STRATEGIES FOR PREVENTING PRESSURE INJURIES IN BEDRIDDEN ELDERLY PATIENTS: A COMPREHENSIVE CONTEXTUAL STUDY
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202510312004
Emyla Rillary Ossami Araújo1
Marcela Rauane Rebouças de Lima2
Silas de Souza Júnior3
RESUMO
O envelhecimento populacional no Brasil tem provocado um aumento expressivo na demanda por cuidados contínuos e especializados, especialmente entre idosos acamados com doenças crônicas em estágio avançado. Este estudo teve como objetivo investigar as estratégias de prevenção de lesão por pressão adotadas pela enfermagem, considerando os desafios institucionais e assistenciais que impactam diretamente a qualidade do cuidado. Trata-se de uma pesquisa de natureza bibliográfica, com abordagem qualitativa, fundamentada em revisão sistemática da literatura científica publicada entre 2018 e 2025. Foram selecionados 35 artigos nas bases SciELO e PubMed, com critérios de relevância temática, acesso completo e rigor metodológico. Os resultados evidenciaram obstáculos como escassez de recursos materiais, ausência de protocolos padronizados, sobrecarga das equipes e limitações na formação continuada dos profissionais. A atuação da enfermagem foi apontada como essencial para garantir uma assistência humanizada e eficaz, sendo necessário investir na Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE), na capacitação técnica e na adoção de práticas baseadas em evidências. Conclui-se que a prevenção das lesões por pressão constitui uma estratégia fundamental para promover dignidade, segurança e qualidade de vida aos idosos acamados. Recomenda-se o fortalecimento das políticas públicas, a padronização dos protocolos assistenciais e a valorização da enfermagem como protagonista no cuidado ao idoso.
Palavras-chave: Enfermagem. Cuidados paliativos. Idosos acamados. Lesão por pressão. Humanização da assistência.
ABSTRACT
Population aging in Brazil has led to a significant increase in the demand for continuous and specialized care, particularly among bedridden elderly individuals with advanced chronic illnesses. This study aimed to investigate the pressure injury prevention strategies adopted by nursing professionals, considering the institutional and care-related challenges that directly affect the quality of care. It is a bibliographic research with a qualitative approach, based on a systematic review of scientific literature published between 2018 and 2025. A total of 35 articles were selected from the SciELO and PubMed databases, using criteria of thematic relevance, full-text availability, and methodological rigor. The findings revealed obstacles such as lack of material resources, absence of standardized protocols, staff overload, and limitations in ongoing professional training. Nursing was identified as essential to ensuring humanized and effective care, highlighting the need for investment in the Nursing Care Systematization (SAE), technical training, and evidence-based practices. The study concludes that pressure injury prevention is a key strategy for promoting dignity, safety, and quality of life for bedridden elderly patients. It recommends strengthening public policies, standardizing care protocols, and recognizing nursing as a leading force in elderly care.
Keywords: Nursing. Palliative care. Bedridden elderly. Pressure injury. Humanized care.
INTRODUÇÃO
O envelhecimento populacional é uma realidade crescente no Brasil, com impactos diretos sobre os sistemas de saúde e assistência social. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que, até 2050, os idosos representarão mais de 30% da população brasileira, o que exige adaptações estruturais e políticas públicas voltadas ao cuidado contínuo e especializado. Com o avanço da idade, é comum o surgimento de doenças crônicas e degenerativas que comprometem a mobilidade e a autonomia dos indivíduos, tornando-os dependentes de cuidados prolongados, especialmente em ambientes hospitalares ou instituições de longa permanência. Nesse contexto, as lesões por pressão (LPP) surgem como um dos principais agravos enfrentados por idosos acamados, exigindo atenção especial da equipe de enfermagem.
As lesões por pressão são definidas como áreas de dano localizado na pele e tecidos subjacentes, geralmente sobre proeminências ósseas, causadas por pressão prolongada, fricção ou cisalhamento. Essas lesões não apenas comprometem a integridade física do paciente, mas também geram dor intensa, risco de infecções, sofrimento emocional e aumento significativo dos custos hospitalares. A prevenção das LPP é amplamente discutida em diretrizes técnicas e protocolos assistenciais, porém sua aplicação prática ainda enfrenta inúmeros desafios, sobretudo em contextos de escassez de recursos, sobrecarga de trabalho e ausência de capacitação contínua da equipe de enfermagem. A realidade observada em unidades públicas de saúde, especialmente na região Norte do Brasil, evidencia limitações estruturais que dificultam a implementação de estratégias eficazes de prevenção.
Em hospitais e instituições de longa permanência, é comum a ausência de colchões pneumáticos, materiais adequados para curativos e recursos humanos suficientes para garantir a mudança de decúbito a cada duas horas, medida essencial para evitar o surgimento de lesões. Além disso, a rotatividade de profissionais e a falta de protocolos padronizados comprometem a continuidade do cuidado e a sistematização das ações preventivas. A atuação da enfermagem, nesse cenário, é fundamental para garantir um cuidado humanizado e seguro, sendo necessário investir na Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE), na educação permanente e na adoção de práticas baseadas em evidências. O enfermeiro é responsável por avaliar o risco de LPP, prescrever cuidados preventivos, realizar intervenções de conforto e orientar familiares, assegurando que os princípios da humanização estejam presentes em cada etapa do cuidado.
A formação técnica e a capacitação contínua dos profissionais de enfermagem são fatores determinantes para o sucesso das ações preventivas. Estudos apontam que quando os enfermeiros são treinados com base em diretrizes fundamentadas em evidências científicas, os resultados em saúde melhoram significativamente, especialmente no controle das lesões por pressão. No entanto, essa realidade ainda está distante de muitas unidades hospitalares da região Norte, onde a escassez de políticas públicas voltadas à educação continuada agrava a problemática. A utilização de instrumentos como a Escala de Braden, amplamente conhecida pelos profissionais, ainda encontra resistência e limitações na prática cotidiana, seja pela falta de tempo, seja pela ausência de apoio institucional. A simples existência de protocolos não garante sua efetiva aplicação; é necessário o envolvimento da gestão e o compromisso da equipe com a qualidade da assistência.
A prevenção das LPP passa pela adoção de condutas sistematizadas e pela articulação entre diferentes setores do hospital. Além dos cuidados diretos da enfermagem, a atuação da equipe multiprofissional é imprescindível para garantir um cuidado integral ao paciente idoso. A compreensão da vulnerabilidade biopsicossocial, a padronização da assistência e o uso racional dos recursos são elementos essenciais para a promoção de um cuidado seguro e eficaz. Em unidades de terapia intensiva e enfermarias de baixa complexidade, observa-se que a permanência prolongada na mesma posição, aliada à sedação, ao uso de anestésicos e às limitações motoras, contribui para o agravamento do quadro clínico e para o surgimento de lesões por pressão. A cicatrização dessas feridas é retardada em pacientes idosos, especialmente quando associada a estados avançados da doença, o que reforça a importância da prevenção como estratégia prioritária.
Diante desse cenário, esta pesquisa se justifica pela necessidade de compreender os fatores que influenciam a prevenção das lesões por pressão em idosos acamados, com foco nas estratégias adotadas pelos profissionais de enfermagem e nos desafios enfrentados em diferentes realidades assistenciais. A investigação busca analisar como a infraestrutura disponível, a formação profissional e os protocolos institucionais impactam a eficácia das ações preventivas, propondo medidas que possam aprimorar a assistência e promover a dignidade e a qualidade de vida dos pacientes idosos. A relevância social do estudo está na possibilidade de contribuir para a melhoria da assistência ao idoso, fortalecendo políticas públicas que promovam o cuidado humanizado e a prevenção de agravos evitáveis. Com uma população idosa crescente e cada vez mais dependente de cuidados contínuos, pensar em estratégias eficazes de prevenção de lesões por pressão é também uma questão de direito à saúde e ao envelhecimento digno.
O objetivo geral deste estudo é investigar as práticas preventivas de enfermagem voltadas à redução de lesões por pressão em idosos acamados, considerando os desafios institucionais e assistenciais enfrentados. Especificamente, pretende-se avaliar a eficácia das estratégias preventivas utilizadas pelos profissionais de enfermagem, investigar os desafios enfrentados na prevenção e manejo das lesões por pressão, e propor medidas para aprimorar a assistência de enfermagem voltada à prevenção das LPP. A hipótese central que orienta esta pesquisa é que os profissionais de enfermagem adotam estratégias variadas para a prevenção de lesões por pressão, influenciadas por fatores como infraestrutura, formação técnica, protocolos assistenciais e condições institucionais de trabalho. Supõe-se que os principais desafios estejam relacionados à escassez de recursos, à sobrecarga das equipes e à limitação de capacitação contínua, o que pode comprometer a eficácia das ações preventivas.
Este artigo está estruturado em cinco seções. Após esta introdução, apresenta-se o embasamento teórico, que discute os principais conceitos relacionados às lesões por pressão, ao envelhecimento e à atuação da enfermagem. Em seguida, a seção de metodologia descreve os procedimentos adotados para a realização da revisão integrativa da literatura. A quarta seção traz os resultados e a discussão, organizados em categorias temáticas que evidenciam os desafios e as possibilidades de aprimoramento da assistência preventiva. Por fim, as considerações finais sintetizam os achados da pesquisa e propõem recomendações para a melhoria da qualidade do cuidado aos idosos acamados.
1. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
1.1 Envelhecimento e Doenças Crônicas
O envelhecimento populacional é uma das transformações demográficas mais marcantes do século XXI, especialmente em países em desenvolvimento como o Brasil. Esse fenômeno resulta da combinação entre o aumento da expectativa de vida e a redução das taxas de natalidade, o que tem provocado uma inversão na pirâmide etária brasileira. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população com 60 anos ou mais ultrapassou os 32 milhões em 2022, representando cerca de 15% da população total. As projeções indicam que esse número poderá dobrar até 2050, tornando os idosos o grupo etário predominante no país. Essa mudança exige adaptações urgentes nas políticas públicas, especialmente no setor da saúde, que precisa se preparar para atender às demandas específicas dessa faixa etária, sobretudo no que diz respeito à prevenção de agravos relacionados à imobilidade, como as lesões por pressão.
Com o avanço da idade, é comum o surgimento de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), como hipertensão arterial, diabetes mellitus, doenças cardiovasculares, neoplasias, doenças respiratórias crônicas e doenças neurodegenerativas. Essas condições, muitas vezes progressivas e incuráveis, comprometem a funcionalidade dos indivíduos e exigem cuidados contínuos, multidisciplinares e personalizados. A presença simultânea de múltiplas comorbidades é frequente entre os idosos, o que torna o cuidado ainda mais complexo e demanda uma abordagem que vá além do tratamento curativo. A dependência funcional, a limitação da mobilidade e a necessidade de internações prolongadas tornam os idosos mais suscetíveis ao desenvolvimento de lesões por pressão, especialmente quando não há uma assistência sistematizada e preventiva por parte das equipes de saúde.
As lesões por pressão são definidas como áreas de dano localizado na pele e tecidos subjacentes, geralmente sobre proeminências ósseas, causadas por pressão prolongada, fricção ou cisalhamento. Essas lesões representam um importante indicador da qualidade da assistência prestada, sendo consideradas eventos adversos evitáveis quando há planejamento e execução adequada dos cuidados. Em idosos, a fragilidade da pele, a redução da massa muscular, o comprometimento circulatório e a imobilidade prolongada são fatores que aumentam significativamente o risco de desenvolvimento de LPP. Além disso, a presença de doenças crônicas, como diabetes e insuficiência vascular periférica, agrava o quadro, dificultando a cicatrização e aumentando o risco de infecções.
A prevenção das lesões por pressão em idosos acamados exige uma abordagem proativa e sistematizada, que envolva avaliação de risco, mudança de decúbito, hidratação da pele, uso de superfícies de apoio adequadas e monitoramento contínuo. A Escala de Braden é uma ferramenta amplamente utilizada para identificar pacientes em risco, mas sua aplicação ainda encontra barreiras na prática clínica, como a falta de tempo, a ausência de protocolos institucionais e a sobrecarga das equipes de enfermagem. A atuação do enfermeiro é essencial nesse processo, pois ele é o profissional responsável por planejar, executar e avaliar as intervenções preventivas, além de orientar a equipe e os familiares sobre os cuidados necessários.
A institucionalização do idoso, seja em hospitais ou em instituições de longa permanência, também contribui para o aumento da incidência de LPP, especialmente quando há carência de recursos materiais, infraestrutura inadequada e déficit de profissionais capacitados. Em muitas unidades públicas de saúde, especialmente nas regiões mais afastadas e com menor cobertura assistencial, como o Norte do Brasil, é comum a ausência de colchões pneumáticos, escassez de materiais para curativos e limitação de treinamentos voltados à prevenção de lesões. Essa realidade compromete a qualidade do cuidado e expõe os idosos a riscos evitáveis, afetando diretamente sua dignidade e qualidade de vida.
Além dos aspectos físicos, é importante considerar os impactos emocionais e sociais das lesões por pressão. A dor crônica, a limitação funcional e a dependência de terceiros para atividades básicas geram sofrimento psicológico, sentimentos de inutilidade e isolamento social. Para os familiares e cuidadores, a presença de LPP representa um desafio adicional, exigindo maior dedicação, conhecimento técnico e suporte emocional. A sobrecarga dos cuidadores informais, muitas vezes sem preparo adequado, pode comprometer a continuidade e a qualidade do cuidado, reforçando a necessidade de apoio institucional e de políticas públicas que contemplem a capacitação e o acompanhamento dessas pessoas.
A enfermagem, como profissão que atua diretamente no cuidado ao idoso, tem papel central na prevenção das lesões por pressão. A implementação da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE), aliada à educação permanente e à utilização de protocolos baseados em evidências, é fundamental para garantir uma assistência segura, eficaz e humanizada. O fortalecimento das competências clínicas, a valorização do trabalho da equipe de enfermagem e o investimento em infraestrutura são medidas imprescindíveis para enfrentar os desafios impostos pelo envelhecimento populacional e pela complexidade do cuidado ao idoso acamado.
Diante desse panorama, torna-se evidente a urgência de ações integradas que promovam a prevenção das lesões por pressão como uma prioridade na assistência ao idoso. A articulação entre gestores, profissionais de saúde e formuladores de políticas públicas é essencial para garantir que os idosos recebam um cuidado digno, ético e centrado em suas necessidades. A prevenção das LPP não deve ser vista apenas como uma responsabilidade técnica, mas como um compromisso ético com a vida, a autonomia e o bem-estar da população idosa.
1.2 Cuidados Paliativos: Conceito, Princípios e Diretrizes
Os cuidados paliativos representam uma abordagem essencial no campo da saúde, especialmente diante do envelhecimento populacional e do aumento da incidência de doenças crônicas em estágio avançado. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cuidados paliativos são definidos como uma assistência ativa e integral prestada a indivíduos cuja doença não responde mais ao tratamento curativo. Essa abordagem visa o controle da dor e de outros sintomas, além de oferecer suporte psicológico, social e espiritual, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida do paciente e de seus familiares. Embora tradicionalmente associados ao fim da vida, os cuidados paliativos também se aplicam a situações de vulnerabilidade clínica, como a de idosos acamados com múltiplas comorbidades, que apresentam risco elevado para o desenvolvimento de lesões por pressão.
A definição da OMS destaca que os cuidados paliativos devem ser iniciados precocemente, desde o diagnóstico de uma condição grave, e não apenas nos momentos finais da vida. Essa perspectiva amplia o escopo da assistência, permitindo que o paciente receba cuidados contínuos e personalizados ao longo de sua trajetória de adoecimento. A abordagem paliativa reconhece a complexidade das necessidades humanas e propõe um cuidado centrado na pessoa, respeitando seus valores, desejos e autonomia. No contexto da prevenção de lesões por pressão, essa abordagem reforça a importância de práticas humanizadas, que considerem não apenas os aspectos físicos, mas também os fatores emocionais e sociais que influenciam a saúde do idoso.
Entre os princípios fundamentais dos cuidados paliativos, o alívio da dor ocupa posição central. A dor é um dos sintomas mais prevalentes e debilitantes em pacientes com doenças avançadas, e seu manejo adequado é essencial para garantir conforto e dignidade. O controle da dor envolve o uso de medicamentos analgésicos, incluindo opioides, bem como intervenções não farmacológicas, como técnicas de relaxamento, fisioterapia e cuidados integrativos. No caso de lesões por pressão, o manejo da dor é uma etapa crítica, pois essas lesões podem gerar sofrimento intenso e comprometer a qualidade de vida do paciente. A avaliação contínua da dor e a adaptação das estratégias terapêuticas são práticas indispensáveis na assistência ao idoso acamado.
Outro princípio essencial é a preservação da dignidade do paciente. A dignidade está relacionada ao respeito pela individualidade, pela autonomia e pelos valores pessoais do paciente. Em cuidados paliativos e na prevenção de lesões por pressão, é fundamental que o paciente seja ouvido, compreendido e incluído nas decisões sobre seu tratamento. A dignidade também se manifesta na forma como o paciente é tratado pela equipe de saúde, pela família e pela sociedade, sendo necessário combater atitudes negligentes ou desumanas que possam comprometer sua autoestima e seu senso de valor. A enfermagem, nesse contexto, tem papel central na promoção de um cuidado ético e humanizado, que valorize a pessoa em sua totalidade.
O suporte emocional e espiritual é igualmente importante na abordagem paliativa e na assistência ao idoso acamado. O adoecimento grave e a dependência funcional geram angústias, medos e questionamentos existenciais que precisam ser acolhidos pela equipe de saúde. O enfermeiro, como profissional que está em contato direto com o paciente, desempenha papel crucial nesse processo, oferecendo escuta ativa, apoio psicológico e encaminhamento para serviços especializados quando necessário. O suporte espiritual envolve o respeito às crenças e práticas religiosas do paciente, bem como a oferta de espaço para reflexões sobre o sentido da vida, o perdão, a reconciliação e a preparação para a morte, quando aplicável.
No Brasil, os cuidados paliativos vêm ganhando espaço nas políticas públicas de saúde, embora ainda enfrentem desafios significativos para sua efetiva implementação. Em 2018, o Ministério da Saúde publicou a Portaria nº 1.082, que institui a Política Nacional de Cuidados Paliativos no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Essa política tem como objetivo garantir o acesso universal, equitativo e integral aos cuidados paliativos, promovendo a capacitação dos profissionais, a organização dos serviços e a articulação entre os diferentes níveis de atenção à saúde. Embora essa política não trate diretamente da prevenção de lesões por pressão, ela reforça a importância de uma assistência centrada na pessoa, o que inclui ações preventivas e de conforto para pacientes em situação de vulnerabilidade.
O Manual de Cuidados Paliativos, publicado pelo Ministério da Saúde em parceria com o Hospital Sírio-Libanês, reforça os princípios da abordagem paliativa e apresenta diretrizes para a organização dos serviços, a formação das equipes multiprofissionais e a integração dos cuidados paliativos à atenção básica, hospitalar e domiciliar. O documento destaca que os cuidados devem ser oferecidos de forma contínua, com foco na qualidade de vida, na autonomia do paciente e na humanização da assistência. Essas diretrizes são compatíveis com os princípios da prevenção de lesões por pressão, que também exigem planejamento, monitoramento e atuação integrada da equipe de saúde.
Além da política nacional, diversas instituições brasileiras têm desenvolvido protocolos assistenciais para orientar a prática dos cuidados paliativos. O Instituto de Saúde e Gestão Hospitalar (ISGH), por exemplo, elaborou um protocolo que enfatiza a identificação precoce do sofrimento, a avaliação contínua dos sintomas e o trabalho multiprofissional e interdisciplinar como pilares da assistência. Esses protocolos são fundamentais para padronizar as práticas, garantir a segurança do paciente e promover a qualidade da assistência, inclusive na prevenção de lesões por pressão em idosos acamados.
No cenário internacional, organizações como a Associação Internacional de Hospices e Cuidados Paliativos (IAHPC) e a European Association for Palliative Care (EAPC) têm atuado na disseminação de boas práticas, na produção de evidências científicas e na defesa de políticas públicas voltadas para o cuidado paliativo. Em países como Reino Unido, Canadá e Austrália, os cuidados paliativos estão amplamente integrados aos sistemas de saúde, com serviços estruturados, equipes multiprofissionais e protocolos bem definidos. Essas experiências internacionais reforçam a importância de investir em cuidados paliativos como parte da atenção integral à saúde, especialmente diante do envelhecimento populacional e da crescente demanda por assistência a pacientes com doenças crônicas e limitações funcionais.
A formação de profissionais de enfermagem com competências específicas em cuidados paliativos e prevenção de lesões por pressão é uma prioridade, pois esses profissionais estão na linha de frente do cuidado e têm potencial para transformar a experiência de adoecimento em um processo mais digno, acolhedor e humanizado. Em síntese, os cuidados paliativos constituem uma abordagem ética e centrada na pessoa, que visa aliviar o sofrimento e promover qualidade de vida em situações de doença grave. Seus princípios, alívio da dor, preservação da dignidade e suporte emocional orientam a prática profissional e garantem uma assistência integral. As diretrizes nacionais e internacionais reforçam a necessidade de incorporar os cuidados paliativos aos sistemas de saúde, com políticas públicas, formação profissional e estrutura adequada. No contexto brasileiro, ainda há muito a avançar, mas iniciativas como a Política Nacional de Cuidados Paliativos representam um passo importante na construção de um cuidado mais justo, equitativo e humanizado para os idosos em situação de vulnerabilidade, incluindo aqueles em risco de desenvolver lesões por pressão.
1.3 Papel da Enfermagem nos Cuidados Paliativos
O referencial teórico deste estudo está fundamentado em publicações científicas nacionais e internacionais que abordam o envelhecimento populacional, os cuidados paliativos e, principalmente, as estratégias de prevenção de lesões por pressão em idosos acamados. A literatura consultada reforça a importância da atuação da enfermagem como protagonista na assistência ao idoso em situação de vulnerabilidade, destacando a necessidade de práticas baseadas em evidências, protocolos assistenciais e educação continuada.
Autores como Araújo et al. (2019) e Lima et al. (2025) discutem o papel do profissional de enfermagem na prevenção das LPP, evidenciando que a sistematização do cuidado, o uso da Escala de Braden e a mudança de decúbito são medidas eficazes quando aplicadas com regularidade e suporte institucional. Estudos como os de Peixoto et al. (2019) e Zumba Neto & Nascimento (2024) reforçam que o posicionamento cirúrgico e a permanência prolongada em leitos hospitalares aumentam significativamente o risco de lesões, especialmente em pacientes idosos com comorbidades.
A literatura também aponta que a ausência de infraestrutura adequada, a escassez de materiais e a sobrecarga das equipes são fatores que comprometem a prevenção das LPP Manjura et al, (2025); Souza et al, (2025). Nesse sentido, a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) é destacada como ferramenta essencial para organizar e qualificar a prática profissional, conforme discutido por Silva & Moreira (2011) e Santos et al, (2013).
No campo dos cuidados paliativos, documentos oficiais como a Política Nacional de Cuidados Paliativos Ministério da Saúde, (2024) e o Manual de Cuidados Paliativos Brasil; Hospital Sírio-Libanês,(2023) apresentam diretrizes que valorizam a humanização, o alívio do sofrimento e a preservação da dignidade do paciente. Embora o foco principal deste estudo seja a prevenção de lesões por pressão, os princípios dos cuidados paliativos são complementares à assistência ao idoso acamado, especialmente no que se refere ao manejo da dor, à comunicação sensível e ao suporte emocional.
Organizações internacionais como a WHO (2023), IAHPC (2025) e EAPC (2025) também contribuem com diretrizes e evidências que fortalecem a prática da enfermagem em contextos de vulnerabilidade clínica. A formação profissional, a capacitação técnica e a valorização da equipe de enfermagem são apontadas como pilares para a melhoria da assistência, conforme discutido por Sousa Júnior et al. (2024) e Oliveira et al. (2025).
Dessa forma, o referencial teórico deste estudo sustenta a análise crítica das estratégias preventivas adotadas pela enfermagem, evidenciando os desafios enfrentados e as possibilidades de aprimoramento da assistência ao idoso acamado. A integração entre teoria e prática, aliada ao compromisso ético e à valorização profissional, é essencial para promover um cuidado seguro, digno e eficaz.
1.4 Desafios Institucionais e Profissionais
A prevenção de lesões por pressão (LPP) em idosos acamados é uma prática essencial na assistência de enfermagem, especialmente em ambientes hospitalares e instituições de longa permanência. No entanto, apesar da existência de diretrizes técnicas e protocolos assistenciais que orientam as condutas preventivas, diversos desafios institucionais e profissionais ainda comprometem a eficácia dessas ações. Esses obstáculos são multifatoriais e envolvem desde limitações estruturais até deficiências na formação e capacitação dos profissionais de saúde.
Um dos principais entraves à prevenção eficaz das LPP é a infraestrutura limitada das unidades de saúde. Em muitas instituições, especialmente nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, observa-se escassez de materiais básicos como colchões pneumáticos, lençois antiescaras, almofadas de posicionamento e insumos para cuidados com a pele. Esses recursos são fundamentais para a redistribuição da pressão sobre áreas vulneráveis do corpo, especialmente em pacientes com mobilidade reduzida. A ausência desses equipamentos compromete diretamente a capacidade da equipe de enfermagem de realizar intervenções preventivas adequadas, como a mudança de decúbito em intervalos regulares e o uso de superfícies de apoio especializadas.
Além da carência de materiais, a estrutura física das instituições muitas vezes não favorece a implementação de práticas preventivas. Ambientes superlotados, com número insuficiente de leitos e falta de espaço para movimentação segura dos pacientes, dificultam a realização de cuidados básicos. A sobrecarga das unidades, aliada à escassez de profissionais, contribui para a priorização de demandas emergenciais em detrimento de ações preventivas, o que aumenta o risco de desenvolvimento de LPP entre os idosos acamados. Segundo Manjura e Osses (2025), a precariedade estrutural é um fator diretamente associado à incidência de lesões por pressão em ambientes hospitalares.
Outro fator crítico é a rotatividade de profissionais de enfermagem. A alta demanda por serviços, associada à precarização das condições de trabalho, resulta em instabilidade nas equipes, dificultando a continuidade do cuidado e a padronização das condutas. A troca frequente de profissionais compromete o vínculo com o paciente, a aplicação sistemática de protocolos e o acompanhamento dos fatores de risco. Além disso, a rotatividade impede a consolidação de uma cultura institucional voltada à prevenção, pois dificulta a formação de equipes coesas e comprometidas com a qualidade da assistência. De acordo com Zumba Neto e Nascimento (2024), a estabilidade da equipe é um elemento essencial para garantir a efetividade das estratégias preventivas.
A ausência de protocolos assistenciais padronizados é outro desafio que impacta diretamente a prevenção das LPP. Embora existam instrumentos reconhecidos, como a Escala de Braden, muitos serviços de saúde não adotam rotinas sistematizadas para avaliação de risco, planejamento de intervenções e monitoramento dos resultados. A falta de diretrizes claras sobre quando iniciar medidas preventivas, como organizar as equipes e como registrar as ações realizadas, gera inconsistência na assistência, dificultando a avaliação da qualidade, a formação de indicadores e a articulação entre os diferentes níveis de atenção. Sem protocolos bem definidos, as práticas de prevenção tornam-se fragmentadas, dependentes da iniciativa individual dos profissionais e vulneráveis à omissão.
A formação acadêmica em enfermagem também apresenta lacunas importantes no que diz respeito à prevenção de lesões por pressão. Muitos cursos de graduação ainda dedicam pouca atenção aos conteúdos relacionados à avaliação de risco, técnicas de posicionamento, cuidados com a pele e uso de tecnologias assistivas. Como resultado, muitos profissionais ingressam no mercado de trabalho sem preparo técnico suficiente para lidar com as complexidades do cuidado ao idoso acamado. A ausência de disciplinas específicas, a limitação de programas de residência e a oferta reduzida de cursos de especialização dificultam o desenvolvimento de competências essenciais para a prática preventiva. Lima et al. (2025) destacam que a formação inicial dos profissionais de enfermagem precisa ser fortalecida com conteúdos voltados à geriatria e à prevenção de agravos relacionados à imobilidade.
A capacitação contínua, por meio de educação permanente e supervisão clínica, é fundamental para fortalecer a atuação da enfermagem na prevenção das LPP. No entanto, essa formação ainda é pouco valorizada pelas instituições, que muitas vezes não oferecem condições adequadas para a atualização dos profissionais. A falta de incentivo à participação em cursos, seminários e treinamentos compromete a renovação dos conhecimentos e a incorporação de práticas baseadas em evidências. Além disso, a ausência de supervisão técnica e de espaços para discussão de casos clínicos limita o desenvolvimento de habilidades críticas e reflexivas, essenciais para a tomada de decisões no cuidado ao paciente.
A literatura científica aponta que a prevenção das LPP exige uma abordagem integrada, que envolva não apenas a equipe de enfermagem, mas também gestores, educadores e formuladores de políticas públicas. A superação dos desafios institucionais e profissionais requer investimento em infraestrutura, valorização da educação continuada, padronização de protocolos assistenciais e fortalecimento da cultura de segurança do paciente. É necessário reconhecer que a prevenção de lesões por pressão não é uma ação isolada, mas parte de um processo contínuo de cuidado, que demanda planejamento, comprometimento e articulação entre todos os envolvidos.
Em síntese, os desafios enfrentados na prevenção das LPP em idosos acamados são complexos e interdependentes. A infraestrutura limitada, a rotatividade de profissionais, a ausência de protocolos padronizados e a deficiência na formação e capacitação da equipe de enfermagem comprometem a qualidade da assistência e aumentam o risco de agravos evitáveis. A superação desses obstáculos exige uma abordagem sistêmica e estratégica, capaz de promover mudanças estruturais e culturais nas instituições de saúde, garantindo que os idosos recebam um cuidado digno, seguro e humanizado.
1.5 Humanização da Assistência e Suporte às Famílias
A humanização da assistência em cuidados paliativos é um dos pilares fundamentais para garantir dignidade, conforto e qualidade de vida aos pacientes em fase terminal, especialmente os idosos com doenças crônicas avançadas. Essa abordagem não se limita ao tratamento clínico, mas envolve uma compreensão profunda das necessidades emocionais, sociais e espirituais do paciente e de sua família. A prática humanizada exige da equipe de enfermagem sensibilidade, empatia, escuta ativa e respeito à autonomia, promovendo um cuidado centrado na pessoa e no vínculo afetivo que a envolve.
A empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro, compreendendo seus sentimentos, angústias e expectativas sem julgamentos. No contexto dos cuidados paliativos, a empatia é essencial para estabelecer uma relação de confiança entre o profissional de enfermagem e o paciente. O enfermeiro deve ser capaz de reconhecer o sofrimento do paciente, acolher suas emoções e oferecer suporte emocional de forma respeitosa e sensível. A empatia também se estende à família, que muitas vezes vivencia o processo de terminalidade com dor, medo e insegurança. O acolhimento das famílias, com atenção às suas necessidades e sentimentos, é parte integrante da assistência humanizada.
A escuta ativa é outra ferramenta indispensável na humanização do cuidado. Trata-se de ouvir com atenção, interesse e presença, valorizando o que o paciente e seus familiares têm a dizer. A escuta ativa permite que o profissional compreenda melhor os desejos, preocupações e prioridades do paciente, favorecendo a construção de um plano de cuidado mais alinhado com sua realidade. Além disso, a escuta ativa fortalece o vínculo terapêutico, reduz a sensação de isolamento e promove o bem-estar emocional. Em cuidados paliativos, onde o tempo de vida é limitado, cada conversa pode representar uma oportunidade de reconexão, alívio e expressão de sentimentos profundos.
O respeito à autonomia é um princípio ético que deve nortear todas as ações da equipe de enfermagem. O paciente tem o direito de participar das decisões sobre seu tratamento, de expressar seus valores e de escolher como deseja viver seus últimos dias. A autonomia envolve o reconhecimento da capacidade do paciente de tomar decisões informadas, mesmo diante da fragilidade física. O enfermeiro deve garantir que o paciente seja ouvido, que suas escolhas sejam respeitadas e que sua dignidade seja preservada em todas as etapas do cuidado. Isso inclui decisões sobre intervenções clínicas, local de cuidado (hospital ou domicílio), presença de familiares e práticas espirituais.
A humanização da assistência também se estende ao suporte oferecido às famílias, que desempenham papel central no cuidado de pacientes em cuidados paliativos. Em muitos casos, os familiares assumem a responsabilidade pelo cuidado integral do paciente, especialmente em contextos de internação domiciliar ou ausência de serviços especializados. Essa responsabilidade, embora motivada pelo afeto e pelo compromisso, pode gerar impactos emocionais e financeiros significativos. A sobrecarga física, o desgaste psicológico e a interrupção das rotinas profissionais são desafios enfrentados diariamente pelos cuidadores familiares.
O impacto emocional sobre os cuidadores é profundo e multifacetado. A convivência com o sofrimento do ente querido, a sensação de impotência diante da progressão da doença e o medo da perda geram sentimentos de angústia, tristeza, ansiedade e, em muitos casos, depressão. O cuidador pode vivenciar um luto antecipado, marcado pela dor da despedida gradual e pela necessidade de manter-se forte diante do paciente. A ausência de apoio psicológico e de espaços de escuta agrava esse sofrimento, tornando o processo de cuidado ainda mais difícil. A enfermagem, nesse contexto, deve estar atenta aos sinais de sofrimento dos cuidadores, oferecendo acolhimento, orientação e encaminhamento para serviços de apoio emocional.
O impacto financeiro também é uma realidade enfrentada por muitas famílias que cuidam de pacientes em cuidados paliativos. A necessidade de abandonar ou reduzir a jornada de trabalho para dedicar-se ao cuidado, os custos com medicamentos, equipamentos, alimentação especial e transporte representam um peso significativo no orçamento familiar. Em situações de vulnerabilidade social, a aposentadoria do paciente torna-se a única fonte de renda, o que compromete a estabilidade financeira da família. A ausência de políticas públicas que ofereçam suporte material e financeiro aos cuidadores agrava essa situação, gerando insegurança e sofrimento adicional.
Diante desses desafios, é fundamental que a assistência em cuidados paliativos seja estruturada para incluir o suporte às famílias como parte integrante do cuidado. A equipe de enfermagem deve atuar de forma proativa, oferecendo orientações claras sobre os cuidados necessários, promovendo capacitação dos cuidadores, facilitando o acesso a recursos e serviços e criando espaços de escuta e acolhimento. A inclusão da família no plano de cuidado, o reconhecimento de seu papel e a valorização de suas experiências são estratégias que fortalecem o vínculo terapêutico e promovem uma assistência mais eficaz e humanizada.
A humanização da assistência em cuidados paliativos não é apenas uma prática clínica, mas uma postura ética e afetiva que reconhece a complexidade da vida, da dor e da morte. Ela exige da enfermagem um olhar sensível, uma escuta comprometida e uma atuação respeitosa, capaz de transformar o cuidado em um espaço de dignidade, conforto e reconexão. Ao oferecer suporte emocional e material às famílias, a enfermagem contribui para que o processo de finitude seja vivido com menos sofrimento e mais sentido, promovendo o bem-estar de todos os envolvidos.
2. METODOLOGIA ADOTADA
Esta pesquisa caracteriza-se como bibliográfica e qualitativa, com abordagem exploratória, tendo como objetivo compreender os desafios e potencialidades da assistência de enfermagem em cuidados paliativos voltados para idosos com doenças crônicas em estágio avançado. A escolha por uma pesquisa bibliográfica se justifica pela necessidade de reunir, analisar e interpretar o conhecimento já produzido sobre o tema, permitindo a construção de um panorama teórico consistente e atualizado. A abordagem qualitativa, por sua vez, possibilita uma análise aprofundada dos conteúdos, valorizando os significados, as experiências e os contextos descritos nos estudos selecionados.
A estratégia metodológica adotada foi a revisão sistemática da literatura, que consiste em um processo rigoroso e estruturado de busca, seleção, avaliação e síntese de estudos científicos relevantes sobre um determinado tema. A revisão sistemática permite identificar lacunas no conhecimento, comparar resultados de diferentes pesquisas e propor recomendações baseadas em evidências.
As bases de dados utilizadas para a busca dos estudos foram a Scientific Electronic Library Online (SciELO) e a US National Library of Medicine (PubMed), por serem amplamente reconhecidas na área da saúde e por oferecerem acesso a publicações científicas de relevância nacional e internacional. A escolha dessas bases se deu pela abrangência dos temas relacionados à enfermagem, cuidados paliativos, saúde do idoso e políticas públicas, além da possibilidade de acesso a artigos em português, inglês e espanhol.
A busca foi realizada utilizando descritores controlados e palavras-chave relacionadas ao tema da pesquisa, como “cuidados paliativos”, “enfermagem”, “idosos”, “doenças crônicas”, “humanização da assistência”, “qualidade de vida”, “Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE)” e “suporte familiar”. Os descritores foram combinados com operadores booleanos (AND, OR) para ampliar a abrangência da busca e garantir a inclusão de estudos relevantes. A pesquisa foi realizada entre os meses de junho e agosto de 2025.
Os critérios de inclusão definidos para a seleção dos estudos foram: (1) publicações científicas disponíveis em texto completo; (2) artigos publicados entre os anos de 2018 e 2025; (3) estudos que abordem diretamente os cuidados paliativos em idosos, com foco na atuação da enfermagem, humanização da assistência e suporte às famílias; (4) artigos publicados em português, inglês ou espanhol; (5) estudos com metodologia clara e resultados relevantes para os objetivos da pesquisa. Esses critérios visaram garantir a atualidade, a pertinência e a qualidade dos estudos incluídos na revisão.
Os critérios de exclusão foram: (1) artigos duplicados entre as bases de dados; (2) estudos que abordem cuidados paliativos em populações não idosas; (3) publicações sem acesso ao texto completo; (4) artigos com metodologia inadequada ou sem clareza nos resultados; (5) estudos que não apresentem relação direta com os objetivos da pesquisa. A aplicação desses critérios permitiu refinar a amostra e garantir a consistência da análise.
Ao todo, foram identificados 250 estudos nas bases de dados selecionadas. Após a leitura dos títulos e resumos, foram excluídos 130 artigos por não atenderem aos critérios de inclusão. Os 120 estudos restantes passaram por leitura na íntegra, sendo que 85 foram excluídos por duplicidade, falta de relevância temática ou inconsistência metodológica. A amostra final foi composta por 35 artigos, que foram analisados de forma crítica e sistemática.
A triagem dos estudos foi realizada em três etapas: (1) leitura dos títulos e resumos para identificação preliminar da relevância; (2) leitura completa dos textos para confirmação dos critérios de inclusão; (3) avaliação metodológica e categorização temática. Para organizar o processo de triagem, foi utilizado o software Rayyan QCRI, que permite a gestão colaborativa e transparente da revisão sistemática, facilitando a identificação de duplicatas, a aplicação dos critérios de seleção e a categorização dos estudos.
As etapas da análise dos estudos incluíram o levantamento, a leitura crítica e a categorização temática. O levantamento consistiu na identificação dos artigos nas bases de dados, conforme os descritores e critérios definidos. A leitura crítica envolveu a análise dos objetivos, da metodologia, dos resultados e das conclusões de cada estudo, buscando compreender as contribuições teóricas e práticas para o tema da pesquisa. A categorização temática foi realizada com base nos conteúdos recorrentes e relevantes identificados nos estudos, permitindo a organização dos achados em eixos de análise.
Os principais eixos temáticos identificados foram: (1) atuação da enfermagem nos cuidados paliativos; (2) estratégias de humanização da assistência; (3) suporte emocional e financeiro às famílias; (4) utilização da SAE como ferramenta de qualificação do cuidado; (5) desafios estruturais e profissionais na implementação dos cuidados paliativos. Esses eixos orientaram a discussão dos resultados e a construção das considerações finais, permitindo uma análise crítica e integrada das evidências encontradas.
A análise dos estudos selecionados foi realizada de forma interpretativa, buscando compreender os significados atribuídos pelos autores às práticas de cuidado, às experiências dos profissionais e às vivências dos pacientes e familiares. A abordagem qualitativa permitiu valorizar a subjetividade, a complexidade e a singularidade dos contextos analisados, contribuindo para uma compreensão mais profunda e sensível do tema.
Em síntese, a metodologia adotada nesta pesquisa permitiu reunir e analisar um conjunto significativo de estudos científicos sobre cuidados paliativos em idosos, com foco na atuação da enfermagem, na humanização da assistência e no suporte às famílias. A revisão sistemática da literatura, realizada com rigor e transparência, proporcionou uma base teórica sólida para a discussão dos resultados e para a formulação de propostas que visam aprimorar a qualidade da assistência prestada a essa população. A escolha por uma abordagem bibliográfica e qualitativa revelou-se adequada para explorar as dimensões éticas, emocionais e sociais envolvidas no cuidado paliativo, contribuindo para o fortalecimento da prática profissional e para a construção de políticas públicas mais sensíveis e eficazes.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.1 Infraestrutura e Acesso aos Cuidados Paliativos
A expansão dos cuidados paliativos no Brasil enfrenta desafios significativos relacionados à infraestrutura e ao acesso da população aos serviços especializados, o que impacta diretamente a prevenção de lesões por pressão (LPP) em idosos acamados. Embora a importância dessa abordagem seja amplamente reconhecida por profissionais de saúde e instituições, a realidade prática revela um cenário de desigualdade, escassez de recursos e limitações estruturais que comprometem a qualidade da assistência prestada, especialmente aos idosos com doenças crônicas em estágio avançado e risco elevado de desenvolver LPP.
Um dos principais entraves à consolidação dos cuidados paliativos no país é a carência de leitos especializados. Segundo o Ministério da Saúde, estima-se que mais de 625 mil brasileiros necessitam de cuidados paliativos, mas apenas uma fração dessa demanda é atendida por serviços estruturados. A maioria dos hospitais públicos não dispõe de unidades específicas para cuidados paliativos, o que obriga pacientes em fase terminal a permanecerem em enfermarias gerais, muitas vezes sem o suporte adequado para controle de sintomas, conforto e acolhimento familiar. A ausência de leitos dedicados compromete a privacidade, a dignidade e a humanização do cuidado, princípios fundamentais da abordagem paliativa e essenciais para a prevenção de lesões por pressão, que exigem atenção contínua e ambiente adequado.
Nos serviços públicos de saúde, a oferta de cuidados paliativos ainda é limitada e concentrada em grandes centros urbanos. A Política Nacional de Cuidados Paliativos, lançada pelo Ministério da Saúde em 2024, representa um avanço importante ao prever a habilitação de 1.300 equipes multiprofissionais e um investimento anual de R$887 milhões para ampliar o acesso a esses serviços. No entanto, a implementação dessa política enfrenta obstáculos como a falta de profissionais capacitados, a ausência de protocolos padronizados e a dificuldade de articulação entre os diferentes níveis de atenção à saúde. A atenção básica, por exemplo, ainda não está plenamente integrada à rede de cuidados paliativos, o que dificulta a identificação precoce de pacientes elegíveis e a continuidade do cuidado no domicílio — fatores que são cruciais para evitar o surgimento de LPP em pacientes acamados.
A atenção domiciliar, por sua vez, é uma alternativa promissora para ampliar o acesso aos cuidados paliativos e à prevenção de lesões por pressão, especialmente em regiões onde não há hospitais com estrutura adequada. Programas como o Melhor em Casa, do SUS, têm buscado oferecer assistência multiprofissional no domicílio, com foco no conforto, no controle de sintomas e no suporte à família. No entanto, a cobertura desses programas ainda é restrita, e muitas equipes enfrentam dificuldades logísticas, como falta de transporte, insumos e suporte técnico. A expansão da atenção domiciliar exige investimentos em infraestrutura, capacitação e gestão integrada, além de políticas públicas que reconheçam o cuidado domiciliar como parte essencial da rede de atenção paliativa e preventiva.
No setor privado, os cuidados paliativos têm avançado de forma mais estruturada, com a criação de clínicas especializadas, unidades hospitalares dedicadas e serviços de home care com foco em pacientes em fase terminal. Instituições como o Grupo Kora Saúde têm investido na qualificação da assistência paliativa, oferecendo acompanhamento multidisciplinar, controle de sintomas e suporte emocional desde o diagnóstico da doença grave. Esses serviços, no entanto, são acessíveis apenas a uma parcela da população com recursos financeiros ou cobertura de planos de saúde, o que reforça a desigualdade no acesso e a exclusão de pacientes em situação de vulnerabilidade social, muitos dos quais apresentam alto risco para o desenvolvimento de LPP.
A concentração dos serviços privados em regiões metropolitanas também limita o alcance dos cuidados paliativos e das ações preventivas a populações do interior e de áreas rurais. Nessas localidades, a ausência de clínicas especializadas e a precariedade dos serviços públicos tornam o acesso aos cuidados paliativos praticamente inexistentes. Pacientes e familiares enfrentam longas distâncias, custos elevados com deslocamento e falta de suporte institucional, o que agrava o sofrimento e compromete a qualidade de vida no final da vida, além de dificultar a implementação de medidas preventivas contra lesões por pressão.
Outro aspecto relevante é a falta de integração entre os diferentes pontos da rede de atenção à saúde, o que dificulta a continuidade do cuidado e a coordenação entre os serviços. Pacientes em cuidados paliativos frequentemente transitam entre hospitais, unidades básicas, serviços de emergência e domicílio, sem um plano terapêutico unificado ou acompanhamento sistemático. Essa fragmentação da assistência gera insegurança, duplicidade de procedimentos e perda de vínculo entre paciente, família e equipe de saúde. A criação de linhas de cuidado, protocolos clínicos e sistemas de informação integrados é fundamental para garantir a efetividade e a segurança dos cuidados paliativos e das ações preventivas contra LPP.
A escassez de dados epidemiológicos e indicadores específicos sobre cuidados paliativos e lesões por pressão também dificulta o planejamento e a avaliação das políticas públicas. A ausência de registros padronizados, sistemas de monitoramento e estudos de impacto impede a identificação precisa das necessidades da população e a alocação eficiente de recursos. A produção de dados confiáveis e atualizados é essencial para orientar a expansão da infraestrutura, a formação de profissionais e a definição de metas de cobertura e qualidade, tanto para cuidados paliativos quanto para prevenção de LPP.
Apesar dos desafios, iniciativas recentes demonstram um movimento crescente em direção à valorização dos cuidados paliativos no Brasil. A aprovação do Programa Nacional de Cuidados Paliativos pelo Senado, em outubro de 2025, representa um marco importante ao estabelecer diretrizes para o financiamento, a organização e a oferta desses serviços em todo o território nacional. O programa prevê a atuação de equipes multiprofissionais, o respeito à autonomia do paciente, o suporte aos familiares e a integração dos cuidados paliativos aos diferentes níveis de atenção à saúde, elementos que também favorecem a prevenção de lesões por pressão em pacientes acamados.
Em síntese, a infraestrutura e o acesso aos cuidados paliativos no Brasil ainda são marcados por desigualdades regionais, limitações estruturais e barreiras institucionais. A escassez de leitos especializados, a baixa cobertura dos serviços públicos e a concentração dos serviços privados em grandes centros urbanos comprometem a universalização do cuidado paliativo e das ações preventivas contra LPP. A superação desses desafios exige investimentos em infraestrutura, capacitação profissional, integração da rede de atenção e formulação de políticas públicas robustas e inclusivas.
Somente com uma abordagem sistêmica e comprometida será possível garantir que todos os brasileiros, independentemente de sua condição social ou localização geográfica, tenham acesso a cuidados paliativos e preventivos de qualidade, com dignidade, conforto e respeito à vida.
3.2 Capacitação e Atuação da Enfermagem
A atuação da enfermagem nos cuidados paliativos é um dos pilares fundamentais para garantir uma assistência humanizada, segura e eficaz aos idosos com doenças crônicas em estágio avançado, especialmente aqueles em risco de desenvolver lesões por pressão (LPP). Por estar em contato direto com o paciente e sua família, o enfermeiro desempenha funções que vão além do cuidado técnico, envolvendo acolhimento emocional, comunicação sensível, manejo de sintomas, suporte espiritual e, de forma destacada, a prevenção de complicações como as LPP. Para que essa atuação seja efetiva, é indispensável investir na capacitação contínua dos profissionais, na utilização da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) e na adoção de protocolos assistenciais que orientem e padronizem as práticas clínicas voltadas à prevenção desses agravos.
A formação continuada é um elemento essencial para o aprimoramento da prática profissional em cuidados paliativos, sobretudo no que diz respeito à prevenção de lesões por pressão. Muitos enfermeiros ingressam no mercado de trabalho sem preparo específico para lidar com situações de terminalidade, sofrimento, morte e complicações associadas à imobilidade, o que pode gerar insegurança, sofrimento moral e condutas inadequadas. A inclusão de conteúdos sobre cuidados paliativos e prevenção de LPP nos currículos de graduação ainda é incipiente em muitas instituições de ensino, o que reforça a necessidade de programas de educação permanente voltados para essas temáticas. Cursos de especialização, oficinas práticas, supervisão clínica e grupos de estudo são estratégias que contribuem para o desenvolvimento de competências técnicas, éticas e emocionais necessárias à prática paliativa e preventiva.
A literatura científica destaca que a capacitação dos profissionais de enfermagem está diretamente relacionada à qualidade da assistência prestada. Estudos como os de Zumba Neto e Nascimento (2024) apontam que a formação contínua permite ao enfermeiro reconhecer precocemente os sinais de sofrimento, manejar sintomas complexos, comunicar-se de forma eficaz com o paciente e a família, tomar decisões compartilhadas com base em evidências e adotar medidas preventivas eficazes contra lesões por pressão. Além disso, a capacitação fortalece a autonomia profissional, promove a valorização da enfermagem e contribui para a construção de uma cultura de cuidado humanizado nas instituições de saúde.
A Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) é uma ferramenta indispensável para organizar, planejar e avaliar o cuidado de forma individualizada e científica. Composta por cinco etapas — coleta de dados, diagnóstico de enfermagem, planejamento, implementação e avaliação — a SAE permite ao enfermeiro compreender as necessidades do paciente, formular intervenções específicas e monitorar os resultados obtidos. No contexto dos cuidados paliativos, a SAE é especialmente relevante, pois possibilita uma abordagem centrada na pessoa, considerando suas dimensões físicas, emocionais, sociais e espirituais, além de permitir o planejamento de ações voltadas à prevenção de LPP, como a mudança de decúbito, o uso de superfícies de apoio e o monitoramento da integridade da pele.
A coleta de dados é a etapa inicial da SAE e envolve a obtenção de informações detalhadas sobre o estado clínico do paciente, seu histórico de saúde, suas preferências e valores. Essa etapa é fundamental para compreender o contexto do cuidado e identificar os principais problemas que devem ser abordados, incluindo o risco de integridade da pele prejudicada. O diagnóstico de enfermagem consiste na identificação das respostas humanas aos problemas de saúde, permitindo a formulação de intervenções direcionadas. Em cuidados paliativos, os diagnósticos mais comuns incluem dor aguda, ansiedade, sofrimento espiritual e, de forma recorrente, o risco de desenvolvimento de lesões por pressão, que requerem atenção constante da equipe de enfermagem.
O planejamento das ações de enfermagem deve ser realizado com base nos diagnósticos identificados, estabelecendo metas realistas e intervenções adequadas à condição do paciente. A implementação envolve a execução das ações planejadas, como administração de medicamentos, cuidados com a pele, orientação à família, suporte emocional e medidas específicas para prevenir LPP. Por fim, a avaliação permite verificar a eficácia das intervenções e realizar ajustes quando necessário, garantindo a continuidade e a qualidade do cuidado. A SAE, portanto, não apenas organiza o trabalho da enfermagem, mas também promove a segurança do paciente, a comunicação entre os membros da equipe multiprofissional e a valorização da prática profissional.
A adoção de protocolos assistenciais é outro componente essencial para qualificar a atuação da enfermagem em cuidados paliativos, especialmente no que se refere à prevenção de lesões por pressão. Os protocolos são documentos que orientam as condutas clínicas, padronizam procedimentos e garantem a aplicação de boas práticas baseadas em evidências. Em cuidados paliativos, os protocolos devem contemplar o manejo da dor, o controle de sintomas, a comunicação com o paciente e a família, o suporte emocional e espiritual, e a prevenção de complicações como as LPP. A utilização de protocolos contribui para a segurança do paciente, a eficiência da assistência e a formação de indicadores de qualidade.
Estudos como os de Sousa Júnior et al. (2024) e Oliveira et al. (2025) destacam que a implementação de protocolos assistenciais em cuidados paliativos permite a construção de uma cultura institucional voltada para o cuidado humanizado e preventivo. Esses protocolos devem ser elaborados de forma participativa, com envolvimento da equipe multiprofissional, e atualizados periodicamente com base nas evidências científicas disponíveis. A capacitação dos profissionais para a aplicação dos protocolos é fundamental, assim como a supervisão clínica e o monitoramento dos resultados obtidos, especialmente no que se refere à prevenção e ao tratamento precoce das lesões por pressão.
A atuação da enfermagem em cuidados paliativos também envolve a articulação com outros profissionais da equipe de saúde, como médicos, psicólogos, fisioterapeutas, assistentes sociais e capelães. O trabalho em equipe é essencial para garantir uma abordagem integral e interdisciplinar, que considere todas as dimensões do cuidado. O enfermeiro, nesse contexto, atua como elo entre o paciente, a família e os demais profissionais, promovendo a comunicação, a coordenação das ações e a continuidade da assistência, incluindo o monitoramento constante de fatores de risco para LPP.
A valorização da enfermagem como protagonista nos cuidados paliativos é uma estratégia fundamental para fortalecer a prática profissional e garantir a qualidade da assistência. Isso inclui o reconhecimento institucional, a oferta de condições adequadas de trabalho, o investimento em capacitação e a participação ativa dos enfermeiros na formulação de políticas públicas. A enfermagem, quando bem estruturada e apoiada, tem o potencial de transformar a experiência de adoecimento e morte em um processo mais acolhedor, respeitoso e significativo para todos os envolvidos, com atenção especial à prevenção de agravos como as lesões por pressão.
Em síntese, a capacitação e atuação da enfermagem nos cuidados paliativos são elementos centrais para a promoção de uma assistência humanizada, segura e eficaz. A formação continuada, a utilização da SAE e a adoção de protocolos assistenciais são estratégias que qualificam a prática profissional, fortalecem a autonomia do enfermeiro e garantem o cuidado centrado na pessoa. A valorização da enfermagem, por meio de políticas públicas, reconhecimento institucional e investimento em educação permanente, é essencial para consolidar os cuidados paliativos como parte integrante da rede de atenção à saúde no Brasil, com foco na prevenção de lesões por pressão em idosos acamados.
3.3 Impactos na Qualidade de Vida dos Idosos
A qualidade de vida dos idosos em cuidados paliativos é influenciada por múltiplas dimensões que vão além do controle clínico da doença. O bem-estar físico, emocional e espiritual torna-se o foco principal da assistência, especialmente quando o tratamento curativo já não é mais viável. Nesse contexto, os cuidados paliativos oferecem uma abordagem integral que busca aliviar o sofrimento, preservar a dignidade e promover conforto, respeitando os valores, desejos e necessidades individuais do paciente. A atuação da enfermagem, aliada à equipe multiprofissional, é essencial para garantir que esses aspectos sejam contemplados de forma sensível e eficaz, incluindo a prevenção de agravos como as lesões por pressão (LPP), que afetam diretamente a qualidade de vida dos pacientes acamados.
O bem-estar físico é uma das primeiras preocupações no cuidado paliativo, pois os idosos em fase terminal frequentemente enfrentam sintomas intensos e debilitantes. A dor é o sintoma mais prevalente e, quando não controlada, compromete significativamente a qualidade de vida. O manejo adequado da dor envolve a administração de analgésicos, incluindo opioides, além de terapias complementares como fisioterapia, massagens, técnicas de relaxamento e cuidados com o posicionamento. A enfermagem desempenha papel central nesse processo, realizando avaliações contínuas, ajustando intervenções e garantindo que o paciente esteja confortável em todas as etapas do cuidado. Essas ações também são fundamentais para prevenir lesões por pressão, que podem surgir em decorrência da imobilidade prolongada e da falta de cuidados específicos com a pele e o posicionamento.
Além da dor, outros sintomas físicos como dispneia, fadiga, náuseas, constipação, anorexia e insônia também afetam o bem-estar dos idosos em cuidados paliativos. A atuação da equipe de enfermagem é fundamental para identificar esses sintomas precocemente, aplicar intervenções eficazes e monitorar os resultados. A prevenção de lesões por pressão, por exemplo, é uma prática essencial que envolve mudança de decúbito, cuidados com a pele, uso de colchões especiais e avaliação constante da integridade cutânea. Essas ações, embora simples, têm impacto direto na qualidade de vida, evitando complicações como infecções, dor intensa e necrose tecidual, promovendo conforto e preservando a autonomia do paciente.
O bem-estar emocional é igualmente importante e muitas vezes negligenciado nos cuidados convencionais. O processo de adoecimento e a proximidade da morte geram sentimentos de medo, tristeza, ansiedade, angústia e, em alguns casos, depressão. Os idosos podem vivenciar o luto antecipado, a sensação de perda da identidade, o isolamento social e o abandono afetivo. A enfermagem, nesse contexto, deve atuar com empatia, escuta ativa e acolhimento, oferecendo suporte emocional contínuo e respeitoso. A comunicação terapêutica é uma ferramenta essencial para permitir que o paciente expresse seus sentimentos, compartilhe suas preocupações e encontre sentido em sua experiência de vida. Além disso, o sofrimento emocional pode agravar o quadro clínico e dificultar a adesão às medidas preventivas, como os cuidados com a pele e a mobilização, aumentando o risco de LPP.
A presença da família é um fator que contribui significativamente para o bem-estar emocional do idoso. O vínculo afetivo, o cuidado compartilhado e o apoio emocional proporcionam segurança, conforto e sensação de pertencimento. A equipe de enfermagem deve facilitar a participação da família no cuidado, orientando sobre os procedimentos, acolhendo suas dúvidas e promovendo um ambiente de respeito e colaboração. O envolvimento familiar também ajuda a reduzir o sofrimento do paciente, fortalecendo os laços afetivos e promovendo uma experiência de finitude mais serena e significativa. A família também pode ser orientada sobre medidas simples de prevenção de lesões por pressão, como a mudança de posição e o cuidado com a hidratação da pele, contribuindo diretamente para a segurança do paciente.
O bem-estar espiritual é uma dimensão muitas vezes invisível, mas profundamente relevante nos cuidados paliativos. A espiritualidade envolve a busca por sentido, conexão, transcendência e reconciliação, especialmente diante da finitude da vida. Os idosos em cuidados paliativos frequentemente enfrentam questionamentos existenciais, reflexões sobre o passado, sentimentos de culpa, necessidade de perdão e desejo de paz interior. A enfermagem, ao reconhecer e respeitar essas necessidades, contribui para a promoção do bem-estar espiritual, oferecendo espaço para expressão de crenças, práticas religiosas e rituais significativos. O sofrimento espiritual, quando não acolhido, pode se manifestar em forma de angústia física e emocional, dificultando o cuidado integral e até mesmo a aceitação de medidas preventivas como o reposicionamento corporal, essencial para evitar LPP.
O suporte espiritual pode ser oferecido por meio da escuta sensível, do respeito às crenças individuais, da presença afetiva e do encaminhamento para profissionais especializados, como capelães, líderes religiosos ou terapeutas espirituais. A espiritualidade, quando integrada ao cuidado, proporciona conforto, esperança e serenidade, ajudando o paciente a lidar com o sofrimento, a aceitar sua condição e a encontrar paz no processo de despedida. A abordagem espiritual deve ser livre de julgamentos, centrada na pessoa e adaptada às suas convicções, promovendo um cuidado verdadeiramente humanizado, que também favorece a adesão às práticas preventivas e à manutenção da integridade física.
A integração das dimensões física, emocional e espiritual no cuidado paliativo é o que permite a promoção da qualidade de vida dos idosos em fase terminal. Essa abordagem exige da equipe de enfermagem uma atuação sensível, ética e comprometida, capaz de reconhecer a complexidade da experiência humana e de oferecer um cuidado centrado na pessoa. A utilização da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE), a adoção de protocolos assistenciais e a capacitação contínua dos profissionais são estratégias que qualificam essa prática, garantindo que o cuidado seja planejado, executado e avaliado com base nas necessidades reais do paciente, incluindo a prevenção de lesões por pressão como parte essencial da assistência.
A literatura científica reforça que os cuidados paliativos, quando bem estruturados, têm impacto positivo na qualidade de vida dos idosos. Estudos apontam que pacientes que recebem cuidados paliativos apresentam melhor controle de sintomas, menor sofrimento emocional, maior satisfação com a assistência e maior sensação de dignidade. Além disso, o envolvimento da família, o suporte espiritual e a comunicação eficaz contribuem para uma experiência de finitude mais tranquila, reduzindo o medo da morte e promovendo reconciliação afetiva. A prevenção de lesões por pressão, nesse contexto, é uma prática que não apenas evita complicações físicas, mas também reforça o compromisso com o cuidado humanizado e com o respeito à dignidade do paciente.
No Brasil, apesar dos avanços na formulação de políticas públicas e na criação de serviços especializados, ainda há muito a ser feito para garantir que todos os idosos tenham acesso a cuidados paliativos de qualidade. A desigualdade no acesso, a escassez de profissionais capacitados, a ausência de infraestrutura adequada e a falta de integração entre os serviços de saúde comprometem a efetividade da assistência. A valorização da enfermagem, o investimento em capacitação, a ampliação da rede de cuidados e a promoção de uma cultura de humanização são medidas urgentes para transformar esse cenário e garantir que práticas como a prevenção de LPP sejam efetivamente incorporadas à rotina assistencial.
Em síntese, os impactos dos cuidados paliativos na qualidade de vida dos idosos são profundos e abrangentes. Ao promover o bem-estar físico, emocional e espiritual, essa abordagem oferece um cuidado integral, respeitoso e centrado na pessoa, capaz de transformar o processo de adoecimento e morte em uma experiência mais digna, acolhedora e significativa. A enfermagem, como protagonista nesse cuidado, tem o potencial de fazer a diferença na vida dos pacientes e de suas famílias, contribuindo para uma assistência mais justa, ética e humanizada — e para a prevenção eficaz de lesões por pressão, que são um dos principais desafios enfrentados na assistência ao idoso acamado.
3.4 Sobrecarga e Sofrimento das Famílias
O cuidado ao idoso em fase terminal, especialmente no âmbito dos cuidados paliativos, impõe à família uma série de demandas que transcendem os aspectos físicos da assistência. A sobrecarga emocional, a ruptura das rotinas familiares, a vulnerabilidade socioeconômica e os impactos na saúde mental dos cuidadores são fatores frequentemente subestimados, mas que influenciam diretamente na qualidade do cuidado prestado e no bem-estar global do núcleo familiar. A atuação da equipe de enfermagem, nesse cenário, deve ser ampliada para além do paciente, incluindo sua rede de apoio, com escuta qualificada, acolhimento e suporte contínuo, reconhecendo o sofrimento compartilhado.
Um dos primeiros reflexos da terminalidade é a desestruturação das rotinas familiares. O diagnóstico de uma doença crônica avançada e a transição para os cuidados paliativos exigem reorganização imediata da dinâmica doméstica. Familiares, especialmente filhos e cônjuges, frequentemente interrompem suas atividades laborais ou reduzem sua carga horária para assumir o cuidado integral do idoso. Essa mudança abrupta compromete a estabilidade financeira e emocional da família, gerando tensão, insegurança e desgaste nas relações interpessoais.
A sobrecarga física é uma consequência direta dessa nova configuração. O cuidado ao idoso em fase terminal exige vigilância contínua, administração de medicamentos, auxílio nas atividades de vida diária (AVDs), como alimentação, higiene e mobilidade, além da implementação de medidas preventivas para evitar agravos como quedas, infecções e, principalmente, lesões por pressão. A ausência de conhecimento técnico por parte dos cuidadores leigos aumenta o risco de falhas na assistência, o que pode comprometer a segurança do paciente. A falta de suporte institucional e de programas estruturados de atenção domiciliar agrava esse cenário, sobrecarregando emocional e fisicamente os cuidadores.
A dependência financeira é outro fator que intensifica o sofrimento familiar. Em muitos casos, a aposentadoria do idoso torna-se a única fonte de renda, especialmente quando o cuidador principal se afasta do mercado de trabalho. Os custos com medicamentos, insumos como fraldas e materiais para curativos, alimentação especial, transporte, consultas médicas e equipamentos de suporte (cadeiras de rodas, colchões pneumáticos, oxigenoterapia) representam um ônus significativo. A ausência de políticas públicas que garantam subsídios, isenções fiscais ou benefícios específicos para famílias cuidadoras evidencia uma lacuna na proteção social.
A burocracia para acesso a benefícios sociais, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC) ou o auxílio-doença, é um entrave recorrente. A morosidade nos processos, a exigência de documentação extensa e a falta de orientação adequada dificultam o acesso a direitos fundamentais, gerando frustração e sensação de negligência institucional. Em contextos de vulnerabilidade social, essa realidade é ainda mais crítica, comprometendo não apenas a assistência ao idoso, mas a subsistência da família como um todo.
A saúde mental dos cuidadores é profundamente impactada por esse cenário. A sobrecarga de tarefas, a privação de sono, o isolamento social e o sofrimento diante da progressão da doença do ente querido favorecem o desenvolvimento de quadros de estresse, ansiedade, depressão e síndrome de burnout. Muitos cuidadores relatam sentimentos de culpa, impotência e solidão, especialmente quando percebem que não conseguem atender plenamente às necessidades do paciente ou que sua própria saúde está sendo negligenciada.
O luto antecipado é uma vivência comum entre cuidadores de pacientes em cuidados paliativos. Trata-se da experiência emocional da perda antes da morte efetiva, marcada por tristeza, angústia e medo do futuro. Esse processo é intensificado pela convivência diária com o sofrimento do paciente, pelas incertezas quanto ao prognóstico e pela ausência de perspectivas terapêuticas curativas. A falta de espaços de escuta e acolhimento para os cuidadores dificulta a elaboração desse luto, podendo gerar repercussões emocionais duradouras mesmo após o óbito do ente querido.
A enfermagem, nesse contexto, deve adotar estratégias de suporte aos cuidadores familiares. O enfermeiro, como profissional de referência no cuidado direto, tem a responsabilidade de identificar sinais de sobrecarga, orientar sobre os cuidados necessários, promover educação em saúde e encaminhar os cuidadores para serviços de apoio psicológico e social. A escuta ativa, o acolhimento empático e o reconhecimento do papel do cuidador são atitudes que fortalecem o vínculo terapêutico e contribuem para a redução do sofrimento familiar.
A inclusão da família no plano de cuidados é uma prática que promove corresponsabilidade, autonomia e segurança. Quando os cuidadores são orientados adequadamente, sentem-se mais preparados para lidar com as demandas do cuidado, o que reduz a ansiedade e melhora a qualidade da assistência. A capacitação dos familiares para realizar procedimentos simples, como administração de medicamentos, cuidados com a pele e prevenção de lesões por pressão, é uma estratégia eficaz para empoderar os cuidadores e garantir a continuidade do cuidado no domicílio. A prevenção de LPP, por exemplo, requer conhecimento sobre mudança de decúbito, uso de superfícies de apoio e avaliação da integridade cutânea, práticas que podem ser ensinadas pela equipe de enfermagem.
Além disso, é fundamental que os serviços de saúde ofereçam suporte institucional às famílias cuidadoras. Programas de atenção domiciliar, grupos de apoio, visitas regulares de profissionais de saúde e acesso facilitado a insumos e equipamentos são medidas que contribuem para aliviar a sobrecarga e promover o bem-estar dos cuidadores. A criação de políticas públicas específicas para cuidadores familiares, com reconhecimento legal, benefícios sociais e apoio financeiro, é uma demanda urgente para garantir equidade e justiça no cuidado.
A valorização do cuidador familiar deve ser parte integrante da abordagem paliativa. Reconhecer o sofrimento, oferecer suporte emocional, garantir acesso a serviços e promover a inclusão social são ações que refletem o compromisso com a humanização da assistência. A enfermagem, como protagonista no cuidado direto, tem papel decisivo nesse processo, atuando como elo entre o paciente, a família e os demais profissionais da equipe multiprofissional.
Em síntese, a sobrecarga e o sofrimento das famílias que cuidam de idosos em cuidados paliativos são realidades complexas e multifatoriais. A ruptura das rotinas, a dependência financeira e os impactos na saúde mental dos cuidadores exigem uma abordagem sensível, ética e integrada por parte da equipe de enfermagem e das políticas públicas. Ao reconhecer e acolher essas vivências, a enfermagem contribui para a construção de uma rede de cuidado mais justa, solidária e humanizada, capaz de oferecer suporte não apenas ao paciente, mas a todos que compartilham de sua jornada, incluindo ações educativas e preventivas voltadas à integridade da pele e à prevenção de lesões por pressão.
3.5 Estratégias de Humanização e Boas Práticas
A humanização nos cuidados paliativos é um princípio ético e assistencial que orienta a prática da enfermagem e de toda a equipe multiprofissional. Em contextos de terminalidade, o cuidado deve transcender os procedimentos técnicos, abrangendo as dimensões emocionais, espirituais e sociais do paciente e de seus familiares. A humanização é, portanto, uma resposta à complexidade do sofrimento humano, e sua efetivação depende de intervenções eficazes, práticas sensíveis e políticas públicas que assegurem acesso, equidade, dignidade e prevenção de agravos como as lesões por pressão (LPP), que comprometem diretamente a qualidade de vida do paciente acamado.
Entre as estratégias de humanização mais eficazes, destaca-se a escuta ativa, que permite ao paciente expressar sentimentos, medos, desejos e valores. Essa prática fortalece o vínculo terapêutico, promove o acolhimento e contribui para a construção de um plano de cuidado centrado na pessoa. A escuta ativa deve ser acompanhada de comunicação empática, clara e respeitosa, que envolva o paciente e seus familiares nas decisões sobre o tratamento, respeitando sua autonomia e promovendo o protagonismo no processo de cuidado, inclusive nas escolhas relacionadas à prevenção de LPP e ao conforto físico.
Outra intervenção fundamental é o manejo adequado da dor e dos sintomas físicos, que representa um dos pilares dos cuidados paliativos. A dor não controlada compromete a qualidade de vida e gera sofrimento evitável. A enfermagem, ao utilizar protocolos clínicos, escalas de avaliação e terapias complementares, contribui para o alívio do sofrimento físico e para o conforto do paciente. O uso de medicamentos analgésicos, técnicas de posicionamento, cuidados com a pele e medidas específicas para prevenção de lesões por pressão, como mudança de decúbito, uso de colchões especiais e avaliação da integridade cutânea, são práticas que devem ser realizadas com atenção, sensibilidade e competência técnica.
A preservação da dignidade do paciente é uma prática humanizadora que envolve respeito à sua história, valores, crenças e escolhas. Isso inclui permitir que o paciente participe das decisões sobre seu cuidado, respeitar seus limites e garantir privacidade e conforto em todas as etapas da assistência. A dignidade também se manifesta na forma como o paciente é tratado pela equipe de saúde, pela família e pela instituição, sendo necessário combater atitudes negligentes, discriminatórias ou desumanas, especialmente em relação à prevenção de agravos evitáveis como as LPP.
O suporte emocional e espiritual é outra dimensão essencial da humanização. O adoecimento grave e a proximidade da morte geram angústias, questionamentos existenciais e necessidade de reconciliação. A enfermagem, ao reconhecer essas necessidades, pode oferecer apoio psicológico, encaminhamento para profissionais especializados e espaço para práticas religiosas ou espirituais. A espiritualidade, quando integrada ao cuidado, proporciona paz interior, conforto e sentido, contribuindo para uma experiência de finitude mais serena e significativa. O sofrimento espiritual, quando não acolhido, pode intensificar o sofrimento físico e dificultar a adesão às medidas preventivas, como o reposicionamento corporal necessário para evitar LPP.
A inclusão da família no cuidado é uma prática que fortalece o vínculo afetivo, promove corresponsabilidade e reduz o sofrimento emocional. Os familiares devem ser orientados, acolhidos e envolvidos nas decisões, recebendo suporte para lidar com a sobrecarga física e emocional. A enfermagem pode oferecer capacitação para cuidados básicos, criar espaços de escuta e encaminhar os cuidadores para serviços de apoio psicológico e social. O reconhecimento do papel da família é uma estratégia que humaniza o cuidado e promove segurança e confiança, especialmente quando os familiares são instruídos sobre práticas preventivas como a mudança de decúbito e os cuidados com a pele para evitar LPP.
A Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) é uma ferramenta que contribui para a humanização ao permitir o planejamento, execução e avaliação do cuidado de forma individualizada e científica. A SAE organiza o trabalho da enfermagem, garante continuidade da assistência e promove a segurança do paciente. Ao utilizar a SAE, o enfermeiro pode identificar necessidades específicas, formular intervenções direcionadas e monitorar os resultados, promovendo um cuidado centrado na pessoa e baseado em evidências, incluindo ações preventivas contra lesões por pressão como parte do plano terapêutico.
A adoção de protocolos assistenciais específicos para cuidados paliativos é uma prática que qualifica a assistência e promove a humanização. Esses protocolos devem contemplar o manejo da dor, o controle de sintomas, a comunicação com o paciente e a família, o suporte emocional e espiritual, e a prevenção de complicações como as LPP. A padronização das práticas garante segurança, eficiência e qualidade, além de facilitar a formação de indicadores e a avaliação dos serviços. Protocolos bem estruturados orientam a equipe na aplicação de medidas preventivas e no monitoramento da integridade cutânea, reduzindo riscos e promovendo conforto.
No campo das políticas públicas, é necessário avançar na formulação de diretrizes nacionais que reconheçam os cuidados paliativos como um direito fundamental. A Política Nacional de Cuidados Paliativos, lançada pelo Ministério da Saúde, representa um marco importante, mas sua implementação ainda é desigual e limitada. É preciso garantir financiamento adequado, ampliar a cobertura dos serviços, integrar os cuidados paliativos à atenção básica e domiciliar, e promover capacitação contínua dos profissionais, com ênfase na prevenção de lesões por pressão como indicador de qualidade assistencial.
A criação de programas de atenção domiciliar estruturados, como o Melhor em Casa, é uma estratégia eficaz para ampliar o acesso aos cuidados paliativos, especialmente em regiões onde não há hospitais com estrutura adequada. Esses programas devem contar com equipes multiprofissionais, suporte logístico, insumos e protocolos específicos, garantindo assistência integral e humanizada no domicílio. O cuidado domiciliar, quando bem estruturado, promove conforto, preserva vínculos familiares e respeita o desejo do paciente de permanecer em seu ambiente, além de permitir a continuidade das ações preventivas contra LPP.
Outra proposta de melhoria é o reconhecimento legal e institucional dos cuidadores familiares, com oferta de benefícios sociais, capacitação e suporte emocional. Os cuidadores enfrentam sobrecarga física, emocional e financeira, e sua valorização é essencial para garantir a continuidade e a qualidade do cuidado. Políticas públicas que ofereçam auxílio financeiro, isenção de impostos, acesso a serviços de saúde e programas de apoio psicológico são medidas que promovem justiça social e equidade, além de fortalecer a rede de apoio para a prevenção de lesões por pressão no domicílio.
A capacitação dos profissionais de saúde é uma medida urgente para qualificar a assistência e promover a humanização. A inclusão de conteúdos sobre cuidados paliativos nos currículos de graduação, a oferta de cursos de especialização, a supervisão clínica e a educação permanente são estratégias que fortalecem a prática profissional e garantem que os princípios da abordagem paliativa sejam efetivamente aplicados. A formação deve contemplar aspectos técnicos, éticos, emocionais e comunicacionais, preparando os profissionais para lidar com a complexidade do cuidado em terminalidade e para implementar medidas preventivas contra LPP com competência e sensibilidade.
Em síntese, as estratégias de humanização e boas práticas nos cuidados paliativos envolvem intervenções eficazes, como escuta ativa, manejo da dor, suporte emocional e espiritual, inclusão da família, uso da SAE e protocolos assistenciais. As propostas de melhoria incluem políticas públicas que ampliem o acesso, reconheçam os cuidadores, promovam capacitação profissional e integrem os cuidados paliativos à rede de atenção à saúde. A humanização é, acima de tudo, um compromisso ético com a dignidade, o conforto e o respeito à vida, e sua efetivação depende da atuação sensível e qualificada da enfermagem e de toda a equipe multiprofissional — com atenção especial à prevenção de lesões por pressão como parte integrante do cuidado humanizado.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo teve como objetivo geral investigar como a implementação de práticas de cuidados paliativos humanizados na enfermagem pode contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos idosos com doenças crônicas em estágio avançado, com ênfase na prevenção de lesões por pressão (LPP). Os objetivos específicos incluíram: analisar os desafios e barreiras na implementação dos cuidados paliativos; identificar as limitações de infraestrutura e os impactos da precariedade dos atendimentos geriátricos; avaliar o papel do enfermeiro na promoção de uma abordagem humanizada e integral; e propor estratégias e intervenções que possam aprimorar a qualidade do cuidado paliativo oferecido aos idosos, incluindo ações preventivas voltadas à integridade da pele.
A hipótese central sustentava que a ausência de infraestrutura especializada e a falta de profissionais capacitados comprometem a humanização e a qualidade da assistência prestada, resultando em impactos negativos tanto para os pacientes quanto para seus familiares e para os próprios profissionais de enfermagem. A análise dos dados obtidos por meio da revisão sistemática da literatura permitiu confirmar essa hipótese. Os principais achados revelaram que a precariedade da infraestrutura, a escassez de leitos especializados, a baixa cobertura dos serviços públicos e a concentração de clínicas privadas em grandes centros urbanos dificultam o acesso equitativo aos cuidados paliativos. Além disso, a ausência de políticas públicas robustas e de protocolos assistenciais padronizados compromete a organização e a efetividade da assistência, gerando fragmentação do cuidado e insegurança para pacientes e familiares, especialmente no que se refere à prevenção de LPP em pacientes acamados.
Outro achado relevante foi a sobrecarga enfrentada pelas famílias, que muitas vezes assumem integralmente o cuidado do idoso em fase terminal, sem preparo técnico, apoio institucional ou suporte financeiro. O abandono das rotinas, a dependência da aposentadoria do paciente e os impactos na saúde mental dos cuidadores são aspectos que agravam o sofrimento e comprometem a qualidade do cuidado. A ausência de políticas públicas voltadas para os cuidadores familiares evidencia uma lacuna na proteção social e na valorização do cuidado informal, dificultando também a implementação de medidas preventivas como a mudança de decúbito e os cuidados com a pele.
A atuação da enfermagem emergiu como elemento central na promoção de cuidados paliativos humanizados e na prevenção de lesões por pressão. O enfermeiro é o profissional que permanece mais próximo do paciente e da família, sendo responsável por ações diretas de cuidado, como o manejo da dor, a administração de medicamentos, o suporte emocional e a aplicação de intervenções preventivas contra LPP. A escuta ativa, a empatia, o respeito à autonomia e a comunicação sensível são práticas que qualificam a assistência e promovem conforto, dignidade e bem-estar. A utilização da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) e de protocolos assistenciais específicos fortalece a organização do cuidado, a segurança do paciente e a valorização da prática profissional, permitindo que medidas preventivas sejam planejadas, executadas e avaliadas com base em evidências.
A formação e capacitação contínua dos profissionais de enfermagem foram apontadas como estratégias fundamentais para garantir a qualidade da assistência paliativa e a efetividade das ações preventivas. A inclusão de conteúdos sobre cuidados paliativos e prevenção de LPP nos currículos de graduação, a oferta de cursos de especialização, a supervisão clínica e a educação permanente são medidas que contribuem para o desenvolvimento de competências técnicas, éticas e emocionais. A valorização da enfermagem, por meio de reconhecimento institucional, condições adequadas de trabalho e participação na formulação de políticas públicas, é essencial para consolidar os cuidados paliativos como parte integrante da rede de atenção à saúde.
Com base nos achados deste estudo, algumas sugestões podem ser apresentadas para o aprimoramento das políticas públicas e para o direcionamento de futuras pesquisas. Em primeiro lugar, é necessário ampliar a implementação da Política Nacional de Cuidados Paliativos, garantindo financiamento adequado, metas de cobertura e mecanismos de monitoramento. A criação de linhas de cuidado específicas para pacientes em cuidados paliativos, integradas aos diferentes níveis de atenção, é uma medida que pode promover a continuidade da assistência e a articulação entre os serviços, favorecendo também a prevenção de lesões por pressão por meio de protocolos clínicos e capacitação das equipes.
Em segundo lugar, é urgente reconhecer legalmente o papel dos cuidadores familiares, oferecendo benefícios sociais, capacitação e suporte emocional. A criação de programas de apoio aos cuidadores, com acesso a serviços de saúde, auxílio financeiro e espaços de escuta, é uma medida que promove justiça social e contribui para a sustentabilidade do cuidado domiciliar. A valorização do cuidado informal deve ser acompanhada de ações que promovam a corresponsabilidade do Estado, das instituições e da sociedade, incluindo a orientação técnica para prevenção de LPP no domicílio.
Em terceiro lugar, é fundamental investir na estruturação dos serviços de cuidados paliativos, com a criação de leitos especializados, equipes multiprofissionais e programas de atenção domiciliar. A expansão da cobertura dos serviços, especialmente em regiões periféricas e rurais, é uma condição indispensável para garantir o acesso universal e equitativo. A utilização de tecnologias de informação e comunicação, como prontuários eletrônicos integrados e teleatendimento, pode contribuir para a coordenação do cuidado e para o acompanhamento contínuo dos pacientes, inclusive no monitoramento da integridade cutânea e na prevenção de LPP.
Por fim, recomenda-se o desenvolvimento de pesquisas que explorem a experiência dos pacientes e familiares em cuidados paliativos, com foco na avaliação da qualidade da assistência, na identificação de boas práticas e na análise dos impactos emocionais, sociais e espirituais do cuidado. Estudos qualitativos, com abordagem fenomenológica ou etnográfica, podem oferecer contribuições valiosas para a compreensão das vivências subjetivas e para a construção de práticas mais sensíveis e humanizadas, incluindo o olhar atento à prevenção de lesões por pressão como parte do cuidado integral.
Em conclusão, os cuidados paliativos representam uma abordagem ética, humanizada e centrada na pessoa, que visa aliviar o sofrimento e promover qualidade de vida em situações de doença grave. A enfermagem, como protagonista nesse processo, tem papel decisivo na promoção de um cuidado integral, sensível e baseado em evidências. A superação dos desafios identificados neste estudo exige compromisso político, investimento institucional e mobilização social para garantir que todos os idosos em fase terminal tenham acesso a uma assistência digna, acolhedora e transformadora, com atenção especial à prevenção de lesões por pressão como componente essencial da qualidade do cuidado.
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1Acadêmico (a) do Curso de Graduação Bacharelado em Enfermagem. Faculdade da Amazônia – UNAMA Rio Branco-Acre.
2Acadêmico (a) do Curso de Graduação Bacharelado em Enfermagem. Faculdade da Amazônia – UNAMA Rio Branco-Acre.
3Docente do Curso de Graduação Bacharelado em Enfermagem na Faculdade da Amazônia – UNAMA Rio Branco Acre.
