EVIDÊNCIAS SOBRE O IMPACTO DAS ARTES MARCIAIS NO DESENVOLVIMENTO PSICOSSOCIAL DE PRATICANTES

EVIDENCE ON THE IMPACT OF MARTIAL ARTS ON THE PSYCHOSOCIAL DEVELOPMENT OF PRACTITIONERS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202509241130


Anna Beathriz da Silva Nascimento Corrêa
Lívia Cristina Pellegrini Trevizam
Porthos da Costa Castello Branco
Paula Adriana dos Santos de Fontes


RESUMO

Esta revisão narrativa analisou evidências científicas recentes sobre os impactos das artes marciais no desenvolvimento psicossocial de seus praticantes. A prática marcial, além de benefícios físicos, mostrou efeitos relevantes sobre a saúde mental, incluindo redução de estresse, ansiedade e depressão, bem como aumento da autoestima, autoconfiança e autorregulação. Estudos apontam ainda que os ambientes de treino, mediados por disciplina, respeito e cooperação, favorecem a redução da agressividade, estimulando o autocontrole e a resiliência. Modalidades tradicionais, ao integrarem técnicas de respiração, meditação e filosofia, reforçam valores éticos e pró-sociais, contribuindo para a formação do caráter e para escolhas mais conscientes no cotidiano. A literatura destaca ganhos em concentração, atenção e desempenho acadêmico, especialmente em crianças e adolescentes, além de melhorias no enfrentamento do estresse ocupacional em adultos e na autoestima de idosos. Também foram identificados riscos associados a práticas específicas, como a perda rápida de peso em atletas de jiu-jitsu, evidenciando a importância de acompanhamento adequado. Apesar dos resultados promissores, há lacunas metodológicas, heterogeneidade de amostras e carência de estudos longitudinais, o que limita a generalização dos achados. Em síntese, as artes marciais configuram-se como recurso educacional, terapêutico e social, capazes de promover o equilíbrio emocional, fortalecer competências psicossociais e contribuir para a transformação individual e coletiva.

Palavras-chave: Artes marciais. Saúde mental. Desenvolvimento psicossocial. Autocontrole. 

1. INTRODUÇÃO

As artes marciais configuram-se em sistemas de práticas corporais e filosóficas que reúnem técnicas de combate, autodefesa e treinamento físico, vinculados a valores de disciplina, respeito e autocontrole, provenientes de variados contextos históricos e culturais (Di Corrado et al., 2025; Kons et al., 2025). Essas modalidades são reconhecidas enquanto práticas de combate e defesa pessoal e, simultaneamente, como expressões esportivas e culturais que abrangem ampla diversidade de estilos, métodos e tradições. Tais práticas atendem a múltiplas finalidades, variando do condicionamento físico ao desenvolvimento pessoal, passando pela autodefesa e pelo ambiente competitivo. 

De fato, os efeitos das artes marciais ultrapassam o condicionamento físico, estendendo-se aos aspectos psicológicos e sociais. Revisões recentes evidenciam contribuições relevantes para a saúde mental, incluindo a diminuição de sintomas de estresse, ansiedade e depressão, bem como a elevação da autoestima, da autoconfiança e da autorregulação (Ciaccioni et al., 2023; Gawrych et al., 2024; Di Corrado et al., 2025). Estudos envolvendo esportes de combate olímpico comprovam benefícios para o funcionamento socioemocional e para o desenvolvimento da resiliência, principalmente em populações jovens (Kons et al., 2025). A literatura sugere que estratégias cognitivas, a exemplo da visualização e do controle atencional, compõem-se ao treinamento físico, fortalecendo a capacidade de enfrentamento de estressores e ampliando a autopercepção de competência (Di Corrado et al., 2025).

No âmbito das artes marciais tradicionais, a presença de técnicas de respiração, meditação, respeito e disciplina, estimulam o equilíbrio corpo-mente, reforçando valores pró-sociais e ampliando a autorregulação (Domaneschi & Ricci, 2022; Sun et al., 2024). Há evidências de que o engajamento nessas práticas favorece o desenvolvimento da resiliência, reduz a agressividade e proporciona maior estabilidade emocional (Gawrych et al., 2024).

Tais achados confirmam a relevância do tema em um cenário marcado por crescentes desafios psicossociais. Apesar dos resultados promissores, a diversidade metodológica e a carência de estudos longitudinais evidenciam a necessidade de investigações adicionais que esclareçam mecanismos, fatores moderadores e diferenças entre estilos de combate.

No campo educacional, as artes marciais representam oportunidades de integração entre teoria e prática, aproximando os alunos de princípios pautados no respeito, na disciplina e na cooperação. Paralelamente, seu impacto ultrapassa o espaço escolar, alcançando academias, projetos sociais e programas de inclusão, o que amplia a sua aplicabilidade.

Nessa perspectiva, investigar os efeitos psicossociais das artes marciais supera a simples identificação de benefícios isolados, constituindo exercício de compreensão sobre como esses sistemas culturais participam da formação integral do sujeito. Nesse contexto, destaca-se a análise de fatores culturais e pedagógicos que atravessam o treinamento, capazes de mediar resultados e condicionar a eficácia das práticas.

Diante desse cenário, esta revisão narrativa propõe-se a apresentar os principais benefícios vinculados à prática regular das artes marciais, com destaque para aspectos psicossociais. Especificamente, busca-se analisar evidências referentes à autoestima, ao autocontrole, à regulação emocional e à redução do estresse. Ademais, a revisão pretende avaliar de que maneira os valores transmitidos pelas artes marciais colaboram para a redução de comportamentos agressivos e favorecem escolhas mais conscientes, além de investigar como os valores difundidos pelas artes marciais influenciam no caráter de seus praticantes, atuando sobre suas escolhas, decisões e comportamentos. Por fim, compreende-se que investigar a relação entre artes marciais e desenvolvimento psicossocial mostra-se pertinente não apenas ao avanço científico, mas igualmente à transformação social. Considerando este ponto de partida, é essencial explorar o assunto com uma análise teórica. A seguir, a análise reunirá as contribuições mais importantes de estudos científicos realizados, criando assim uma base de ideias e dados práticos para o progresso desta pesquisa.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A prática das artes marciais tem despertado crescente interesse da comunidade científica, especialmente pelos impactos que vão além do condicionamento físico. Pesquisas recentes demonstram que essas modalidades contribuem para o fortalecimento da saúde psicológica, para a regulação emocional e para o desenvolvimento de valores éticos e sociais (Dudley et al., 2020; Kons et al., 2025). Nesse sentido, as artes marciais são compreendidas não apenas como práticas esportivas ou de autodefesa, mas como instrumentos de formação pessoal e social. O presente capítulo organiza-se em quatro eixos temáticos: os benefícios psicológicos das artes marciais; a regulação da agressividade a partir de seus princípios; os valores éticos e sociais difundidos pelo ambiente marcial; e, por fim, o impacto dessas práticas na formação do caráter e nas escolhas de vida de seus praticantes.

2.1.Benefícios psicológicos da prática das artes marciais

A literatura científica tem evidenciado de forma consistente que a prática das artes marciais está diretamente associada a benefícios psicológicos significativos. Entre os principais ganhos relatados estão a melhora da concentração, o fortalecimento da autoconfiança, o desenvolvimento do autocontrole e a redução de sintomas relacionados à ansiedade, depressão e estresse (Dudley et al., 2020; Di Corrado et al., 2025). Esses efeitos se explicam tanto no âmbito físico, que envolve gasto energético e liberação de neurotransmissores ligados ao bem-estar, quanto no âmbito filosófico, que estimula disciplina, perseverança e superação pessoal.

Estudos realizados em diferentes populações apontam que os praticantes de artes marciais desenvolvem maior capacidade de atenção sustentada, o que repercute em ganhos acadêmicos e profissionais (Harwood et al., 2021). O ambiente marcial exige foco contínuo para execução de técnicas, percepção do adversário e controle da própria resposta corporal, o que fortalece processos cognitivos relacionados à concentração e à memória de trabalho. Tais habilidades, por sua vez, ultrapassam o tatame, refletindo-se em maior rendimento em atividades cotidianas que demandam atenção e disciplina.

Outro aspecto amplamente destacado na literatura é o fortalecimento da autoconfiança. Praticantes relatam maior segurança em sua autoimagem e em sua capacidade de lidar com desafios, em grande parte devido ao processo gradual de conquista de habilidades e superação de limites físicos e emocionais (Kons et al., 2025). A conquista de faixas e a progressão no treinamento funcionam como marcadores simbólicos de evolução, favorecendo a percepção de autoeficácia. Essa dimensão é particularmente importante em contextos de vulnerabilidade social, em que a modalidade pode atuar como estratégia de inclusão e valorização pessoal.

A redução de sintomas de ansiedade, estresse e depressão também tem sido apontada como um dos maiores benefícios psicológicos associados às artes marciais. Revisões sistemáticas identificam que o treinamento regular contribui para o equilíbrio emocional e para a diminuição de quadros de sofrimento psíquico. Esses efeitos podem ser explicados pela liberação de endorfinas durante o exercício físico, mas também pela ênfase no controle respiratório e na meditação, presentes em diversas tradições marciais. Dessa forma, o impacto das artes marciais sobre a saúde mental não se restringe ao corpo, mas integra dimensões cognitivas e espirituais.

Vale destacar que esses benefícios são observados em diferentes faixas etárias. Em crianças e adolescentes, a prática auxilia no controle da impulsividade, no desenvolvimento de habilidades socioemocionais e no enfrentamento de dificuldades escolares (Harwood et al., 2023). Em adultos, os efeitos se refletem em maior capacidade de gerenciamento do estresse ocupacional e em melhores indicadores de bem-estar. Já em idosos, estudos sugerem que as artes marciais contribuem para o fortalecimento da autoestima, para a preservação da autonomia e para a redução de sintomas depressivos associados ao envelhecimento (Dudley et al., 2020).

Apesar dos achados positivos, a literatura também aponta algumas limitações. Muitos estudos apresentam amostras reduzidas e concentradas em contextos específicos, o que dificulta a generalização dos resultados (Di Corrado et al., 2025). Além disso, parte das pesquisas carece de monitoração contínua, limitando a compreensão sobre os efeitos duradouros da prática. Outra lacuna refere-se à diversidade metodológica: enquanto alguns trabalhos utilizam questionários subjetivos de percepção de bem-estar, outros se baseiam em parâmetros clínicos, o que gera heterogeneidade nos resultados e dificulta comparações diretas (Kons et al., 2025).

Ainda assim, o consenso da literatura é de que as artes marciais representam uma estratégia eficaz de promoção da saúde psicológica, articulando dimensões físicas, cognitivas e emocionais. Ao integrar treino corporal, disciplina mental e princípios éticos, essas práticas oferecem uma abordagem completa para o desenvolvimento humano. No entanto, torna-se necessário avançar em pesquisas mais amplas, que contemplem diferentes contextos socioculturais e investiguem os mecanismos neuropsicológicos envolvidos. Dessa forma, será possível consolidar as artes marciais não apenas como prática esportiva, mas também como recurso de saúde pública voltado ao bem-estar integral.

Na mesma perspectiva dos benefícios psicológicos, as artes marciais também favorecem a redução de comportamentos agressivos, assunto que será tratado a seguir.

2.2.Artes marciais e a regulação da agressividade

A relação entre a prática das artes marciais e o comportamento agressivo tem sido um dos temas investigados pela literatura científica, sobretudo em função do estereótipo que associa práticas de combate à violência. No entanto, os estudos têm apontado que, quando orientadas por uma filosofia pedagógica adequada, às artes marciais podem atuar justamente no sentido contrário, promovendo o autocontrole e a diminuição de comportamentos impulsivos (Harwood et al., 2023). Assim, a prática marcial se configura não como um estímulo à agressividade, mas como um espaço de aprendizado e canalização saudável das emoções.

Pesquisas realizadas em contextos escolares e comunitários evidenciam que jovens inseridos em projetos de artes marciais apresentam menor envolvimento em situações de bullying, delinquência e violência interpessoal. Essa redução pode ser explicada pelo desenvolvimento da disciplina, do respeito às regras e da empatia, valores característicos à filosofia marcial.

Outro aspecto importante é a forma como as artes marciais ressignificam a noção de força. Kons et al. (2025) destacam que, ao contrário do uso da agressividade em contextos violentos, o treinamento marcial ensina que a verdadeira força reside em domínio próprio. Esse princípio está presente em diferentes tradições, como o karatê, o judô e o aikidô, em que a vitória não é medida apenas pela superação do adversário, mas pela capacidade de manter o controle emocional diante de situações de pressão. Assim, o praticante aprende a controlar seus impulsos, desenvolvendo maior autorregulação emocional.

No entanto, a literatura também evidencia que os efeitos sobre a agressividade não são automáticos. Autores alertam que a forma como o ensino é conduzido influencia diretamente os resultados: programas que enfatizam apenas o aspecto competitivo ou que negligenciam a dimensão ética podem, ao contrário, reforçar atitudes hostis. Portanto, a mediação pedagógica é essencial para garantir uma prática com valores de respeito e autocontrole.

Além disso, alguns autores apontam que os impactos podem variar de acordo com a modalidade e com o perfil do praticante. Em esportes de combate voltados exclusivamente para o rendimento competitivo, como o MMA, há registros de que a agressividade pode ser intensificada quando o treinamento não é acompanhado de uma orientação ética estruturada (Harwood et al., 2023). Por outro lado, em modalidades tradicionais como o judô e o taekwondo, a filosofia marcial tende a ser mais presente, reforçando o caráter educativo e a redução de comportamentos agressivos.

De forma geral, a literatura indica que as artes marciais podem funcionar como poderosas ferramentas de regulação da agressividade, desde que aplicadas em ambientes que valorizem disciplina, respeito e cooperação. Essa perspectiva reforça o papel das artes marciais não apenas como prática esportiva, mas como instrumento pedagógico e social capaz de contribuir para a formação de indivíduos mais equilibrados e conscientes de suas emoções. 

Assim, ao mesmo tempo que as artes marciais contribuem para diminuir a agressividade, consequentemente possibilitam a assimilação de valores éticos e sociais.

Então, torna-se pertinente analisar sua influência no comportamento social.

2.3.Valores éticos e sociais no ambiente marcial

Um dos elementos que distinguem as artes marciais de outras modalidades esportivas é a forte presença de valores éticos e sociais. Mais do que técnicas de combate e defesa pessoal, as artes marciais incorporam princípios como disciplina, respeito, solidariedade, perseverança e humildade, que direcionam o comportamento dos praticantes dentro e fora do tatame (Domaneschi et al., 2022). Esses valores são constantemente reforçados nos treinamentos, nas competições e nas relações interpessoais no ambiente de prática.

A disciplina é um dos valores mais destacados na literatura. O processo de treinamento em artes marciais exige comprometimento, regularidade e esforço contínuo, o que contribui para a formação de hábitos de responsabilidade e organização pessoal (Dudley et al., 2020). Além disso, a hierarquia representada pelas faixas e graduações funciona como um sistema pedagógico que valoriza a progressão individual, incentivando a paciência e a perseverança diante das dificuldades. Esse aprendizado gradual ensina que as conquistas são fruto de esforço constante e não de resultados imediatos, promovendo um desenvolvimento ético baseado no mérito e na dedicação.

O respeito, por sua vez, é outro princípio que, desde o início da prática, os alunos aprendem. A reverência aos seus mestres, colegas e adversários, reconhecem no outro um parceiro indispensável para seu crescimento (Kons et al., 2025). Harwood et al. (2023) apontam que o respeito no ambiente marcial favorece a cooperação, reduz conflitos interpessoais e fortalece vínculos sociais baseados na empatia e na tolerância.

Entretanto, há necessidade de pesquisas que analisem mais profundamente como esses valores são efetivamente incorporados pelos praticantes em diferentes contextos culturais e sociais, bem como quais fatores favorecem ou dificultam sua aplicação fora do ambiente de treino.

Para além dos valores éticos e sociais, a formação de caráter configura-se como aspecto essencial para o desenvolvimento pessoal dos praticantes de artes marciais. Na sequência, serão apresentados os impactos dessa formação nas decisões e atitudes dos indivíduos.

2.4.Formação de caráter e impactos nas escolhas e comportamentos

A formação de caráter consiste em uma das contribuições mais relevantes das artes marciais para o desenvolvimento humano. A prática contínua dessas modalidades promove mudanças notáveis no autoconhecimento e nas relações interpessoais de seus praticantes (Harwood et al., 2023). Trata-se de um processo que é marcado pela internalização de valores, pela disciplina e pela vivência de situações que exigem tomadas de decisão éticas e responsáveis.

Um dos principais mecanismos pelos quais as artes marciais influenciam a formação do caráter é a exigência constante de autocontrole. Nos treinamentos, os praticantes são frequentemente desafiados a controlar seus impulsos (Kons et al., 2025). Essa habilidade reflete em outros contextos da vida, como a convivência familiar, o ambiente escolar e o local de trabalho, nos quais o autocontrole é fundamental para a tomada de decisões conscientes e seguras.

A literatura também indica que as artes marciais podem contribuir para a formação de identidades positivas, especialmente em jovens. Dudley et al. (2020) evidenciam que adolescentes que praticam artes marciais apresentam maior autoestima, melhor capacidade de lidar com frustrações e maior clareza em suas escolhas de vida. Esses efeitos estão relacionados ao processo de superação progressiva de desafios enfrentados durante as práticas, as quais reforçam tais percepções e aumentam a confiança para enfrentar obstáculos externos.

Além disso, a formação do caráter não se limita apenas ao aspecto individual, mas envolve também a construção de vínculos sociais e uma postura coletivista. Isso se deve ao ambiente marcial, onde o praticante se sente como parte de um coletivo. Essa perspectiva favorece o desenvolvimento de atitudes de cooperação, companheirismo e respeito às diferenças.

Do ponto de vista social, o caráter formado por meio das artes marciais pode ter impactos consideráveis na prevenção de comportamentos de risco e na promoção de escolhas mais conscientes. Programas desenvolvidos em comunidades vulneráveis mostram que a prática marcial pode funcionar como fator de proteção, possibilitando alternativas construtivas diante à violência, ao uso de drogas e à evasão escolar (Harwood et al., 2023). Esses achados enfatizam o potencial das artes marciais como recurso de intervenção social, capaz de transformar trajetórias individuais e coletivas.

Apesar dos avanços, a literatura ainda carece de estudos que analisem em profundidade como os valores aprendidos nas artes marciais se traduzem em comportamentos concretos fora do tatame. Kons et al. (2025) apontam que ainda há lacunas quanto à avaliação longitudinal dos efeitos da prática na vida adulta e profissional dos praticantes. Essa limitação abre espaço para possíveis pesquisas que investiguem de que forma o caráter moldado pelo ambiente marcial influencia escolhas éticas, cidadãs e profissionais ao longo da vida.

Desta forma, pode-se afirmar que as artes marciais possuem um papel valioso na formação do caráter, promovendo autocontrole, responsabilidade, resiliência e cooperação. Assim, as artes marciais representam-se como práticas educativas capazes de impactar positivamente as escolhas e os comportamentos de seus praticantes em diferentes áreas da vida. 

A partir das contribuições levantadas na literatura, torna-se necessário descrever o processo metodológico que orientaram a condução deste estudo, por isso, em seguida, será evidenciado o percurso utilizado para a seleção, análise e interpretação das evidências científicas.

3. METODOLOGIA

O presente estudo caracteriza-se como uma revisão narrativa da literatura, modalidade de pesquisa bibliográfica que possibilita ampla análise da produção científica sobre determinado tema, sem a adoção de protocolos rígidos de seleção característicos das revisões sistemáticas. Tal delineamento é recomendado quando se busca integrar múltiplas abordagens metodológicas e construir reflexões críticas sobre fenômenos complexos (Di Corrado et al., 2025).

De acordo com Sun et al. (2024), a revisão narrativa tem como finalidade oferecer uma visão abrangente do fenômeno investigado, permitindo ao pesquisador integrar resultados de estudos clássicos e contemporâneos. Optou-se por esse método por envolver diferentes dimensões relacionadas às artes marciais, fisiológicas, psicológicas, pedagógicas e sociais, que dificilmente seriam contempladas por um protocolo exclusivamente sistemático (Kons et al., 2025).

A busca bibliográfica foi conduzida nas bases PubMed, SciELO, Frontiers, contemplando publicações entre 2020 e 2025, sem restrição de idioma, de forma a incluir a maior diversidade possível de evidências. Foram considerados artigos originais, revisões, ensaios clínicos e estudos observacionais que abordassem efeitos psicológicos ou sociais das artes marciais.

Em relação aos trabalhos selecionados da base de dados PubMed, destacam-se: Yao Sun (2024), Roza Tabeshian (2024), Hajer Mustafa (2024), Paul Zehr (2024); Simone Ciaccioni (2023), Oscar Castro (2023), Fátima Bahrami (2023), Phillip D Tomporowski (2023), Laura Capranica (2023), Stuart JH Biddle (2023), Ineke Vergeer (2023), Caterina Pesce (2023); Johny Bozdarov (2022), Brett D M Jones (2022), Zafira J Daskalakis (2022), M Ishrat Husain (2022); Brian Moore (2021), Dean Dudley (2021), Stuart Woodcock (2021); Brian Moore (2020), Reitor Dudley (2020), Stuart Woodcock (2020). 

Já os artigos publicados nos periódicos da editora Frontiers, evidenciam a contribuição de autores como: Donatella Di Corrado (2025), Patrizia Tortella (2025), Marinella Coco (2025), Maria Guarnera (2025), Matej Tsusak (2025), Maria Chiara Parisi (2025); Youngjung Lee (2025), Flavia Guidotti (2025), Laura Capranica (2025), Caterina Pesce (2025), Valentin Benzing (2025), Janet Hauck (2025), Simone Ciaccioni (2025); Ionut Patenteu (2024), Roman Gawrych (2024), Mircea Bratu (2024), Luciela Vasile (2024), Ryszard Makarowski (2024), Andrei Bitang (2024), Sarah Adriana Nica (2024); Lorenzo Domaneschi (2022), Oscar Ricci (2022); Anna Harwood-Gross (2021), Bar Lambez (2021), Ruth Feldman (2021), Orna Zagoory-Sharon (2021), Yuri Rassovsky (2021). 

Por fim, o estudo identificado na base SciELO, destacam-se: Flávia Beatriz (2025), Xavier do Vale (2025), Yan Sobral Campos (2025), Ítalo Sérgio Lopes Campos (2025), Janari da Silva Pedroso (2025), Amauri Gouveia Jr (2025).

 Procedeu-se inicialmente à leitura de títulos e resumos; em seguida, os textos completos foram analisados quanto à pertinência ao tema.

A análise dos estudos ocorreu de forma descritiva e reflexiva, seguindo a proposta metodológica de revisão narrativa (Domaneschi & Ricci, 2022), priorizando a discussão crítica dos achados. Essa abordagem permitiu integrar evidências empíricas e reflexões teóricas, favorecendo a compreensão das múltiplas perspectivas que permeiam a prática das artes marciais contemporâneas.

Com os procedimentos metodológicos definidos e a seleção dos estudos realizada, a seguir apresentam-se os resultados obtidos, acompanhados de sua análise e discussão.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES  

Para facilitar a compreensão dos trabalhos incluídos, o Quadro 1 apresenta as características metodológicas essenciais (autores, objetivo, tipo de estudo) e os principais resultados de cada estudo analisado nesta revisão.

Quadro 1 – Caracterização dos estudos incluídos na revisão narrativa 

Título        doartigoAutor/AnoTipo de estudoResultados
O efeito do treinamento em artes marciais nos resultados de saúde mental: uma revisão sistemática e meta-análiseBrian Moore, Reitor Dudley e StuartWoodcock(2020)Revisão sistemática com meta-análise de efeitos aleatórios. Foram pesquisadas as bases CENTRAL, EBSCO, Embase, ERIC, MEDLINE, PubMed e ScienceDirect (jan– jul 2018). Incluídos 14 estudos elegíveis que compararam resultados psicológicos entre grupos, utilizando escalas padronizadas.Os resultados indicam que a prática de artes marciais apresenta um efeito positivo pequeno, mas significativo sobre o bem-estar. Quanto à saúde mental internalizante, observa-se um efeito positivo de magnitude média. Por outro lado, a influência sobre a agressividade é mínima e não significativa.
Usar o treinamento em artes marciais como terapia de exercícios pode beneficiar pessoas de todas as idadesYao Sun, Roza Tabeshian, Hajer Mustafa e Paul Zehr(2024)Revisão narrativa/conceitualpublicada no Exercise and Sport Sciences Reviews. Não há coleta primária com sujeitos. O artigo reúne e discute resultados de pesquisas envolvendo crianças, adultos e idosos, com e sem condições         clínicas, em         diferentes modalidades de artes marciais.Os resultados apresentaram impactos positivos em bem-estar físico (força, equilíbrio), cognitivo (atenção, controle inibitório) e psicológico (redução de estresse, melhora de humor e autoestima) em diversas populações. É potencialmente aplicável como terapia de exercícios para todas as idades, inclusive em condições clínicas, devido à integração de atividade física, interação social e componentes de autorregulação.
Artes marciais, esportes de combate e saúde mentalem adultos: uma revisão sistemáticaSimone Ciaccioni,Oscar Castro, FátimaBahrami, Phillip     D.Tomporowski, Laura Capranica, Stuart J.H. Biddle, Ineke Vergeer, Caterina Pesce(2024)Foram pesquisadas as bases Cochrane Library, EBSCOhost, Web of Science e Scopus até setembro de 2022; incluídos 70 transversais e 2 longitudinais; todos com foco em adultos praticantes de AM/EC.A revisão indicou que os construtos autocorrelacionados, como autoestima e autoeficácia, apresentaram resultados inconclusivos. Para bem-estar e mal-estar, as evidências positivas foram limitadas, destacando-se na regulação emocional. No campo cognitivo, houve associações consistentes com habilidades perceptivas e de inibição, mas mais frágeis para atenção e memória. Os achados neurocientíficos, sobretudo em relação ao boxe e concussões, foram inconclusivos, embora técnicas de imagem funcional sejam promissoras. Por fim, fatores como duração do treino, nível competitivo, sexo e modalidade mostraram resultados variados.
Boxe    com ou maIntervenção na Saúde Mental- Uma Revisão de Escoping – PubMedJohny Bozdarov, Brett D MJones, Zafiris JDaskalakis e MIshratHusain (2022)Foi realizada uma metodologia de revisão de escopo que foi mais apropriada, dada a escassez de publicações disponíveis. A revisão aderiu às diretrizes de revisão de escopo recomendadas pelo Joanna BriggsInstitute  e  à extensãoPreferred Reporting Items for Systematic Review and MetaAnalysis (PRISMA) para revisões de escopo (PRISMA-ScR). Áreas relevantes das diretrizes dos Protocolos PRISMA (PRISMA-P) foram usadas para facilitar o protocolo.No que se refere à saúde mental, a maioria dos artigos incluiu coletivamente resultados de que o boxe reduziu o estresse e melhorou o humor, a autoestima e a qualidade de vida (94%). Os estudos mostraram uma melhora significativa no humor geral, redução no uso de substâncias, melhora na autoestima e confiança, percepção da capacidade física, desempenho escolar, e bem-estar geral e saúde mental. Muitos estudos ilustraram o uso do boxe (principalmente socando um saco de pancadas) como uma válvula de escape para expressar a raiva de forma saudável e controlar a raiva ou a agressão geral. O boxe também pareceu ajudar a liberar a tensão, o estresse, controlar a raiva e reduzir a agressão em jovens, o que ajudou na produtividade na escola. 
Guerreiros do bem-estar- Um ensaio controlado randomizado examinando os efeitos Brian Moore, Stuart Woodcock e Dean Dudley(2021)Duzentos e oitenta e três estudantes do ensino médio (faixa etária de 12 a 14 anos) participaram do estudo.O estudo constatou que a intervenção baseada em artes marciais teve um efeito significativamente positivo no desenvolvimento da resiliência dos alunos. Isso ficou especialmente evidente quando os resultados médios de resiliência dos grupos de intervenção e controle foram comparados. 
Esportes de combateolímpico e saúde mental em crianças e adolescentesYoungjun Lee, Flavia Guidotti, Laura Capranica, Caterine Pesce,Valentin Benzing, Janet Hauck        e Simone Ciaccioni(2025)Revisão sistemática registrada no PROSPERO, conduzida segundo protocolos PRISMA-P. Incluiu 12 estudos (7 RCTs, 5 ensaios controlados não randomizados) realizados entre 1975-2022, com 436 participantes (média11,4 ± 2,8 anos)Os resultados incluíram os seguintes aspectos: melhorias significativas em comunicação correlacionado com melhoria da saúde mental: maior confiança e contato social ajudaram a reduzir a ansiedade e a depressão; competência social, funcionamento socioemocional, função executiva e redução de estereotipias; ganhos ocasionais em autoestima, gerenciamento de estresse e humor; evidências de alterações hormonais agudas (p. ex., cortisol) após sessões de judô, sobretudo em adolescentes. Fatores moderadores: idade(adolescentes com maiores respostas) e envolvimento familiar aumentam benefícios. Conclusão geral: intervenções baseadas em Olympic Combat Sports (OCS) podem favorecer habilidades sociais, regulação emocional e resiliência em crianças e adolescentes com deficiência, embora sejam necessários ensaios maiores e de longo prazo.
Imagens mentais eestresse: o papel mediador da autoeficácia em atletas competitivos de artes marciaisDonatella    DiCorrado, Patrizia Tortella, Marinella Coco, Maria Guarnera, Matej Tsuak, Maria Chiara Parisi (2025)Estudo quantitativo transversal com 110 atletas de artes marciais (61 homens e 49 mulheres), com idades entre 21 e 23 anos.   Os participantes eram atletas competitivos de    karatê, taekwondo e judô, com no mínimo 13 anos de treinamento no esporte. Eles completaram o Questionário de Vividez de Imagens Visuais,            o Questionário de Vividez de Imagens em Movimento-2, a Tarefa de Transformação de Imagem Mental, a Escala Geral de Autoeficácia e    o Teste de Medição de Estresse Psicológico.Uma MANOVA 2 × 3(gênero ×modalidade esportiva) entre grupos mostrou diferenças significativas nas dimensões de imagens por modalidade esportiva. Os resultados da análise de mediação mostraram que a autoeficácia desempenha um papel mediador entre imagens e estresse. A autoeficácia teve efeito mediador entrevivacidade/controlabilidade e estresse; imagens dinâmicas (externa e interna) apresentaram efeito direto negativo no estresse e efeito indireto via autoeficácia. A relação entre imagem estática e estresse foi totalmente mediada pela autoeficácia, resultando em decréscimo dos níveis de estresse. Atletas de taekwondo pontuaram mais alto em imagens dinâmicas e autoeficácia; karatecas, em imagem estática, controlabilidade e estresse.
O papel da resiliência psicológica e da agressividade na prevenção de lesões entre atletas de artes marciaisIonut Patenteu, Roman Gawrych, Mircea Bratu, Luciela Vasile, Ryszard Makarowski, Andrei Bitang, Sarah Adriana Nica (2024)Estudo quantitativo transversal com 154 atletas (SC: karatê, taekwondo, kickboxing, boxe; GC: judô, BJJ; MMA). Instrumentos: Escala Breve de Resiliência (versão romena) e Questionário de Agressão Esportiva de Makarowski, além de formulário de relato de lesões. Análise    por MANOVA e regressão logística.Os testes post-hoc (após a execução de uma análise de variância multivariada de fator único) revelaram diferenças significativas para resiliência e Jogo sujo (violento) entre as disciplinas esportivas analisadas. Foi encontrada uma correlação positiva significativa entre a gravidade da lesão e a assertividade dos atletas no SC e entre a gravidade da lesão e a resiliência no GC. Por meio do teste t para amostras independentes, foi destacado que o valor médio para Jogo sujo (violento) é significativamente maior em atletas que sofreram   lesões leves, moderadas e/ou graves em comparação com atletas de artes marciais que sofreram apenas         lesões leves/menores.
“Eu não ensino violência,   eu ensino Autocontrole”; O enquadramento da misturaLorenzo Domaneschi e Oscar Ricci(2022)Revisão narrativa com análise crítica e enquadramento sociocultural das artes marciais mistas(MMA); foco na interpretação do discurso de treinadores e praticantes sobre a prática das artes marciais no contexto da saúde mental e do bem-estar.O estudo mostra que a prática de artes marciais, especialmente o MMA, é frequentemente enquadrada pelos instrutores como um meio de ensinar disciplina, respeito e autocontrole, e não como estímulo à violência; identifica que esse discurso contribui para contrabalançar estigmas sociais que associam artes marciais a comportamentos agressivos; destaca que os praticantes relatam benefícios em termos de autocontrole, equilíbrio emocional e integração social, sustentando a visão de que as modalidades podem favorecer saúde mental e bem-estar, quando mediadas    por         valores educativos.
O efeito do treinamento em artes marciais nas funções cognitivas epsicológicas em jovens em situação de riscoAnna Harwoord-Gross, Bar Lambes, Ruth Feldman, Orna Zagoory Sharon, Yuri Rassovsky(2021)De janeiro a julho de 2018, as seguintes bases de    dados eletrônicas foram pesquisadas: CENTRAL, EBSCO, Embase, ERIC, MEDLINE,PUBMED           eScienceDirect.O treinamento em artes marciais teve um efeito positivo significativo, mas pequeno, no bem-estar e um efeito médio na internalização da saúde mental. O treinamento em artes marciais teve um efeito positivo mínimo não significativo na redução da agressão.
Efeitos psicológicos da perda rápida de peso em atletas de jiu-jitsu brasileiroFlávia Beatriz Xavier do Vale, YanSobralCampos, Ítalo Sérgio Lopes Campos, Janari da Silva Pedroso, Amauri Gouveia Jr. (2025)Estudo observacional transversal com 38 atletas masculinos de jiu-jitsu (faixas roxa, marrom e preta), idade média 25,4 ± 3,2 anos, participantes de campeonatos estaduais. Instrumentos: Profile of Mood States (POMS), Escala de Ansiedade de    Beck, questionário de estratégias de PRP.Aumento significativo nos escores de tensão, fadiga e confusão mental durante a fase de Perda Rápida de Peso (PRP); ansiedade moderada a alta em 63% dos atletas antes da pesagem. Estratégias mais comuns: restrição hídrica e calórica, uso de roupas térmicas, treino em calor. Alterações de humor retornaram a níveis basais cerca de 48h após a pesagem, sugerindo efeito agudo e transitório, porém com risco potencial à saúde psicológica se repetido em ciclos sucessivos.

Fonte: Autores (2025).

Os cinco primeiros trabalhos analisados são provenientes da base PubMed, os cinco seguintes do periódico Frontiers e o último do SciELO, o que evidencia diversidade de fontes.

O artigo “O efeito do treinamento em artes marciais nos resultados de saúde mental”, de Dudley et al. (2020), uma revisão sistemática com meta-análise de efeitos aleatórios, julgou os benefícios pequenos, porém relevantes, para o bem-estar psicológico, além de efeitos médios na saúde mental internalizante. Já em relação à redução da agressividade, o impacto foi mínimo e não significativo. Apesar desta variação entre os estudos, há suporte para que o treinamento de artes marciais seja considerado uma intervenção eficaz de saúde mental, que se destaca por prevenir a internalização de problemas psicológicos e favorecer mecanismos de enfrentamento mais saudáveis.

No estudo “Usar o treinamento em artes marciais como terapia de exercícios pode beneficiar pessoas de todas as idades”, Sun et al. (2024), realizaram uma revisão narrativa/conceitual que apontou impactos positivos das artes marciais no bem-estar físico, cognitivo e psicológico. Os autores defendem sua aplicabilidade como terapia de exercícios em populações diversas, incluindo pessoas com condições clínicas. O treinamento em artes marciais, que enfatiza padrões de movimento corporal completos, filosofia, interações interpessoais e autodefesa, afeta positivamente a saúde em geral, em adultos e crianças, com e sem condições clínicas.

O trabalho “Artes marciais, esportes de combate e saúde mental em adultos”, de Ciaccioni et al. (2024), uma revisão sistemática, apresentou resultados inconclusivos em autoestima e autoimagem, além de evidências limitadas quanto à ansiedade, depressão e regulação emocional. Foram relatados efeitos positivos em coping (estratégias de enfrentamento) e competência emocional, bem como ganhos consistentes em percepção visuoespacial e inibição de respostas. Em contrapartida, os resultados em atenção e memória mostraram-se frágeis, e os achados neurocientíficos, sobretudo em relação ao boxe e concussões, permanecem inconclusivos, embora técnicas de imagem funcional se mostram promissoras. Variáveis como duração do treino, nível competitivo, sexo e modalidade também influenciaram os resultados, o que reforça a heterogeneidade das evidências disponíveis.

Em “Boxe como uma Intervenção na Saúde Mental”, Bozdarov et al. (2022), por meio de uma revisão de escopo, identificaram evidências positivas, mostrando que a prática do boxe melhorou o humor, a autoestima, a confiança e a percepção da capacidade física. Além disso, reduz o estresse, raiva e agressividade em jovens, favorecendo até mesmo o desempenho escolar. Os exercícios de boxe sem contato, geralmente em um ambiente de treinamento intervalado de alta intensidade em grupo, proporcionam redução significativa nos sintomas de ansiedade, depressão, TEPT e sintomas negativos da esquizofrenia. 

No ensaio controlado randomizado “Guerreiros do bem-estar”, Moore et al. (2021) constataram que a intervenção baseada em artes marciais teve impacto significativamente positivo no desenvolvimento da resiliência dos alunos, o que é essencial para estudantes jovens que precisam desenvolver a capacidade de enfrentar adversidades e superar situações de estresse. 

O trabalho “Esportes de combate olímpico e saúde mental em crianças e adolescentes”, Kons et al. (2025), uma revisão sistemática, evidenciou que práticas como judô e taekwondo podem melhorar o autocontrole, reduzir sintomas de ansiedade e favorecer a integração social, embora os resultados ainda sejam limitados pela heterogeneidade metodológica. Além disso, os autores destacam que essas modalidades promovem desenvolvimento socioemocional, disciplina, respeito e empatia, contribuem para melhora da atenção e concentração, e apresentam benefícios físicos e cognitivos, como coordenação motora e percepção espacial, especialmente quando os programas são bem estruturados e supervisionados.

Em “Imagens mentais e estresse: o papel mediador da autoeficácia em atletas competitivos de artes marciais”, Di Corrado et al. (2025), um estudo transversal, verificou que a utilização de imagens mentais está associada à diminuição do estresse précompetitivo, o que melhora o nível de desempenho esportivo do atleta e os resultados durante as competições. As imagens mentais são necessárias para que o atleta visualize performances bem-sucedidas e aumente sua confiança, o que o levará à melhor execução das técnicas durante os treinos e as competições e reduzirá seu nível de estresse.

Já em “O papel da resiliência psicológica e da agressividade na prevenção de lesões entre atletas de artes marciais”, Patenteu et al. (2021), um estudo observacional, demonstrou que altos níveis de resiliência psicológica reduzem o risco de lesões, enquanto índices elevados de agressividade o aumentam, evidenciando a importância de integrar o preparo psicológico ao treinamento físico. Também, atletas com maior resiliência apresentaram melhor adesão aos projetos de treinamento, maior controle emocional e menor propensão a comportamento de risco. O estudo também indica que programas de treinamento psicológico integrados às artes marciais estão associados à melhor desempenho competitivo. 

O estudo qualitativo “Eu não ensino violência, eu ensino autocontrole”, de Domaneschi et al. (2022), revelou que instrutores de artes marciais enfatizam valores como disciplina, respeito e controle emocional, indicando que o processo pedagógico dessas práticas pode contribuir para reduzir comportamentos agressivos em jovens. Os resultados apontaram benefícios relacionados à autoestima e identidade social, mas também levantam preocupações quanto a práticas de risco e processos de estigmatização. 

Na pesquisa “O efeito do treinamento em artes marciais nas funções cognitivas e psicológicas em jovens em situação de risco”, Harwood-Gross et al. (2024), um ensaio quase-experimental, identificou ganhos expressivos em atenção, memória de trabalho e regulação emocional, além de redução de comportamentos antissociais. Ademais, a prática regular de artes marciais promoveu melhora na tomada de decisões e habilidades cognitivas importantes para o cotidiano desses jovens. O ambiente estruturado das aulas, com regras claras e supervisão constante, contribuiu para o desenvolvimento de disciplina e autocontrole, enquanto a interação positiva com colegas e instrutores fortaleceu habilidades sociais e de cooperação.

Por fim, o estudo longitudinal “Efeitos psicológicos da perda rápida de peso em atletas de jiu-jitsu brasileiro”, de Vale et al. (2025), mostrou que estratégias de perda rápida de peso estão associadas ao aumento de estresse, irritabilidade, fadiga cognitiva e sintomas depressivos, configurando risco elevado para a saúde mental dos praticantes se repetido em ciclos sucessivos. Aliás, esses efeitos negativos também impactam o desempenho físico, provocando redução da força, resistência e tempo de reação. Os atletas submetidos a essas estratégias apresentaram alterações no sono e nos níveis hormonais, como aumento do cortisol, potencializando a fadiga e a irritabilidade. O estudo recomenda estratégias de controle de peso gradual, com acompanhamento profissional, educação nutricional e suporte psicológico, como medidas preventivas para proteger a saúde mental e física dos praticantes.

De forma geral, os resultados sustentam que a prática regular de artes marciais integra dimensões físicas, cognitivas e psicossociais, favorecendo a internalização de valores pró-sociais, a autoconfiança e a resiliência. Contudo, persistem lacunas metodológicas, heterogeneidade de amostras, ausência de ensaios longitudinais e variação nos protocolos de intervenção, que limitam a extrapolação de evidências. Pesquisas futuras devem priorizar delineamentos robustos, investigar mecanismos de ação e avaliar diferenças culturais e de modalidade para consolidar intervenções baseadas em artes marciais no campo da saúde mental.

A partir dos achados analisados e discutidos, em seguida, será possível sintetizar as principais contribuições deste estudo, demonstrando seu impacto e indicando perspectivas para pesquisas futuras. 

5. CONCLUSÃO

A presente revisão narrativa evidenciou que a prática regular de artes marciais contribui positivamente na promoção da saúde e no desenvolvimento psicossocial de praticantes em diferentes contextos sociais. Sobre o tema, comprovou-se que os indivíduos participantes de modalidades marciais obtêm resultados que ultrapassam ganhos físicos, alcançando benefícios na saúde mental, bem-estar e relações interpessoais. 

Pesquisas indicaram que a prática das artes marciais está associada ao aumento da concentração, autoconfiança e autocontrole, bem como à redução de níveis de ansiedade, depressão e estresse (Dudley et al., 2020; Bozdarov et al., 2022; Lee et al., 2025). Estudos relataram que o boxe sem contato pode proporcionar redução significativa nos sintomas de ansiedade, depressão, TEPT (Transtorno do Estresse Pós-Traumático) e sintomas negativos da esquizofrenia. Ainda assim, há trabalhos que apontam resultados inconclusivos sobre a autoestima e autoimagem, além de evidências limitadas quanto à ansiedade, depressão e regulação emocional.

No que se refere aos comportamentos sociais, a literatura indica que as artes marciais podem contribuir para a redução de atitudes agressivas, estimulando a autocontenção, o respeito mútuo e a melhora no desempenho escolar. No que se diz respeito aos atletas, revisões constataram que a agressividade aumenta o risco de lesões. Entre as modalidades marciais estudadas, o boxe, o judô e o taekwondo foram citados como esportes que ajudam a controlar a raiva e reduzir a agressão em jovens, embora todas as modalidades marciais estudadas nesta pesquisa demonstram regular os níveis de estresse do indivíduo e, consequentemente, a agressividade. É relevante mencionar que, diante ao exposto, a associação entre artes marciais e o aumento da agressividade constitui um estigma social sem respaldo científico. 

Do mesmo modo, as artes marciais também foram propostas como benéficas para a construção do caráter (Domaneschi et al., 2021), atuando na formação de escolhas, decisões e comportamentos alinhados a princípios éticos e sociais. Pesquisadores ressaltaram a importância da prática de artes marciais para promover a ética, os valores morais e o desenvolvimento social dos praticantes (Patenteu et al., 2024). Algumas modalidades tradicionais possuem uma filosofia marcial mais presente, o que reforça valores e princípios. Por fim, ressalta-se que, através de treinos disciplinados e da orientação de instrutores, é possível fortalecer o autocontrole, a responsabilidade pessoal e a cooperação, favorecendo a internalização de normas e adotando comportamentos éticos na vida cotidiana.

Dessa forma, a prática regular de artes marciais revelou-se uma ferramenta eficaz para a promoção do equilíbrio emocional, o fortalecimento de competências psicossociais e o desenvolvimento do caráter, ampliando a qualidade de vida dos praticantes. Além disso, representam uma alternativa viável para indivíduos que buscam aprimorar o controle do estresse, fortalecer a autoconfiança, regular o comportamento, melhorar a concentração e desenvolver o autocontrole. Esses fatos destacam a relevância das artes marciais como um recurso educacional, terapêutico e de promoção da saúde completa.

REFERÊNCIAS

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