IMPACTO DA INFERTILIDADE NA SAÚDE MENTAL: UMA REVISÃO NARRATIVA COM ENFOQUE PSIQUIÁTRICO

IMPACT OF INFERTILITY ON MENTAL HEALTH: A NARRATIVE REVIEW WITH A PSYCHIATRIC FOCUS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202602251424


Lara Fiorino1
Pedro Paulo Coutinho Toribio2


RESUMO

A infertilidade é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como um problema de saúde pública global que afeta cerca de 186 milhões de indivíduos. Esta revisão narrativa analisa como essa condição ultrapassa os limites biomédicos, funcionando como um estressor crônico que impacta profundamente a saúde mental e a identidade dos indivíduos. Os estudos revisados apontam uma prevalência elevada de transtornos mentais em populações inférteis, com destaque para a depressão e os transtornos de ansiedade. O sofrimento emocional é frequentemente mediado pela duração da infertilidade e pelo fracasso repetido em tratamentos de reprodução assistida, que geram exaustão e sentimentos de perda de controle. Além disso, fatores socioculturais e a pressão pela parentalidade podem intensificar sentimentos de culpa e vergonha. O artigo conclui que, embora os tratamentos reprodutivos sejam fundamentais, há uma lacuna na assistência psicológica e psiquiátrica. A ausência de suporte especializado está associada a maiores taxas de abandono terapêutico e piora nos desfechos emocionais. Portanto, é essencial que a medicina reprodutiva adote uma abordagem integrada e humanizada, incorporando o rastreamento psiquiátrico sistemático como parte do protocolo de cuidado.O resumo deve ser escrito em parágrafo único, numa sequência corrente de frases lógicas sem nenhuma enumeração de tópicos.

Palavras-chave: Infertilidade, Saúde Mental, Depressão, Ansiedade, Reprodução Assistida. 

1. INTRODUÇÃO

A infertilidade é definida como a incapacidade de obter uma gestação após doze meses de relações sexuais regulares sem uso de métodos contraceptivos, sendo reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como uma condição médica de elevada prevalência e relevância global. Estimativas recentes indicam que cerca de 48 milhões de casais e aproximadamente 186 milhões de indivíduos em idade reprodutiva no mundo vivenciam algum grau de infertilidade, configurando um importante problema de saúde pública (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2023).

Tradicionalmente, a infertilidade tem sido abordada sob uma perspectiva estritamente biomédica, com foco na identificação das causas orgânicas e no desenvolvimento de estratégias terapêuticas voltadas à reprodução assistida. No entanto, essa abordagem reducionista desconsidera o impacto emocional profundo associado à impossibilidade de conceber, que frequentemente se manifesta como sofrimento psicológico persistente, afetando a qualidade de vida e o funcionamento global dos indivíduos acometidos (BOIVIN et al., 2007).

A experiência da infertilidade envolve não apenas a frustração reprodutiva, mas também a ruptura de expectativas pessoais, familiares e sociais. Para muitos indivíduos, a parentalidade constitui elemento central da identidade adulta e do projeto de vida, de modo que sua inviabilidade pode ser vivenciada como uma perda simbólica significativa, frequentemente acompanhada de sentimentos de inadequação, culpa e vergonha (GREIL; SLEIGHT; MCQUILLAN, 2011).

Do ponto de vista psiquiátrico, diversos estudos têm demonstrado associação consistente entre infertilidade e maior prevalência de transtornos mentais, especialmente depressão e transtornos de ansiedade. Revisões sistemáticas apontam que indivíduos inférteis apresentam níveis mais elevados de sintomas depressivos, ansiedade generalizada, estresse psicológico e sofrimento emocional quando comparados à população fértil, independentemente do sexo ou da etiologia da infertilidade (PUREWAL; VAN DEN AKKER, 2009).

Além disso, a infertilidade pode ser compreendida como um estressor crônico, caracterizado por incerteza prolongada, sensação de perda de controle e exposição repetida a eventos frustrantes, especialmente em contextos de tratamentos prolongados. Esse padrão de estresse contínuo está associado à ativação persistente de respostas neurobiológicas ao estresse, o que pode contribuir para o desenvolvimento ou agravamento de quadros psiquiátricos (VOLGSTEN et al., 2018).

Os tratamentos de reprodução assistida, embora representem esperança terapêutica, impõem desafios emocionais adicionais. A medicalização do corpo, os efeitos colaterais hormonais, a imprevisibilidade dos resultados e a repetição de ciclos terapêuticos fracassados estão associados ao aumento da ansiedade, sintomas depressivos e desgaste emocional significativo, especialmente na ausência de suporte psicológico estruturado (GAMEIRO et al., 2015).

Apesar do crescente reconhecimento da relação entre infertilidade e saúde mental, observa-se que a assistência clínica permanece predominantemente centrada nos aspectos reprodutivos. Protocolos sistemáticos de rastreamento psiquiátrico e intervenções em saúde mental ainda são escassos nos serviços de reprodução humana, o que contribui para o subdiagnóstico e manejo inadequado do sofrimento psicológico (BOIVIN et al., 2012).

Diante desse cenário, torna-se relevante questionar de que forma a infertilidade impacta a saúde mental dos indivíduos acometidos e como a literatura médica e psiquiátrica tem abordado essa relação. Parte-se da hipótese de que a infertilidade está associada a maior prevalência de transtornos mentais, especialmente depressão e ansiedade, sendo esse impacto mediado por fatores como duração da infertilidade, falhas terapêuticas repetidas, pressão sociocultural e ausência de suporte psicológico adequado.

Nesse contexto, a realização de uma revisão narrativa da literatura permite integrar diferentes perspectivas teóricas, clínicas e psicossociais, contribuindo para uma compreensão ampliada da infertilidade como fenômeno biopsicossocial e para a valorização da saúde mental como componente essencial do cuidado reprodutivo.

2. METODOLOGIA 

Este estudo consiste em uma revisão narrativa da literatura, cujo objetivo foi sintetizar e analisar criticamente as evidências científicas disponíveis acerca da relação entre infertilidade e saúde mental, com enfoque nos aspectos emocionais e psiquiátricos associados a essa condição. O delineamento narrativo foi escolhido por permitir uma abordagem ampla e integrativa, adequada à complexidade do tema.

A busca bibliográfica foi realizada nas bases de dados PubMed/MEDLINE, SciELO, LILACS e Google Scholar. Essas bases foram selecionadas por indexarem periódicos relevantes nas áreas de medicina, psiquiatria e saúde reprodutiva. Foram utilizados descritores controlados e não controlados, nos idiomas português e inglês, combinados por operadores booleanos.

Os principais descritores utilizados incluíram: “infertility”, “mental health”, “psychiatric disorders”, “depression”, “anxiety”, “psychological distress”, “emotional impact” e “reproductive health”, bem como seus correspondentes em português. As estratégias de busca envolveram combinações como “infertility AND mental health”, “infertility AND depression” e “infertility AND anxiety”.

Foram incluídos artigos publicados em periódicos revisados por pares, nos idiomas português, inglês ou espanhol, com prioridade para publicações dos últimos dez anos, além de estudos clássicos amplamente citados. Foram elegíveis estudos observacionais, revisões sistemáticas, meta-análises e revisões narrativas que abordassem desfechos psiquiátricos associados à infertilidade.

Foram excluídos estudos duplicados, artigos sem acesso ao texto completo, publicações com foco exclusivamente técnico em reprodução assistida e aqueles que não abordassem aspectos psicológicos ou psiquiátricos.

A seleção dos artigos ocorreu por meio da leitura sequencial dos títulos, resumos e textos completos. A escolha dos estudos teve caráter intencional e conceitual, priorizando relevância clínica, impacto acadêmico e contribuição para a compreensão do sofrimento emocional associado à infertilidade.

A extração dos dados foi realizada de forma descritiva, contemplando autor, ano de publicação, tipo de estudo, população avaliada, instrumentos de avaliação em saúde mental e principais achados psiquiátricos. A análise dos dados ocorreu por meio de síntese narrativa temática, organizando os achados em eixos conceituais relacionados ao impacto emocional da infertilidade, transtornos psiquiátricos associados e implicações clínicas.

3. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

A análise narrativa da literatura selecionada evidenciou associação consistente entre infertilidade e prejuízos significativos à saúde mental, com destaque para sintomas depressivos, transtornos de ansiedade, estresse psicológico e sofrimento emocional persistente. Os estudos analisados, incluindo revisões sistemáticas, estudos observacionais e diretrizes clínicas, apontam que indivíduos diagnosticados com infertilidade apresentam maior vulnerabilidade ao adoecimento psíquico quando comparados à população fértil.

Os resultados indicam que a depressão e a ansiedade constituem os transtornos psiquiátricos mais frequentemente associados à infertilidade. Revisões sistemáticas demonstram prevalência elevada de sintomas depressivos e ansiosos em homens e mulheres inférteis, independentemente da etiologia da infertilidade, sendo esses sintomas mais intensos em mulheres submetidas a tratamentos de reprodução assistida (PUREWAL; VAN DEN AKKER, 2009; VOLGSTEN et al., 2018).

Observou-se também que a duração da infertilidade e a repetição de tentativas terapêuticas malsucedidas estão diretamente relacionadas ao agravamento do sofrimento psicológico. Estudos longitudinais indicam que o tempo prolongado de exposição à incerteza reprodutiva atua como fator estressor crônico, contribuindo para o aumento progressivo de sintomas ansiosos, desesperança e exaustão emocional (GAMEIRO et al., 2015).

Outro achado recorrente refere-se ao impacto do diagnóstico de infertilidade na autoestima, identidade pessoal e relações interpessoais. A literatura descreve sentimentos de inadequação, culpa, vergonha e fracasso pessoal, especialmente em contextos socioculturais nos quais a parentalidade é fortemente valorizada como marcador de sucesso e realização individual (GREIL; SLEIGHT; MCQUILLAN, 2011).

Os resultados também evidenciam que indivíduos com histórico prévio de transtornos mentais apresentam maior risco de exacerbação dos sintomas após o diagnóstico de infertilidade. Estudos sugerem que a infertilidade pode atuar como fator desencadeante ou agravante de quadros psiquiátricos preexistentes, reforçando a necessidade de avaliação psiquiátrica sistemática nessa população (FISHER; HAMMARBERG; BAKER, 2005).

No que se refere ao suporte psicológico, a literatura aponta que a ausência de acompanhamento em saúde mental está associada a piores desfechos emocionais, maior taxa de abandono dos tratamentos de reprodução assistida e menor adesão terapêutica. Por outro lado, intervenções psicossociais estruturadas demonstram efeito protetor, reduzindo níveis de ansiedade, depressão e sofrimento emocional (BOIVIN et al., 2012; GAMEIRO et al., 2015).

De forma geral, os resultados sintetizados nesta revisão narrativa sustentam a hipótese de que a infertilidade exerce impacto negativo significativo sobre a saúde mental, sendo esse impacto mediado por fatores individuais, clínicos e socioculturais. A literatura analisada converge para a compreensão da infertilidade como experiência potencialmente traumática, que demanda abordagem clínica integrada e sensível aos aspectos psiquiátricos envolvidos.

A análise da literatura evidencia de forma consistente que a infertilidade exerce impacto substancial sobre a saúde mental, configurando-se como importante fator de risco para sofrimento psicológico e transtornos psiquiátricos. Os estudos analisados demonstram que o diagnóstico de infertilidade frequentemente desencadeia reações emocionais intensas, caracterizadas por tristeza persistente, ansiedade antecipatória e sentimentos de perda de sentido existencial (BOIVIN et al., 2007).

A prevalência elevada de sintomas depressivos e ansiosos observada em indivíduos inférteis sustenta a hipótese central deste estudo. Purewal e Van den Akker (2009) identificaram taxas significativamente maiores de depressão e ansiedade em populações inférteis, achado corroborado por estudos mais recentes que apontam maior incidência de diagnósticos psiquiátricos formais nesse grupo (VOLGSTEN et al., 2018).

Sob a perspectiva psiquiátrica, a infertilidade pode ser compreendida como uma experiência de luto recorrente, envolvendo a perda do filho idealizado e do projeto de parentalidade. A ausência de rituais sociais de validação desse luto pode intensificar o sofrimento emocional, favorecendo a cronificação de sintomas depressivos (GREIL; SLEIGHT; MCQUILLAN, 2011).

Os tratamentos de reprodução assistida emergem como fator adicional de estresse psicológico. Gameiro et al. (2015) destacam que a repetição de ciclos terapêuticos fracassados está associada a maior exaustão emocional, desesperança e sintomas ansiosos persistentes, especialmente quando não há suporte psicossocial adequado. Indivíduos com histórico prévio de transtornos mentais parecem apresentar maior vulnerabilidade durante o enfrentamento da infertilidade. Fisher, Hammarberg e Baker (2005) sugerem que a infertilidade pode atuar como gatilho para recaídas depressivas, reforçando a necessidade de rastreamento psiquiátrico sistemático.

Adicionalmente, fatores socioculturais desempenham papel central na modulação do sofrimento emocional. Em contextos nos quais a parentalidade é fortemente associada ao valor social e à identidade pessoal, a infertilidade pode gerar estigmatização, isolamento social e intensificação do sofrimento psíquico (GREIL; SLEIGHT; MCQUILLAN, 2011).

Apesar dessas evidências, observa-se lacuna significativa na integração entre saúde mental e medicina reprodutiva. A ausência de protocolos estruturados para avaliação psiquiátrica contribui para o subdiagnóstico e manejo inadequado do sofrimento emocional, comprometendo a qualidade do cuidado oferecido (BOIVIN et al., 2012).

4. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

A infertilidade configura-se como uma condição médica de profundo impacto emocional, associada a maior prevalência de sofrimento psicológico e transtornos psiquiátricos, especialmente depressão e ansiedade. A literatura analisada evidencia que esse impacto é multifatorial, envolvendo aspectos biológicos, emocionais, sociais e culturais.

Os resultados desta revisão narrativa sustentam a hipótese de que a infertilidade representa importante fator de risco para adoecimento psíquico, sendo fundamental que o cuidado clínico ultrapasse o modelo exclusivamente biomédico. A incorporação sistemática da avaliação e do acompanhamento em saúde mental deve ser considerada parte essencial da assistência à infertilidade.

Conclui-se que a integração entre psiquiatria, psicologia e medicina reprodutiva é indispensável para a promoção de um cuidado mais humanizado, eficaz e centrado no paciente. Estudos futuros devem aprofundar a investigação sobre intervenções psiquiátricas específicas e estratégias preventivas, contribuindo para a construção de modelos assistenciais mais completos e sensíveis ao sofrimento emocional associado à infertilidade.

REFERÊNCIAS

BOIVIN, J. et al. Emotional distress in infertile women and men: a systematic review of 25 years of research. Human Reproduction, Oxford, v. 22, n. 6, p. 1502–1512, 2007.

BOIVIN, J. et al. International estimates of infertility prevalence and treatment-seeking: potential need and demand for infertility medical care. Human Reproduction, Oxford, v. 22, n. 6, p. 1506–1512, 2007.

BOIVIN, J. et al. Guidelines for counselling in infertility: outline version. Human Reproduction, Oxford, v. 27, n. 6, p. 1661–1674, 2012.

FISHER, J. R. W.; HAMMARBERG, K.; BAKER, G. H. Antenatal depression: prevalence and risk factors among women conceiving with assisted reproductive techniques. Fertility and Sterility, New York, v. 83, n. 6, p. 1645–1651, 2005.

GAMEIRO, S. et al. ESHRE guideline: routine psychosocial care in infertility and medically assisted reproduction—a guide for fertility staff. Human Reproduction, Oxford, v. 30, n. 11, p. 2476–2485, 2015.

GREIL, A. L.; SLEIGHT, C. C.; MCQUILLAN, J. The experience of infertility: a review of recent literature. Sociology of Health & Illness, Oxford, v. 32, n. 1, p. 140–162, 2011.

PUREWAL, S.; VAN DEN AKKER, O. B. A. Systematic review of depression and anxiety in infertile couples. Human Reproduction Update, Oxford, v. 15, n. 4, p. 435–456, 2009.

VOLGSTEN, H. et al. Prevalence of psychiatric disorders in infertile women and men undergoing in vitro fertilization treatment. Human Reproduction, Oxford, v. 33, n. 2, p. 222–229, 2018.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Infertility prevalence estimates 1990–2021. Geneva: World Health Organization, 2023.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. World mental health report: transforming mental health for all. Geneva: World Health Organization, 2022.


1Discente do Curso Superior de Medicina da UNESC Campus colatina

2Docente do Curso Superior de Psicologia da Multivix Campus Vitória. Mestre em Psicologia Social (PPGPS/UERJ).