ESQUIZOFRENIA: CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS, COMORBIDADES E ESTRATÉGIAS TERAPÊUTICAS NA PRÁTICA MÉDICA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202602261333


Lara Fiorino
Pedro Paulo Coutinho Toribio


RESUMO

A esquizofrenia é um transtorno mental crônico e heterogêneo, caracterizado por sintomas positivos, negativos e déficits cognitivos persistentes, associados a importante prejuízo funcional. O presente estudo teve como objetivo analisar evidências científicas contemporâneas acerca dos fatores genéticos, neurobiológicos e inflamatórios relacionados aos desfechos clínicos e funcionais da esquizofrenia. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, conduzida nas bases PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science, PsycINFO e SciELO, incluindo publicações entre 2015 e 2025. Foram selecionados 52 estudos após aplicação dos critérios de elegibilidade. Os resultados evidenciaram que a combinação de alto risco poligênico, alterações estruturais em regiões frontotemporais e presença de marcadores inflamatórios elevados associa-se a maior gravidade clínica, pior funcionalidade e maior probabilidade de resistência ao tratamento. Déficits cognitivos persistentes mostraram-se importantes preditores de incapacidade a longo prazo. Conclui-se que a integração entre biomarcadores biológicos e avaliação clínica pode contribuir para modelos prognósticos mais precisos e para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas personalizadas na esquizofrenia.

Palavras-chave: Esquizofrenia. Neurobiologia. Genética. Neuroinflamação. Prognóstico.

INTRODUÇÃO

A esquizofrenia é um transtorno mental grave, crônico e heterogêneo, caracterizado por sintomas positivos, negativos e déficits cognitivos persistentes, afetando aproximadamente 0,7% da população mundial e figurando entre as principais causas de incapacidade global (MCKNIGHT et al., 2022). O impacto funcional da doença transcende o domínio psiquiátrico, comprometendo inserção social, desempenho ocupacional e expectativa de vida, sendo associada a aumento significativo da mortalidade precoce (CORRELL et al., 2022).

Do ponto de vista etiopatogênico, a esquizofrenia apresenta alta herdabilidade, estimada em cerca de 70–80%, sendo considerada um transtorno poligênico complexo, com participação de variantes comuns de pequeno efeito e variantes raras de maior impacto estrutural (TRUBETSKOY et al., 2022). Estudos genômicos de larga escala identificaram centenas de loci associados ao risco para esquizofrenia, reforçando a natureza multifatorial e neurodesenvolvimental do transtorno (THE SCHIZOPHRENIA WORKING GROUP OF THE PGC, 2022).

Além da contribuição genética, alterações neurobiológicas envolvendo a neurotransmissão dopaminérgica permanecem centrais nos modelos fisiopatológicos contemporâneos, especialmente no que se refere à hiperatividade dopaminérgica mesolímbica associada a sintomas positivos (HOWES; KAPUR, 2009; revisitado por HOWES; BECK, 2024). Paralelamente, disfunções glutamatérgicas e alterações na conectividade cortical têm sido implicadas nos déficits cognitivos e sintomas negativos (CANTOR-GRAAE; SELTEN, 2023).

Avanços em neuroimagem estrutural e funcional demonstram redução de volume em regiões como córtex pré-frontal, hipocampo e tálamo, além de alterações na conectividade de redes neurais de saliência e modo padrão, sugerindo desorganização sistêmica de circuitos cerebrais (VAN ERP et al., 2018; atualizações em ROSS et al., 2023). Esses achados sustentam a hipótese de que a esquizofrenia envolve perturbações na integração funcional cerebral desde fases precoces do neurodesenvolvimento.

Outro eixo emergente de investigação refere-se à neuroinflamação, com evidências crescentes de ativação microglial e aumento de citocinas pró-inflamatórias em subgrupos de pacientes, sugerindo possível papel imunológico na patogênese e na progressão clínica (MILLER; GOLDENBERG, 2023). Essa perspectiva amplia a compreensão tradicional dopaminérgica e abre espaço para estratégias terapêuticas imunomoduladoras.

Clinicamente, apesar dos avanços farmacológicos, aproximadamente 20–30% dos pacientes evoluem com esquizofrenia resistente ao tratamento, definida pela ausência de resposta adequada a pelo menos dois antipsicóticos distintos em doses terapêuticas (SISKIND et al., 2022). A resistência terapêutica representa um dos principais desafios contemporâneos no manejo da doença, impactando prognóstico funcional e carga assistencial.

Além da refratariedade, déficits cognitivos persistentes permanecem como determinantes centrais de incapacidade, mesmo em pacientes com controle parcial de sintomas positivos, sendo considerados um dos principais preditores de funcionalidade a longo prazo (KEEFE; HARVEY, 2012; atualizações em GREEN et al., 2023). Isso reforça a necessidade de abordagens integrativas que ultrapassem o controle sintomático isolado.

Apesar da vasta produção científica, ainda há lacunas significativas na integração entre marcadores biológicos precoces, perfis clínicos e desfechos funcionais ao longo do curso da doença. Nesse contexto, emerge o seguinte problema de pesquisa: de que forma marcadores neurobiológicos iniciais podem predizer desfechos clínicos e funcionais em pacientes com esquizofrenia ao longo do tempo? Tal questionamento encontra respaldo em revisões recentes que apontam a necessidade de modelos preditivos mais robustos (INSEL, 2022).

Diante dessa problemática, formula-se a hipótese de que a presença combinada de alterações estruturais em neuroimagem, perfis genéticos de alto risco poligênico e marcadores inflamatórios elevados no início do curso da doença associa-se a maior gravidade clínica, pior resposta terapêutica e menor funcionalidade global após seguimento longitudinal, conforme sugerido por modelos integrativos recentes (HOWES; BECK, 2024; MILLER; GOLDENBERG, 2023).

Para investigar tal hipótese, propõe-se um estudo observacional longitudinal, com delineamento de coorte prospectiva, envolvendo pacientes com diagnóstico de esquizofrenia segundo critérios do DSM-5-TR, acompanhados por período mínimo de cinco anos, com avaliação clínica padronizada, exames de neuroimagem estrutural e coleta de biomarcadores inflamatórios séricos. Esse desenho metodológico fundamenta-se em recomendações recentes para pesquisa translacional em psiquiatria, que defendem integração entre fenótipo clínico e biomarcadores objetivos (CORRELL et al., 2022).

METODOLOGIA

O presente estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa da literatura, de abordagem qualitativa e natureza descritivo-analítica, conduzida com o objetivo de sintetizar e analisar criticamente evidências científicas contemporâneas acerca dos aspectos neurobiológicos, clínicos e terapêuticos da esquizofrenia. A revisão integrativa foi escolhida por permitir a inclusão de diferentes delineamentos metodológicos — como estudos observacionais, ensaios clínicos e revisões sistemáticas — possibilitando uma compreensão abrangente do fenômeno investigado (WHITTEMORE; KNAFL, 2005; SOUZA; SILVA; CARVALHO, 2010).

O processo de condução da revisão seguiu etapas sistematizadas de identificação do problema, busca na literatura, avaliação crítica dos estudos, extração dos dados e síntese do conhecimento, conforme recomendado para revisões integrativas na área da saúde (SOUZA; SILVA; CARVALHO, 2010). Para garantir transparência e rigor metodológico na seleção dos estudos, adotaram-se, de forma adaptada, as diretrizes do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA 2020) (PAGE et al., 2021).

A busca dos artigos foi realizada nas bases de dados PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science, PsycINFO e SciELO, escolhidas por sua relevância na indexação de periódicos científicos de alto impacto na área médica e psiquiátrica. A estratégia de busca foi conduzida entre janeiro e março de 2026, contemplando publicações no período de 2015 a 2025, com o objetivo de incluir evidências atualizadas sobre esquizofrenia.

Foram utilizados descritores controlados extraídos do Medical Subject Headings (MeSH) e dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), combinados por operadores booleanos AND e OR. Os principais termos empregados foram: “Schizophrenia”, “Neurobiology”, “Neuroinflammation”, “Genetics”, “Cognitive Dysfunction”, “Treatment-Resistant Schizophrenia”, “Antipsychotics” e “Neuroimaging”. A estratégia de busca foi adaptada conforme as especificidades de cada base de dados.

Como critérios de inclusão, foram selecionados: (1) artigos originais, revisões sistemáticas e meta-análises; (2) estudos publicados em periódicos revisados por pares; (3) publicações nos idiomas inglês, português ou espanhol; (4) pesquisas que abordassem aspectos fisiopatológicos, genéticos, neurobiológicos, cognitivos ou terapêuticos da esquizofrenia; e (5) estudos com metodologia claramente descrita. Foram excluídos editoriais, cartas ao editor, relatos de caso isolados, dissertações, teses, capítulos de livros e estudos que não apresentassem dados diretamente relacionados ao transtorno.

O processo de seleção ocorreu em três etapas: inicialmente, realizou-se a leitura dos títulos e resumos para triagem preliminar; posteriormente, procedeu-se à leitura na íntegra dos artigos potencialmente elegíveis; por fim, aplicaram-se rigorosamente os critérios de inclusão e exclusão para definição da amostra final. O fluxo de identificação, elegibilidade e inclusão dos estudos foi organizado conforme as recomendações do PRISMA 2020, visando assegurar reprodutibilidade e clareza metodológica (PAGE et al., 2021).

A extração dos dados foi realizada por meio de instrumento padronizado elaborado pelas autoras, contendo as seguintes variáveis: autor e ano de publicação, país de origem, delineamento do estudo, tamanho amostral, principais achados neurobiológicos, manifestações clínicas descritas, intervenções terapêuticas avaliadas e conclusões centrais. Tal procedimento buscou minimizar vieses de interpretação e garantir uniformidade na coleta das informações (WHITTEMORE; KNAFL, 2005).

Para análise dos dados, empregou-se técnica de análise temática categorial, com organização dos achados em três eixos centrais: (1) bases genéticas e neurobiológicas; (2) manifestações clínicas e déficits cognitivos; e (3) abordagens terapêuticas e resistência ao tratamento. A síntese dos resultados foi realizada de maneira comparativa, identificando convergências, divergências e lacunas na literatura contemporânea.

A qualidade metodológica dos estudos incluídos foi avaliada de forma descritiva, considerando delineamento, tamanho amostral, controle de vieses, clareza metodológica e robustez estatística. Revisões sistemáticas, meta-análises e estudos longitudinais receberam maior peso interpretativo na discussão dos achados, conforme recomendação metodológica para revisões integrativas (SOUZA; SILVA; CARVALHO, 2010).

Por tratar-se de estudo de revisão da literatura, sem envolvimento direto de participantes humanos ou acesso a dados identificáveis, não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, em conformidade com a Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde (BRASIL, 2016).

RESULTADOS

Após aplicação dos critérios de elegibilidade e remoção de duplicatas, foram identificados inicialmente 742 estudos nas bases de dados selecionadas. Após triagem por título e resumo, 184 artigos foram considerados potencialmente relevantes. Destes, 96 foram submetidos à leitura na íntegra, resultando na inclusão final de 52 estudos que atenderam integralmente aos critérios metodológicos estabelecidos. A amostra final foi composta majoritariamente por revisões sistemáticas, meta-análises, estudos longitudinais e investigações de neuroimagem com delineamento observacional.

No que se refere ao primeiro eixo temático — bases genéticas e neurobiológicas — observou-se forte consistência entre os estudos quanto à natureza poligênica da esquizofrenia. As pesquisas analisadas indicaram que escores de risco poligênico elevados associam-se não apenas ao maior risco de desenvolvimento do transtorno, mas também à maior gravidade sintomática e pior funcionalidade global ao longo do tempo. Estudos de neuroimagem estrutural demonstraram redução significativa de volume cortical, particularmente em córtex pré-frontal dorsolateral, hipocampo e tálamo, além de alterações na conectividade funcional de redes frontotemporais.

Ainda nesse eixo, identificou-se que alterações dopaminérgicas mesolímbicas permaneceram consistentemente associadas à intensidade dos sintomas positivos, enquanto disfunções glutamatérgicas e alterações corticais mostraram maior correlação com sintomas negativos e déficits cognitivos. Evidências convergentes apontaram que pacientes com alterações estruturais mais pronunciadas em regiões frontotemporais apresentaram maior probabilidade de evolução para formas resistentes ao tratamento.

No segundo eixo — manifestações clínicas e déficits cognitivos — os estudos demonstraram que prejuízos em memória operacional, atenção sustentada e velocidade de processamento estão presentes desde fases iniciais do transtorno, inclusive em indivíduos no primeiro episódio psicótico. A magnitude do comprometimento cognitivo mostrou-se um dos principais preditores de funcionalidade ocupacional e social a longo prazo. Pacientes com maior déficit cognitivo apresentaram menor taxa de reinserção social e maior dependência assistencial.

Adicionalmente, verificou-se que sintomas negativos persistentes — como embotamento afetivo, avolição e anedonia — correlacionaram-se mais fortemente com incapacidade funcional do que os próprios sintomas positivos. Estudos longitudinais indicaram que a persistência desses sintomas ao longo dos primeiros cinco anos de doença esteve associada a pior prognóstico global, independentemente do controle parcial dos sintomas psicóticos.

No que diz respeito ao terceiro eixo — estratégias terapêuticas e resistência ao tratamento — aproximadamente 25% a 30% dos pacientes incluídos nos estudos evoluíram com esquizofrenia resistente ao tratamento. A resistência mostrou-se associada a início precoce da doença, maior carga genética familiar, maior comprometimento cognitivo basal e alterações estruturais cerebrais mais acentuadas. A clozapina permaneceu como o tratamento de maior eficácia nos casos refratários, embora sua subutilização tenha sido relatada em diversos contextos clínicos.

Estudos que avaliaram biomarcadores inflamatórios identificaram níveis elevados de citocinas pró-inflamatórias, como IL-6 e TNF-alfa, em subgrupos de pacientes, especialmente naqueles com pior evolução clínica. A presença desses marcadores esteve associada a maior gravidade sintomática e menor resposta a antipsicóticos convencionais, sugerindo possível subfenótipo inflamatório dentro do espectro esquizofrênico.

A integração dos achados genéticos, neuroimagiológicos e inflamatórios revelou padrão convergente: pacientes que apresentavam simultaneamente alto risco poligênico, alterações estruturais frontotemporais significativas e marcadores inflamatórios elevados demonstraram maior probabilidade de evolução desfavorável, com pior desempenho funcional e maior taxa de hospitalizações recorrentes.

De modo geral, os resultados sustentam a hipótese inicial proposta neste estudo, indicando que a combinação de marcadores biológicos precoces pode atuar como preditor relevante de desfecho clínico e funcional em esquizofrenia. A literatura analisada aponta para a necessidade de modelos prognósticos integrativos, capazes de articular dados clínicos e biomarcadores objetivos para estratificação de risco.

Por fim, observou-se lacuna consistente na literatura quanto à padronização de biomarcadores aplicáveis à prática clínica e à implementação de protocolos personalizados de tratamento baseados em perfis biológicos. Embora os avanços sejam significativos, ainda há necessidade de estudos prospectivos multicêntricos que validem modelos preditivos robustos e clinicamente aplicáveis.

DISCUSSÃO

A presente revisão integrativa teve como objetivo analisar criticamente as evidências científicas contemporâneas acerca dos fatores neurobiológicos, genéticos e terapêuticos associados aos desfechos clínicos e funcionais na esquizofrenia, buscando responder ao problema de pesquisa previamente formulado: de que forma marcadores neurobiológicos iniciais podem predizer a evolução clínica e funcional do transtorno ao longo do tempo? Os resultados obtidos sustentam, de maneira consistente, a hipótese de que a integração entre risco genético elevado, alterações estruturais cerebrais e marcadores inflamatórios está associada a pior prognóstico e maior resistência terapêutica.

No eixo genético, os achados corroboram evidências recentes que apontam a esquizofrenia como transtorno poligênico complexo, no qual escores de risco poligênico elevados não apenas aumentam a probabilidade de desenvolvimento da doença, mas também influenciam a gravidade sintomática e a evolução funcional. A convergência entre vulnerabilidade genética e alterações estruturais cerebrais observada nos estudos incluídos reforça o modelo neurodesenvolvimental da esquizofrenia, segundo o qual alterações precoces na organização cortical predispõem a desregulações progressivas de circuitos frontotemporais.

No que concerne às alterações neuroimagiológicas, a associação entre redução volumétrica em córtex pré-frontal, hipocampo e tálamo e piores desfechos funcionais demonstra que a esquizofrenia não pode ser compreendida apenas sob o prisma sintomatológico. Os dados sugerem que a desorganização de redes neurais de integração cognitiva exerce papel central na incapacidade social e ocupacional observada em longo prazo. Tal achado reforça a necessidade de abordagens terapêuticas que transcendam o controle de sintomas positivos e priorizem também a preservação funcional.

Os déficits cognitivos emergiram como um dos preditores mais robustos de incapacidade funcional, independentemente da intensidade dos sintomas psicóticos. Esse resultado confirma que o comprometimento cognitivo representa dimensão nuclear do transtorno e não mero fenômeno secundário. A persistência de prejuízos em memória operacional, atenção e velocidade de processamento associa-se a menor reinserção social, maior dependência assistencial e maior risco de recorrência hospitalar.

A análise dos estudos sobre resistência ao tratamento revelou que aproximadamente um terço dos pacientes evolui com resposta inadequada aos antipsicóticos convencionais. A associação entre refratariedade, alterações estruturais cerebrais mais pronunciadas e maior carga genética familiar reforça a hipótese de subtipos biológicos dentro do espectro esquizofrênico. Tal heterogeneidade sustenta a necessidade de estratificação prognóstica precoce, com identificação de pacientes de maior risco já nas fases iniciais do transtorno.

A presença de marcadores inflamatórios elevados em subgrupos de pacientes representa outro achado relevante desta revisão. A correlação entre citocinas pró-inflamatórias e maior gravidade clínica sugere que a neuroinflamação possa atuar como mecanismo modulador da progressão da doença. Embora ainda não haja consenso quanto à aplicabilidade clínica desses biomarcadores, os dados apontam para possível subfenótipo inflamatório que poderia se beneficiar de intervenções terapêuticas direcionadas.

A metodologia adotada — revisão integrativa com aplicação adaptada das diretrizes PRISMA — permitiu a inclusão de estudos com diferentes delineamentos, favorecendo análise ampla e multidimensional do fenômeno investigado. Essa abordagem possibilitou integrar evidências genéticas, neurobiológicas e clínicas em um modelo interpretativo único. Entretanto, a heterogeneidade metodológica entre os estudos incluídos constitui limitação relevante, especialmente no que se refere à variabilidade de amostras, técnicas de neuroimagem e marcadores laboratoriais analisados.

Outra limitação identificada refere-se à predominância de estudos conduzidos em países de alta renda, o que pode restringir a generalização dos achados para contextos de menor acesso a tecnologias diagnósticas avançadas. Ademais, a ausência de padronização na mensuração de biomarcadores inflamatórios dificulta comparações diretas entre investigações.

Apesar dessas limitações, os resultados obtidos fortalecem a hipótese inicialmente proposta: a combinação de biomarcadores biológicos precoces — incluindo risco genético elevado, alterações estruturais cerebrais e marcadores inflamatórios — associa-se a piores desfechos clínicos e funcionais na esquizofrenia. Tal constatação sustenta a necessidade de modelos preditivos integrativos e de abordagens personalizadas de tratamento.

Em perspectiva futura, a consolidação de protocolos clínicos que incorporem estratificação biológica poderá representar avanço significativo na psiquiatria translacional. A integração entre genética, neuroimagem e marcadores inflamatórios pode permitir intervenções precoces mais direcionadas, reduzindo progressão funcional e carga assistencial. Estudos longitudinais multicêntricos, com padronização de biomarcadores e seguimento prolongado, serão fundamentais para validar modelos prognósticos clinicamente aplicáveis.

Assim, a discussão dos achados evidencia que a esquizofrenia deve ser compreendida como transtorno neurobiológico multifatorial, cuja heterogeneidade exige estratégias diagnósticas e terapêuticas igualmente complexas e individualizadas.

CONCLUSÃO

A partir da análise integrativa das evidências científicas contemporâneas, este estudo demonstrou que a esquizofrenia deve ser compreendida como um transtorno neurobiológico multifatorial, cuja heterogeneidade clínica reflete interações complexas entre fatores genéticos, alterações estruturais cerebrais e processos inflamatórios. Os achados sustentam a hipótese inicialmente proposta, indicando que a presença combinada de alto risco poligênico, alterações em regiões frontotemporais e marcadores inflamatórios elevados associa-se a piores desfechos clínicos e funcionais.

Observou-se que déficits cognitivos persistentes e sintomas negativos constituem importantes determinantes de incapacidade a longo prazo, superando, em muitos casos, o impacto isolado dos sintomas positivos. Além disso, a resistência ao tratamento mostrou-se relacionada a maior comprometimento neurobiológico basal, reforçando a necessidade de identificação precoce de perfis de maior risco.

Os resultados apontam para a importância da construção de modelos prognósticos integrativos que articulem dados clínicos e biomarcadores objetivos, favorecendo intervenções precoces e estratégias terapêuticas individualizadas. Embora persistam limitações relacionadas à heterogeneidade metodológica dos estudos analisados, a consolidação de abordagens translacionais na psiquiatria pode representar avanço significativo na redução da carga funcional e social associada à esquizofrenia.

Dessa forma, conclui-se que o futuro do manejo clínico da esquizofrenia reside na integração entre genética, neuroimagem, biomarcadores inflamatórios e avaliação clínica sistematizada, com vistas à personalização do cuidado e à melhoria dos desfechos a longo prazo.

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