RISK FACTORS FOR LOW BONE MASS IN WOMEN ASSISTED BY THE PROGRAM FAMILY DOCTOR IN THE MUNICIPALITY OF NITERÓI
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202511300019
Isabele Crespo Gosling
RESUMO
O avançar da idade pode trazer consigo inúmeras doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), dentre elas está a Osteoporose (OP) que quer dizer “osso poroso”, uma patologia osteometabólica, ou seja, que acomete o tecido ósseo fazendo com que o mesmo fique desmineralizado e suscetível a fraturas, tornando o indivíduo dependente de assistência. O presente estudo tem como objetivo avaliar fatores de risco associados à baixa massa óssea nos períodos pré e pós-menopausa em mulheres assistidas pelo Programa Médico de Família no município de Niterói -RJ. Trata-se de um estudo transversal quantitativo de dados obtidos através do Projeto Digitalis realizado em parceria pelo Instituto de Saúde Coletiva e Faculdade de Nutrição da Universidade Federal Fluminense(UFF). Foram analisados dados de um total de 339 mulheres ,sendo 279 na menopausa e 60 fora da menopausa, sendo observada maior prevalência de baixa massa óssea em mulheres na menopausa.
Palavras-chave: baixa massa óssea, mulheres.
ABSTRACT
Advancing age can bring with it numerous chronic non-communicable diseases (NCDs), among them Osteoporosis (OP), which means “porous bone,” an osteometabolic pathology that affects bone tissue, causing it to become demineralized and susceptible to fractures, making the individual dependent on assistance. This study aims to evaluate risk factors associated with low bone mass in the pre- and post-menopausal periods in women assisted by the Family Medicine Program in the municipality of Niterói, Rio de Janeiro. This is a quantitative cross-sectional study of data obtained through the Digitalis Project, carried out in partnership by the Institute of Collective Health and the Faculty of Nutrition of the Federal Fluminense University (UFF). Data from a total of 339 women were analyzed, 279 in menopause and 60 outside menopause, with a higher prevalence of low bone mass observed in menopausal women.
Keywords: low bone mass, women
Introdução
O envelhecimento é um fenômeno irreversível que pode ser saudável ou estar aliado a diversas patologias causadas por mudanças morfofisiológicas e psicológicas que resultam em desafios para os serviços de saúde. Por isso, é de suma importância o investimento contínuo em ações de prevenção ao longo da vida dos indivíduos, que sejam capazes de garantir uma rotina saudável no decorrer dos anos (Miranda, et al 2016) O avançar da idade pode trazer consigo eventos patológicos, dentre eles estão as Doenças Crônicas Não Transmissíveis. As mesmas podem se desenvolver ao longo da vida dos indivíduos de forma lenta, gradual e por conta de múltiplos fatores como hereditariedade, estilo de vida inadequado e exposição a fatores ambientais e fisiológicos (Silvaet al.,2016).
As Doenças Crônicas Não Transmissíveis(DCNT) continuam sendo a primeira causa de mortalidade no mundo, sobretudo em populações com baixa renda. No cenário brasileiro as DCNT representam cerca de 74% dos óbitos de 2012.Devido às altas taxas de mortalidade e morbidade dessas patologias, foi lançado um plano estratégico com ações que priorizam o enfrentamento das mesmas de maneira eficaz, válido de 2011 a 2022 (Malta et al.,2016).
Dentre as doenças crônicas existentes está a osteoporose(OP), um transtorno osteometabólico que se evidencia por perda da massa óssea e resulta na alteração da arquitetura óssea, essa patologia pode trazer consequências como quedas e fraturas. Quando não tratada, pode tornar o indivíduo incapaz até mesmo de realizar suas atividades básicas de vida diária (Borges,2015).
Segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabolismo, a quantidade de pessoas que sofrem com a osteoporose é bastante significativa, aproximadamente 10 milhões de Brasileiros sofrem com a doença,1 a cada 4 mulheres com mais de 50 anos de idade desenvolvem a doença. Ocorrem 2,4 milhões de fraturas e ao mesmo tempo 200 mil indivíduos falecem em decorrência das fraturas (Santiago,Vieira,Nunes,2018).
Alguns fatores são considerados de risco para o desenvolvimento da doença, sendo: a idade; etnia branca ou asiática; baixo índice de massa corporal; história familiar; inadequações dietéticas (alto consumo de cafeína, baixa ingestão de cálcio, baixa ingestão de vitamina D); exposição solar insuficiente; estilo de vida inadequado (sedentarismo, abuso de álcool, tabagismo); história prévia de fraturas; uso de alguns medicamentos, como glicocorticóides e anticonvulsivantes, e; presença de algumas doenças inflamatórias e crônicas (Fernandes et al.,2015).
Além dos inúmeros fatores que fazem homens e mulheres desenvolverem osteoporose, o sexo feminino possui alguns agravantes a mais como deficiência estrogênica por conta do climatério e redução da função ovariana antes da menopausa. Em mulheres a partir dos 40 anos esse declínio se intensifica ainda mais, perdendo-se aproximadamente 1,5% de massa óssea ao ano. Ao iniciar a fase da menopausa, a redução de estrogênio faz com que a atividade osteoclástica diminua, resultando na reabsorção óssea e a consequência desse evento é a osteoporose, nessa fase poderá ocorrer uma perda de 3% a 4 %. (Fernandes et al.,2015).
A osteoporose é uma doença de evolução silenciosa que muitas vezes só vem a ser percebida após algum evento traumático como quedas de altura própria ou durante a realização de atividades de vida diária, tornando-a uma patologia de difícil diagnóstico. Ao ocorrer uma fratura osteoporótica alguns indivíduos podem até se recuperar completamente, no entanto, na maioria das vezes a recuperação é incompleta podendo acarretar sequelas como dor crônica e deformidades (Saavedra et al.,2016)
Muitos pacientes com risco de baixa massa óssea não têm sintomas visíveis até que uma fratura ocorra. A atenção básica pode identificar esses pacientes através de consultas regulares, monitorando fatores como histórico de quedas, histórico familiar, e características de risco, além de promover educação em saúde. Na fase adulta, em mulheres, a perda de massa óssea representa um processo que pode contribuir para uma maior fragilidade em uma fase mais tardia da vida. sendo mais acentuada nos primeiros anos pós-menopausa (Genant et al. 2007).
Este estudo tem por objetivo avaliar o estilo de vida de mulheres assistidas pelo Programa Médico de Família, caracterizando dados antropométricos, parâmetros ósseos e fatores socioeconômicos, com a finalidade de investigar baixa densidade mineral ósseas antes e após o início da menopausa
Métodos
Trata-se de estudo de corte transversal, descritivo e de abordagem quantitativa, parte de um estudo maior intitulado “Estudo da prevalência de doenças crônicas na população assistida pelo programa médico de família de Niterói-RJ. (Digitalis)”. conduzido pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva em parceria com o Laboratório de Avaliação Nutricional e Funcional da Universidade Federal Fluminense (Lanuff).
Os participantes do estudo foram selecionados considerando os critérios de inclusão e exclusão do mesmo, e com base no registro de pacientes mantido pelo Programa Médico de Família (PMF) da cidade de Niterói. Os sujeitos foram selecionados aleatoriamente através de programa computacional, gerando uma amostra de 26 unidades do PMF. A coleta de dados ocorreu entre agosto de 2011 e julho de 2012. Do total, 780 indivíduos responderam e agendaram a vinda às unidades do PMF para participar na pesquisa. Ao final, 664 indivíduos compareceram, o que significa uma perda de aproximadamente 15% em relação à amostra inicial. Na visita às unidades de saúde, foi realizada a coleta de dados antropométricos e a aplicação de um questionário socioeconômico e de dados gerais. Neste encontro, todos foram convidados e, posteriormente, agendados por contato telefónico, para a realização de exames complementares que incluíram a avaliação da densidade mineral óssea no Lanuff. Os critérios de inclusão foram ter idade igual ou maior a 45 anos, estar cadastrado no PMF de Niterói e ter assinado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Os critérios de exclusão foram gravidez e condições clínicas que o impedissem de comparecer ao Lanuff para realização dos exames. Para avaliação dos dados socioeconômicos , demográficos e antropométricos de cada indivíduo, foi realizado um questionário elaborado para o estudo Digitalis sobre condições sociais, além de verificação do uso de medicamentos, presença de comorbidades, comportamentos e hábitos de vida.
A DMO (expressa em g/cm² e valores de T-score) do corpo inteiro, da coluna lombar e do colo do fêmur, foi avaliada pela DXA utilizando o equipamento iDXA (GE, HealthCare). Todos os escaneamentos foram realizados pelo mesmo profissional e o equipamento foi calibrado diariamente de acordo com o protocolo estabelecido pelo fabricante. Para realização deste exame foi recomendado ao indivíduo vestir roupas leves sem adereços metálicos como botões e zíper. O escaneamento dos sítios ósseos específicos foi realizado de acordo com o manual do equipamento. A duração do exame para escaneamento do corpo inteiro e das regiões interesse foi em média de 20 minutos.
A Sociedade Internacional de Densitometria Clínica (International Society of Clinical Densitometry, ISCD) recomenda o uso de T-score para avaliação da massa óssea em mulheres na menopausa e homens acima de 50 anos e considera para diagnóstico de osteoporose valores de T-score ≤ -2,5 desvios-padrão e de osteopenia, valores de T-score < -1,0 desvio-padrão em pelo menos um sítio ósseo. Para as mulheres pré-menopáusicas e homens com menos de 50 anos devem ser usados os valores de Zscore. Nestes casos, um Z-score de -2,0 DP ou inferior é definido como “abaixo da faixa esperada para a idade” e um Z-score acima de -2,0 deve ser classificado como “dentro dos limites esperados para a idade” em pelo menos um dos sítios ósseos avaliados (PETAK et al., 2013).
Análises estatísticas
As análises estatísticas foram conduzidas nos softwares R (versão 4.3.3) e Jamovi (versão 2.6.44), com nível de significância adotado de 5%. Inicialmente, realizou-se a análise descritiva das variáveis contínuas e categóricas, tanto na amostra total quanto nos subgrupos definidos por sexo, menopausa entre as mulheres e faixa etária entre os homens. Foram exploradas as características demográficas, antropométricas e os valores de densidade mineral óssea (DMO), apresentados sob a forma de média, desvio padrão e frequências absolutas e relativas.
Para a comparação entre os grupos, foram utilizados o teste t de Student ou o teste U de Mann-Whitney para variáveis contínuas, de acordo com a normalidade observada, e o teste qui-quadrado de Pearson ou o teste exato de Fisher para variáveis categóricas. Na sequência, foram avaliadas as correlações entre as variáveis quantitativas de interesse e os valores contínuos de DMO da coluna lombar e do colo do fêmur, utilizando o coeficiente de correlação de Spearman. A correlação de Spearman é mais adequada quando os dados não seguem distribuição normal, apresentam outliers ou quando as relações entre as variáveis são monotônicas, mas não necessariamente lineares.
Com base nas correlações estatisticamente significativas identificadas no subgrupo de mulheres na pós-menopausa, foram ajustados modelos de regressão linear múltipla com os valores contínuos de densidade mineral óssea como variáveis dependentes. As variáveis independentes foram selecionadas a partir da análise de correlação, sendo testadas quanto à presença de colinearidade por meio do fator de inflação da variância (VIF). Variáveis colineares foram excluídas com base em critérios de significância estatística, relevância clínica e parcimônia interpretativa. Os pressupostos dos modelos, como normalidade dos resíduos, homocedasticidade e linearidade, foram verificados graficamente e por testes estatísticos apropriados, e os modelos foram considerados ajustados quando todos os critérios foram atendidos.
Em seguida, foram construídos modelos de regressão logística binária com o objetivo de identificar os fatores associados à presença de baixa massa óssea. O desfecho foi definido como a presença de osteopenia ou osteoporose em pelo menos um dos dois sítios avaliados (coluna lombar ou colo do fêmur), com base na categorização dos Tscores. A variável resultante foi dicotomizada como ausência ou presença de baixa massa óssea em qualquer sítio. As análises por regressão logística foram conduzidas separadamente para mulheres na menopausa.
O modelo bruto avaliou a associação entre cada variável independente (IMC, estado civil, tabagismo etc.) e o desfecho de forma isolada, sem considerar o efeito das demais variáveis. Esse primeiro passo serviu para identificar potenciais preditores que poderiam estar relacionados ao desfecho.
Já o modelo ajustado incluiu simultaneamente as variáveis selecionadas, permitindo avaliar o efeito de cada uma sobre o desfecho, controlando a influência das outras. Isso significa que o modelo ajustado forneceu estimativas mais robustas e próximas da relação real entre as variáveis e o desfecho.
As variáveis independentes candidatas foram previamente recategorizadas a fim de assegurar robustez estatística e interpretação epidemiológica consistente, considerando a distribuição amostral e aspectos conceituais relevantes. Foram selecionadas para o modelo ajustado aquelas variáveis que apresentaram associação com o desfecho com valor de p inferior a 0,25 na análise bivariada. A qualidade dos modelos logísticos foi avaliada pelo teste de Hosmer-Lemeshow e pelos coeficientes de pseudo R² (McFadden, Cox & Snell e Nagelkerke), e os efeitos das variáveis foram expressos como odds ratio (OR) com intervalos de confiança de 95%.
Adicionalmente, com o objetivo de ampliar a sensibilidade da análise e refletir com maior precisão o risco clínico de comprometimento ósseo, foi criada uma variável composta denominada baixa massa óssea em qualquer sítio, considerando como evento a presença de osteopenia ou osteoporose em pelo menos um dos dois locais avaliados por densitometria: coluna lombar (L1–L4) ou colo do fêmur. Essa decisão metodológica foi baseada na relevância clínica dos dois sítios para avaliação da fragilidade óssea e risco de fraturas, bem como na possibilidade de aumentar o poder estatístico dos modelos, ao considerar um desfecho mais abrangente e sensível.
RESULTADOS
Tabela 1. Comparação da idade e das características antropométricas entre mulheres em função do estado da menopausa.

Tabela 2. Comparação da adequação da densidade mineral óssea entre mulheres em função do estado da menopausa.

Em relação a mulheres na menopausa há a prevalência de massa óssea adequada apresenta uma prevalência de 41,7% na coluna lombar e 43,4% no colo do fêmur. Já para osteopenia a prevalência é de 40,2 % na coluna lombar e 47,8% no colo do fêmur. Para osteoporose a prevalência apresentou um percentual de 9,7% no colo do fêmur e 16,8% na coluna lombar.A prevalência total para osteopenia neste grupo é de 44/0%,enquanto que para osteoporose foi de 13,3%.,já para massa óssea adequada é de 42,55¨%.Nas mulheres antes da menopausa a baixa massa óssea esperada para a idade acometeu 5,5% das mulheres, na coluna lombar e nenhuma mulher, considerando o colo do fêmur.
Considerando as correlações de Spearman entre variáveis demográficas, antropométricas, comportamentais e DMO na subamostra de mulheres na pré menopausa, a idade não apresentou correlação significativa com nenhuma das variáveis analisadas, incluindo as medidas de DMO. O IMC apresentou correlação positiva e significativa com a DMO do colo do fêmur (ρ = 0,479; p < 0,001), embora não tenha se correlacionado com a DMO da coluna lombar (p = 0,231). A estatura demonstrou correlação fraca e não significativa com ambas as DMOs. Já na subamostra de mulheres na menopausa, a idade apresentou forte correlação positiva com o tempo de menopausa (ρ = 0,780; p < 0,001), dado que ambas compartilham trajetória cronológica. Também apresentou correlação negativa com a DMO da coluna lombar (ρ = −0,212; p < 0,001) e mais acentuadamente com a DMO do colo do fêmur (ρ = −0,321; p < 0,001).
A massa corporal mostrou correlações positivas e moderadas com ambas as medidas de DMO (coluna lombar: ρ = 0,404; colo do fêmur: ρ = 0,478; p < 0,001) e, como nas outras matrizes, manteve forte correlação com o IMC (ρ = 0,919; p < 0,001). O IMC também se correlacionou positivamente com ambas as DMOs (coluna lombar: ρ = 0,318; fêmur: ρ = 0,413; p < 0,001). A estatura, correlacionada negativamente com a idade (ρ = −0,228; p < 0,001), apresentou associação fraca, porém significativa, com as DMOs (coluna lombar: ρ = 0,272; colo do fêmur: ρ = 0,226; p < 0,001).
A construção de modelos de regressão linear múltipla considerando a DMO da coluna lombar ou do colo do fêmur em mulheres no período da menopausa. As variáveis independentes foram selecionadas com base em análise de correlação de Spearman, considerando aquelas que apresentaram correlação estatisticamente significativa com o desfecho no subgrupo analisado. Com base nas correlações previamente avaliadas, foram candidatas à inclusão: idade, estatura, índice de massa corporal (IMC) e tempo de menopausa. Assim como nos modelos anteriores, massa corporal foi excluída por colinearidade com o IMC. (Tabela3)
Para DMO da coluna lombar, no modelo final, estatura (β = 0,007; p < 0,001) e IMC (β = 0,010; p < 0,001) mantiveram associação positiva e estatisticamente significativa com a DMO da coluna lombar, indicando que mulheres mais altas e com maior IMC tendem a apresentar valores mais elevados de densidade mineral óssea no sítio. Idade (p = 0,952) e tempo de menopausa (p = 0,784) não mostraram efeito significativo. O R² ajustado foi 0,168, revelando que 16,8 % da variabilidade da DMO da coluna lombar é explicada pelos preditores incluídos.
Os pressupostos da regressão foram atendidos: o teste de Shapiro–Wilk não rejeitou a normalidade dos resíduos (W = 0,987; p = 0,117), o gráfico de resíduos versus valores ajustados mostrou homocedasticidade, e os gráficos de variáveis parciais confirmaram relações aproximadamente lineares entre cada preditor e o desfecho. Os fatores de inflação da variância indicaram ausência de colinearidade significativa (VIF ≈ 1–3).
Para o colo do fêmur, entre as variáveis independentes, o IMC exibiu o maior efeito positivo (β = 0,009; p < 0,001), seguido da estatura (β = 0,004; p < 0,001). A idade manteve associação negativa e significativa (β = –0,003; p = 0,022), enquanto o tempo de menopausa não se mostrou relevante após o ajuste (p = 0,906). O modelo apresentou R² ajustado = 0,276, indicando que 27,6 % da variabilidade da DMO do colo do fêmur foi explicada pelos preditores.
Tabela 3. Modelos de regressão linear múltipla para DMO da coluna lombar e do colo do fêmur em mulheres na menopausa.

Foi conduzida uma análise por regressão logística com o objetivo de identificar os fatores associados à presença de baixa massa óssea em qualquer um dos sítios avaliados (coluna lombar ou colo do fêmur) entre mulheres na pós-menopausa. O desfecho foi categorizado a partir dos T-scores, sendo considerado evento a presença de osteopenia ou osteoporose em pelo menos um dos dois sítios corporais avaliados (Tabela 4).
Inicialmente, realizaram-se análises bivariadas entre o desfecho e o conjunto de variáveis categóricas. As variáveis com p-valor inferior a 0,25 foram selecionadas para compor o modelo ajustado, seguindo diretrizes metodológicas, a fim de evitar a exclusão prematura de variáveis potencialmente importantes. A variável idade, embora não categórica, foi incluída diretamente no modelo ajustado devido à sua relevância clínica e à associação estatisticamente significativa previamente observada com a densidade mineral óssea do colo do fêmur nas análises lineares
No modelo final ajustado, a idade permaneceu associada ao desfecho, indicando que a cada ano adicional de vida houve um aumento de 4,5% na chance de apresentar baixa massa óssea (OR = 1,05; IC95% = 1,01–1,08; p = 0,015). O índice de massa corporal (IMC) apresentou associação inversa com o desfecho, sendo que mulheres sem excesso de peso apresentaram aproximadamente quatro vezes mais chance de baixa massa óssea em comparação às mulheres com obesidade (OR = 4,13; IC95% = 1,92– 9,47; p < 0,001). Além disso, aquelas com sobrepeso apresentaram um risco 2,59 vezes maior em relação às obesas (OR = 2,59; IC95% = 1,38–4,97; p = 0,003). A variável cor de pele apresentou uma tendência de associação estatisticamente marginal, sugerindo que mulheres que se autodeclararam não brancas possivelmente tenham menor chance de baixa massa óssea em comparação às brancas (OR = 0,54; IC95% = 0,28–1,02; p = 0,064). O tabagismo manteve associação estatisticamente significativa com menor chance de baixa massa óssea (OR = 0,43; IC95% = 0,24–0,76; p = 0,004).
A calibração do modelo foi avaliada por meio do teste de Hosmer-Lemeshow, que indicou boa adequação entre os valores observados e previstos (p = 0,252). O poder explicativo, representado pelo pseudo-R² de Nagelkerke, foi de 0,200, sugerindo que o modelo explica aproximadamente 20% da variabilidade da ocorrência de baixa massa óssea nessa população. A significância global do modelo foi confirmada pelo teste da razão de verossimilhança (p < 0,001).
Tabela 4. Associação entre características sociodemográficas, comportamentais e clínicas e a presença de baixa massa óssea em qualquer sítio (coluna lombar ou colo do fêmur) entre mulheres na pós-menopausa. Resultados das análises brutas e ajustadas.



Conclusão
O estado nutricional avaliado pelo IMC foi semelhante entre os grupos de mulheres com e sem menopausa. Os resultados evidenciam diferenças relevantes na prevalência de inadequações de massa óssea entre mulheres na menopausa destacando o impacto do sexo e do sítio anatômico na classificação da DMO, corroborando evidências de que a perda óssea é mais acentuada no sexo feminino após a menopausa.
A osteoporose mostrou-se mais prevalente , sobretudo na coluna lombar , embora no colo do fêmur os valores sejam próximos. Embora a osteoporose possa afetar ambos os sexos as mulheres possuem maior predisposição para o desenvolvimento da doença devido a questões fisiológicas como diminuição hormonal que impacta os níveis de estrogênio, ocasionando maior velocidade na perda de massa óssea (Melo et al.,2017).
Considerando a avaliação dos fatores associados à DMO, foi possível observar que no subgrupo das mulheres na pós menopausa, o IMC afetou de forma direta a DMO da coluna e do colo do fêmur, assim valores mais elevados de IMC foram associados a maior densidade óssea, principalmente devido ao efeito mecânico do peso corporal sobre o esqueleto, considerando que em indivíduos com obesidade, além do acúmulo de gordura, há aumento da massa muscular, que por ação mecânica estimulam a massa óssea (Mendonça et al, 2022).
Considerando apenas as mulheres na menopausa, embora o tempo desde a menopausa sejam classicamente apontados como determinantes do declínio ósseo, no presente modelo eles não se mostraram preditores independentes, o que pode refletir tanto a heterogeneidade do perfil da amostra quanto a predominância do efeito mecânico do peso corporal e da estrutura física sobre a massa óssea, superando a influência da idade. . A literatura mostra que a queda mais acentuada da DMO ocorre nos primeiros 5–10 anos pós-menopausa, com uma tendência à estabilização posterior. Assim, quando o grupo inclui mulheres em diferentes estágios do climatério, o “tempo de menopausa” pode não se correlacionar linearmente com a DMO (Sowers, 2013).
Ainda sobre o grupo de mulheres na menopausa, na análise ajustada, a idade manteve-se como fator de risco independente para baixa massa óssea, com aumento progressivo da chance do desfecho a cada ano adicional de vida. Em contrapartida, o IMC apresentou efeito protetor, indicando que mulheres com sobrepeso ou obesidade exibiram menor risco de baixa massa óssea em comparação às eutróficas, reforçando o papel da carga mecânica e do tecido adiposo na preservação da DMO.
Observou-se ainda uma tendência de associação com a cor de pele, sugerindo possível menor risco entre mulheres não brancas, embora sem atingir significância estatística. . Um estudo com mulheres caucasianas em Cambridge mostrou que aquelas com pele mais clara (auto‐relato) tinham menor DMO do que aquelas com pele mais escura, independentemente de idade e peso.(Thompson et. al, 2018).
De forma inesperada, o tabagismo mostrou associação inversa com o desfecho, hipótese que pode refletir particularidades da amostra ou efeito de confundimento. Embora o tabagismo tenha se mantido associado a menor chance de baixa massa óssea no modelo final, os resultados sugerem que esse efeito é independente da categoria de IMC. Essa associação, no entanto, deve ser interpretada com cautela. Há possibilidade de influência de vieses residuais, como viés de sobrevivência ou ausência de controle para fatores como prática de atividade física, uso de medicamentos com impacto ósseo ou reposição hormonal. Recomenda-se que futuras análises considerem esses aspectos adicionais para melhor elucidação dos mecanismos envolvidos. O hábito de fumar está associado a maior DMO, mas que a magnitude desse efeito depende da massa de gordura corporal. Ou seja, fumantes com mais gordura corporal tendem a amortecer parte do efeito negativo do tabagismo sobre a DMO (Oyen.et al, 2014).
No presente estudo, apesar de fatores socioeconômicos e demográficos não terem apresentado como fatores de risco independente para baixa massa óssea,possivelmente em função dos indivíduos assistidos pela Estratégia Saude da Família não apresentarem perfil socioeconômico heterogêneo, essa influência tem sido reportada na literatura nacional e internacional, mesmo que em poucos estudos. O que tem sido sugerido é que indivíduos com escolaridade mais baixa ou renda pessoal menor tendem a ter DMO mais baixa no quadril e coluna lombar (Martini et al., 2009; Du et al.,2017).
A presente pesquisa foi realizada com o intuito de levantar dados sobre os fatores de risco para osteoporose, o que contribui para melhoria dos conhecimentos sobre a doença. Sabe-se que são diversos os fatores de risco que causam a osteoporose, no entanto, é possível interferir em alguns que são modificáveis como, estilo de vida inadequado com a má alimentação e inatividade física, isso faz com que no decorrer dos anos ocorra a degeneração no tecido ósseo, o que implica em consequências futuras, como fraturas que podem tornar o indivíduo dependente de assistência.
Destaca-se como pontos relevantes deste estudo, a abordagem multifatorial, avaliando simultaneamente variáveis demográficas, socioeconômicas e biológicas, permitindo compreender como diferentes fatores interagem e contribuem para a baixa massa óssea, comparando fatores múltiplos e identificando determinantes independentes. A comparação de subgrupos populacionais possibilita a análise de padrões específicos de sexo e idade, fornecendo informações relevantes para políticas de prevenção direcionadas. O uso de modelos de regressão logística bivariada e ajustada, com critérios claros de seleção de variáveis (p < 0,25 na análise bruta), aumenta a confiabilidade dos resultados. Testes de calibração (Hosmer-Lemeshow) e pseudo-R² (Nagelkerke) garantem validação interna e consistência estatística. A identificação de fatores modificáveis fornece subsídios para estratégias de prevenção e intervenção em atenção básica e saúde pública, assim contribuindo para a estratificação de risco, criando também referência para futuras pesquisas.
Há como limitações possíveis informações passadas de forma equivocada por parte dos participantes durante a aplicação do questionário durante a fase de coleta dos dados, implicando em subnotificação, bem como possíveis erros de preenchimento do questionário por parte do entrevistador. Por se tratar de um estudo transversal, não é possível inferir causalidade, apenas associação.
Adotar um estilo de vida adequado é imprescindível não só para a prevenção de osteoporose, pode evitar também o agravo de outras doenças crônicas preexistentes. A base de uma vida saudável é a alimentação e a prática constante de atividades físicas, nesse ponto, os profissionais de saúde podem criar estratégias para incentivar a melhoria dos hábitos diários, prevenindo a osteoporose comorbidades que a doença poderá causar, prejudicando assim a qualidade de vida.
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