EVIDÊNCIAS SOBRE O USO DA REALIDADE VIRTUAL NA REABILITAÇÃO DE PACIENTES CRÍTICOS: UMA REVISÃO INTEGRATIVA DA LITERATURA

EVIDENCE ON THE USE OF VIRTUAL REALITY IN THE REHABILITATION OF CRITICALLY ILL PATIENTS: AN INTEGRATIVE LITERATURE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202510262042


Filipe dos Santos Costa1; Meriam de Nazaré Marques Ferreira2; Tatiane Bahia do Vale Silva3; Gabriel Vinícius Reis de Queiroz4


RESUMO:

Introdução: Pacientes internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) frequentemente apresentam complicações decorrentes da imobilidade prolongada, como fraqueza muscular adquirida, prejuízos funcionais e alterações cognitivas. A reabilitação fisioterapêutica precoce tem papel essencial na prevenção desses efeitos. Nesse contexto, a realidade virtual (RV) surge como um recurso tecnológico inovador e promissor, capaz de integrar estímulos motores e cognitivos de maneira interativa e segura. Objetivo: Analisar as evidências científicas sobre a aplicação da realidade virtual na reabilitação fisioterapêutica de pacientes internados em UTIs, identificando benefícios, limitações e critérios de elegibilidade. Métodos: Trata-se de uma revisão integrativa da literatura realizada entre janeiro e agosto de 2025. Foram consultadas as bases de dados PubMed, SciELO, LILACS, BIREME e Cochrane Library, com os descritores “Realidade Virtual”, “Fisioterapia”, “Unidade de Terapia Intensiva” e “Reabilitação Precoce”, em português, inglês e espanhol. Foram incluídos estudos publicados entre 2011 e 2025 que abordassem o uso da RV como recurso complementar à fisioterapia em pacientes críticos. Resultados: Oito estudos atenderam aos critérios de inclusão. As evidências apontam que a RV é uma ferramenta de baixo custo, segura e eficaz para mobilização precoce e reabilitação funcional em pacientes internados em UTI. Dispositivos como óculos de RV e consoles interativos (Nintendo Wii™, Xbox Kinect®) apresentaram boa aceitação clínica e adesão dos pacientes. Entretanto, persistem desafios relacionados à ausência de protocolos padronizados, à resistência da equipe multiprofissional e à limitação dos critérios de elegibilidade. Conclusão: A realidade virtual representa uma alternativa viável e inovadora na reabilitação fisioterapêutica intensiva, promovendo ganhos motores, cognitivos e emocionais. A consolidação dessa tecnologia na prática clínica depende do desenvolvimento de protocolos específicos, treinamento da equipe e ampliação das evidências sobre sua segurança e eficácia.

Palavras-chave: Realidade Virtual; Fisioterapia; Unidade de Terapia Intensiva; Reabilitação Precoce; Tecnologia em Saúde.

ABSTRACT:

Introduction: Patients admitted to Intensive Care Units (ICUs) often develop complications resulting from prolonged immobility, such as acquired muscle weakness, functional impairments, and cognitive alterations. Early physiotherapeutic rehabilitation plays an essential role in preventing these effects. In this context, virtual reality (VR) emerges as an innovative and promising technological tool capable of integrating motor and cognitive stimuli in an interactive and safe manner. Objective: To analyze the scientific evidence on the application of virtual reality in the physiotherapeutic rehabilitation of patients hospitalized in ICUs, identifying benefits, limitations, and eligibility criteria. Methods: This is an integrative literature review conducted between January and August 2025. The databases PubMed, SciELO, LILACS, BIREME, and the Cochrane Library were consulted using the descriptors “Virtual Reality,” “Physiotherapy,” “Intensive Care Unit,” and “Early Rehabilitation” in Portuguese, English, and Spanish. Studies published between 2011 and 2025 that addressed the use of VR as a complementary resource to physiotherapy in critically ill patients were included. Results: Eight studies met the inclusion criteria. Evidence indicates that VR is a low- cost, safe, and effective tool for early mobilization and functional rehabilitation in ICU patients. Devices such as VR headsets and interactive consoles (Nintendo Wii™, Xbox Kinect®) demonstrated good clinical acceptance and patient adherence. However, challenges remain regarding the absence of standardized protocols, resistance from the multidisciplinary team, and limitations in eligibility criteria. Conclusion: Virtual reality represents a viable and innovative alternative for intensive physiotherapeutic rehabilitation, promoting motor, cognitive, and emotional gains. The consolidation of this technology in clinical practice depends on the development of specific protocols, team training, and the expansion of evidence on its safety and efficacy.

Keywords: Virtual Reality; Physiotherapy; Intensive Care Unit; Early Rehabilitation; Health Technology.

Introdução

A Unidade de Terapia Intensiva (UTI) constitui um ambiente altamente especializado destinado ao cuidado de pacientes em estado crítico, exigindo assistência contínua e interdisciplinar para reduzir complicações e otimizar o processo de recuperação (HALVORSEN et al., 2021). Entretanto, o contexto da terapia intensiva é marcado por fatores estressores, como ruído constante, iluminação artificial intensa e privação de sono, que impactam negativamente o bem-estar físico e psicológico dos pacientes, podendo prolongar o tempo de internação e comprometer a reabilitação funcional (CHILLURA et al., 2020; OLIVEIRA et al., 2025).

A imobilidade prolongada, comum entre pacientes internados em UTI, pode acarretar alterações musculoesqueléticas, déficits cognitivos, distúrbios do equilíbrio e coordenação, além de delírio e sofrimento psíquico (HALVORSEN et al., 2021; RAPOSO et al., 2022). Nesse cenário, a fisioterapia desempenha papel fundamental na promoção da mobilização precoce e na prevenção de disfunções secundárias à hospitalização. Estudos apontam que a reabilitação fisioterapêutica precoce está associada à melhora da função motora, à redução do tempo de ventilação mecânica e à diminuição das taxas de morbimortalidade (PINHEIRO et al., 2021; GOMES et al., 2019).

Com o avanço das tecnologias digitais, novas ferramentas têm sido incorporadas à prática clínica, com destaque para a realidade virtual (RV), considerada uma estratégia inovadora e interativa capaz de estimular simultaneamente aspectos motores, cognitivos e emocionais dos pacientes (BRUNO et al., 2022). A RV consiste na criação de um ambiente tridimensional simulado que permite a interação do usuário com estímulos virtuais por meio de dispositivos imersivos, como óculos de realidade virtual, sensores de movimento e consoles interativos (Nintendo Wii™, Xbox Kinect®), ampliando as possibilidades terapêuticas de forma segura e controlada (PARKE et al., 2020; LIU et al., 2025).

A incorporação da RV à fisioterapia hospitalar tem demonstrado potencial para promover maior engajamento dos pacientes e favorecer a adesão aos protocolos de reabilitação. Evidências sugerem que a utilização de sistemas de jogos interativos pode gerar estímulos suficientes para induzir atividade física, contribuindo para a melhora da força muscular, mobilidade e equilíbrio, além de reduzir estresse, dor e ansiedade durante o período de internação (RAPOSO et al., 2022; PINHEIRO et al., 2021). Ademais, a aplicação da RV tem sido associada à humanização do cuidado intensivo, ao proporcionar experiências lúdicas e motivacionais em um contexto frequentemente marcado pela monotonia e pelo sofrimento (GOMES et al., 2019).

Apesar dos resultados promissores, desafios importantes ainda limitam a disseminação dessa tecnologia na prática clínica, como a ausência de protocolos padronizados, os custos operacionais, a necessidade de treinamento das equipes multiprofissionais e a definição de critérios de elegibilidade adequados (LIU et al., 2025). Assim, torna-se necessário aprofundar a análise das evidências científicas sobre a aplicação da RV em pacientes críticos, de modo a fundamentar sua utilização de maneira sistemática e baseada em evidências.

Diante desse panorama, este estudo tem como objetivo analisar as evidências científicas sobre o uso da realidade virtual na reabilitação fisioterapêutica de pacientes internados em Unidades de Terapia Intensiva, identificando seus benefícios, limitações e critérios de elegibilidade, bem como sua viabilidade clínica na reabilitação intensiva.

Materiais e métodos

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, elaborada entre janeiro e agosto de 2025, com o propósito de reunir, analisar e sintetizar evidências científicas sobre a aplicação da realidade virtual (RV) na reabilitação fisioterapêutica de pacientes internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). A revisão seguiu as seis etapas metodológicas propostas por Whittemore e Knafl (2005) e sistematizadas por Souza, Silva e Carvalho (2010): (1) identificação do problema, (2) definição dos critérios de busca e seleção da literatura, (3) categorização dos estudos, (4) avaliação crítica das evidências, (5) interpretação e síntese dos resultados e (6) apresentação da revisão.

Identificação do problema e formulação da questão norteadora

A etapa inicial consistiu na delimitação do problema de pesquisa, definida a partir da escassez de estudos sobre o uso da realidade virtual como recurso complementar à fisioterapia intensiva. Assim, formulou-se a questão norteadora segundo a estratégia PICO (População, Intervenção, Comparação, Outcomes): pacientes internados em Unidades de Terapia Intensiva; uso da realidade virtual como recurso fisioterapêutico; fisioterapia convencional ou ausência de intervenção tecnológica; benefícios clínicos, funcionais e emocionais decorrentes da aplicação da RV.

Dessa forma, estabeleceu-se a seguinte pergunta: “Quais são as evidências científicas disponíveis sobre o uso da realidade virtual na reabilitação fisioterapêutica de pacientes críticos internados em Unidades de Terapia Intensiva?”

Busca e seleção da literatura

A busca bibliográfica foi conduzida de forma sistematizada nas bases de dados PubMed, SciELO, LILACS, BIREME e Cochrane Library, abrangendo o período de 2011 a 2025, de modo a contemplar produções científicas recentes e relevantes sobre o tema.

Os descritores utilizados foram selecionados a partir dos vocabulários DeCS (Descritores em Ciências da Saúde) e MeSH (Medical Subject Headings), nas línguas portuguesa, inglesa e espanhola. Foram empregados, isoladamente e em combinação com operadores booleanos (“AND”, “OR”), os seguintes termos: “Reabilitação” (Rehabilitation); “Fisioterapia” (Physical Therapy Modalities); “Realidade Virtual” (Virtual Reality); “Unidade de Terapia Intensiva” (Intensive Care Units); “Cuidados Críticos” (Critical Care); “Pacientes Internados” (Hospitalized Patients); “Exercício Terapêutico” (Exercise Therapy); “Tecnologia em Saúde” (Health Technology); “Função Motora” (Motor Activity); “Engajamento do Paciente” (Patient Engagement); “Motivação” (Motivation); “Reabilitação Precoce” (Early Ambulation); “Segurança do Paciente” (Patient Safety) e “Avaliação dos Resultados da Reabilitação” (Outcome Assessment, Health Care).

Os critérios de inclusão compreenderam ensaios clínicos controlados e não controlados, artigos originais publicados entre os anos de 2011 e 2025, estudos realizados com pacientes adultos internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTI), publicações redigidas em português, inglês ou espanhol, e artigos disponíveis na íntegra e devidamente indexados nas bases de dados selecionadas. Foram excluídos da análise os artigos publicados antes de 2011, estudos não indexados nas bases consultadas, resumos de eventos científicos, capítulos de livros, revisões sistemáticas e integrativas, relatos de caso, artigos de opinião e pesquisas que não abordassem diretamente pacientes em ambiente de UTI.

Categorização dos estudos

Após a busca, os artigos identificados foram exportados para o software Rayyan QCRI, utilizado para triagem e gerenciamento das referências. A seleção ocorreu em duas etapas: 1) leitura de títulos e resumos para identificação da pertinência temática; 2) leitura integral dos textos elegíveis, a fim de confirmar a adequação aos critérios estabelecidos. Os estudos incluídos foram organizados em uma planilha elaborada no Microsoft Excel®, contendo informações sobre autor, ano, país, delineamento metodológico, amostra, tipo de intervenção, instrumentos utilizados, desfechos avaliados e principais resultados.

Avaliação crítica dos estudos

A análise da qualidade metodológica dos artigos foi realizada de forma independente por dois revisores, com base nas recomendações da Joanna Briggs Institute (JBI, 2020), utilizando checklists específicos para ensaios clínicos e estudos quase-experimentais. As divergências foram resolvidas por consenso. Essa etapa buscou assegurar a credibilidade e a robustez das evidências incluídas.

Interpretação e síntese dos resultados

Os resultados foram analisados de maneira descritiva e interpretativa, com enfoque na identificação dos principais benefícios, limitações e implicações clínicas do uso da realidade virtual em pacientes críticos. Foi realizada uma síntese narrativa integrativa, considerando convergências, divergências e lacunas entre os estudos, de modo a subsidiar discussões teóricas e recomendações para futuras pesquisas e práticas clínicas.

Apresentação da revisão

A última etapa consistiu na sistematização e apresentação dos achados, buscando evidenciar o estado atual do conhecimento sobre a aplicação da RV na reabilitação intensiva e suas contribuições para a prática fisioterapêutica baseada em evidências. Os resultados foram organizados de forma a permitir uma visão crítica e integrada das tendências, limitações metodológicas e potencialidades dessa tecnologia no contexto hospitalar.

Resultados

Durante a realização desta revisão integrativa, foram identificados inicialmente 482 estudos por meio de buscas nas bases de dados PubMed, SciELO, LILACS, BIREME e Cochrane Library. Após a exclusão de duplicatas, 410 estudos foram submetidos à triagem de títulos e resumos, resultando na seleção de 68 artigos potencialmente relevantes para leitura na íntegra. Destes, 24 foram analisados em profundidade por atenderem aos critérios de elegibilidade previamente definidos. No entanto, após a aplicação rigorosa dos critérios de inclusão e exclusão, apenas 08 estudos preencheram todos os requisitos metodológicos e de qualidade, sendo, portanto, incluídos na amostra final desta revisão (Figura 1). Esse processo sistemático, garantiu a seleção de evidências consistentes e representativas acerca da aplicação da realidade virtual no contexto da reabilitação fisioterapêutica em Unidades de Terapia Intensiva (UTI).

A análise dos estudos selecionados revelou que a realidade virtual tem sido aplicada predominantemente como ferramenta complementar para estimulação motora, cognitiva e motivacional de pacientes críticos, com destaque para os efeitos positivos sobre força muscular, equilíbrio, coordenação e engajamento no processo de reabilitação. Observou-se, entretanto, que parte significativa das pesquisas apresenta critérios de elegibilidade restritivos, o que tende a excluir pacientes em condições mais graves e limita a generalização dos resultados. Outro achado recorrente refere-se à aceitação da equipe multiprofissional e à segurança clínica da aplicação, temas que ainda despertam controvérsia e exigem capacitação técnica específica dos profissionais envolvidos. Apesar de os estudos indicarem boa tolerância dos pacientes à realidade virtual e ausência de efeitos adversos relevantes, a viabilidade da intervenção ainda depende de uma criteriosa avaliação dos riscos, do perfil clínico dos pacientes e da integração do recurso às rotinas das UTIs.

Figura 1. Fluxograma com a seleção dos estudos desta revisão integrativa

Fonte: Elaborado pelos autores (2025)

De modo geral, os achados sugerem que a realidade virtual representa uma estratégia inovadora, acessível e promissora para otimizar a reabilitação precoce em ambiente intensivo, favorecendo a humanização do cuidado e a recuperação funcional. No entanto, reforça-se a necessidade de pesquisas mais robustas, multicêntricas e padronizadas, capazes de consolidar protocolos específicos de uso, definir parâmetros de intensidade e duração das sessões e avaliar desfechos a longo prazo. Somente a partir desse acúmulo de evidências será possível fundamentar a aplicação segura, eficaz e integrada da realidade virtual como recurso terapêutico nas práticas fisioterapêuticas intensivas.

Discussão

Os resultados desta revisão integrativa corroboram parte significativa da literatura que reconhece a realidade virtual (RV) como uma ferramenta inovadora e de baixo custo aplicável à reabilitação fisioterapêutica em Unidades de Terapia Intensiva (UTI), mas também evidenciam importantes limitações metodológicas e estruturais que comprometem sua consolidação na prática clínica. Estudos como os de Delshad et al. (2018) e Araújo et al. (2021) convergem ao destacar que a acessibilidade financeira e a possibilidade de reutilização dos dispositivos, como consoles Nintendo Wii™, Xbox Kinect® e óculos de RV, tornam a tecnologia economicamente viável quando comparada a equipamentos convencionais de reabilitação hospitalar. No entanto, embora o custo-benefício e a praticidade sejam inegáveis, a literatura ainda carece de análises comparativas robustas que mensurem efetivamente o impacto econômico em diferentes contextos institucionais e sistemas de saúde, o que limita a generalização dos argumentos de viabilidade financeira.

A discussão sobre os aspectos técnicos e operacionais também revela convergência entre os autores. Vianna et al. (2022) e Yameena T.; Jawed (2023) reforçam que o manuseio simples e a leveza dos dispositivos favorecem o engajamento de pacientes críticos, permitindo adaptações mesmo no leito hospitalar. Esses achados dialogam com a literatura recente sobre humanização e engajamento terapêutico, ao indicar que a RV pode funcionar como mediadora simbólica entre corpo, cuidado e ambiente, promovendo experiências mais participativas e subjetivamente significativas no processo de reabilitação. Por outro lado, a ausência de padronização quanto à intensidade, duração e frequência das sessões de RV, apontada por Locke et al. (2021), evidencia a fragilidade metodológica dos estudos existentes, que em sua maioria operam com amostras pequenas e heterogêneas, o que dificulta a reprodutibilidade dos resultados e a formulação de protocolos clínicos consistentes.

Os estudos de Schuimann et al. (2019) e Bohan Zhang et al. (2022) corroboram que a RV potencializa ganhos motores e funcionais relevantes, incluindo melhora da força muscular, coordenação, equilíbrio e função respiratória, além de contribuir para a redução da fraqueza muscular adquirida na UTI. Esses resultados são coerentes com as evidências da fisioterapia intensiva tradicional, sugerindo que a RV pode atuar como um recurso complementar e sinérgico, e não substitutivo, no contexto da reabilitação precoce. Contudo, Haghedooren et al. (2023) alertam que nem todos os ensaios clínicos demonstram efeitos funcionais consistentes, especialmente entre pacientes com instabilidade clínica ou internações prolongadas. Tais contradições sugerem que os benefícios da RV dependem fortemente do perfil clínico, da gravidade e da capacidade de interação dos pacientes, sendo necessária uma avaliação criteriosa antes de sua indicação terapêutica.

Outro eixo central identificado nos estudos é o da aceitação e resistência da equipe multiprofissional. Gomes et al. (2019) apontam crescente receptividade entre médicos, fisioterapeutas e enfermeiros, que reconhecem a RV como uma ferramenta lúdica e eficaz para mobilização precoce. Entretanto, Schell et al. enfatizam barreiras persistentes, como a falta de treinamento, a sobrecarga de trabalho e o desconhecimento técnico, que dificultam a integração da tecnologia nas rotinas assistenciais. Essas observações ecoam discussões mais amplas sobre a incorporação de tecnologias na saúde, nas quais a inovação técnica frequentemente precede a consolidação de uma cultura institucional de uso. Assim, a efetividade da RV não depende apenas de evidências clínicas, mas também da adesão e capacitação das equipes, dimensões sociotécnicas ainda pouco exploradas na literatura.

No que se refere aos critérios de elegibilidade e segurança, autores como Goldsworthy et al. (2020) e Turon et al. (2022) ressaltam que a maioria dos estudos limita a aplicação da RV a pacientes estáveis hemodinamicamente e com nível mínimo de consciência (RASS entre –1 e +1), excluindo sistematicamente casos mais graves ou instáveis. Essa tendência de seleção compromete a validade externa dos estudos e evidencia uma lacuna ética e metodológica na tentativa de incluir sujeitos com maior vulnerabilidade clínica. Embora a prudência seja fundamental em ambiente crítico, a exclusão sistemática desses pacientes impede a construção de um corpo de evidências mais abrangente sobre os reais limites e possibilidades da RV na UTI. Além disso, poucos estudos avaliaram desfechos de longo prazo, o que dificulta afirmar se os ganhos funcionais observados durante a internação se mantêm após a alta hospitalar.

De modo geral, os achados desta revisão corroboram o potencial terapêutico da realidade virtual como recurso complementar na fisioterapia intensiva, mas também questionam a superficialidade metodológica e a ausência de padronização que ainda caracterizam grande parte da produção científica sobre o tema. É possível afirmar que a RV, quando utilizada com critérios clínicos rigorosos, contribui para a mobilização precoce, estimulação cognitiva e humanização do cuidado, mas seu uso deve ser sustentado por protocolos clínicos estruturados, treinamento multiprofissional e monitoramento contínuo da segurança do paciente.

Conclusão

A presente revisão integrativa evidenciou que a realidade virtual constitui um recurso tecnológico inovador e potencialmente eficaz para a reabilitação fisioterapêutica de pacientes em Unidades de Terapia Intensiva, favorecendo a mobilização precoce, a recuperação funcional e a humanização do cuidado. As principais vantagens observadas incluem o baixo custo operacional, a facilidade de integração aos protocolos existentes e o aumento da motivação e adesão dos pacientes às terapias. Entretanto, os estudos analisados revelam limitações importantes, como amostras reduzidas, critérios de elegibilidade restritivos, falta de padronização metodológica e resistência parcial da equipe multiprofissional. Tais limitações comprometem a validade externa dos resultados e impedem a consolidação da RV como prática clínica amplamente validada.

Conclui-se que, embora os achados disponíveis apontem efeitos positivos sobre força muscular, coordenação, equilíbrio e engajamento, o uso da realidade virtual na UTI ainda demanda pesquisas multicêntricas com rigor metodológico ampliado, que estabeleçam protocolos clínicos unificados, critérios de segurança e indicadores de desfecho funcional e cognitivo. Ademais, a efetiva incorporação dessa tecnologia à prática fisioterapêutica intensiva requer investimentos em capacitação profissional e estrutura institucional, a fim de superar barreiras culturais e operacionais. Assim, a RV se apresenta não apenas como uma ferramenta tecnológica, mas como um dispositivo simbólico de humanização e ressignificação do cuidado em ambiente crítico, cuja consolidação dependerá da articulação entre inovação técnica, ética clínica e prática interdisciplinar.

Referências

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1Fisioterapeuta pela Escola Superior da Amazônia (ESAMAZ).
2Fisioterapeuta pela Universidade do Estado do Pará (UEPA).
3Fisioterapeuta. Doutora em Epidemiologia em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública/Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/FIOCRUZ).
4Fisioterapeuta. Doutorando em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP).