EVOLUTION OF MMR (MEASLES, MUMPS, RUBELLA) VACCINATION COVERAGE IN BRAZIL (2017-2022): CHALLENGES AND IMPACTS ON PUBLIC HEALTH
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202512050651
Aline Hellen Batista Soares1; Anny Karoline Silva Costa1; Karem Fabiane Gomes Cruz1; Laura Monique Oliveira Colares1; Flávio Junior Barbosa Figueiredo2; Karina Andrade De Prince2; Talita Antunes Guimarães2; Valéria Farias Andrade2
Resumo
Considerando o declínio progressivo das coberturas vacinais no Brasil e a reintrodução de doenças imunopreveníveis, como o sarampo, este estudo justifica-se pela necessidade de compreender os fatores que influenciam a adesão à vacina tríplice viral. O objetivo é avaliar a evolução da cobertura vacinal dessa imunização no país entre 2017 e 2022, identificando os fatores associados à queda dos índices e suas repercussões na saúde coletiva. Trata-se de um estudo descritivo e quantitativo, com base em dados secundários obtidos no Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações, disponibilizado pelo Ministério da Saúde. Os resultados indicam que as coberturas da primeira e da segunda dose apresentam declínio contínuo ao longo do período analisado, com maior redução entre 2018 e 2020, coincidindo com o início da pandemia de Covid-19. Embora se verifique leve recuperação nos anos de 2021 e 2022, os índices permanecem abaixo da meta recomendada pela Organização Mundial da Saúde. As regiões Sul e Sudeste apresentam melhor desempenho em comparação às regiões Norte e Nordeste, que registram as menores coberturas. Conclui-se que o fortalecimento das políticas públicas de imunização, a ampliação das estratégias de comunicação e a busca ativa por indivíduos não vacinados são medidas essenciais para restaurar a confiança da população e garantir a imunidade coletiva.
Palavras-chave: Imunização. Saúde Pública. Cobertura Vacinal. DATASUS.
Abstract
Considering the progressive decline in vaccination coverage in Brazil and the reintroduction of vaccine-preventable diseases, such as measles, this study is justified by the need to understand the factors that influence adherence to the MMR vaccine. The objective is to evaluate the evolution of vaccination coverage for this immunization in the country between 2017 and 2022, identifying the factors associated with the drop in rates and their repercussions on public health. This is a descriptive and quantitative study, based on secondary data obtained from the National Immunization Program Information System, made available by the Ministry of Health. The results indicate that coverage for the first and second doses shows a continuous decline throughout the analyzed period, with the greatest reduction between 2018 and 2020, coinciding with the beginning of the Covid-19 pandemic. Although a slight recovery was observed in 2021 and 2022, the rates remain below the target recommended by the World Health Organization. The South and Southeast regions show better performance compared to the North and Northeast regions, which register the lowest coverage rates. It is concluded that strengthening public immunization policies, expanding communication strategies, and actively seeking out unvaccinated individuals are essential measures to restore public confidence and guarantee herd immunity.
Keywords: Immunization. Public Health. Vaccination Coverage. DATASUS.
1 INTRODUÇÃO
Considerada uma das intervenções mais importantes e eficazes na área da saúde pública, a imunização desempenha um papel determinante na prevenção de doenças transmissíveis e na melhoria da qualidade de vida coletiva. Mundialmente, os programas de imunização têm possibilitado a erradicação e o controle de várias doenças infecciosas, contribuindo significativamente para a redução dos índices de adoecimento e morte, particularmente entre crianças (SANTOS; COSTA, 2021).
No Brasil, o Programa Nacional de Imunizações (PNI), instituído em 1973, constitui referência internacional em razão da sua abrangência, da oferta universal e gratuita de imunobiológicos e da sua articulação com o Sistema Único de Saúde (SUS) (BRASIl, 2022). Dentre os imunizantes ofertados, a tríplice viral se destaca, pois protege contra o sarampo, a caxumba e a rubéola — doenças de elevada transmissibilidade. Esse imunizante, composto por vírus vivos atenuados, integra o Calendário Nacional de Vacinação desde 1992 e é recomendado para crianças a partir dos 12 meses de idade, com a aplicação de uma segunda dose aos 15 meses. Além disso, indica-se sua aplicação para adolescentes e adultos que não tenham sido imunizados previamente (SILVA, 2023).
A cobertura vacinal eficaz contra o sarampo permite que o Brasil receba, em 2016, a certificação de eliminação da doença pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS, 2019). Esse reconhecimento ocorre graças à elevada cobertura vacinal, que ultrapassa os 95% da população-alvo. No entanto, esse cenário se compromete gradativamente nos anos seguintes, particularmente entre 2017 e 2022, quando o país enfrenta uma redução acentuada das taxas de imunização e o consequente reaparecimento de surtos, como o de sarampo registrado a partir de 2018.
Essa regressão associa-se a múltiplos fatores, entre os quais se destacam a hesitação vacinal — caracterizada pela recusa ou adiamento da vacinação mesmo diante da disponibilidade dos serviços —, a diminuição das campanhas de conscientização, as desigualdades sociais e regionais, bem como os impactos gerados pela pandemia da Covid-19 sobre os serviços de atenção primária (DOMINGUES; TEIXEIRA, 2020). A Organização Mundial da Saúde (OMS), inclusive, identifica a hesitação vacinal como uma das dez principais ameaças à saúde global em 2019.
Adicionalmente, a circulação de desinformações nas redes sociais desempenha papel central na desconfiança da população em relação à segurança e à eficácia dos imunizantes. O fluxo desregulado de notícias falsas, comumente difundidas nas plataformas digitais, enfraquece a confiança nos programas públicos de vacinação (GOMES, 2022). Soma-se a isso a persistência de desigualdades estruturais: municípios com baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) enfrentam maiores dificuldades para alcançar as metas de cobertura vacinal, o que demanda políticas públicas equitativas e estratégias focalizadas nas populações mais vulneráveis (BARATA; RIBEIRO, 2022).
Diante desse contexto, o presente estudo tem como objetivo analisar a evolução da cobertura vacinal do tríplice viral no Brasil entre 2017 e 2022, investigando os principais fatores que influenciam a redução das taxas de imunização e os efeitos desse fenômeno na saúde coletiva. Busca-se, ainda, examinar as medidas governamentais adotadas para conter surtos, restaurar os índices vacinais e reforçar o PNI como instrumento fundamental para a garantia do direito à saúde e a proteção contra doenças imunopreveníveis.
2 METODOLOGIA
O estudo utiliza dados secundários obtidos do Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI), acessíveis no portal do DataSUS, vinculado ao Ministério da Saúde. Trata-se de um estudo descritivo, de abordagem quantitativa, cujo objetivo é analisar a evolução da cobertura vacinal da tríplice viral no Brasil entre 2017 e 2022.
Os dados coletados referem-se à cobertura vacinal anual da primeira e da segunda dose da tríplice viral, considerando o público-alvo estabelecido pelo calendário nacional de vacinação. A análise ocorre por meio de tabulação e interpretação descritiva das informações, com a apresentação dos resultados em gráficos e tabelas que permitem visualizar as variações no período estudado.
Além disso, são considerados marcos históricos e acontecimentos que possam afetar os indicadores vacinais, como surtos de doenças imunopreveníveis e a pandemia de Covid-19. A análise dos resultados fundamenta-se na literatura científica e em documentos oficiais do Ministério da Saúde e da Organização Pan-Americana.
3 RESULTADOS E DISCUSSÕES
O período entre 2017 e 2022 evidencia um declínio significativo na cobertura vacinal da Tríplice Viral no Brasil, tanto para a primeira dose (D1) quanto para a segunda dose (D2). Os dados demonstram que essa redução ocorre de forma progressiva e contínua, com variações de intensidade conforme o período e a região geográfica analisada.
Em 2017, os índices nacionais apresentam coberturas satisfatórias, com a D1 ultrapassando 95% e a D2 atingindo aproximadamente 92%, atendendo, em parte, às metas preconizadas pelo Ministério da Saúde. A partir de 2018, verifica-se uma tendência de queda acentuada nas duas doses, com redução mais expressiva para a D2.
O ano de 2020 representa o ponto mais crítico da série histórica, coincidindo com o início da pandemia de Covid-19. Nesse período, a cobertura vacinal da D1 reduz-se para cerca de 80% e a da D2 para aproximadamente 70%. Nos anos seguintes, 2021 e 2022, observa-se uma leve recuperação dos índices, com a D1 aproximando-se de 83% e a D2 mantendo-se em torno de 73%. Apesar dessa melhora, os valores permanecem abaixo do mínimo de 95% recomendado pela OMS para a manutenção da imunidade coletiva, conforme ilustra o gráfico abaixo:
Figura 1: Cobertura vacinal para dose 1 e dose 2 da Tríplice Viral no Brasil por ano, entre 2017 e 2022.

A análise regional indica desigualdades significativas entre as diferentes regiões do país. As regiões Sul e Sudeste mantêm percentuais mais elevados e declínios menos acentuados, com médias próximas a 90% para a D1 em 2019 e 2020. Em contrapartida, as regiões Norte e Nordeste apresentam reduções mais pronunciadas, com índices inferiores a 75% em alguns estados, tanto para a D1 quanto para a D2.
Esses resultados demonstram que, no período analisado, o Brasil não alcança as metas de cobertura vacinal preconizadas, apresentando variações regionais relevantes e uma diferença persistente entre as duas doses da vacina Tríplice Viral.
Figura 2: Cobertura vacinal para dose 1 e dose 2 da Tríplice Viral no Brasil conforme região entre 2017-2022

Os resultados obtidos evidenciam uma tendência de declínio progressivo na cobertura vacinal da Tríplice Viral em todo o território brasileiro, comportamento que acompanha o padrão observado em outras vacinas do Programa Nacional de Imunizações no mesmo período. Essa redução tem sido amplamente discutida na literatura e reflete uma combinação de fatores estruturais, comportamentais e comunicacionais que impactam o alcance das metas preconizadas pelo Ministério da Saúde e pela OMS.
Domingues e Teixeira (2020) apontam que a queda das coberturas vacinais no Brasil se inicia antes da pandemia de Covid-19, evidenciando fragilidades no sistema de imunização e uma progressiva redução da adesão da população às campanhas nacionais. A partir de 2018, observa-se um afastamento das metas históricas de 95%, especialmente em vacinas aplicadas em duas doses, como a Tríplice Viral, nas quais a adesão à segunda aplicação (D2) tende a ser menor. Esse comportamento também é identificado por Silva et al. (2023), que destacam a dificuldade de manutenção do esquema vacinal completo e a influência de fatores logísticos e de comunicação na continuidade da vacinação.
Figura 3: Cobertura vacinal para dose 1 da Tríplice Viral no Brasil, conforme região entre 2017-2019

Durante o período da pandemia, a interrupção temporária de campanhas presenciais, as restrições de mobilidade, o receio de exposição ao vírus e a sobrecarga dos serviços de saúde intensificam a queda das coberturas, conforme apontam dados do Ministério da Saúde. Ainda que a recuperação observada em 2021 e 2022 indique esforços de retomada das ações de imunização, os níveis permanecem aquém do ideal para a garantia da imunidade coletiva, estimada em 95% pela OMS (2023).
As desigualdades regionais observadas nos resultados reforçam que fatores socioeconômicos e estruturais exercem influência direta sobre o desempenho das campanhas de vacinação. As regiões Sul e Sudeste, tradicionalmente com maior infraestrutura e acesso aos serviços de saúde, mantêm coberturas mais elevadas, enquanto as regiões Norte e Nordeste apresentam índices inferiores, refletindo limitações de acesso, menor disponibilidade de recursos e menor efetividade das estratégias de mobilização social. Essa disparidade corrobora análises realizadas por Gomes et al. (2022), que destacam a influência do contexto territorial e da vulnerabilidade social na adesão às vacinas.
Figura 4: Cobertura vacinal para dose 2 da Tríplice Viral no Brasil por ano segundo região entre 2017-201

Outro aspecto relevante é o avanço da hesitação vacinal, fenômeno que se intensifica com a disseminação de inverdades nas redes sociais e a redução das ações educativas voltadas à conscientização da população. Conforme destaca a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS, 2020), a confiança pública nas vacinas é um dos pilares da imunização em massa, e sua fragilização impacta diretamente as taxas de cobertura. A hesitação vacinal, associada a percepções equivocadas sobre riscos e à circulação de notícias falsas, constitui um dos principais desafios contemporâneos para os programas de imunização.
As consequências dessa redução tornam-se evidentes com a reintrodução do sarampo no Brasil em 2018, apenas dois anos após o país ter recebido da OPAS o certificado de eliminação da doença. Tal fato demonstra o impacto direto da queda nas coberturas vacinais sobre a segurança sanitária coletiva e a sustentabilidade dos avanços conquistados pelo PNIao longo de suas décadas de existência.
Neste contexto, destaca-se a importância de fortalecer as políticas públicas de imunização, com foco na busca ativa de não vacinados, na reorganização das campanhas nacionais, na educação permanente em saúde e na modernização dos sistemas de informação. A retomada das coberturas vacinais da Tríplice Viral depende de estratégias integradas que envolvam profissionais de saúde, gestores, escolas e meios de comunicação, a fim de restabelecer a confiança social e garantir a proteção coletiva contra doenças imunopreveníveis.
4 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo evidencia um declínio contínuo na cobertura vacinal da tríplice viral no Brasil entre 2017 e 2022, com índices inferiores à meta de 95% recomendada pela OMS, especialmente em relação à segunda dose. Os resultados indicam que fatores como a hesitação vacinal, a disseminação de inverdades, as desigualdades regionais e os impactos da pandemia de Covid-19 contribuem para essa redução. As regiões Norte e Nordeste apresentaram os menores percentuais, refletindo limitações estruturais e dificuldades de acesso aos serviços de saúde. Dessa forma, destaca-se a necessidade de fortalecer o Programa Nacional de Imunizações, aprimorar as estratégias de comunicação em saúde e promover ações que reforcem a confiança da população nas vacinas. A recuperação das coberturas vacinais mostra-se indispensável para garantir a imunidade coletiva e evitar o ressurgimento de doenças previamente controladas no país.
REFERÊNCIAS
BARATA, Rita de Cássia Barradas; RIBEIRO, Maria Clara Padovani. Cobertura vacinal e desigualdade social no Brasil: desafios persistentes. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 56, n. 75, p. 72-78, 2022.
BRASIL. Ministério da Saúde. DATASUS. Tabnet. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2022.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis. Programa Nacional de Imunizações: 50 anos. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. 116 p.
DOMINGUES, Carla Magda Allan S.; TEIXEIRA, Ana Maria. Coberturas vacinais e doenças imunopreveníveis no Brasil antes e durante a pandemia da COVID-19. Revista Brasileira de Epidemiologia, São Paulo, v. 23, e200114, p. 1-11, 2020.
GOMES, Mariana S.; OLIVEIRA, Fernanda A.; LIMA, Beatriz M. Fake news e vacinação: o impacto da desinformação na saúde pública. Revista Saúde & Comunicação, Rio de Janeiro, v. 27, n. 2, p. 85-92, 2022.
OPAS – ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Brasil é certificado pela eliminação do sarampo. Washington, DC: OPAS, 2019. Disponível em: https://www.paho.org/pt/noticias/2016. Acesso em: 14 maio 2025.
SANTOS, Luana F.; COSTA, Juliana M. A importância da vacinação na prevenção de doenças infecciosas. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 37, n. 1, p. 12-18, 2021.
SILVA, Adriana L. et al. Panorama da vacinação infantil no Brasil: desafios pós-pandemia. Jornal Brasileiro de Medicina, São Paulo, v. 107, n. 3, p. 100-105, 2023.
1Discente do Curso Superior de Farmácia da Afya Centro Universitário Montes Claros Campus UnifipMoc e-mail: aline.hellen@ymail.com; annykarol13@icloud.com; 998667234karem@gmail.com; lmoliveiracolares@gmail.com;
2Docentes do Curso Superior de Farmácia da Afya Centro Universitário Montes Claros, Campus UnifipMoc: Flávio Figueiredo – Mestre em Ciências da Saúde; Karina Prince – Mestre em Ciências da Saúde; Talita Guimarães – Mestre em Ciências da Saúde; Valéria Andrade – Mestre em Produção Vegetal. E-mails: flavio.figueiredo@afya.com.br; karinaprince0708@gmail.com; talita.guimaraes@afya.com.br; valeria.andrade@afya.com.br.
