IMPACTO DA VACINAÇÃO CONTRA O PAPILOMAVÍRUS HUMANO (HPV) NA MORTALIDADE E MORBIDADE POR CÂNCER DE COLO DE ÚTERO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch102025111353


Pamela Lindoeme da Silva
Orientadora: Msc. Marcela Gomes


RESUMO 

A transmissão do papilomavírus humano (HPV) ocorre em aproximadamente 95% dos casos por meio de relações sexuais, enquanto os 5% restantes estão associados ao contato com objetos íntimos pessoais. Estima-se que entre 75% e 80% das mulheres sexualmente ativas adquirirão a infecção pelo HPV até os 50 anos de idade, sendo o risco maior no início da vida sexual, período em que microtraumatismos favorecem a infecção das células basais do epitélio genital. Diante disso, este estudo teve como objetivo principal analisar as taxas de mortalidade e morbidade por câncer do colo do útero antes e após a introdução da vacina contra o HPV, considerando diferentes faixas etárias e regiões do Brasil. Os dados foram obtidos por meio do sistema TABNET do DATASUS, abrangendo os períodos de 2005 a 2024. As faixas etárias analisadas incluíram mulheres com menos de 25 anos (que receberam a vacina em 2014, ano de implementação do programa de vacinação), mulheres entre 25 e 35 anos (que não estavam mais na faixa etária prioritária para vacinação) e mulheres com 44 a 50 anos, 54 a 55 anos e 64 anos ou mais, conforme grupos de maior risco indicados nas diretrizes nacionais de rastreamento e prevenção. Os resultados mostraram que, entre 2005 e 2014, ocorreram 244.426 internações por neoplasia maligna do colo do útero, enquanto no período de 2015 a 2024 foram registradas 237.965, representando uma redução de 2,7% na morbidade. Em contrapartida, a mortalidade apresentou aumento de 28,6%, passando de 45.517 óbitos (2006–2014) para 58.506 (2015–2023). As faixas etárias de maior ocorrência foram de 30 a 49 anos, e, regionalmente, observou-se aumento de casos nas regiões Norte e Centro-Oeste, com redução significativa na região Sul. Apesar de as diferenças entre os períodos terem sido estatisticamente significativas, a magnitude das variações foi pequena. Conclui-se que a vacinação contra o HPV pode ter contribuído para a leve redução nas internações, embora ainda não tenha se refletido de forma expressiva na diminuição da mortalidade, reforçando a importância de ampliar a cobertura vacinal e fortalecer as ações de prevenção. 

Palavras-chave: câncer, colo do útero, HPV, vacinação, mulheres, faixa etária. 

1 INTRODUÇÃO 

O câncer de colo do útero representa um relevante problema de saúde pública, especialmente em países em desenvolvimento como o Brasil, onde está entre os tipos de câncer com maior taxa de incidência e mortalidade na população feminina (Silva et al., 2022). 

A neoplasia se desenvolve na porção inferior do útero e, apesar de ser altamente prevenível, ainda é marcada por desigualdades no acesso aos serviços de saúde, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste do país (Silva et al., 2022; INCA, 2023). 

A infecção persistente pelo Papilomavírus Humano (HPV) é o principal fator etiológico da doença, sendo os tipos 16 e 18 responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer cervical (INCA, 2023). 

A transmissão do HPV ocorre em aproximadamente 95% dos casos por meio de relações sexuais, enquanto os 5% restantes estão associados ao contato com objetos íntimos pessoais. Estima-se que entre 75% e 80% das mulheres sexualmente ativas adquirirão infecção por HPV até os 50 anos de idade, com maior risco no início da vida sexual, momento em que microtraumatismos facilitam a infecção das células basais do epitélio genital (Fernandes; Sá, 2019). 

Estudos sobre tendência de incidência evidenciam um padrão de redução do câncer cervical invasor em algumas capitais brasileiras entre 1990 e 2004, especialmente em regiões onde a cobertura dos programas de rastreamento foi mais consistente (Gustavson et al., 2008). No entanto, essas reduções não foram homogêneas entre todas as regiões, o que reforça a importância da continuidade e ampliação das estratégias de prevenção. 

Como forma de enfrentamento, o Brasil implementou em 2014 a vacinação contra o HPV no âmbito do Programa Nacional de Imunizações (PNI), utilizando a vacina quadrivalente, eficaz contra os tipos 6, 11, 16 e 18 do vírus. A partir de 2024, adotou-se o regime de dose única para crianças e adolescentes com idades entre 9 e 14 anos, visando ampliar a cobertura vacinal (Brasil, 2024). 

Evidências científicas apontam que a vacinação é altamente eficaz quando administrada antes do início da atividade sexual, reduzindo significativamente a incidência da infecção pelo HPV e, consequentemente, os casos de lesões precursoras e câncer (Borges et al., 2023).

Contudo, a efetividade das ações preventivas depende da articulação entre a vacinação, o rastreamento por meio do exame de Papanicolau e o acesso oportuno ao diagnóstico e tratamento. Entre 2013 e 2020, observou-se queda na cobertura do exame de Papanicolau no Brasil, com grande desigualdade regional e elevado percentual de mulheres com início tardio do tratamento após o diagnóstico, especialmente nas regiões Norte e Centro-Oeste (Silva et al., 2022). 

Nesse contexto, esse estudo tem como objetivo analisar a variação das taxas de mortalidade e morbidades associadas ao câncer de colo de útero antes e após a introdução da vacina contra o HPV.

2 METODOLOGIA 

Trata-se de um estudo observacional, descritivo e retrospectivo, cujo objetivo foi analisar a morbidade e a mortalidade por câncer do colo do útero no Brasil, com estratificação dos dados por faixa etária e regiões do Brasil. 

Os dados utilizados são de domínio público e foram obtidos por meio do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), acessando o sistema TABNET. 

A coleta de dados foi realizada no mês de agosto e setembro de 2025. Foram selecionadas informações referentes às internações e aos óbitos associados ao câncer do colo do útero, abrangendo períodos anteriores e posteriores à implantação da vacinação contra o papilomavírus humano (HPV), ocorrida em 2014. Na pesquisa de morbidade, optou-se pela seleção do local de residência. Na coluna, utilizou-se a lista de morbidade (CID-10) e, na linha, a faixa etária detalhada 1. Posteriormente, para a análise por regiões, selecionaram-se as regiões na coluna, em ambos os casos considerando as internações. Os períodos analisados compreenderam dez anos antes e após a implementação da vacina, correspondendo aos intervalos de 2005 a 2014 e 2015 a 2024. 

Na pesquisa de mortalidade, utilizou-se, na coluna, a categoria CID-10 e, na linha, a faixa etária e, posteriormente, as regiões, segundo o local de residência. Considerando que os dados de mortalidade disponíveis no DATASUS estão atualizados apenas até o ano de 2023, optou-se por adaptar o período da pesquisa de mortalidade para nove anos antes e após a implantação da vacinação contra o HPV, abrangendo os intervalos de 2006 a 2014 e 2015 a 2023. 

Os dados extraídos foram organizados em planilhas do Microsoft Excel® para tabulação e realização da análise estatística descritiva, com cálculo de frequências absolutas e relativas. 

Para a análise inferencial, aplicou-se o teste do Qui-quadrado de Pearson, por meio do software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS®), com o objetivo de identificar diferenças estatisticamente significativas entre os períodos analisados, adotando-se um nível de significância de p < 0,05. 

Por tratar-se de uma pesquisa baseada em dados secundários, públicos e de livre acesso, não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme o disposto na Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde.

3 RESULTADOS 

A partir da análise dos dados do DATASUS, verificou-se que, entre os anos de 2005 e 2014, ocorreram no Brasil 244.426 internações por neoplasia maligna do colo do útero. No período de 2015 a 2024, foram registradas 237.965 internações, representando uma redução de 2,7% no total de internações. 

Em relação à mortalidade, entre 2006 e 2014 foram contabilizados 45.517 óbitos por neoplasia maligna do colo do útero, enquanto no período de 2015 a 2023 ocorreram 58.506 óbitos, o que corresponde a um aumento de 28,6%. 

Para verificar se houve diferença significativa na distribuição dos casos de morbidade e mortalidade entre os períodos analisados, aplicou-se o teste do Qui-quadrado de Pearson, uma vez que se trata de uma análise entre variáveis categóricas. Esse teste permite avaliar se as proporções observadas em cada categoria diferem de forma estatisticamente significativa entre os grupos comparados. 

A Tabela 1 apresenta os dados discriminados de acordo com a faixa etária, considerando a morbidade e a mortalidade por neoplasia maligna do colo do útero no Brasil. 

Tabela 1: Morbidade hospitalar (2005–2014 e 2015–2024) e mortalidade (2006–2014 e 2015–2023) por neoplasia maligna de colo de útero no Brasil, segundo faixa etária. 

Fonte: Dados extraídos do DataSus e organizados pelos autores (2025). 

A análise estatística revelou diferença estatisticamente significativa na distribuição dos casos de morbidade por faixa etária entre os períodos de 2005–2014 e 2015–2024 (χ² = 2.341,667; gl = 7; p < 0,001). O valor de Cramer’s V = 0,070 indica uma associação fraca entre as variáveis, sugerindo que, apesar da significância estatística, as variações nas proporções de internações entre as faixas etárias foram de pequena magnitude. 

Dessa forma, os resultados indicam que a morbidade apresentou mudanças sutis na distribuição etária ao longo do tempo, com pequenas oscilações nas faixas de maior ocorrência, sem representar alteração expressiva no perfil etário dos casos. 

No período de 2005 a 2014, a maior proporção de internações ocorreu na faixa etária de 40 a 49 anos (32,93%), seguida pela faixa de 30 a 39 anos (20,32%), representando juntas mais de 50% das internações. No período de 2015 a 2024, o padrão manteve-se semelhante, com maior concentração na faixa de 40 a 49 anos (27,49%), seguida pela de 30 a 39 anos (22,50%), observando-se discreta redução percentual na primeira e aumento relativo na segunda. 

Quanto à mortalidade, o teste do Qui-quadrado de Pearson indicou associação significativa entre as faixas etárias e os períodos analisados (χ² = 96,064; gl = 7; p < 0,001). Apesar da significância estatística, o valor de Cramer’s V = 0,030 revelou uma associação fraca entre as variáveis, sugerindo que as diferenças observadas na distribuição da mortalidade entre os períodos foram pequenas em magnitude. 

Entre 2006 e 2014, os óbitos concentraram-se nas faixas de 50 a 59 anos (22,81%) e 40 a 49 anos (20,47%), totalizando mais de 43% dos registros. Em seguida, destacaram-se as faixas de 60 a 69 anos (19,02%) e 70 a 79 anos (14,30%), indicando maior mortalidade entre mulheres de meia-idade e idosas. No período de 2015 a 2023, o padrão manteve-se, com predomínio das faixas de 50 a 59 anos (21,35%) e 40 a 49 anos (20,22%), seguidas por 60 a 69 anos (19,00%) e 70 a 79 anos (13,97%). Observou-se, ainda, ligeiro aumento proporcional na faixa de 30 a 39 anos (de 11,52% para 13,27%), sugerindo discreta antecipação etária dos óbitos. As faixas etárias abaixo de 30 anos apresentaram proporções muito baixas, tanto na morbidade (<7%) quanto na mortalidade (<3%). 

A Tabela 2 apresenta os dados de morbidade e mortalidade por região geográfica. 

Tabela 2: Morbidade hospitalar (2005–2014 e 2015–2024) e mortalidade (2006–2014 e 2015–2023) por neoplasia maligna de colo de útero no Brasil, segundo regiões do Brasil. 

Fonte: Dados extraídos do DataSus e organizados pelos autores (2025). 

A análise comparativa entre os períodos de 2005–2014 e 2015–2024 evidenciou diferença estatisticamente significativa na distribuição da morbidade por região (χ²(4) = 2.297,03; p < 0,001). Observou-se uma leve redução global, porém essa variação não foi uniforme entre as regiões. Houve aumento de casos nas regiões Norte e Centro-Oeste, redução significativa na região Sul e estabilidade relativa nas regiões Sudeste e Nordeste. Apesar da significância estatística, a força da associação foi considerada fraca, conforme o valor de Cramer’s V = 0,069 (p < 0,001). 

No que se refere à mortalidade, observou-se aumento em todas as regiões no período de 2015–2023, com os maiores acréscimos absolutos nas regiões Nordeste, Sudeste e Norte. Essa distribuição dos óbitos também apresentou diferença estatisticamente significativa entre os períodos analisados (χ²(4) = 112,56; p < 0,001). No entanto, o tamanho do efeito foi considerado pequeno (Cramer’s V = 0,033), indicando que, embora a diferença tenha sido estatisticamente significativa, a magnitude da alteração regional foi reduzida. Assim, a proporção de óbitos por região manteve-se relativamente estável ao longo do tempo. 

4 DISCUSSÃO 

Ao analisar os dados de morbidade disponibilizados pelo DATASUS por neoplasias malignas do colo do útero, não foi identificada diferença expressiva no número total de internações entre a década anterior e a posterior à introdução da vacinação contra o HPV. Esse resultado sugere que o impacto da imunização sobre a morbidade hospitalar ainda não é plenamente evidente no período analisado. 

As faixas etárias que apresentaram maiores percentuais de internações foram aquelas entre 40 e 49 anos e 30 e 39 anos, indicando que a maior carga de hospitalizações ainda se concentra em mulheres em idade reprodutiva e de meia-idade. Ao analisar a tendência de mortalidade por câncer do colo do útero entre 1980 e 2021, Santos et al. (2023) observaram que o maior número de óbitos se concentra em mulheres maduras. A faixa etária de 45 a 64 anos representou 44,7% de todas as mortes pela doença no Brasil e foi a mais afetada em todas as regiões do país. 

A vacinação contra o HPV foi incorporada ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Brasil em 2014, tendo como público-alvo inicial as meninas de 11 a 13 anos de idade (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2014; OLIVEIRA et al., 2021). 

As faixas etárias que potencialmente se beneficiaram da vacinação incluem as mulheres de 15 a 19 anos, nas quais houve redução das internações de 0,36% para 0,14%, e as de 20 a 29 anos, com queda de 6,48% para 5,98%. Entretanto, esses resultados devem ser interpretados com cautela, uma vez que podem ter sido influenciados por diversas variáveis, como cobertura vacinal, adesão ao programa e mudanças nos padrões de rastreamento. Assim, não é possível atribuir exclusivamente à vacinação a redução observada nas taxas de internação. 

Apesar dos esforços do PNI, a cobertura vacinal contra o HPV no Brasil enfrenta desafios, sendo influenciada por fatores como a desconfiança em relação ao benefício da vacina e a falta de conhecimento dos pais sobre a doença (THEINEL, 2021; LIMA et al., 2022). Em um segundo ponto, a adesão é impactada por determinantes sociais como baixa escolaridade, desigualdade econômica, e barreiras no acesso aos serviços de saúde, especialmente nas regiões mais vulneráveis do país (DA SILVA et al., 2024; BOECK, 2025). 

Um dado que chama atenção é o aumento de 28,6% no total de óbitos por neoplasia maligna do colo do útero entre 2014 e 2023. Supõe-se que esse incremento possa estar relacionado ao aprimoramento das políticas de rastreamento e dos sistemas de notificação, além de possíveis mudanças no comportamento sexual e nos fatores de risco populacionais. O aparente aumento na mortalidade pode estar associado à melhoria contínua na qualidade dos dados de mortalidade e à redução de causas de morte mal definidas, proporcionada por aprimoramentos nos sistemas de informação, como o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), que tornam os registros de óbitos mais precisos (LIMA; QUEIROZ, 2020; BRASIL, 2023). 

Apesar do aumento absoluto e da diferença estatisticamente significativa observada na mortalidade entre os períodos analisados, a maior concentração de óbitos permaneceu nas faixas etárias de 40 a 59 anos. Embora o teste estatístico tenha indicado diferença entre os períodos, a força dessa associação foi considerada fraca, o que sugere que, na prática, o impacto temporal sobre a mortalidade ainda é limitado. Esse resultado pode refletir uma combinação de fatores, como atrasos no diagnóstico, início tardio do tratamento e desigualdades regionais no acesso aos serviços de saúde. Além disso, é possível que o efeito protetor da vacinação ainda não tenha se manifestado plenamente, considerando o caráter de evolução lenta e progressiva do câncer do colo do útero. 

As principais barreiras que contribuem para a persistência da mortalidade incluem o diagnóstico tardio – muitas vezes em estágio avançado – e as dificuldades de acesso ao tratamento oportuno e completo no SUS, o que reduz drasticamente as taxas de sobrevida das pacientes (CUNHA et al., 2022; MONTEIRO et al., 2023). 

De modo geral, os resultados sugerem que, apesar do avanço das estratégias de prevenção primária e secundária, a mortalidade por câncer do colo do útero ainda se mantém elevada nas faixas etárias intermediárias, evidenciando a necessidade de fortalecer as ações de detecção precoce e ampliar a cobertura vacinal em todo o território nacional. 

No contexto das diferenças regionais, observam-se disparidades significativas no acesso. As regiões Sul e Sudeste tipicamente apresentam maior cobertura e organização no rastreamento citopatológico e melhor acesso aos serviços de tratamento. Em contraste, as regiões Norte e Nordeste registram as piores taxas de acesso e cobertura, refletindo as iniquidades socioeconômicas e de infraestrutura do país (SOUZA; BARRETO; MORAES, 2021; MONTEIRO et al., 2023). 

No que diz respeito às diferenças regionais de morbidade, os resultados indicaram diferença estatisticamente significativa entre os períodos de 2005–2014 e 2015–2024, embora a força dessa associação tenha sido fraca. Esse resultado sugere que, embora existam variações regionais, o fator “período” (antes e depois da introdução da vacina contra o HPV) exerceu impacto limitado sobre os casos registrados. Esse comportamento pode estar relacionado ao efeito de longo prazo da vacina, cujo impacto populacional completo, manifestado pela redução das taxas de câncer invasivo, exige um tempo considerável, sendo esperado após décadas de alta e sustentada cobertura vacinal (ARBYN et al., 2020; REBOUÇAS et al., 2023). 

Além disso, as diferenças regionais observadas podem estar associadas às variações na cobertura vacinal, dependentes da adesão, da disponibilidade de serviços e do nível de informação da população. A cobertura vacinal é diretamente ameaçada pelos efeitos da desinformação, da hesitação vacinal e dos movimentos antivacina, que se propagam em larga escala, minando a confiança pública na segurança do imunizante e comprometendo as metas de saúde pública (NADAL, 2008; THEINEL, 2021). 

Em relação à mortalidade, observou-se aumento no número absoluto de óbitos no período de 2015 a 2023. No entanto, o tamanho do efeito foi pequeno, indicando que, apesar do crescimento no número de casos fatais, a distribuição proporcional entre as regiões manteve-se relativamente constante. Esse padrão pode refletir o fato de que o impacto da vacinação sobre a mortalidade leva mais tempo para se manifestar. Essa lentidão se explica pelo tempo médio de evolução da infecção persistente por HPV de alto risco até o desenvolvimento do câncer invasivo, que é um processo tipicamente lento, podendo levar de 10 a 20 anos (FEBRASGO, 2019; SANTOS et al., 2023). 

Além disso, o sucesso da vacinação depende não apenas da imunização, mas também de ações complementares, como o rastreamento citopatológico regular e o acesso oportuno ao tratamento adequado, aspectos que variam consideravelmente entre as regiões do país. A persistência das desigualdades regionais pode ter contribuído tanto para o aumento quanto para a manutenção das diferenças nas taxas de mortalidade observadas. A redução sustentada da mortalidade exige, além da vacinação, a implementação de um rastreamento citopatológico de qualidade e a garantia de acesso imediato e efetivo ao tratamento para todas as mulheres com lesões precursoras ou câncer estabelecido (INCA, 2023; FEBRASGO, 2019). 

5 CONCLUSÃO 

A análise dos dados do DATASUS permitiu avaliar a variação da morbidade e mortalidade por neoplasia maligna do colo do útero no Brasil, antes e após a introdução da vacina contra o HPV. Observou-se que, embora o número total de internações (morbidade) tenha apresentado discreta redução de 2,7% entre os períodos de 2005–2014 e 2015–2024, a mortalidade aumentou em 28,6%, indicando que, apesar dos avanços nas estratégias de prevenção, o impacto na redução dos óbitos ainda é limitado. 

Os resultados estratificados por faixa etária mostraram que a maior concentração de casos permanece entre mulheres de 30 a 49 anos, o que reforça a importância da vacinação precoce e da continuidade do rastreamento citológico nessa população. A discreta elevação proporcional na mortalidade entre mulheres de 30 a 39 anos no período mais recente sugere possível antecipação etária dos óbitos, possivelmente associada à exposição precoce ao HPV ou a lacunas na cobertura vacinal. 

Regionalmente, identificou-se aumento de casos nas regiões Norte e Centro-Oeste e redução significativa na região Sul, com relativa estabilidade nas demais. Essa distribuição desigual reforça a influência de fatores socioeconômicos, de acesso aos serviços de saúde e de adesão às políticas públicas de prevenção e diagnóstico precoce. 

Embora os testes estatísticos (Qui-quadrado de Pearson) tenham indicado diferenças significativas nas distribuições etárias e regionais entre os períodos analisados, os valores de Cramer’s V revelaram associações de baixa magnitude, indicando que as alterações observadas, apesar de estatisticamente significativas, foram pequenas em termos práticos. 

Em síntese, os resultados sugerem que a introdução da vacina contra o HPV pode ter contribuído para uma leve redução das internações hospitalares, porém ainda não se refletiu de forma expressiva na diminuição da mortalidade. Assim, reforça-se a necessidade de ampliar a cobertura vacinal, fortalecer as ações de educação em saúde e garantir o acesso equitativo ao rastreamento e tratamento, especialmente nas regiões mais vulneráveis do país. 

REFERÊNCIAS 

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