IMPACTO DA ADESÃO AO TRATAMENTO DA SÍFILIS EM GESTANTES NO DESFECHO DA TRANSMISSÃO VERTICAL

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202510232039


Mayara Melo Araújo1
Andrina Nascimento Nomerg2
Michelle Gonçalves dos Santos3
Bruna Beatriz Beilke de Carvalho4
Jessíca Reco Cruz5
Marcelio Viana da Silva6


RESUMO

A sífilis é uma infecção bacteriana sistêmica de caráter específico, causada pelo Treponema pallidum, uma bactéria Gram-negativa, conhecida por sua alta patogenicidade e cujo único reservatório é o ser humano, podendo ser causada de três formas: adquirida, em gestantes e congênita. Este estudo teve como objetivo analisar o impacto das estratégias de monitoramento da adesão ao tratamento da sífilis em gestantes no município de Cacoal-RO, entre 2021 e 2024, e avaliar como a integração do rastreamento para Chlamydia trachomatis e Neisseria gonorrhoeae (CT/NG) com a triagem para sífilis durante o pré-natal pode contribuir para a redução de desfechos perinatais negativos. Trata-se de uma pesquisa descritiva, documental de dados, de caráter quantitativo, baseada na análise de 188 casos notificados de sífilis gestacional nos sistemas (PEC e-SUS AB), Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e em prontuários físicos. Os resultados evidenciaram diagnóstico precoce em 67% das gestantes, predominância de sífilis latente (87,2%) e adesão satisfatória ao esquema completo de penicilina benzatina em 94,7% dos casos. Em contrapartida, observou-se tratamento do parceiro em apenas 64,9% das notificações, revelando lacunas na abordagem integral e na interrupção efetiva da cadeia de transmissão. Constatou-se que o fortalecimento das ações da Atenção Primária à Saúde, aliado à capacitação contínua das equipes de enfermagem, é determinante para ampliar a adesão terapêutica e prevenir a ocorrência de sífilis congênita. Conclui-se que a articulação entre vigilância epidemiológica, rastreamento ampliado de ISTs e estratégias de educação em saúde configura-se como eixo essencial para o controle da sífilis gestacional, contribuindo para a melhoria dos indicadores materno-infantis e para a consolidação de um cuidado pré-natal resolutivo e humanizado.

Palavras-chave: Sífilis congênita. Transmissão vertical. Enfermagem.

INTRODUÇÃO

A sífilis é uma infecção bacteriana sistêmica de caráter específico, causada pelo Treponema pallidum, uma bactéria Gram-negativa pertencente ao grupo das espiroquetas, conhecida por sua alta patogenicidade e cujo único reservatório é o ser humano. A doença pode ser causada de três formas: adquirida, em gestantes e congênita. Uma sífilis adquirida pode afetar pessoas de todas as idades e, se não tratada, evoluir para um quadro crônico e mais grave. Já a sífilis em gestantes refere-se à infecção durante o período da gravidez, enquanto a forma congênita ocorre quando a infecção é transmitida pela mãe não tratada para o feto (BRASIL, 2022a, p. 418).

Está infecção sistêmica de caráter específico, pode apresentar períodos de agravamento intercalados com fases assintomáticas. Durante a gestação, a necessidade de uma intervenção rápida torna-se essencial para minimizar ao máximo o risco de transmissão vertical, garantindo a saúde da mãe e do bebê (BRASIL, 2012, p. 201).

A continuidade da sífilis congênita ainda representa um desafio para a sociedade atual, incluindo o Brasil, devido aos impactos sociais, econômicos e às graves consequências, especialmente para crianças e mulheres. Como se trata de uma Infecção Sexualmente Transmissível, é fundamental priorizar a atenção e os cuidados necessários para interromper seu ciclo de transmissão (BARBOSA et al., 2023).

Os dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) demonstram um aumento significativo no número de casos de sífilis em gestantes no Brasil entre 2019 e 2023. Em 2019, foram registrados 40.133 casos, enquanto em 2022 esse número chegou a 55.820, evidenciando um crescimento expressivo da infecção nesse período e isso reforça a importância da testagem precoce e do tratamento oportuno para evitar a transmissão vertical (BRASIL – DataSUS, 2019-2023). 

Além disso, a sífilis primária, que indica infecção recente, foi a segunda categoria mais notificada (66.595 casos), ressaltando a necessidade de medidas preventivas e estratégias de controle mais eficazes para reduzir a incidência da doença entre gestantes. Esses dados evidenciam um desafio contínuo para a saúde pública, exigindo a intensificação de políticas para a ampliação do diagnóstico e tratamento adequado (BRASIL – DataSUS, 2019-2023). 

O cumprimento ao tratamento da sífilis em gestantes é influenciado por diversos fatores, incluindo barreiras socioeconômicas, culturais e estruturais. As dificuldades financeiras, como a falta de recursos para transporte até as unidades de saúde, a necessidade de conciliar o tratamento com o trabalho e o cuidado com outros filhos, podem dificultar a continuidade da assistência. Além disso, questões culturais e o desconhecimento sobre a gravidade da doença também interferem na adesão, levando algumas gestantes a negligenciarem o tratamento. A falta de apoio familiar e o medo do estigma social são outros aspectos que podem dificultar o seguimento adequado do tratamento (Domingues et al., 2018).

Os serviços de saúde desempenham um papel central no acompanhamento das gestantes com sífilis, garantindo a adesão ao tratamento e reduzindo a incidência da doença. A atenção primária à saúde deve atuar ativamente na busca de gestantes com diagnóstico positivo, promovendo o monitoramento contínuo do tratamento e incentivando a participação dos parceiros sexuais na terapêutica. Estratégias como consultas mais frequentes, equipes multiprofissionais capacitadas e o fortalecimento do vínculo entre gestantes e profissionais de saúde são fundamentais para melhorar os índices de adesão ao tratamento e prevenir complicações para a mãe e o bebê (Silva et al., 2019).

A existência de barreiras estruturais nos serviços de saúde também pode impactar negativamente a adesão ao tratamento da sífilis em gestantes. A escassez de profissionais capacitados, a desorganização no fluxo de atendimento e a falta de insumos para o tratamento adequado são desafios recorrentes no sistema público de saúde. Além disso, horários restritos de funcionamento das unidades de saúde podem dificultar o acesso das gestantes que trabalham ou que possuem outras responsabilidades. Assim, políticas públicas voltadas para a ampliação da cobertura assistencial e o aprimoramento da qualidade dos serviços são essenciais para garantir um atendimento mais eficaz e humanizado (BRASIL, 2021).

A sífilis é transmitida principalmente por via sexual, sendo o contato direto com lesões ulcerativas nas fases iniciais da doença o principal fator de disseminação. No estágio primário, a infecção se manifesta pelo cancro duro, uma lesão indolor com alta carga de Treponemas, tornando-se altamente contagiosa. Na fase secundária, surgem as placas mucocutâneas, que também possuem um elevado potencial de transmissão. A transmissibilidade da sífilis é mais significativa nos estágios iniciais da doença, devido à maior concentração bacteriana nas lesões. Entretanto, na fase latente, em que não há manifestações clínicas aparentes, o risco de transmissão é consideravelmente reduzido. Diante desse cenário, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado são fundamentais para interromper a cadeia de transmissão da infecção (BRASIL, 2022b). 

Mudanças durante a gestação, como uma imunossupressão relativa, modificações anatômicas e alterações hormonais, podem influenciar o desenvolvimento das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). As infecções na gestante podem afetar tanto sua saúde quanto a do feto, com possibilidade de transmissão ao longo da gestação, no momento do parto ou após o nascimento. Nesse contexto, a integração do rastreamento de clamídia e gonorreia no pré-natal é essencial, pois essas infecções podem ser assintomáticas, mas causar complicações graves, como parto prematuro, ruptura prematura de membranas, infecções neonatais e até risco de transmissão de outras ISTs. A detecção precoce e o tratamento adequado dessas infecções são fundamentais para prevenir danos à saúde materna e fetal (SILVA; CASTRO, 2010, p. 768).

A integração do rastreamento de Clamídia e Gonococo ao pré-natal traz benefícios para a saúde materno-infantil. Como muitas infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) são assintomáticas, especialmente em gestantes, a detecção precoce dessas infecções permite intervenções oportunas, complicações como doença inflamatória pélvica, parto prematuro e transmissão vertical. Além disso, a implementação da Rede Nacional de Laboratórios de Biologia Molecular no SUS fortalece a vigilância epidemiológica e amplia o acesso ao diagnóstico, promovendo um atendimento mais abrangente e preventivo para gestantes e seus bebês (BRASIL, 2023).

O presente trabalho visou contribuir para o fortalecimento de políticas públicas e práticas assistenciais de enfermagem mais eficazes no cuidado ao pré-natal, com foco na adesão ao tratamento da sífilis em gestantes, tendo como objetivo geral:analisar o impacto das estratégias de monitoramento da adesão ao tratamento da sífilis em gestantes.

 Ao identificar os principais desafios, este estudo buscou não apenas abordar a incidência de sífilis gestacional, mas também compreender o impacto da adesão ao tratamento buscando melhorias significativas através da informatização e pesquisa na saúde pública, tendo como objetivos específicos.

Compreender o impacto das intervenções realizadas no pré-natal para a adesão ao tratamento da sífilis, comparar os índices de diagnóstico e adesão ao tratamento da sífilis gestacional no município de Cacoal-RO, entre os anos de 2021 e 2024, a fim de identificar tendências de aumento ou redução dos casos de sífilis gestacional e analisar como a integração do rastreamento para CT/NG com a triagem para sífilis durante o pré-natal pode favorecer uma intervenção clínica aprimorada e contribuir para a redução dos desfechos perinatais negativos.

MATERIAIS E MÉTODOS

Tratou-se de uma pesquisa descritiva, documental de dados, de caráter quantitativo dos casos de sífilis gestacional no município de Cacoal – Rondônia. A adesão ao tratamento foi verificada por meio da análise das fichas de notificação compulsória da sífilis gestacional, disponíveis nos sistemas de informação em saúde.

O município de Cacoal, localizado na região central do estado de Rondônia, destacou-se como um dos principais polos de desenvolvimento econômico e social do estado, com uma população estimada em aproximadamente 90.000 habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2024). No âmbito da saúde pública, Cacoal dispunha de uma rede estruturada de Atenção Primária à Saúde, composta por 12 Unidades Básicas de Saúde (UBS) e 24 Equipes de Estratégia Saúde da Família (ESF), as quais desempenharam papel fundamental na promoção da saúde materno-infantil e na prevenção de agravos, como a sífilis congênita.

Os dados secundários foram coletados a partir da análise de prontuários eletrônicos (Sistema PEC e-SUS AB), prontuários físicos e registros do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), referentes ao período de 2021 a 2024. A coleta foi realizada com base nos registros e notificações disponíveis na Vigilância Epidemiológica Municipal. Para a sistematização dessas informações, utilizou-se um formulário de coleta de dados, tendo como base a Ficha de Investigação de Sífilis em Gestante utilizada pela Coordenação de Vigilância em Saúde de Cacoal-RO, elaborado com o objetivo de padronizar e organizar as variáveis de interesse para a pesquisa.

A população-alvo do estudo foi composta por gestantes com diagnóstico confirmado de sífilis registrado nos sistemas mencionados. A partir dessa população, selecionou-se uma amostra conforme critérios de inclusão e exclusão previamente estabelecidos, sendo eles: a) gestantes residentes no município de Cacoal-RO; b) diagnóstico confirmado de sífilis no período de 2021 a 2024; c) registro completo das variáveis de interesse nos prontuários e/ou sistemas de informação. E os seguintes critérios de exclusão: a) prontuários incompletos ou inconsistentes; b) casos de gestantes transferidas para acompanhamento em outro município.

As variáveis que foram analisadas incluem: idade, escolaridade, idade gestacional no momento do diagnóstico de sífilis, teste treponêmico, teste não treponêmico, classificação da sífilis, esquema de tratamento realizado, tratamento do parceiro e ocupação da gestante.

Os dados coletados foram tabulados no programa Microsoft Excel, utilizando-se dupla checagem para validação e controle de qualidade das informações. Posteriormente, foi realizada análise estatística descritiva, com apresentação de frequências absolutas e relativas, medidas de tendência central (médias) e de dispersão (desvio padrão), a fim de caracterizar o perfil sociodemográfico e clínico das gestantes.

Este estudo foi conduzido conforme as diretrizes éticas estabelecidas pela Resolução CNS nº 510, de 7 de abril de 2016 do Conselho Nacional de Saúde. Considerando que a pesquisa baseou-se exclusivamente na análise de dados secundários provenientes de prontuários eletrônicos, registros físicos e sistemas oficiais (PEC e-SUS AB e SINAN).

A coleta de dados foi iniciada somente após a aprovação do CEP (parecer nº 7.678.669) e a autorização formal da Secretaria Municipal de Saúde de Cacoal e, para garantir o respeito aos princípios éticos de anonimato e confidencialidade, foi utilizado um Termo de Compromisso para Coleta de Dados em Prontuário, assegurando que as informações foram tratadas de maneira sigilosa e exclusivamente para fins científicos, sem identificação dos participantes.

Este estudo gerou benefícios indiretos relevantes, ao contribuir para o aprimoramento das práticas de acompanhamento do pré-natal, promoção da adesão ao tratamento da sífilis em gestantes e, consequentemente, redução dos casos de transmissão vertical no município de Cacoal-RO.

RESULTADOS

A análise dos dados referentes às gestantes diagnosticadas com sífilis no município de Cacoal-RO entre os anos de 2021 e 2024 evidenciou um total de 188 casos. No que se refere à idade (Tabela 1), verificou-se maior prevalência na faixa etária de 21 a 25 anos, correspondendo a 34,6% (65 casos), seguida pelas gestantes entre 26 e 30 anos, com 23,4% (44 casos), e pelas de 13 a 20 anos, que representaram 29,3% (55 casos). As faixas etárias de 31 a 35 anos e 36 a 40 anos apresentaram, respectivamente, 9% (17 casos) e 3,7% (7 casos).

Quanto à escolaridade, observou-se predomínio de gestantes com ensino médio completo, correspondendo a 30,9% (58 casos), e ensino médio incompleto, com 23,4% (44 casos). Em seguida, destacaram-se gestantes com ensino fundamental incompleto (14,4%; 27 casos), ensino fundamental completo (7,9%; 15 casos) e ensino superior completo (6,9%; 13 casos). Ressalta-se ainda a categoria de não notificados, que representou 16,5% (31 casos).

No que se refere à ocupação, a maior parte das gestantes declarou-se dona de casa, representando 71,9% (135 casos). Outras ocupações estiveram presentes em menor proporção, como estudante (5,9%; 11 casos), vendedora e atendente/recepcionista (4,3%; 8 casos cada), chapeira/cozinheira (2,7%; 5 casos), auxiliar de escritório (2,1%; 4 casos) e vigia (1,6%; 3 casos). Demais ocupações, como garçonete, administradora, operadora de caixa, cuidadora, agente comunitário de saúde, professora, técnica em enfermagem, promotora de vendas, gerente administrativa, analista de sistemas e repositor de mercadoria, apresentaram frequência inferior a 1% cada.

Tabela 1. Idade, escolaridade e ocupação de mulheres diagnosticadas com sífilis gestacional (Cacoal – RO, 2021 a 2024).

Fonte: ARAUJO, NOMERG, SANTOS, CRUZ, 2025

Em relação à idade gestacional no momento do diagnóstico (Tabela 2), verificou-se que a maior parte das gestantes foi diagnosticada no primeiro trimestre, correspondendo a 67% (126 casos). O diagnóstico no segundo trimestre ocorreu em 22,9% (43 casos) e no terceiro trimestre em 9% (17 casos). Apenas 1,1% (2 casos) não apresentaram registro do período de diagnóstico. Quanto à classificação clínica, a sífilis latente predominou, representando 87,2% (164 casos), seguida da sífilis primária, com 11,2% (21 casos). Casos de sífilis secundária corresponderam a 1,1% (2 casos) e houve apenas um caso de sífilis terciária (0,5%).

Tabela 2. Idade gestacional no momento do diagnóstico de sífilis e classificação da sífilis (Cacoal – RO, 2021 a 2024).

Fonte: ARAUJO, NOMERG, SANTOS, CRUZ, 2025

No que tange aos testes (Tabela 3), o teste treponêmico apresentou maior frequência de resultados reagentes, correspondendo a 80,3% (151 casos), enquanto 10,1% (25 casos) foram não reagentes e 9,6% (18 casos) não foram realizados. Em relação ao teste não treponêmico, observou-se 65,4% (122 casos) de resultados reagentes, 2,7% (5 casos) não reagentes, 30,9% (58 casos) não realizados e 1% (2 casos) não notificados.

Tabela 3. Teste Treponêmico e teste não treponêmico realizados nas gestantes (Cacoal – RO, 2021 a 2024).

Fonte: ARAUJO, NOMERG, SANTOS, CRUZ, 2025

Quanto ao tratamento (Tabela 4), verificou-se que 94,7% (178 gestantes) receberam o esquema completo de três doses de penicilina benzatina, enquanto 4,8% (9 gestantes) receberam apenas uma dose. Houve ainda 0,5% (1 caso) não notificado. Em relação ao tratamento dos parceiros, 64,9% (122 casos) realizaram a terapêutica, enquanto 34% (64 casos) não realizaram e 1,1% (2 casos) não foram notificados.

Tabela 4. Esquema de tratamento realizado na gestante e tratamento do parceiro (Cacoal – RO, 2021 a 2024).

Fonte: ARAUJO, NOMERG, SANTOS, CRUZ, 2025

Por fim, a tabela 5 apresenta os resultados referentes à adesão de gestantes notificadas com sífilis em 2024 ao exame de rastreamento para Chlamydia trachomatis e Neisseria gonorrhoeae no município de Cacoal, em 2025. Foram contatadas 11 gestantes em acompanhamento na atenção básica, representando o grupo total da amostra. Destas, 3 gestantes (27,3%) aceitaram realizar o exame, e 8 gestantes (72,7%) não realizaram o teste.

Tabela 5. Adesão das gestantes (notificadas com sífilis em 2024) ao exame de rastreamento em para Chlamydia trachomatis e Neisseria gonorrhoeae de gestantes, Cacoal-RO, 2025.

Fonte: ARAUJO, NOMERG, SANTOS, CRUZ, 2025

DISCUSSÕES

Os resultados deste estudo evidenciaram que a adesão adequada ao tratamento da sífilis gestacional esteve associada à redução da transmissão vertical no município de Cacoal.

Conforme demonstrado na Tabela 4, a maioria das gestantes recebeu o esquema completo de penicilina benzatina, o que confirma a efetividade do protocolo preconizado pelo Ministério da Saúde. Este dado é consistente com Domingues et al. (2018) e com dados do Informe Epidemiológico de Mato Grosso (SENE, 2024), que também apontam relação direta entre adesão ao tratamento e menores taxas de sífilis congênita.

Contudo, a presença de casos de não adesão, especialmente relacionados à ausência de tratamento do parceiro (34%), reforça fragilidades já descritas por Silva et al. (2019), que identificaram a não inclusão do parceiro como um dos principais fatores de manutenção da cadeia de transmissão.

A análise revelou que apenas parte dos parceiros recebeu tratamento adequado, o que amplia o risco de reinfecção da gestante e compromete os efeitos do tratamento.

Portanto a analise desta variável da tabela 4, dialoga com o estudo de Dorneles et al. (2024), que descreve a baixa adesão dos parceiros como um desafio recorrente para o controle da doença e segundo os autores, a sobrecarga profissional, o número reduzido de consultas de pré-natal e as falhas nos registros dificultam diretamente o acompanhamento conjunto do casal. Assim, mesmo diante de boas taxas de adesão materna, a não adesão do parceiro limita o impacto positivo sobre o desfecho neonatal, evidenciando a necessidade de estratégias mais efetivas de busca ativa e envolvimento da rede familiar.

O perfil sociodemográfico das gestantes diagnosticadas com sífilis, apresentado na Tabela 1, revelou maior prevalência entre mulheres com idade de 21 a 25 anos (34,6%) e com ensino médio incompleto ou completo (54,3%). Esse dado coletado das gestantes do município de Cacoal – RO, reafirma o que foi descrito é descrito em estudos nacionais, como o de Barbosa et al. (2023), que identificaram maior concentração da doença em mulheres com baixa escolaridade.

De acordo com dados do IBGE (2022), o município de Cacoal apresenta uma taxa de escolarização de 98,16% entre a população de 6 a 14 anos, o que demonstra um bom acesso à educação básica. No entanto, a análise deste estudo revela que, entre as gestantes avaliadas, há uma predominância de 37,8% com escolaridade intermediária (ensino fundamental e médio incompletos). Essa discrepância mostra que, apesar do avanço na escolarização das faixas etárias mais jovens, fatores socioeconômicos, como condições de empregabilidade e continuidade dos estudos, ainda impactam diretamente a vida adulta, refletindo na adesão ao pré-natal e no diagnóstico da sífilis.

Observa-se, assim, que menores níveis educacionais estão associados a maior vulnerabilidade à infecção, uma vez que o acesso limitado à informação e às ações de prevenção pode contribuir para o aumento dos casos, indicando que quanto menor a escolaridade, maior o risco de infecção.

Além disso, a elevada proporção de donas de casa (71,9%) indica uma maior vulnerabilidade social, possivelmente relacionada à dependência econômica e às dificuldades de acesso aos serviços de saúde. Os resultados aqui descritos reforçam a importância das observações de feitas por Lima et al. (2024), que destacam os desafios educacionais e sociais enfrentados por gestantes no manejo da sífilis.

Outro aspecto relevante foi o momento do diagnóstico. Conforme a Tabela 5, a maioria das gestantes recebeu diagnóstico ainda no primeiro trimestre (67%), o que evidencia a efetividade da testagem precoce preconizada no pré-natal. Esse dado é relevante, pois possibilita maior tempo hábil para a intervenção terapêutica e prevenção da transmissão vertical.

Em relação à variável de classificação da sífilis, a predominância de casos de sífilis latente (87,2%) está alinhada com as evidências apontadas por Lazari et al. (2024), que ressaltam a importância do rastreamento laboratorial e da atuação da enfermagem no diagnóstico precoce. Entretanto, a ocorrência de casos em estágios mais avançados evidencia a importância de fortalecer as estratégias de diagnóstico precoce e garantir o acompanhamento contínuo das gestantes, conforme ressalta Andrade e Rached (2017).

Na tabela 3 a respeito da realização dos exames laboratoriais e testes rápidos, mostrou elevada realização do teste treponêmico (80,3%), mas ainda com percentual de exames não realizados ou não notificados, especialmente em relação ao teste não treponêmico (30,9%). A não realização ou ausência de registro compromete a avaliação da resposta terapêutica e a monitorização da evolução clínica.

A repetição periódica dos testes durante a gestação, segundo Brasil (2021), é fundamental para identificar reinfecções e avaliar a eficácia do tratamento. De modo semelhante, Dorneles et al. (2024) apontam registros incompletos como uma das principais dificuldades para o acompanhamento adequado. Dessa forma, a inconsistência nos registros e a subnotificação observada podem impactar diretamente o desfecho neonatal, dificultando o monitoramento dos casos e o planejamento de intervenções.

A adequada adesão ao tratamento da sífilis gestacional e o diagnóstico precoce durante o pré-natal têm impacto direto na redução dos desfechos perinatais negativos. Quando o tratamento é iniciado de forma oportuna e conduzido até a conclusão, observa-se uma expressiva diminuição de complicações como aborto espontâneo, natimortalidade, prematuridade e baixo peso ao nascer. Dorneles et al. (2024) ressaltam que o manejo eficaz da sífilis na gestação é essencial para romper a cadeia de transmissão vertical e preservar a saúde do recém-nascido.

De forma semelhante os autores, Sacramento et al. (2017) evidenciam que a atenção qualificada e contínua durante o pré-natal previne intercorrências graves, uma vez que o acompanhamento adequado permite intervenções precoces e o monitoramento da resposta terapêutica. Em consonância, com o Informe Epidemiológico de Mato Grosso (SENE, 2024) onde aponta que municípios que fortaleceram a testagem e o tratamento na atenção básica registraram queda expressiva nas taxas de sífilis congênita e óbitos neonatais.

Assim, o contexto analisado em Cacoal reforça que o investimento na ampliação do diagnóstico e na adesão ao tratamento representa um avanço não apenas no controle da doença, mas também na melhoria dos indicadores de saúde materno-infantil, com potencial para reduzir significativamente os desfechos perinatais negativos.

Em Cacoal – RO, a implantação do exame molecular para rastreamento de Chlamydia trachomatis e Neisseria gonorrhoeae ocorreu em 2024, em consonância com as diretrizes do Ministério da Saúde descritas na NotaTécnica nº 21/2023-CGIST/DATHI/SVSA/MS (BRASIL, 2023), que orienta a inclusão do Teste Rápido Molecular para Clamídia e Gonococo (TRM-CT/NG) na rotina do pré-natal.

Essa iniciativa representa um avanço significativo na vigilância das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) no município, ampliando a capacidade diagnóstica e fortalecendo a prevenção de complicações obstétricas e neonatais. Em outubro de 2025, foi realizado contato com 11 gestantes (diagnosticadas com sífilis em 2024) em acompanhamento na rede de atenção básica, das quais três aceitaram realizar o exame de rastreamento, demonstrando o início da adesão a essa nova estratégia. Embora o número de participantes ainda seja reduzido, esse movimento evidencia a importância da educação em saúde e da sensibilização das gestantes para a adesão a novos exames que visam à detecção precoce de ISTs, muitas vezes assintomáticas, mas com alto potencial de comprometimento materno-fetal.

A ampliação do rastreamento para clamídia e gonococo no pré-natal deve ser vista como uma medida essencial para o fortalecimento da atenção primária, especialmente em municípios que, como Cacoal, vêm apresentando avanços no controle da sífilis gestacional e congênita.

Estudos recentes, como os de Reda et al. (2024) e Melo et al. (2024), reforçam que a inclusão rotineira desses exames contribui para a redução significativa das complicações perinatais, além de permitir o tratamento oportuno e a quebra da cadeia de transmissão. A clamídia e a gonorreia figuram entre as ISTs mais prevalentes no mundo, e sua detecção precoce, associada ao manejo adequado, pode reduzir infecções ascendentes, infertilidade e natimortalidade (Macedo et al., 2025).

Espera-se que futuros estudos possam avaliar, com base em dados locais, os resultados da implementação do TRM-CT/NG em Cacoal – RO, possibilitando compreender o impacto dessa estratégia sobre os indicadores maternos e neonatais, e fortalecendo as políticas públicas voltadas à prevenção das infecções sexualmente transmissíveis e da transmissão vertical.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo evidenciou que a adesão adequada ao tratamento da sífilis gestacional constitui um fator determinante para a prevenção da transmissão vertical e para a promoção da saúde materno-infantil. Os dados analisados no município de Cacoal-RO, no período de 2021 a 2024, revelaram que a maioria das gestantes recebeu o esquema completo de três doses de penicilina benzatina, demonstrando o cumprimento das diretrizes preconizadas pelo Ministério da Saúde. Esse resultado confirma a importância das ações efetivas da Atenção Primária à Saúde no acompanhamento das gestantes e na consolidação do cuidado integral no pré-natal.

Entretanto, a ausência de adesão plena por parte dos parceiros sexuais ainda se configura como um obstáculo relevante à interrupção da cadeia de transmissão. Tal cenário reforça a necessidade de fortalecer ações educativas, estratégias de busca ativa e a corresponsabilização do casal durante o processo terapêutico. Além disso, as lacunas observadas nos registros e notificações indicam a urgência de aprimorar os fluxos de vigilância e a integração entre os sistemas de informação em saúde.

Conclui-se que o fortalecimento contínuo das práticas de enfermagem, a capacitação das equipes multiprofissionais e a integração do rastreamento de outras ISTs no pré-natal representam estratégias essenciais para reduzir os índices de sífilis gestacional e congênita. Assim, este estudo contribui para a reflexão e o aperfeiçoamento das políticas públicas de saúde, destacando a importância do compromisso coletivo na eliminação da sífilis congênita como problema de saúde pública no Brasil.

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Benedita dos Santos; RACHED, Cândida Denise ABI. Prevenção da transmissão vertical da sífilis congênita: promoção da qualidade da assistência prestada à parturiente. International Journal of Health Management Review (IJHMReview), v. 3, n. 2, 2017. Disponível em: https://ijhmreview.org/ijhmreview/article/view/123/60. Acesso em: 02 set. 2025.

BARBOSA, Pedro Eduardo Barros et al. A relação entre a realização de pré-natal e a adesão ao tratamento referente à Sífilis Congênita no período de 2018 a 2021. Vol. 12 No.14, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.33448/rsd-v12i14.44614. Acesso em: 17 mar. 2025.

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1Graduando de Enfermagem Cacoal – Rondônia – UNINASSAU, 2025 (Centro Universitário Mauricio de Nassau) – E-mail: mayaraujo574@gmail.com.

2Graduando de Enfermagem Cacoal – Rondônia – UNINASSAU, 2025 (Centro Universitário Mauricio de Nassau) – E-mail: andrinanascimento82@gmail.com

3Graduando de Enfermagem Cacoal – Rondônia – UNINASSAU, 2025 (Centro Universitário Mauricio de Nassau) – E-mail: michelly.mirelli@gmail.com

4Graduando de Enfermagem Cacoal – Rondônia – UNINASSAU, 2025 (Centro Universitário Mauricio de Nassau) – E-mail: brunabeilke19@gmail.com

5Enfermeira, Doutoranda ISC/UFMT, Mestre especialista em saúde pública. Docente da UNINASSAU – Cacoal (Centro Universitário Mauricio de Nassau) – E-mail: profajessicarecocruz@gmail.com

6Mestre em Ciências da Saúde. Licenciatura Plena em Filosofia. Docente da UNINASSAU – Cacoal (Centro Universitário Mauricio de Nassau) – E-mail: marcelioviana7@gmail.com