EXTRAÇÃO DE DENTE DECÍDUO EM PACIENTE COM TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA GRAU III SOB SEDAÇÃO CONSCIENTE COM MIDAZOLAM: RELATO DE CASO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202510222303


Bárbara Samara Leopoldo Ferreira
Déborah Patrícia Resende da Costa
Orientador: Profª. Esp. Trinit De Lu Germano


RESUMO 

O atendimento odontológico às pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) traz à tona desafios consideráveis, especialmente quando há necessidade de sedação medicamentosa. O objetivo principal do estudo é relatar o caso clínico de uma paciente odontopediátrica, sexo feminino, 5 anos, com TEA grau III, submetida à uma exodontia de dente decíduo, 71 (incisivo central inferior esquerdo) sob sedação consciente com midazolam, devido à dificuldade de manejo convencional. O procedimento foi realizado com sucesso na Clínica Odontológica da Faculdade Metropolitana, com sucesso e sem intercorrências, apresentando excelente aceitação por parte da paciente e dos responsáveis. O caso evidencia que a sedação consciente com midazolam é uma estratégia eficaz e segura no manejo odontológico de pacientes com TEA, proporcionando um atendimento humanizado e atraumático. 

Palavras-chave: Transtorno do espectro autista. Odontopediatria. Sedação consciente. Dente Decíduo. Midazolam.

ABSTRACT 

Dental care for individuals with Autism Spectrum Disorder (ASD) presents considerable challenges, especially when pharmacological sedation is required. The main objective of this study is to report the clinical case of a pediatric patient, female, 5 years old, with ASD level III, who underwent extraction of a primary tooth, 71 (lower left central incisor), under conscious sedation with midazolam due to difficulties with conventional behavior management. The procedure was successfully performed at the Metropolitan Faculty Dental Clinic, without complications, and was well accepted by both the patient and her caregivers. This case highlights that conscious sedation with midazolam is an effective and safe strategy in the dental management of patients with ASD, providing a humanized and atraumatic approach.

Keywords: Autism spectrum disorder. Pediatric Dentistry. Conscious Sedation. Tooth, Deciduous. Midazolam.

1.  INTRODUÇÃO  

O Transtorno do Espectro Autista, conhecido como TEA, é uma condição que afeta o desenvolvimento do cérebro e pode causar dificuldades nas interações sociais, na comunicação e na realização de comportamentos repetitivos ou restritos. Essa condição costuma se apresentar com dificuldades na comunicação, na interação social e na rigidez em certos comportamentos e rotinas, crianças com autismo podem ter dificuldades para se expressar com palavras, fazer amizades ou dividir suas experiências e interesses com os outros, como também gostem de seguir rotinas, pois isso faz com que eles tenham uma previsão do dia a dia. (Abdulmonem, Mansour e Mohammed, 2020; Eman et al., 2020; Juma et al. 2019).  A frequência de indivíduos diagnosticados com TEA tem aumentado no decorrer dos últimos anos, e consequentemente leva a uma maior demanda de pacientes nos consultórios odontológicos. Isto traz a necessidade do preparo do dentista para atender estes pacientes, que por apresentarem necessidades especiais, geralmente possuem higiene bucal deficiente, devido ao déficit motor, sensorial e cognitivo. Com isso o cirurgião dentista torna-se aliado dos pacientes e cuidadores para promover uma saúde bucal adequada (Sant’Anna et al., 2017; Schimidt et al., 2007; Oredugba & Akindayomi, 2008)

O atendimento ao paciente com TEA é um desafio para o cirurgião-dentista, pois o atendimento odontológico é capaz de acionar a hipersensibilidade do paciente, a estimulação sensorial (som, toque e luz), desencadeando ansiedade, resistência e comportamentos desafiadores durante o tratamento (Vajawat; Deepika, 2012; Steins et al., 2012 apud Ribeiro, 2021). Por isso, o manejo comportamental, aliado à adoção de estratégias de sedação medicamentosa, pode ser essencial para garantir um atendimento mais seguro e humanizado.

No contexto do tratamento odontológico para pessoas TEA, os manejos de intervenções devem ser adaptados às suas necessidades específicas. Adota-se técnicas comportamentais e didáticas com o objetivo de reduzir tanto a frequência quanto a intensidade de eventuais traumas durante a consulta. Isso, por sua vez, facilita a interação entre o CD e o paciente, estabelecendo um vínculo fundamentado na confiança e segurança mútua.

Devido a condição atípica comportamental do paciente, o odontopediatra tem como recurso para o atendimento odontológico a utilização de fármacos que possam diminuir a ansiedade e o medo do paciente, tornando o tratamento mais humanizado. O uso de ansiolíticos ou sedativos têm se mostrado benéfico em procedimentos cirúrgicos ou operatórios de longa duração, especialmente em pacientes ansiosos, amedrontados, hiperativos ou rebeldes. Para crianças, uma das opções seguras, é a sedação mínima por meio de benzodiazepínicos administrados por via oral. (Andrade ET al., 2014).

Entre os recursos farmacológicos disponíveis, o Midazolam — um benzodiazepínico de curta duração — destaca-se pela segurança e previsibilidade de seus efeitos ansiolíticos e sedativos, sendo amplamente utilizado na odontopediatria para procedimentos de curta duração e em pacientes com dificuldades de cooperação (Carneiro, Albuquerque e Nuness, 2016; Vallugini et al., 2022). Sua utilização em pacientes com TEA grau III permite reduzir o estresse e a necessidade de contenção física, favorecendo a execução do tratamento de forma eficaz e tranquila.

Feitas essas considerações, este trabalho de conclusão de curso relata e discute um caso clínico de extração dentária que foi realizado em uma paciente odontopediátrica com TEA grau III sob sedação medicamentosa com Midazolan, com o objetivo de destacar as estratégias de manejo clínico e de controle comportamental que proporcionaram um atendimento seguro, humanizado e eficaz, favorecendo a colaboração e o conforto da  paciente durante um procedimento consideravelmente invasivo, como a extração de dente decíduo.

2.  METODOLOGIA  

Trata-se de um relato de caso, de natureza descritiva e analítica, com abordagem qualitativa, realizado na Clínica Odontológica da Faculdade Metropolitana de Rondônia – UNNESA, no período de outubro de 2025.

A paciente foi uma criança do sexo feminino, com 5 anos de idade, diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA) grau III, conforme relatório médico apresentado pelos responsáveis. Foram adotados os seguintes critérios: inclusão – pacientes pediátricos com diagnósticos de TEA e com indicação clínica de exodontia de dente decíduo; exclusão – pacientes com condições clínicas que contra indicam sedação. 

Antes do procedimento, será realizada uma avaliação prévia da paciente, composta por anamnese completa incluindo histórico médico, uso de medicações, alergias, histórico odontológico, comportamental, para identificar fatores que possam influenciar na colaboração e no conforto durante o atendimento. O responsável assinou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) autorizando a realização do procedimento e o uso de imagens clínicas. 

As estratégias de manejo comportamental aplicaram incluíram aproximação gradual, reforço positivo e técnicas de distração adequadas à faixa etária e às necessidades da paciente.

O procedimento cirúrgico consistiu em exodontia simples do dente decíduo 71, dente incisivo central inferior esquerdo, realizado na Clínica Odontológica da Faculdade Metropolitana seguindo protocolo de assepsia e instrumentação padronizada.

A sedação medicamentosa foi conduzida com Midazolam administrado por via intramuscular na dose de 0,1 mg/kg, aplicada 15 minutos antes do procedimento. A prática seguiu protocolo institucional com disponibilidade de antagonista (Flumazenil), suporte de oxigênio e monitoramento contínuo com oxímetro, verificando frequência cardíaca e saturação de O2. A equipe presente incluiu cirurgião-dentista responsável e com habilitação em sedação.

 O comportamento da paciente foi registrado e analisado de forma qualitativa, considerando parâmetros como colaboração, reações de estresse, tempo de execução do procedimento e necessidade de contenção física. Foram registradas variáveis temporais (tempo de sedação, tempo de procedimento e tempo de recuperação). O procedimento e a evolução imediata foram documentadas com fotografias clínicas (com autorização dos responsáveis).

As orientações pós-operatórias foram fornecidas aos responsáveis, com instruções escritas sobre sinais de alerta e contato em caso de intercorrências.

3.  RELATO DE CASO 

A paciente M.H.L.A.M., de 5 anos de idade, sexo feminino, foi trazida à Clínica de Odontologia da Faculdade Metropolitana por seus pais, que relataram preocupação com a mobilidade do incisivo central inferior deciduo do lado esquerto, elemento 71. A família buscou atendimento na instituição devido à limitação financeira para custear tratamento em clínicas particulares.

A paciente diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista com nível III de suporte, a condição é codificada pelo CID-10/F84.0 e pelo CID-11/6A02.Z (Anexo 1 Laudo Medico). O quadro clínico de M.H.L.A.M. é marcado por características comportamentais e sensoriais severas, que incluem seletividade alimenta, apegos a objetos e rotinas, prejuízo na interação, não oralizada, déficit na coordenação motora, sensibilidade sonora e tátil, impulsividade, hiperatividade, desatenção e comportamento hipercinético. A paciente faz uso contínuo de Risperidon1 mg/mL, na forma líquida via oral, com posologia de 1,0 mL pela manhã às 7:00h e 1,5 mL à noite às 19:00h (Anexo 2 – Receituário Risperidona). 

Os pais relataram que a última consulta odontológica de M.H.L.A.M. ocorreu há mais de 8 meses, na ocasião, o atendimento foi insatisfatório e grande estresse para a paciente e a família. Segundo o relato, a criança não permitiu a realização do exame clínico bucal devido ao seu comportamento hipercinético e à não cooperação, o que gerou aflição e ansiedade nos pais.

A motivação atual pela busca por assistência odontológica  se dá pela a mobilidade acentuada do elemento dentário 71, incisivo central inferior esquerdo decíduo, suspeitando-se de rizólise fisiológica e início do período de esfoliação dentária. A paciente não permite que os pais tendem a extração domiciliar, devido à sensibilidade tátil e resistência à manipulação, o que reforçou a necessidade de intervenção profissional.

Figura 1 – Foto inicial

Fonte – Elaborado pelo autor

Diante do histórico de insucesso em atendimentos anteriores com técnicas de manejo comportamental convencional, do perfil neurocomportamental da paciente  e da preocupação dos responsáveis com o bem-estar e a futura cooperação da paciente, que demonstrava intensa resistência à contenção física devido a sua sensibilidade sensorial, optou-se por uma abordagem de tratamento mais humanizada. Dessa forma, a sedação consciente medicamentosa foi recomendada e apresentada aos pais como o método mais eficaz e seguro para a realização da exodontia do elemento 71.

Devido a rigidez cognitiva, a sensibilidade sensorial, a falta de cooperação e da necessidade de um manejo humanizado, a sedação consciente medicamentosa foi o método de escolha, visando garantir o bem-estar físico e psicológico da paciente. Assim, conseguimos realizar o procedimento de forma rápida e eficiente, reduzindo ao máximo o risco de traumas ou experiências desagradáveis durante o atendimento odontológico.

O fármaco de escolha para a sedação foi o benzodiazepínico, Midazolam,   administrado pela via intramuscular. Esse fármaco é o primeiro de escolha devido às suas propriedades farmacocinéticas favoráveis sendo início de ação rápida, eficácia na redução da ansiedade, promoção de amnésia anterógrada e curta duração, além da  possibilidade de  reversão dos seus efeitos por meio do antagonista específico Flumazenill, se necessária a reversão dos seus efeitos. 

Como protocolo de segurança, consultamos com o médico responsável pela prescrição do Risperidon para avaliar os riscos de interação medicamentosa e ajustar o protocolo de sedação para reduzir os riscos de depressão respiratória ou reações paradoxais. Também, foi obtida a liberação de risco cirúrgico assinado pelo cardiologista (Anexo 3 – Risco Cirúrgico).

O tratamento foi realizado na Clínica Odontológica da Faculdade Metropolitana, Porto Velho/RO, buscando a máxima humanização do atendimento, o procedimento foi marcado para às 8h00min, sendo o  horário mais adequado a rotina da paciente, o ambiente foi adaptado para a redução mínima de estímulos sonoros e visuais. Previamente ao procedimento, garantindo a segurança e ética, os pais assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) (Anexo 5), após serem detalhadamente informados sobre o procedimento, a sedação e os seus possíveis riscos.

No dia anterior ao procedimento os responsáveis foram instruídos sobre os cuidados pré-operatórios, que consistiam em jejum de no mínimo de 8 horas, realizar a restrição controlada do sono na noite precedente, visando otimizar a sedação. Conforme orientação da consulta médica, a administração do Risperidona foi mantida em sua posologia habitual, sem a necessidade de suspensão.

O protocolo de sedação exigiu a associação de Midazolam, Cetamina e Parmegan, visando minimizar a potencial redução da eficácia farmacocinética do Midazolam devido à interação de alto nível com a Risperidona utilizada pela paciente. A Cetamina foi essencial, sendo um anestésico dissociativo que promove analgesia, sedação e imobilidade profunda, superando a resistência comum ao Midazolam e oferecendo maior estabilidade cardiovascular e respiratória. O Parmegan foi adicionado para potencializar a sedação, controlar a náusea e reduzir reações paradoxais da Cetamina, elevando a segurança e o conforto perioperatório. Essa combinação otimizada dos três fármacos garantiu a imobilidade necessária e aumentou a margem de segurança do procedimento, considerando o complexo perfil neurocomportamental e medicamentoso da paciente. As doses utilizadas na sedação para a paciente pensando 23 kg utilizou os seguintes volumes e as respectivas doses calculadas: Midazolam 5mg/ml, sendo 0,5mg/kg; Cetamina 50mg/ml, sendo 1,67mg/kg; Prometazina 25mg/ml, sendo 1,2mg/kg, totalizando os volumes de 1,5 ml de Midazolm, 0,5 ml de Cetamina e 0,72 ml de Parmegan.

Figura 2 – Medicamentos utilizados na sedação

Fonte:  Elaborado pelo autor

Com a paciente já posicionada na cadeira odontológica e o protocolo de sedação medicamentosa administrado por via intramuscular, iniciou-se o monitoramento rigoroso dos sinais vitais, durante todo o procedimento, o monitoramento foi realizado por meio de oxímetro de dedo, com aferições contínuas da saturação periférica de oxigênio e da frequência cardíaca, garantindo a estabilidade clínica da paciente, o nível de sedação alcançado foi satisfatório, caracterizado por sedação moderada a profunda, permitindo o manejo seguro e atraumático.

Figura 3 – Monitoramento por meio de oxímetro digital

Fonte: Elaborado pelo autor

Após a sedação ideal, foi realizado à anestesia local infiltrativa, sendo utilizado meio tubete de solução anestésica de Lidocaína 2% com Epinefrina 1:100.000. A Lidocaína assegurou o bloqueio da dor, enquanto a Epinefrina, na concentração de 1:100.000, garantiu a vasoconstrição necessária para prolongar o efeito anestésico e promover o controle hemostático na região.

A exodontia do incisivo central deciduo inferior esquerdo, elemento dentário 71 então foi realizada. Utilizado o abridor de boca tipo abritec, utilizado para manter a estabilidade da abertura bucal. Os instrumentais cirúrgicos utilizados incluíram o descolador de Molt, empregado para descolar delicadamente a gengiva marginal e a papila adjacente ao elemento dentário. Em seguida, utilizou-se o fórceps pediátrico nº01 para incisivos decíduos, aplicando-se movimentos controlados de luxação e tração, culminando na extração bem-sucedida do dente em um tempo cirúrgico mínimo. 

Figura 4 – Dente extraído

Fonte: Elaborada pelo autor

O procedimento transcorreu sem intercorrências e com sangramento mínimo, devido à natureza simples da exodontia do elemento decíduo e à integridade dos tecidos circundantes, não houve a necessidade de sutura, a hemostasia foi obtida apenas com o auxílio de compressão com gaze estéril.

Figura 5 – Foto final

Fonte: Elaborada pelo autor

 O monitoramento dos sinais vitais continuou até que a paciente apresentasse plena recuperação da sedação e estivesse clinicamente estável, sendo então liberada para os responsáveis com as devidas orientações pós-operatórias. O procedimento foi considerado um sucesso, atingindo o objetivo de resolver o quadro clínico de forma eficaz, segura e humanizada.

4.  DISCUSSÃO

Portanto, o presente caso clínico reforça a importância de um olhar humanizado e adaptado à individualidade dos pacientes com TEA nível III de suporte. Diante das severas dificuldades de cooperação e sensibilidade sensorial, a sedação consciente medicamentosa não se configurou apenas como uma solução técnica, mas como um ato de cuidado humanizado. A técnica, ao promover um procedimento atraumático e bem-sucedido, obteve excelente aceitação por parte dos responsáveis. O atendimento odontopediátrico desses pacientes exige preparo técnico e emocional, além de estratégias específicas para garantir conforto, segurança e eficácia nos procedimentos clínicos (Sant’Anna et al., 2017; Galli et al., 2023).

Segundo Ribeiro (2021), o ambiente odontológico pode desencadear crises sensoriais em pacientes com TEA, devido à hipersensibilidade a estímulos visuais, táteis e auditivos. Essa condição foi claramente observada na paciente relatada, que apresentava resistência à manipulação e comportamento hipercinético, dificultando o manejo convencional. Assim como descrito por Amaral et al. (2012) e Oliveira (2018), o uso de técnicas de adaptação comportamental associadas à sedação farmacológica é essencial para o sucesso clínico nesses casos, pois reduz o estresse e previne experiências odontológicas traumáticas.

A literatura destaca que, em pacientes com TEA, a abordagem deve priorizar o controle de estímulos e a criação de um ambiente previsível, o que contribui para a redução da ansiedade e da resistência durante o tratamento (Volpato et al., 2013; Vajawat & Deepika, 2012). No presente caso, o ambiente clínico foi adaptado com luz suave e sons reduzidos, seguindo recomendações de controle sensorial, além da adoção de técnicas de reforço positivo e aproximação gradual, como defendido por Akhila & Sharmin (2015).

Com relação ao manejo farmacológico, a sedação consciente com midazolam foi escolhida por apresentar segurança e eficácia comprovadas em odontopediatria, especialmente em pacientes com necessidades especiais (Carneiro, Albuquerque e Nunes, 2016; Vallugini et al., 2022). O midazolam é um benzodiazepínico de curta duração que promove ansiólise, amnésia anterógrada e relaxamento muscular, possibilitando a realização de procedimentos rápidos e atraumáticos (Correia, 2024). No caso relatado, a via intramuscular foi selecionada devido à resistência da paciente à administração oral e ao comportamento não cooperativo, sendo uma alternativa segura e de rápido início de ação.

Além disso, considerando o uso contínuo de risperidona, foi necessária a associação com ketamina e prometazina (Parmegan) para alcançar o nível adequado de sedação, conforme discutido por Ramalho et al. (2017). Essa combinação, após avaliação médica prévia, demonstrou ser eficaz e segura, evitando reações paradoxais e eventos respiratórios. Esse cuidado reflete a importância da interconsulta e da individualização do protocolo farmacológico, o que está em conformidade com as boas práticas em sedação pediátrica (Pereira & Carvalhaes, 2020).

A utilização da sedação consciente neste caso não teve apenas o objetivo técnico de controlar o comportamento, mas também o propósito de proporcionar uma experiência odontológica positiva e humanizada. Autores como Lewis et al. (2015) e Amaral et al. (2012) destacam que experiências traumáticas podem gerar resistência a futuros tratamentos e agravar o medo odontológico. Dessa forma, o sucesso do procedimento realizado sob sedação consciente contribui para o fortalecimento do vínculo entre paciente, profissional e família, garantindo adesão ao cuidado bucal a longo prazo.

Assim, a conduta adotada neste relato confirma as evidências encontradas na literatura: o uso de protocolos personalizados, baseados em manejo comportamental, controle sensorial e sedação consciente, é essencial para o atendimento odontopediátrico seguro e eficaz em pacientes com TEA grau III. O resultado positivo obtido, sem intercorrências e com plena aceitação familiar, corrobora os estudos de Vallugini et al. (2022) e Galli et al. (2023), que apontam a sedação consciente como uma ferramenta indispensável para promover um atendimento humanizado, ético e livre de traumas.

5.  CONSIDERAÇÕES FINAIS  

O presente relato de caso permitiu demonstrar que o atendimento odontopediátrico de pacientes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) grau III requer um conjunto de estratégias clínicas, comportamentais e farmacológicas cuidadosamente planejadas, com foco na segurança, conforto e bem-estar do paciente. A sedação consciente medicamentosa com midazolam, associada à ketamina e prometazina (Parmegan), mostrou-se uma alternativa eficaz e segura quando as técnicas não farmacológicas se tornam insuficientes para garantir a cooperação.

O sucesso da exodontia do dente decíduo em uma paciente com severas limitações de comunicação e sensibilidade sensorial reforça a importância do manejo humanizado e interdisciplinar, que valoriza o diálogo entre cirurgião-dentista, equipe médica e familiares. A escolha criteriosa do protocolo de sedação, a preparação ambiental e o respeito ao perfil comportamental da paciente foram determinantes para o resultado positivo e para a ausência de intercorrências.

Constatou-se que a sedação consciente, quando bem indicada e monitorada, não apenas facilita o procedimento odontológico, mas também contribui para reduzir traumas, ansiedade e medo associados às consultas. Assim, promove experiências positivas e melhora a adesão ao cuidado bucal em longo prazo, tanto para o paciente quanto para a família.

Por fim, este trabalho reforça que o uso do midazolam em odontopediatria, aliado a um manejo empático e técnico, representa uma ferramenta indispensável na prática clínica, especialmente em pacientes com necessidades especiais. A personalização do atendimento e o respeito às particularidades do TEA devem ser princípios norteadores da atuação odontológica, garantindo um cuidado ético, seguro e verdadeiramente humanizado.  

6.  REFERÊNCIAS

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