HIPERTENSÃO ARTERIAL SISTÊMICA NA POPULAÇÃO NEGRA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202511232122


Débora Maximo Silva Santos1
Denise Moura Santana1
Julia Miranda Farias1
Valkiria Moraes Ribeiro1
Orientadora: Silvana Flora de Melo2
Coordenadora da área da saúde: Jamila Fabiana Costa3


1. RESUMO  

A hipertensão arterial sistêmica (HAS) é uma das doenças crônicas mais  prevalentes no mundo e um importante fator de risco para complicações cardiovasculares,  cerebrovasculares e renais. No Brasil, a prevalência é elevada e atinge principalmente a  população negra, que apresenta maior predisposição ao desenvolvimento da doença e  piores desfechos clínicos. Essa realidade é influenciada por determinantes genéticos,  socioeconômicos e culturais, além das desigualdades estruturais e raciais que impactam  o acesso aos serviços de saúde.  

O presente estudo teve como objetivo analisar os fatores que influenciam a  prevalência e o manejo da hipertensão arterial sistêmica na população negra. Trata-se de  uma revisão integrativa de literatura, de natureza quantitativa e caráter descritivo,  realizada a partir de artigos publicados entre 2002 e 2025, disponíveis em bases de dados  abertas e de livre acesso. Foram incluídos 26 estudos que abordaram aspectos clínicos,  epidemiológicos e sociais relacionados à hipertensão arterial em pessoas negras. Os  resultados evidenciaram que a população negra apresenta maior vulnerabilidade à  doença e enfrenta barreiras significativas no diagnóstico, tratamento e acompanhamento,  relacionadas principalmente ao racismo estrutural, às condições socioeconômicas e à  baixa adesão terapêutica.  

Verificou-se também que diuréticos tiazídicos e bloqueadores de canais de cálcio  são as terapias mais eficazes nesse grupo, enquanto inibidores da enzima conversora de  angiotensina e betabloqueadores apresentam menor efetividade quando utilizados  isoladamente.  

Conclui-se que o enfrentamento da hipertensão arterial na população negra requer  uma abordagem ampliada e interdisciplinar, que considere os determinantes sociais e  raciais da saúde, fortaleça as políticas públicas de equidade e promova a formação  antirracista dos profissionais. O estudo contribui para a enfermagem e para as ciências da  saúde ao reforçar a importância da educação em saúde, da humanização do cuidado e do  reconhecimento das especificidades étnico-raciais no manejo da hipertensão, além de  indicar a necessidade de novas pesquisas voltadas à equidade e à melhoria do acesso à  atenção básica.  

Palavras-chave: Hipertensão Arterial Sistêmica; População Negra; Equidade em Saúde;  Racismo Estrutural; Enfermagem. 

2. INTRODUÇÃO  

A hipertensão arterial sistêmica (HAS) é uma das doenças crônicas não  transmissíveis mais prevalentes no mundo, representando um dos principais fatores de  risco para complicações cardiovasculares, cerebrovasculares e renais. Estima-se que  mais de 1 bilhão de pessoas vivam com hipertensão, sendo responsável por  aproximadamente 10 milhões de mortes anuais (MALTA et al., 2022; GUIMARÃES et al.,  2024). No Brasil, a prevalência é elevada, atingindo cerca de 32% da população adulta,  com tendência de aumento em grupos mais jovens devido a fatores como sedentarismo,  obesidade e hábitos alimentares inadequados (BARROSO et al., 2021).  

Entre os determinantes da hipertensão, destacam-se fatores genéticos, ambientais,  socioeconômicos e culturais. A população negra, em especial, apresenta maior  predisposição ao desenvolvimento da doença, níveis pressóricos mais elevados e maior  risco de complicações, quando comparada à população branca (CORRÊA et al., 2019;  GUIMARÃES et al., 2024). Evidências sugerem que mecanismos relacionados à herança  genética, ao estresse crônico e às desigualdades sociais contribuem para essa  vulnerabilidade (MOURA et al., 2023; TOMASIELLO et al., 2025).  

As Diretrizes Brasileiras de Hipertensão (BARROSO et al., 2021) e as  recomendações internacionais apontam para a importância de intervenções multifatoriais,  que envolvem desde a promoção de hábitos de vida saudáveis até a terapêutica  medicamentosa. Nesse contexto, pacientes negros apresentam melhor resposta a  diuréticos tiazídicos e bloqueadores de canais de cálcio, enquanto inibidores da enzima  conversora da angiotensina (IECA) e beta-bloqueadores tendem a ser menos eficazes  (CORRÊA et al., 2019). Essas particularidades evidenciam a necessidade de um olhar  diferenciado no manejo clínico, valorizando aspectos étnico-raciais na prática terapêutica.  

O papel da enfermagem é essencial no manejo da hipertensão arterial sistêmica, especialmente na atenção primária à saúde, onde o enfermeiro atua na  educação em saúde, no acompanhamento longitudinal, na avaliação dos níveis  pressóricos, na adesão ao tratamento e na implementação de estratégias de prevenção e  controle. Além disso, a enfermagem contribui significativamente para a identificação de  fatores de risco e para a promoção de hábitos de vida saudáveis, reduzindo complicações  e promovendo a equidade no cuidado (SOUZA; ROCHA; NUNES, 2024). 

3. OBJETIVO  

Analisar os fatores que influenciam a prevalência e o manejo da hipertensão  arterial na população negra.  

4. METODOLOGIA  

Este trabalho caracteriza-se como uma Revisão Integrativa de Literatura, de  natureza quantitativa e de caráter descritivo, por ser um delineamento adequado para a  síntese, mensuração e análise de dados em saúde (ALBUQUERQUE; TOMASI, 2024).  

A revisão integrativa é considerada uma metodologia ampla, que permite incluir  estudos com diferentes desenhos metodológicos, possibilitando a reunião e  sistematização do conhecimento existente sobre determinado fenômeno (SOUZA; SILVA;  CARVALHO, 2010). Além disso, este método possibilita não apenas a análise crítica das  evidências, mas também a identificação de lacunas do conhecimento, sendo reconhecido  como um recurso essencial para fundamentar práticas de cuidado e subsidiar políticas  públicas (MENDES; SILVEIRA; GALVÃO, 2008).  

Dessa forma, a escolha desse tipo de abordagem justifica-se pela necessidade de  compreender a prevalência e os fatores associados à hipertensão arterial sistêmica na  população negra, com base em dados organizados e mensuráveis (VIEIRA et al., 2025).  

Para uma melhor compreensão do percurso metodológico adotado, a presente  revisão integrativa foi dividida em seis etapas sequenciais, que representam o processo de  construção e análise das evidências científicas sobre a hipertensão arterial sistêmica na  população negra (BORGES et al., 2023). Com o objetivo de tornar o processo mais claro e  visualmente compreensível, elaborou-se o fluxograma apresentado na Figura 1, o qual  demonstra de forma sistematizada o caminho percorrido desde a definição da questão  norteadora até a síntese final do conhecimento. Cada etapa foi estruturada para garantir  rigor científico, transparência e reprodutibilidade da pesquisa. 

Figura 1 – Fluxograma

Fonte: Elaboração própria

Esta primeira etapa consistiu na definição do tema central da pesquisa, a  hipertensão arterial sistêmica na população negra, e na formulação da questão norteadora:  “Quais os fatores que influenciam a prevalência e o tratamento da hipertensão arterial  sistêmica na população negra?” (VIEIRA et al., 2025). A delimitação do tema orientou toda  a busca e seleção das evidências científicas, buscando compreender tanto aspectos  biológicos quanto sociais e estruturais relacionados à doença (SOUZA; SILVA;  CARVALHO, 2010).  

Foram definidos como critérios de inclusão os estudos publicados entre os anos de 2002  a agosto de 2025, nos idiomas português, inglês e espanhol, que abordassem a relação  entre hipertensão arterial sistêmica e população negra, incluindo fatores clínicos,  epidemiológicos, sociais e genéticos (ALBUQUERQUE; TOMASI, 2024; YANG et al.,  2023). Também foram incluídos artigos que tratassem de prevalência, controle pressórico,  determinantes sociais de saúde e políticas públicas (VIEIRA et al., 2025). Excluíram-se  editoriais, cartas ao editor, dissertações, teses, artigos duplicados e estudos sem relação direta com o tema. Além disso, foram desconsiderados artigos pagos ou com acesso  restrito, garantindo a utilização apenas de fontes abertas e disponíveis na íntegra  (MENDES; SILVEIRA; GALVÃO, 2008). A busca inicial identificou aproximadamente 130  registros relacionados ao tema e, após a leitura de títulos e resumos, foram selecionados  54 artigos para avaliação em texto completo. Destes, 28 foram excluídos, sendo cinco por  não apresentarem recorte específico para população negra, seis por não tratarem a  hipertensão arterial como foco central, cinco por utilizarem delineamento metodológico não  elegível, quatro por estarem fora do período definido, três por indisponibilidade em acesso  integral, dois por estarem em idioma não contemplado e três por duplicidade  remanescente. Dessa forma, o corpus final desta revisão foi constituído por 26 artigos que  atenderam integralmente aos critérios estabelecidos.  

Nesta etapa, os estudos selecionados foram analisados e categorizados conforme  o tipo de delineamento metodológico, a população estudada, os objetivos, os principais  achados e as variáveis observadas. As informações foram organizadas em quadros  sinóticos, agrupando os resultados de acordo com as abordagens mais frequentes: fatores  sociodemográficos, genéticos, hábitos de vida, barreiras de acesso e estratégias de  controle da pressão arterial.  

Foi realizada uma análise crítica detalhada dos estudos incluídos, considerando seu nível  de evidência, metodologia empregada, validade e aplicabilidade dos resultados  (MENDES; SILVEIRA; GALVÃO, 2008). Os artigos foram avaliados quanto à consistência  dos dados, relevância para a temática e contribuição para a compreensão da HAS em  pessoas negras.  

Após a avaliação crítica, os resultados foram analisados e interpretados de maneira  comparativa, enfatizando as relações entre os determinantes sociais e as desigualdades  raciais observadas na prevalência e controle da hipertensão arterial. A análise foi realizada  de forma descritiva e quantitativa, destacando indicadores de prevalência, tratamento e  adesão terapêutica.  

A última etapa consistiu na organização e apresentação da síntese dos resultados  de forma clara e objetiva, visando facilitar a compreensão das principais evidências  científicas encontradas. As informações foram sistematizadas em tabelas para representar  visualmente os achados mais relevantes, contribuindo para a análise crítica e o  embasamento de futuras pesquisas e práticas assistenciais. 

5. RESULTADOS ESPERADOS  

Com base nos estudos analisados, espera-se evidenciar que a população negra  apresenta maior prevalência e piores desfechos relacionados à hipertensão arterial  sistêmica (HAS). Essa situação decorre da combinação entre determinantes sociais da  saúde, fatores históricos de exclusão e desigualdades de acesso aos serviços de saúde,  associados ainda a aspectos genéticos e epidemiológicos que modulam a resposta  pressórica e a eficácia do tratamento (COELHO; CAMPOS, 2024).  

Os achados também devem confirmar que a terapêutica mais eficaz varia conforme  o grupo racial/étnico, sendo que indivíduos negros tendem a apresentar melhor resposta a  diuréticos tiazídicos e bloqueadores de canais de cálcio, enquanto inibidores da  ECA e betabloqueadores demonstram menor efetividade quando utilizados isoladamente,  embora mantenham papel relevante em combinações terapêuticas e em situações clínicas  específicas (BARROSO et al., 2021).  

Tabela 1 – Relação de autores e artigos

NTítuloAutor/AnoPeriódico/FonteNível de EvidênciaPrincipais Resultados e Observações
1Tratamento das
emergências
hipertensivas
Rodrigues,
2002
Revista
Brasileira de
Hipertensão
AltoAvaliou terapias
anti-hipertensivas;
maior eficácia de diuréticos na
população negra.
2Raça, genética e
hipertensão:
nova genética ou velha eugenia
Laguardia,
Josué, 2005
História,
Ciências,
Saúde –
Manguinhos
BaixoDiscute
determinismo
biológico vs
social; critica a
essencialização
racial e reforça
fatores sociais.
3Vigilância de
fatores de risco
e proteção para
doenças crônicas
Ministério da
Saúde, 2007
Ministério da
Saúde
MédioDescreve ações
de vigilância;
reforça
importância do
monitoramento
para prevenção.
4Revisão
integrativa:
método de pesquisa para a
incorporação de
evidências na
saúde e
enfermagem
Mendes, Silveira & Galvão, 2008Texto & Contexto
Enfermagem
AltoDefine a revisão
integrativa como método de síntese; destaca rigor e critérios
metodológicos.
5Prova de
interação e
associações
medicamentosas no tratamento
anti-hipertensivo
Bombig, M.
T. N., 2009
Revista
Brasileira de
Hipertensão
AltoMostra melhor
resposta a
bloqueadores de
canais de cálcio
em negros.
6Fatores
genéticos e
variabilidade na
pressão arterial
Firmino,
R. C. et al.,
2009
Agregação
Familiar/Portugal
AltoIdentifica
influência
genética e
herança familiar
na variação da
PA.
7Revisão
integrativa: o
que é e como
fazer
Souza, Silva
& Carvalho,
2010
Einstein
(SP)
MédioExplica
metodologia e
importância da
revisão
integrativa.
8Mortalidade por
doenças
cardiovasculares
em idosos
Pouli, M. A.
et al., 2012
Arquivos
Brasileiros
de Cardiologia
AltoRelaciona
envelhecimento e maior risco de
mortalidade por
DCV.
9Diretrizes
Brasileiras de
Hipertensão
Sociedade
Brasileira de
Cardiologia,
2016
Arq. Bras. Cardiol.AltoPadroniza
diagnóstico e
tratamento;
destaca controle
pressórico.
10Hipertensão
arterial na etnia
negra: revisão
da terapia
medicamentosa
Corrêa, R. R.
et al., 2019
Brazilian
Journal of
Surgery &
Clinical
Research
AltoMostra maior
eficácia de
diuréticos e
bloqueadores de
cálcio; recomenda
terapias
combinadas.
11Métodos de
revisão
bibliográfica nos
estudos
científicos
Cavalcante,
L. T. C., 2020
Revista de
Psicologia
MédioDescreve critérios
e rigor
metodológico em revisões.
12Polimorfismos
NOS3, IGFBP3
e TCF7L2 associados à
HAS
Lira Neto,
Abel B., 2020
UFAL (Tese
de Doutorado)
MédioAssocia
polimorfismos
genéticos e sensibilidade ao
sal em afrodescendentes.
13Pesquisa
bibliográfica para a área da saúde
Amaral, J. J.,
2021
EDUFCMédioReforça
importância de
perguntas
norteadoras e
atualização
constante.
14Diretrizes
Brasileiras de
Hipertensão
Arterial
Barroso,
Wilton de
Souza et al.,
2021
Arq. Bras.
Cardiol.
AltoConfirma menor
eficácia isolada de
IECA/BRA em
negros; melhor
em combinação.
15Inequalities in
health care and
access to health
services
Malta, D. C.
et al., 2022
Cad. Saúde
Pública
AltoMostra maior
vulnerabilidade da população negra à HAS e
complicações.
16Desigualdades
sociais na saúde
de idosos
brancos, pardos
e pretos
Moura, R. F.
et al., 2023
Ciência & Saúde
Coletiva
AltoEvidencia maior
prevalência de
HAS em grupos
negros de baixa
renda.
17Overview of
arterial hypertension in
quilombos in
Brazil
Borges, V.
M. et al.,
2023
Physis: Rev.
Saúde Coletiva
AltoAlta prevalência
em quilombos;
destaca falta de
políticas
específicas.
18Racial and
Ethnic
Disparities in
Hypertension
Yang, Y. et
al., 2023
Current Cardiology
Reports
AltoAnalisa barreiras
raciais e propõe
estratégias
culturalmente
sensíveis.
19Campo de
estudos sobre
saúde da
população negra no Brasil
Coelho, R.;
Campos, G.,
2024
Saúde e SociedadeMédioRelaciona racismo
estrutural às
desigualdades em saúde e HAS.
20Racial inequities
in hypertension
control (ELSA-
Brasil)
Guimarães,
J. M. N. et al., 2024
Journal of
Racial &
Ethnic Health
Disparities
AltoMaior prevalência
e menor controle
da HAS em pretos e pardos.
21Rapid response
in health technology
assessment:
Delphi exercise
Silva, M. T.
et al., 2024
BMC Health
Services Research
MédioAnalisa consenso
entre especialistas e
agilidade em
decisões de
saúde.
22Saúde da
população negra na formação em
saúde
Souza, D. H.;
Rocha, D. G.; Nunes, N. R., 2024
Ciência & Saúde
Coletiva
AltoRelaciona
pobreza e
escolaridade à
prevalência de
HAS; propõe
equidade racial.
23Assessing
hypertension
care quality in
Brazil
Albuquerque,
P. V. C.;
Tomasi, E., 2024
BMC Health
Services Research
AltoMostra
desigualdades
raciais e de
gênero; melhor
controle em
serviços privados.
24Saúde da
população negra e políticas no século XX
Araújo, I. L.
F.; Ribeiro,
L. P., 2025
Cad. Saúde
Pública
MédioDiscute fatores
multifatoriais e
resistência política
da população
negra.
25Efeitos da
participação
social sobre
políticas de
equidade
Bortoli, F. R.;
Serapioni,
M.; Kovaleski, D.
F., 2025
Physis: Rev.
Saúde Coletiva
MédioDemonstra que
participação social
fortalece políticas
de equidade.
26Social
determinants of
health and racial
disparities in
hypertension
Tomasiello,
Fernanda, 2025
BMC Public
Health
MédioAponta que
barreiras de
acesso
comprometem o controle da HAS
em negros.
27Prevalence,
awareness,
treatment and
control of
hypertension
Vieira, M. A. et
al., 2025
BMC Public
Health
AltoBaixa taxa de
controle da HAS;
associada a
fatores
socioeconômicos.
Fonte: Elaboração própria

6. DISCUSSÃO

A hipertensão arterial sistêmica (HAS) apresenta maior prevalência entre a  população negra, o que revela a complexidade das interações entre fatores biológicos,  sociais e estruturais no processo saúde-doença. Dados do Vigitel e das Pesquisas Nacionais  de Saúde (PNS) demonstram que os índices de hipertensão são consistentemente 

superiores aos observados na população branca. De acordo com Vieira et al. (2025), a  prevalência de HAS em adultos negros brasileiros alcança 36%, enquanto entre brancos é  de 28%, variando conforme gênero e região. Além da maior incidência, há evidências  robustas de que pessoas negras apresentam piores indicadores de controle pressórico,  mesmo entre aquelas que utilizam medicamentos anti-hipertensivos, o que evidencia falhas  estruturais no sistema de saúde e o impacto dos determinantes sociais e institucionais que  perpetuam desigualdades raciais (GUIMARÃES et al., 2024). Em comunidades quilombolas,  as prevalências ultrapassam 40%, reforçando a associação entre hipertensão, pobreza,  marginalização territorial e racismo ambiental (BORGES et al., 2023).  

O racismo estrutural no Brasil manifesta-se como um determinante social  fundamental da saúde, influenciando diretamente as condições de vida e de adoecimento da  população negra (COELHO; CAMPOS, 2024). Negros e negras estão mais expostos a  situações de estresse psicossocial decorrentes de discriminação, exclusão e violência,  fatores que aumentam a liberação de cortisol e contribuem para a elevação da pressão  arterial (TOMASIELLO et al., 2025). O racismo institucional, por sua vez, impacta  negativamente o acesso, a qualidade e a resolutividade dos serviços de saúde, fazendo com  que pessoas negras sejam menos escutadas, menos diagnosticadas e menos  acompanhadas pelos profissionais (MALTA et al., 2022; SOUZA; ROCHA; NUNES, 2024).  

As desigualdades socioeconômicas agravam esse cenário. A pobreza, o  desemprego, a informalidade, a baixa escolaridade e a insegurança alimentar atingem  desproporcionalmente a população negra (MOURA et al., 2023), interferindo em hábitos  alimentares, acesso à atividade física e adesão ao tratamento. A segregação urbana e  residencial também desempenha papel relevante, pois desloca comunidades negras para  regiões periféricas com poucos serviços públicos, maior exposição à poluição, violência e  condições ambientais precárias (GUIMARÃES et al., 2024). Esses fatores estruturais,  somados ao racismo institucional, ampliam a vulnerabilidade à hipertensão e comprometem  as estratégias de controle e prevenção.  

Mesmo quando acessam os serviços de saúde, pessoas negras enfrentam barreiras  implícitas e explícitas, como preconceitos, demora na prescrição de medicamentos e  limitação de exames diagnósticos (ALBUQUERQUE; TOMASI, 2024). A prática médica  brasileira, historicamente, tem se pautado por parâmetros universais baseados em corpos  brancos, desconsiderando especificidades biológicas e socioculturais da população negra, o  que reforça a necessidade de um olhar clínico e social diferenciado (SOUZA et al., 2024). 

No campo fisiopatológico, a hipertensão arterial é influenciada por componentes  genéticos, hormonais, renais e ambientais. Indivíduos negros apresentam características  específicas, como menor atividade da renina plasmática, maior retenção de sódio e maior  sensibilidade à angiotensina II, o que favorece maior volume intravascular e níveis  pressóricos mais elevados (CORRÊA et al., 2019). Essa particularidade explica a menor  eficácia dos inibidores da enzima conversora da angiotensina (IECA) e dos bloqueadores  dos receptores de angiotensina (BRA) quando utilizados isoladamente, exigindo adequações  terapêuticas personalizadas.  

Do ponto de vista farmacológico, estudos indicam que diuréticos tiazídicos e  bloqueadores de canais de cálcio são mais eficazes para o controle pressórico em pessoas  negras, pois atuam sobre mecanismos predominantes de expansão volêmica e resistência  vascular periférica (HAS NA ETNIA NEGRA, 2019). Entretanto, Tomasielo et al. (2023) e  Araújo e Ribeiro (2025) destacam que o êxito terapêutico depende também de fatores  sociais, como acesso aos medicamentos, vínculo com a equipe de saúde e condições de  vida. Assim, a terapêutica deve considerar não apenas a resposta fisiológica, mas também o  contexto sociocultural e as barreiras impostas pelo racismo estrutural.  

A hipertensão não controlada está associada a maiores riscos de complicações  cardiovasculares e renais, como insuficiência renal crônica, acidente vascular cerebral e  cardiopatias hipertensivas, com maior incidência na população negra (COELHO; CAMPOS,  2024). Esses desfechos refletem não apenas diferenças biológicas, mas sobretudo  desigualdades estruturais que dificultam o acompanhamento clínico e o uso contínuo de  medicamentos. Desse modo, a compreensão da HAS deve integrar fatores fisiológicos,  sociais e raciais que interagem de forma determinante no processo de adoecimento.  

Embora fatores genéticos possam contribuir para a predisposição à hipertensão —  como alterações nos genes reguladores do sistema renina-angiotensina (FERMINO et al.,  2009) e polimorfismos NOS3, IGFBP3 e TCF7L2 associados ao aumento do risco em  mulheres negras descendentes de africanos escravizados (LIRA NETO, 2020) — a ênfase  excessiva na genética pode obscurecer causas estruturais e políticas das desigualdades  (LAGUARDIA, 2005). Dessa forma, é fundamental interpretar os aspectos genéticos em  conjunto com os determinantes sociais, econômicos e históricos, evitando explicações  reducionistas que reforcem ideias de inferioridade biológica.  

As desigualdades no diagnóstico, tratamento e controle da hipertensão entre  populações negras e brancas também são evidentes. Pessoas negras são diagnosticadas  tardiamente devido à menor realização de exames e à desconfiança nos serviços de saúde (YANG et al., 2023). Estudos mostram que esses pacientes recebem menos prescrições de  medicamentos de primeira linha e têm menor acompanhamento de efeitos colaterais, o que  compromete a eficácia do tratamento (CORRÊA et al., 2019; BOMBIG, 2009). Além disso, a  baixa adesão terapêutica está frequentemente associada a limitações socioeconômicas,  como a escolha entre comprar alimentos ou medicamentos, e à dificuldade de transporte  para os serviços de saúde (ALBUQUERQUE; TOMASI, 2024).  

No âmbito das políticas públicas, a Política Nacional de Saúde Integral da População  Negra (PNSIPN), instituída em 2009, representa um marco histórico ao reconhecer o  racismo como determinante da saúde e propor ações voltadas à equidade racial (BRASIL,  2007). Entretanto, sua implementação ainda enfrenta desafios, como baixa  institucionalização, ausência de orçamento específico e resistência de gestores e  profissionais, conforme apontam Bortoli, Serapioni e Kovaleski (2025). A efetividade dessa  política depende da integração com outras políticas de saúde, do fortalecimento da atenção  primária e da participação social ativa da população negra.  

A consolidação da equidade em saúde exige uma abordagem interdisciplinar, que  una fisiologia, farmacologia, patologia e saúde coletiva, reconhecendo as particularidades  étnico-raciais como fundamentos para uma prática clínica mais humanizada e justa. A  formação antirracista de profissionais de saúde e o fortalecimento dos conselhos de  participação social são estratégias essenciais para reduzir iniquidades e garantir o acesso  universal à saúde (ARAÚJO; RIBEIRO, 2025; BORTOLI; SERAPIONI; KOVALESKI, 2025).  

Nas últimas décadas, observa-se um crescimento significativo na produção  acadêmica sobre saúde da população negra no Brasil. Esse movimento, impulsionado por  pesquisadores e movimentos sociais, tem consolidado a saúde como um direito e um  espaço de luta por justiça racial (COELHO; CAMPOS, 2024). É nesse diálogo entre  conhecimento científico e saberes populares que emergem novas práticas de cuidado,  baseadas na valorização das experiências comunitárias, dos saberes ancestrais e do  protagonismo político da população negra (ARAÚJO; RIBEIRO, 2025). 

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A hipertensão arterial sistêmica na população negra brasileira representa mais do que  uma condição clínica: é a expressão das desigualdades históricas, sociais e estruturais que  atravessam o país. Embora fatores genéticos possam contribuir para a suscetibilidade à  doença, são os determinantes sociais como o racismo, a pobreza, a segregação urbana e as  barreiras no acesso aos serviços de saúde que configuram o perfil epidemiológico e os  desfechos da HAS nesse grupo populacional.  

Enfrentar essa realidade exige ultrapassar o enfoque estritamente biomédico e  adotar uma perspectiva ampliada de saúde, que reconheça a centralidade das questões  étnico-raciais no processo de adoecimento. O combate à hipertensão, portanto, demanda  ações integradas que aliem estratégias de prevenção e tratamento à promoção da equidade  racial, incorporando práticas de cuidado culturalmente sensíveis e socialmente  comprometidas.  

Nesse contexto, torna-se indispensável fortalecer as políticas públicas voltadas à  saúde da população negra, investir na formação antirracista dos profissionais de saúde,  ampliar o financiamento de pesquisas étnico-raciais e garantir a participação social efetiva  nos espaços de decisão. Apenas por meio dessas ações articuladas será possível reduzir as  iniquidades e construir um modelo de atenção em saúde verdadeiramente inclusivo,  equitativo e humanizado. 

8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AMARAL, J. J. F. Pesquisa bibliográfica para a área da saúde. Fortaleza: EDUFC, 2021.  

ARAÚJO, Ivison Luan Ferreira; RIBEIRO, Luiz Paulo. A saúde da população negra e as políticas no  século XX: é nas encruzilhadas que encontramos resistências, emancipações e mortes. Cadernos  de Saúde Pública, v. 41, n. 4, e00080224, 2025. DOI: 10.1590/0102-311XPT080224.  

ALBUQUERQUE, Paulo Victor Cesar de; TOMASI, Elaine. Assessing hypertension care quality in  Brazil: gender, race, and socioeconomic intersection in public and private services, 2013 and 2019  national health surveys. BMC Health Services Research, v. 24, art. 939, 2024.  

BARROSO, Wilton de Souza; et al. Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial – 2020.  Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 116, n. 3, p. 516-658, 2021.  

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BOMBIG, M. T. N. Prova de interação e associações medicamentosas no tratamento anti hipertensivo: evidências da prática clínica. Revista Brasileira de Hipertensão, 2009; 16:226-  230.  

BORTOLI, Francieli Regina; SERAPIONI, Mauro; KOVALESKI, Douglas Francisco. Efeitos  da participação social sobre as políticas de promoção da equidade em saúde. Physis:  Revista de Saúde Coletiva, v. 35, n. 2, e350218, 2025.  

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CAVALCANTE, L. T. C. et al. Métodos de revisão bibliográfica nos estudos científicos.  Revista de Psicologia, v. 21, n. 1, p. 37-46, 2020.  

COELHO, Rony; CAMPOS, Gisele. O campo de estudos sobre saúde da população negra  no Brasil: uma revisão sistemática das últimas três décadas. Saúde e Sociedade, v. 33, n.  1, e220754pt, 2024.  

CORRÊA, Rafaela Rodrigues; CLIMACO, Ravanna Alves Pereira; MACEDO, Kecya Patricia  Costa; BISPO, Daniel da Cruz;  

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