ENVELHECIMENTO POPULACIONAL E OS DESAFIOS PARA AS POLÌTICAS PÚBLICAS DE SAÚDE DE ATENÇÃO A PESSOA IDOSA

POPULATION AGING AND THE CHALLENGES FOR PUBLIC HEALTH POLICIES FOCUSED ON THE CARE OF THE ELDERLY

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202602071758


Tamires Almeida Bezerra1; Angélica Benetaci de Aquino Gandra2; Camilla da Silva Nunes Santiquio3; Emanoela Therezinha Bessa Mendes4; Flaviano Palmeira dos Santos5; Janaína Vasconcelos Rocha6; Laura Elis Aguero Reis7; Lya Raquel Maria de Alencar Clark Barradas8; Mara de Jesus Costa da Silva9; Marisa Dias Rolan Loureiro10


Resumo

O envelhecimento populacional constitui um dos principais desafios contemporâneos para o sistema de saúde e de outras políticas, especialmente em países em desenvolvimento, como o Brasil. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de caráter descritivo, orientada pela estratégia PICo. A busca foi realizada nas bases LILACS, SciELO, PubMed e Scopus, utilizando descritores relacionados ao envelhecimento populacional e políticas públicas de saúde. Foram incluídos artigos publicados entre 2020 e 2025, resultando na seleção final de 12 estudos que atenderam aos critérios estabelecidos. Os estudos analisados evidenciaram fragilidades na implementação das políticas públicas voltadas à população idosa, destacando problemas de gestão, financiamento e integração da rede de atenção. Observou-se elevada prevalência de doenças crônicas, aumento das hospitalizações evitáveis e impacto das desigualdades sociais na qualidade de vida dos idosos. Ademais, identificou-se insuficiência na formação profissional e necessidade de políticas intersetoriais que integrem saúde, assistência social e outros setores. Conclui-se que o enfrentamento dos desafios do envelhecimento populacional requer o fortalecimento das políticas públicas, com foco na integralidade do cuidado, na qualificação profissional e na redução das iniquidades sociais, assegurando envelhecimento digno e saudável.

Palavras-chave: Envelhecimento da População. Sistema de Saúde. Políticas Públicas em Saúde. Pessoa Idosa.

1 INTRODUÇÃO

O envelhecimento populacional constitui um dos fenômenos demográficos mais relevantes do século XXI, resultante da redução das taxas de fecundidade, do aumento da expectativa de vida e dos avanços nas condições de saúde e saneamento. Esse processo ocorre de forma acelerada, especialmente em países em desenvolvimento, como o Brasil, impondo transformações profundas nas estruturas sociais, econômicas e nos sistemas de saúde (IBGE, 2022; Rocha; Souza; Paulo, 2025).

Nesse contexto, a transição demográfica brasileira caracteriza-se por sua rapidez e por profundas desigualdades regionais, o que intensifica os desafios para o planejamento e a implementação de políticas públicas eficazes voltadas à população idosa. Assim, o crescimento do contingente de pessoas com 60 anos ou mais demanda a reorganização dos serviços de saúde, a ampliação da atenção integral e o fortalecimento das ações de promoção do envelhecimento ativo e saudável (Macêdo et al., 2025).

Além disso, as políticas públicas de atenção ao idoso no Brasil estão fundamentadas em marcos legais importantes, como a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa e o Estatuto da Pessoa Idosa, que asseguram direitos relacionados à saúde, à autonomia e à participação social. Entretanto, apesar dos avanços normativos, observa-se uma lacuna significativa entre o que está previsto na legislação e a efetiva implementação dessas políticas nos diferentes níveis de atenção à saúde (Fernandes; Soares, 2012; Brasil, 2006).

Ademais, o aumento da prevalência de doenças crônicas não transmissíveis, das incapacidades funcionais e da dependência funcional reforça a necessidade de políticas públicas intersetoriais que ultrapassem o modelo biomédico tradicional. Nesse sentido, a atenção ao idoso deve considerar aspectos biopsicossociais, promovendo cuidado longitudinal, humanizado e centrado na pessoa, com ênfase na Atenção Primária à Saúde (Figueiredo; Ceccon; Figueiredo, 2021; Feijó et al., 2024).

Esta pesquisa teve como objetivo relacionar o processo de envelhecimento populacional e os desafios das políticas públicas de saúde voltadas a esse grupo etário, a partir de dados da literatura científica. A metodologia trata-se de uma revisão integrativa da literatura, do tipo descritiva realizada por meio da estratégia PICo.

2 REVISÃO DA LITERATURA

   O envelhecimento populacional tem sido amplamente debatido como um desafio para o sistema de saúde (Gouveia,2012). No Brasil, a Política Nacional do Idoso (PNI), instituída pela Lei 8.842/94, regulamentada em 3/6/96 através do Decreto 1.948/96, criou normas para assegurar os direitos sociais dos idosos. Tal instrumento com força de lei assegura aos idosos direitos relacionados a diferentes aspectos da vida dentre eles o de envelhecer saudável e ter cuidados de saúde para suas necessidades especificas neste ciclo de vida.

No entanto, o processo de envelhecimento é complexo e se configura como um dos maiores desafios para o sistema de saúde. Esses desafios estão em diferentes aspectos como formação profissional especifica por exemplo em gerontologia (Barbosa, et. al, 2025), o etarismo, violência estrutural e aumento de demanda por recursos pois os idosos “consomem mais serviços de saúde, as internações hospitalares são mais frequentes e o   tempo de ocupação do leito é maior quando comparado a outras faixas etárias (Gouveia, 2012, p. 06).

O processo de envelhecimento está envolvido em diferentes condições como situação clínica, dependência funcional e a crescente necessidade de cuidados prolongados Jardim, Medeiros e Brito (2019). Nesse contexto, pontua-se aqui outro desafio que é a organização e gestão dos serviços que ainda acontece de forma solta, ausência de dados sistematizados e instrumentos de planejamento que em muitos lugares ocorre sem um protocolo definido para uma assistência humanizada, eficiente e acessível (Gomes; Galvão 2021).

Dessa forma, dentre os principais desafios enfrentados destacam-se a fragmentação da rede de atenção, a insuficiência de recursos financeiros, a escassez de profissionais capacitados em geriatria e gerontologia, além das dificuldades de acesso aos serviços de saúde, sobretudo para idosos em situação de vulnerabilidade social. Consequentemente, esses fatores contribuem para a perpetuação de iniquidades e comprometem a qualidade da assistência prestada à população idosa (Silva et al., 2021; Andrade et al., 2023).

Diante desse cenário, torna-se imprescindível analisar criticamente os desafios impostos pelo envelhecimento populacional às políticas públicas de atenção à saúde da pessoa idosa, bem como seus impactos na organização dos serviços de saúde, pois elas estão voltadas para o enfrentamento de diversos problemas sociais existentes que podem minimizar a qualidade de vida (Bezerra et. al, 2026). Assim, compreender essas limitações e potencialidades é fundamental para subsidiar a formulação de estratégias que garantam o envelhecimento com dignidade, equidade e qualidade de vida, alinhadas às necessidades reais da população idosa brasileira.

3 METODOLOGIA

O estudo trata-se de uma revisão integrativa da literatura, do tipo descritiva. O processo metodológico prevê a identificação de Práticas Baseadas em Evidências (PBE), cuja execução promove a qualidade da assistência, assegurando métodos de tratamento resolutivos e diagnóstico precoce (Schneider; Pereira; Ferraz, 2020). A utilização da estratégia PICo (População, Intervenção, Comparação e Outcomes), para a formulação da pergunta norteadora da pesquisa resultou nos seguintes questionamentos: “Quais são os desafios enfrentados pelas políticas públicas de atenção à saúde do idoso frente ao envelhecimento populacional e seus impactos no acesso e na qualidade dos serviços de saúde?

Quadro 1: Aplicação da estratégia PICo para a revisão integrativa da literatura.

Fonte: Elaborado pelos autores, 2026.

Este estudo seguiu uma metodologia organizada em cinco etapas distintas: (1) busca literária, através de Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) em associação com o uso dos conectores booleanos, (2) início da coleta de dados e aplicação dos filtros, (3) análise de título e resumo, (4) leitura na íntegra e interpretação dos estudos selecionados e (5) divulgação dos estudos incluídos na pesquisa.

O período de coleta de dados foi realizado no período dos meses de novembro e dezembro de 2025, e envolveu a exploração de diversas bases, tais como a Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Scientific Electronic Library Online (SciELO), PubMed e SciVerse Scopus (Scopus). A estratégia de busca empregada combinou Descritores em Ciências da Saúde/Medical Subject Headings (DeCS/MeSH) utilizando o operador booleano OR e AND, seguindo uma abordagem específica: “(“Envelhecimento da População” OR “Envelhecimento”) AND “Políticas Públicas””, resultando em um conjunto inicial de 259 trabalhos.  

Foram estabelecidos critérios específicos para inclusão dos estudos, considerando artigos completos publicados nos últimos cinco anos (2020-2025), redigidos em inglês ou português. Uma análise detalhada dos títulos e resumos foi realizada para uma seleção mais apurada, seguida pela leitura completa dos artigos elegíveis, excluindo teses, dissertações, revisões e aqueles que não se alinhavam aos objetivos do estudo. Artigos duplicados foram descartados, resultando na seleção de 86, dos quais apenas 12 atenderam plenamente aos critérios estabelecidos após uma triagem mais criteriosa. O Comitê de Ética em Pesquisa não foi envolvido neste estudo, uma vez que não houve pesquisas clínicas com animais ou seres humanos. Todas as informações foram obtidas de fontes secundárias e de acesso público.

Quadro 2: Estratégias de busca utilizadas nas bases de dados

Fonte: Elaborado pelos autores, 2025.

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES

Nesta pesquisa, os dados levantados nos artigos selecionados foram organizados metodicamente no Quadro 3 pelos autores. As informações fornecidas nos estudos foram categorizadas em: autor, ano de publicação, título, objetivo do estudo e conclusão.

Quadro 3: Descrição dos estudos selecionados na revisão integrativa da literatura.

Fonte: Elaborado pelos autores, 2026.

Os resultados desta análise evidenciam que o envelhecimento populacional representa uma mudança estrutural significativa na dinâmica demográfica brasileira, com repercussões diretas sobre os sistemas de proteção social e de saúde. Nesse sentido, estudos indicam que o aumento da proporção de pessoas idosas ocorre em ritmo mais acelerado do que a capacidade de adaptação das políticas públicas, gerando tensões na organização dos serviços e na alocação de recursos (Aguiar et al., 2024; Castro et al., 2024).

Além disso, observou-se que o perfil epidemiológico da população idosa é marcado pela elevada prevalência de doenças crônicas não transmissíveis, frequentemente associadas a limitações funcionais e dependência. Diante desse cenário, tornam-se indispensáveis cuidados contínuos e complexos, reforçando a necessidade de modelos assistenciais baseados no acompanhamento longitudinal e na coordenação do cuidado, especialmente no âmbito da Atenção Primária à Saúde (Sousa; Silva, 2025).

No que se refere às políticas públicas, os resultados indicam que, embora existam diretrizes nacionais voltadas à atenção à pessoa idosa, sua operacionalização enfrenta entraves relacionados à gestão, ao financiamento e à articulação entre os níveis de atenção. Ademais, a literatura aponta que a ausência de mecanismos eficazes de monitoramento e avaliação compromete a efetividade dessas políticas nos territórios (Jesus; Caldas, 2025; Araújo et al., 2025).

De modo semelhante, a análise da rede de atenção à saúde revela fragilidades na integração dos serviços, com predominância de ações pontuais e centradas no cuidado curativo. Consequentemente, essa fragmentação dificulta a integralidade da assistência e contribui para o aumento de internações evitáveis, bem como para a utilização inadequada dos serviços hospitalares por pessoas idosas (Fonseca-Teixeira et al., 2025).

Outro aspecto relevante refere-se às desigualdades sociais que permeiam o processo de envelhecimento no Brasil. Nesse contexto, fatores como baixa renda, escolaridade limitada e condições precárias de moradia intensificam a vulnerabilidade da população idosa, ampliando barreiras no acesso aos serviços de saúde e aos demais direitos sociais. Tais determinantes sociais impactam negativamente a qualidade de vida e a autonomia dos idosos (Costa et al., 2024; Weber; Craveiro; Colussi, 2024).

Paralelamente, os resultados demonstram que a formação profissional ainda é insuficiente para atender às demandas específicas do envelhecimento. A escassez de conteúdos relacionados à geriatria e à gerontologia nos currículos da área da saúde limita a capacidade dos profissionais de oferecer cuidado integral e humanizado, comprometendo a resolutividade das ações assistenciais (Cristina et al., 2024).

Diante desse cenário, a literatura enfatiza a importância de políticas públicas intersetoriais que integrem saúde, assistência social, educação e urbanismo como estratégia para enfrentar os desafios do envelhecimento populacional. Nessa perspectiva, a promoção do envelhecimento ativo pressupõe ambientes favoráveis, participação social e acesso equitativo a serviços essenciais (Santos, 2024).

Desse modo, os resultados reforçam que o enfrentamento dos desafios associados ao envelhecimento populacional exige o fortalecimento do papel do Estado na formulação e execução de políticas públicas sustentáveis. Assim, investimentos contínuos, planejamento estratégico e valorização do cuidado centrado na pessoa idosa mostram-se fundamentais para garantir envelhecimento digno, saudável e com equidade, em consonância com os princípios da saúde pública contemporânea (Félis; Silva; Longhi, 2024).

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo evidenciou que o envelhecimento populacional no Brasil configura-se como um fenômeno complexo e acelerado, acarretando impactos significativos sobre a organização dos sistemas de saúde e de proteção social. Embora existam marcos legais e diretrizes voltadas à atenção à pessoa idosa, persistem fragilidades na implementação das políticas públicas, especialmente no que se refere à integração da rede de atenção, ao financiamento e à capacidade de resposta dos serviços frente às demandas crescentes dessa população.

Além disso, os resultados demonstraram que o perfil epidemiológico dos idosos, caracterizado pela elevada prevalência de doenças crônicas, incapacidades funcionais e dependência, impõe a necessidade de modelos assistenciais que superem o enfoque exclusivamente curativista. Nesse contexto, torna-se fundamental o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde como coordenadora do cuidado, bem como a adoção de abordagens intersetoriais que considerem os determinantes sociais do envelhecimento, contribuindo para a redução das desigualdades e a promoção da equidade no acesso aos serviços.

Diante desse cenário, o enfrentamento dos desafios impostos pelo envelhecimento populacional requer o fortalecimento do papel do Estado na formulação e execução de políticas públicas sustentáveis, por meio de investimentos contínuos, planejamento estratégico e qualificação profissional. Assim, a valorização do cuidado integral, humanizado e centrado na pessoa idosa mostra-se imprescindível para assegurar um envelhecimento digno, saudável e com qualidade de vida, em consonância com os princípios da saúde pública contemporânea.

REFERÊNCIAS

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1 Especialista em Saúde Pública, Faculdade Líbano. E-mail: tamialmeida10@gmail.com.
2 Mestra em Ensino em Saúde, Faculdade de Medicina de Marília, FAMEMA. E-mail: abenetaci@gmail.com.
3 Mestra em Enfermagem, Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, FAMERP. E-mail: camillanunes84@gmail.com.
4 Emanoela Therezinha Bessa Mendes. Mestra em Educação, Universidade Estadual do Ceará, UECE. E-mail:emanoelabessa@hotmail.com.
5 Flaviano Palmeira dos Santos. Mestre em Engenharia Biomédica, Universidade Federal do Pernambuco, UFPE. E-mail: flavianopalmeira@gmail.com.
6 Janaina Vasconcelos Rocha. Doutoranda em Enfermagem e Saúde, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, UESB. E-mail: janavascorocha@gmail.com.
7 Laura Elis Aguero Reis. Doutora em Saúde, Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, UFMS. E-mail: laura_elis@hotmail.com.
8 Lya Raquel Maria de Alencar Clark Barradas. Mestranda em Saúde da Família, Universidade Federal do Piauí, UFPI. E-mail: lyaclark@hotmail.com.
9 Mara de Jesus Costa da Silva. Mestranda em Saúde da Família, Universidade Federal do Piauí, UFPI. E-mail: marajcs1@gmail.com.
10 Marisa Dias Rolan Loureiro. Doutora em Ciências da Saúde, Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, UFMS. E-mail: marisarolan@gmail.com.

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