FATORES DE RISCO E PREVENÇÃO DE ACIDENTES EM UNIDADES ARMAZENADORAS DE GRÃOS: UM LEVANTAMENTO TÉCNICO

RISK FACTORS AND ACCIDENT PREVENTION IN GRAIN STORAGE FACILITIES: A TECHNICAL REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202512271525


Alex Norberto Ferreira1
Juara Rodrigues Cardoso Santos2
Lorena Torres Arruda3
Joema Rodrigues Cardoso Santos4
Carolina Carvalho Rocha Sena5
Dennis Ricardo Cabral Cruz6
Marianne Araújo Soares7


Resumo

Silos são unidades de armazenamento fundamentais para o setor agrícola, projetadas para o depósito de grãos a granel. Este estudo analisa o elevado índice de acidentes e óbitos registrados nessas estruturas, com foco na preservação da segurança e saúde do trabalhador. Devido às suas características físicas — ambientes enclausurados e com ventilação deficiente —, tais locais são classificados como espaços confinados, sendo regidos por diretrizes como a NR-33, a NBR 14.787 da ABNT e os requisitos da NR-31 para o setor agroindustrial. O trabalho discute os principais riscos associados ao armazenamento, categorizando os acidentes em sete grupos: engolfamento (sufocamento), lesões respiratórias e oculares, riscos ergonômicos, exposição a ruídos, intoxicação por gases, explosões e acidentes mecânicos diversos. Conclui-se que a capacitação técnica contínua dos trabalhadores, aliada ao cumprimento rigoroso das normas regulamentadoras e à adoção de medidas preventivas e de controle operacional, é essencial para a redução de acidentes e para a mitigação de riscos fatais nesses ambientes. Dessa forma, a implementação efetiva de práticas de segurança contribui não apenas para a proteção da vida humana, mas também para a sustentabilidade das operações no setor agrícola.

Palavras-chave: Segurança do Trabalho. Silos Graneleiros, Espaços Confinados.

1. INTRODUÇÃO

O setor agroindustrial brasileiro desempenha um papel estratégico na economia global, demandando infraestruturas robustas para o manejo e a conservação da produção em larga escala (SOARES; FERREIRA, 2000). Nesse cenário, os silos graneleiros consolidam-se como unidades fundamentais, projetadas para o depósito de produtos a granel. Entretanto, a despeito da relevância econômica, as operações realizadas nessas estruturas impõem desafios críticos à integridade física dos trabalhadores, uma vez que as características físicas dos silos os configuram como ambientes de elevada periculosidade (PALMA, 2005).

A problemática central deste estudo reside no alto índice de sinistralidade registrado nestas unidades. Devido à sua configuração enclausurada e à ventilação frequentemente deficiente, os silos são tecnicamente classificados como espaços confinados. Segundo a fundamentação técnica da NR-33, tais locais não são projetados para ocupação humana contínua e possuem meios limitados de entrada e saída. Nesses ambientes, riscos como o engolfamento por grãos, a presença de atmosferas explosivas e a formação de gases tóxicos provenientes da decomposição de matéria orgânica — como o dióxido de carbono e o sulfeto de hidrogênio — configuram perigos iminentes (SILVA; NOGUEIRA; ROBERTO, 2005).

A gravidade desse cenário é evidenciada pelo déficit de segurança em parte das unidades armazenadoras no Brasil, muitas das quais operam com tecnologias defasadas. Diante disso, a mitigação de riscos fundamenta-se na aplicação rigorosa do arcabouço normativo, com destaque para a NR-33 (Segurança e Saúde no Trabalho em Espaços Confinados) e a NR-31 (Segurança e Saúde no Trabalho na Agricultura), além dos parâmetros técnicos estabelecidos pela NBR 14.787 da ABNT. A conformidade com estas diretrizes é condição indispensável para a prevenção de patologias ocupacionais e acidentes fatais (VILELA; VEIGA, 2003).

Portanto, o presente trabalho propõe-se a realizar um levantamento técnico dos principais acidentes em silos graneleiros, categorizando-os em grupos distintos, tais como sufocamento, lesões respiratórias, intoxicações e explosões. O objetivo é analisar as causas determinantes desses eventos, reforçando a imperatividade da capacitação técnica e da implementação de medidas de proteção coletiva e individual como estratégias vitais para garantir a segurança nas unidades armazenadoras de grãos.

2. REVISÃO DA LITERATURA

2.1 Análise de riscos em silos graneleiros

A gestão da segurança e saúde ocupacional em silos graneleiros é motivada pela criticidade dos índices de acidentes e óbitos inerentes a este ambiente laboral. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a capacidade de armazenagem agrícola no Brasil atingiu 231,1 milhões de toneladas no primeiro semestre de 2025, representando um crescimento de 1,8% em relação ao semestre anterior e um aumento no número de estabelecimentos de armazenagem (IBGE, 2025). Tais estruturas, por suas características construtivas enclausuradas, são classificadas tecnicamente como espaços confinados, regidos primordialmente pela Norma Regulamentadora nº 33 (NR-33) e pela NBR 14.787 da ABNT (ABNT, 2017; BRASIL, 2011; BRASIL, 2012).

Os riscos em espaços confinados são frequentemente sutis e fatais, demandando capacitação e vigilância contínua para atividades de manutenção, limpeza e inspeção. Além da NR-33, o trabalho em silos é disciplinado pela NBR 14.606, NR-31 e NR-35 (ABNT, 2017; BRASIL, 2011; BRASIL, 2012).

2.1.1 Engolfamento e sufocamento em silos

O armazenamento agrícola em espaços fechados de grandes dimensões representa uma fonte severa de riscos, especialmente no que tange à asfixia e problemas respiratórios. O engolfamento ocorre quando a vítima é arrastada pela massa de grãos, enquanto o sufocamento se dá pelo encobrimento total, ambos resultando em asfixia mecânica por bloqueio das vias respiratórias ou paralisia muscular do diafragma (DOS ANJOS-MAGRI et al., 2021).

Tais acidentes podem ser desencadeados pelo peso do operador sobre a superfície, vibrações mecânicas ou a ruptura de placas de produto deteriorado por microrganismos e insetos, que geram avalanches internas (KUNH, 2023). Segundo o Tribunal Superior do Trabalho (TST), o trabalho em silos de armazenamento — caracterizado como atividade em espaço confinado — é considerado de alto risco, com mais de 100 mortes estimadas em 2023, e evidencia a necessidade de cumprimento rigoroso das normas de segurança e supervisão dos empregadores (TST, 2025).

2.1.2 Patologias do trato respiratório e ocular

A suspensão de poeiras orgânicas e inorgânicas, com partículas de dimensões perigosas entre 0,5 e 10 mm, constitui o principal fator de risco respiratório em silos. A exposição ocupacional pode causar desde irritações agudas e crises de broncoconstrição até alterações crônicas irreversíveis nas vias aéreas (KOSOSKI; BITTENCOURT, 1979).

A carga poluidora presente nos silos é composta primariamente por fragmentos vegetais e partículas de sílica, resultantes do atrito mecânico durante o manuseio, moagem e transporte dos grãos. Estima-se que a poeira inalável represente cerca de 40% do total de partículas geradas (LUZ; POMBO; COSTA; LENCINA, 2019). Além da matéria orgânica, a presença de sílica mineral e traços de metais confere à poeira propriedades abrasivas que agravam as lesões nas mucosas oculares e no trato respiratório superior (VIEGAS, 2000).

No âmbito microbiológico, o desenvolvimento de toxinas bacterianas e fúngicas é um risco constante, especialmente em grãos que sofreram processos de deterioração por excesso de umidade ou falhas na transilagem. Estes microrganismos, ao colonizarem a massa de grãos, liberam endotoxinas e esporos que, quando inalados, podem desencadear episódios agudos de broncoconstrição, irritação nasal e, em casos de exposição prolongada, alterações crônicas irreversíveis nas vias aéreas (SCHULZE, 2021).

Somado a isso, a poeira é contaminada por dejetos de insetos, ácaros, roedores e aves, que encontram nos silos um ambiente propício para alimentação e reprodução. A presença desses resíduos biológicos, que incluem fragmentos de carapaças e excretas, introduz agentes alergênicos potentes no ambiente confinado. Estudos epidemiológicos associam a inalação dessas substâncias a uma prevalência aumentada de sintomas como tosse, expectoração e dispneia entre os trabalhadores de unidades armazenadoras (SCHULZE, 2021).

Por fim, a periculosidade do ambiente é acentuada pelos resíduos químicos de defensivos agrícolas, provenientes de tratamentos fitossanitários realizados tanto na lavoura quanto durante o armazenamento. Pesticidas e herbicidas podem permanecer aderidos às partículas em suspensão, expondo o trabalhador a intoxicações por via inalatória e dérmica (PEDROSO; SILVA; AGOSTINETTO; EVARISTO; SIEGLOCH, 2020). Diante da complexidade desses fatores, a NR-31 e a NR-33 estabelecem a obrigatoriedade de sistemas de ventilação eficientes e o uso de proteção respiratória adequada para mitigar a exposição a esse coquetel de agentes nocivos.

2.1.3 Ergonomia e riscos físicos

A ergonomia busca otimizar a interação entre o ser humano e o sistema de trabalho, focando no bem-estar e performance. Em silos, a falta de ergonomia corretiva e de projeto resulta em desconfortos biomecânicos e antropométricos significativos. Somam-se a isso os riscos físicos, como ruído excessivo, temperaturas inadequadas, iluminação precária e eletricidade estática (MACEDO et al., 2024).

2.1.4 Atmosferas perigosas: intoxicação e explosões

Trabalhadores em silos enfrentam o perigo de deficiência de oxigênio e intoxicação por gases como metano, gás sulfídrico (H₂S), fosfina e óxidos nitrosos. Relatos de óbitos por envenenamento por H₂S no Rio Grande do Sul destacam a importância de sistemas de ventilação eficientes (SÁ, 2007).

As explosões representam riscos de alta magnitude, embora estatisticamente menos frequentes (4% dos acidentes). Elas ocorrem quando combustíveis (poeira suspensa), oxigênio e uma fonte de ignição (faísca ou calor) interagem em um ambiente confinado. A explosão primária pode elevar temperaturas acima de 2.000 °C, desencadeando explosões secundárias em outros setores da unidade. Incidentes em fábricas e agroindústrias em Toledo, Sorriso e Nova Santa Rita ilustram o potencial destrutivo desses sinistros (BETENHEUSER; FERREIRA; OLIVEIRA, 2005).

2.1.5 Determinantes de acidentes em geral

A análise sistêmica revela que a acidentalidade em unidades de beneficiamento de grãos não decorre de eventos isolados, mas da interação complexa entre fatores causais e contributivos que operam de forma conjunta no ambiente laboral. Conforme o modelo proposto por Wickens et al. (1998) e transposto para o cenário agrícola por Fischer (2005), os acidentes são o desfecho de falhas em múltiplos níveis do sistema, desde deficiências no projeto das instalações até pressões temporais da safra. Nesse contexto, os fatores causais referem-se às causas imediatas, como a ruptura de equipamentos de segurança ou a exposição direta a atmosferas perigosas em espaços confinados. 

2.2 Equipamentos de proteção e medidas preventivas

A mitigação de riscos em silos graneleiros exige a implementação de uma hierarquia de controles, priorizando Medidas de Proteção Coletiva (EPCs) e o uso rigoroso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) (BRASIL, 2022).

2.2.1 Equipamentos de proteção coletiva (EPCs) e instrumentação

Os EPCs desempenham um papel vital na gestão de segurança em silos, atuando tanto na prevenção de incidentes quanto na estruturação de protocolos de resposta a emergências. A eficácia desses sistemas é o que viabiliza a entrada humana em locais tecnicamente classificados como espaços confinados, onde a atmosfera pode se tornar letal em curto período (FERRARI et al., 2021). Abaixo, detalham-se as principais frentes de atuação dos EPCs conforme os riscos identificados:

Controle atmosférico e monitoramento de gases: A instrumentação, composta por detectores de gases, explosímetros e cromatógrafos, é essencial para a leitura contínua da concentração de oxigênio e detecção de substâncias tóxicas como o sulfeto de hidrogênio (H2S) e gases nitrosos. Esse monitoramento precede a autorização de entrada e deve ser mantido durante toda a operação para evitar intoxicações e explosões (RANGEL JR., 2008).

Sistemas de ventilação e exaustão: Os silos devem ser dotados de sistemas de ventilação mecânica capazes de prover o insuflamento de ar limpo ou a exaustão de contaminantes. Essa medida é fundamental para evitar o acúmulo de poeiras orgânicas explosivas e gases resultantes da decomposição de produtos agrícolas, mantendo a atmosfera interna em condições aceitáveis para a vida (SILVA, 2005).

Viabilização de resgates e salvamentos: A infraestrutura de segurança coletiva inclui dispositivos de ancoragem, tripés, monopés e guinchos destinados à movimentação vertical segura. Tais equipamentos, combinados com cabos de aço e sistemas de polias, permitem que a equipe de resgate realize a extração rápida de vítimas de soterramento ou intoxicação sem que os socorristas sejam expostos aos mesmos riscos internos.

Sinalização e barreiras físicas: A implementação de isolamentos e sinalizações de advertência atua na prevenção de acessos não autorizados. Além disso, o revestimento interno dos silos deve ser projetado de forma a impedir o acúmulo de grãos e a formação de placas ou “túneis” que resultam em avalanches e engolfamentos.

A presença de uma infraestrutura de EPCs robusta, associada a sistemas de comunicação que operem em extrabaixa tensão para evitar ignições, é o que garante a sustentabilidade das operações em unidades armazenadoras. O descumprimento dessas exigências, previstas na NR-31 e NR-33, eleva drasticamente a probabilidade de acidentes fatais, uma vez que a proteção individual isolada pode ser insuficiente diante de falhas estruturais ou colapsos atmosféricos (BRASIL, 2012).

2.2.2 Equipamentos de proteção individual (EPIs)

A seleção dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) em unidades armazenadoras não deve ser aleatória, mas fundamentada em uma rigorosa Análise de Risco (AR) que considere a complexidade dos ambientes confinados e os perigos inerentes ao manejo de grãos. Sob a ótica científica e normativa, o detalhamento destes dispositivos é essencial para garantir a integridade física e psicológica do trabalhador (BRASIL, 2017).

Proteção de queda e restrição de movimentação: O trabalho em silos envolve frequentemente movimentação vertical e exposição a alturas elevadas, onde quedas ou o soterramento por colapso da massa de grãos representam riscos fatais (BRASIL, 2017).

Cinturões de segurança tipo paraquedista: São fundamentais para a descida vertical e devem ser conectados a pontos de ancoragem seguros, permitindo a suspensão e o resgate em caso de emergência (BRASIL, 2017).

Trava-quedas e dispositivos de retenção: São acessórios obrigatórios que atuam na interrupção imediata de uma queda acidental, sendo essenciais tanto na operação quanto em cenários de salvamento (BRASIL, 2017).

Sistemas de ancoragem e tripés: Embora sejam dispositivos de apoio, a seleção do EPI de queda deve ser compatível com o suporte de ancoragem e guinchos utilizados para a movimentação vertical do trabalhador (BRASIL, 2017).

Proteção respiratória e monitoramento atmosférico: A atmosfera interna dos silos é frequentemente insalubre devido à alta concentração de poeiras orgânicas e à possível presença de gases tóxicos ou deficiência de oxigênio. Os respiradores purificadores de ar são utilizados para filtrar partículas sólidas (poeiras de grãos), névoas e fumos, prevenindo lesões crônicas no trato respiratório e crises de broncoconstrição.

Sistemas autônomos de ar respirável: Em situações em que a ventilação é insuficiente ou há detecção de gases letais como o sulfeto de hidrogênio (H2S) ou dióxido de carbono (CO2) e deficiência de oxigênio, é indispensável o uso de cilindros de ar respirável com peça facial. Adicionalmente, máscaras de solda ou protetores faciais podem ser necessários para proteger o rosto contra partículas nocivas e radiações durante manutenções específicas.

Capacete de segurança com jugular: Protege o crânio contra impactos de objetos volantes e choques elétricos, sendo a jugular essencial para manter o equipamento fixo durante movimentos bruscos ou quedas.

Luvas de proteção (PVC ou Raspa): Selecionadas conforme o agente de risco, protegem as mãos contra abrasão, agentes químicos presentes em defensivos agrícolas ou riscos mecânicos.

Calçados de segurança (botinas com bico de aço ou nylon): Protegem os membros inferiores contra impactos, quedas de objetos pesados e perfurações, sendo o material do bico definido conforme o risco de choque elétrico ou impacto.

Óculos de proteção e protetores auriculares: Os óculos protegem o globo ocular contra partículas volantes e luminosidade intensa. Já os protetores auriculares ou abafadores são vitais para mitigar os danos causados por níveis elevados de ruído físico nas unidades de beneficiamento.

Conforme estabelecido pela NR-33 e NR-31, o empregador deve fornecer todos os EPIs e EPCs imprescindíveis, enquanto o trabalhador tem a obrigação estrita de utilizá-los e participar dos treinamentos de capacitação (BRASIL, 2012).

2.3 Protocolos de prevenção e gestão

A prevenção de acidentes em silos graneleiros deve ser compreendida como um sistema integrado que transcende a mera disponibilização de dispositivos de proteção, sustentando-se em pilares de gestão estratégica e protocolos de segurança rigorosos. A eficácia operacional, sob a perspectiva da segurança do trabalho, fundamenta-se na articulação entre a preparação técnica dos recursos humanos e o monitoramento constante das condições de saúde e operação (HACK, 2019).

A capacitação e o treinamento contínuo representam a primeira barreira contra sinistros em unidades armazenadoras. É imperativo que todos os profissionais — incluindo trabalhadores autorizados, vigias e supervisores de entrada — recebam instruções teóricas e práticas em conformidade com a NR-33 (BRASIL, 2012) . Esse processo de conscientização deve abranger a identificação de riscos sutis, como o acúmulo de poeiras explosivas e a presença de gases letais, garantindo que o grau de importância da segurança seja assimilado desde a gerência até o nível operacional.

No âmbito da saúde ocupacional, a realização de exames médicos específicos é condição sine qua non para a atividade em espaços confinados. O Atestado de Saúde Ocupacional (ASO) deve ser complementado por avaliações psicossociais, visando garantir que o colaborador possua aptidão física e mental para atuar em ambientes enclausurados e de alta complexidade. Tais exames são fundamentais para prevenir falhas humanas decorrentes de condições preexistentes ou instabilidades emocionais em situações críticas (SOLDERA, 2012).

A estrutura de segurança exige, obrigatoriamente, a constituição de uma equipe de vigilância externa qualificada. O vigia deve permanecer fora do silo durante toda a execução da tarefa, munido de equipamentos de comunicação e resgate, atuando como o elo de segurança vital para o trabalhador interno. Sua função é monitorar o ambiente e estar permanentemente apto a acionar os protocolos de salvamento, sem nunca ingressar no espaço confinado sem o suporte e as proteções adequadas (WEBER, 2005).

Por fim, a resiliência operacional é testada através de procedimentos de emergência e simulados de salvamento, que devem ser realizados ao menos uma vez ao ano. Esses exercícios garantem que a equipe de resgate esteja perfeitamente capacitada para atuar em diversos cenários identificados na análise de risco, dominando o uso de trips, guinchos e suportes de ancoragem para a extração de vítimas em tempo hábil.

A integridade física e psicológica do trabalhador deve ser tratada como prioridade absoluta da unidade produtiva. Falhas no sistema de segurança não acarretam apenas a perda irreparável de vidas humanas; elas comprometem o desempenho profissional, geram passivos jurídicos e afetam diretamente a sustentabilidade e a reputação da organização no setor agroindustrial.

3. CONCLUSÃO

A análise técnica realizada evidência que as unidades armazenadoras de grãos, embora pilares da economia agrícola, constituem ambientes de trabalho de alta complexidade e criticidade. A classificação dos silos como espaços confinados não é apenas uma definição normativa, mas um reconhecimento dos riscos intrínsecos — como o engolfamento, as atmosferas explosivas e a exposição a poeiras orgânicas — que exigem uma gestão de segurança rigorosa e ininterrupta.

Os dados e casos apresentados demonstram que a maioria das fatalidades no setor decorre da subestimação dos riscos e da negligência quanto aos protocolos de segurança. A conformidade com o arcabouço legal, especificamente as normas NR-33 e NR-31, revela-se como o único caminho viável para a mitigação de sinistros. Conclui-se que o uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) e Coletiva (EPC), embora indispensável, deve estar integrado a uma cultura organizacional que priorize o treinamento contínuo, a monitorização rigorosa de atmosferas e a presença ativa de equipes de vigilância e resgate.

Em suma, a preservação da integridade física e da saúde do trabalhador em silos depende da transição de uma postura reativa para uma abordagem preventiva de projeto e operação. Espera-se que este levantamento contribua para a conscientização de gestores e operários, fomentando a adoção de boas práticas que garantam a sustentabilidade humana e operacional no armazenamento de grãos no Brasil.

REFERÊNCIAS

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1Engenheiro eletricista e Engenheiro de segurança. Universidade federal de São João Del Rei. e-mail: alexnorbertof@hotmail.com
2Engenheira Agrônoma e Engenheira de Segurança do Trabalho. Doutora em Agronomia/Fitotecnia (ESAL/UFLA). e-mail: juara.eng.agronoma@gmail.com
3Docente e pesquisadora do Centro Universitário Alfredo Nasser. Doutora em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). e-mail: lorenatorres@unifan.edu.br
4Docente e pesquisadora de Química do Instituto de Pós-graduação de Goiás (IPOG). Mestre em Agroquímica pelo Instituto Federal Goiano (IFGoiano – Campus Rio Verde). e-mail: eng.quim.joema@gmail.com
5Docente do Curso Superior de Agronomia da Universidade Estadual de Goiás (UEG) do Instituto Acadêmico de Ciências Agrárias e Sustentabilidade Câmpus Posse. Doutora em Agronomia pela Universidade Federal de Goiás (UFG). e-mail: carolina.sena@ueg.br
6Docente do Curso Superior de Agronomia da Universidade Estadual de Goiás (UEG) do Instituto Acadêmico de Ciências Agrárias e Sustentabilidade Câmpus Posse. Doutor em Agronomia pela Universidade Federal de Goiás (UFG). e-mail: dennis.cruz@ueg.br
7Docente do Curso Superior de Agronomia da Universidade Estadual de Goiás (UEG) do Instituto Acadêmico de Ciências Agrárias e Sustentabilidade Câmpus Posse. Doutora em Entomologia pela Universidade Federal de Lavras (UFLA). e-mail: marianne.soares@ueg.br