HEPATITE FULMINANTE POR PROVÁVEL INTOXICAÇÃO MEDICAMENTOSA COM  ALBENDAZOL E ASHWAGANDHA (WHITANIA SOMNIFERA): UM RELATO DE CASO  

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202602222304


Patrícia Carla Bonifácio De Rezende
 Orientador (a): Dra. Milena Suhett


RESUMO  

A insuficiência hepática aguda (IHA) é uma condição rara e potencialmente fatal,  caracterizada pelo rápido comprometimento da função hepática em indivíduos sem doença  hepática prévia conhecida, associada a coagulopatia e encefalopatia hepática. Entre suas  etiologias, destacam-se a lesão hepática induzida por fármacos (drug-induced liver injury – DILI) e por suplementos ou fitoterápicos (herb-induced liver injury – HILI), reconhecidas  pelo caráter idiossincrático, imprevisível e frequentemente grave. 
Relata-se o caso de uma paciente de 49 anos submetida à administração de albendazol, com  posterior reexposição ao fármaco, associada ao uso concomitante do fitoterápico  ashwagandha para finalidade suplementar e para fins estéticos. A paciente evoluiu  rapidamente para falência hepática aguda, sendo transferida para hospital terciário de  referência em transplante hepático no estado do Espírito Santo. Apesar do suporte intensivo  em unidade de terapia intensiva, apresentou deterioração neurológica progressiva, com sinais  de edema cerebral difuso e evolução para óbito antes da avaliação completa para transplante. 
O caso ressalta os riscos do uso indiscriminado e concomitante de medicamentos e  fitoterápicos sem indicação clínica comprovada, destacando o potencial para desfechos  graves e irreversíveis. 

Palavras-chave: Insuficiência hepática aguda; Lesão hepática induzida por medicamentos;  Lesão hepática induzida por fitoterápicos; Hepatotoxicidade; Albendazol; Ashwagandha;  Fitoterápicos.

ABSTRACT  

Acute liver failure (ALF) is a rare and potentially fatal condition characterized by rapid  deterioration of liver function in individuals without previously known liver disease,  associated with coagulopathy and hepatic encephalopathy. Among its etiologies, drug induced liver injury (DILI) and herb-induced liver injury (HILI) are particularly challenging  due to their idiosyncratic, unpredictable, and often severe clinical course. We report the case of a 49-year-old woman who was exposed to albendazole, with  subsequent re-exposure to the drug, in association with the concomitant use of the herbal  supplement ashwagandha for aesthetic and weight-loss purposes. The patient rapidly  progressed to acute liver failure and was transferred to a tertiary referral center for liver  transplantation evaluation in the state of Espírito Santo, Brazil. Despite intensive care  support, she developed progressive neurological deterioration with diffuse cerebral edema  and died before completing transplant assessment. This case highlights the risks associated with the indiscriminate and concomitant use of  medications and herbal supplements without proven clinical indication, emphasizing their  potential to cause severe and irreversible outcomes. 

Keywords: Acute liver failure; Drug-induced liver injury; Herb-induced liver injury;  Hepatotoxicity; Albendazole; Ashwagandha; Herbal medicines.

1 INTRODUÇÃO 

A insuficiência hepática aguda (IHA) é uma síndrome clínica rara, porém associada a elevada  morbimortalidade, caracterizada pelo rápido comprometimento da função hepática em  indivíduos previamente sem doença hepática conhecida, manifestando-se por coagulopatia  (INR ≥ 1,5) e encefalopatia hepática (BERNAL; WENDON, 2013; EUROPEAN  ASSOCIATION FOR THE STUDY OF THE LIVER – EASL, 2017). Apesar de avanços no  suporte intensivo e no transplante hepático, a IHA permanece um desafio clínico relevante,  sobretudo pela rapidez de sua evolução e pela dificuldade em identificar precocemente sua  etiologia (LEE, 2012; EASL, 2017). 

As causas de insuficiência hepática aguda variam conforme a região geográfica e o perfil  populacional, incluindo infecções virais, isquemia hepática, doenças metabólicas e, de forma  crescente, a lesão hepática induzida por fármacos (drug-induced liver injury – DILI) (LEE,  2012; CHALASANI et al., 2021). Em países ocidentais, a DILI constitui uma das principais  causas de IHA e importante indicação de transplante hepático emergencial (BERNAL;  WENDON, 2013; CHALASANI et al., 2021). Paralelamente, observa-se aumento  significativo dos casos de lesão hepática associada ao uso de suplementos alimentares e  fitoterápicos (herb-induced liver injury – HILI), fenômeno relacionado à ampla  disponibilidade desses produtos, à percepção equivocada de segurança e ao uso sem  prescrição ou acompanhamento médico (BJÖRNSSON et al., 2013; NAVARRO; SENIOR,  2006). 

A DILI e a HILI apresentam mecanismos fisiopatológicos complexos e frequentemente  peculiares, não dependentes de dose, envolvendo suscetibilidade genética, formação de  metabólitos reativos, estresse oxidativo, disfunção mitocondrial e resposta imune adaptativa  mediada por linfócitos T (ANDRADE et al., 2019; CHALASANI et al., 2021). Essas reações  podem variar desde elevações assintomáticas de enzimas hepáticas até quadros graves de  hepatite aguda e falência hepática fulminante, com necessidade de transplante hepático ou  evolução para óbito (LEE, 2012; EASL, 2017). A identificação da etiologia torna-se ainda  mais desafiadora quando há exposição concomitante a múltiplas substâncias potencialmente  hepatotóxicas ou reexposição a um mesmo agente, situação reconhecida como fator de risco  para resposta imunomediada exacerbada (ANDRADE et al., 2019; CHALASANI et al.,  2021). 

O albendazol, anti-helmíntico amplamente utilizado e geralmente considerado seguro quando  administrado em doses terapêuticas, pode cursar com elevação transitória de  aminotransferases; entretanto, há descrições de hepatotoxicidade clinicamente significativa,  incluindo casos raros de insuficiência hepática aguda, sobretudo após reexposição  (LIVERTOX, 2023a). De modo semelhante, a ashwagandha (Withania somnifera),  fitoterápico amplamente utilizado para fins estéticos, emagrecimento e melhora do  desempenho físico, tem sido associada a quadros de lesão hepática colestática ou mista, com  relatos recentes de evolução grave (BJÖRNSSON et al., 2013; LIVERTOX, 2023b). 

Diante desse contexto, o presente trabalho tem como objetivo relatar um caso de insuficiência  hepática aguda fulminante associado à reexposição ao albendazol e ao uso concomitante de  múltiplos fitoterápicos, destacando os desafios diagnósticos, a possível interação entre  agentes hepatotóxicos e a importância da investigação detalhada do uso de medicamentos e  suplementos na abordagem de pacientes com falência hepática aguda. 

1.1 OBJETIVOS  

1.1.1 Objetivo geral  

Relatar o caso de paciente exposta a ciclos consecutivos de Albendazol, em dose terapêutica,  associada ao uso concomitante de Ashwagandha com evolução rápida e progressiva para  falência hepática, transferida a um hospital terciário de referência para avaliação de  Transplante Hepático. 

1.1.2 Objetivos específicos  

Avaliar o quadro clínico, tratamento e desfecho de um paciente com falência hepática aguda,  por provável exposição a Albendazol em conjunto com Ashwagandha para fins de  emagrecimento, sem orientação médica, em um hospital terciário da Grande Vitória – ES.  Relatar e descrever o caso, que vem se tornando mais frequente no contexto atual da  medicina, colaborando com informações científicas e ampliando conhecimento.  

2 METODOLOGIA  

2.1 DELINEAMENTO DO ESTUDO  

Trata-se de um relato de caso clínico, de caráter observacional e descritivo, elaborado a partir  da análise retrospectiva de prontuário, exames laboratoriais complementares e evolução clínica  de paciente admitida com diagnóstico de insuficiência hepática aguda. A condução clínica do  caso baseou-se na abordagem diagnóstica recomendada por diretrizes internacionais, com  exclusão sistemática de causas infecciosas, autoimunes, metabólicas e obstrutivas de falência  hepática, suspensão imediata de potenciais agentes hepatotóxicos e encaminhamento precoce  para centro especializado em transplante hepático, diante da rápida progressão para critérios  de gravidade. 

A avaliação de causalidade para lesão hepática induzida por fármacos e suplementos (drug induced liver injury – DILI; herb-induced liver injury – HILI) foi realizada retrospectivamente,  exclusivamente para fins acadêmicos e descritivos, por meio da aplicação do Roussel Uclaf  Causality Assessment Method (RUCAM), método validado e amplamente utilizado em relatos  de caso, estudos observacionais e farmacovigilância. Como suporte à identificação,  caracterização e plausibilidade biológica da hepatotoxicidade associada aos agentes suspeitos,  foi utilizado o banco de dados LiverTox, mantido pelo National Institute of Diabetes and  Digestive and Kidney Diseases (NIDDK/NIH), referência internacional em hepatotoxicidade  induzida por medicamentos e fitoterápicos. 

2.2 LOCAL DO ESTUDO  

Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital da Grande Vitória, em Vila Velha, Espírito  Santo, Brasil.  

2.3 ASPECTOS ÉTICOS  

O estudo foi elaborado de acordo com os princípios éticos estabelecidos pela Resolução nº  466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, garantindo a confidencialidade das informações  e o anonimato da paciente. Por se tratar de relato de caso, sem identificação direta ou indireta  do paciente, e com finalidade exclusivamente científica e educacional, não foi submetido  para apreciação ao Comitê de Ética em Pesquisa. 

3 RELATO DE CASO  

Paciente do sexo feminino, 49 anos, previamente hígida, com antecedente remoto de episódio  de hepatite há aproximadamente 20 anos, sem documentação etiológica e sem outras  comorbidades conhecidas, procurou atendimento em pronto atendimento municipal em 09  de agosto de 2024 com quadro de mal-estar geral, astenia intensa, náuseas, vômitos, colúria  e icterícia progressiva. Relatava uso recente de albendazol por automedicação durante cinco  dias, seguido de nova exposição aproximadamente 25 dias após o primeiro ciclo. Informava  ainda uso concomitante de múltiplos suplementos e fitoterápicos, incluindo creatina,  ashwagandha, maca peruana, long jack, ginseng, feno-grego, coenzima Q10 e extrato de  amora. 

Na admissão inicial, os exames laboratoriais evidenciaram lesão hepatocelular maciça, com  AST (TGO) de 6.158 U/L e ALT (TGP) de 5.550 U/L, associadas a bilirrubina total de 12,84  mg/dL (fração direta 7,4 mg/dL e indireta 5,44 mg/dL). A fosfatase alcalina encontrava-se  discretamente elevada (137 U/L). O tempo de protrombina era de 26,4 segundos, com INR  de 2,58, já configurando disfunção sintética hepática significativa. Sorologias demonstraram  HCV não reagente, HIV 1 e 2 não reagentes, anti-HAV IgG reagente e anti-HAV IgM não  reagente, afastando hepatite A aguda e indicando apenas imunidade prévia. O padrão  bioquímico inicial era claramente hepatocelular, compatível com necrose hepatocelular  extensa. 

Devido à piora clínica e laboratorial, foi encaminhada em 12 de agosto de 2024 a hospital  terciário de referência ao norte do estado. Evoluiu com progressivo rebaixamento do nível  de consciência, compatível com encefalopatia hepática avançada, sendo submetida à  intubação orotraqueal em 14 de agosto de 2024 para proteção de vias aéreas. 

Em 16 de agosto de 2024, foi transferida para hospital de referência em Vila Velha para  avaliação da equipe de transplante hepático. Na admissão na unidade de terapia intensiva,  apresentava insuficiência hepática aguda grave associada a choque circulatório, necessitando  de ventilação mecânica invasiva e uso de drogas vasoativas, incluindo noradrenalina e  vasopressina. 

Durante a internação no serviço de referência, observou-se progressão da  hiperbilirrubinemia, com valores entre 21 e 23 mg/dL, agravamento da coagulopatia com  INR atingindo 4,27, tempo de protrombina de 43 segundos e atividade protrombínica de  13,5%. Evoluiu ainda com insuficiência renal aguda importante, com creatinina de até 6,70  mg/dL e ureia de 104,8 mg/dL, configurando falência orgânica múltipla. Gasometria arterial evidenciou acidose metabólica grave, com pH de 6,86, bicarbonato de 16,5 mmol/L e excesso  de base de −17,1, além de lactato de 15,7 mmol/L. 

Hemograma demonstrou anemia macrocítica (hemoglobina 10,3 g/dL; VCM 105 fL),  plaquetopenia (120.000/mm³) e leucócitos em torno de 10.000/mm³. Exames de imagem  abdominal (ultrassonografia e tomografia computadorizada) mostraram fígado de morfologia  preservada, sem dilatação de vias biliares intra ou extra-hepáticas, e vesícula biliar com  discreto espessamento parietal, compatível com processo inflamatório reacional. 

Tomografias computadorizadas seriadas de crânio evidenciaram edema cerebral difuso, com  perda da diferenciação entre substância branca e cinzenta e redução do sistema ventricular  supratentorial, sem lesões focais estruturais. Evoluiu com crises convulsivas focais,  anisocoria, ausência de reflexos de tronco encefálico e sinais de hipertensão intracraniana  refratária às medidas clínicas, incluindo sedoanalgesia profunda, uso de manitol e controle  rigoroso ventilatório e hemodinâmico. 

Ecocardiograma transtorácico demonstrou função sistólica preservada, com fração de ejeção  de 67%, e disfunção diastólica grau I, sem repercussões hemodinâmicas significativas.  Apresentava MELD-Na de 46 e foi avaliada pela equipe de transplante hepático. Apesar das  medidas intensivas instituídas, manteve deterioração progressiva do quadro neurológico,  hepático e circulatório, evoluindo em 21 de agosto de 2024 com parada cardiorrespiratória  refratária às manobras de reanimação, sendo declarado óbito às 05h20. 

A cronologia do quadro, associando reexposição recente ao albendazol, uso concomitante de  múltiplos fitoterápicos potencialmente hepatotóxicos e padrão laboratorial inicial de necrose  hepatocelular maciça, sugere etiologia medicamentosa como principal hipótese diagnóstica  para a falência hepática aguda de evolução fulminante. 

4 DISCUSSÃO  

A insuficiência hepática aguda (IHA) é uma condição clínica rara e de alta letalidade,  caracterizada por deterioração rápida da função hepática em indivíduos sem doença hepática  prévia conhecida, cursando com coagulopatia e encefalopatia hepática. Entre suas etiologias,  a lesão hepática induzida por fármacos (drug-induced liver injury – DILI) e por suplementos  ou fitoterápicos (herb-induced liver injury – HILI) representa uma das causas mais  desafiadoras do ponto de vista diagnóstico e prognóstico, em razão de seu caráter peculiar, imprevisível e potencialmente fulminante (EUROPEAN ASSOCIATION FOR THE  STUDY OF THE LIVER – EASL, 2019; FONTANA et al., 2023). 

Na avaliação da lesão hepática induzida por fármacos e suplementos, a caracterização do  padrão bioquímico é etapa essencial para o raciocínio etiológico. Para isso, utiliza-se  amplamente o R-ratio, índice proposto para diferenciar lesão hepatocelular, colestática ou  mista, conforme recomendado pelas diretrizes da European Association for the Study of the  Liver (EASL, 2019). O R-ratio é calculado pela razão entre a elevação relativa da alanina  aminotransferase (ALT) e a elevação relativa da fosfatase alcalina (FA), ambas normalizadas  pelo respectivo limite superior da normalidade (LSN), conforme a fórmula: 

R = (ALT / LSN ALT) / (FA / LSN FA) .

Valores de R maiores que 5 definem padrão hepatocelular; valores inferiores a 2 caracterizam  padrão colestático; e valores entre 2 e 5 indicam padrão misto. 

No presente caso, na admissão inicial, a paciente apresentava ALT de 5.550 U/L (LSN  aproximado de 40 U/L) e fosfatase alcalina de 137 U/L (LSN aproximado de 120 U/L),  resultando em R-ratio superior a 100, compatível com padrão hepatocelular extremo. Esse  achado é característico de necrose hepatocelular maciça, frequentemente descrita em lesões  hepáticas graves induzidas por drogas e em hepatites virais fulminantes, reforçando a  natureza predominantemente hepatocelular do insulto inicial. 

A interpretação do R-ratio, associada à exclusão de causas alternativas e à cronologia de  exposição medicamentosa, constitui elemento fundamental na avaliação de causalidade em  DILI/HILI. 

No presente relato, descreve-se um quadro de falência hepática aguda fulminante, associado  à exposição repetida ao albendazol, em dose terapêutica, associada ao uso concomitante de  suplemento natural contendo Ashwagandha (Withania somnifera), evoluindo em curto  intervalo para falência hepática aguda fulminante, com hiperbilirrubinemia grave (bilirrubina  total até 22 mg/dL), edema cerebral e óbito antes da estabilização clínica para transplante  hepático. 

4.1 ALBENDAZOL E LESÃO HEPÁTICA INDUZIDA POR FÁRMACO 

O albendazol é um anti-helmíntico amplamente utilizado, considerado seguro na maioria dos  casos; contudo, há evidências consistentes de sua associação com hepatotoxicidade  clinicamente significativa, incluindo hepatite aguda e, raramente, progressão para insuficiência  hepática aguda ou subfulminante (NIDDK, 2021; FREIRE et al., 2015). A lesão hepática  associada ao albendazol apresenta caráter predominantemente peculiar, não relacionado à dose, com latência variável e espectro clínico amplo, desde a elevação assintomática de  aminotransferases até falência hepática fulminante (RÍOS et al., 2013). 

No caso em questão, a paciente foi submetida a dois ciclos consecutivos de albendazol (01  comprimido por 05 dias), separados por intervalo de aproximadamente 1 a 2 semanas. Esse  achado é particularmente relevante, uma vez que a reexposição ao agente suspeito é  reconhecida como um dos critérios mais fortes de causalidade em DILI, estando associada a  reações mais intensas e maior risco de evolução desfavorável (DANAN; TESCHKE, 2015;  HAYASHI et al., 2022). 

Do ponto de vista fisiopatológico, o albendazol sofre intenso metabolismo hepático de primeira  passagem, sendo convertido principalmente em albendazol sulfóxido, metabólito ativo que  pode gerar intermediários reativos capazes de se ligar a proteínas hepáticas e desencadear  resposta imune adaptativa em indivíduos suscetíveis. Esse mecanismo explica a  imprevisibilidade da reação, a ausência de relação dose-dependente e a gravidade potencial  observada após reexposição (NIDDK, 2021). A progressão para falência hepática aguda reflete  necrose hepatocelular extensa, inflamação sistêmica e falência da capacidade regenerativa  hepática, cenário descrito em relatos prévios associados ao albendazol (AASEN et al., 2015). 

4.2 ASHWAGANDHA E LESÃO HEPÁTICA INDUZIDA POR FITOTERÁPICOS 

A ashwagandha (Withania somnifera) é amplamente utilizada em suplementos naturais,  frequentemente associados a emagrecimento, controle do estresse e melhora do desempenho  físico. Apesar da percepção popular de segurança, evidências recentes demonstram associação  consistente entre o uso de ashwagandha e lesão hepática induzida por fitoterápicos (HILI), com  múltiplos relatos e séries de casos bem documentados (BJÖRNSSON et al., 2020; PHILIPS et  al., 2023; NIDDK, 2024). 

O padrão de hepatotoxicidade mais frequentemente descrito é colestático ou misto,  caracterizado por icterícia intensa, prurido e elevação significativa da bilirrubina,  frequentemente com curso clínico prolongado mesmo após a suspensão do suplemento  (BJÖRNSSON et al., 2020). A fisiopatologia proposta envolve mecanismos idiossincráticos,  possivelmente relacionados à interferência em transportadores canaliculares biliares, além de  resposta imunomediada, o que explicaria a variabilidade clínica e a ausência de correlação clara  com dose ou tempo de uso (BOKAN et al., 2023). Estudos recentes demonstraram que pacientes com doença hepática prévia podem evoluir com falência hepática aguda sobre  crônica (ACLF) e elevada mortalidade após exposição à ashwagandha (PHILIPS et al., 2023). 

No presente caso, o uso concomitante de suplemento contendo ashwagandha pode ter atuado  como fator agravante, atuando de forma sinérgica à lesão hepática induzida pelo albendazol  contribuindo para colestase importante e hiperbilirrubinemia acentuada, reduzindo a reserva  funcional hepática e potencializando a evolução desfavorável desencadeada pelo albendazol. 

4.3 AVALIAÇÃO DE CAUSALIDADE E INTEGRAÇÃO ETIOLÓGICA 

A aplicação retrospectiva do Roussel Uclaf Causality Assessment Method (RUCAM) reforça  o albendazol como principal agente causal, classificado como DILI (drug-induced liver injury)  provável, sobretudo em razão da reexposição precoce e da progressão clínica dramática  subsequente. A ashwagandha foi classificada como HILI (herb-induced liver injury) provável,  configurando um fator coadjuvante relevante na gravidade do quadro. A associação entre DILI  e HILI, embora pouco descrita, representa um cenário de agressão hepática múltipla, capaz de  acelerar a progressão para falência hepática fulminante. 

4.4 APLICAÇÃO DO RUCAM (ROUSSEL UCLAF CAUSALITY ASSESSMENT  METHOD) 

A seguir, aplica-se o RUCAM revisado, conforme recomendado por diretrizes internacionais,  para avaliação da causalidade tanto do albendazol quanto da ashwagandha (DANAN;  TESCHKE, 2015; HAYASHI et al., 2022). 

4.4.1 RUCAM – Albendazol 

Padrão de lesão: Hepatocelular / Misto (com icterícia grave) 

Pontuação total: + 8 

Classificação: Provável DILI por albendazol

4.4.2 RUCAM – Ashwagandha 

Padrão de lesão: Colestático / Misto 

Pontuação total: + 5 

Classificação: Provável HILI por Ashwagandha 

5 CONCLUSÃO  

O presente relato descreve um caso de falência hepática aguda fulminante, culminando em  edema cerebral e óbito, associado à lesão hepática induzida por fármacos e suplementos,  envolvendo exposição repetida ao albendazol e uso concomitante de suplemento natural  contendo ashwagandha (Withania somnifera). 

A análise clínica, temporal e metodológica sustenta fortemente o diagnóstico de DILI provável por albendazol, conforme demonstrado pela aplicação do RUCAM, especialmente  pela reexposição precoce, reconhecida como um dos critérios mais robustos de causalidade  (DANAN; TESCHKE, 2015; HAYASHI et al., 2022). A progressão acelerada após o  segundo ciclo sugere um mecanismo idiossincrático, possivelmente imunomediado, levando a necrose hepatocelular extensa e rápida perda da função hepática, conforme descrito em  relatos prévios e revisões especializadas (NIDDK, 2021; FREIRE et al., 2015). 

Adicionalmente, o uso concomitante de ashwagandha, classificado neste caso como HILI  provável, pode ter atuado como fator agravante, contribuindo para um padrão  colestático/misto, com hiperbilirrubinemia grave (22 mg/dL) e redução adicional da reserva  funcional hepática. Evidências recentes demonstram que a ashwagandha não é isenta de risco  hepático, estando associada a quadros de hepatite colestática e, em pacientes suscetíveis, à  evolução para insuficiência hepática grave (BJÖRNSSON et al., 2020; PHILIPS et al., 2023). 

Este caso reforça a importância da investigação sistemática do uso de suplementos naturais,  frequentemente subestimados na anamnese, bem como a necessidade de cautela quanto à  reexposição a fármacos potencialmente hepatotóxicos, mesmo em doses consideradas  terapêuticas. Além disso, destaca a evolução imprevisível e potencialmente fatal da  DILI/HILI, ressaltando a necessidade de reconhecimento precoce e encaminhamento  imediato a centros especializados em falência hepática e transplante. 

6 LIMITAÇÕES DO ESTUDO 

Algumas limitações devem ser reconhecidas. Trata-se de um relato de caso único, o que  impede inferências causais definitivas ou generalizações. A evolução extremamente rápida  para óbito impossibilitou a observação do curso laboratorial após suspensão completa dos  agentes suspeitos, bem como a realização de biópsia hepática, que poderia contribuir para  melhor caracterização histopatológica da lesão. Além disso, a composição exata e a  concentração dos princípios ativos do suplemento contendo ashwagandha não puderam ser  analisadas laboratorialmente, limitando a avaliação do papel isolado do fitoterápico. Ainda  assim, a cronologia compatível, a reexposição documentada ao albendazol, a exclusão de  causas alternativas e a aplicação sistemática do RUCAM conferem elevada plausibilidade  causal ao caso.

7 CONSIDERAÇÕES ÉTICAS 

O presente relato foi elaborado de acordo com os princípios éticos estabelecidos pela  Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, garantindo a confidencialidade  das informações e o anonimato da paciente. Por se tratar de relato de caso, retrospectivo,  sem identificação do paciente, e com finalidade exclusivamente científica e educacional, não  houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme Resolução CNS  nº 466/2012.

8. REFERÊNCIAS  

1. AASEN, T. D. et al. Acute liver failure secondary to albendazole: defining a  management strategy. The American Journal of Gastroenterology, v. 110, supl. 1, 2015.

2. ANDRADE, R. J. et al. Drug-induced liver injury. Nature Reviews Disease Primers, v.  5, n. 1, p. 58, 2019. 

3. BERNAL, W.; WENDON, J. Acute liver failure. The New England Journal of  Medicine, v. 369, n. 26, p. 2525–2534, 2013. 

4. BJÖRNSSON, H. K. et al. Liver injury due to ashwagandha: a case series from  Iceland and the U.S. Drug-Induced Liver Injury Network. Liver International, v. 40,  n. 4, p. 825–829, 2020. 

5. BOKAN, G. et al. Herb-induced liver injury by Ayurvedic ashwagandha as the  suspected cause: review of published cases and two new cases. Pharmaceuticals, v.  16, n. 8, p. 1129, 2023. 

6. BRASIL. Conselho Nacional de Saúde. Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012.  Dispõe sobre diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres  humanos. Diário Oficial da União, Brasília, 13 jun. 2013. 

7. CHALASANI, N. P. et al. ACG Clinical Guideline: diagnosis and management of  idiosyncratic drug-induced liver injury. The American Journal of Gastroenterology, v.  116, n. 5, p. 878–898, 2021. 

8. CHOI, G. Y. et al. Acute drug-induced hepatitis caused by albendazole. Journal of  Korean Medical Science, v. 23, n. 5, p. 903–905, 2008. 

9. DANAN, G.; TESCHKE, R. RUCAM in drug and herb induced liver injury: the  update. International Journal of Molecular Sciences, v. 17, n. 1, p. 14, 2015.

10. EUROPEAN ASSOCIATION FOR THE STUDY OF THE LIVER (EASL). EASL  Clinical Practice Guidelines: Drug-induced liver injury. Journal of Hepatology, v. 70,  n. 6, p. 1222–1261, 2019. 

11. EUROPEAN ASSOCIATION FOR THE STUDY OF THE LIVER (EASL). EASL  Clinical Practice Guidelines on the management of acute (fulminant) liver failure.  Journal of Hepatology, v. 66, n. 5, p. 1047–1081, 2017. 

12. FONTANA, R. J. et al. AASLD practice guidance on drug, herbal, and dietary  supplement–induced liver injury. Hepatology, v. 77, n. 3, p. 1036–1065, 2023.

13. FREIRE, J. F. et al. Subfulminant acute liver failure by albendazole. Journal of  Medical Cases, v. 6, n. 11, p. 493–496, 2015.

14. HAYASHI, P. H. et al. Revised electronic version of RUCAM for the diagnosis of  drug-induced liver injury. Hepatology Communications, v. 6, n. 12, p. 3299–3310,  2022. 

15. LEE, W. M. Acute liver failure. The New England Journal of Medicine, v. 367, n. 26,  p. 2526–2534, 2012. 

16. LUBARSKA, M. et al. A case report of ashwagandha-induced liver injury.  International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 20, n. 5, p. 3921,  2023. 

17. NARCISO-SCHIAVON, J. L. et al. Recurrent albendazole-induced acute hepatitis.  Revista Colombiana de Gastroenterología, v. 33, n. 4, p. 473–477, 2018.

18. NATIONAL INSTITUTE OF DIABETES AND DIGESTIVE AND KIDNEY  DISEASES (NIDDK). Albendazole. In: LiverTox: Clinical and Research Information  on Drug-Induced Liver Injury. Bethesda: National Institutes of Health, 2021. Disponível  em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK548360/. Acesso em: jan. 2026.

19. NATIONAL INSTITUTE OF DIABETES AND DIGESTIVE AND KIDNEY  DISEASES (NIDDK). Ashwagandha. In: LiverTox: Clinical and Research Information  on Herb-Induced Liver Injury. Bethesda: National Institutes of Health, 2024. Disponível  em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK548536/. Acesso em: jan. 2026.

20. NAVARRO, V. J.; SENIOR, J. R. Drug-related hepatotoxicity. The New England  Journal of Medicine, v. 354, n. 7, p. 731–739, 2006. 

21. PHILIPS, C. A. et al. Ashwagandha-induced liver injury: a case series from India  and literature review. Hepatology Communications, v. 7, n. 10, e0371, 2023.

22. RÍOS, D. et al. Albendazole-induced liver injury: a case report. Annals of Hepatology,  v. 12, n. 3, p. 448–451, 2013.