IMPACT OF BRUXISM ON QUALITY OF LIFE: AN INTEGRATIVE REVIEW
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202510142102
Júlia Carlini Montebeller1
Lidiane Vieira Gonçalves Castelan1
Raphaela Bourguignon dos Santos1
Marcelo Massaroni Peçanha2
Resumo
Bruxismo é um hábito parafuncional caracterizado por atividade muscular repetitiva da mandíbula, incluindo apertamento e ranger dos dentes, manifestando-se tanto durante o sono quanto na vigília. Este estudo teve como objetivo sistematizar evidências sobre a influência do bruxismo na qualidade de vida, apresentando subsídios para a prática clínica odontológica e interdisciplinar. Realizou-se uma revisão integrativa da literatura, com buscas nas bases PubMed, BVS, LILACS, BBO e Google Acadêmico, utilizando combinações dos termos “bruxismo”, “ranger de dentes” e “qualidade de vida”. Foram incluídos artigos publicados nos últimos dez anos, nos idiomas português, inglês e espanhol, focados em bruxismo e qualidade de vida. A amostra final compreendeu 42 artigos, selecionados mediante critérios de inclusão e exclusão definidos previamente. Os achados demonstraram que o bruxismo apresenta repercussões clínicas relevantes, incluindo desgaste dentário, dor orofacial, fadiga muscular, alterações na articulação temporomandibular e distúrbios do sono. Além disso, há impacto negativo na saúde mental, com maior prevalência de estresse, ansiedade e depressão, resultando em pior qualidade de vida relacionada à saúde bucal. Estratégias terapêuticas como dispositivos interoclusais, abordagens comportamentais e higiene do sono podem atenuar os efeitos adversos, embora muitas intervenções ainda careçam de comprovação científica robusta. A heterogeneidade metodológica e a variabilidade das amostras evidenciam a necessidade de pesquisas futuras com protocolos padronizados. Conclui-se que o bruxismo é uma condição multifatorial que afeta a saúde física, psicológica e social, demandando avaliação precoce e manejo interdisciplinar para minimizar seus impactos e melhorar a qualidade de vida.
Palavras-chave: Bruxismo. Qualidade de vida. Saúde bucal. Odontologia.
1. INTRODUÇÃO
O bruxismo, hábito parafuncional de elevada prevalência, é definido pela International Classification of Sleep Disorders como uma “atividade muscular repetitiva da mandíbula, caracterizada pelo apertamento ou ranger dos dentes ou impulsionamento da mandíbula” (American Academy of Sleep Medicine, 2024). O bruxismo é considerado um dos principais desafios enfrentados pela odontologia (SILVA; BONFA & BRAVIN, 2024). Considerado uma Disfunção Temporomandibular (DTM), na qual ocorre uma alteração musculoesquelética do sistema mastigatório, é caracterizado por distúrbios que afetam a amplitude do movimento mandibular e articular (CRUZ et al., 2020).
Essa condição pode ser classificada de acordo com critérios relacionados ao momento de ocorrência, etiologia e estado de atividade muscular. Em linhas gerais, o bruxismo manifesta-se em duas modalidades principais: o bruxismo do sono e o bruxismo em vigília. O primeiro é descrito como uma atividade mastigatória durante o sono, ao passo que o segundo corresponde a uma atividade mastigatória durante a vigília, caracterizada por contatos dentários repetitivos por contrações e movimentos de empurrão mandibular (CALDERAN et al., 2014; ZIELIŃSKI et al., 2024).
Embora a etiologia do bruxismo ainda não esteja completamente elucidada, diversos fatores são apontados como contribuintes para essa DTM, incluindo predisposição genética, alterações oclusais, influências do sistema nervoso central, distúrbios do sono, refluxo gastroesofágico e aspectos psicoemocionais, como o estresse (VON PIEKARTZ et al., 2024).
Estima-se que 30% da população mundial e 40% da população brasileira sofre de bruxismo. Além disso, a condição pode ter sérias consequências para a saúde bucal e qualidade de vida geral, como dor e desconforto (SILVA et al., 2021). Além disso, o bruxismo está associado a outros problemas de saúde, como estresse, ansiedade, transtornos psiquiátricos e distúrbios respiratórios do sono (GAMA; ANDRADE & CAMPOS, 2013; GENIS et al., 2020).
O sono representa um processo biológico indispensável para a manutenção do organismo humano, englobando funções restauradoras fundamentais para o equilíbrio energético, a consolidação da memória, a modulação imunológica e a regulação neuroendócrina (TROYNIKOV et al., 2018). Comprometimentos em sua qualidade ou perturbações durante o processo estão intimamente relacionados a uma ampla gama de repercussões clínicas e funcionais, tais como sonolência diurna excessiva, alterações do humor e irritabilidade, prejuízos no desempenho cognitivo e psicomotor, diminuição da atenção e da concentração (RAMAR & OLSON, 2013).
Além disso, o bruxismo pode causar alterações musculares, fadiga mialgia, assimetria na ação da musculatura, desgastes dentários e em alguns casos graves comprometer as funções ligadas à cavidade bucal, como mastigar, falar e engolir (OKESON, 2000).
O diagnóstico se baseia principalmente em autorrelatos, relatos de parceiros e questionários validados cientificamente, além de ferramentas como eletromiografia (EMG) e polissonografia (PSG) forneçam suporte diagnóstico adicional (MANFREDINI et al., 2022). As estratégias de tratamento atuais frequentemente dependem de abordagens odontológicas, como placas oclusais, farmacoterapia ou ajustes oclusais, somadas com abordagens psicológicas e até tratamentos com fisioterapeutas (MANFREDINI et al., 2016).
Assim, o bruxismo configura-se como uma condição de natureza multifatorial e complexa, com uma etiologia parcialmente indeterminada, exigindo, portanto, processos diagnósticos minuciosos e abordagens terapêuticas interdisciplinares. Diante do crescente impacto dos fatores psicossociais, como o estresse cotidiano e o aumento de transtornos psicológicos na população, bem como das alterações na qualidade do sono, torna-se evidente que a associação desses elementos ao quadro de bruxismo pode comprometer de maneira significativa a qualidade de vida dos indivíduos.
Com isso, o presente estudo tem como propósito investigar e sistematizar as evidências científicas que analisam a relação entre o bruxismo e a qualidade de vida. Pretende-se, assim, fornecer material teórico relevante para o aprofundamento da compreensão dessa interação e, a partir dos achados obtidos, gerar potenciais implicações práticas que possam orientar a atuação clínica dos cirurgiões-dentistas.
2. REVISÃO DA LITERATURA
2.1 O bruxismo e sua classificação
O termo bruxismo foi introduzido pela primeira vez na literatura odontológica em 1907 pelos pesquisadores franceses Marie e Pietkiewicz. Posteriormente, em 1936, Miller propôs o primeiro sistema de classificação, no qual apresentou a expressão “bruxomania” para definir o hábito de ranger e apertar os dentes durante o período de vigília, reservando o termo “bruxismo” para caracterizar o mesmo comportamento quando manifestado exclusivamente durante o sono (LAVIGNE et al., 2015).
Na versão mais recente da International Classification of Sleep Disorders o bruxismo é conceituado como uma atividade repetitiva dos músculos mastigatórios, definida pelo apertamento ou ranger dos dentes e/ou pelo travamento e movimentos de propulsão mandibular (American Academy of Sleep Medicine, 2024). Clinicamente, o bruxismo pode ser observado tanto durante o sono, sendo denominado bruxismo do sono, quanto durante a vigília, conhecido como bruxismo em vigília (CALDERAN et al., 2014; ZIELIŃSKI et al., 2024). Evidências sugerem que cada uma dessas formas apresenta etiologias, mecanismos fisiopatológicos e manifestações clínicas distintas (LAVIGNE et al., 2015).
Além disso, o bruxismo pode ser classificado em idiopático (primário), quando não há causa aparente ou identificável, e em iatrogênico (secundário), quando está relacionado ao uso de substâncias farmacológicas, drogas recreativas ou à suspensão de tais agentes. Ambos esses tipos de bruxismo podem se manifestar no sono ou na vigília (LAVIGNE et al., 2015). A figura 1 apresenta de forma esquemática as classificações do bruxismo, seguindo o que foi mencionando anteriormente.
Figura 1 – Classificações do bruxismo.

O bruxismo pode ter um impacto significativo na qualidade do sono e na saúde geral dos indivíduos acometidos. Além disso, o bruxismo pode levar a uma série de complicações, como desgaste dentário, dor de cabeça, dor na mandíbula, dor no pescoço e nos ombros, além de zumbido nos ouvidos e tontura (GAUER & SEMIDEY, 2015). Além de causar alterações em outras estruturas do complexo bucomaxilofacial, como na Articulação Temporomandibular e nos músculos da mastigação (VON PIEKARTZ et al., 2024), demonstrados pela Figura 2.
Figura 2 – Articulação Temporomandibular (ATM) e Músculos da Mastigação.

2.2 Etiologia
A causa exata do bruxismo ainda é desconhecida, mas estudos sugerem que fatores como estresse, ansiedade, apneia do sono, hábitos de mastigação inadequados e problemas de oclusão dentária podem contribuir para o seu desenvolvimento. O bruxismo pode se manifestar de diferentes formas, como o bruxismo centrado, que envolve o apertamento dos dentes, e o bruxismo excêntrico, que envolve o ranger dos dentes (MACHADO et al., 2016; PONTES et al, 2023).
Apesar dos avanços científicos nas últimas décadas, a sua etiologia permanece multifatorial e não completamente esclarecida, sendo compreendida como o resultado da interação complexa entre fatores biológicos, psicológicos e sociais. Entre os determinantes mais frequentemente descritos, destacam-se a predisposição genética, com estudos sugerindo um componente hereditário que pode aumentar a suscetibilidade individual, e as alterações oclusais, embora a literatura atual aponta que seu papel isolado seja limitado e provavelmente secundário (VON PIEKARTZ et al., 2024).
Existem evidências de que o sistema nervoso central exerce papel fundamental, considerando-se o bruxismo como uma atividade estereotipada de origem neuromuscular. Nesse sentido, distúrbios do sono, como insônia e apneia obstrutiva do sono, estão frequentemente associados ao aumento da atividade muscular mastigatória durante a vigília e o sono. O refluxo gastroesofágico também tem sido implicado como possível fator desencadeante, devido ao aumento da excitabilidade neuromuscular secundária à irritação esofágica (FAGUNDES et al., 2025).
No campo psicoemocional, destaca-se a relevância de estresses cotidianos, ansiedade, depressão e outras condições psiquiátricas, os quais atuam como importantes moduladores da intensidade e da frequência dos episódios de bruxismo. Esses fatores psíquicos não apenas aumentam o quadro, como também contribuem para a cronificação da DTM associada (GAMA; ANDRADE & CAMPOS, 2013; GENIS et al., 2020).
Fatores ambientais também podem estar relacionados ao bruxismo em vigília, como o excessivo de dispositivos eletrônicos, uma vez que o tempo de tela pode alterar o ciclo circadiano devido à emissão de luz azul, que pode suprimir a produção de melatonina, levando ao aumento dos níveis de excitação mental e estresse (SILVA et al., 2022).
2.3 Consequências do bruxismo
O bruxismo constitui uma condição de relevância clínica significativa em virtude do amplo espectro de repercussões orofaciais que pode ocasionar. Estudos apontam que a hiperatividade muscular mastigatória durante o sono está diretamente relacionada a danos estruturais nos dentes, incluindo desgaste progressivo do esmalte dentário, microtrincas e até fraturas coronárias. A sobrecarga mecânica repetitiva também exerce impacto sobre o sistema estomatognático como um todo, podendo desencadear alterações funcionais na articulação temporomandibular (ATM), dor facial difusa e cefaleias tensionais (KLASSER; REI & LAVIGNE, 2015).
Entre as complicações odontológicas mais graves, destacam-se a perda dentária pela pressão excessiva aplicada sobre os dentes e a ocorrência de reabsorção radicular externa, processo patológico em que há destruição progressiva do tecido radicular, comprometendo a longevidade do elemento dentário e pode culminar em sua perda definitiva ao longo do tempo (MANFREDINI et al., 2019).
As consequências do bruxismo, contudo, não se restringem ao campo odontológico. Essa condição exerce impacto significativo na qualidade de vida dos indivíduos, com repercussões tanto físicas quanto psicossociais. Além da dor orofacial e cefaleias recorrentes, pacientes frequentemente relatam fadiga muscular, distúrbios do sono, insônia e desconforto generalizado, o que pode comprometer a disposição diária e reduzir o desempenho acadêmico ou profissional (CARRA, 2018). A figura 3 apresenta os locais anatômicos característicos de alterações devido ao bruxismo.
Figura 3 – Esquema das consequências do bruxismo na região de cabeça e pescoço.

Nesse contexto, não apenas a saúde bucal, mas a saúde mental também é afetada. O bruxismo apresenta forte associação com estresse, ansiedade, sintomas depressivos e transtornos psiquiátricos, atuando como fator de agravamento ou perpetuação dessas condições (OHRBACH & MICHELOTTI, 2018). Consequentemente, muitos indivíduos desenvolvem isolamento social, motivado pelas limitações impostas pela dor e pelo desconforto, restringindo sua participação em atividades de lazer e interação interpessoal (CARRA, 2018).
A abordagem clínica do bruxismo deve, portanto, ser multidisciplinar e precoce, integrando recursos diagnósticos e terapêuticos que possibilitem minimizar complicações e restaurar a qualidade de vida do paciente (OHRBACH & MICHELOTTI, 2018). Do ponto de vista terapêutico, torna-se essencial que cirurgiões-dentistas e demais profissionais de saúde estejam atentos às manifestações clínicas e às possíveis complicações associadas, orientando precocemente seus pacientes quanto à necessidade de intervenção. As abordagens incluem desde o uso de dispositivos interoclusais (placas estabilizadoras), até terapias comportamentais e, em casos específicos, o emprego de farmacoterapia adjuvante (KLASSER; REI & LAVIGNE, 2015).
3. METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura pautada pela seguinte pergunta de pesquisa: “Qual a influência do bruxismo na qualidade de vida dos indivíduos?”. Para responder essa pergunta foram realizadas buscas nas principais bases de dados, utilizando uma estratégia de busca, composta pelos operadores booleanos AND e OR (quadro 1).
Quadro 1 – Estratégia de busca utilizada para o presente estudo.

Foram estabelecidos como critérios de inclusão: artigos científicos publicados nos idiomas inglês, espanhol e português, artigos no período de abrangência dos últimos 10 anos, artigos por conveniência dos autores, textos publicados na área da odontologia, estudos com foco central no bruxismo e na qualidade de vida independente de sua metodologia. Os critérios de exclusão foram: textos duplicados, artigos focados exclusivamente em um único dano causado pelo bruxismo, artigos com acesso não aberto e estudos de populações ou contextos que não correspondem à realidade clínica de interesse para este estudo.
Três integrantes da pesquisa, de forma independente, realizaram o processo de triagem dos artigos, com divergências resolvidas por consenso entre os três em um mesmo momento para decisão. Esse processo foi realizado em três etapas, detalhadas no quadro 2.
Quadro 2 –Etapas de triagem dos artigos para o estudo.

A busca inicial nas bases de dados apresentou 317 artigos: 132 capturados pelo PubMed, 127 pela BVS, 48 pela LILACS e 10 pela BBO. Após a aplicação do consenso entre os pesquisadores e dos critérios de inclusão e exclusão de artigos, 165 artigos foram selecionados para a primeira etapa de triagem. As etapas 2 e 3 foram realizadas de forma subjetiva pelos autores, determinando se os artigos entraram ou não no presente. 32 artigos foram contemplados e lidos por completo. Utilizando o Google Acadêmico, 10 artigos foram capturados, complementando a amostra de 42 artigos para este estudo. A figura 4 apresenta essa busca de forma resumida.
Figura 4 – Fluxograma de execução do estudo.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
A amostra final analisada nesta revisão foi composta por 42 artigos. Dentre o período de publicação estabelecido, 19 artigos contemplados foram publicados nos últimos 5 anos. Gauer & Semidey (2015) descrevem que a ATM é constituída pela inserção do côndilo mandibular na fossa mandibular do osso temporal, sendo os músculos mastigatórios os principais responsáveis pela execução de seus movimentos. As DTMs caracterizam-se, sobretudo, por manifestações álgicas craniofaciais que podem envolver as articulações, a inervação dos músculos da cabeça e do pescoço, bem como a musculatura mastigatória. Evidências de base populacional apontam que sua prevalência está entre 10% e 15% da população adulta; entretanto, apenas cerca de 5% dos indivíduos acometidos buscam assistência profissional.
Costa et al. (2023) investigaram a prevalência de DTMs em estudantes do curso de Odontologia de uma instituição de ensino superior, evidenciando que, entre o total de participantes, 49,8% apresentavam DTM leve, 13,1% DTM moderada e 3,1% DTM severa. O comportamento parafuncional mais frequentemente relatado foi o hábito de apertamento e bruxismo dentário, relatado por 48,6% dos indivíduos avaliados.
Entre os sinais observados no bruxismo do estão: desgaste anormal dos dentes, recessão gengival, mobilidade dentária, hipertrofia dos músculos mastigatórios, edentulismo da língua, diminuição da salivação, restrição da capacidade de abrir a boca e presença de traumas nos dentes, lábios e mucosa oral (MAGALHÃES et al., 2017). Quanto aos sintomas, o paciente geralmente refere queixas nos músculos da mastigação e pescoço, dores de cabeça principalmente na região das têmporas ao acordar, hipersensibilidade nos dentes e às vezes também mobilidade, o paciente se queixa de pouca mobilidade durante o sono e refere que o companheiro na cama menciona que ele range os dentes à noite (AGREN et al., 2019).
O quadro 3 apresenta parte dos estudos analisados nesta revisão, juntamente com seus principais resultados quanto ao bruxismo na saúde bucal dos pacientes e em sua qualidade de vida.
Quadro 3 – Resultados dos estudos sobre Bruxismo.
| Autor | Resultados |
| Sousa et al. (2025) | A idade média dos acadêmicos com diagnóstico de bruxismo foi de 24 anos. Observou-se maior prevalência da condição no sexo feminino. Entre os fatores associados, o estresse e a ansiedade destacaram-se como principais desencadeadores do bruxismo, enquanto a depressão, o cronotipo e a qualidade do sono mostraram-se elementos contribuintes para a manifestação da parafunção. Como repercussões clínicas, verificaram-se periodontite, disfunções musculares e fraturas dentárias nos indivíduos acometidos. |
| Diniz et al. (2024) | Bruxismo presente em 40% das crianças avaliadas no estudo, destas, 60% apresentavam o hábito de ranger os dentes, 8% apenas apertavam e 32% rangiam e apertavam os dentes simultaneamente. |
| Sin et al. (2024) | A distribuição por gênero do grupo foi a seguinte: 52,5% masculino e 47,5% feminino. O valor máximo do índice de bruxismo foi de 10,5 e o mínimo foi de 2,10, com média de 6,30 e desvio-padrão de 2,22. O T-score de qualidade de vida registrou valor máximo igual a 62, valor mínimo igual a 40 e média igual a 51,87. O coeficiente de correlação de Pearson calculado para testar a correlação entre o indicador de bruxismo e o T-Score do QOLI apresentou valor negativo (-0,643), o que significa uma relação negativa, porém muito forte, entre as duas variáveis. 77,5% dos participantes estavam incluídos em um nível médio de qualidade de vida. |
| Başpinar et al. (2023) | A presença de bruxismo do sono de vigília foi detectada em 41,4% e 21,7%, respectivamente, entre 91 homens e 158 mulheres, com média de idade de 36,64 ± 11,60 anos. Indivíduos com bruxismo durante o sono e em vigília apresentaram menor qualidade de vida relacionada à saúde bucal (razão de chances (RC): 0,816, intervalo de confiança (IC) de 95% = 0,770–0,864 e RC: 0,923, IC de 95% = 0,956–0,982, respectivamente). A má qualidade do sono foi atestada 1,28 vezes mais no bruxismo do sono (RC: 1,277, IC de 95% = 1,152–1,415) e 1,14 vezes mais no bruxismo em vigília (RC: 1,141, IC de 95% = 1,230– 1,058). O escore CPOD foi 1,13 vezes maior em pacientes com bruxismo (SB). |
| Turcio et al. (2022) | Avaliou correlação entre bruxismo (sono, vigília ou ambos) e OHRQoL + dor facial de origem muscular. Encontrou correlação significativa entre presença de bruxismo e piora da qualidade de vida relacionada à saúde bucal e maior relato de dor facial/muscular, sugerindo ligação com funcionalidade muscular e sensação de dor. |
| Luccas et al. (2021) | Os achados do estudo mostraram que a má qualidade do sono pode estar relacionada à ansiedade, depressão e estresse, principalmente. Não apresentando relação quanto aos estágios do sono ou ao sexo dos participantes. |
| Suguna e Gurunathan (2020) | As características sociodemográficas não apresentaram diferenças significativas entre portadores de bruxismo e não portadores de bruxismo (P > 0,005). Houve diferença significativa na qualidade de vida entre os grupos caso e controle (<0,001). Os portadores de bruxismo apresentaram pior qualidade de vida do que os controles. |
| Tay et al. (2020) | Os domínios dor física, desconforto psicológico e incapacidade psicológica foram os mais influenciados pelo bruxismo. |
| Câmara Souza et al. (2019) | Os pacientes com bruxismo, comparados aos controles, tinham pior qualidade de sono (p menor 0,001; ES=0,82) e sonolência diurna excessiva (p=0,013; ES=0,65) |
| Neu et al. (2018) | Os grupos (indivíduos com bruxismo do sono e indivíduos que dormem bem) apresentavam sintomas de ansiedade, os pacientes com bruxismo do sono tiveram mais sintomas de depressão (p=0,040), severidade de fadiga (p=0,016) e sonolência (p=0,020). |
Palinkas et al. (2016) destacam que os efeitos do bruxismo podem ser atenuados e modulados por meio de distintas estratégias comportamentais, tais como: a evitação de fatores de risco conhecidos (como consumo de álcool, tabaco e outras substâncias psicoativas), a otimização dos hábitos noturnos e do ambiente de sono (higiene do sono), a gestão do estresse e da ansiedade por meio de intervenções psicoterapêuticas, incluindo terapia cognitivo comportamental, hipnoterapia e biofeedback. Contudo, a maioria dessas abordagens carece de respaldo robusto oriundo de estudos controlados, sendo sua eficácia ainda incerta. No que se refere à higiene do sono, torna-se imprescindível que o paciente implemente estratégias destinadas à correção de hábitos pessoais, visando à obtenção de um sono de melhor qualidade. Entre essas medidas, incluem-se a restrição do consumo de álcool, cafeína e tabaco nas horas que antecedem o descanso, bem como a criação de um ambiente propício, caracterizado por calma, escuridão e silêncio. Costa et al. (2016), em estudo controlado randomizado, avaliaram o impacto da higiene do sono associada a técnicas de relaxamento sobre o bruxismo do sono durante quatro semanas, constatando que tais intervenções não resultaram em diferenças estatisticamente significativas quando comparadas à linha de base. Apesar do caráter negativo dos achados, recomenda-se que profissionais odontológicos incentivem a manutenção de adequada higiene do sono e a evitação do álcool e do tabaco, considerando-os fatores de risco relevantes para o desenvolvimento e agravamento do bruxismo do sono.
Com toda a literatura já mencionada, percebe-se que o bruxismo não se restringe apenas às repercussões físicas, como dor orofacial, desgaste dentário ou fadiga muscular, mas também exerce impactos significativos sobre a qualidade de vida dos indivíduos bruxistas. A dor constante na região pré-auricular, masseter e têmpora, frequentemente exacerbada por movimentos mandibulares como mastigação, abertura e fechamento da boca, pode gerar limitação funcional, desconforto persistente e interferir nas atividades cotidianas e no desempenho profissional ou acadêmico. Além disso, o bruxismo está associado a alterações do sono, cansaço diurno e sintomas de ansiedade e estresse, que podem contribuir para prejuízos na esfera emocional e social do paciente, afetando sua percepção global de bem-estar e satisfação com a vida.
O diagnóstico do bruxismo é amplamente baseado na anamnese detalhada e nos achados do exame físico. Qiao et al. (2021) destacam que, quando a dor não se altera em resposta ao movimento mandibular, deve-se suspeitar da presença de outras fontes de dor orofacial, diferenciando assim o bruxismo de outras condições clínicas que também impactam a saúde bucal e a qualidade de vida. Dessa forma, a avaliação adequada e a implementação de estratégias preventivas e terapêuticas são fundamentais não apenas para reduzir os sintomas físicos, mas também para minimizar os efeitos negativos sobre o bem-estar geral e a qualidade de vida relacionada à saúde bucal.
Estudos recentes ainda evidenciam que o bruxismo, tanto durante o sono quanto em vigília, está associado a uma diminuição significativa na qualidade de vida relacionada à saúde bucal (OHRQoL). Pesquisas indicam que indivíduos com bruxismo apresentam pior qualidade de sono e maior prevalência de dor orofacial, impactando negativamente sua funcionalidade diária e bem-estar psicológico.
Uma pesquisa conduzida por Başpınar et al. (2023) revelou que tanto o bruxismo do sono quanto o de vigília estão correlacionados com uma redução na OHRQoL. Além disso, esses indivíduos apresentaram pior qualidade de sono, evidenciada por escores mais elevados no Pittsburgh Sleep Quality Index (PSQI), e maior índice de dentes cariados, perdidos ou obturados. Esses achados sugerem que o bruxismo pode contribuir para o agravamento de condições bucais e distúrbios do sono, o que afeta diretamente a qualidade de vida dos pacientes.
No contexto pediátrico, Costa et al. (2025) observaram que o bruxismo do sono está associado a uma pior OHRQoL em crianças, especialmente nos domínios relacionados a sintomas e limitações funcionais. Essas crianças apresentaram maior prevalência de dor orofacial e dificuldades em atividades diárias, como alimentação e fala, o que ressalta a importância de uma abordagem clínica precoce e eficaz para mitigar os impactos do bruxismo na infância.
Além dos efeitos na saúde bucal e qualidade do sono, mais autores apontam que o bruxismo também está relacionado a distúrbios psicológicos, como estresse, ansiedade e depressão. González et al. (2025) destacaram que indivíduos com bruxismo apresentam níveis mais elevados de estresse, ansiedade e depressão, os quais, por sua vez, afetam negativamente a qualidade do sono e, consequentemente, a qualidade de vida. Esses achados enfatizam a natureza multifatorial do bruxismo e a necessidade de uma abordagem terapêutica integrada que considere os aspectos psicológicos e comportamentais dos pacientes.
Portanto, a evidência científica reforça a compreensão de que o bruxismo não é apenas um distúrbio odontológico, mas uma condição que afeta diversos aspectos da saúde e qualidade de vida dos indivíduos. É imperativo que profissionais de saúde, especialmente cirurgiões dentistas, adotem uma abordagem holística no diagnóstico e manejo do bruxismo, incorporando estratégias que abordem tanto os fatores físicos quanto os psicológicos envolvidos.
Apesar do número expressivo de artigos identificados nesta revisão, é fundamental reconhecer certas limitações que podem influenciar a interpretação dos resultados. Observa-se uma considerável heterogeneidade metodológica entre os estudos analisados, incluindo diferenças nos delineamentos, critérios de inclusão e exclusão, instrumentos de avaliação e períodos. Além disso, muitos trabalhos apresentam amostras divergentes, o que compromete a robustez estatística e restringe a generalização dos achados.
Essas restrições evidenciam a necessidade de investigações mais consistentes, que permitam um maior poder de inferência e maior representatividade populacional. É igualmente importante que futuras pesquisas adotem critérios padronizados de inclusão e exclusão, bem como protocolos uniformes de mensuração de variáveis clínicas e psicossociais, garantindo assim maior comparabilidade entre os estudos. Nesse contexto, investigações futuras não devem se limitar apenas à compreensão aprofundada da influência de fatores clínicos e sistêmicos sobre o bruxismo, mas também devem focar no desenvolvimento e avaliação de estratégias terapêuticas inovadoras.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo evidenciou que o bruxismo, tanto do sono quanto em vigília, é uma condição multifatorial que impacta de maneira substancial a qualidade de vida dos indivíduos. Além das manifestações físicas, como desgaste dentário, dor orofacial, fadiga muscular e disfunções da articulação temporomandibular, observa-se associação consistente com distúrbios do sono, estresse, ansiedade e depressão. Crianças, adolescentes e adultos apresentam prejuízos funcionais e emocionais que comprometem atividades diárias, desempenho acadêmico ou profissional e bem-estar psicológico, comprometendo sua qualidade de vida.
Estratégias preventivas e terapêuticas, incluindo o uso de dispositivos interoclusais, intervenções comportamentais, higiene do sono e manejo do estresse, são essenciais, embora a eficácia de algumas abordagens ainda necessite de maior comprovação científica. A heterogeneidade metodológica entre os estudos, aliada à variabilidade de amostras e critérios de avaliação, limita a generalização dos achados, ressaltando a necessidade de pesquisas futuras com protocolos padronizados e delineamentos robustos.
Conclui-se que o bruxismo não é apenas uma condição odontológica, mas um fenômeno de relevância biopsicossocial, exigindo atuação interdisciplinar precoce e abordagem holística, a fim de minimizar danos físicos, psicológicos e sociais, promovendo a melhoria da saúde bucal e da qualidade de vida dos indivíduos acometidos.
REFERÊNCIAS
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1Discente do Curso Superior de Odontologia do Centro Universitário Multivix Campus Vitória-ES. e-mail: juliamontebeller@hotmail.com
2Docente do Curso Superior de Odontologia do Centro Universitário Multivix Campus Vitória-ES. Doutor em Odontologia (Universidade de Taubaté, Taubaté – SP). e-mail. marcelompecanha@gmail.com
