REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202511302335
Pedro Wilson Ramos da Conceição1; Natanael Alves da Silva2; Cleide Maria de Jesus Oliveira Barbosa3; Maria da Cruz Torres de Castro4; Neylaine Borges de Moura5; Thiago de Sousa Paula6; Gilberto Antônio Batista7; Eliete Jacinta Vale de Carvalho Cardoso8; Jucilene Borges de Oliveira Morais9; Joice Pereira Costa10
Resumo
Este ensaio revisa evidências recentes sobre estratégias psicológicas para o manejo de adultos em crise psicótica e discute desafios de implementação em serviços comunitários. A questão norteadora foi identificar quais intervenções são mais eficazes e aplicáveis no contexto real. Realizou-se revisão bibliográfica qualitativa, descritivo-analítica, nas bases PubMed, SciELO e LILACS (2020–2025), com descritores em português e inglês. A síntese apontou três eixos complementares: desescalada verbal como primeira linha (comunicação empática, reorganização ambiental e redução de estímulos); abordagens informadas por trauma, visando segurança emocional e prevenção de retraumatização; e terapias breves, como TCC focada na crise e modelos de intervenção precoce, integrando psicoeducação e suporte familiar. Persistem barreiras estruturais no Brasil, como subfinanciamento, práticas coercitivas e lacunas na continuidade do cuidado. Conclui-se que combinar desescalada, cuidado informado por trauma e psicoterapia breve, articulados à rede territorial, favorece desfechos clínicos e a dignidade do paciente.
Palavras-chave: crise psicótica; desescalada; terapia cognitivo-comportamental.
Abstract
This essay synthesizes recent evidence on psychological strategies for managing psychotic crises in adults and examines implementation challenges within community settings. The guiding question was which interventions are both effective and feasible in real-world care. A qualitative, descriptive-analytic literature review was conducted in PubMed, SciELO, and LILACS (2020–2025), using bilingual descriptors. Findings converged on three complementary axes: verbal de-escalation as first-line (empathetic communication, environmental reorganization, stimulus reduction); trauma-informed approaches to ensure emotional safety and avoid retraumatization; and brief therapies, such as crisis-focused CBT and early intervention models integrating psychoeducation and family support. Structural barriers in Brazil remain, including underfunding, coercive practices, and discontinuity of care. We conclude that combining de-escalation, trauma-informed care, and brief psychotherapy, embedded in territorial networks, improves clinical outcomes while preserving patient dignity.
Keywords: psychotic crisis; de-escalation; cognitive behavioral therapy.
1. INTRODUÇÃO
As crises psicóticas constituem uma das condições mais graves da saúde mental, envolvendo sintomas como delírios, alucinações e desorganização do pensamento (Calabrese, Khalili, 2023). De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2021), os serviços comunitários devem priorizar o manejo das crises com abordagens centradas na pessoa e pautadas em direitos humanos, reduzindo o uso de contenções e garantindo a dignidade do paciente.
Neste contexto, as crises psicóticas representam um desafio significativo para os sistemas de saúde, sobretudo em países de baixa e média renda, onde a cobertura de serviços especializados ainda é limitada. Estima-se que mais de 1,6 milhão de pessoas vivam com psicose no Brasil, sendo que 56,2% dos pacientes com primeiro episódio psicótico não recebem tratamento adequado no Sistema Único de Saúde (SUS) (Aceituno et al., 2024). Em Ribeirão Preto, a incidência ajustada foi de 16,69 casos por 100.000 pessoa-anos, reforçando a necessidade de estratégias de manejo eficazes (Del-Ben et al., 2019). Além disso, apenas 40% das demandas em saúde mental são devidamente registradas na atenção primária, o que indica fragilidades na integração entre os níveis de cuidado (Treichel; Bakolis; Campos, 2021).
Nesse sentido, a escassez de serviços de intervenção precoce em psicose na América Latina, aliada à concentração dos existentes em grandes centros urbanos, reforça desigualdades de acesso e limita a efetividade do cuidado (Aceituno et al., 2021). De acordo com a OMS (2021), a expansão de serviços comunitários acessíveis e centrados na pessoa é essencial para reduzir tais disparidades e garantir a dignidade dos pacientes.
Conforme Saunders et al. (2023), as abordagens informadas por trauma aplicadas em serviços de crise têm como objetivo reconhecer o impacto de experiências traumáticas prévias e evitar a retraumatização durante a intervenção, favorecendo maior engajamento do paciente e fortalecimento da relação terapêutica, embora ainda enfrentam barreiras institucionais, como limitações de recursos e resistência de profissionais em serviços de saúde mental.
Evidências também demonstram a eficácia de estratégias de desescalada, uma vez que em um ensaio clínico randomizado por clusters o treinamento de profissionais reduziu significativamente incidentes de agressividade e a utilização de contenções físicas em unidades psiquiátricas (Celofiga et al., 2022). De forma complementar, Wilson, Hickey e Reilly (2023) destacam que o manejo da agitação deve seguir uma hierarquia de intervenções, priorizando comunicação empática, reorganização ambiental e técnicas de redirecionamento antes do uso de medidas farmacológicas ou físicas.
De forma complementar, Curry et al. (2023) ressaltam que o manejo da agitação em pacientes com transtornos psicóticos deve seguir uma hierarquia de intervenções, priorizando a comunicação empática, a reorganização ambiental e técnicas de redirecionamento antes da utilização de medidas farmacológicas ou físicas. Além do manejo imediato, a literatura enfatiza a importância da continuidade do cuidado, pois programas de Intervenção Precoce na Psicose (EIP) demonstraram reduzir recaídas, internações e gravidade dos sintomas ao integrarem psicoeducação, suporte familiar e reabilitação psicossocial, evidenciando que a combinação de estratégias psicológicas agudas e intervenções de seguimento é crucial para resultados clínicos mais favoráveis (Bird et al., 2018).
No Brasil, entretanto, os desafios estruturais persistem, pois a atenção à crise psicótica ainda é marcada por desigualdades, escassez de recursos e práticas coercitivas que se distanciam dos princípios da Reforma Psiquiátrica, o que compromete a efetividade das intervenções psicológicas e reforça a necessidade de formação profissional específica e fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial (Dassoler; Palombini, 2020).
Do ponto de vista social, compreender o manejo psicológico em crises psicóticas é essencial porque afeta diretamente o paciente, a família e a comunidade; reduzir práticas coercitivas e fortalecer cuidados humanizados ajuda a diminuir o estigma e ampliar a confiança nos serviços. Do ponto de vista acadêmico, ainda faltam estudos nacionais aplicados aos serviços comunitários, o que leva à questão-problema: quais estratégias psicológicas são mais eficazes e aplicáveis ao manejo de adultos em crise psicótica? Partindo dessa premissa, este ensaio sustenta que as barreiras ao acesso de pessoas em vulnerabilidade social não decorrem apenas de falhas administrativas, mas de um sistema de exclusão que gera descontinuidade do cuidado, naturaliza coerções e enfraquece intervenções centradas na pessoa.
Desta forma, esse ensaio foi realizado por meio de uma revisão bibliográfica de natureza qualitativa, com enfoque descritivo-analítico, baseada em artigos científicos indexados em bases da PubMed, SciELO e LILACS, no período de 2020 a 2025. Os descritores usados foram: Adultos, Crise Psicótica e práticas psicológicas. E seus equivalentes em inglês. Assim, busca-se interpretar criticamente as evidências sobre o manejo psicológico das crises psicóticas em adultos, priorizando estratégias aplicáveis nos serviços comunitários e examinando as barreiras de acesso enfrentadas por populações em situação de vulnerabilidade social.
Diante desse panorama, o objetivo deste estudo é analisar as estratégias psicológicas utilizadas no manejo de crises psicóticas em adultos e identificar os principais desafios para sua implementação. Nesse sentido, o ensaio organiza-se em três seções: a primeira explora o contexto da crise psicótica em pacientes adultos; em seguida, as estratégias utilizadas em situações de crises psicóticas; e, por fim, as barreiras que dificultam o manejo de crises psicóticas.
2. CRISE PSICÓTICA: CONCEITO CLÍNICO E CONTEXTUALIZAÇÃO NA LITERATURA
A crise psicótica pode ser entendida como um episódio agudo em que sintomas psicóticos interrompem o teste de realidade e desorganizam a vida cotidiana, envolvendo alterações como delírios, alucinações e pensamento ou comportamento desorganizado, e se apresentando de maneira abrupta como uma situação que demanda ajuda imediata, inclusive do ponto de vista de proteção e suporte ao paciente e à rede familiar (Hudson et al., 2024), a psicose em si é descrita clinicamente como um conjunto de sinais e sintomas que podem aparecer em diferentes transtornos psiquiátricos e também em quadros de origem médica ou tóxica, motivo pelo qual a avaliação inicial precisa sempre considerar causas psiquiátricas e não psiquiátricas (Vyas et al., 2023)
Essa compreensão é importante porque diferencia crise psicótica de diagnóstico fechado, ou seja, não é só dizer que o paciente tem esquizofrenia ou transtorno bipolar, mas reconhecer que existe um momento crítico em que a perda de contato com a realidade, somada ao risco de desorganização comportamental, vira uma urgência que precisa ser acolhida e manejada de modo imediato, técnico e sem aumentar o dano
Na fase aguda, a avaliação clínica deve identificar rapidamente risco para o próprio paciente e para terceiros, descartar causas médicas tempo-dependentes e manejar a agitação como uma emergência médica e psiquiátrica, já que a não contenção pode levar a lesões, complicações fisiológicas e escalada de violência, por isso as recomendações atuais incluem triagem estruturada, comunicação clara e organização do espaço físico, junto com intervenções de segurança que preservem a dignidade do paciente sempre que possível (Vyas et al., 2023; Curry et al., 2023)
O manejo imediato da agitação em contexto de crise psicótica segue um modelo escalonado que prioriza primeiro intervenções não farmacológicas, incluindo desescalada verbal, aproximação colaborativa e redução de estímulos ambientais, e só avança para uso de medicação sedativa e contenção física quando há risco imediato ou quando essas estratégias iniciais não são suficientes, descrições de prática clínica em emergência psiquiátrica destacam que a agitação deve ser tratada como urgência médica e psiquiátrica, com triagem estruturada, comunicação clara e tentativa de preservar a dignidade do paciente antes de recorrer a medidas coercitivas (Curry et al., 2023), resultados de um ensaio com randomização em unidades psiquiátricas agudas mostraram que equipes treinadas formalmente em técnicas de desescalada apresentaram redução de incidentes agressivos, inclusive de agressões graves, e menor necessidade de contenção física após o treinamento, em comparação com unidades sem esse treinamento, indicando que a capacitação sistemática em desescalada tem impacto direto na segurança e no uso de coerção nesses cenários de internação psiquiátrica aguda (Celofiga et al., 2022)
Além do aspecto técnico, essa escolha por iniciar com intervenções não farmacológicas é também ética e organizacional, porque ela tenta estabilizar sem partir diretamente para coerção, evitando agravar o medo, o descontrole e a sensação de ameaça que muitas pessoas em crise relatam, e preservando um mínimo de vínculo que depois vai ser essencial para continuidade do cuidado
Quando a intervenção medicamentosa é necessária, a literatura orienta priorizar via oral sempre que o paciente puder colaborar, considerando perfil de início de ação, efeitos adversos e segurança global, e reservar aplicações intramusculares para cenários de risco imediato ou quando não há possibilidade de uso oral, integrando a medicação dentro de um plano geral que inclui monitorização clínica e comunicação contínua com o paciente e com quem acompanha (Curry et al., 2023)
Em conjunto, este percurso mostra que crise psicótica não deve ser tratada como um evento isolado e caótico, mas como uma situação clínica reconhecida com critérios, com etapas de avaliação e com decisões graduais, ligando conceito teórico, prática de emergência e o passo seguinte que é manter esse paciente dentro de um percurso de cuidado em vez de simplesmente sedar e devolver ao ciclo de volta e retorno à emergência.
3. CRISE PSICÓTICA EM PACIENTES ADULTOS
A vida adulta é descrita como um período de consolidação de papéis de longo prazo, em que a pessoa precisa sustentar trabalho, responsabilidades familiares e relações íntimas de forma relativamente estável, ao mesmo tempo em que mantém um senso contínuo de identidade e direção de vida (Mehta et al., 2020), pesquisas recentes propõem o conceito de adultez estabelecida para o intervalo aproximado dos 30 aos 45 anos, caracterizado pela necessidade de equilibrar simultaneamente carreira, vida afetiva e cuidado com filhos ou outros familiares, o que gera alta pressão para manter funcionalidade emocional e ocupacional (Mehta; Arnett, 2023), além disso, estudos atuais mostram que as etapas da vida adulta estão ligadas a riscos concretos de saúde física e mental, e que dificuldades em manter esses papéis sociais e funcionais podem ter impacto direto em bem-estar, adoecimento e uso de serviços de saúde (Halloran et al., 2024)
Esse conjunto de exigências faz com que qualquer ruptura aguda de funcionamento mental no adulto tenha um peso que não é só clínico mas também social e econômico, porque um episódio psicótico pode interferir diretamente na capacidade de manter vínculo de trabalho, zelar por outras pessoas, tomar decisões seguras e responder por si, o que significa que a crise não afeta apenas o indivíduo mas toda a rede que depende dele
Nos serviços de urgência, adultos em crise psicótica costumam apresentar agitação, delírios, alucinações e desorganização do pensamento, quadro que pressiona o fluxo assistencial e exige triagem rápida para diferenciar causas psiquiátricas de condições clínicas ou toxicológicas, articulando desde o início medidas de contenção ambiental e comunicação terapêutica com a possibilidade de tranquilização medicamentosa quando indicada, sempre preservando a segurança e a dignidade do paciente (Curry et al., 2023)
Após a estabilização do episódio agudo, a continuidade do cuidado é determinante para desfechos clínicos e funcionais mais favoráveis, e serviços de intervenção precoce em psicose mostram potencial de reduzir recaídas e internações quando integram psicoeducação, apoio familiar e reabilitação psicossocial, devendo ser articulados às redes territoriais e ajustados às demandas locais, dados epidemiológicos brasileiros apontam variações de incidência associadas a contextos urbanos, o que exige planejamento de oferta e capilaridade dos serviços segundo necessidades do território (Aceituno et al., 2021)
No contexto brasileiro, análises críticas evidenciam tensões entre um modelo psicossocial orientado por direitos e a persistência de práticas centradas em contenção e controle, em especial diante de subfinanciamento, sobrecarga de equipes e fragilidades de articulação entre portas de entrada e dispositivos de seguimento, fatores que podem comprometer o acolhimento e a continuidade do cuidado justamente nos momentos de maior gravidade (Dassoler, 2021)
Diante desse cenário, torna-se estratégico fortalecer a organização da rede para a crise, com rotas claras de encaminhamento, retaguarda 24 horas e oferta de cuidados intensivos e de curta permanência no território, além de instrumentos de comunicação entre pronto-socorro e serviços comunitários, pois a ausência de tais dispositivos favorece internações prolongadas, repetidas idas à emergência e ruptura de vínculos terapêuticos, especialmente em regiões com menor densidade de serviços especializados (Dassoler, 2021; Aceituno et al., 2021)
Mesmo com tentativas de organizar uma rede com retaguarda contínua e articulação entre os pontos de cuidado, ainda existe um descompasso entre o que as diretrizes propõem e o que é viável na prática diária dos serviços públicos, então o desafio atual não é apenas formular modelos de atenção à crise psicótica no adulto, mas testar quais combinações realmente funcionam de modo consistente em cenários reais de alta demanda e poucos recursos
A literatura ainda carece de padronização e de estudos multicêntricos que testem pacotes combinados de desescalada, planos de segurança e transição pós-alta, com indicadores centrados na pessoa e acompanhamento de médio prazo, as evidências existentes sinalizam caminhos promissores, mas apontam lacunas de implementação e monitoramento em serviços reais, o que justifica agendas de pesquisa aplicadas à rede pública e à diversidade territorial brasileira (Celofiga et al., 2022; Aceituno et al., 2021)
Portanto, a crise psicótica em adultos precisa ser entendida como um ponto de convergência entre desenvolvimento humano, urgência clínica e organização de rede, porque ela interrompe funções que são centrais para a vida adulta, exige resposta imediata e qualificada no pronto-atendimento e ao mesmo tempo revela os limites e as falhas de continuidade do cuidado no território, então pensar esse fenômeno não é só discutir sintomas e contenção, mas discutir proteção de autonomia, prevenção de recorrência, suporte social e viabilidade de um modelo de cuidado que não abandone o paciente depois que o surto passa
4. ESTRATÉGIAS PSICOLÓGICAS NA CRISE PSICÓTICA
Nas discussões mais recentes da saúde mental brasileira, a crise psicótica não é tratada apenas como um “surto” a ser controlado, mas como uma experiência de sofrimento intenso que precisa ser acolhida de modo a permitir que a pessoa atribua sentido ao que está acontecendo com ela naquele momento, e isso significa reconhecer que o trabalho clínico imediato não é só sedação e contenção, mas também escuta, reconhecimento da vulnerabilidade e tentativa de proteger o vínculo e a dignidade de quem está em sofrimento, estudos feitos em rede pública descrevem que os profissionais da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) entendem a crise como um ponto de ruptura que mobiliza todo o território e não só o serviço de urgência, e relatam dificuldade para sustentar esse cuidado quando faltam estrutura, pessoal e educação permanente, ao mesmo tempo em que apontam que o acolhimento deveria ser compartilhado e interdisciplinar, e não apenas biomédico (Fonseca et al., 2023), análises críticas da reforma psiquiátrica brasileira reforçam essa tensão entre um modelo psicossocial baseado em cuidado em liberdade e um modelo ainda centrado em controle e contenção, lembrando que a forma como a crise é acolhida revela não só uma escolha técnica, mas um posicionamento ético e político em relação ao sofrimento psíquico grave (Dassoler; Palombini, 2020).
No manejo imediato da agitação e do risco associado à crise psicótica, a literatura recente descreve a desescalada verbal como intervenção de primeira linha, entendida como aproximação colaborativa, comunicação clara, validação do sofrimento e redução de estímulos, antes de recorrer a contenção física ou farmacológica, e coloca a agitação como uma emergência psiquiátrica e médica que exige atuação rápida mas também qualificada do ponto de vista relacional (Curry et al., 2023), análises de 2024 com profissionais e usuários de unidades psiquiátricas agudas mostram que desescalar não é só “acalmar o paciente”, mas envolve também regulação emocional da própria equipe, reconhecimento de medo e desespero por parte de quem está em crise e respeito à autonomia mínima possível, e apontam que falhas organizacionais, cultura de punição e ausência de envolvimento ativo da pessoa em sofrimento atrapalham essa mediação não violenta, o que significa que a desescalada é uma prática psicológica complexa e não apenas uma técnica de segurança (Price et al., 2024).
Dentro desse mesmo cenário de urgência, vem ganhando espaço a adaptação da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) especificamente para o momento de crise e de internação psiquiátrica aguda, em modelos chamados de intervenção de TCC focada na crise, que são breves, estruturados e pensados para acontecer ainda durante a internação, em cerca de 6 a 8 encontros, com foco em ajudar a pessoa a compreender o que está acontecendo, reduzir desesperança, lidar com medo e retomar algum senso de controle sobre a experiência psicótica, essas intervenções vêm sendo coproduzidas com usuários com experiência de psicose, familiares, profissionais e pesquisadores, com a ideia de que a psicoterapia precisa caber no cenário real da internação aguda e não só no ambulatório estável, e ensaios piloto randomizados publicados a partir de 2022 mostram que testar esse tipo de TCC de crise em unidades psiquiátricas agudas é viável e aceitável, inclusive em populações racialmente diversas que costumam ser internadas de forma coercitiva (WOOD et al., 2022).
Outra frente psicológica descrita recentemente é a atenção informada pelo trauma em contextos de crise, emergência e internação psiquiátrica, assim, serviços de crise em saúde mental carregam alta prevalência de experiências traumáticas prévias e também relatam que o próprio atendimento em crise pode ser traumático quando baseado em coerção, seclusão e contenção física, por isso modelos de cuidado informados pelo trauma propõem construir segurança emocional, prevenir retraumatização, envolver o usuário como participante ativo do manejo da sua própria crise e oferecer suporte de forma colaborativa e não punitiva, articulando cuidado clínico e proteção de direitos (Saunders et al., 2023), essa mesma linha aparece em orientações da OMS, que defendem serviços de crise em saúde mental orientados à recuperação, centrados na pessoa e baseados em direitos humanos, com ênfase explícita em reduzir o uso de força e de intervenções coercitivas e em oferecer alternativas que considerem a vontade e as preferências do sujeito (OMS, 2021)
No Brasil, essa ideia de cuidado psicossocial, colaborativo e de base territorial aparece concretamente no papel dos Centros de Atenção Psicossocial, em especial os CAPS III, que funcionam 24 horas e são descritos como porta de acolhimento prioritária para situações de crise intensa, articulando observação contínua, suporte clínico e proteção social sem depender automaticamente da internação psiquiátrica longa, estudos recentes sobre a rede de atenção à crise no Rio de Janeiro descrevem que o município opera um modelo em que a crise é atendida preferencialmente em serviços específicos conectados à Rede de Atenção Psicossocial, com forte integração entre urgência e CAPS III, reconhecendo esses serviços como lugares legítimos de manejo da crise e não só como “acompanhamento ambulatorial”, mas também apontam limites concretos de cobertura, regulação e disponibilidade de retaguarda intensiva em todo o território (Coutinho et al., 2024).
Por fim, tudo isso aponta para um eixo comum, que é a ideia de que o manejo psicológico da crise psicótica não pode ser reduzido a controlar comportamento perigoso naquele instante e depois encerrar o caso, ele precisa ser entendido como uma combinação de estratégias imediatas de desescalada e segurança, intervenções psicoterapêuticas breves e dirigidas ao sentido daquela experiência psicótica para aquela pessoa, cuidado informado pelo trauma e articulação com uma rede que siga com o sujeito depois que a urgência diminui, profissionais entrevistados em serviços públicos brasileiros relatam que sem suporte institucional e formação continuada acabam aprendendo a manejar crise “na prática”, muitas vezes sob pressão e com poucos recursos, enquanto diretrizes internacionais e revisões recentes pedem equipes treinadas, menos coerção e mais participação do próprio usuário no plano de cuidado, o que coloca a psicologia no centro da crise psicótica não só como quem “acalma” mas como quem ajuda a transformar o episódio agudo em começo de trajetória de cuidado estável e com menos violência institucional.
5. CONCLUSÃO
Retoma-se a tese de que o manejo psicológico da crise psicótica em adultos deve ocupar o eixo central do cuidado. A crise exige resposta simultaneamente técnica e humana, combinando contenção de risco, preservação da dignidade e planejamento de continuidade assistencial após a estabilização.
Os resultados sintetizados corroboram essa tese ao mostrarem que o treinamento em desescalada verbal reduz incidentes agressivos e a necessidade de contenções, qualificando a segurança com menos coerção. As abordagens informadas pelo trauma aumentam engajamento e evitam retraumatização, oferecendo um enquadre ético e operacional para o atendimento em crise. Intervenções psicoterapêuticas breves, como TCC focal na crise durante a internação, mostram viabilidade e aceitabilidade, favorecendo construção de sentido, redução de desesperança e preparo para a transição pós-alta.
Além disso, a articulação com a rede territorial e dispositivos de seguimento sustenta os ganhos clínicos, reduz recaídas e melhora o funcionamento social e ocupacional. Em conjunto, esses achados confirmam que estratégias psicológicas aplicadas desde a fase aguda e mantidas no território transformam o episódio crítico em ponto de partida para um cuidado contínuo, efetivo e ético, validando a centralidade do manejo psicológico na crise psicótica.
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1Doutor em Psicologia – PUC Minas. Universidade Estadual do Maranhão. pedroramos@professor.uema.br
2Graduando em Psicologia. Centro Universitário Uninassau Teresina Sul. natanaelalvesdasilva05@gmail.com
3Graduanda em Psicologia. Centro Universitário Uninassau Teresina Sul. E-mail: cleidemariapsi@gmail.com
4Graduanda em Psicologia. Centro Universitário Uninassau Teresina Sul. mariafirminaamor@gmail.com
5Graduanda em Psicologia. Centro Universitário Uninassau Teresina Sul. psineylaineborges@outlook.com
6Bacharel em Psicologia. Centro universitário Uninassau. thiagodesousa969@gmail.com
7Bacharel em Psicologia. Centro Universitário Uninassau Teresina Sul. batista.pe@icloud.com
8Bacharel em Psicologia. Instituição – Estácio Teresina – Piauí Brasil. jassavale@gmail.com
9Graduanda em Psicologia. Centro Universitário Uninassau Teresina Sul. jucilenemorais2015@gmail.com
10Graduanda em Psicologia. Centro Universitário Uninassau Teresina Sul. joice_costa_@hotmail.com
