ESTRATÉGIAS MULTIMODAIS COM CRIANÇAS NEURO DIVERGENTES NO ENSINO PÚBLICO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202511231051


Carolline Franchi Evangelista1
Maurício Borges Ribeiro Brancalhão2


Resumo

Nos últimos anos, as demandas educacionais têm passado por uma constante necessidade de mudança. Os alunos que frequentavam as salas de aula há cinco anos atrás, são completamente diferentes dos estudantes de hoje. Com essa mudança, ocorreu também a necessidade de incluir as dificuldades de aprendizagem no cotidiano. A proposta para desenvolver essas dificuldades, é o processo de ensino aprendizagem ser baseado em práticas multimodais, das quais a pesquisa bibliográfica a seguir mostra ser muito eficaz tanto com crianças neuro divergentes, quanto com crianças ditas como “normais”. Os objetivos que permearam o estudo foram de trazer possibilidades metodológicas eficazes com crianças neuro divergentes no ensino público. Ao decorrer da pesquisa, é possível perceber que essa estratégia é eficaz, porém só ocorre de maneira efetiva se houver uma boa interação entre escola, família e políticas públicas.  

Palavras-chave: Multimodalidade, neuro divergentes, inclusão.

1. INTRODUÇÃO

As pessoas mudam, a realidade se transforma, os costumes e tradições mudam, as crianças dos dias atuais não são mais como as de alguns anos atrás. A realidade das crianças dessa nova geração já não é a mesma que nossos ancestrais tinham e nem a que tivemos quando menores. Com a crescente mudança da realidade nas salas de aula, percebeu-se a necessidade da mudança no tratar de crianças com dificuldades de aprendizagem. Dificuldades de aprendizagem essas, que eram acentuadas e não eram somente relacionadas ao meio, mas relacionadas ao biológico do aluno. 

À luz da pesquisa de Nunes (2020) por muitos anos a construção e validade de certas discussões eram necessárias para sempre manter certo padrão, para impor limites entre pessoas “normais e anormais”, por sua vez segregando os grupos e definindo a representatividade pessoal e social, ditando onde estariam ou não. 

Era a palavra, a linguagem, o que sinalizava a loucura e, também, o que a constituía como tal. Discursos, situados socio-historicamente, instituíam a loucura e os acometidos por diversos transtornos mentais, delimitando quem poderiam ser e onde poderiam estar, onde poderiam mostrar sua voz e, ainda assim, de forma simbólica e vigiada. Fora disso, as palavras proferidas por essas pessoas não eram ouvidas, não existiam e, assim, o próprio indivíduo não existia, era apagado como sujeito de direito, como cidadão. Sendo a pessoa considerada louca, como ela se expressava e, principalmente, o que tinha a dizer, não importava; em contrapartida, ao que diziam sobre a palavra do louco, ou seja, aos discursos que determinavam a loucura, era dado status de legitimidade. (NUNES 2020, pág. 18)

Com o passar do tempo, as necessidades dessas pessoas tornaram-se diferentes, com demandas e proporções que já não cabiam àquele pensamento, houve a necessidade de mudar a realidade daqueles indivíduos considerados loucos e incapazes de cuidar de si. 

Devido ao aumento de crianças com algum tipo de necessidade especial, cresceram também os estudos acerca do assunto. Por que nasceram assim? Qual a causa? Qual o tratamento? Existe cura? Crianças assim podem frequentar a escola? E muitas outras perguntas ainda não respondidas, trouxeram um olhar diferente em relação às neurodivergências de cada um e suas demandas.

O presente estudo trabalha em sua pesquisa bibliográfica a necessidade de diferentes estratégias de ensino para que esses alunos também sejam englobados no processo de ensino aprendizagem nas escolas regulares. O ensino baseado em práticas multimodais, traz a possibilidade de facilitar o aprendizado em crianças com necessidades especiais, com empatia, respeito e de forma à inclui-las na sociedade.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A CRIANÇA NEURO DIVERGENTE

Com o aumento da quantidade de crianças que destoam do padrão de “normalidade” em sala de aula, surgiu a necessidade de aprofundamento nos estudos em torno da saúde e transtornos da mente. Muitos adultos ou idosos que possuíam dificuldades na escola, vida ou sociedade que nunca conseguiram ser “compreendidos” quando menores, por muitas vezes chamados de “lerdos”, “preguiçosos”, “inquietos”, “loucos” ou até mesmo “burros”, tinham suas peculiaridades e necessidades deixadas de lado pela falta de conhecimento e entendimento sobre o assunto. Seguindo a linha de estudo de Candido (2012), 

Hoje é sabido que o transtorno mental encontra ancoragem nas causas biológicas, psicológicas e sociais, necessitando de atenção especializada, mas, também, de apoio familiar e social. No entanto, o processo de reinserção social é tarefa bastante difícil, pelo fato de, ainda, haver a conotação de que o portador do transtorno é alguém incapaz, anormal, um transgressor das normas sociais e portanto, merecedor de isolamento da sociedade (CANDIDO, 2012  pag. 113) 

Para Oliveira (2024), o termo neuro divergente refere-se a indivíduos que apresentam atividade atípica neurológica, como Dislexia, Disgrafia e Discalculia, como Autismo, Transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), entre outros. Já os que não apresentam, são denominados de neurotípicos.

Devemos sempre ter sempre em debate que, para que alguém seja diagnosticado com algum transtorno neurológico, é necessário que os sintomas apareçam de modo que venham a causar dificuldades e prejuízos em mais de um segmento da vida do indivíduo, geralmente, acarretando sofrimento para si e para seu entorno. (Nunes, 2020)

A dislexia é um transtorno específico de aprendizagem que afeta a habilidade de leitura, escrita e compreensão de informações escritas. Normalmente é descoberta e diagnosticada durante a vida escolar. Este transtorno possui como característica a dificuldade no reconhecimento, decodificação e soletração de palavras. A Associação Brasileira de Dislexia a define como um problema neurobiológico associado ao déficit no componente fonológico da linguagem. (BATISTA, 2024).

O Transtorno do Espectro Autista (TEA), também conhecido popularmente como autismo, é uma desordem neurológica que tem como principais aspectos a dificuldade na interação social e comunicação, as estereotipias e os comportamentos repetitivos. Suas características já podem ser percebidas desde a primeira infância e na maior parte em meninos.     

As dificuldades na comunicação ocorrem em graus variados. Algumas crianças podem falar adequadamente (geralmente as com Asperger), ao passo que outras não conseguem desenvolver habilidades de comunicação. Também pode ocorrer uma linguagem imatura caracterizada por jargão, ecolalia, reversões de pronome, prosódia anormal, entonação monótona etc. As crianças que conversam podem ter muita dificuldade em iniciar e, principalmente, em manter uma conversação adequada, especialmente com pessoas estranhas (SCHMIDT, 2013, p. 52).

O transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, popularmente conhecido como TDAH, é um transtorno de neurodesenvolvimento e assim como o autismo, também apresenta características desde os primeiros meses de vida. Apresenta limitações na aprendizagem ou em suas funções executivas, até prejuízos globais em habilidades sociais ou na inteligência (em qualquer dos casos, com menor ou maior intensidade, causa danos no âmbito pessoal, social, acadêmico e/ou profissional do indivíduo. (Nunes, 2020 pág. 80) O indivíduo possui como características a desatenção global ou combinada, a desorganização, a impulsividade e a inquietação, o que por muitos anos se foi confundida com falta de regras/ limites/educação.

Os transtornos depressivos (TD), têm causas genéticas, fisiológicas e/ou ambientais e podem aparecer pela primeira vez em qualquer idade, mas seus sintomas de início aumentam sensivelmente com a puberdade. Possui como características sintomas como o sentimento de tristeza, vazio, e desesperança na maior parte do tempo; diminuição do interesse ou prazer em todas ou quase todas as atividades do dia a dia; perda ou ganho de peso; insônia ou hipersonia; agitação ou atraso psicomotor; fadiga ou perda de energia; sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva ou inapropriada; diminuição da capacidade de pensamento, concentração, ou na tomada de decisões; pensamentos recorrentes de morte como ideação suicida recorrente e tentativa de suicídio ou plano para cometer suicídio. (Nunes, 2020 pág 86).

De Oliveira (2024) ainda conclui que o tratamento multidisciplinar é essencial para auxiliar no tratamento em pessoas com transtornos neurológicos como TEA, TDAH e Dislexia, envolvendo uma equipe de especialistas de várias disciplinas. O apoio com uma equipe multidisciplinar garante diagnósticos precisos e tratamentos personalizados, focando no desenvolvimento integral do indivíduo e facilitando sua integração social e acadêmica. 

Por conseguinte, chegamos ao choque de realidade. Como sabemos como tal sujeito se comportaria em sala de aula? O professor e a estrutura escolar, estão preparados para lidar com crianças inclusas? Como saber se o aluno deve ser encaminhado para uma escola de ensino especializado?  

A ESCOLA INCLUSIVA IDEAL

Como início dessa discussão, devemos destacar que, segundo a UNESCO (1994) o direito de uma educação de qualidade cabe à todos, a inclusão é um direito com amparo legal, onde o aluno possuindo necessidades especiais ou não, será atendido e cabe a escola fornecer isso.    

toda criança tem direito fundamental à educação, e deve ser dada a oportunidade de atingir e manter o nível adequado de aprendizagem, toda criança possui características, interesses, habilidades e necessidades de aprendizagem que são únicas, sistemas educacionais deveriam ser designados e programas educacionais deveriam ser implementados no sentido de se levar em conta a vasta diversidade de tais características e necessidades, aqueles com necessidades educacionais especiais devem ter acesso à escola regular, que deveria acomodá-los dentro de uma Pedagogia centrada na criança, capaz de satisfazer a tais necessidades… (UNESCO, 1994, pág.1)

A prática inclusiva nas escolas como por exemplo, a declaração de Salamanca ressalta que, 

escolas inclusivas devem reconhecer e responder às necessidades diversas de seus alunos, acomodando ambos os estilos e ritmos de aprendizagem e assegurando uma educação de qualidade a todos através de um currículo apropriado, arranjos organizacionais, estratégias de ensino, uso de recursos e parceria com as comunidades (UNESCO, 1994, p. 5).

  No âmbito da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (BRASIL, 2015) está lavrado no

Art. 28. Incumbe ao poder público assegurar, criar, desenvolver, implementar, incentivar, acompanhar e avaliar:

I – sistema educacional inclusivo em todos os níveis e modalidades, bem como o aprendizado ao longo de toda a vida;

II – aprimoramento dos sistemas educacionais, visando a garantir condições de acesso, permanência, participação e aprendizagem, por meio da oferta de serviços e de recursos de acessibilidade que eliminem as barreiras que promovam a inclusão plena;

III – projeto pedagógico que institucionalize o atendimento educacional

especializado, assim como os demais serviços e adaptações razoáveis, para atender às características dos estudantes com deficiência e garantir o seu pleno acesso ao currículo em condições de igualdade, promovendo a conquista e o exercício de sua

autonomia;

V – adoção de medidas individualizadas e coletivas em ambientes que maximizem o desenvolvimento acadêmico e social dos estudantes com deficiência, favorecendo o acesso, a permanência, a participação e a aprendizagem em instituições de ensino;

VI – pesquisas voltadas para o desenvolvimento de novos métodos e técnicas pedagógicas, de materiais didáticos, de equipamentos e de recursos de tecnologia assistiva;

IX – adoção de medidas de apoio que favoreçam o desenvolvimento dos aspectos linguísticos, culturais, vocacionais e profissionais, levando-se em conta o talento, a criatividade, as habilidades e os interesses do estudante com deficiência;

X – adoção de práticas pedagógicas inclusivas pelos programas de formação inicial e continuada de professores e oferta de formação continuada para o atendimento educacional especializado;

XI – formação e disponibilização de professores para o atendimento educacional especializado, de tradutor e intérpretes da Libras, de guias intérpretes e de profissionais de apoio;

XII – oferta de ensino da Libras, do Sistema Braille e de uso de recursos de tecnologia assistiva, de forma a ampliar habilidades funcionais dos estudantes, promovendo sua autonomia e participação;

XIII – acesso à educação superior e à educação profissional e tecnológica em igualdade de oportunidades e condições com as demais pessoas;

XIV – inclusão em conteúdos curriculares, em cursos de nível superior e de educação profissional técnica e tecnologia, de temas relacionados à pessoa com deficiência nos respectivos campos de conhecimento;

XV – acesso da pessoa com deficiência, em igualdade de condições, a jogos e a atividades recreativas, esportivas e de lazer, no sistema escolar;

XVI – acessibilidade para todos os estudantes, trabalhadores da educação e demais integrantes da comunidade escolar às edificações, aos ambientes e às atividades concernentes a todas as modalidades, etapas e níveis de ensino;

XVII – oferta de profissionais de apoio escolar;

XVIII – articulação intersetorial na implementação de políticas públicas.

A escola inclusiva dos sonhos infelizmente ainda não foi tirada do papel, as necessidades de uma escola inclusiva real estão muito longe de ser atendidas pelas políticas públicas. Segundo a ONU (2018), as escolas que mais se aproximam do plano, acabam se perdendo em índices de alfabetização e letramento, voltando sempre para o ensino tradicionalista e engessado, o que é devido ao método avaliativo ultrapassado imposto pelo governo. Os índices que mostram a alfabetização e acesso à educação formal são menores entre as PcD’s, e a maior das causas é a falta de preparo das escolas para recebê-las. (ONU, 2018).   

Seguindo à luz da pesquisa de Batista, (2024), a interação entre família e escola é imprescindível nesse processo de inclusão. A família tem o conhecimento de sobre rotinas, costumes e preferências do educando, o que ajudará a equipe a conhecer o aluno e interagir de forma adequada frente a adversidades. A inclusão escolar fica mais difícil no prolongamento durante a transição de uma etapa para a outra da educação básica. 

Podemos concluir nesta sessão, que a escola inclusiva é uma realidade, porém a teoria diverge da prática necessária. Cabe ao professor procurar desenvolver sua prática pedagógica e conhecer seu aluno, cabe ao governo tornar sua política pública mais “acessível” e cabe também a sociedade entender melhor as novas demandas das dificuldades atuais de uma escola inclusiva.

 MULTIMODALIDADE E INCLUSÃO

A multimodalidade, como conceito central na educação inclusiva, refere-se ao uso combinado de diferentes modos semióticos para facilitar a construção e a comunicação de significados (JEWITT, 2009). Em ambientes educacionais, essa abordagem se destaca por sua capacidade de acomodar a diversidade cognitiva dos alunos, especialmente aqueles com neuro divergências, oferecendo múltiplos canais de interação e expressão.

EIXOS MULTIMODAIS

Os eixos multimodais compreendem os diversos modos de comunicação que podem ser explorados para enriquecer a prática pedagógica, proporcionando uma experiência de aprendizado mais ampla e inclusiva. Esses eixos, que incluem o texto escrito, imagens visuais, som e música, gestos e movimentos, e o uso do espaço e layout, desempenham funções cruciais no processo educacional:

  1. Texto Escrito O texto escrito continua sendo um eixo fundamental na educação, atuando como base para o desenvolvimento da leitura e da escrita. No entanto, sua aplicação deve ser adaptada para atender a diferentes necessidades, utilizando-se de fontes acessíveis e organização textual clara, favorecendo a compreensão, inclusive para estudantes com dislexia (SNYDER, 2018).
  2. Elementos Visuais As imagens desempenham um papel vital ao traduzir conceitos abstratos em representações visuais mais tangíveis. A aplicação de gráficos, diagramas e ilustrações em materiais didáticos pode auxiliar na retenção de informações e facilitar o aprendizado visual, sendo especialmente útil para alunos com preferências visuais ou dificuldades de leitura (KRESS & VAN LEEUWEN, 2001).
  3. Som e Música O som, em suas diversas formas, como a fala, a música e os efeitos sonoros, pode enriquecer a experiência educativa ao envolver diferentes sentidos. Recursos como vídeos educativos com narração e podcasts são exemplos de como o estímulo auditivo pode ser utilizado para reforçar o aprendizado e manter o engajamento dos estudantes (DARROW, 2013).
  4. Gestos e Movimentos O uso de gestos e movimentos no contexto educacional, como dramatizações e atividades físicas, é essencial para facilitar a aprendizagem de estudantes que respondem melhor a estímulos cinestésicos. Essas práticas não apenas promovem a assimilação do conteúdo de forma prática, mas também permitem uma maior expressão corporal e engajamento (MCNEILL, 1992).
  5. Espaço e Layout A organização do espaço físico e o layout dos materiais didáticos são fundamentais para garantir a acessibilidade e a inclusão. Um ambiente educacional bem planejado deve considerar a disposição dos elementos de maneira que favoreça a interação e a navegação pelos alunos, respeitando suas necessidades individuais e promovendo um aprendizado mais eficiente (GEE, 2004).

APLICAÇÃO DOS EIXOS MULTIMODAIS NA EDUCAÇÃO INCLUSIVA

A integração dos eixos multimodais na prática pedagógica promove um ambiente de aprendizado que é, ao mesmo tempo, inclusivo e responsivo às diversas formas de cognição presentes nas salas de aula. Ao incorporar diferentes modos de comunicação e expressão, os educadores podem adaptar suas  estratégias para atender às necessidades dos estudantes neuro divergentes, garantindo que cada aluno tenha a oportunidade de aprender e se expressar de maneira eficaz.

Essa abordagem colaborativa é essencial para monitorar e ajustar continuamente as intervenções, garantindo um atendimento dinâmico e responsivo. Psicólogos ajudam a desenvolver planos comportamentais, terapeutas ocupacionais trabalham em habilidades motoras e sensoriais, e fonoaudiólogos melhoram as habilidades de comunicação. Educadores adaptam métodos pedagógicos para promover um ambiente inclusivo e eficaz. (DE OLIVEIRA, 2024, pag 4)

Essa abordagem não só reconhece a importância da diversidade na aprendizagem, mas também reforça o compromisso com a inclusão educacional, proporcionando aos alunos uma experiência de aprendizado mais rica e personalizada.

A adoção de estratégias multimodais reconhece a diversidade de estilos de aprendizagem. Crianças neutras divergentes frequentemente não respondem de maneira eficaz a abordagens pedagógicas tradicionais que dependem predominantemente de métodos lineares e unidimensionais, como a leitura e a escrita. A multimodalidade, ao proporcionar múltiplos canais de comunicação e apresentação de informações — incluindo estímulos visuais, auditivos e táteis —, oferece uma resposta direta às necessidades desses alunos. Por exemplo, uma criança com TEA pode compreender melhor um conceito matemático quando este é apresentado por meio de recursos visuais complementados por uma explicação verbal.

Além disso, as estratégias multimodais desempenham um papel crucial no apoio ao desenvolvimento cognitivo e emocional. A utilização combinada de música, movimento e estímulos visuais, por exemplo, não apenas facilita a aquisição de conhecimento acadêmico, mas também contribui para a regulação emocional e o desenvolvimento das habilidades socioemocionais. A associação de conceitos abstratos a elementos concretos por meio de diferentes modalidades sensoriais promove uma compreensão mais profunda e consolidada do conteúdo, o que é particularmente benéfico para alunos que enfrentam dificuldades em abstrair informações.

Outro aspecto relevante é a facilitação da comunicação e expressão, áreas nas quais crianças neuro divergentes frequentemente encontram barreiras significativas. A multimodalidade permite a utilização de alternativas à comunicação verbal ou escrita tradicional, como o uso de imagens, gestos ou tecnologias visuais. Estas alternativas são fundamentais para evitar a frustração e para garantir que essas crianças tenham a oportunidade de expressar seus conhecimentos e sentimentos de maneira que seja mais confortável e acessível para elas.

Por fim, a multimodalidade promove a inclusão e a acessibilidade no ambiente educacional. Uma educação verdadeiramente inclusiva exige que todos os alunos, independentemente de suas diferenças cognitivas e sensoriais, tenham acesso equitativo às oportunidades de aprendizado. Ao adaptar tanto o conteúdo quanto os métodos de ensino, as estratégias multimodais garantem que o ambiente escolar seja mais acolhedor e responsivo às necessidades individuais de cada aluno.

3. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

A implementação de estratégias multimodais na educação de crianças neuro divergentes é fundamental devido à diversidade de formas com que essas crianças processam informações, interagem com o ambiente e expressam seus conhecimentos. As crianças como aquelas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), dislexia, entre outras condições, apresentam padrões de desenvolvimento cognitivo e sensorial que diferem significativamente dos modelos típicos. Consequentemente, a adoção de uma abordagem pedagógica que considere essas variações não é apenas recomendada, mas necessária para promover um aprendizado eficaz e inclusivo.

Dessa forma, conclui-se que as estratégias multimodais são essenciais para a criação de um ambiente educacional que valorize a neurodiversidade, promovendo a aprendizagem de maneira inclusiva e eficaz. Através da incorporação de múltiplos modos de ensino, os educadores podem oferecer um suporte melhor adaptado e robusto, assegurando que cada aluno tenha a oportunidade de atingir seu pleno potencial acadêmico e social. 

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 1Mestrando em Letras Estrangeiras Modernas da Universidade Estadual de Londrina. e-mail: carolline.franchi@uel.com.br
  2Mestrando em Letras Estrangeiras Modernas da Universidade Estadual de Londrina. e-mail: mauricio.brancalhao@uel.com.br