IDENTIFICAÇÃO PRECOCE DE SINAIS DE DEPRESSÃO E IDEAÇÃO SUICIDA EM ESTUDANTES DE ENFERMAGEM – UMA REVISÃO DE LITERATURA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202511301747


Flora de Sousa Lima Domingos¹
Vitor Silvestre de Souza¹
Claudia Cristina de Almeida Souza Gomes¹
Orientadora: Prof.ª Drª  Ana Maria Costa Carneiro²


Resumo

A depressão e o suicídio são fenômenos que coexistem, conforme descrito no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM5), resultantes de multifatores interligados. Quando essas condições se manifestam em profissionais da saúde, especialmente na enfermagem, podem comprometer a qualidade da assistência prestada aos pacientes, pois a própria natureza da profissão é exaustiva, agravada por fatores como jornadas de trabalho extensas, remuneração inadequada, ausência de reconhecimento entre outros conflitos constantes. O presente estudo tem como objetivo geral identificar como a literatura descreve a saúde mental dos estudantes de enfermagem e como objetivos específicos identificar a existência de sinais clínicos de depressão e de ideação suicida entre estudantes de Enfermagem e também identificar a existência de suporte emocional nas instituições de ensino. O método é um estudo de revisão bibliográfica de caráter integrativo. Resultados com busca nas bases de dados Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), MEDLINE, BDENF e LILACS, inicialmente 20 artigos relacionados ao tema, sendo reduzidos a 9 artigos após aplicar os critérios de inclusão, sendo reduzido a cinco após leitura na íntegra, compondo a amostra final da presente revisão bibliográfica. Conclusão: sinais, sintomas e fatores descritos neste artigo, quando somados, intensificam a vulnerabilidade, favorecem a emergência de ideias de morte destes indivíduos, o que reforça a urgência de estratégias institucionais de apoio voltadas à saúde mental no ambiente acadêmico.

Decs: Ideação suicida, estudante de enfermagem, depressão, saúde mental.

1. INTRODUÇÃO

A depressão e o suicídio são fenômenos que coexistem, conforme descrito no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM5, resultantes de multifatores interligados, como aspectos biológicos, genéticos, sociológicos, psicológicos, culturais e ambientais. Os transtornos depressivos abrangem diversas manifestações nos indivíduos, incluem transtorno disruptivo de desregulação do humor, transtorno depressivo maior, transtorno depressivo persistente, transtorno disfórico pré-menstrual, transtorno depressivo induzido por substância/medicamento, transtorno depressivo devido a outra condição médica e transtorno depressivo não especificado. A principal característica comum entre eles é a presença do humor triste, vazio ou irritável, acompanhado de alterações somáticas e cognitivas que afetam significativamente o funcionamento do indivíduo. O que difere entre eles são elementos como duração, momento do surgimento ou sua causa principal (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014).

A depressão sendo um transtorno de humor de impacto diretamente nas esferas do funcionamento social, ocupacional e interpessoal, reflete por sua vez em atividades profissionais ou estudantis acadêmicas. Quando essas condições se manifestam em profissionais da saúde, especialmente na enfermagem, podem comprometer a qualidade da assistência prestada aos pacientes, pois a própria natureza da profissão é exaustiva, agravada por fatores como sua jornada de trabalho extensas, remuneração inadequada, ausência de reconhecimento entre outros conflitos constantes (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014; SILVA et al., 2015).

De acordo com Andrade et al. (2023) a constante exposição aos fatores mencionados, podem levar ao desenvolvimento de estresse ocupacional, não sendo tratado pode evoluir para transtornos mais graves, como a depressão e levar até uma possível idealização suicida. Nesse contexto, a ideação suicida entre médicos, enfermeiros e outros profissionais da área da saúde apresentam taxas de suicídio superiores aos da população geral, evidenciando urgência de medidas preventivas e de apoio.

Segundo números oficiais do Ministério da Saúde, registrados no Centro de Valorização da Vida (CVV, 2024), e o autor Silva et al (2015) o Brasil foi classificado o quarto país da América Latina a apresentar o maior crescimento no número de suicídios. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, (OMS) o suicídio é um dos maiores problemas de saúde pública, sendo responsável por aproximadamente 800.000 mortes por ano, ou uma tentativa bem-sucedida a cada 40 segundos. 

Para Andrade et al. (2023) há indícios de que, para cada caso de suicídio no mundo, ocorram mais de 20 tentativas mal sucedidas, seus maiores afetados são pessoas de 15 a 44 anos a mais afetada, números esses também presentes no  Segundo o Boletim da Secretaria  de Saúde Municipal do Rio de Janeiro em  2017.

Com intuito de identificar precocemente quadros depressivos severos e comportamentos de ideação suicida, instrumentos foram desenvolvidos para avaliar a existência e o nível de transtornos de humor, Segundo o Boletim da Secretaria de Saúde Municipal do Rio de Janeiro em 2017, recomenda-se a aplicação nas consultas clinicas ou de enfermagem, de alguns instrumentos, entre eles, para transtornos comuns (SRQ-20), para avaliar depressão, Inventário de Depressão de Beck (BDI) e para avaliar risco de suicídio (Sad-Persons; Beck-SIS-Escala de Intenção Suicida), entre outras ferramentas pertinentes como o “Razões para viver”, instrumentos que poderiam ser mais utilizados como maneira de descoberta precoce de niveis de depressão e ideação suicida em instituições acadêmicas.

Segundo Menezes et al., (2020) a saúde mental dos estudantes universitários tem despertado atenção devido ao  aumento da prevalência e gravidade de transtornos mentais, o estudante que é trabalhador, passa por muitos desafio como; a sobrecarga física e mental, a falta de valorização profissional, o contato constante com a morte ou situações sensíveis, exigências nos estudos, provas, até mesmo o deslocamento entre trabalho, faculdade e casa, ansiedade, falta de lazer, podem levar a quadros de constantes frustrações que podem acarretar depressão e ideações suicidas. 

No entanto, as dificuldades de abordagem sobre o tema ideação suicida entre estudantes de enfermagem em instituições conservadoras, nos fez desviar os objetivos desta pesquisa. Diante do exposto, existe uma preocupação constante sobre como a literatura descreve a saúde mental dos estudantes de enfermagem?

Espera-se com o presente estudo, encontrar literatura que tenha descrito os aspectos da saúde mental do estudante de enfermagem, especialmente relacionadas a sobrecarga mental, física e emocional durante o período de estudos.

2 OBJETIVOS

2.1 Objetivo geral

 Identificar na literatura perfil de saúde mental dos estudantes de enfermagem.

2.2 Objetivos específicos

Identificar a existência de sinais clínicos de depressão e de ideação suicida entre estudantes de Enfermagem descritos pela literatura.

Identificar a existência de suporte emocional nas instituições de ensino.

3. MÉTODO

Trata-se de um estudo de revisão bibliográfica de caráter integrativo, desenvolvido com o objetivo de identificar como a literatura científica descreve a saúde mental de estudantes de enfermagem, com ênfase na presença de sinais de depressão, ideação suicida e estratégias institucionais de suporte emocional.

A busca foi realizada nas bases de dados Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), MEDLINE, BDENF e LILACS, utilizando os descritores “Ideação suicida, estudante de enfermagem, saúde mental.”

Foram incluídos textos completos, publicados em qualquer idioma, a partir de 2018, que abordassem a temática da saúde mental dos estudantes de enfermagem, ideação suicida; excluindo estudos que não contemplavam diretamente a população estudantes de enfermagem, textos incompletos ou contendo apenas resumos.

4. RESULTADOS

Após busca nas bases de dados Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), MEDLINE, BDENF e LILACS, seguindo os descritores no métodos, resultaram inicialmente 20 artigos relacionados ao tema proposto, sendo reduzidos a 9 artigos após aplicar os critérios de inclusão.

Foram incluídos textos completos, publicados em qualquer idioma, a partir de 2018, que abordassem a temática da saúde mental dos estudantes de enfermagem, ideação suicida; excluindo estudos que não contemplavam diretamente a população estudantes de enfermagem, textos incompletos ou apenas resumos.

Dentre os 9 artigos aplicados aos critérios, após leitura de ambos e análise integral de cada artigo, apenas 5 atenderam os critérios estabelecidos, compondo a amostra final da presente revisão bibliográfica.

O quadro abaixo apresenta os artigos selecionados para esse trabalho

TítuloAutoresAno/RevistaObjetivosResultados
1Sofrimento psíquico dos universitários de enfermagem no contexto da vida acadêmica.Lima, Deivson Wendell da Costa; Gonçalves, Jaciara Sampaio; Azevedo, Lívia Dayane Sousa; Vieira, Alcivan Nunes; Pessa, Rosane Pilot; Luis, Margarita Antonia Villar.2021 – Revista enferm. UFSMOBJETIVOS: Analisar o sofrimento psíquico entre universitários de enfermagem no contexto da vida acadêmica.RESULTADOS: Os motivos de sofrimento psíquico foram as dificuldades de adaptação dos universitários no início do curso, conflitos durante a formação e expectativas quanto ao término da graduação. Diante disso, as consequências identificadas foram dificuldades alimentares, estresse e sintomas de depressão. Os modos de viver dos universitários são influenciados pelas vivências acadêmicas, inclusive os hábitos alimentares, excesso de trabalho e falta de lazer. Eles podem ser precursores de problemas graves de saúde, como ideação suicida.
2Perfil epidemiológico do suicídio entre estudantes de enfermagem.Albuquerque, Roberto Nascimento de; Borges, Moema da Silva; Monteiro, Pedro Sadi.2019 – Rev. Enfer. UERJOBJETIVOS: identificar o perfil do comportamento suicida entre estudantes de enfermagem de instituição privada de ensino superior do Distrito Federal.RESULTADOS: A maioria era adulto jovem, do sexo feminino e estudava no período noturno. Verificou-se que 181 (11,55%) estudantes já tinham tentado suicídio e os maiores índices foram apresentados no primeiro, terceiro e quarto semestres do curso. Destes, 36,5% apresentaram pensamentos depressivos, 33,7% sinais de depressão e desesperança e 56,4% permaneciam com ideação suicida.
3Suicídio e cuidado às vítimas de tentativa de suicídio.Carbogim, Fábio da Costa; Pereira, Nathalia Lanzoni; Luiz, Franciane Silva; Braz, Patrícia Rodrigues; Barbosa, Amanda Conrado Silva; Paula, Graziela Lonardoni de; Silva, Tatiane Ribeiro da; Alves, Marcelo da Silva.2019 – Rev. enferm. UFPEOBJETIVOS: Investigar a percepção dos acadêmicos de Enfermagem sobre o suicídio e o cuidado a vítimas de tentativa de suicídio.RESULTADOS: Percebeu-se, pelos acadêmicos, o suicídio como um processo complexo, multifatorial, permeado por sofrimento psíquico e decisão de pôr fim à própria vida. Verificou-se pouco preparo para a oferta de cuidado a vítimas de tentativa de suicídio, indicando a necessidade de abordagem educativa da temática durante a graduação.
4College Students’ Experiences with, and Willingness to Use, Different Types of Telemental Health Resources: Do Gender, Depression/Anxiet, or Stress Levels Matter?Toscos, Tammy; Carpenter, Maria; Drouin, Michelle; Roebuck, Amelia; Kerrigan, Connie; Mirro, Michael.2018 – Telemed J E HealthOBJETIVOS: Examinar o uso prévio e a disposição dos estudantes em utilizar vários tipos de recursos ou telemedicina em saúde (TMH).RESULTADOS: No geral, entre 10,1% e 13,8% dos estudantes já tinham experiência com esses recursos de telessaúde mental (TMH); no entanto, entre 24,6% e 40,1% demonstraram disposição em utilizá-los. Estudantes em situação de risco, especialmente aqueles com escores mais elevados de depressão/ansiedade, mostraram maior uso e maior disposição para utilizar algumas aplicações.
5Attitudes of under graduate nursing students to suicide and their role in caring of persons with suicidal behaviors.Poreddi, Vijayalakshmi; Anjanappa, Shamala; Reddy, SaiYathin.2021 – Arch Psychiatr NursOBJETIVOS: de verificar entre 223 estudantes de enfermagem suas atitudes em relação ao suicídio e seu papel na prevenção do suicídio.RESULTADOS: A maioria (68,7%) dos estudantes de enfermagem apresentou atitudes positivas em relação ao suicídio, com atitudes mais favoráveis no domínio “Papel profissional, trabalho e cuidado” (33,08 ± 4,21), seguido por “Moralidade e doença mental” (20,80 ± 3,61) e “Comunicação e atenção” (13,60 ± 2,81).

5. DISCUSSÃO

Após análise de literatura consultada, observa-se evidências presentes, contemplando o assunto como o sofrimento psíquico, saúde mental e ideação suicida em estudantes de enfermagem, bem como sua preparação e o suporte institucional. A seguir, alguns eixos observados nos artigos selecionados.

  • Perfil Epidemiológico da Ideação Suicida

De acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde) o suicídio acomete mundialmente mais de 800 mil pessoas ao ano, sendo os jovens de 15 a 29 anos a segunda principal causa de morte, sendo para cada 1 pessoa vítima, existem 20 pessoas que fizeram a tentativa, e se pensarmos em ideação, quantas apenas idealizaram? 

De acordo com Albuquerque et al. (2019) o começo da vida universitária marca o início de um processo de transição para a fase adulta, do trabalho, o estudante cria expectativas  e ilusões  em relação e no entanto a adaptação a esse contexto pode  não  ser  bem-sucedida, causando conflitos interno e vulnerabilização da saúde mental.

Segundo a pesquisa de Albuquerque et al., (2019) 1567 estudantes de enfermagem foram entrevistados, dos participantes da pesquisa 11,55% já tentaram suicídio; entre esses, 36,5% apresentavam pensamentos depressivos, 33,7% sinais de depressão e desesperança, e 56,4% mantinham ideação suicida, especialmente nos primeiros semestres de faculdade. Esses números observados já são bem superiores comparados a outros estudos do mesmo teor, realizados em outros países que não o Brasil. Outro fato importante que nos mostra nesse estudo é que entre 181 estudantes que já tentaram o suicídio, 56,4% deles continuam  com  ideação  suicida.

Ainda conforme descreve Albuquerque et al. (2019) em relação à  faixa etária,  os estudantes entre 18 e 20 anos foram os que apresentaram maior índice de tentativas (15,3%), a faixa etária de 21 e 25 anos (11,8%), e estudantes acima dos 31 anos revelaram menores índices.

Carbogim et al. (2019) descreve sobre as vítimas de suicidio e tentativa sejam de maior prevalência em homens jovens, principalmente na faixa de 15 a 44 anos, com baixo nível de escolaridade e desemprego como fator de risco relevante. Em contrapartida, as mulheres apresentam maior número de tentativas, frequentemente por envenenamento, enquanto os homens apresentam maior taxa de óbito, devido ao uso de métodos mais letais, como enforcamento.

Os estudos indicam que a ideação suicida ocorre nos períodos iniciais da graduação, quando os indivíduos já carregam histórias pré universidade e quanto a adaptação ao curso e as expectativas são frustradas, intensificam o sofrimento, sintomas como depressão, desesperança e ansiedade são fatores-chave associados ao comportamento suicida, predominando então em indivíduos nos últimos períodos.

De acordo com Albuquerque et al. (2019) os estudantes que participaram de sua pesquisa indicaram traços significativos de desesperança e depressão, mesmo os que não revelaram ter traços de ideação suicida, também descrevem possuir pouco interesse ou prazer nas  coisas, o sentimento de  tristeza, depressão e desesperança foi apresentado por 33,7% desses estudantes.

Assim, compreender o perfil epidemiológico da ideação suicida em estudantes de enfermagem vai além da descrição de prevalências, sendo de grande importância para ampliação do apoio psicológico, a capacitação de docentes para o reconhecimento de sinais de risco, a construção de ambientes acadêmicos mais acolhedores, seguros.

  • Influência de Fatores Acadêmicos

Albuquerque et al. (2019) descreve que a depressão atinge todas as faixas etárias,  sendo uma questão grave de saúde pública, estimando que em 2030, ela seja a principal razão de incapacidade mundial. Descreve também a importância de identificar  desesperança, crenças negativas e  falta de expectativas de futuro como fatores relevantes para a detecção precoce de pessoas com comportamento suicida.

Para o estudo de Lima et al. (2021) os universitários de enfermagem relataram que suas rotinas são exaustivas, enfrentam adaptação difícil no início do curso, conflitos formativos e pressões do fim da graduação, resultando em estresse, sintomas depressivos e mudança nos hábitos de vida, diante disso, as consequências identificadas foram desde as dificuldades alimentares, estresse, até sintomas de depressão.

Ainda segundo Lima et al. (2021), os estudantes apresentaram sintomas multifatoriais envolvendo a complexa interação entre os estressores acadêmicos, desafios de transição de vida, conflitos interpessoais e pressões relacionadas ao futuro profissional. Tais fatores, quando não devidamente gerenciados, podem culminar em quadros físicos e psicológicos relacionados ao estresse, sintomas de depressão, tristeza, muitos diziam sentir falta do convívio familiar, relataram chorar quase todos dias, alguns relataram até sentir a necessidade de utilizar antidepressivos.

Ainda no mesmo artigo Lima et al. (2021) demonstra que alguns entrevistados não chegaram a ir atrás de um profissional, psicólogo naquele momento que passava por dificuldade de saúde mental, já outra entrevistada relatou ter se consultado e ter recebido o diagnóstico de depressão, um entrevistado relatou que chegou a segurar uma faca, estava desesperado se sentindo incopetente com toda pressão a sua volta, mas não passou a cometer nenhuma ação. Outros achados são os aspectos externos, como dificuldades financeiras, sobrecarga acadêmica, conflitos na relação professor-aluno, vivências de violência ou assédio e distanciamento das redes de apoio, ampliam a vulnerabilidade, também a ocorrência de tentativas prévias e a persistência da ideação após esses episódios aumentam significativamente o risco de recorrência, exigindo acompanhamento contínuo.

Por fim, Lima et al. (2021) descreve que a fase final do curso e a transição para o mercado de trabalho representam um pico de ansiedade e estresse. A pressão dos estágios, a responsabilidade de aplicar o conhecimento teórico em situações reais de cuidado, muitas vezes lidando com a vida e a morte, a elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso, a incerteza diante de um mercado de trabalho competitivo, são fatores de risco significativos para o desenvolvimento de quadros depressivos, conforme corroborado pelo estudo que a maior prevalência de sintomas é nesse período.

Desta forma, os estudos nos apontam que a vida do graduando leva a situações não só de estresse, desenvolvimento de sofrimento psíquico, mas também de ideação suicida, objeto central deste estudo.

  • Percepção Quanto ao Suporte Acadêmico

A partir da discussão dentro do circulo acadêmico, Carbogim et al. (2019) sugere que os acadêmicos veem o suicídio como um processo complexo; sendo assim, entrevistou 19 acadêmicos de enfermagem através de um questionário e verificando pouco ou nenhum preparo dos entrevistados frente a vitimas de tentativas de suicídio, indicando a necessidade da temátiva dentro da educação e formação, visando que o tema não abranje a grade curricular atual.

De acordo com Poreddi et al. (2021) seu artigo evidencia que as atitudes dos estudantes de enfermagem em relação ao suicídio influenciam diretamente a forma como prestam cuidado a pessoas com comportamentos e ideações suicidas. Muitos ainda apresentam certos preconceitos, pois foram ouvidas dos entrevistados, frases pejorativas, demonstrando pouca ou nenhuma empatia, além de receios e inseguranças, itens que podem comprometer a qualidade da assistência ao paciente com o perfil suicida. 

Sendo assim, destaca-se a importância de investir na formação acadêmica, na grade curricular, promovendo conhecimento, sensibilização e preparo prático para que o futuro enfermeiro atue com maior empatia e segurança diante de situações, sabendo utilizar ferramentas que façam a diferença nesse tipo de abordagem ao paciente que possa ter vindo a cometer um ato suicida que esteja precisando do seu apoio e atendimento eficaz.

  • Ferramentas de Manutenção a Saúde Mental

Diantes dos estudos vistos até aqui, questionamos sobre a procura dos graduandos com sintomas de depressão em busca de ajuda profissional.

O estudo de Toscos et al. (2017) identificou que, embora apenas 10-13% dos estudantes já tenham utilizado recursos de telessaúde mental, até 40% expressaram interesse em utilizá-los, evidenciando a receptividade a ferramentas de apoio a saúde mental.

De acordo com Toscos et al. (2017), o avanço das tecnologias digitais amplia possibilidades aos indivíduos, sobretudo aos estudantes no campo da saúde mental. Pesquisas sobre telessaúde demonstram que, embora a adesão prática ainda seja limitada e restrita, existe o interesse por parte dos acadêmicos em utilizá-los para enfrentamento do sofrimento psíquico, até mesmo sobre ideação suicida. 

Nesse cenário Toscos et al. (2017) diz que se torna ainda mais palpável a incorporação da inteligência artificial em ferramentas de apoio emocional, aplicativos, sites, entretanto, tais recursos não devem ser compreendidos como substitutos do acompanhamento especializado por um profissional, mas sim, como instrumentos complementares que podem ser integrados até mesmo às políticas institucionais de apoio estudantil, fortalecendo a rede de cuidado e prevenção.

Apesar do potencial inovador das ferramentas de telessaúde e inteligência artificial, seu uso inadequado pode trazer implicações graves. Conforme Toscos et al. (2017) o contato exclusivo por tecnologias digitais pode gerar uma falsa sensação de cuidado resolutivo, retardando a busca por acompanhamento profissional especializado de fato, além disso, a ausência de regulamentação clara e a limitação técnica, levantam preocupações éticas e de segurança, uma vez que as respostas automatizadas podem não captar a complexidade do sofrimento humano, especialmente em casos de ideação suicida, assim, tais ferramentas se tornam insuficientes, reforçando a vulnerabilidade dos estudantes.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente trabalho convida à reflexão na promoção de uma escuta atenta, validação legítima do sofrimento psíquico do próximo, mesmo que futuros profissionais da saúde, enfermeiros.

Percebeu-se pela literatura analisada a falta do investimento na grade curricular acadêmica, principalmente para preparar os profissionais no atendimento aos pacientes que passam por depressão severa e ideação suicida, os relatos mostraram a falta de conhecimento ou até mesmo amparo e suporte emocional dentro das instituições de ensino para os próprios alunos.

A literatura descreve alguns sinais e sintomas da ideação suicida em estudantes de enfermagem como fatos não isolados e sim a partir dos determinantes sociais que os permeiam nessa trajetória acadêmica, sendo ela multifatorial e pessoal de cada indivíduo, potencializada quando expostos a estressores, como a dupla jornada de trabalho, falta do convívio familiar, conflitos professor-aluno, a instabilidade financeira, pressão dos estágios, às condições de moradia, longos trajetos com precariedade no transporte, além da pressão interna e externa para bons resultados de desempenho em todas as atividades acadêmicas, que torna onerosa a manutenção da vida universitária e consequentemente à saúde mental.

O avanço das tecnologias digitais amplia as possibilidades dos estudantes, sobretudo no campo da saúde mental, porém seu uso inadequado pode trazer implicações graves. 

Percebe-se a importância em reconhecer que a dor do outro não é invenção, sinal de fraqueza ou ausência de espiritualidade, é passo fundamental para combater estigmas que ainda cercam os transtornos mentais

Deste modo conclui-se  que os sinais, sintomas depressivos e fatores descritos neste artigo, quando somados aos estressores cotidianos, intensificam a vulnerabilidade e favorecem a emergência de ideias de morte dos indivíduos, mesmo que futuros profissionais da saúde, enfermeiros, o que reforça a urgência de estratégias institucionais de apoio voltadas à saúde mental no ambiente acadêmico. 

REFERÊNCIAS 

ALBUQUERQUE et al. Perfil epidemiológico do suicídio entre estudantes de enfermagem. Revista de Enfermagem da UERJ, Rio de Janeiro, 2019. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/enfermagemuerj/article/view/45607/33090. Acesso em: 22 ago. 2025.

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¹Graduandos de Enfermagem na Faculdade de Ciências da Saúde IGESP ( FASIG).
²Doutora em Engenharia Biomédica pela Universidade Anhembi Morumbi, Docente na Faculdade de Ciências da Saúde IGESP ( FASIG).