REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202511161804
Beatriz Sanchez Brandão1
Karina D’Elia2
RESUMO
A doença renal crônica é uma das enfermidades mais comuns em cães e gatos, especialmente nos animais mais velhos. Entre suas complicações, a hipertensão arterial sistêmica se destaca por causar sérios danos em órgãos importantes, como rins, olhos, coração e cérebro. O aumento persistente da pressão arterial costuma ser consequência das alterações hormonais e da retenção de líquidos que ocorrem quando os rins perdem parte da função. Reconhecer e controlar essa condição é essencial para oferecer qualidade de vida e retardar a progressão da doença. Este trabalho tem como objetivo revisar de forma simples e clara os principais aspectos relacionados à hipertensão sistêmica secundária à doença renal crônica em pequenos animais, abordando suas causas, diagnóstico e formas de tratamento mais utilizadas na rotina clínica veterinária.
Palavras-chave: hipertensão arterial, doença renal crônica, cães, gatos, pequenos animais
ABSTRACT
Chronic kidney disease is one of the most common disorders in dogs and cats, especially in older animals. Among its complications, systemic arterial hypertension stands out for causing serious damage to vital organs such as the kidneys, eyes, heart, and brain. The persistent increase in blood pressure is usually a consequence of hormonal changes and fluid retention that occur when the kidneys lose part of their function. Recognizing and controlling this condition is essential to provide quality of life and to slow the progression of the disease. This study aims to clearly and simply review the main aspects related to systemic hypertension secondary to chronic kidney disease in small animals, addressing its causes, diagnosis, and the most commonly used treatment approaches in veterinary clinical practice.
Keywords: arterial hypertension, chronic kidney disease, dogs, cats, small animals Introdução
A doença renal crônica (DRC) é uma das principais causas de adoecimento em cães e gatos. Ela acontece quando os rins perdem, de forma lenta e irreversível, a capacidade de filtrar o sangue e eliminar substâncias tóxicas do organismo. Essa perda progressiva da função renal provoca diversos desequilíbrios no corpo, e um dos mais preocupantes é o aumento da pressão arterial.
A hipertensão arterial sistêmica é comum em pacientes renais porque o organismo tenta compensar a falha dos rins ativando mecanismos que acabam elevando a pressão. Entre eles estão a retenção de sódio e água, que aumenta o volume sanguíneo, e a estimulação do sistema renina-angiotensina-aldosterona, responsável por contrair os vasos e elevar ainda mais a pressão. Com o tempo, essa sobrecarga danifica outros órgãos, agravando o quadro clínico.
Em cães e gatos, a hipertensão muitas vezes passa despercebida, já que nem sempre provoca sintomas claros. No entanto, pode causar sérias consequências, como perda de visão, alterações cardíacas e avanço mais rápido da própria DRC. Por isso, medir a pressão arterial e reconhecer sinais precoces da doença são passos essenciais para garantir o bem-estar desses animais e melhorar o prognóstico.
Diante disso, compreender a relação entre a DRC e a hipertensão sistêmica é fundamental para o médico-veterinário. Além de ajudar no diagnóstico e acompanhamento, esse conhecimento orienta o tratamento adequado, que deve incluir controle da pressão, dieta específica e o uso criterioso de medicamentos. O presente trabalho reúne informações atuais sobre essa associação, destacando os principais mecanismos envolvidos, as formas de diagnóstico e as opções terapêuticas disponíveis na prática clínica.
Fisiopatologia da hipertensão na DRC
A hipertensão arterial em cães e gatos com doença renal crônica é resultado direto das alterações que ocorrem quando os rins perdem parte da sua função. O rim saudável atua como um regulador natural da pressão, eliminando o excesso de líquidos e controlando substâncias que influenciam o tônus dos vasos sanguíneos. Quando há lesão renal, esse controle é comprometido e o organismo passa a interpretar de forma incorreta a circulação sanguínea, ativando mecanismos que elevam a pressão de forma contínua.
Um dos principais responsáveis por essa resposta é o sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA). Diante da diminuição do fluxo sanguíneo renal, as células especializadas liberam renina, que estimula a produção de angiotensina II – uma substância que contrai os vasos e aumenta a liberação de aldosterona. Essa, por sua vez, faz com que o corpo retenha mais sódio e água, elevando o volume de sangue e, consequentemente, a pressão arterial.

Acesso em: 28 out. 2025.
Além disso, a redução do número de néfrons funcionais diminui a capacidade de excretar sal, o que também contribui para o aumento do volume circulante. Com o tempo, a sobrecarga de pressão causa alterações estruturais nas artérias e arteríolas, tornando-as mais rígidas e menos capazes de se adaptar às variações do fluxo. Esse processo agrava a hipertensão e favorece o surgimento de lesões em órgãos sensíveis, como os olhos, o coração, o cérebro e o próprio rim, fechando um ciclo de dano progressivo.
Por isso, compreender esses mecanismos é fundamental para o manejo clínico. Controlar a hipertensão não apenas protege os órgãos-alvo, mas também ajuda a retardar a evolução da doença renal, melhorando o bem-estar e a expectativa de vida dos animais afetados.
Diagnóstico e Classificação da Hipertensão Sistêmica em Pequenos Animais
O diagnóstico da hipertensão em cães e gatos exige atenção, paciência e ambiente tranquilo. Isso porque a pressão arterial pode variar muito com o estresse, principalmente nos gatos, que ficam tensos em clínicas ou durante a contenção. Por isso, é importante que o animal esteja calmo e que a medição seja feita após alguns minutos de adaptação, com o uso de equipamentos adequados.
Na rotina veterinária, as duas formas mais utilizadas para medir a pressão são o Doppler e o oscilométrico. O método Doppler costuma ser o mais confiável, especialmente em gatos e cães de pequeno porte, pois detecta o fluxo sanguíneo através de um sensor colocado sobre uma artéria periférica. Já o método oscilométrico é mais prático, mas pode apresentar pequenas variações, sendo recomendado principalmente em cães de médio e grande porte.
O ideal é realizar várias medições consecutivas, sempre no mesmo membro, e considerar a média dos valores obtidos. Também é importante registrar as condições do exame: se o animal estava acordado, ansioso, em repouso, ou se foram observados fatores que poderiam alterar a leitura.
Depois de medir corretamente, o resultado deve ser interpretado com base nas classificações propostas pelo Colégio Americano de Medicina Interna Veterinária (ACVIM, 2018) e adotadas pela IRIS (2024). Essas diretrizes definem quatro categorias de risco, de acordo com o valor da pressão sistólica e a probabilidade de causar lesões em órgãos-alvo:
| Categoria | Pressão arterial sistólica (mmHg) | Risco de lesão em órgãos-alvo |
| Normotenso | < 150 | Mínimo ou ausente |
| Limitrofe | 150 – 159 | Leve |
| Moderadamente hipertenso | 160 – 179 | Moderado |
| Gravemente hipertenso | ≥ 180 | Alto |
Valores acima de 160 mmHg já indicam risco significativo de dano em tecidos sensíveis, como rins, olhos e coração, e merecem atenção especial. Em gatos, é comum que a hipertensão esteja associada à DRC e, muitas vezes, seja descoberta após o aparecimento de sinais como pupilas dilatadas, hemorragia ocular ou perda súbita de visão. Nos cães, pode surgir de forma mais silenciosa, mas com o tempo causa espessamento cardíaco e acelera a progressão da lesão renal.
Por isso, a avaliação da pressão arterial deve fazer parte da rotina de acompanhamento de pacientes renais crônicos. Identificar precocemente a hipertensão permite iniciar o tratamento antes que os danos se tornem irreversíveis e melhora a resposta clínica a longo prazo.
Tratamento e Controle da Hipertensão Sistêmica em Pequenos Animais
O tratamento da hipertensão em cães e gatos com doença renal crônica tem dois objetivos principais: controlar a pressão arterial e proteger os órgãos contra os danos causados pelo aumento persistente dessa pressão. Para isso, o médico-veterinário precisa combinar medidas medicamentosas e ajustes no estilo de vida do animal, como alimentação e rotina de acompanhamento.
Em primeiro lugar, é fundamental identificar e tratar a causa de base. No caso da DRC, a própria perda da função renal é o fator que mantém a pressão alta, por isso o controle da doença ajuda, indiretamente, a reduzir a hipertensão. Manter a hidratação adequada, oferecer dieta renal balanceada e evitar alimentos ricos em sal são atitudes simples que já colaboram para estabilizar os níveis pressóricos.
Entre os medicamentos disponíveis, os mais utilizados são os bloqueadores dos canais de cálcio e os inibidores da enzima conversora da angiotensina (IECA).
Nos gatos, a amlodipina é considerada o fármaco de escolha. Ela atua relaxando as paredes dos vasos sanguíneos, o que reduz a resistência à passagem do sangue e, consequentemente, a pressão arterial. A resposta ao tratamento costuma ser rápida, e o controle pode ser alcançado em poucos dias, embora o acompanhamento seja essencial para ajustar a dose de forma segura.
Já nos cães, a hipertensão costuma ter origem multifatorial, e muitas vezes o tratamento começa com os IECA, como enalapril ou benazepril. Esses medicamentos agem bloqueando o sistema renina-angiotensina-aldosterona, reduzindo a retenção de sódio e água e protegendo os rins contra a progressão da doença. Em alguns casos, quando o controle não é suficiente, pode ser necessário associar a amlodipina ou outros fármacos, sempre com orientação veterinária e monitoramento da função renal.
Além dos medicamentos, é importante acompanhar a pressão arterial regularmente. As diretrizes internacionais recomendam reavaliar os animais hipertensos a cada 7 a 14 dias no início do tratamento, até estabilizar os valores, e depois manter controles mensais ou trimestrais. Essa rotina permite ajustar doses, evitar quedas excessivas de pressão e identificar precocemente novas alterações renais.
O sucesso do tratamento depende tanto da medicação quanto do cuidado contínuo. Tutores bem orientados, que administram os remédios corretamente e seguem a dieta recomendada, fazem toda a diferença no resultado a longo prazo. Controlar a hipertensão não cura a doença renal, mas retarda sua progressão e melhora muito a qualidade de vida dos cães e gatos acometidos.
Complicações e Prognóstico da Hipertensão Sistêmica em Pequenos Animais
A hipertensão sistêmica é uma das complicações mais silenciosas e perigosas da doença renal crônica. Em muitos casos, o animal parece bem, mas a pressão elevada já está causando danos que se acumulam com o tempo. Esses efeitos são chamados de lesões em órgãos-alvo, porque atingem tecidos sensíveis à variação da pressão, como os rins, os olhos, o coração e o cérebro.
Nos rins, a hipertensão acelera a perda de néfrons e agrava a própria doença renal. O aumento constante da pressão dentro dos capilares glomerulares causa espessamento das paredes dos vasos e aumento da filtração de proteínas, o que leva à proteinúria e à progressão da insuficiência renal. É um ciclo difícil de quebrar: quanto maior a pressão, mais o rim se deteriora, e quanto mais o rim se deteriora, mais a pressão sobe.
Nos olhos, o aumento da pressão arterial pode causar descolamento de retina, hemorragias e perda súbita de visão – sinais que muitas vezes são o primeiro motivo de consulta em gatos hipertensos. Em alguns casos, a visão pode ser recuperada se o tratamento for iniciado rapidamente, mas os danos estruturais costumam ser permanentes.
No coração, a sobrecarga pressórica força o músculo cardíaco a trabalhar mais, o que resulta em hipertrofia ventricular esquerda e alterações na função diastólica. Esse processo pode levar a sinais de insuficiência cardíaca com o tempo, especialmente em cães de idade avançada.
Já no sistema nervoso central, a hipertensão pode causar micro-hemorragias e isquemia cerebral, provocando sintomas como desorientação, convulsões ou até episódios de síncope. Esses quadros são menos comuns, mas muito graves e exigem atenção imediata.
Quando o diagnóstico é precoce e o tratamento é feito de forma consistente, o prognóstico é geralmente favorável. Muitos animais hipertensos conseguem manter boa qualidade de vida por anos, desde que a pressão seja monitorada e a doença renal esteja estável. Por outro lado, casos diagnosticados tardiamente ou sem controle adequado têm prognóstico reservado, com maior risco de falência renal e complicações irreversíveis.
O segredo está na constância: medições periódicas, acompanhamento clínico e adesão ao tratamento são as chaves para que cães e gatos hipertensos vivam mais e melhor, mesmo com doença renal crônica.
Discussão
Embora a fisiopatologia da hipertensão sistêmica associada à doença renal crônica seja semelhante entre cães e gatos, existem diferenças importantes na apresentação clínica e no manejo terapêutico. Em felinos, a hipertensão tende a ser mais comum e mais grave, sendo frequentemente idiopática ou secundária à DRC já avançada. Já nos cães, costuma ocorrer de forma secundária a outras condições, como doença renal, hiperadrenocorticismo ou diabetes mellitus.
Essas diferenças também influenciam o diagnóstico. Gatos apresentam maior sensibilidade ao estresse, o que pode elevar temporariamente a pressão arterial durante a consulta, dificultando a interpretação dos valores obtidos. Por isso, recomenda-se que a medição seja repetida em ambiente tranquilo e que a média de várias aferições seja considerada. Em cães, a aferição é geralmente mais estável, e a hipertensão tende a progredir de maneira mais previsível.
Do ponto de vista terapêutico, a amlodipina continua sendo o fármaco de primeira escolha em felinos, pois apresenta rápida resposta e boa tolerância. Em cães, os inibidores da enzima conversora da angiotensina (IECA), como o enalapril e o benazepril, são preferidos inicialmente por sua ação sobre o sistema renina-angiotensina-aldosterona, proporcionando proteção renal adicional. No entanto, há consenso de que a associação das duas classes pode ser necessária em casos refratários, embora faltem estudos controlados que definam protocolos ideais de combinação.
Outro ponto de debate atual diz respeito aos valores de referência utilizados para a classificação da hipertensão em pequenos animais. As diretrizes da IRIS (2024) e da ACVIM (2018) propõem faixas semelhantes, mas o limite para intervenção precoce ainda é discutido, especialmente em gatos idosos sem sinais clínicos aparentes. Alguns autores defendem ajustes individuais baseados no histórico do paciente e em lesões em órgãos-alvo já identificadas.
Além disso, ainda há lacunas na literatura quanto ao impacto da hipertensão crônica sobre a sobrevida a longo prazo. Embora se saiba que o controle da pressão reduz complicações oculares e renais, poucos estudos acompanharam pacientes por tempo suficiente para quantificar esse benefício. Essa falta de dados reforça a importância do monitoramento contínuo e de mais pesquisas clínicas específicas para cães e gatos com DRC.
Portanto, a hipertensão sistêmica em pequenos animais deve ser entendida não apenas como uma complicação da doença renal, mas como um componente ativo que acelera sua progressão. A abordagem terapêutica ideal precisa considerar as diferenças individuais entre espécies e pacientes, unindo conhecimento fisiopatológico e experiência clínica para obter melhores resultados.
Além dos aspectos fisiopatológicos e terapêuticos, o sucesso no controle da hipertensão em pacientes renais crônicos depende fortemente do manejo clínico e da comunicação com os tutores. Muitos tutores têm dificuldade em compreender a gravidade da hipertensão, já que os sinais clínicos nem sempre são evidentes, o que pode comprometer a adesão ao tratamento a longo prazo. Por isso, o médico-veterinário deve investir tempo em explicar de forma clara os riscos associados à falta de controle, bem como a importância das medições periódicas.
Outro desafio prático é o acompanhamento desses pacientes crônicos, que exigem reavaliações frequentes, exames laboratoriais e ajustes de dose. O custo do tratamento e a administração diária dos medicamentos, especialmente em gatos, podem gerar resistência dos tutores. Nesses casos, uma comunicação empática e estratégias individualizadas (como adaptar horários, usar formulações palatáveis ou fracionar consultas) podem melhorar significativamente a adesão e o prognóstico.
Assim, além do conhecimento técnico, o papel do veterinário é também educativo e preventivo, atuando como mediador entre a ciência e o cuidado contínuo, garantindo melhor qualidade de vida aos pacientes renais hipertensos.
Considerações Finais
A hipertensão sistêmica é uma complicação frequente e preocupante da doença renal crônica em cães e gatos. Mesmo silenciosa, ela tem grande impacto na evolução da doença e na qualidade de vida dos animais. Entender como a DRC leva ao aumento da pressão arterial é essencial para reconhecer o problema cedo e agir de forma eficaz.
O controle adequado da pressão depende de um conjunto de cuidados: diagnóstico preciso, monitoramento frequente, uso correto dos medicamentos e uma boa parceria entre o veterinário e o tutor. Quando esses fatores se alinham, é possível reduzir as lesões em órgãos-alvo, desacelerar a progressão da insuficiência renal e oferecer mais conforto e longevidade aos pacientes.
Mais do que tratar números, o manejo da hipertensão é uma forma de preservar a vida e o bem-estar dos pequenos animais, reforçando o papel do médico-veterinário como guardião da saúde em todas as etapas da doença.
Referências
- ACVIM. Guidelines for the identification, evaluation, and management of systemic hypertension in dogs and cats. Journal of Veterinary Internal Medicine, v. 32, n. 6, p. 1803–1822, 2018.
- ETTINGER, S. J.; FELDMAN, E. C. Tratado de Medicina Interna Veterinária: doenças do cão e do gato. 8. ed. Rio de Janeiro: Elsevier/Saunders, 2017.
- IRIS – International Renal Interest Society. IRIS Guidelines – Hypertension & CKD. 2024. Disponível em: https://www.iris-kidney.com/iris-guidelines-1
- NELSON, R. W.; COUTO, C. G. Medicina interna de pequenos animais. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2020.
- TAYLOR, S. S.; SPARKES, A. H.; BRADLEY, K.; et al. ISFM consensus guidelines on the diagnosis and management of hypertension in cats. Journal of Feline Medicine and Surgery, v. 19, n. 3, p. 288–303, 2017. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/1098612X17693500
1Universidade Guarulhos – UNG, Guarulhos/SP
2Orientadora
