IMPACTO DAS INFECÇÕES RESPIRATÓRIAS POR COVID-19 E  INFLUENZA NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE: REVISÃO  SISTEMÁTICA DOS PROTOCOLOS DE TRIAGEM, MANEJO  CLÍNICO E PREVENÇÃO  

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202512240802


Gabriela Roldo Tieppo; Amanda Ribeiro da Silva; Rafaelle Führ Soares; Larissa Rosa Ferreira; Jhuana  Fernanda Rojas; Larissa Barragan Oliveira; Angela Zangali Toigo; Vitória Kleinubing Abal


RESUMO  

As infecções respiratórias agudas, notadamente a COVID-19 e a influenza, representam desafios críticos  à saúde pública global. Este estudo objetivou sintetizar as evidências sobre o impacto dessas infecções  na Atenção Primária à Saúde (APS). Realizou-se uma revisão sistemática baseada nas diretrizes  PRISMA 2020, com buscas nas bases PubMed, SciELO, LILACS e Web of Science, abrangendo o  período de 2020 a 2025. Foram incluídos 42 estudos que atenderam aos critérios de elegibilidade. Os  resultados indicam que a implementação de protocolos de triagem reduziu o tempo de espera em até  45% e a reorganização de fluxos assistenciais diminuiu a contaminação local em 73%. A teleconsulta  emergiu como inovação resolutiva, solucionando cerca de 76% das demandas em contextos de  Estratégia Saúde da Família. A oximetria de pulso e o monitoramento domiciliar foram ferramentas  essenciais para evitar hospitalizações desnecessárias. Conclui-se que a APS demonstrou alta capacidade  de adaptação e resolutividade, reafirmando seu papel como eixo ordenador do cuidado e porta de entrada  preferencial, sendo o investimento neste nível de atenção uma prioridade para a segurança sanitária.  

Palavras-chave: Atenção Primária à Saúde. COVID-19. Influenza. Gestão em Saúde. Medicina de  Família e Comunidade.  

ABSTRACT  

Acute respiratory infections, notably COVID-19 and influenza, represent critical challenges to global  public health. This study aimed to synthesize evidence on the impact of these infections in Primary  Health Care (PHC). A systematic review was conducted based on the PRISMA 2020 guidelines,  searching PubMed, SciELO, LILACS, and Web of Science databases from 2020 to 2025. Forty-two  studies that met the eligibility criteria were included. Results indicate that the implementation of  screening protocols reduced waiting times by up to 45%, and the reorganization of care flows decreased  local contamination by 73%. Teleconsultation emerged as a resolutive innovation, addressing  approximately 76% of demands within the Family Health Strategy context. Pulse oximetry and home  monitoring were essential tools to prevent unnecessary hospitalizations. In conclusion, PHC  demonstrated high adaptability and resoluteness, reaffirming its role as the coordinating axis of care and  the preferred gateway to the health system, making investment in this level of care a priority for health  security.  

Keywords: Primary Health Care. COVID-19. Influenza. Health Management. Family and Community  Medicine.  

1. INTRODUÇÃO 

As infecções respiratórias agudas (IRA) constituem um dos principais desafios de saúde  pública em âmbito global, representando uma causa significativa de morbidade e mortalidade  em todas as faixas etárias. Estima-se que as doenças do trato respiratório inferior sejam  responsáveis por milhões de óbitos anualmente, com um impacto socioeconômico desproporcional em países de baixa e média renda (WHO, 2023). Entre essas condições,  destacam-se a COVID-19, causada pelo coronavírus de síndrome respiratória aguda grave 2  (SARS-CoV-2), e a influenza, provocada pelos vírus dos tipos A e B, que sazonalmente  sobrecarregam as redes assistenciais. 

A emergência da pandemia de COVID-19, declarada pela Organização Mundial da  Saúde (OMS) em março de 2020, provocou uma crise sanitária sem precedentes. Segundo  Croda et al. (2020), a rápida disseminação do vírus exigiu uma reorganização urgente dos  serviços de saúde, evidenciando que a Atenção Primária à Saúde (APS) deveria atuar não  apenas no manejo de casos leves, mas também na vigilância epidemiológica e na contenção da  transmissibilidade comunitária. 

Paralelamente, a influenza sazonal permanece como uma causa persistente de  adoecimento e óbitos, especialmente entre grupos vulneráveis como idosos, crianças e  imunossuprimidos. A circulação simultânea desses patógenos, fenômeno por vezes  denominado “sindemia”, ampliou a complexidade do diagnóstico diferencial, uma vez que as  manifestações clínicas são frequentemente indistinguíveis sem suporte laboratorial (GARCIA  et al., 2021). 

A APS constitui o eixo estruturante e a ordenadora do cuidado nos sistemas de saúde  contemporâneos. Ela fundamenta-se nos quatro atributos essenciais propostos por Starfield  (2002): 

• Acesso de primeiro contato: a acessibilidade e o uso do serviço a cada novo  problema. 

• Longitudinalidade: o vínculo terapêutico ao longo do tempo. 

• Integralidade: o reconhecimento do elenco de necessidades biopsicossociais. • Coordenação: a articulação entre os diversos pontos da Rede de Atenção à Saúde  (RAS). 

No cenário brasileiro, a Estratégia Saúde da Família (ESF) consolida-se como o modelo  prioritário de organização da APS. De acordo com dados do Ministério da Saúde (BRASIL,  2024), a cobertura da ESF atingiu aproximadamente 76% da população, consolidando-se como  a principal porta de entrada para o Sistema Único de Saúde (SUS) e peça-chave na resposta a  emergências respiratórias. 

Neste contexto, a Medicina de Família e Comunidade (MFC) desempenha papel central.  O médico de família, ao atuar no território e possuir conhecimento prévio do contexto familiar,  possui competências singulares para o manejo clínico e para a mitigação do pânico social durante surtos epidêmicos (ANDRADE et al., 2020). Entretanto, observa-se ainda uma lacuna  na literatura científica quanto à sistematização das evidências sobre protocolos de triagem,  fluxos de manejo clínico e estratégias de prevenção específica para a coexistência de COVID 19 e influenza no âmbito da APS. 

Diante do exposto, esta revisão sistemática objetiva sintetizar as evidências disponíveis  sobre o impacto das infecções respiratórias por COVID-19 e influenza na Atenção Primária,  visando subsidiar a tomada de decisão clínica e a gestão de políticas públicas de saúde. 

2. METODOLOGIA 

2.1 Tipo de Estudo e Registro 

Trata-se de uma revisão sistemática da literatura, desenvolvida rigorosamente conforme  as diretrizes do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses  (PRISMA 2020), que visa assegurar a transparência e a reprodutibilidade do processo (PAGE  et al., 2021).  

2.2 Critérios de Elegibilidade 

A seleção dos estudos fundamentou-se no acrônimo PICOS (População, Intervenção,  Comparação, Desfechos e Desenho do Estudo), conforme detalhado a seguir: População (P): pacientes com diagnóstico clínico ou laboratorial de COVID-19 e/ou  influenza assistidos exclusivamente no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS). Intervenção (I): estratégias de saúde pública, protocolos de triagem, fluxos de manejo  clínico e medidas de prevenção (vacinação e educação em saúde). 

Comparação (C): cuidados habituais, ausência de protocolo específico ou comparações  entre diferentes estratégias assistenciais. 

Desfechos (O – Outcomes): indicadores de efetividade clínica, resolutividade da APS,  taxas de internação evitável, cobertura vacinal e adesão aos protocolos. 

Desenho do Estudo (S): estudos observacionais (coorte e caso-controle), ensaios  clínicos, pesquisas qualitativas, estudos de implementação e diretrizes clínicas (guidelines). Foram excluídos relatos de caso isolados, séries de casos com amostra inferior a 10  pacientes, editoriais, cartas ao editor e estudos realizados exclusivamente em ambiente  hospitalar ou de terapia intensiva.

2.3 Fontes e Estratégia de Busca 

O levantamento bibliográfico foi realizado de forma sistemática nas bases de dados  PubMed/MEDLINE, SciELO (Scientific Electronic Library Online), LILACS (Literatura  Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde) e Web of Science. O período de busca  compreendeu o intervalo entre janeiro de 2020 e março de 2025, visando capturar a produção  científica desde o início da pandemia até o cenário atual de transição epidemiológica. Foram  utilizados descritores controlados do MeSH (Medical Subject Headings) e DeCS (Descritores  em Ciências da Saúde), combinados com os operadores booleanos AND e OR. 

2.4 Processo de Seleção 

A seleção dos estudos ocorreu em duas etapas: inicialmente pela leitura de títulos e  resumos e, posteriormente, pelo exame do texto completo. Este processo foi executado de forma  pareada e independente por dois revisores (G.R.T. e A.R.S.). Eventuais divergências foram  resolvidas por consenso ou pela consulta a um terceiro revisor. O nível de concordância entre  os revisores foi mensurado pelo coeficiente Kappa de Cohen, atingindo o valor de 0,87, o que  caracteriza uma concordância “quase perfeita” segundo a escala de Landis e Koch (1977). 

2.5 Extração e Avaliação de Qualidade 

A extração de dados foi conduzida pelos revisores L.R.F. e J.F.R., utilizando formulário  padronizado. A avaliação da qualidade metodológica e do risco de viés foi realizada conforme  a natureza do estudo: 

• Estudos observacionais: Escala de Newcastle-Ottawa (NOS). 

• Estudos qualitativos: Programa de Habilidades em Avaliação Crítica (CASP). • Diretrizes clínicas: Instrumento Appraisal of Guidelines for Research &  Evaluation II (AGREE II). 

2.6 Síntese dos Resultados 

Dada a heterogeneidade metodológica dos estudos incluídos, realizou-se uma síntese  narrativa. Esta análise seguiu as recomendações do Cochrane Handbook for Systematic  Reviews of Interventions e as diretrizes Synthesis Without Meta-analysis (SWiM), permitindo  a integração de evidências quantitativas e qualitativas para uma compreensão abrangente do  impacto das infecções respiratórias na APS (CAMPBELL et al., 2020).

3. RESULTADOS 

3.1 Seleção dos Estudos 

O processo de busca e seleção está detalhado na Figura 1. Inicialmente, foram  identificados 623 registros nas bases de dados selecionadas: PubMed (n=287), Web of Science  (n=198), LILACS (n=89) e SciELO (n=49). Adicionalmente, 15 registros foram identificados  por meio de busca manual em listas de referências e literatura cinzenta, totalizando 638  documentos. 

Após a exclusão de 156 duplicatas, 482 títulos e resumos foram triados. Destes, 391  foram excluídos por não atenderem aos critérios de elegibilidade. Dos 91 artigos lidos na íntegra  para avaliação de elegibilidade, 49 foram descartados (principalmente por desfechos não  relacionados à APS ou amostragem insuficiente). Ao final, 42 estudos foram incluídos nesta  revisão sistemática. 

Figura 1 – Fluxograma PRISMA 2020 de seleção dos estudos 

Fonte: Elaborado pelos autores conforme Page et al. (2021).

3.2 Características dos Estudos 

Os 42 estudos selecionados foram publicados entre os anos de 2020 e 2024,  apresentando uma concentração temporal estratégica que reflete a curva de resposta científica  à crise sanitária. O maior volume de produção ocorreu nos anos de 2021 (33,3%) e 2022  (28,6%), período que marca a transição do conhecimento puramente observacional para a  análise de intervenções e implementação de novas tecnologias na APS. 

A distribuição geográfica foi global, abrangendo 18 países e refletindo diferentes  modelos de sistemas de saúde. Observou-se um protagonismo do Brasil (26,2%), o que pode  ser atribuído à robustez da Estratégia Saúde da Família (ESF) e sua capilaridade territorial,  permitindo a geração de dados volumosos em tempo real. Em seguida, destacaram-se os  Estados Unidos (16,7%) e o Reino Unido (11,9%), países com tradição em Medicina de Família  e redes de Atenção Primária estruturadas para a pesquisa clínica. 

Quanto ao desenho metodológico, a amostra apresentou a seguinte composição: • Abordagem Transversal (35,7%): predominante no início do recorte, focando na  prevalência de sintomas e adesão inicial a protocolos. 

• Coorte Retrospectiva (19,0%): essencial para analisar o impacto das intervenções  após os picos epidemiológicos. 

• Estudos Qualitativos (14,3%): fundamentais para compreender a percepção dos  profissionais de saúde e as barreiras subjetivas ao cuidado. 

• Estudos de Implementação (11,9%) e Diretrizes (9,5%): refletindo o esforço de  sistematização de condutas clínicas. 

• Coorte Prospectiva (7,1%) e Ensaio Clínico Randomizado (2,4%): embora em  menor número devido à urgência pandêmica, forneceram evidências de alta  qualidade sobre testes rápidos e eficácia vacinal (THOMPSON et al., 2022). 

A Tabela 1 apresenta uma síntese dos principais achados, demonstrando como a  diversidade de contextos geográficos e metodológicos convergiu para resultados semelhantes  no que tange à resolutividade da Atenção Primária. 

Tabela 1 – Síntese das características e achados dos estudos incluídos (Recorte)

Fonte: Elaborado pelos autores (2025). 

A análise qualitativa desses estudos revela que, independentemente do desenho  metodológico, a APS atuou como o principal amortecedor da carga hospitalar, especialmente  através da reorganização física das unidades e do uso estratégico da telessaúde (OLIVEIRA et  al., 2021; LIMA et al., 2022). 

A análise da produção científica revela uma curva de aprendizado institucional e  acadêmico. O volume de publicações concentrado em 2021 e 2022 demonstra a rapidez com  que a Atenção Primária à Saúde (APS) sistematizou suas práticas frente ao desconhecido.  Conforme ilustrado no gráfico de distribuição por anos, o pico de 2021 (33,3%) coincide com  a introdução das vacinas e a consolidação de protocolos de manejo clínico no território. 

Em termos geográficos, a predominância de estudos brasileiros (26,2%) reafirma a  importância do Sistema Único de Saúde (SUS) como um laboratório global de práticas de saúde  pública em larga escala. Os Estados Unidos e o Reino Unido também contribuem  significativamente, refletindo redes de APS consolidadas (Family Medicine e GP Practices). 

Quanto ao rigor metodológico, a prevalência de estudos transversais (35,7%) e coortes  retrospectivas (19,0%) é característica de períodos de emergência, onde a análise de dados já  existentes é prioritária para a tomada de decisão rápida. No entanto, a presença de estudos  qualitativos (14,3%) e de implementação (11,9%) indica um esforço em entender não apenas  “o que funciona”, mas “como” e “por que” as estratégias foram aceitas ou não pelas  comunidades (GARCÍA-LÓPEZ, 2022).

3.3 Protocolos de Triagem 

A estruturação de protocolos de triagem e a reorganização dos serviços foram abordadas  por 34 estudos (81,0%), consolidando-se como o pilar fundamental para a manutenção da  segurança biológica nas unidades de saúde. A evidência aponta que a reorganização de fluxos  físicos, caracterizada pela criação de áreas específicas para coortes respiratórias, foi a estratégia  mais adotada, presente em 28 estudos (66,7%). Essa medida visou mitigar a transmissão  cruzada entre pacientes com sintomas gripais e aqueles em busca de cuidados de rotina, como  pré-natal e acompanhamento de doenças crônicas (OLIVEIRA et al., 2021). 

A triagem clínica foi frequentemente potencializada por tecnologias de suporte à  decisão. O uso de testes rápidos no ponto de cuidado (point-of-care testing – POCT) foi  destacado em 22 estudos (52,4%) como um fator determinante. Segundo Thompson et al.  (2022), a disponibilidade desses testes na APS permitiu o diagnóstico diferencial ágil entre  influenza e COVID-19 em menos de 20 minutos, facilitando o isolamento precoce e o manejo  farmacológico oportuno, como o uso de antivirais para influenza em grupos de risco. 

Além dos fluxos presenciais, a literatura destaca a implementação da triagem remota ou  “tele-triagem”. Estudos como o de Silva et al. (2021) demonstraram que a utilização de  protocolos telefônicos ou via aplicativos de mensagens antes do deslocamento do paciente à  unidade reduziu o tempo de espera presencial em 45% e evitou exposições desnecessárias. Essa estratégia permitiu que a APS atuasse como um “filtro inteligente”, direcionando apenas casos  com sinais de alerta para avaliação física imediata, enquanto casos leves eram orientados quanto  ao autoisolamento e monitoramento de sintomas (SANTOS et al., 2022). 

Por fim, a capacitação das equipes multiprofissionais, especialmente dos técnicos de  enfermagem e Agentes Comunitários de Saúde (ACS), foi citada como essencial para a  operacionalização desses protocolos. A triagem não se limitou apenas à identificação de  sintomas, mas incluiu a estratificação de vulnerabilidade social, permitindo que a equipe  priorizasse pacientes com maior dificuldade de isolamento domiciliar ou com comorbidades  associadas (FERREIRA et al., 2022). 

3.4 Manejo Clínico 

O manejo clínico das infecções respiratórias no âmbito da Atenção Primária foi o foco  central de 38 estudos (90,5%), evidenciando a capacidade do nível primário em absorver a  complexidade assistencial imposta pela COVID-19 e influenza. A principal estratégia  identificada foi o monitoramento domiciliar, citado em 23 estudos (54,8%), que operou por meio de visitas domiciliares presenciais ou acompanhamento remoto via telessaúde. Essa  ferramenta foi considerada essencial para a detecção precoce de sinais de deterioração clínica,  permitindo intervenções antes que o quadro evoluísse para insuficiência respiratória grave  (LIMA et al., 2022). 

No contexto do monitoramento, a utilização da oximetria de pulso como preditor de  gravidade foi validada em 15 estudos (35,7%). A literatura destaca que a identificação da  “hipoxemia silenciosa” — quando o paciente apresenta baixos níveis de saturação de oxigênio  sem dispneia aparente — foi crucial para a redução da mortalidade. Considerada uma tecnologia  de baixo custo e fácil aplicação, a oximetria na APS permitiu a estratificação objetiva dos  pacientes: aqueles com saturação de oxigênio abaixo de 94% em ar ambiente foram priorizados  para encaminhamento aos serviços de urgência ou para oxigenoterapia precoce (COSTA et al.,  2023). 

Adicionalmente, o manejo clínico incluiu a padronização de protocolos farmacológicos.  Para a influenza, o início oportuno do tratamento com oseltamivir em pacientes de grupos de  risco foi associado a uma redução de 41% nas complicações secundárias (MARTIN et al.,  2020). No caso da COVID-19, o foco do manejo na APS concentrou-se no suporte sintomático  e na rigorosa vigilância de comorbidades descompensadas, como hipertensão e diabetes, que  frequentemente agravavam o desfecho das infecções virais (ROSSI et al., 2021). 

A resolutividade da APS também foi potencializada pela coordenação do cuidado.  Estudos indicam que a criação de “leitos de observação” ou “salas de estabilização” nas  Unidades Básicas de Saúde, equipadas com concentradores de oxigênio, serviu como suporte  temporário vital enquanto se aguardava o transporte sanitário para níveis de maior  complexidade. Essa infraestrutura mínima, aliada ao julgamento clínico do médico de família,  evitou hospitalizações desnecessárias e garantiu que o sistema de saúde operasse de forma  integrada durante os picos epidêmicos (ANDRADE et al., 2020). 

3.5 Estratégias de Prevenção 

As ações preventivas na APS foram abordadas de forma abrangente em 36 estudos  (85,7%), refletindo o papel histórico desse nível de atenção na antecipação de agravos e na  proteção da saúde pública. A vacinação, foco de 29 estudos (69,0%), consolidou-se como a  intervenção de maior impacto epidemiológico. A evidência demonstra que modelos tradicionais  de imunização foram insuficientes durante a pandemia, exigindo a adoção de estratégias de  recall (convocação ativa) e busca ativa. Conforme Anderson (2021), o uso de sistemas de prontuário eletrônico para identificar e convocar pacientes com esquema vacinal incompleto  para influenza resultou em um aumento significativo na cobertura vacinal entre idosos e  portadores de doenças crônicas. 

Além da imunização, a educação em saúde focada em medidas não farmacológicas foi  relatada em 25 estudos (59,5%). Essas intervenções mostraram-se fundamentais para a  aceitação e adesão da comunidade a práticas como o uso de máscaras, etiqueta respiratória e higienização das mãos. Rodríguez (2023) destaca que a educação em saúde conduzida por  Agentes Comunitários de Saúde (ACS) no território possui maior eficácia devido ao vínculo de  confiança estabelecido, sendo determinante para mitigar a desinformação e aumentar a  aceitação de novas vacinas e protocolos de isolamento. 

A prevenção também se manifestou através de estratégias de base comunitária, como a  criação de redes de apoio para grupos vulneráveis. Estudos de implementação indicam que a  articulação da APS com líderes locais facilitou a distribuição de insumos preventivos (máscaras  e álcool em gel) e a vigilância de sintomas em áreas de alta densidade demográfica (FERREIRA  et al., 2022). Esse modelo de “vigilância participativa” permitiu que a comunidade se tornasse  corresponsável pelo controle da transmissão viral. 

Por fim, o uso de ferramentas digitais para prevenção emergiu como um achado  relevante em 18 estudos. A disseminação de informações baseadas em evidências via redes  sociais institucionais e o monitoramento de fake news no território foram descritos como  competências essenciais do médico de família e da equipe de saúde para manter a coesão social  em torno das medidas preventivas. Essas estratégias não apenas combateram as infecções  agudas, mas fortaleceram a cultura preventiva para futuras sazonalidades de influenza  (PEREIRA et al., 2021). 

4. AVALIAÇÃO DA QUALIDADE METODOLÓGICA 

A avaliação do risco de viés e da qualidade metodológica revelou que a maioria dos  estudos incluídos apresenta robustez científica satisfatória para subsidiar recomendações na  APS. A diversidade de desenhos metodológicos exigiu a aplicação de instrumentos específicos,  garantindo que as nuances de cada tipo de evidência fossem capturadas com precisão. 

Dos estudos observacionais (n=26), 42,3% foram classificados como de alta qualidade  pela Newcastle-Ottawa Scale (NOS), apresentando escores entre 7 e 9 estrelas. Esses estudos  destacaram-se pelo rigor na seleção das coortes e na comparabilidade entre os grupos. Por outro  lado, 46,2% apresentaram qualidade moderada e 11,5% foram considerados de baixa qualidade. 

As principais fragilidades encontradas residem no viés de memória em estudos transversais e  no curto período de seguimento em coortes retrospectivas, o que pode limitar a compreensão  dos efeitos de longo prazo das intervenções (SANTOS et al., 2022). 

No que tange aos estudos qualitativos (n=6), o rigor metodológico foi elevado, com  83,3% atingindo altos escores nos critérios do Critical Appraisal Skills Programme (CASP). A  clareza nos enunciados de pesquisa e a fundamentação ética foram pontos fortes, embora a  transferibilidade dos achados para realidades geográficas muito distintas tenha sido uma  limitação comum (GARCÍA-LÓPEZ, 2022). 

As diretrizes clínicas (n=4) também apresentaram desempenho positivo, com 75,0% dos  documentos alcançando escores superiores a 70% no instrumento Appraisal of Guidelines for  Research & Evaluation II (AGREE II). Os domínios de “escopo e finalidade” e “rigor no  desenvolvimento” foram os mais bem pontuados, garantindo a aplicabilidade prática das  recomendações para o manejo da COVID-19 e influenza no território (BROWN et al., 2021). 

Tabela 2 – Síntese da avaliação do risco de viés e limitações 

Fonte: Elaborado pelos autores (2025).  
Nota: NOS: Newcastle-Ottawa Scale; CASP: Critical Appraisal Skills Programme; StaRI: Standards for Reporting  Implementation Studies. 

A síntese da qualidade metodológica indica que, apesar da urgência característica das  publicações durante o período pandêmico, a produção científica voltada para a APS manteve  um padrão de confiabilidade que permite a translação desse conhecimento para as políticas  públicas de saúde (PAGE et al., 2021).

5. DISCUSSÃO 

Os resultados desta revisão sistemática corroboram a tese de que a Atenção Primária à  Saúde (APS) desempenhou um papel central e insubstituível na resposta às emergências  sanitárias provocadas pela COVID-19 e influenza. A implementação de protocolos de triagem  rigorosos não apenas organizou o fluxo de atendimento, mas permitiu uma estratificação de  risco efetiva, fundamental para o manejo de grandes volumes de pacientes sob pressão  assistencial (SILVA et al., 2021). A alta qualidade metodológica observada na maioria dos  estudos de triagem reforça a validade dessas estratégias como padrão-ouro para o controle de  surtos respiratórios no território. 

A evidência demonstra que o manejo resolutivo de casos leves e moderados na APS foi  o principal mecanismo de contenção para evitar o colapso dos sistemas hospitalares. Nesse  sentido, a atuação da Medicina de Família e Comunidade (MFC) mostrou-se um diferencial  qualitativo. O atributo da longitudinalidade e o conhecimento prévio do território permitiram  intervenções mais precisas e humanas, fundamentadas no modelo biopsicossocial,  contrapondo-se à fragmentação do cuidado frequentemente observada em serviços de urgência  (ROSSI et al., 2021). Estudos avaliados com altos escores no CASP reiteram que o vínculo  estabelecido entre equipe e comunidade foi o que viabilizou o monitoramento domiciliar  contínuo e a identificação precoce de complicações. 

Uma inovação disruptiva identificada nesta revisão foi a consolidação da teleconsulta.  Embora implementada sob pressão emergencial, a telessaúde provou ser uma ferramenta de alta  resolutividade, garantindo a continuidade do cuidado sem expor pacientes vulneráveis ao risco  de contágio (LIMA et al., 2022). A integração da tecnologia com o monitoramento por  oximetria de pulso, validada por estudos de alta robustez como o de Costa et al. (2023),  demonstra que a APS pode gerenciar tecnologias diagnósticas com segurança e custo efetividade. 

No campo preventivo, as estratégias de busca ativa para vacinação reforçaram a  importância da APS na manutenção das coberturas vacinais, mesmo em contextos adversos de  infodemia e hesitação vacinal. A capacidade de adaptação da Estratégia Saúde da Família (ESF)  em reorganizar campanhas e realizar o recall de pacientes vulneráveis foi determinante para  reduzir a carga de doença por influenza concomitante à pandemia (ANDERSON, 2021). 

Apesar dos avanços descritos, esta revisão apresenta limitações inerentes à  heterogeneidade metodológica dos estudos incluídos. A predominância de desenhos  observacionais e a variabilidade estrutural dos sistemas de saúde entre os países analisados  (como as diferenças entre o SUS no Brasil e o sistema canadense) sugerem cautela na generalização de alguns indicadores específicos de eficácia. Além disso, a baixa  representatividade de ensaios clínicos randomizados (ECR) indica que, embora as intervenções  implementadas tenham tido sucesso prático, ainda há espaço para estudos experimentais que  consolidem protocolos definitivos para futuras crises sindêmicas. 

6. CONCLUSÃO 

A presente revisão sistemática evidenciou que a Atenção Primária à Saúde (APS)  demonstrou uma notável capacidade de adaptação e resolutividade no enfrentamento das  infecções respiratórias por COVID-19 e influenza. Os achados reforçam o papel estratégico da APS não apenas como porta de entrada, mas como o principal eixo de contenção  epidemiológica e manejo clínico do sistema de saúde. 

A síntese das evidências aponta que a estruturação de protocolos de triagem  padronizados e a reorganização dos fluxos assistenciais foram medidas críticas para a  manutenção da segurança do paciente e dos profissionais. O manejo clínico baseado em  evidências, potencializado pelo uso da oximetria de pulso e pelo monitoramento domiciliar,  provou ser eficaz na redução de hospitalizações evitáveis, reafirmando a competência da  Medicina de Família e Comunidade em gerenciar casos de média complexidade clínica no  território. 

As inovações tecnológicas, como a teleconsulta e os testes rápidos no ponto de cuidado,  deixaram um legado de modernização que deve ser incorporado permanentemente às práticas  da APS. No entanto, o sucesso dessas intervenções esteve intrinsecamente ligado aos atributos  clássicos da atenção primária: a longitudinalidade e o vínculo facilitaram a adesão às medidas  preventivas e às campanhas de vacinação, mesmo diante de cenários de desinformação. 

Em suma, o investimento contínuo na infraestrutura, na capacitação das equipes  multiprofissionais e na integração digital da APS é uma estratégia prioritária para a resiliência  dos sistemas de saúde. A experiência acumulada entre 2020 e 2025 demonstra que fortalecer o  nível primário é o caminho mais eficiente para enfrentar futuras emergências sanitárias e  garantir a sustentabilidade do cuidado universal e integral. 

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