ENXERTO DE TECIDO CONJUNTIVO NO TRATAMENTO DE RECESSÕES GENGIVAIS RT2 SEGUNDO A CLASSIFICAÇÃO DE CAIRO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202510311947


Rosana Rodrigues Arruda1
Tácia Mariana Zahn de Souza2


RESUMO

A retração gengival representa um desafio clínico frequente na periodontia, impactando não apenas a estética, mas também a saúde bucal e o bem-estar do paciente. Dentre as classificações existentes, a proposta de Cairo trouxe maior precisão diagnóstica, sendo a recessão RT2 equivalente à Classe II de Miller, caracterizada pela perda de inserção interproximal que não ultrapassa a retração vestibular. Nesse contexto, o enxerto de tecido conjuntivo subepitelial tem se destacado como uma técnica preditiva para o recobrimento radicular, especialmente em casos de alta exigência estética. Este estudo tem como objetivo analisar a aplicabilidade e eficácia do enxerto de tecido conjuntivo no tratamento de recessões gengivais RT2, considerando parâmetros clínicos como porcentagem de recobrimento radicular, ganho de tecido queratinizado e satisfação estética dos pacientes. Para tanto, adota-se uma metodologia de revisão bibliográfica qualitativa, fundamentada em estudos nacionais e internacionais publicados nos últimos cinco anos. Os resultados encontrados na literatura indicam que o enxerto de tecido conjuntivo apresenta taxas elevadas de sucesso, sobretudo quando associado a técnicas como retalho avançado coronal e método de túnel, promovendo estabilidade a longo prazo. Além disso, fatores como biotipo gengival, profundidade da recessão e controle de fatores etiológicos influenciam diretamente o prognóstico. Conclui-se que o enxerto de tecido conjuntivo representa a técnica de eleição para o manejo de recessões gengivais RT2, consolidando-se como abordagem eficaz e biologicamente estável para o restabelecimento funcional e estético.

Palavras-chave: Enxerto de tecido conjuntivo. Recessão gengival RT2. Classificação de Cairo. Recobrimento radicular. Periodontia.

ABSTRACT

Gingival recession is a frequent clinical challenge in periodontics, affecting not only esthetics but also oral health and patient well-being. Among the existing classifications, Cairo’s proposal provided greater diagnostic accuracy, with RT2 recession being equivalent to Miller Class II, characterized by interproximal attachment loss that does not exceed the buccal recession. In this context, the subepithelial connective tissue graft has stood out as a predictive technique for root coverage, especially in cases with high esthetic demand. This study aims to analyze the applicability and effectiveness of connective tissue grafting in the treatment of RT2 gingival recessions, considering clinical parameters such as percentage of root coverage, keratinized tissue gain, and patient esthetic satisfaction. The methodology adopted is a qualitative literature review, based on national and international studies published in the last five years. The findings in the literature indicate that connective tissue grafting shows high success rates, particularly when associated with techniques such as the coronally advanced flap and the tunnel approach, promoting long-term stability. In addition, factors such as gingival biotype, recession depth, and control of etiological factors directly influence prognosis. It is concluded that the connective tissue graft represents the technique of choice for the management of RT2 gingival recessions, consolidating itself as an effective and biologically stable approach for functional and esthetic rehabilitation.

Keywords: Connective tissue graft. RT2 gingival recession. Cairo classification. Root coverage. Periodontics.

1 INTRODUÇÃO

A retração gengival é uma condição clínica de grande relevância na periodontia, caracterizada pelo deslocamento apical da margem gengival que resulta na exposição radicular, comprometendo tanto a estética quanto a função mastigatória (Válerio; Souza; Feitosa, 2023).

Entre os fatores anatômicos que favorecem a ocorrência da retração estão a presença de uma cortical óssea fina, inserções anômalas de freios e bridas, dentes mal posicionados, deiscências e fenestrações ósseas, além da ausência de tecido queratinizado.

Já os fatores desencadeantes incluem a invasão do espaço biológico, tabagismo, coroas protéticas mal ajustadas, escovação excessivamente agressiva e movimentações ortodônticas fora dos padrões adequados ou associadas a biotipos gengivais delicados.

A retração gengival também pode ser causada por escovação inadequada, doenças periodontais, sobrecarga oclusal e anomalias anatômicas. A presença de retração gengival não apenas afeta o conforto e a função mastigatória dos pacientes, mas também tem implicações estéticas e psicológicas, influenciando a qualidade de vida dele (Mizaraji; Mei; Amador, 2023).

Diante da necessidade de diagnósticos mais precisos, a classificação proposta por Cairo, em 2011, trouxe avanços importantes ao dividir as recessões em RT1, RT2 e RT3. O presente estudo delimita-se à análise das recessões RT2, equivalentes à Classe II de Miller, nas quais há perda de inserção interproximal que não ultrapassa a recessão vestibular.

Embora o enxerto de tecido conjuntivo subepitelial seja amplamente utilizado como técnica cirúrgica de escolha para o recobrimento radicular, ainda permanecem dúvidas quanto à sua eficácia em casos específicos de recessão RT2. Surge, assim, a questão central desta pesquisa: qual a efetividade do enxerto de tecido conjuntivo no tratamento de recessões gengivais RT2, segundo a classificação de Cairo? Parte-se da hipótese de que essa técnica apresenta melhores resultados em comparação a outras abordagens cirúrgicas, promovendo maior previsibilidade no recobrimento radicular, ganho de tecido queratinizado e melhor estética a longo prazo.

Com esse propósito, este trabalho tem como objetivo principal avaliar a eficácia do enxerto de tecido conjuntivo no tratamento de recessões gengivais RT2, investigando sua aplicabilidade clínica e discutindo fatores que influenciam o prognóstico. Pretende-se ainda comparar os resultados obtidos com outras técnicas de recobrimento radicular, identificar aspectos biológicos e técnicos que interferem no sucesso do tratamento e analisar a relevância dessa conduta terapêutica para a prática periodontal.

O desenvolvimento da pesquisa está organizado em quatro momentos. Inicialmente, será apresentada a contextualização teórica sobre retração gengival e a classificação de Cairo. Em seguida, serão discutidos os fundamentos clínicos do enxerto de tecido conjuntivo, com base em evidências disponíveis na literatura. A terceira parte aborda a metodologia empregada, enquanto o último capítulo será dedicado à análise dos resultados encontrados, relacionando-os com a prática clínica e com as perspectivas futuras para a periodontia.

Assim, espera-se que esta investigação contribua não apenas para a consolidação do conhecimento científico sobre o tema, mas também para subsidiar decisões clínicas mais seguras e eficazes no manejo das recessões gengivais RT2, reforçando a importância do enxerto de tecido conjuntivo como uma técnica de excelência em periodontia.

2 METODOLOGIA

Metodologicamente, esta pesquisa adota uma abordagem qualitativa, exploratória e descritiva, fundamentada no método hipotético-dedutivo, partindo da hipótese de que o enxerto de tecido conjuntivo representa uma técnica eficaz e previsível no tratamento das recessões gengivais classificadas como RT2, conforme a classificação proposta por Cairo (2011).

O estudo será desenvolvido por meio de pesquisa bibliográfica e documental, com levantamento de produções científicas disponíveis nas bases de dados SciELO, PubMed e Portal de Periódicos da CAPES, considerando publicações em língua portuguesa e língua inglesa, sem restrição geográfica. A busca abrangerá o período de 2010 a 2025, de modo a contemplar as publicações mais recentes e relevantes sobre o tema, garantindo a atualidade e o rigor científico da análise.

Para a estratégia de busca, serão utilizados descritores controlados e não controlados, combinados por meio dos operadores booleanos “E” e “OU”. Os principais descritores utilizados serão: enxerto de tecido conjuntivo, recessão gengival, classificação de Cairo, cirurgia plástica periodontal, recobrimento radicular e recessão gengival RT2. Um exemplo da expressão utilizada na busca será: (“enxerto de tecido conjuntivo” E “recessão gengival” E “classificação de Cairo”).

Os critérios de inclusão compreenderão artigos originais, revisões sistemáticas e estudos clínicos controlados que abordem o uso do enxerto de tecido conjuntivo no tratamento das recessões gengivais RT2, com informações metodológicas claras e resultados relevantes à prática odontológica. Serão incluídos estudos publicados entre 2010 e 2025, redigidos em português ou inglês, e disponíveis na íntegra nas bases de dados selecionadas.

Serão excluídos trabalhos que tratem de outras classificações de recessões gengivais (como Miller ou RT1/RT3), publicações duplicadas entre bases, estudos sem acesso ao texto completo, artigos de opinião, relatos de caso isolados e materiais sem embasamento científico.

Após a seleção, os artigos serão organizados conforme a relevância, ano de publicação, objetivos, metodologia e resultados apresentados. A análise será descritiva e interpretativa, buscando identificar convergências e divergências entre os estudos no que diz respeito à previsibilidade estética, estabilidade tecidual e taxa de sucesso do enxerto de tecido conjuntivo nas recessões gengivais RT2.

Dessa forma, a metodologia empregada busca garantir transparência, reprodutibilidade e validade científica, proporcionando uma base sólida para a discussão e para a construção de um panorama atualizado sobre a eficácia do enxerto de tecido conjuntivo conforme a classificação de Cairo.

3 CLASSIFICAÇÃO DE CAIRO E SUA RELEVÂNCIA CLÍNICA NAS RECESSÕES GENGIVAIS RT2

A retração gengival é uma condição clínica prevalente na prática odontológica, caracterizada pelo deslocamento apical da margem gengival em relação à junção cemento-esmalte, resultando na exposição radicular. Tal condição compromete não apenas a estética, mas também a saúde periodontal e o conforto funcional do paciente.

O diagnóstico correto e a classificação adequada da retração são fundamentais para orientar o tratamento, estabelecer prognósticos mais precisos e definir condutas terapêuticas baseadas em evidências.

Durante muitos anos, a classificação mais utilizada foi a de Miller, proposta em 1985, que se tornou um padrão de referência internacional para o enquadramento dos diferentes tipos de recessão gengival (Langer; Langer, 2020). Essa classificação, embora útil, apresentava limitações, especialmente quanto à diferenciação dos níveis de inserção interproximal. Com o avanço dos estudos em periodontia, surgiu a necessidade de uma classificação mais criteriosa, capaz de abranger de forma clara os aspectos clínicos relevantes que influenciam no prognóstico do tratamento cirúrgico.

Foi nesse contexto que Cairo (2011) propôs uma nova sistemática, denominada Classificação de Cairo, que subdivide as recessões gengivais em três categorias: RT1, RT2 e RT3. Essa proposta baseia-se na relação entre a recessão gengival e a perda de inserção interproximal, oferecendo um critério clínico mais objetivo para determinar a previsibilidade de recobrimento radicular.

De acordo com Cairo, as recessões RT1 são aquelas em que não há perda de inserção interproximal, sendo o defeito limitado à superfície vestibular. Já nas recessões RT2, ocorre perda de inserção interproximal, mas esta não excede a recessão presente na face vestibular. Por fim, nas RT3, a perda interproximal é maior que a vestibular, o que torna o prognóstico de recobrimento mais reservado (Pini Prato et al., 2020).

A importância dessa classificação reside no fato de que ela permite ao clínico avaliar de forma mais precisa a possibilidade de sucesso dos procedimentos cirúrgicos de recobrimento radicular, em especial o enxerto de tecido conjuntivo subepitelial, considerado padrão-ouro no tratamento de recessões múltiplas e unitárias (Borgetti; Monnet-Corti, 2011).

No caso específico das recessões RT2, objeto central deste capítulo, a perda interproximal representa um desafio adicional ao tratamento. Isso porque, diferentemente das RT1, onde a previsibilidade de cobertura completa é alta, nas RT2 o prognóstico depende da proporção entre a recessão vestibular e a inserção interproximal preservada. Mesmo diante dessa limitação, estudos apontam que o enxerto de tecido conjuntivo apresenta taxas de sucesso elevadas, desde que os fatores locais e sistêmicos sejam cuidadosamente avaliados (Mizraji; Mei; Amador, 2023).

Diversos autores reforçam que a adoção da classificação de Cairo trouxe ganhos significativos para a periodontia. Martins et al. (2023) destacam que o enquadramento de recessões em RT2 permite selecionar casos com maior precisão, reduzindo expectativas irreais e aumentando a previsibilidade dos resultados. Essa sistemática também contribui para padronizar estudos clínicos, facilitando a comparação de técnicas cirúrgicas e a reprodutibilidade científica.

Do ponto de vista epidemiológico, recessões gengivais RT2 são frequentemente associadas a fatores etiológicos como biotipo gengival fino, posicionamento dental desfavorável, inserções musculares ou de freios, além de trauma de escovação (Araújo, 2021). A identificação correta desses fatores é essencial para o planejamento do tratamento, visto que a etiologia influencia diretamente na escolha da técnica cirúrgica mais adequada e no prognóstico do recobrimento.

Os avanços nas técnicas periodontais também reforçam a relevância da classificação de Cairo. A literatura demonstra que procedimentos como o retalho avançado coronal associado ao enxerto de tecido conjuntivo apresentam resultados estáveis para RT2, com taxas de recobrimento que podem ultrapassar 80% em longo prazo (Chambrone; Tatakis, 2015). Ainda, a técnica de túnel, descrita por Zabalegui et al. (2024), associada ao enxerto conjuntivo, mostrou-se eficaz no tratamento de múltiplas recessões RT2, proporcionando cicatrização previsível e excelente estética.

Além disso, a previsibilidade do tratamento em RT2 está ligada a fatores como o biotipo gengival, a espessura do tecido doador e a estabilidade do retalho (Gaikwad; Patil; Patil, 2023). Lima (2018) reforça que a seleção adequada de casos é um dos principais determinantes do sucesso, especialmente quando o objetivo é alcançar não apenas a cobertura radicular, mas também o aumento da faixa de tecido queratinizado. Comparações entre diferentes abordagens cirúrgicas demonstram a superioridade do enxerto conjuntivo em relação a materiais alternativos. Suzuki (2018) observou que, em retrações do tipo 1, a matriz colágena suína apresentou resultados clínicos satisfatórios, porém inferiores em estabilidade a longo prazo quando comparados ao enxerto autógeno. Esse dado reforça a aplicabilidade clínica do enxerto conjuntivo também em RT2, consolidando-o como técnica de eleição.

A relevância da classificação de Cairo se amplia ainda mais quando se considera o impacto estético das recessões gengivais. Gomes et al. (2021) destacam que o recobrimento radicular em RT2 não se restringe ao ganho funcional, mas também proporciona melhorias na autoestima e na qualidade de vida dos pacientes. Isso se deve ao restabelecimento da harmonia gengival e da proteção radicular, fatores valorizados tanto clinicamente quanto pelo paciente.

Outro aspecto relevante é a associação de enxertos de tecido conjuntivo a biomateriais, como agregados plaquetários. Elkashty et al. (2022) compararam a eficácia do enxerto conjuntivo ao plasma rico em fibrina (PRF) em recessões de Miller I e II, equivalentes às RT1 e RT2 de Cairo. Embora o PRF tenha apresentado benefícios na cicatrização e no conforto pós-operatório, o enxerto conjuntivo demonstrou maior previsibilidade no recobrimento radicular, confirmando sua superioridade clínica.

Estudos mais recentes reforçam essa conclusão. Jagtap et al. (2023) verificaram que a associação de retalho avançado coronal com PRF resulta em ganhos significativos, mas ainda aquém dos obtidos com o enxerto conjuntivo. De forma semelhante, Miron; Yüce; Chrzanowska (2022) observaram que o uso de fibrina avançada (A-PRF) pode potencializar os resultados, porém não substitui o enxerto autógeno como técnica padrão.

A introdução da classificação de Cairo também trouxe benefícios para o ensino e a pesquisa em periodontia. Gil (2008) observa que categorizações claras e objetivas favorecem a construção de estudos mais robustos, permitindo análises comparativas entre técnicas e estabelecendo níveis de evidência mais consistentes. Essa padronização, ao ser aplicada em ensaios clínicos randomizados e revisões sistemáticas, fortalece a base científica da periodontia contemporânea.

Vale destacar, ainda, a aplicabilidade clínica da classificação em casos complexos. Zuhr; Baumer; Hurzeler (2024) apontam que, em procedimentos peri- implantares, a distinção entre RT2 e RT3 auxilia na escolha da técnica cirúrgica, especialmente quando há necessidade de aumento de volume gengival. Dessa forma, a classificação de Cairo ultrapassa o âmbito das recessões isoladas e contribui também para o manejo de tecidos moles em implantodontia.

A prática clínica demonstra que, apesar dos avanços técnicos, o sucesso em recessões RT2 depende da integração entre diagnóstico preciso, seleção criteriosa do caso e habilidade cirúrgica. Valério; Souza; Feitosa (2023) ressaltam que o tratamento interdisciplinar pode potencializar os resultados, sobretudo em situações associadas a fatores ortodônticos e funcionais. Essa abordagem multidisciplinar garante não apenas o recobrimento, mas a manutenção da estabilidade periodontal.

Portanto, a classificação de Cairo representa um marco na periodontia moderna. Ao propor critérios diagnósticos mais objetivos, permitiu avanços significativos no planejamento terapêutico, sobretudo em recessões RT2, nas quais o prognóstico é desafiador, mas ainda favorável com técnicas bem conduzidas. A literatura evidencia que o enxerto de tecido conjuntivo subepitelial continua sendo a técnica de eleição, por sua previsibilidade, estabilidade a longo prazo e benefícios estéticos superiores.

Em síntese, pode-se afirmar que a relevância clínica da classificação de Cairo está em sua capacidade de orientar decisões mais seguras, estabelecer expectativas realistas e consolidar a prática clínica baseada em evidências. A categorização das recessões RT2 não apenas auxilia na escolha da técnica mais adequada, mas também fortalece a integração entre ciência e prática, garantindo ao paciente resultados funcionais e estéticos de excelência.

3.1 Aplicabilidade do enxerto de tecido conjuntivo em recessões gengivais rt2

O enxerto de tecido conjuntivo subepitelial é amplamente reconhecido como a técnica de eleição no tratamento das recessões gengivais, inclusive nos casos classificados como RT2 de acordo com a classificação de Cairo. A relevância desse procedimento deve-se tanto à sua previsibilidade em termos de recobrimento radicular quanto à sua capacidade de promover aumento da espessura tecidual e estabilidade estética a longo prazo (Borgetti; Monnet-Corti, 2011). A literatura aponta que, embora as recessões RT2 apresentem um grau de complexidade maior em comparação às RT1, os enxertos conjuntivos, quando bem indicados e corretamente executados, podem oferecer resultados altamente satisfatórios (Chambrone; Tatakis, 2015).

Diversos estudos clínicos corroboram essa afirmação. Gomes et al. (2021) relataram que o enxerto de tecido conjuntivo, associado ao retalho deslocado coronalmente, é capaz de proporcionar recobrimento radicular previsível e ganho de tecido queratinizado, mesmo em situações de perda interproximal características das recessões RT2. De modo semelhante, Mizraji; Mei; Amador (2023) evidenciaram que a aplicação de enxertos conjuntivos nesses casos garante maior estabilidade biológica em longo prazo, reforçando seu papel como padrão-ouro em periodontia estética.

Uma das vantagens do enxerto conjuntivo é a possibilidade de aumentar a espessura gengival, tornando-a menos suscetível a retrações futuras. Essa característica é particularmente importante em pacientes com biotipo fino, nos quais a probabilidade de recidiva após a cirurgia é elevada (Araújo, 2021). Ao favorecer o ganho de volume tecidual, o enxerto de tecido conjuntivo cria condições mais estáveis para a manutenção dos resultados (Lima, 2018). Essa função protetora foi confirmada por estudos como os de Martins et al. (2023), que observaram maior previsibilidade no recobrimento radicular quando o enxerto é empregado, especialmente em regiões anteriores de alta demanda estética.

No contexto das recessões RT2, o uso do enxerto conjuntivo está frequentemente associado a técnicas cirúrgicas como o retalho avançado coronal ou a técnica de túnel. Zabalegui et al. (2024) demonstraram que a combinação da técnica de túnel com enxerto conjuntivo proporciona resultados altamente satisfatórios em termos de cobertura radicular e integração estética. Gaikwad; Patil; Patil (2023) também relataram que a aplicação do enxerto em conjunto com retalho coronariamente deslocado resulta em maior estabilidade do retalho e em taxas elevadas de sucesso clínico.

Outro ponto importante é a comparação do enxerto conjuntivo com biomateriais substitutivos. Suzuki (2018), ao comparar enxerto autógeno com matriz colágena suína, verificou que, embora a matriz proporcione conforto pós-operatório e menor morbidade, a estabilidade a longo prazo continua sendo superior com o uso do tecido conjuntivo. Elkashty et al. (2022), em um estudo clínico randomizado, reforçaram essa conclusão ao demonstrar que o enxerto conjuntivo apresenta maiores taxas de recobrimento em recessões Miller I e II, equivalentes às RT1 e RT2 de Cairo, quando comparado ao uso de plasma rico em fibrina. Resultados semelhantes foram descritos por Jagtap et al. (2023), que observaram melhor desempenho do enxerto em relação à utilização isolada de PRF.

A aplicabilidade clínica do enxerto conjuntivo também deve ser analisada sob a ótica da satisfação do paciente. Gomes et al. (2021) ressaltam que os ganhos estéticos e funcionais obtidos com o recobrimento radicular influenciam diretamente na autoestima e na qualidade de vida. Isso reforça a necessidade de considerar não apenas a previsibilidade clínica, mas também a percepção subjetiva do paciente em relação aos resultados. Nesse sentido, o enxerto de tecido conjuntivo consolida-se como uma opção que alia resultados cientificamente comprovados a elevados índices de satisfação.

Dessa forma, a aplicabilidade do enxerto de tecido conjuntivo em recessões RT2 é amplamente respaldada por evidências clínicas e científicas. Sua capacidade de promover recobrimento radicular previsível, ganho de tecido queratinizado e estabilidade estética em longo prazo o torna a técnica de referência no manejo dessas condições. Apesar do avanço de biomateriais e técnicas alternativas, a literatura é consistente em demonstrar que o enxerto conjuntivo permanece insubstituível na periodontia contemporânea, sobretudo nos casos classificados como RT2 segundo Cairo.

4 FATORES QUE INFLUENCIAM O SUCESSO DO TRATAMENTO EM RECESSÕES RT2

A necessidade de um sistema de classificação preciso para as recessões gengivais motivou o desenvolvimento da proposta de Cairo (2011), que passou a ser amplamente utilizada na prática clínica. Essa classificação trouxe maior objetividade diagnóstica ao considerar a perda de inserção interproximal em relação à retração vestibular, permitindo estabelecer prognósticos mais adequados e selecionar a técnica cirúrgica mais indicada. Diferente da classificação de Miller, que embora tenha sido referência por décadas, apresentava limitações na diferenciação dos níveis de inserção, a de Cairo possibilita uma avaliação mais criteriosa, especialmente nos casos em que há comprometimento interproximal.

Figura 01 – Classificação de Cairo, Classificação RT1, RT2 e RT3

Fonte: Ferreira (2022)

Conforme ilustrado na figura, as recessões são divididas em três categorias principais: RT1, em que não há perda de inserção interproximal, restrita apenas à superfície vestibular; RT2, onde a perda interproximal está presente, mas não excede a recessão vestibular; e RT3, caracterizada por uma perda interproximal mais severa do que a vestibular, com prognóstico mais reservado para o recobrimento radicular.

Essa diferenciação é fundamental, pois permite que o cirurgião-dentista selecione com maior precisão as técnicas cirúrgicas mais adequadas. Além disso, ao orientar expectativas realistas sobre o resultado estético e funcional, a classificação de Cairo reforça sua relevância tanto para o planejamento clínico quanto para a pesquisa em periodontia.

O tratamento das recessões gengivais classificadas como RT2, de acordo com a classificação de Cairo, representa um dos maiores desafios da periodontia contemporânea. Ao contrário das recessões RT1, em que não há perda de inserção interproximal e a previsibilidade de recobrimento radicular é elevada, as RT2 apresentam a complexidade adicional de já haver comprometimento nos tecidos de suporte vizinhos, o que impacta diretamente os resultados clínicos. Nesse sentido, compreender os fatores que influenciam o sucesso terapêutico é essencial para a prática clínica baseada em evidências (Pini Prato et al., 2020).

O primeiro fator a ser destacado diz respeito ao biotipo gengival e às características periodontais do tecido. Pacientes que apresentam biotipo gengival espesso, com maior volume de tecido queratinizado, possuem prognóstico mais favorável, já que a espessura adicional favorece a vascularização, melhora a estabilidade do retalho e reduz o risco de retrações pós-operatórias (Araújo, 2021).

Em contrapartida, indivíduos com biotipo fino apresentam maior suscetibilidade a recidivas, sendo recomendada a utilização do enxerto de tecido conjuntivo autógeno como forma de aumentar a espessura gengival e garantir melhor estabilidade a longo prazo (Lima, 2018). Estudos clínicos recentes reforçam que o enxerto conjuntivo, além de favorecer o ganho de espessura, também contribui para resultados estéticos mais previsíveis, especialmente em áreas de alta demanda estética (Mizraji; Mei; Amador, 2023).

Outro fator relevante é o controle etiológico e os hábitos do paciente. A recessão gengival RT2 pode estar associada a escovação traumática, acúmulo de biofilme, forças oclusais traumáticas ou movimentações ortodônticas inadequadas (Araújo, 2021). Se esses fatores não forem corrigidos antes da cirurgia, os resultados do tratamento tendem a ser comprometidos.

Chambrone e Tatakis (2015) destacam que pacientes com baixo índice de biofilme apresentam melhores índices de recobrimento radicular, o que evidencia a importância da higiene oral como fator determinante. Além disso, o controle de hábitos como bruxismo e má oclusão é fundamental para evitar microtraumas que possam prejudicar a cicatrização (Valério; Souza; Feitosa, 2023). Dessa forma, a educação do paciente e a eliminação de fatores traumáticos constituem etapas inseparáveis do tratamento cirúrgico.

O terceiro fator que exerce influência direta sobre o sucesso do tratamento é a técnica cirúrgica empregada, aliada à experiência do profissional. Procedimentos como o retalho avançado coronal associado ao enxerto de tecido conjuntivo são descritos como padrão-ouro no tratamento de recessões RT2 (Borgetti; Monnet-Corti, 2011).

Essa técnica, quando corretamente executada, apresenta elevada previsibilidade de resultados, desde que a estabilidade do retalho e a integridade vascular sejam preservadas (Gaikwad; Patil; Patil, 2023). Zabalegui et al. (2024) demonstraram que a técnica de túnel, quando associada a enxerto conjuntivo, resulta em cicatrização estética e previsível, reforçando a necessidade de selecionar abordagens cirúrgicas que considerem tanto a anatomia local quanto as expectativas estéticas do paciente.

Ainda em relação às técnicas, Suzuki (2018) comparou o uso de matriz colágena suína ao enxerto conjuntivo em retrações tipo 1 e observou que, embora a matriz apresente benefícios no pós-operatório, a estabilidade a longo prazo é maior com o enxerto autógeno. Essa constatação reforça a superioridade do enxerto conjuntivo também em RT2, consolidando sua posição como técnica de eleição.

Resultados semelhantes foram descritos por Jagtap et al. (2023), que verificaram ganhos satisfatórios com o uso de plasma rico em fibrina, mas ainda inferiores quando comparados ao enxerto autógeno. Miron; Yüce; Chrzanowska (2022) acrescentam que biomateriais podem potencializar o processo de cicatrização, mas não substituem a previsibilidade conferida pelo enxerto de tecido conjuntivo.

Além dos fatores anatômicos, etiológicos e técnicos, é fundamental considerar a manutenção do paciente no pós-operatório. Gomes et al. (2021) ressaltam que o impacto estético e funcional do recobrimento radicular influencia diretamente a autoestima, tornando a adesão ao acompanhamento clínico determinante para a longevidade do tratamento.

A ausência de controle periódico aumenta o risco de recidivas, mesmo em casos de cirurgia tecnicamente bem-sucedida. Martins et al. (2023) complementam que a seleção adequada de casos é crucial para evitar expectativas irreais, sobretudo em RT2, onde a perda interproximal limita o potencial de recobrimento completo.

Zuhr; Baumer; Hurzeler (2024) destacam que a classificação de Cairo também auxilia em procedimentos mais complexos, como em áreas peri-implantares, uma vez que a distinção entre RT2 e RT3 orienta o planejamento cirúrgico e a escolha de técnicas que favoreçam o aumento de volume tecidual. Esse aspecto reforça que o sucesso do tratamento vai além da simples execução cirúrgica, sendo resultado da integração entre diagnóstico preciso, abordagem etiológica e seleção técnica criteriosa.

Portanto, o sucesso do tratamento de recessões gengivais RT2 depende da soma de fatores que envolvem a biologia do tecido periodontal, a colaboração do paciente e a competência técnica do cirurgião. Quando conduzidos de forma integrada, esses elementos garantem resultados mais estáveis, tanto do ponto de vista funcional quanto estético. A literatura contemporânea confirma que o enxerto de tecido conjuntivo subepitelial permanece como a técnica de maior previsibilidade, consolidando-se como referência para a prática clínica periodontal moderna.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo permitiu analisar, à luz da literatura científica, a aplicabilidade do enxerto de tecido conjuntivo subepitelial no tratamento das recessões gengivais RT2, segundo a classificação de Cairo. Observou-se que essa técnica continua sendo considerada o padrão-ouro em periodontia, apresentando resultados previsíveis, estáveis e com elevada taxa de sucesso clínico, especialmente quando associada a procedimentos como o retalho avançado coronal ou a técnica de túnel.

Fatores como o biotipo gengival, a profundidade da recessão, a presença de inserção interproximal preservada e o controle dos agentes etiológicos mostraram-se determinantes para o prognóstico, confirmando que a seleção criteriosa do caso é essencial para alcançar bons resultados. Além disso, ficou evidente que, embora biomateriais alternativos como colágenos ou agregados plaquetários possam auxiliar no processo de cicatrização e reduzir a morbidade, eles ainda não superam a previsibilidade do enxerto autógeno.

Do ponto de vista clínico, a técnica não apenas promove o recobrimento radicular, mas também contribui para o aumento da faixa de tecido queratinizado e para a melhoria da estética gengival, aspectos que impactam diretamente na autoestima e na qualidade de vida dos pacientes. Assim, o enxerto de tecido conjuntivo consolida-se como a principal alternativa terapêutica para as recessões gengivais RT2, garantindo benefícios funcionais e estéticos a longo prazo.

Por fim, ressalta-se a importância da integração entre diagnóstico preciso, planejamento individualizado, habilidade técnica e acompanhamento contínuo do paciente como pilares fundamentais para o sucesso do tratamento. Dessa forma, a prática clínica alicerçada em evidências fortalece a periodontia contemporânea e assegura condutas seguras, eficazes e biologicamente estáveis.

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1 Acadêmica de odontologia. Artigo apresentado à Faculdade Fimca de Porto Velho como requisito para obtenção título de bacharel em odontologia. E-mail: rosanawise@gmail.com
2 Professora orientadora. Especialista Ortodontia. Especialista Harmonização e atualização em cirurgia oral menor e pós em metodologia do ensino superior. E-mail: tacia_mariana@hotmail.com

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