HEALTH EDUCATION STRATEGIES AND NURSING CARE FOR PREGNANT WOMEN WITH HEART DISEASE: AN INTEGRATIVE REVIEW
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510201755
Ana Elisa Klem dos Santos
Rutilaine Alves Viana
Thaís Mendes da Costa
Flávia Dos Santos Lugão de Souza
RESUMO
Objetivo: Analisar através de uma pesquisa integrativa como a enfermagem pode atuar na educação em saúde para o planejamento seguro em mulheres com cardiopatia e descrever as competências clínicas do enfermeiro no acompanhamento à gestante cardiopata. Método: O estudo foi desenvolvido por meio de revisão integrativa, realizada entre fevereiro e junho de 2025, utilizando as bases SciELO e BVS. Foram aplicados os descritores “Cardiopatias na gravidez”, “Parto de alto risco” e “Gravidez de alto risco”, indexados no DeCS, com recorte temporal de 2015 a 2025, em idioma português. Após aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, foram selecionados 10 artigos que subsidiaram a análise e discussão do tema. Resultados: Os resultados foram obtidos através de revisão integrativa de artigos mostrando que a gestação em mulheres com cardiopatias é considerada de alto risco exigindo cuidados especiais. As alterações cardíacas das gestantes com cardiopatia podem se agravar durante a gravidez, aumentando os riscos para mãe e feto. O acompanhamento deve ser feito por uma equipe multiprofissional, com pré-natal rigoroso. O cuidado adequado dessas gestantes contribui para a redução de complicações pré e pós-parto garantindo assim uma assistência segura e humanizada. Conclusão: A gestação em mulheres cardiopatas configura-se como condição de alto risco, demandando acompanhamento multiprofissional contínuo. A enfermagem exerce papel fundamental no cuidado clínico e educativo, favorecendo o autocuidado, prevenindo complicações e promovendo melhores desfechos maternos e perinatais.
Palavras-chave: Cardiopatias na gravidez; Parto de alto risco; Gravidez de alto risco; Enfermagem.
1. INTRODUÇÃO
De acordo com o Manual de Gestação de Alto Risco do Ministério da Saúde (2022), as enfermidades cardíacas afetam de 1% a 4% das gestantes. A pressão adicional no sistema cardiovascular, resultante das mudanças fisiológicas durante a gestação, pode levar a uma descompensação clínica, resultando em diferentes níveis de complicações tanto para a mãe quanto para o bebê.
A cardiopatia é apontada como a principal causa de morte materna indireta durante o ciclo gravídico-puerperal, sendo a insuficiência cardíaca a complicação mais comum entre gestantes cardiopatas. Outras condições relevantes, embora menos prevalentes, incluem a cardiomiopatia periparto, arritmias cardíacas, doença arterial coronariana e cardiomiopatia hipertrófica (MARTINS E KOBAYASHI, 2022).
No Brasil, a incidência de cardiopatia durante a gestação é significativamente superior à média internacional, alcançando cerca de 4,2% das gestantes, o que representa um índice oito vezes maior que o relatado pela Sociedade Europeia de Cardiologia. Além disso, mulheres com essa condição apresentam risco cem vezes mais elevado de evolução desfavorável durante a gravidez, com possibilidade de desfecho fatal (ARAÚJO et al., 2020).
De acordo com dados de 2015, entre os óbitos de mulheres em idade fértil (geralmente abrange mulheres entre 15 e 49 anos, mas no Brasil, a faixa utilizada é de 10 a 49 anos), uma parte foi classificada como óbito materno, sendo que cerca de 9% desses casos se referiam a causas obstétricas indiretas, especialmente doenças cardiocirculatórias que agravaram a gravidez, o parto ou o puerpério sendo um indicador importante de saúde. Analisar esses dados permite identificar fatores que contribuem para a mortalidade feminina e implementar medidas para reduzir essas mortes, especialmente aquelas evitáveis (AMORIM et al., 2018).
Segundo Andrade (2024), no caso das mulheres em idade fértil que apresentam doenças cardiovasculares, se torna essencial, a elaboração de estratégias ou a adoção de medidas preventivas em relação à gestação, é imprescindível para otimizar a saúde materna e fetal pois pacientes com condições cardiovasculares são frequentemente expostos a medicamentos que possuem potenciais efeitos teratogênicos e a gestação pode representar um fator significativo, contribuindo para a morbidade e mortalidade de forma relevante.
A educação em saúde voltada ao pré-natal de alto risco é uma estratégia importante para esclarecer dúvidas relacionadas à condição da gestante cardiopata, contribuindo para a redução de complicações decorrentes de inseguranças quanto ao tratamento (ARAÚJO et al., 2020).
Desta forma a assistência especializada e multidisciplinar nos períodos pré, peri e pós-natal é essencial para reduzir a mortalidade materna até o primeiro ano após a parturição (NOVAIS, 2024).
Mulheres em condição de risco durante o ciclo gravídico-puerperal, especialmente aquelas com cardiopatias, frequentemente vivenciam sentimentos como ansiedade, medo, estresse, impotência e culpa. Essas emoções estão associadas à vulnerabilidade decorrente das possíveis implicações negativas da doença cardíaca sobre a saúde materna e neonatal (AMORIM et al., 2018).
Diante do exposto, este trabalho tem como objetivo analisar através de uma pesquisa integrativa como a enfermagem pode atuar na educação em saúde para o planejamento seguro em mulheres com cardiopatia e descrever as competências clínicas do enfermeiro no acompanhamento à gestante cardiopata.
Portanto, este estudo se faz relevante ao evidenciar os riscos maternos de gestantes cardiopatas durante o ciclo gravídico-puerperal e enfatizar a importância do acompanhamento dessa mulher desde a pré-concepção até pré-natal e parto.
2. METODOLOGIA
O presente estudo foi realizado pelo método de pesquisa integrativa, no qual foram utilizados diversos documentos como artigos e protocolos, a respeito do tema abordado com intuito de ampliar e aprofundar o conhecimento e descrever posteriormente o que foi extraído dos documentos estudados.
O estudo foi realizado de fevereiro a junho de 2025 e utilizada as bases virtuais Scientific Electronic Library Online (SciELO) e na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) para a seleção dos artigos. Foram utilizados os descritores, todos indexados na base Descritores em ciências da Saúde (DeCS): Cardiopatias na gravidez; Parto de alto risco; Gravidez de alto risco; Enfermagem.
A busca dos estudos para o embasamento do presente artigo foi feita em protocolos existentes ao cuidado da gestante cardiopata, artigos que descreviam as atribuições do enfermeiro e o tratamento, publicações 2015 até o ano de 2025.
Com base nos descritores elaboramos os seguintes critérios de inclusão do estudo: título compatível com a temática, idioma na língua portuguesa, ano de publicação dentro do corte temporal 2015 até 2025.
O critério de exclusão do estudo foram todos os demais que não se enquadram com os critérios descritos acima. Devido ao grande número de estudos encontrados foram selecionando os artigos que melhor se relacionaram ao tema.
Na base de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO) foram identificados 373 documentos com os descritores “Gestação de alto risco”, 25 documentos com o filtro “ano de 2015 até 2025”, 20 documentos como “artigo de revisão”, 261 documentos na filtragem “idioma português” e 2016 filtros com “Enfermagem” selecionados 3 após filtros para o devido estudo.
Na base BVS foram encontrados 2570 documentos no total com os descritores “Gravidez de alto risco”. Utilizando os descritores “Cardiopatias and Gravidez” encontrados 41 documentos filtrados, com o filtro “idioma português” “ano de 2015 a 2025” foram encontrados 480 documentos, com o filtro “Enfermagem” foram encontrados 473 artigos, selecionados 7 após filtros para obtenção de dados para o devido estudo.
O total dos 10 documentos encontrados com os descritores citados foram apresentados no quadro 1.
Quadro 1– Total de artigos selecionados nas bases SCIELO e BVS

Fonte: Autoras do estudo, (2025)
Fluxograma 1– Total de artigos a partir dos filtros implementado com os descritores “Cardiopatias na gravidez”

Fonte: Autoras do estudo, (2025).
Nos quadros 2 e 3, estão representados os descartes dos artigos nas bases SciELO e BVS após a implementação dos filtros.
Quadro 2 – Descarte dos artigos na base BVS após a implementação dos filtros

Quadro 3– Descartes dos artigos na base SciELO após a implementação dos filtros

3. RESULTADOS
A etapa de resultados desta pesquisa foi elaborada a partir dos dez artigos selecionados, sendo apresentados no (quadro 4) os respectivos títulos, autores, ano de publicação, tipo de metodologia e objetivos de cada estudo, permitindo uma análise sistematizada das evidências incluídas.
Quadro 4– Descrição dos artigos selecionados com os títulos, autores, ano de publicação, revista, tipo de metodologia e objetivos
| Título | Autores | Ano/Revista | Metodologia | Objetivos |
| Promoção da saúde materna a partir do vivido do parto de mulheres cardiopatas. | Amorim et al. | 2017/ Cogitare Enfermagem. | Estudo descritivo, de abordagem qualitativa. | Compreender os significados do processo parturitivo a partir da vivência do risco gestacional da mulher portadora de cardiopatia. |
| Risco reprodutivo em gestantes portadoras de cardiopatia: o mundo vivido direcionando o cuidado em saúde | Amorim et al. | 2018/ Texto & Contexto – Enfermagem. | Pesquisa qualitativa, exploratória e descritiva. | Investigar a experiência de gestantes com cardiopatia diante dos riscos reprodutivos e compreender como percebem e vivenciam o cuidado em saúde durante a gestação. |
| Gestantes de alto risco em alta hospitalar qualificada: personalidade, estilo de vida e vivências | Porto e Pinto. | 2019/Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar. | Estudo descritivo, transversal. | Verificar estilo de vida e perfil cognitivo de personalidade de gestantes de alto risco hospitalizadas e inseridas no programa de alta qualificada na enfermaria obstétrica de um hospital escola no interior de São Paulo. |
| Ações educativas no pré-natal de alto risco para gestantes cardiopatas: estratégias para um autocuidado eficiente. | Araújo et al. | 2020/ Research, Society and Development. | Estudo descritivo, de abordagem qualitativa. | Compreender as relações desenvolvidas durante ações educativas com gestantes cardiopatas, visando promover saúde de maneira segura e incentivar o autocuidado e o bem-estar. |
| Posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia para Gravidez e Planejamento Familiar na Mulher Portadora de Cardiopatia. | Avila et al. | 2020/ Arquivos Brasileiros de Cardiologia. | Revisão integrativa de literatura | Formular recomendações baseadas em evidências para o manejo da gravidez e planejamento familiar em mulheres com cardiopatias, visando reduzir riscos maternos e fetais e melhorar desfechos clínicos. |
| Cardiopatia e gravidez | Testa; Borges; Bortolotto. | 2018/ Revista de Medicina da USP | Revisão de literatura narrativa. | Revisar os principais aspectos clínicos, fisiopatológicos e terapêuticos relacionados à gestação em mulheres com cardiopatias, destacando os riscos envolvidos e as estratégias de manejo para otimizar os desfechos maternos e fetais. |
| Competência clínica do enfermeiro na assistência à gestante cardiopata: revisão integrativa. | Martins e Kobayashi. | 2022/Open Science Research VI. | Revisão integrativa de literatura. | Analisar as competências clínicas essenciais do enfermeiro na assistência à gestante com cardiopatia, destacando habilidades de avaliação, intervenção, educação em saúde e trabalho interprofissional. |
| Manual Técnico de Gestação de Alto Risco do Ministério da Saúde. | Ministério da Saúde. | 2022/ Manual Técnico de Gestação de Alto Risco. | Revisão de evidências científicas e protocolos clínicos. | Fornece diretrizes e orientações baseadas em evidências para a assistência à gestante de alto risco, com foco na identificação, manejo e prevenção de complicações maternas e fetais, visando a redução da morbimortalidade materna e perinatal e a padronização da prática profissional. |
| A importância do planejamento familiar, do acompanhamento médico e da prática de exercícios na gestante cardiopata. | Andrade. | 2024/Coração em Foco. | Análise crítica de literatura científica. | Analisar a importância do planejamento familiar, do acompanhamento médico e da prática de exercícios físicos na gestante cardiopata, evidenciando sua influência na redução de riscos maternos e neonatais. |
| Prognóstico de gestantes cardiopatas de uma maternidade da Bahia | Novais. | 2024/ Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública | Observacional analítico em uma coorte retrospectiva. | Identificar características clínicas determinantes do prognóstico de gestantes cardiopatas atendidas no ambulatório de Cardiologia da Maternidade de Referência Professor José Maria de Magalhães Neto na cidade de Salvador que impactam no prognóstico materno-fetal. |
Fonte: Autoras do estudo, (2025)
Conforme apresentado no gráfico 1, quanto ao tipo de pesquisa utilizado, 10% dos estudos foram do tipo análise crítica de literatura científica, 20% corresponderam a estudos qualitativos, exploratórios e descritivos, 20% a estudos descritivos de abordagem qualitativa, 20% a revisões de literatura narrativa, 10% a revisões de evidências científicas e protocolos clínicos, 10% a revisões integrativas de literatura e 10% a estudos observacionais analíticos em coorte retrospectiva.
Gráfico 1– Distribuição dos artigos conforme o tipo de pesquisa empregado na elaboração do retrospectivo estudo

Fonte: Autoras do estudo, (2025).
Em relação ao ano de publicação (gráfico 2), dos 10 artigos selecionados, sendo 01 publicado em 2017, 02 publicado em 2018, 01 publicado em 2019, 02 publicados em 2020, 02 publicados em 2022 e 02 publicados em 2024.
Gráfico 2– Distribuição de artigos em gráfico conforme o tipo de pesquisa empregado na elaboração do retrospectivo estudo em relação ao ano de publicação

Fonte: Autoras do estudo, (2025).
4. DISCUSSÃO
Após a leitura dos estudos selecionados para a elaboração do respectivo trabalho, agrupamos esses artigos em 3 tópicos relevantes para o estudo, desta forma, tornou-se possível a discussão do assunto conforme se desdobrará a seguir. 4.1. Gestação de alto risco e suas características; 4.2. Delineamento da Gestante Cardiopata; 4.3. Assistência de Enfermagem e ações educativas à Gestante Cardiopata
4.1 Gestação de alto risco e suas características
Fatores biológicos são considerados de risco à gestação, como a história reprodutiva anterior, condições clínicas preexistentes e doenças obstétricas na gravidez atual. Entretanto, os riscos reprodutivos ultrapassam o saber biomédico, pois as vulnerabilidades sociais influenciam no desenvolvimento da gravidez, bem como as características individuais e condições sociodemográficas desfavoráveis (idade, peso, baixa escolaridade, conflitos familiares, hábitos de vida etc.) (PORTO; PINTO, 2019).
Outros fatores contribuem para o aumento da gravidade desses casos, como a maternidade tardia e mudanças de estilo de vida (sedentarismo, obesidade, tabagismo), que por sua vez, implicam no aumento da hipertensão arterial e das doenças cardiovasculares (TESTA; BORGES; BORTOLOTTO, 2018).
Quadro 5– Resumo dos fatores que definem uma gestação de alto risco
| FATORES | CARACTERÍSTICAS |
| Doenças maternas pré-existentes. | Hipertensão, diabetes, problemas cardíacos, doenças renais ou autoimunes, e infecções. |
| Idade materna. | Gravidez na adolescência ou após os 35 anos aumenta o risco de problemas como pré-eclâmpsia e alterações cromossômicas. |
| Histórico obstétrico. | Abortos espontâneos, partos prematuros, ou perdas fetais em gestações anteriores. |
| Gestação múltipla | Ter gêmeos ou trigêmeos aumenta a carga sobre o corpo da mãe. |
| Hábitos de vida | Uso de drogas lícitas ou ilícitas. |
| Condições que surgem na gravidez | Como diabetes gestacional e pré-eclâmpsia. |
Fonte: Testa; Borges; Bortolotto, (2018) adaptado por autoras do estudo, (2025).
A integração entre embrião e útero materno provoca no organismo um intrínseco estímulo hormonal que induz a transformações na fisiologia do sistema cardiovascular, as quais são fundamentais para o adequado desenvolvimento da gravidez. Essas mudanças, porém, determinam uma sobrecarga hemodinâmica que pode revelar doenças cardíacas previamente não reconhecidas ou agravar o estado funcional de cardiopatias subjacentes. Por isso, a compreensão das modificações hemodinâmicas, da coagulação sanguínea e respiratórias que ocorrem durante o ciclo gravídico-puerperal é fundamental para a interpretação do quadro clínico materno, predição dos riscos da gestação e avaliação da saúde fetal (AVILA et al., 2020).
4.2 Delineamento da Gestante Cardiopata
De acordo com o Manual de Gestação de Alto Risco do Ministério da Saúde (2022) as alterações do sistema cardiocirculatório na gravidez se iniciam já no primeiro trimestre, atingindo o ápice entre o segundo e o terceiro trimestre, e a partir daí mantendo-se até o período periparto (quadro 6). Muitas das manifestações clínicas e laboratoriais decorrentes das alterações fisiológicas podem ser confundidas com sintomas e sinais de cardiopatia. Em contrapartida, a sobrecarga hemodinâmica pode fazer com que doenças cardíacas previamente desconhecidas se manifestem pela primeira vez durante a gravidez.
Quadro 6– Alterações hemodinâmicas na gravidez e puerpério
| INDICADORES | 1º trimestre | 2º trimestre | 3º trimestre | Puerpério |
| Volume plasmático | ↑ | ↑↑ | ↑↑ (até 50 %) | ↑↑↑ |
| Frequência cardíaca | ↑ | ↑ | ↔ | ↑ |
| Resistência vascular | ↓ | ↓↓ | ↔ | ↑↑ |
| Débito Cardíaco | ↑ | ↑↑ | ↔ | ↑↑ |
Fonte: Manual de Gestação de Alto Risco do Ministério da Saúde, (2022). https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_gestacao_alto_risco.pdf.
O ciclo gravídico puerperal provoca alterações no sistema cardiovascular que visam adaptar o organismo materno ao desenvolvimento do concepto e ao fenômeno da parturição. Essas modificações podem influenciar o manejo de pacientes cardiopatas durante a gestação (NOVAIS, 2024).
Como mencionado no Manual de Gestação de Alto Risco do Ministério da Saúde (2022), na paciente que não tem diagnóstico prévio, os sintomas e sinais que levam à suspeita de cardiopatia são: dispneia incompatível com a idade gestacional, desencadeada por esforço físico ou ortopneia; arritmia acompanhada de cansaço, precordialgia ou síncope; cianose, ou ainda alterações da ausculta diferentes das citadas no (quadro 7).
Quadro 7– Principais alterações clínicas do sistema cardiovascular observadas na gravidez normal

Fonte: Manual de Gestação de Alto Risco do Ministério da Saúde (2022). https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_gestacao_alto_risco.pdf.
Para a estratificação de risco (quadro 8) devemos levar em conta as alterações hemodinâmicas fisiológicas da gravidez e as patologias cardíacas com alta taxa de mortalidade. A estratificação de risco determinará a frequência de reavaliação clínica durante a gravidez e auxiliará no trabalho de parto, na escolha do tipo de parto e na avaliação pós-parto (AMORIM et al., 2017).
Quadro 8– Estratificação de risco materno durante o ciclo gravídico-puerperal em função do tipo de doença cardíaca (adaptada da classificação da OMS)


Fonte: Manual de Gestação de Alto Risco do Ministério da Saúde (2022).https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_gestacao_alto_risco.pdf.
O quadro acima mostra a Classificação de risco da Organização Mundial da Saúde (2022), utilizada em muitos serviços e países para condução do pré-natal e do parto. Pode-se observar que no grupo I o risco de complicações e mortalidade materna é muito baixo, e as pacientes podem ser seguidas e ter parto em locais de atendimento a pacientes de risco habitual. Por outro lado, nos grupos III e IV o risco materno é bem elevado, contraindicando a gestação, e nos casos que ela ocorre o seguimento e parto devem ser realizados em centros terciários ou quaternários, por equipe multidisciplinar, com possibilidade de cuidados intensivos e até cirurgia cardiovascular.
4.3 Assistência de Enfermagem e ações educativas à Gestante Cardiopata
De acordo com o Manual de Gestação de Alto Risco do Ministério da Saúde (2022), o pré-natal configura-se como uma valiosa oportunidade para que o sistema de saúde exerça uma atuação abrangente, visando não apenas a promoção, mas também, em numerosas ocasiões, a reabilitação do estado de saúde das mulheres.
O aconselhamento na pré-concepção é essencial para a mulher cardiopata na idade reprodutiva, com ênfase nos riscos materno e fetal relacionados à gestação e na informação sobre a segurança e eficácia da contracepção. Os critérios de avaliação funcional para se permitir ou contraindicar uma gestação incluem anamnese, exame clínico e exames subsidiários, como ECG, radiografia de tórax, ECO transtorácico ou transesofágico, RMC, teste ergoespirométrico e outros mais específicos. A intervenção invasiva para o eventual tratamento de lesões cardíacas, se indicada, deve ser realizada antes da gestação (AVILA et al., 2020).
De acordo com Araújo et al. (2020), os principais resultados gerados pela utilização do Arco de Maguerez destacaram a importância de focar na assistência a gestantes com problemas cardíacos. Este grupo, por estar em uma condição de elevado risco, demanda intervenções direcionadas que considerem as especificidades da sua condição. Assim, a ação evidenciou a relevância do autocuidado e da promoção do bem-estar para essas mulheres, através da disseminação de informações úteis que ajudem a prevenir a piora da doença e a melhorar sua saúde.
Segundo Andrade (2024), para mulheres em idade fértil que apresentem condições cardiovasculares preexistentes, a implementação de estratégias de planejamento ou prevenção da gestação torna-se essencial para promover o bem-estar tanto da mãe quanto do feto. Um número considerável de mulheres diagnosticadas com doenças cardiovasculares é frequentemente submetido à administração de fármacos que podem ter efeitos teratogênicos. Além disso, a gestação pode acarretar um aumento significativo nas taxas de morbidade e mortalidade nesses pacientes.
Dentre os profissionais específicos para a realização da educação em saúde destaca-se a figura do enfermeiro, posto seu vínculo com a população. Dessa forma, reitera-se que esta profissional deve priorizar um atendimento integral e equânime, voltado às necessidades da gestante cardiopata, ouvindo seus questionamentos e queixas, e auxiliando-as em todas as suas demandas, mitigando, assim, uma assistência apenas tecnicista, a partir da humanização do cuidado e do empoderamento individual da mulher (ARAÚJO et al., 2020).
De acordo com Martins e Kobayashi (2022), no que tange às competências clínicas do enfermeiro na assistência a gestantes portadoras de cardiopatias, os artigos revisados não apresentaram descrições diretas de tais competências. Em contrapartida, foram identificadas habilidades que foram examinadas à luz das diretrizes estabelecidas pela Sociedade Brasileira de Cardiologia, referentes aos Processos e Competências necessárias para a Formação em Cardiologia no Brasil. Em relação às competências estabelecidas, dentre elas estão: Competências da Enfermagem; Competência Terapêutica Medicamentosa; Competência em Acolhimento; Habilidade na Avaliação do Risco Materno e Fetal; Competência em Trabalho Interprofissional; Competências em Aconselhamento; Capacidade de Aprimoramento do Saber; Competência de Intervenção Educativa.
Os cuidados de enfermagem (quadro 9) foram elaborados conforme a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE), fundamentada na Resolução COFEN nº 358/2009, que dispõe sobre a obrigatoriedade da implementação do Processo de Enfermagem.
Quadro 9– Problemas de enfermagem e cuidados de enfermagem à Gestante Cardiopata

Fonte: Autoras do estudo, (2025).
5. CONCLUSÃO
A revisão da literatura realizada trouxe uma compreensão de que a gravidez em mulheres portadoras de doenças cardíacas representa um desafio tanto clínico quanto social, sendo considerada uma situação de elevado risco que exige monitoramento cuidadoso e abrangente. As evidências consideradas revelam que, além das mudanças fisiológicas normais da gestação, fatores sociais e condições de saúde prévias agravam a fragilidade dessas mulheres, elevando as chances de complicações durante a maternidade e no período perinatal.
A abordagem clínica da mulher grávida com problemas cardíacos destaca a importância de uma avaliação detalhada, classificação de risco e acompanhamento em centros especializados, especialmente em situações mais severas. Nesse cenário, a contribuição dos profissionais de enfermagem se torna crucial, não apenas pela assistência clínica, mas também pela implementação de estratégias educativas que incentivam o autocuidado, melhoram a adesão ao tratamento e favorecem a saúde da mãe e do bebê.
Assim, a atuação da enfermagem, fundamentada em conhecimento científico, na humanização e no trabalho conjunto de equipes multiprofissionais, desempenha um papel crucial na diminuição da morbimortalidade entre mães e recém-nascidos, além de elevar a qualidade de vida das mulheres com problemas cardíacos durante a gestação e o puerpério. Nesse contexto foram selecionados 9 problemas de enfermagem e descrito os cuidados de enfermagem para a melhor qualidade no atendimento a essa clientela.
Conclui-se, portanto, que é essencial investir em políticas públicas, formação profissional e ações de educação em saúde para fortalecer a segurança e o bem-estar desse grupo.
REFERÊNCIAS
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