CARACTERIZAÇÃO DOS ACHADOS ULTRASSONOGRÁFICOS DA ENDOMETRIOSE COM COMPROMETIMENTO INTESTINAL EM UM CENTRO DE DIAGNÓSTICO EM MACEIÓ

CHARACTERIZATION OF ULTRASOUND FINDINGS OF ENDOMETRIOSIS WITH INTESTINAL INVOLVEMENT IN A DIAGNOSTIC CENTER IN MACEIÓ

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202511300140


Adriano de Lucena Jambo Cantarelli1
Ana Clara Alves Loiola1
Maria Isadora Sampaio Cordeiro Teixeira1
Luciara de Lucena Jambo Cantarelli2
Gustavo Jambo Cantarelli3
Ana Paula Fernandes da Silva4


Resumo 

A endometriose é uma doença inflamatória crônica caracterizada pela presença de tecido endometrial ectópico, frequentemente associada a dor pélvica, infertilidade e impacto funcional significativo. A ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal (USG-TV-PI) tem se consolidado como método não invasivo de primeira linha para o mapeamento da endometriose profunda, especialmente do compartimento posterior. Este estudo teve como objetivo caracterizar os achados ultrassonográficos e a distribuição anatômica da doença em pacientes submetidas à USG-TV-PI em uma clínica privada de Maceió. Trata-se de um estudo retrospectivo e descritivo que avaliou 559 exames realizados entre 2022 e 2025, seguindo os critérios do Grupo IDEA. Foram incluídas pacientes com suspeita clínica de endometriose, analisando-se idade e estruturas acometidas. Dos 559 exames, 139 (24,9%) apresentaram achados sugestivos de endometriose, com idade média de 39,8 anos, semelhante ao grupo sem suspeita (40,5 anos). Os sítios mais frequentemente acometidos foram paredes pélvicas (65 casos), útero (40), ovário esquerdo (39), reto/septos (33) e ovário direito (30). O envolvimento intestinal ocorreu em 33 pacientes (23,7%). Entre as 369 pacientes sem achados sugestivos, os principais achados benignos foram endometrioma (32 casos), adenomiose (24) e endometriose profunda incidental (4). A USG-TV-PI demonstrou utilidade na identificação da endometriose pélvica e intestinal, com prevalência compatível à literatura, reforçando seu papel como exame inicial. Apesar das limitações do delineamento retrospectivo e da ausência de confirmação cirúrgica, os achados sugerem que o método auxilia na detecção precoce e no planejamento terapêutico. Estudos prospectivos multicêntricos poderão aprimorar a acurácia diagnóstica e a correlação clínico-radiológica. 

Palavras-chave: Endometriose, Ultrassonografia, Saúde da Mulher, Técnicas de Diagnóstico Obstétrico e Ginecológico.

ABSTRACT 

Endometriosis is a chronic inflammatory disease characterized by the presence of ectopic endometrial tissue, frequently associated with pelvic pain, infertility, and significant functional impact. Transvaginal ultrasound with bowel preparation (TVUS-BP) has become established as a first-line, noninvasive method for mapping deep endometriosis, especially in the posterior compartment. This study aimed to characterize the ultrasound findings and anatomical distribution of the disease in patients who underwent TVUS-BP at a private clinic in Maceió. This is a retrospective, descriptive study that evaluated 559 examinations performed between 2022 and 2025, following the IDEA Group criteria. Patients with clinical suspicion of endometriosis were included, and age as well as affected structures were analyzed. Of the 559 examinations, 139 (24.9%) showed findings suggestive of

endometriosis, with a mean age of 39.8 years, similar to the group without suspicion (40.5 years). The most frequently affected sites were the pelvic walls (65 cases), uterus (40), left ovary (39), rectum/septa (33), and right ovary (30). Intestinal involvement occurred in 33 patients (23.7%). Among the 369 patients without suggestive findings, the main benign findings were endometrioma (32 cases), adenomyosis (24), and incidental deep endometriosis (4). TVUS-BP demonstrated utility in identifying pelvic and intestinal endometriosis, with prevalence consistent with the literature, reinforcing its role as an initial examination. Despite the limitations of the retrospective design and the lack of surgical confirmation, the findings suggest that the method assists in early detection and therapeutic planning. Prospective multicenter studies may improve diagnostic accuracy and clinical–radiological correlation.

Keywords: Endometriosis, Ultrasonography, Women’s Health, Obstetric and Gynecologic Diagnostic Techniques.

1. INTRODUÇÃO 

A endometriose é uma condição ginecológica crônica, inflamatória e estrogênio-dependente, caracterizada pela presença e proliferação de tecido semelhante ao endométrio, contendo glândulas e estroma, em localizações ectópicas fora da cavidade uterina (ZHAO et al., 2025). A resposta desse tecido ao ambiente hormonal cíclico desencadeia inflamação persistente, fibrose e formação de aderências, fenômenos que, apesar de benigno, conferem elevado potencial de morbidade devido à infiltração de estruturas como ovários, ligamentos uterossacros, peritônio, bexiga e segmentos do trato gastrointestinal (ALLAIRE et al., 2023). 

Com prevalência estimada em cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva, a endometriose é uma das doenças ginecológicas mais comuns. Esse número é ainda mais expressivo entre mulheres sintomáticas, sendo identificada em até 70% das pacientes com dor pélvica crônica e em aproximadamente metade das mulheres com infertilidade (SANTOS; PEREIRA, 2024). O impacto biopsicossocial é significativo: dor incapacitante, disfunção nas atividades diárias, prejuízo na vida sexual e redução da produtividade laboral contribuem para queda importante da qualidade de vida e para o surgimento de comorbidades como ansiedade, depressão e distúrbios do sono (GETE et al., 2024). 

A etiopatogênese é complexa e multifatorial. Embora a teoria da menstruação retrógrada permaneça a mais aceita, ela não explica completamente todos os fenótipos da doença (BULUN, 2023). Outros mecanismos incluem metaplasia celômica, disseminação linfática ou hematogênica e interações entre fatores genéticos, imunológicos e hormonais (ALMEIDA, 2025). Destaca-se, nesse contexto, a disfunção imunológica, caracterizada pela menor atividade de células Natural Killer e pelo aumento de citocinas pró-inflamatórias, que, associadas ao estímulo estrogênico, promovem angiogênese, neurogênese e manutenção dos implantes (LIMA; ALMEIDA, 2024). 

A doença manifesta-se em diferentes fenótipos: endometriose peritoneal superficial, endometriomas ovarianos e endometriose profunda infiltrativa, esta última definida por infiltração de estruturas pélvicas ou penetração superior a 5 mm abaixo da superfície peritoneal. O quadro clínico é variável, geralmente dominado por dismenorreia secundária, dor pélvica crônica, dispareunia profunda e sintomas urinários ou gastrointestinais, conforme o sítio acometido (FEBRASGO, 2025). 

O diagnóstico definitivo historicamente depende da laparoscopia com confirmação histopatológica, aspecto que contribui para um atraso médio de 7 a 10 anos entre o início dos sintomas e o diagnóstico (ALMEIDA, 2025). Esse intervalo prolongado favorece a progressão da doença e piora da qualidade de vida. A investigação diagnóstica baseia-se na combinação entre suspeita clínica e métodos de imagem não invasivos. A ultrassonografia transvaginal especializada com preparo intestinal consolidou-se como exame de primeira linha para o mapeamento da endometriose profunda, apresentando sensibilidade e especificidade comparáveis às da ressonância magnética em centros especializados (MARTINS; NUNES, 2024). 

Apesar desses avanços, o desempenho da ultrassonografia permanece dependente da experiência do examinador, e a ausência de uniformidade nos protocolos de execução e interpretação ainda representa uma lacuna. Diante desse cenário, o presente estudo propõe caracterizar os achados ultrassonográficos de endometriose com comprometimento intestinal observados em um centro de diagnóstico de Maceió, buscando contribuir para o aperfeiçoamento do diagnóstico precoce, a estratificação da gravidade e o planejamento terapêutico das pacientes. 

2. METODOLOGIA 

O presente estudo caracteriza-se como observacional, descritivo, transversal, retrospectivo e de natureza quantitativa, baseado exclusivamente na análise numérica e categórica de dados extraídos de prontuários clínicos e laudos de ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal registrados entre 2022 e 2025. Esse intervalo corresponde ao período de ampla consolidação da ultrassonografia especializada como método de primeira linha para o mapeamento da endometriose profunda, sem qualquer coleta direta de informações junto às pacientes. 

O estudo foi conduzido em uma clínica particular especializada em diagnóstico por imagem e saúde da mulher, localizada em Maceió, Alagoas. A população de referência compreendeu todas as pacientes submetidas à ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal no período definido. A amostra foi estabelecida por conveniência, incluindo casos que atenderam aos critérios de inclusão: pacientes do sexo feminino com indicação clínica de rastreamento ou mapeamento de endometriose e prontuários contendo laudos completos, legíveis e com registro da idade. Foram excluídos prontuários incompletos, laudos ilegíveis ou divergentes e exames realizados por indicações não relacionadas ao rastreamento da doença. O tamanho amostral final correspondeu ao número total de pacientes que preencheram esses critérios.

A coleta dos dados foi realizada ao longo de três meses mediante consulta a prontuários físicos e ao sistema eletrônico da clínica, mediante autorização institucional. Utilizou-se um instrumento padronizado desenvolvido para esta pesquisa, permitindo a transferência das variáveis para uma planilha eletrônica (Microsoft Excel®). Os critérios ultrassonográficos e a terminologia anatômica seguiram as recomendações do IDEA Group (International Deep Endometriosis Analysis), assegurando padronização na identificação de nódulos, espessamentos, aderências e demais achados relevantes. Informações ausentes foram classificadas como “não informado” e excluídas das análises para evitar viés de interpretação. 

A planilha estruturada registrou variáveis categóricas e contínuas, incluindo identificação codificada, idade, data do exame e achados ultrassonográficos. Os focos principais de endometriose foram registrados de forma dicotômica, acompanhados da descrição anatômica detalhada. Variáveis secundárias, como alterações uterinas ou anexiais associadas, também foram documentadas. Após a coleta, os dados passaram por revisão e limpeza para assegurar consistência interna. 

A análise estatística foi realizada no software R (GNU General Public License versão 4.5.2 ). As variáveis categóricas foram apresentadas por frequências absolutas e relativas; as variáveis contínuas descritas por média, mediana, desvio-padrão e respectivos intervalos de confiança de 95%. A normalidade das distribuições foi avaliada por meio do teste de Shapiro–Wilk e teste de Mann–Whitney. 

O estudo foi conduzido em conformidade com a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Jaboatão dos Guararapes (CAAE nº 89095325.3.0000.8727), garantindo o sigilo e o anonimato das participantes. 

3. RESULTADOS E DISCUSSÕES 

Foram analisados 559 exames de ultrassonografia realizados entre 2022 e 2025. Desses, 139 exames (24,9%) apresentaram achados sugestivos de endometriose, enquanto 369 exames (66,0%) não mostraram alterações compatíveis com a doença, embora tenham evidenciado achados ecográficos benignos. Além disso, 51 exames (9,1%) foram considerados normais e, por não contribuírem para a análise dos desfechos de interesse, foram excluídos das etapas subsequentes. 

Entre as mulheres com achados sugestivos de endometriose, a idade média foi de 39,8 anos (DP = 7,53 ±1,25). No grupo sem alterações sugestivas, a média de idade foi de 40,5 anos (DP = 7,73 ±0,79). A normalidade da distribuição da variável idade foi avaliada pelo teste de Shapiro–Wilk, com resultados indicando distribuição não normal em ambos os grupos (endometriose: p = 0,0136; sem alterações: p = 0,0343). 

A Figura 1 apresenta a comparação entre as idades dos dois grupos, evidenciando intervalos de confiança de 95% sobrepostos (endometriose: 38,60–41,10; sem alterações: 39,66–41,24). Esse achado foi confirmado pelo teste de Mann–Whitney (estatística = 24740,50; p = 0,5393), indicando ausência de diferença estatisticamente significativa entre as idades. 

Figura 1: Intervalos de confiança (95%) para a idade média dos grupos com (SIM) e sem alterações (NÃO) da população estudada (2022-2025). 

Fonte: Autores, 2025.

Além dos dados demográficos, também foram avaliadas características sociodemográficas das pacientes. A Tabela 1 apresenta a distribuição percentual do estado civil entre as mulheres com achados sugestivos de endometriose. Já a Tabela 2 descreve o percentual de cada categoria de achado ultrassonográfico em relação ao total de pacientes afetados. 

Tabela 1: Percentual do estado civil predominante nas pacientes com achados ultrassonográficos de endometriose da população estudada (2022-2025). 

Fonte: Autores (2025).

Tabela 2: Percentual em relação ao total de pacientes com achados sugestivos de endometriose da população estudada (2022-2025).

Fonte: Autores (2025).

A Figura 2 apresenta a distribuição dos principais sítios acometidos entre as pacientes com achados sugestivos de endometriose. As estruturas mais frequentemente envolvidas foram as paredes pélvicas (65 casos), seguidas pelo útero (40 casos), ovário esquerdo (39 casos), reto/sigmóide ou septos (33 casos) e ovário direito (30 casos). Esses dados indicam maior concentração de lesões em estruturas anexas e órgãos pélvicos de sustentação, especialmente paredes pélvicas e útero.

Figura 2: Órgãos mais afetados entre pacientes com alterações sugestivas de endometriose da população estudada (2022-2025). 

Fonte: Autores (2025).

Na análise específica das pacientes com envolvimento intestinal, foram identificados 33 casos de acometimento do reto e/ou sigmóide, correspondendo a 23,7% das 139 pacientes com achados sugestivos de endometriose profunda. A média de idade deste subgrupo foi de 39,7 anos. Quanto ao perfil sociodemográfico, o estado civil mais frequente foi o de mulheres casadas (17 casos), seguido por solteiras (7 casos) e divorciadas (1 caso). Entre as 369 pacientes sem achados sugestivos de endometriose, observou-se idade média de 40,5 anos. Nessa população, o útero foi o órgão mais frequentemente avaliado (200 exames). Entre os achados ecográficos benignos, os mais prevalentes foram endometrioma (32 casos), adenomiose (24 casos), endometriose profunda identificada incidentalmente (4 casos), endometriose mínima ou superficial (3 casos) e associação entre adenomiose e endometrioma (2 casos). 

Neste estudo, foram avaliados achados ultrassonográficos sugestivos de endometriose em diferentes compartimentos pélvicos, incluindo ovários, útero e alças intestinais. A média de idade das pacientes foi de 39,8 anos, valor compatível com o perfil etário descrito em estudos sobre endometriose profunda, cuja prevalência se concentra entre a terceira e a quarta décadas de vida, fase de maior atividade ovariana e estímulo estrogênico (CARDOSO et al., 2020). Ainda que a análise sociodemográfica tenha sido limitada pelos registros disponíveis, o padrão observado se aproxima do perfil frequentemente relatado em centros especializados, nos quais o acesso a exames avançados tende a ocorrer entre mulheres com maior nível socioeconômico. 

A ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal (USG-TV-PI) foi o método central utilizado e identificou acometimento intestinal profundo em 33 pacientes (23,7% dos casos sugestivos). As alterações observadas, como espessamento de parede, irregularidade das interfaces serosas e distorções anatômicas, estão alinhadas aos critérios estabelecidos pelo IDEA Group e amplamente validados na literatura (SCIOSCIA et al., 2020). A prevalência identificada também se manteve dentro da faixa descrita em estudos prévios, que relatam comprometimento intestinal entre 20% e 35% em populações avaliadas por imagem (FERRERO et al., 2011; RAIZA et al., 2022). 

Embora a ressonância magnética (RNM) seja reconhecida por sua alta acurácia e detalhamento anatômico, diversos estudos demonstram que a USG-TV-PI apresenta desempenho semelhante ou superior na avaliação de lesões retrocervicais, do septo retovaginal e do compartimento posterior, especialmente quando realizada por examinadores experientes (GONÇALVES et al., 2021). A laparoscopia com confirmação histopatológica continua sendo o padrão-ouro diagnóstico, mas seu caráter invasivo, maior custo e disponibilidade restrita justificam a crescente adoção da USG-TV-PI como exame inicial para mapeamento e estratificação da endometriose profunda. Assim, a ultrassonografia especializada se destaca como método acessível, acurado e reprodutível, desempenhando papel estratégico no manejo de pacientes com suspeita clínica. 

Uma das limitações deste estudo foi a impossibilidade de correlacionar os achados ultrassonográficos com manifestações clínicas, como dor pélvica, dismenorreia, dispareunia ou sintomas intestinais. A ausência de dados clínicos sistematizados nos prontuários inviabiliza análises que permitiriam avaliar gravidade fenotípica e impacto funcional, aspectos amplamente discutidos na literatura, que reconhece associação entre infiltração profunda, dano neurogênico local e maior intensidade de sintomas (RAIZA et al., 2022). Estudos futuros devem incluir instrumentos padronizados, como escalas de dor e questionários de qualidade de vida para ampliar a robustez analítica. 

A caracterização anatômica e epidemiológica das pacientes com achados sugestivos de endometriose possui implicações clínicas diretas, considerando que o atraso no diagnóstico da doença pode ultrapassar sete anos. A detecção de focos profundos por meio da USG-TV-PI favorece o mapeamento preciso das lesões, permitindo individualização do manejo clínico ou cirúrgico e reduzindo o risco de complicações como obstrução intestinal, disfunções urinárias e infertilidade. Nesse contexto, os achados deste estudo reforçam a relevância da ultrassonografia especializada como ferramenta inicial em cenários onde a RNM apresenta acesso limitado ou custo elevado. 

Este estudo apresenta limitações inerentes ao delineamento retrospectivo, incluindo potencial viés de informação, ausência de padronização clínica nos registros e dependência da qualidade dos laudos. A análise restrita a um único centro especializado limita a generalização dos resultados, e a falta de confirmação cirúrgica e histopatológica impede estimar a acurácia dos achados. Além disso, a USG-TV-PI é um método operador-dependente, e o desempenho do diagnóstico varia conforme a experiência do examinador. Ainda assim, a consistência dos achados em relação à literatura e a padronização metodológica segundo o IDEA Group conferem validade interna ao estudo. 

Apesar das limitações, os resultados evidenciam a importância da USG-TV-PI na identificação de focos de endometriose profunda, sugerindo que sua utilização sistemática pode contribuir para a detecção precoce e para o aprimoramento do planejamento terapêutico. Estudos prospectivos multicêntricos que integrem dados clínicos, ultrassonográficos, laboratoriais e histopatológicos poderão aprofundar o entendimento da relação entre características de imagem, intensidade dos sintomas e desfechos terapêuticos.

4. CONCLUSÃO 

Os achados deste estudo evidenciam a importância da ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal como ferramenta central na avaliação da endometriose profunda, especialmente em cenários onde o acesso a métodos de maior custo, como a ressonância magnética, é restrito. A caracterização detalhada da distribuição anatômica das lesões, com predomínio de acometimento das paredes pélvicas, útero, ovários e significativo envolvimento intestinal demonstra a capacidade do método em mapear com precisão o espectro de comprometimento pélvico. A prevalência observada e a consistência dos achados em relação à literatura reforçam a robustez do exame quando aplicado de forma padronizada. 

Mesmo diante das limitações inerentes ao delineamento retrospectivo, como ausência de dados clínicos completos e falta de confirmação cirúrgica, os resultados obtidos mostram que a USG-TV-PI permanece como exame de alta utilidade prática, permitindo estratificação inicial das pacientes, identificação de focos profundos e melhor direcionamento do manejo terapêutico. Em serviços especializados, sua adoção sistemática pode representar um importante avanço na redução do atraso diagnóstico e na prevenção de complicações associadas à progressão da doença. 

Esses achados ressaltam a necessidade de estudos prospectivos e multicêntricos que integrem informações clínicas, laboratoriais, ultrassonográficas e histopatológicas, possibilitando a construção de critérios diagnósticos mais sólidos e a ampliação da correlação clínico-imagem. Investigações dessa natureza têm potencial para otimizar o diagnóstico precoce, aprimorar o planejamento terapêutico e contribuir para melhorias significativas na qualidade de vida das mulheres com endometriose. 

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1Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdade Afya Campus Jaboatão dos Guararapes e-mail: adrianinhojc@live.com
4Discentes do Curso Superior de Medicina da Faculdade Afya Campus Jaboatão dos Guararapes e-mail: aninhacl@outlook.com.br
4Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdade Afya Campus Jaboatão dos Guararapes e-mail: isaampaioct@gmail.com
2Diretora Médica da Clin Mulher. Especialista em Ginecologia e Obstetrícia. e-mail: ljcantarelli@hotmail.com
3Diretor Médico Clin Mulher, Presidente da Sociedade Brasileira de Ultrassonografia Regional Alagoas – SBUS, Diretor GESTTUS – Pós-Graduação e Treinamento Médico. Especialista em Ginecologia e Obstetrícia. e-mail: cantarelli@cmdiagnostica.com.br
4Docente do Curso Superior de Medicina da faculdade Afya Campus Jaboatão dos Guararapes. Mestre em Patologia e Doutora em Biologia (UFPE/LIKA). e-mail: anap.fernandes@afya.com.br