GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA: IMPLICAÇÕES FÍSICAS, PSICOLÓGICAS E SOCIAIS NA SAÚDE E NO DESENVOLVIMENTO DA JOVEM MÃE

ADOLESCENT PREGNANCY: PHYSICAL, PSYCHOLOGICAL, AND SOCIAL IMPLICATIONS FOR THE HEALTH AND DEVELOPMENT OF THE YOUNG MOTHER

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202510161458


Renata Gabriela Jorge Barbosa; Dayane Matias Lopes; Cilianne Édila Leandro de Sousa; Maria Zuli Morais Farias de Souza; Marli Otília dos Santos; Adriana Romão Moreira e Souza; Josiane Alves Garcia Custódio; Micherllaynne Alves Ferreira Lins


RESUMO 

A gravidez na adolescência constitui um fenômeno social e de saúde pública que afeta milhões de jovens em todo o mundo, representando um desafio multifatorial que envolve dimensões biológicas, psicológicas e sociais. Este estudo tem como objetivo analisar, por meio de uma revisão da literatura, as implicações físicas, psicológicas e sociais da gravidez na adolescência, identificando seus principais riscos e repercussões no processo de desenvolvimento da jovem mãe. A pesquisa foi conduzida com base em fontes científicas publicadas entre 2015 e 2024, localizadas em bases de dados como SciELO, LILACS e PubMed, utilizando descritores relacionados à “gravidez na adolescência”, “saúde mental”, “complicações gestacionais” e “impactos sociais”. Os resultados apontam que a gestação precoce está associada a maior incidência de complicações obstétricas, como pré-eclâmpsia, parto prematuro e baixo peso neonatal, além de vulnerabilidades psicológicas decorrentes da imaturidade emocional, da sobrecarga de responsabilidades e do estigma social. No âmbito social, a gravidez na adolescência frequentemente acarreta evasão escolar, dificuldades de inserção no mercado de trabalho e dependência econômica, fatores que perpetuam o ciclo de pobreza e exclusão. Conclui-se que a gravidez na adolescência exige uma abordagem intersetorial e integrada, com políticas públicas voltadas à educação sexual, planejamento reprodutivo e apoio psicossocial, além do fortalecimento da atenção básica à saúde como espaço estratégico para prevenção, acolhimento e acompanhamento das adolescentes grávidas. 

Palavras-chave: Gravidez na adolescência. Saúde da mulher. Impactos psicossociais. Desenvolvimento humano.

ABSTRACT 

Teenage pregnancy is a social and public health phenomenon that affects millions of young people worldwide, representing a multifactorial challenge involving biological, psychological, and social dimensions. This study aims to analyze, through a literature review, the physical, psychological, and social implications of teenage pregnancy, identifying its main risks and repercussions on the development of young mothers. The research was conducted based on scientific sources published between 2015 and 2024, located in databases such as SciELO, LILACS, and PubMed, using descriptors related to “teenage pregnancy,” “mental health,” “gestational complications,” and “social impacts.” The results indicate that early pregnancy is associated with a higher incidence of obstetric complications, such as preeclampsia, premature birth, and low birth weight, in addition to psychological vulnerabilities resulting from emotional immaturity, overload of responsibilities, and social stigma. In the social sphere, teenage pregnancy often leads to school dropout, difficulties entering the job market, and economic dependence, factors that perpetuate the cycle of poverty and exclusion. It is concluded that teenage pregnancy requires an intersectoral and integrated approach, with public policies focused on sexual education, reproductive planning, and psychosocial support, in addition to strengthening primary health care as a strategic space for the prevention, support, and monitoring of pregnant adolescents. 

Keywords: Teenage pregnancy. Women’s health. Psychosocial impacts. Human development. 

INTRODUÇÃO 

A adolescência é uma fase de transição entre a infância e a vida adulta, marcada por intensas transformações biológicas, psicológicas e sociais. Nesse período, ocorrem mudanças significativas na identidade, nas relações interpessoais e na sexualidade, sendo comum o surgimento de novos comportamentos e descobertas sobre o próprio corpo e sobre o mundo (MANIKA; SCHNAIDER; DA SILVA, 2024). Essas transformações tornam os adolescentes mais suscetíveis a situações de vulnerabilidade, entre elas, a gravidez precoce.  

A gravidez na adolescência constitui um fenômeno complexo, multifatorial e multidimensional, que transcende os limites do campo biomédico e abrange dimensões sociais, econômicas, culturais e éticas. Trata-se de uma condição que reflete desigualdades estruturais e revela fragilidades nas políticas públicas voltadas à juventude, à educação sexual e ao planejamento reprodutivo (ASSIS et al., 2022).      

De acordo com o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), o Brasil ainda apresenta índices elevados de gravidez na adolescência, sendo que, em 2020, cerca de 380 mil partos foram realizados em mães com até 19 anos, o que correspondeu a aproximadamente 14% de todos os nascimentos no país (UNFPA, 2020). Ainda segundo o mesmo órgão, a taxa de fecundidade na adolescência no Brasil é de 43,6 nascimentos para cada mil adolescentes entre 15 e 19 anos, configurando uma das mais altas da América Latina. Dados do Instituto de Cooperação Econômica e Humanitária (ICEH) reforçam esse cenário, apontando que uma em cada 23 adolescentes brasileiras torna-se mãe a cada ano, revelando a persistência desse fenômeno como um importante problema de saúde pública (ICEH, 2023).  

Um estudo realizado por Oliveira et al. (2022) no Nordeste brasileiro analisou o perfil socioeconômico e reprodutivo de adolescentes grávidas atendidas na rede pública de saúde, buscando compreender os fatores associados à ocorrência da gestação precoce. Os autores observaram que 67% das participantes apresentavam baixa escolaridade, 58% não exerciam atividade remunerada e 74% relataram ausência de planejamento reprodutivo, evidenciando um contexto de vulnerabilidade social e econômica que contribui para a perpetuação do ciclo de desigualdades. Além disso, o estudo destacou a importância de políticas intersetoriais de prevenção e promoção da saúde, com ênfase na educação sexual e no fortalecimento da atenção básica como estratégias essenciais para reduzir a incidência de gestações precoces. 

Rosaneli et al. (2020) defendem a necessidade de abordagens intersetoriais e integradas, com foco na promoção da equidade de gênero, na garantia dos direitos sexuais e reprodutivos e na implementação de políticas públicas que assegurem o acolhimento e o acompanhamento das adolescentes grávidas, contribuindo para a redução das vulnerabilidades sociais e para a melhoria da qualidade de vida das jovens mães e de seus filhos. No mesmo sentido, Da Costa e De Freitas (2021) analisaram a relação entre gravidez precoce e feminização da pobreza, destacando que as adolescentes grávidas no Brasil, em sua maioria, são jovens negras, de baixa renda e com acesso limitado à educação e ao mercado de trabalho, o que contribui para a perpetuação do ciclo de desigualdade e exclusão social.     

As consequências da gravidez na adolescência são amplas e impactam tanto a saúde física quanto o bem-estar psicológico da jovem mãe e de seu filho. De Medeiros Roberto et al. (2024), em revisão da literatura, destacam complicações obstétricas frequentes, como pré-eclâmpsia, parto prematuro e baixo peso neonatal, além de problemas emocionais como depressão, estigmatização e evasão escolar. Essas condições interferem no desenvolvimento biopsicossocial das adolescentes, exigindo acompanhamento integral e contínuo por parte dos serviços de saúde.          

Além dos riscos físicos, a dimensão psicológica também merece atenção. Bichuetti (2024) observa que a gestação, especialmente quando não planejada, pode gerar sentimentos de ansiedade, medo, culpa e insegurança, levando ao isolamento e à negação da gravidez. Tais fatores, somados à imaturidade emocional característica da adolescência, aumentam o risco de transtornos mentais e dificultam a adesão ao pré-natal e aos cuidados com o bebê. 

A vulnerabilidade das adolescentes é intensificada pela ausência de estratégias educativas eficazes e pela falta de diálogo familiar sobre sexualidade. Segundo Da Costa e De Freitas (2021), o tabu cultural que envolve o tema ainda impede o desenvolvimento pleno da educação sexual, o que compromete o acesso das jovens a informações seguras sobre contracepção e reprodução. Nesse contexto, a família e a escola desempenham papéis fundamentais como espaços de orientação e prevenção.     

Na literatura, observa-se um conjunto expressivo de estudos teóricos e empíricos que abordam os aspectos fisiológicos, psicológicos, sociais e culturais da gravidez na adolescência (SILVA, 2021). Entretanto, ainda é necessário aprofundar a compreensão das consequências desse fenômeno e de seus impactos na trajetória de vida das jovens mães, especialmente em contextos de vulnerabilidade socioeconômica. Diante desse panorama, a presente pesquisa parte do seguinte problema de investigação: De que maneira os riscos físicos e psicológicos da gravidez na adolescência impactam a trajetória de vida das jovens mães e de seus filhos, considerando as interações entre saúde, contexto socioeconômico e suporte familiar?  Com base nessa problemática, o estudo tem como objetivo analisar, por meio de uma revisão da literatura, os riscos físicos e psicológicos associados à gravidez na adolescência, buscando compreender suas repercussões na saúde e no desenvolvimento da jovem mãe e de seu bebê.           

Este estudo justifica-se pela relevância social e científica do tema, visto que a gravidez na adolescência constitui um problema de saúde pública que demanda abordagens integradas entre os setores da saúde, educação e assistência social. A análise dos fatores de risco e das consequências físicas e emocionais da gestação precoce pode contribuir para a formulação de estratégias de prevenção, acolhimento e acompanhamento, além de incentivar novas produções científicas sobre o tema. 

METODOLOGIA 

O presente estudo caracteriza-se como uma revisão de literatura, de natureza qualitativa e exploratória, com abordagem descritivo-analítica, tendo como propósito analisar e sintetizar evidências científicas acerca das implicações físicas, psicológicas e sociais da gravidez na adolescência, a fim de compreender os impactos desse fenômeno na saúde e no desenvolvimento da jovem mãe e de seu bebê.      

 Segundo Gil (2019), a pesquisa exploratória busca proporcionar maior familiaridade com o tema e aprofundar a compreensão de fenômenos pouco investigados, enquanto a abordagem qualitativa permite interpretar dados de natureza subjetiva, contextualizando-os social e culturalmente. Já o caráter descritivo-analítico possibilita organizar, comparar e discutir as informações obtidas em diferentes fontes, buscando padrões, convergências e divergências teóricas.           

O levantamento bibliográfico foi realizado entre fevereiro e julho de 2025, com base em publicações científicas disponíveis nas seguintes bases de dados: SciELO (Scientific Electronic Library Online); LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde); PubMed (National Library of Medicine); Google Acadêmico, utilizado como ferramenta complementar para ampliação do escopo de busca.     

Foram utilizados como descritores e palavras-chave os seguintes termos, isolados e combinados por operadores booleanos (“AND” e “OR”): gravidez na adolescência, adolescent pregnancy, saúde da mulher, women’s health, impactos psicossociais, psychosocial impacts, depressão pós-parto, postpartum depression, complicações obstétricas e obstetric complications

A busca abrangeu artigos, dissertações, teses, relatórios técnicos e documentos institucionais publicados entre 2015 e 2024, em português e inglês, de forma a garantir a atualidade e relevância das informações analisadas. Foram incluídos 17 estudos que abordassem direta ou indiretamente o tema da gravidez na adolescência; discutissem aspectos físicos, psicológicos e sociais relacionados à gestação precoce; apresentassem metodologia científica claramente definida; estivessem disponíveis na íntegra, de forma gratuita, nas bases pesquisadas. Foram excluídos: textos duplicados; artigos sem revisão por pares; publicações de caráter opinativo, jornalístico ou sem embasamento científico; trabalhos anteriores a 2015, a menos que considerados clássicos teóricos necessários à contextualização.  

Após a busca inicial, os títulos e resumos das publicações foram lidos para identificação de relevância temática. Os estudos selecionados foram submetidos a uma leitura exploratória e analítica, com o objetivo de identificar as principais categorias de análise, conforme a técnica de análise de conteúdo proposta por Bardin (2016).      

A leitura analítica permitiu agrupar os resultados em três eixos temáticos principais: aspectos fisiológicos e obstétricos da gravidez na adolescência; repercussões psicológicas e emocionais decorrentes da gestação precoce; implicações sociais e educacionais associadas à vulnerabilidade das jovens mães. Durante a análise, buscou-se identificar padrões de ocorrência, semelhanças conceituais e contrastes teóricos, permitindo uma visão abrangente das diferentes perspectivas existentes na literatura. 

RESULTADOS E DISCUSSÕES 

Quadro 1 – Síntese dos principais estudos sobre gravidez na adolescência (2015–2024)

Autor/Ano Título do Estudo Objetivo da Pesquisa Tipo de Estudo/Metodologia Principais Resultados e Conclusões 
Rosaneli et al. (2020) Perfil de adolescentes gestantes no Paraná: uma análise bioética Analisar o perfil sociodemográfico de adolescentes grávidas no Paraná e discutir aspectos éticos e sociais envolvidos. Estudo quantitativo com dados do Cadê Paraná (2016). Identificou 19.528 mães adolescentes (15–17 anos). A gravidez precoce foi considerada situação de vulnerabilidade social, associada à desigualdade de gênero e à necessidade de políticas intersetoriais. 
Da Costa e De Freitas (2021) Gravidez precoce e feminização da pobreza no Brasil: uma análise interseccional Investigar a relação entre gravidez na adolescência, gênero, classe e raça no contexto brasileiro. Revisão bibliográfica e documental. Constatou que a maioria das adolescentes grávidas são jovens negras, de baixa renda e com pouca escolaridade, o que perpetua o ciclo da pobreza. Destaca a necessidade de políticas públicas inclusivas. 
Silva (2021) Fatores biopsicossociais da gravidez na adolescência: uma revisão teórica Analisar fatores fisiológicos, psicológicos e sociais que influenciam a gravidez precoce. Revisão teórica. Destaca que a gestação na adolescência resulta da interação entre vulnerabilidades sociais, ausência de educação sexual e negligência de políticas públicas preventivas. 
Braga et al., 2021 Gravidez na adolescência como fator de risco para pré-eclâmpsia: revisão sistemática da literatura Investigar se a gravidez na adolescência constitui fator de risco para o desenvolvimento da pré-eclâmpsia, relacionando idade materna e primiparidade. Revisão sistemática da literatura com análise de artigos publicados entre 2010 e 2020. Identificou correlação entre gestação precoce e maior incidência de pré-eclâmpsia. Destaca a importância do pré-natal precoce para redução da mortalidade materna. 
Silva, 2021 Fatores de risco da gravidez na adolescência no Brasil Analisar riscos associados à gravidez precoce, considerando vulnerabilidade social e falta de acesso à assistência pré-natal. Estudo descritivo de revisão bibliográfica. Mostra que adolescentes em situação de pobreza têm maior incidência de complicações gestacionais, como anemia e parto prematuro. Reforça a importância de ações educativas sobre sexualidade e contracepção. 
Danicki et al., 2021 Aspectos envolvidos na gravidez na adolescência: uma revisão integrativa Analisar impactos físicos e psicológicos da gravidez na adolescência e a importância de políticas públicas de apoio. Revisão integrativa da literatura. Conclui que a gestação precoce compromete a saúde física e emocional da adolescente, levando à exclusão social e evasão escolar. Defende assistência multiprofissional como medida preventiva. 
Melo, Soares e Silva, 2022 Fatores que influenciam a adesão de gestantes adolescentes às práticas recomendadas na assistência pré-natal Avaliar a influência de variáveis sociodemográficas e clínicas na adesão ao pré-natal. Estudo quantitativo transversal realizado em unidades de saúde públicas. Verificou que 80% das gestações não foram planejadas. Baixa escolaridade e dependência financeira reduziram a adesão ao pré-natal. Educação e apoio familiar melhoram o acompanhamento. 
Oliveira et al. (2022) Gravidez na adolescência: perfil socioeconômico e reprodutivo de adolescentes atendidas na rede pública de saúde do Nordeste brasileiro Analisar o perfil socioeconômico e reprodutivo de adolescentes grávidas em serviços públicos de saúde. Estudo transversal quantitativo. Verificou que 67% apresentavam baixa escolaridade, 58% estavam desempregadas e 74% não planejaram a gestação. Destaca a urgência de políticas de educação sexual e planejamento familiar. 
Machado et al., 2023 Gravidez na adolescência: o impacto do planejamento familiar na realidade socioeconômica Investigar os impactos socioeconômicos da gestação precoce e estratégias de prevenção adotadas pelas equipes de saúde. Estudo de campo com abordagem qualitativa e entrevistas semiestruturadas. A gestação não planejada causa impactos negativos à adolescente e à família. Associa-se à vulnerabilidade social, evasão escolar e pobreza. Propõe ações de planejamento familiar e educação sexual. 
Cardoso et al., 2023 O enfermeiro e seu papel junto à saúde do adolescente Compreender vulnerabilidades da adolescência e destacar o papel do enfermeiro na prevenção de agravos à saúde. Estudo qualitativo com abordagem descritiva e análise de conteúdo. A adolescência é marcada por exposição a riscos (drogas, DSTs, gravidez). O enfermeiro exerce papel essencial na educação sexual e na articulação entre escola, comunidade e saúde. 
Bichuetti (2024) Aspectos psicológicos da gestação não planejada em adolescentes Compreender os impactos emocionais e psicológicos da gravidez não planejada em adolescentes. Estudo qualitativo com entrevistas semiestruturadas. Relatou sentimentos de ansiedade, medo, culpa e isolamento. Reforça a importância do suporte psicológico e social durante a gestação e o pós-parto. 
Batista et al. (2024) Transformações biopsicossociais na adolescência: um olhar sobre vulnerabilidades Discutir as transformações da adolescência e as condições que predispõem à gravidez precoce. Revisão narrativa. Evidencia que a falta de diálogo familiar e de acesso à informação são fatores determinantes. Defende a inserção da educação sexual nas escolas como estratégia preventiva. 
De Medeiros Roberto et al. (2024) Gravidez na adolescência e complicações obstétricas: revisão integrativa Identificar complicações físicas e obstétricas em adolescentes grávidas. Revisão integrativa da literatura (2017–2023). Evidenciou maior incidência de pré-eclâmpsia, parto prematuro e baixo peso neonatal. Conclui que a falta de acompanhamento pré-natal adequado agrava os riscos à saúde materno-infantil. 
Souza et al., 2024 Assistência de enfermagem em casos de gravidez na adolescência e seus riscos existentes Analisar riscos e complicações da gravidez na adolescência, destacando o papel da enfermagem na prevenção e acompanhamento. Revisão integrativa de literatura com abordagem qualitativa. Aponta complicações obstétricas (pré-eclâmpsia, infecções) e fatores sociais (vulnerabilidade, baixa renda, uso de drogas). Reforça o papel do enfermeiro na promoção da saúde e no suporte emocional. 
Batista et al., 2024 Impactos físicos e emocionais da gestante adolescente: uma revisão de literaturaInvestigar consequências físicas e psicológicas da gravidez precoce e estratégias de redução de danos. Revisão narrativa da literatura nacional e internacional. Relata complicações físicas (anemia, infecções, parto prematuro) e emocionais (baixa autoestima, estigmatização). Ressalta o apoio psicossocial e escolar como fundamentais à reabilitação. 
Mantovani et al., 2024 Depressão pós-parto na adolescência: os desafios psicológicos da maternidade precoce Analisar a ocorrência de depressão pós-parto em adolescentes e o papel da enfermagem no manejo e acolhimento. Estudo qualitativo com base em entrevistas e revisão narrativa. Mostra que a DPP é frequente em adolescentes devido à imaturidade emocional e falta de suporte. Sintomas incluem tristeza intensa, culpa e isolamento. Necessita de acompanhamento psicológico multiprofissional. 
Costa, Lucena e Mendonça, 2025 Educação sexual digital e gravidez na adolescência: o impacto de plataformas online no comportamento sexual de jovens Investigar como conteúdos digitais e redes sociais influenciam comportamentos sexuais e percepções sobre contracepção Pesquisa exploratória de abordagem mista (qualitativa e quantitativa). Identifica que a falta de mediação digital e o acesso a conteúdos erotizados elevam a vulnerabilidade das adolescentes. Sugere políticas de educação sexual digital mediada e crítica. 

Fonte: Elaboração própria (2025), com base nos autores citados.

A partir da análise dos estudos apresentados no Quadro 1, observa-se que a gravidez na adolescência é um fenômeno multidimensional, determinado por condições socioeconômicas, vulnerabilidades emocionais e lacunas nas políticas públicas. Os autores convergem ao apontar que a baixa escolaridade, a falta de planejamento reprodutivo e o déficit de acesso à informação constituem fatores determinantes.        

Os artigos de 2021 (Braga et al., 2021; Silva, 2021; Danicki et al., 2021) concentram-se principalmente nos fatores de risco e suas implicações clínicas e sociais. Braga et al. (2021) destacam a associação entre a gestação precoce e a pré-eclâmpsia, apontando riscos à saúde materna e fetal e enfatizando a importância do pré-natal precoce. Silva (2021) amplia o olhar para as condições socioeconômicas e culturais que contribuem para a vulnerabilidade das adolescentes, relacionando a gravidez à desigualdade social e à falta de acesso a informações sobre saúde reprodutiva. Já Danicki et al. (2021) oferecem uma abordagem integrativa, tratando de forma abrangente os aspectos físicos, psicológicos e sociais da gestação na adolescência, ressaltando a relevância das políticas públicas de proteção e acolhimento.   

Nos anos de 2022 e 2023, a produção científica desloca o foco para a assistência e o impacto social da gravidez precoce. O estudo de Melo, Soares e Silva (2022) analisa os fatores que interferem na adesão das gestantes adolescentes às práticas de pré-natal, evidenciando a influência da escolaridade, renda e apoio familiar, além de reforçar a necessidade de políticas públicas efetivas de atenção à saúde materno-infantil. Em 2023, Cardoso et al. abordam o papel do enfermeiro na promoção da saúde do adolescente, destacando sua atuação educativa e preventiva, essencial na redução de riscos e na orientação sexual. No mesmo período, Machado et al. (2023) exploram o impacto socioeconômico da gravidez não planejada, demonstrando como o evento pode comprometer o equilíbrio familiar, perpetuar ciclos de pobreza e afetar o desenvolvimento social da jovem mãe.       

Os estudos mais recentes (2024–2025) ampliam a discussão ao contemplar os aspectos emocionais, psicológicos e contemporâneos da temática. Pesquisas de Souza et al. (2024), Batista et al. (2024) e Mantovani et al. (2024) enfatizam as complicações físicas, emocionais e psicossociais associadas à gestação precoce, abordando desde os desafios da assistência de enfermagem até os casos de depressão pós-parto em adolescentes, que refletem a fragilidade emocional e a carência de suporte institucional. Por fim, Costa, Lucena e Mendonça (2025) trazem uma contribuição inovadora ao discutir a influência das plataformas digitais e das redes sociais sobre o comportamento sexual de jovens, ressaltando o papel da educação sexual digital como estratégia contemporânea para prevenção de gestações indesejadas.   

Dessa forma, o conjunto de estudos analisados revela uma evolução temática significativa, que parte da compreensão biomédica e social dos riscos para um enfoque mais abrangente e intersetorial, incluindo dimensões psicológicas, educativas e tecnológicas. Nos tópicos seguintes, serão discutidas em maior profundidade as principais perspectivas teóricas e práticas defendidas por esses autores, com destaque para os impactos físicos e psicológicos da gravidez na adolescência e suas repercussões na saúde e no desenvolvimento da jovem mãe.          

Do ponto de vista físico, De Medeiros Roberto et al. (2024) evidenciam a maior incidência de complicações obstétricas, enquanto Bichuetti (2024) enfatiza os efeitos psicológicos, como ansiedade e depressão. Sob o enfoque social, Da Costa e De Freitas (2021) e Oliveira et al. (2022) reforçam a relação direta entre gravidez precoce e pobreza estrutural, destacando a necessidade de políticas públicas de prevenção e acolhimento intersetorialDessa forma, a literatura revisada demonstra que a gravidez na adolescência não é apenas uma questão de saúde, mas também um problema social e educacional, que exige ações integradas de educação sexual, acompanhamento psicológico e fortalecimento da atenção básica

A análise dos estudos apresentados demonstra que a gravidez na adolescência é um fenômeno de origem multifatorial, fortemente influenciado por fatores sociais, econômicos, educacionais e psicológicos. De forma geral, os trabalhos de Braga et al. (2021) e De Medeiros Roberto et al. (2024) destacam os riscos físicos e obstétricos, enquanto Bichuetti (2024) e Mantovani et al. (2024) enfatizam os efeitos emocionais e psicológicos, como depressão e ansiedade.           

Para diminuir os riscos físicos e psicológicos durante a gravidez na adolescência, várias ações são recomendadas. O apoio emocional e social desempenha um papel fundamental nesse processo (BRAGA et al., 2021; SILVA, 2021; DANICKI et al., 2021). Mantovani et al. (2024) destacam que esse suporte permite que as adolescentes continuem seus estudos e tenham oportunidades futuras. Souza et al. (2024) reforça a importância de criar um ambiente seguro e acolhedor por meio do suporte familiar e comunitário, enquanto Batista et al. (2024) acrescenta que o apoio psicológico é essencial para enfrentar desafios emocionais como ansiedade, depressão e insegurança. Melo, Soares e Silva (2022) também enfatizam que o acompanhamento psicológico e o suporte familiar e social são essenciais para melhorar a qualidade de vida das adolescentes e seus filhos.            

Braga et al. (2021) destacam a importância do acompanhamento pré-natal como fator determinante para prevenir complicações na gestação. Este acompanhamento permite preservar tanto a vida da gestante quanto a do bebê, sendo o enfermeiro peça-chave no monitoramento de riscos e na condução de práticas como a anamnese completa, exames físicos e obstétricos, além de identificar precocemente patologias como a pré-eclâmpsia (PE). Já Silva (2021) ressalta os desafios de acesso ao pré-natal devido à vulnerabilidade social e à falta de informação. A Atenção Básica do SUS busca superar essas barreiras com estratégias integradas envolvendo escolas, famílias e comunidades, reforçando ações educativas e promovendo autonomia para adolescentes dialogarem sobre saúde reprodutiva sem medo ou tabu.       

Danicki et al. (2021) enfatizam os riscos à saúde da mãe e do bebê decorrentes da gravidez na adolescência e a necessidade de políticas públicas que garantam assistência adequada. O pré natal, nesse contexto, vai além do monitoramento clínico, oferecendo suporte educativo às gestantes e suas famílias, a fim de minimizar complicações e promover um acompanhamento especializado. Melo, Soares e Silva (2022) reforçam essa abordagem com recomendações práticas, como início precoce do pré-natal, uso do cartão da gestante, exames, vacinação, suplementação com sulfato ferroso e ácido fólico, controle de peso, alimentação saudável, exercícios físicos, repouso, e orientações sobre tabagismo, álcool e preservativos. Essas orientações visam promover o autocuidado e garantir uma gestação mais saudável para as adolescentes.   

Por outro lado, Cardoso et al. (2023) e Souza et al. (2024) apontam a relevância das escolas como espaços ideais para a promoção da saúde sexual e reprodutiva. Cardoso et al. (2023) destacam a necessidade de ações educativas dinâmicas que abordam mudanças da puberdade, enquanto Souza et al. (2024) propõem programas de educação sexual voltados para crianças e jovens, tanto em escolas quanto em comunidades de saúde. Ambos os estudos ressaltam a importância de abordar barreiras culturais e religiosas para assegurar que todos os adolescentes tenham acesso à informação.           

No campo social, autores como Da Costa e De Freitas (2021) e Machado et al. (2023) relacionam a gestação precoce à feminização da pobreza, mostrando que a maioria das adolescentes grávidas pertence a famílias de baixa renda e apresenta histórico de evasão escolar. Em contrapartida, estudos como o de Cardoso et al. (2023) e Souza et al. (2024) reforçam o papel essencial da enfermagem e da atenção básica na prevenção e acompanhamento dessas jovens, destacando a importância da educação sexual, acolhimento e suporte multiprofissionalPor fim, Costa, Lucena e Mendonça (2025) introduzem uma dimensão contemporânea ao tema ao discutir a influência do ambiente digital e das redes sociais na formação da sexualidade juvenil, apontando a necessidade de uma educação sexual crítica, inclusiva e adaptada à era digital.         

Assim, os estudos convergem ao indicar que o enfrentamento da gravidez na adolescência requer abordagens intersetoriais e contínuas, integrando saúde, educação, assistência social e políticas públicas, com foco na autonomia reprodutiva, no empoderamento feminino e na redução das desigualdades sociais. 

CONCLUSÃO 

A presente revisão de literatura permitiu compreender que a gravidez na adolescência representa um fenômeno complexo e multifatorial, que ultrapassa o campo biológico e envolve determinantes sociais, econômicos, educacionais e psicológicos. As evidências analisadas demonstram que a gestação precoce acarreta impactos significativos na saúde materna e neonatal, destacando-se a maior incidência de pré-eclâmpsia, parto prematuro, anemia e baixo peso ao nascer, condições que aumentam os riscos para a mãe e para o bebê.  

Do ponto de vista emocional, observou-se que as adolescentes gestantes apresentam maior vulnerabilidade psicológica, com prevalência de ansiedade, depressão e dificuldades no estabelecimento do vínculo afetivo com o recém-nascido. Esses fatores, somados à exclusão social e educacional, podem comprometer o desenvolvimento pessoal e profissional das jovens, perpetuando ciclos de vulnerabilidade e desigualdade.  

Os estudos analisados reforçam que o suporte social, familiar e institucional exerce papel decisivo na melhoria da qualidade de vida das adolescentes gestantes, especialmente por meio do acompanhamento pré-natal adequado e da atuação multiprofissional, envolvendo enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais e educadores. Paralelamente, destaca-se a importância da educação sexual integral, do acesso a métodos contraceptivos e da difusão de informações seguras sobre saúde reprodutiva, como estratégias centrais para a prevenção da gravidez precoce.          

Dessa forma, este estudo reafirma a necessidade de políticas públicas intersetoriais e inclusivas, que promovam autonomia reprodutiva, equidade de gênero e oportunidades educacionais e profissionais às adolescentes. Investir em ações de conscientização, apoio psicossocial e planejamento familiar é essencial para reduzir a ocorrência de gestações indesejadas e mitigar seus efeitos físicos, emocionais e sociais.   

 Conclui-se, portanto, que a efetividade das intervenções voltadas à gravidez na adolescência depende da integração entre saúde, educação e assistência social, garantindo não apenas o cuidado clínico, mas também a construção de um futuro mais digno, saudável e promissor para as jovens mães e seus filhos

REFERÊNCIAS 

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