas ao longo dos anos. Tais consequências parecem ser potencializadas em casos de início precoce dessa prática, frequentemente na adolescência, como apontado por Zhong et al. (2024).

Santos et al. (2019) observaram que atletas submetidos a perdas rápidas de peso (Rapid Weight Loss RWL) apresentam recuperação mais lenta dos estoques de glicogênio, fator que compromete o desempenho esportivo e prolonga a fadiga muscular. Kirk (2022) acrescenta que esse padrão de perda e recuperação imediata de peso impacta diretamente a função cardiovascular, sobretudo em modalidades de alta intensidade, como MMA e boxe, nas quais as demandas fisiológicas são extremas.

No campo psicológico, Kirk (2022) e Rivera-Brown et al. (2023) destacam que a ciclagem constante de peso eleva de forma crônica os níveis de cortisol, aumentando a vulnerabilidade a lesões, fadiga persistente e transtornos de humor. Esses fatores não apenas afetam o rendimento competitivo, mas também repercutem na saúde mental de ex-atletas, dificultando a transição para a vida pós-carreira. Intervenções educativas e preventivas, iniciadas ainda nas fases iniciais da carreira, mostram-se estratégias promissoras para mitigar tais impactos.

Outro ponto recorrente na literatura é que a influência de profissionais qualificados (nutricionistas, médicos e preparadores físicos) sobre a escolha das estratégias de perda de peso ainda é limitada. Em muitos casos, prevalecem métodos empíricos, culturalmente transmitidos entre atletas e treinadores, frequentemente envolvendo restrições severas de líquidos, jejuns prolongados, uso excessivo de roupas térmicas e sessões extenuantes de exercício, práticas associadas a riscos imediatos e cumulativos à saúde.

Assim, os estudos revisados reforçam a necessidade de protocolos de manejo de peso mais graduais, acompanhados por profissionais especializados, bem como de políticas esportivas que minimizem a frequência e a magnitude das variações corporais antes das competições.

Tabela comparativa dos principais achados
Estudo / AutorPrincipais achados sobre ciclagem de pesoConsequências relatadas
Carlson et al. (2018)Avaliação de ex-atletas com histórico de ciclagemMaior risco de doenças metabólicas e cardiovasculares
Franchini et al. (2020)Alterações hormonais e metabólicasDisfunções metabólicas, risco cardiovascular
Rodríguez-García et al. (2023)Impacto de diferentes estratégias e percentuais de RWLRedução da flexibilidade metabólica e desempenho
Santos et al. (2019)Recuperação lenta de glicogênio pós-RWLDesempenho prejudicado a longo prazo
Kirk (2022) e Rivera-Brown et al. (2023)Estresse psicológico e elevação de cortisolFadiga crônica, saúde mental afetada, maior risco de lesões
Zhong et al. (2024)Prevalência alta de ciclagem iniciada na adolescência, métodos extremosCiclo de perda e ganho, influência mínima de especialistas

CONCLUSÃO

A prática da ciclagem de peso corporal permanece amplamente difundida entre atletas de esportes de combate, muitas vezes iniciada ainda na adolescência e mantida ao longo da carreira com pouca ou nenhuma supervisão técnica. Os efeitos a longo prazo, tanto físicos quanto mentais, são preocupantes: alterações hormonais e metabólicas, maior risco cardiovascular, recuperação lenta de estoques energéticos e prejuízos ao desempenho, além de impactos negativos significativos sobre a saúde mental.

Diante dessas evidências, torna-se essencial:

  1. Educar atletas e treinadores sobre os riscos dessa prática e alternativas seguras de manejo de peso.
  2. Implementar protocolos graduais e supervisionados, evitando estratégias extremas e repetitivas de perda de peso.
  3. Reformular regulamentos de pesagem para reduzir a janela entre a pesagem e a competição, minimizando ciclos rápidos de perda e ganho de peso.
  4. Ampliar pesquisas em populações pouco estudadas, como mulheres e atletas adolescentes, e investigar o impacto de estratégias preventivas de longo prazo.

A conscientização e a adoção de métodos baseados em evidências são fundamentais para garantir que o sucesso competitivo não seja alcançado às custas da saúde presente e futura do atleta.

REFERÊNCIAS

  1. CARLSON, L. A.; BODEN, M. T.; COLE, S. W. Health risks and weight cycling in combat sports: A review. Journal of Athletic Training, v. 53, n. 12, p. 1100-1109, 2018.
  2. DALLAGLIO, M. et al. Rapid weight loss strategies in combat sports: impacts on performance and health risks. International Journal of Sports Medicine, v. 43, n. 7, p. 1002-1011, 2022.
  3. FRANCHINI, E. et al. Weight cycling in combat sports: risks and guidelines. Journal of Combat Sports Research, v. 10, p. 58-70, 2020.
  4. KIRK, C. L. Combat sports and weight cutting: A dangerous practice in pursuit of victory. Sport Health Journal, v. 14, n. 5, p. 385-392, 2022.
  5. MOHER, D. et al. Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses: The PRISMA statement. PLoS Med, v. 6, n. 7, e1000097, 2009.
  6. RIVERA-BROWN, A. M. et al. Weight management in combat sports: A systematic review on practices and consequences. International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 20, n. 6, p. 5158, 2023.
  7. RODRÍGUEZ-GARCÍA, L. et al. Effects of different rapid weight loss strategies and percentages on performance-related parameters in combat sports: An updated systematic review. International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 20, n. 6, p. 5158, 2023.
  8. SALLES, J. F.; GÓIS, M. J.; PEREIRA, A. Práticas de manejo do peso em atletas de esportes de combate: Uma revisão sistemática. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, v. 39, p. 239-245, 2017.
  9. SANTOS, D. et al. Metabolic consequences of rapid weight loss in combat sports athletes.Revista Brasileira de Medicina do Esporte, v. 25, n. 3, p. 135-140, 2019.