BETWEEN THE INDIVIDUAL AND THE COLLECTIVE: THE RELEVANCE OF DURKHEIMIAN ANALYSIS ON SUICIDE AND ITS RELATION TO YOUTH
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202506292012
Karla Thalaris Machado Silveira1
Prof. Dr. Carlos Eduardo França2
RESUMO
Publicado em 1897, O Suicídio, de Émile Durkheim, é um marco da Sociologia Clássica ao propor a análise do suicídio como fato social, rompendo com explicações moralistas e psicologizantes. Este artigo revisita os principais conceitos da obra, contextualizando-os nas transformações sociais do século XIX e na consolidação da metodologia positivista. São destacados os quatro tipos de suicídio: egoísta, altruísta, anômico e fatalista. Discorre-se também sobre a importância da solidariedade social na prevenção do suicídio, evidenciando como a desagregação dos vínculos sociais pode favorecer comportamentos patológicos. Com base em análise teórico-documental, o artigo ainda problematiza os limites da abordagem durkheimiana, especialmente frente às críticas contemporâneas sobre gênero, raça e subjetividade. Por fim, propõe-se uma reflexão sobre o papel da educação e dos vínculos comunitários na prevenção do suicídio entre os jovens, reafirmando a relevância das contribuições de Durkheim frente aos desafios sociais contemporâneos.
Palavras-chave: suicídio; Émile Durkheim; fato social; solidariedade; juventude.
Introdução
Publicada em 1897, O Suicídio é considerada uma das obras mais emblemáticas da Sociologia Clássica, consolidando-se como um divisor de águas no esforço de Émile Durkheim para afirmar a Sociologia enquanto ciência autônoma, dotada de método rigoroso e objeto próprio de estudo. Em uma época em que o suicídio era interpretado majoritariamente sob perspectivas psicológicas, psiquiátricas e/ou morais, Durkheim propôs uma ruptura epistemológica fundamental: o suicídio deveria ser compreendido como um fato social, isto é, um fenômeno coletivo, regido por leis sociais, e não apenas pelas vontades ou patologias individuais.
Inserido no contexto de consolidação das Ciências Sociais no final do século XIX, período marcado pelo avanço da industrialização, urbanização acelerada e transformações profundas nas estruturas tradicionais de sociabilidade, Durkheim busca demonstrar que os comportamentos individuais são, em grande maioria, moldados pelas forças coletivas. Sua proposta metodológica inovadora, ancorada no uso de dados estatísticos e na comparação sistemática entre diferentes sociedades e períodos históricos, evidenciou que as taxas de suicídio variavam conforme níveis de integração e regulação social, sendo, portanto, reflexos de condições estruturais.
Ao tratar o tema a partir de categorias como o suicídio egoísta, altruísta, anômico e fatalista, Durkheim não apenas inaugurou uma tipologia explicativa que ultrapassava as limitações das interpretações individuais, mas também forneceu ferramentas teóricas para analisar fenômenos subjetivos em sua dimensão coletiva. Assim, O Suicídio não se limita ao estudo de um comportamento extremo, mas revela uma preocupação maior com a coesão social, os laços comunitários e os efeitos das mudanças sociais rápidas sobre os indivíduos.
Neste artigo, busca-se revisitar os principais conceitos e contribuições teóricas de Durkheim na análise do suicídio, destacando a relevância de sua metodologia e a importância de sua tipologia como instrumentos para a compreensão de comportamentos sociais complexos. Para além disso, propõe-se uma reflexão crítica sobre a atualidade das análises durkheimianas, especialmente diante dos novos desafios impostos pelas sociedades contemporâneas. Em um cenário global profundamente impactado pela pandemia de covid-19, que intensificou as desigualdades, a precarização das relações sociais, a crise dos vínculos afetivos e o aumento das taxas de sofrimento psíquico, revisitar Durkheim torna-se não apenas um exercício teórico, mas uma necessidade para a compreensão dos processos sociais que moldam as experiências individuais de dor e desamparo.
Pretende-se, ainda, apontar os limites da abordagem durkheimiana, especialmente à luz das críticas oriundas de perspectivas existenciais e críticas, que enfatizam a dimensão subjetiva da experiência suicida. A intenção é oferecer um panorama que não apenas reconheça a importância histórica de O Suicídio, mas que também discuta seus desdobramentos, suas reinterpretações e as possibilidades de atualização frente às complexidades do mundo atual.
Portanto, ao revisitar a obra de Durkheim, este artigo almeja contribuir para o debate acadêmico sobre o suicídio como questão social, reforçando a importância de análises que considerem tanto as estruturas coletivas quanto as vivências singulares dos indivíduos, em um contexto em que o sofrimento humano assume novas configurações e desafia as interpretações tradicionais.
1 Contexto histórico e intelectual de Durkheim
Émile Durkheim escreveu O Suicídio em um contexto marcado por profundas transformações sociais e culturais. No final do século XIX, a Europa atravessava um intenso processo de industrialização e urbanização, que resultou na desagregação das formas tradicionais de vida comunitária e no enfraquecimento de instituições que historicamente sustentavam a coesão social, como a família extensa e a Igreja. O advento da modernidade trouxe consigo não apenas o progresso técnico e científico, mas também novas formas de vulnerabilidade social, crises de identidade e sentimentos de isolamento entre os indivíduos.
Esse cenário de mudanças aceleradas despertava uma preocupação generalizada com os efeitos da modernização sobre a ordem social. Fenômenos como o crime, o alcoolismo e o suicídio passaram a ser vistos como sintomas de uma sociedade em transição, na qual os antigos referenciais normativos já não exerciam a mesma força, mas ainda não haviam sido substituídos por novos laços sociais sólidos. É nesse panorama que Durkheim, profundamente influenciado pela tradição positivista de Auguste Comte, busca consolidar a Sociologia como uma ciência capaz de investigar e explicar sistematicamente os fenômenos sociais.
Diferenciando-se das abordagens psicológicas, médicas e morais que dominavam a compreensão do suicídio em sua época, Durkheim propôs uma análise que tratava o suicídio como um fato social. Para ele, os fatos sociais são modos de agir, pensar e sentir que existem fora da consciência individual e exercem sobre ela uma força coercitiva (Durkheim, 2007). Assim, embora o ato de suicidar-se seja uma decisão pessoal, Durkheim sustenta que as taxas de suicídio obedecem a padrões coletivos que podem ser observados, analisados e explicados cientificamente.
A publicação de O Suicídio, em 1897, insere-se, portanto, em um projeto intelectual mais amplo de afirmação da Sociologia como disciplina autônoma. Para Durkheim, compreender os mecanismos de integração e regulação social era essencial para elucidar as razões pelas quais determinados grupos ou sociedades apresentavam índices mais elevados de suicídio. A investigação das causas sociais do suicídio buscava demonstrar que mesmo os atos mais íntimos e subjetivos dos indivíduos estavam profundamente enraizados nas condições coletivas de existência.
A escolha do suicídio como objeto de estudo não foi aleatória. Durkheim queria provar que era possível aplicar métodos rigorosos de observação e comparação a fenômenos tradicionalmente considerados do domínio privado ou psicológico. Ao fazê-lo, reforçava a ideia de que a sociedade molda as ações individuais de maneira estrutural e, muitas vezes, imperceptível para os próprios sujeitos. Assim, O Suicídio não apenas ampliou o campo de estudo da Sociologia, mas também reafirmou seu compromisso metodológico com a objetividade, a análise empírica e a busca por regularidades sociais.
2 A metodologia sociológica aplicada ao suicídio
A metodologia adotada por Émile Durkheim em sua análise do suicídio é um exemplo paradigmático de sua abordagem positivista. Durkheim se afasta das explicações subjetivas e psicológicas, focando sua investigação em uma observação objetiva dos fatos sociais. Em sua obra, ele propõe que os fatos sociais devem ser tratados como “coisas”, ou seja, como elementos externos ao indivíduo, mas que influenciam e moldam seu comportamento de maneira estruturante. A principal premissa da sua metodologia é que esses fenômenos sociais, apesar de serem produtos da interação coletiva, devem ser tratados com o mesmo rigor científico utilizado nas ciências naturais. Para Durkheim, a única maneira de entender a sociedade e suas dinâmicas era por meio de uma abordagem que privilegiasse a observação empírica e a análise sistemática dos dados.
Ao estudar o suicídio, Durkheim não recorre a uma análise psicológica ou moral do ato, como era comum na época, mas o aborda de uma perspectiva sociológica. Ele parte do princípio de que o suicídio, embora seja um ato pessoal e profundamente íntimo, está imerso em um contexto social e é, portanto, passível de ser analisado como um fenômeno coletivo. Para ele, essa autolesão se define como “[…] todo o caso de morte que resulta, direta ou indiretamente, de um ato, positivo ou negativo, executado pela própria vítima, e que ela sabia que deveria produzir esse resultado” (Durkheim, 2000, p. 14).
Ao tratar o suicídio como uma “regularidade social”, Durkheim busca entender como as estruturas sociais e os mecanismos coletivos de integração e regulação influenciam as taxas de suicídio.
O método de Durkheim é, antes de tudo, empírico e quantitativo. Ele utiliza dados estatísticos de diferentes regiões, grupos religiosos, estados civis e períodos históricos para examinar as taxas de suicídio em diversos contextos. Ao observar essas taxas, Durkheim percebe que, apesar de variações nos contextos, existem padrões relativamente estáveis nas taxas de suicídio, o que sugere que os comportamentos suicidas não são apenas decisões individuais e aleatórias, mas sim influenciados por fatores sociais. Esse tipo de regularidade estatística é central para a análise de Durkheim, pois revela a atuação de forças sociais que operam independentemente da vontade individual.
O autor também recorre ao método comparativo, uma estratégia fundamental em sua pesquisa, para examinar as variações nas taxas de suicídio e identificar as causas sociais subjacentes. Ele compara taxas de suicídio entre diferentes grupos sociais, como católicos e protestantes, solteiros e casados, e entre diferentes regiões geográficas. Esse método comparativo permite que Durkheim identifique padrões recorrentes e explore a forma pela qual as condições coletivas, como o grau de coesão e o controle social, afetam o comportamento suicida.
Dessa forma, Durkheim constrói categorias analíticas que explicam o suicídio não como uma anomalia ou falha pessoal, mas como o resultado das formas de integração e regulação presentes na vida coletiva. Ele divide o suicídio em três tipos principais: suicídio egoísta, altruísta e anômico, com base na relação do indivíduo com os grupos sociais aos quais pertence e no grau de controle e coesão que esses grupos exercem sobre o comportamento individual.
Essa abordagem metodológica e teórica representou uma inovação significativa, não apenas para o estudo do suicídio, mas também para a Sociologia moderna como um todo. Ao tratar o suicídio como um fenômeno social, Durkheim não só ampliou o escopo de análise dos fenômenos sociais, mas também abriu caminho para o estudo das condições sociais que influenciam o comportamento individual, transformando a Sociologia em uma disciplina capaz de abordar questões profundas e complexas da vida humana com rigor científico.
Assim, a metodologia de Durkheim, ao focar na observação empírica e na análise comparativa, não só desafia as abordagens psicológicas da época, mas também reafirma a importância da Sociologia como uma ciência autônoma, com seu próprio método e objeto de estudo, capaz de iluminar aspectos da realidade social que, até então, eram tratados de maneira dispersa e fragmentada.
3 As tipologias do suicídio segundo Durkheim
Uma das contribuições mais notáveis de O Suicídio é a elaboração de uma tipologia que busca classificar os diferentes tipos de suicídio a partir de dois eixos fundamentais da vida social: a integração e a regulação. Para Émile Durkheim, o equilíbrio entre esses elementos é essencial para a manutenção do bem-estar do indivíduo e da estabilidade social. Quando há excesso ou insuficiência de integração ou regulação, os indivíduos tornam-se mais vulneráveis a comportamentos suicidas.
O suicídio egoísta ocorre em situações de baixa integração social, nas quais os indivíduos estão menos conectados a coletividades e instituições como a família, a religião ou outras formas de vida comunitária. Em sociedades marcadas pelo individualismo exacerbado, as pessoas tendem a se sentir isoladas e desamparadas, fatores que aumentam a predisposição ao suicídio. Durkheim exemplifica esse tipo ao observar que as taxas de suicídio entre protestantes eram superiores às dos católicos, associando esse dado à menor coesão comunitária das igrejas protestantes, que enfatizavam uma relação mais individualizada com a fé.
No extremo oposto, o suicídio altruísta surge em contextos de integração excessiva, nos quais o indivíduo está completamente subordinado aos interesses do grupo social. Nesses casos, a identidade pessoal é dissolvida em favor da coletividade, e o valor da vida individual é colocado abaixo do dever social. Durkheim associa esse tipo de suicídio a sociedades tradicionais, militares ou religiosas fortemente coesas, onde atos de sacrifício, como o suicídio de viúvas na Índia antiga ou dos guerreiros kamikazes, são socialmente valorizados.
O suicídio anômico refere-se a situações em que a regulação social é insuficiente para orientar e conter os desejos individuais. Em contextos de crise econômica, rápidas mudanças sociais ou colapsos de normas coletivas, os indivíduos se veem diante de expectativas desmedidas e instabilidade emocional. A ausência de referências estáveis faz com que o sujeito sinta-se perdido, incapaz de estabelecer limites para suas aspirações. Durkheim identifica esse tipo como particularmente associado às sociedades modernas capitalistas, onde as transformações econômicas e sociais ocorrem de maneira abrupta e desordenada.
Por fim, Durkheim menciona o suicídio fatalista, ainda que de forma menos desenvolvida em sua obra. Esse tipo se manifesta em situações de regulação social excessiva, em que a vida do indivíduo é rigidamente controlada por regras opressoras, eliminando qualquer perspectiva de futuro ou liberdade pessoal. Exemplos incluem a condição de escravos, prisioneiros ou pessoas submetidas a sistemas de autoridade extrema, onde a desesperança diante de um controle absoluto leva ao suicídio.
A tipologia de Durkheim não apenas sistematiza diferentes formas de suicídio, bem como oferece um modelo sociológico para sua compreensão. Ainda que sua obra tenha sido posteriormente criticada e revisada por diversos autores, sua contribuição permanece fundamental.
Alguns autores contemporâneos propuseram classificações alternativas, focadas nas motivações subjetivas dos indivíduos; outros questionaram o uso de estatísticas e a objetividade do método durkheimiano, defendendo abordagens que valorizassem os significados atribuídos ao ato suicida pelos próprios agentes sociais. Essas críticas evidenciam a complexidade do tema e a necessidade de múltiplas perspectivas para seu entendimento.
Apesar das contestações, a tipologia proposta por Durkheim consolidou-se como um marco teórico, oferecendo uma chave de leitura robusta e inovadora para o estudo sociológico do suicídio. Sua proposta inaugurou uma abordagem que considera o suicídio não como uma falha individual isolada, mas como um fenômeno enraizado nas dinâmicas coletivas da vida social.
4 A importância da solidariedade social
A análise de Durkheim sobre o suicídio está relacionada em sua concepção de solidariedade social, um conceito central para sua obra. Em Da Divisão do Trabalho Social (Durkheim, 1999), o autor já havia distinguido entre dois tipos de solidariedade: mecânica e orgânica. Essa distinção está na base de sua explicação para os mecanismos de coesão e sua relação com o suicídio.
Nas sociedades tradicionais, caracterizadas pela solidariedade mecânica, os indivíduos compartilham crenças, valores e normas semelhantes, e o coletivo se sobrepõe ao individual. Já nas sociedades modernas, marcadas pela solidariedade orgânica, os vínculos sociais são mais frágeis, pois baseiam-se na interdependência funcional e não mais na similitude.
Durkheim argumenta que a modernidade, ao desestruturar formas tradicionais de vínculo, cria condições favoráveis à desintegração social, o que pode gerar sentimentos de anomia e isolamento. Assim, o suicídio se torna um indicador privilegiado da saúde moral de uma sociedade. Quanto mais desagregadas as relações sociais, maior o risco de surgirem tipos patológicos de suicídio, especialmente os egoístas e anômicos.
Essa leitura ganha força quando observamos, por exemplo, o aumento de transtornos mentais em contextos de crise econômica, instabilidade familiar ou precarização das condições de trabalho. Isso pode ser compreendido como um fenômeno ligado à fragilização dos vínculos sociais e à intensificação da insegurança existencial. Tais elementos contribuem para o enfraquecimento da solidariedade coletiva, uma preocupação já presente nas análises de Émile Durkheim, que associava o suicídio à perda de coesão social e à dissolução dos laços comunitários.
Nesse sentido, autoras brasileiras contemporâneas, como Marilena Chauí (2000; 2021) e Maria Rita Kehl (2009), têm contribuído para a compreensão dos efeitos subjetivos das transformações sociais e econômicas recentes. Chauí, ao discutir os impactos da lógica neoliberal sobre o indivíduo, destaca como essa racionalidade promove uma ideologia do mérito individual e da competitividade, deslocando a responsabilidade coletiva para uma responsabilização individual permanente. Segundo ela, essa ideologia opera uma despolitização dos sujeitos, os isolando em suas dificuldades e transformando questões sociais em fracassos pessoais. Isso favorece o surgimento de sentimentos de inadequação, frustração e culpa, que fragilizam o sujeito diante das exigências do mundo contemporâneo (Chauí, 2000; 2021).
Maria Rita Kehl (2009), por sua vez, analisa como a cultura neoliberal exacerba a individualização extrema e mina a capacidade de simbolização dos sujeitos, afetando diretamente sua saúde psíquica. Em seus escritos, ela aponta que a promessa de liberdade absoluta, descolada de qualquer pertencimento coletivo, gera uma subjetividade marcada pela solidão, pelo narcisismo e pela ansiedade. A ausência de redes simbólicas de apoio e o enfraquecimento da alteridade tornam o sujeito mais vulnerável à depressão, à angústia e a manifestações extremas como o suicídio.
Essas reflexões podem ser interpretadas como um eco das preocupações durkheimianas, pois revelam o quanto a desintegração dos vínculos sociais, acentuada por um sistema que valoriza a performance individual em detrimento da solidariedade, pode levar a estados de anomia, conceito central em Durkheim para explicar o suicídio em sociedades onde os laços normativos e comunitários se encontram enfraquecidos.
Portanto, compreender o suicídio para Durkheim é também compreender a qualidade dos vínculos sociais que sustentam a vida em sociedade. Sua teoria, embora datada em alguns aspectos, continua oferecendo subsídios valiosos para refletir sobre os efeitos da desagregação social nos sujeitos do mundo moderno.
5 Críticas e limites da obra
Todavia, ao longo do tempo, diversos estudiosos identificaram limitações tanto metodológicas quanto conceituais na abordagem durkheimiana, indicando que, embora inovadora para sua época, sua teoria demanda complementações e atualizações frente à complexidade da realidade social contemporânea. Uma das críticas mais contundentes diz respeito à ênfase excessiva de Durkheim na objetividade dos dados estatísticos. Para ele, as taxas de suicídio representavam uma expressão direta dos estados de integração e regulação social. Contudo, Gabriel Peters (2020) evidencia que as estatísticas são construções sociais, influenciadas por julgamentos institucionais, preconceitos culturais e falhas administrativas. O que é oficialmente registrado como suicídio pode variar enormemente de acordo com os contextos religiosos, legais e culturais, revelando que os dados utilizados por Durkheim, longe de serem neutros, são atravessados por múltiplas interpretações e interesses.
Esse problema metodológico é agravado pela dificuldade inerente em definir de maneira precisa o que constitui um suicídio. Sidnei Ferreira de Vares (2017) observa que a definição durkheimiana exige a comprovação da intenção de morrer, um elemento frequentemente impossível de ser verificado com certeza absoluta. Em muitos casos, a fronteira entre acidentes, overdoses, mortes assistidas e suicídios propriamente ditos é tênue e permeada por ambivalências. Tal imprecisão conceitual compromete a validade universal da tipologia de Durkheim e impõe limites à pretensão científica do seu estudo.
Outro ponto criticado refere-se à tipologia dos suicídios proposta por Durkheim, que, embora inovadora, é frequentemente considerada reducionista. A divisão entre suicídios egoístas, altruístas, anômicos e fatalistas baseia-se exclusivamente no grau de integração ou regulação social, deixando de lado outros aspectos igualmente determinantes. Otávio Morato de Andrade (2023) chama a atenção para o fato de que fatores como desigualdades socioeconômicas, relações de poder, discriminações étnico-raciais e questões de gênero influenciam profundamente as vulnerabilidades ao suicídio, mas não encontram espaço de análise na obra de Durkheim. Assim, sua explicação, ainda que estrutural, peca por um certo abstracionismo que negligencia as condições materiais específicas que configuram o sofrimento social.
Nesse sentido, Marta M. Assumpção Rodrigues (2009) propõe uma comparação entre as perspectivas de Durkheim e Marx, salientando que, enquanto Durkheim privilegia a coesão social como variável explicativa central, Marx aponta as contradições estruturais do capitalismo como fatores determinantes das experiências de alienação, exclusão e desespero. Essa crítica estruturalista sugere que, ao não problematizar suficientemente as condições materiais e as relações de produção, Durkheim teria produzido uma análise funcionalista que, em última instância, naturaliza a ordem social existente em vez de questioná-la.
Além disso, Durkheim busca, em sua análise, identificar leis sociais universais, o que o leva a desconsiderar, em grande medida, a diversidade cultural e histórica dos modos de compreender e viver a morte voluntária. Peters (2020) reforça que as práticas, os significados e as percepções acerca do suicídio variam enormemente entre diferentes sociedades e períodos históricos, o que torna arriscado pretender uma explicação generalizante baseada em regularidades estatísticas. Essa crítica culturalista aponta que as motivações e interpretações do suicídio são profundamente mediadas pelos sistemas simbólicos, religiosos e éticos de cada sociedade, elementos que Durkheim não incorporou suficientemente em sua análise.
Por outro lado, é preciso reconhecer que Durkheim abriu caminho para que o suicídio fosse tratado de maneira científica, desnaturalizando explicações de cunho exclusivamente moral ou patológico. Como destaca Marta M. Assumpção Rodrigues (2009), a inovação de Durkheim reside menos nas respostas que oferece e mais na própria formulação da pergunta sociológica: o que a sociedade revela sobre si mesma através das taxas de suicídio? Nesse sentido, mesmo suas limitações contribuem para estimular debates posteriores que incorporaram novas dimensões teóricas e metodológicas ao estudo do fenômeno.
No contexto contemporâneo, as abordagens sociológicas sobre o suicídio tendem a ser mais multidimensionais, incorporando fatores sociais, culturais, econômicos, psicológicos e políticos de forma articulada. Essa ampliação dos referenciais teóricos e metodológicos permite compreender o suicídio não apenas como expressão de falhas na integração social, mas também como manifestação de sofrimento estrutural, de opressões históricas e de processos complexos de subjetivação.
Assim, as críticas dirigidas à obra de Durkheim não anulam sua importância histórica, mas ressaltam a necessidade de superar uma visão exclusivamente estatística e funcionalista do suicídio. A Sociologia contemporânea, inspirada por Durkheim, mas também crítica em relação a ele, avança na direção de compreender o suicídio como um fenômeno multifacetado, atravessado por dinâmicas de poder, de desigualdade e de produção simbólica, que exigem abordagens analíticas cada vez mais sensíveis e integradoras.
Portanto, ao mesmo tempo em que O Suicídio permanece um clássico indispensável da sociologia, seu estudo crítico é fundamental para ampliar a compreensão da complexidade do ato suicida, sobretudo em sociedades contemporâneas marcadas por profundas transformações sociais, econômicas e culturais.
Após analisar a importância da solidariedade social e as críticas à obra de Durkheim, é possível aprofundar a reflexão sobre como a formação dos indivíduos, especialmente dos jovens, influencia sua integração social e sua relação com o sofrimento psíquico. Nesse contexto, a educação desempenha um papel central, não apenas como instrumento de transmissão de conhecimentos, mas como espaço fundamental para a construção de vínculos sociais e identidades. A partir da perspectiva durkheimiana, compreender a função educativa permite iluminar as causas sociais do suicídio juvenil, evidenciando como falhas nesse processo podem fragilizar os laços comunitários e favorecer sentimentos de isolamento e desesperança.
6 A influência da educação na formação do indivíduo e sua relação com o suicídio juvenil
A educação, enquanto processo de formação moral, intelectual e social, desempenha papel central na constituição do indivíduo e na sua integração à sociedade. Émile Durkheim, em sua obra Educação e Sociologia (2011), destaca que a educação não é apenas uma preparação individual para a vida, mas sim um mecanismo social que molda o sujeito conforme as necessidades da coletividade. Ela opera como uma ponte entre o ser biológico e o ser social, inculcando valores, normas e práticas que garantem a coesão social.
No entanto, quando o sistema educacional falha em cumprir esse papel ou quando o jovem não se sente pertencente ao meio escolar, abre-se uma brecha para o surgimento de sentimentos de inadequação, isolamento e desesperança. Tais sensações são agravadas quando a escola se torna um espaço de exclusão, competitividade excessiva ou negação da diversidade. O fracasso escolar, o bullying, a ausência de políticas inclusivas e o desinteresse dos professores diante das angústias juvenis podem contribuir para a construção de um ambiente hostil ao bem-estar psíquico dos estudantes.
Durkheim relaciona o suicídio ao enfraquecimento dos laços sociais, o que se conecta diretamente à crise da escola contemporânea como espaço de pertencimento. Quando o jovem não se reconhece como parte de um grupo, perde-se a função socializante da educação, abrindo espaço para o que o autor denominou como “suicídio egoísta”, aquele resultante da fragilidade dos vínculos com a coletividade. Nesse sentido, o fracasso da escola enquanto instituição integradora pode ser compreendido como um fator de risco para o suicídio entre os jovens.
A juventude contemporânea é atravessada por múltiplas crises que tensionam sua constituição subjetiva: instabilidade econômica, precarização das relações de trabalho, enfraquecimento dos vínculos familiares e insegurança quanto ao futuro. Em meio a essas incertezas, a educação perde sua força simbólica como promessa de ascensão social. Para muitos jovens, o esforço escolar já não garante um lugar de reconhecimento e pertencimento no mundo adulto, o que contribui para sentimentos de frustração e impotência.
Durkheim já apontava que, em sociedades marcadas pela transição e pela fragmentação das normas sociais, ou seja, a anomia, os indivíduos tendem a experimentar confusão quanto às suas metas e identidades. A juventude atual, confrontada com um excesso de possibilidades e uma falta de referências sólidas, vivencia esse estado anômico de forma intensa. A ausência de um projeto de vida viável e reconhecido socialmente faz que o jovem se perceba sem rumo e sem sentido, favorecendo quadros de sofrimento mental e comportamentos autodestrutivos.
O suicídio anômico, descrito por Durkheim, emerge justamente nesses contextos de desestruturação social, onde os indivíduos não encontram amparo normativo para suas aspirações. Assim, ao pensarmos a juventude de hoje, devemos considerar como a precarização das condições de vida, a sobrecarga de exigências e a fragilização dos vínculos impactam diretamente a saúde mental dos jovens e sua relação com a vida.
Em adição, a escassez de políticas públicas voltadas à juventude, em especial no que se refere à saúde mental e à permanência escolar, acentua o quadro de vulnerabilidade que muitos jovens enfrentam. Em municípios menores ou regiões periféricas, como é o caso de partes do Mato Grosso do Sul, o acesso a atendimentos psicológicos, projetos culturais e esportivos e programas de apoio educacional é extremamente limitado.
A invisibilidade do sofrimento juvenil é uma das grandes barreiras para a prevenção do suicídio. Muitas vezes, os sinais de alerta são naturalizados como “rebeldia” ou “fase”, quando são, na verdade, pedidos de ajuda silenciados por uma sociedade que ainda negligencia o sofrimento psíquico como fenômeno coletivo. Durkheim defendia que o suicídio, mesmo sendo um ato individual, tem causas sociais; ignorar esses determinantes coletivos é perpetuar a lógica da culpabilização da vítima.
É imprescindível que o Estado, em articulação com a escola e a comunidade, promova políticas intersetoriais que garantam acesso à educação de qualidade, espaços de escuta e acolhimento e estratégias de prevenção ao suicídio fundamentadas na promoção da vida. A atuação do poder público deve ir além da campanha de Setembro Amarelo, adotando uma postura contínua de cuidado e atenção aos jovens em situação de vulnerabilidade.
Não obstante, para que a escola cumpra efetivamente seu papel socializador e preventivo, ela precisa se transformar em um espaço afetivo, democrático e inclusivo. Isso exige uma reconfiguração das práticas pedagógicas e da cultura escolar, de forma que se valorize o diálogo, o respeito à diversidade e a escuta sensível. A presença de profissionais capacitados em saúde mental nas escolas é um avanço necessário, assim como a formação continuada dos docentes para lidar com questões emocionais e sociais.
Durkheim já afirmava que a moralidade se constrói coletivamente, e a escola é o ambiente privilegiado para essa formação moral. Quando os alunos se sentem parte de um coletivo que os respeita e os acolhe, desenvolvem um senso de pertencimento que atua como fator de proteção contra comportamentos de risco. Ao contrário, a indiferença institucional, a lógica meritocrática exacerbada e a ausência de espaços para expressão subjetiva tornam a escola um território árido e excludente.
Portanto, reconfigurar a escola como espaço de vida é uma urgência diante dos alarmantes índices de suicídio entre jovens. É necessário resgatar o papel humanizador da educação e construir redes de cuidado e solidariedade que rompam com a lógica do abandono e da invisibilidade.
7 Considerações finais
A obra O Suicídio, de Émile Durkheim, permanece como um marco incontornável na história da Sociologia. Sua proposta de compreender o suicídio como um fato social rompeu com as abordagens predominantes da época, inaugurando uma nova maneira de pensar a vida e a morte em suas múltiplas conexões com o tecido social.
Ao analisar as variações nas taxas de suicídio a partir dos níveis de integração e regulação social, Durkheim demonstrou que as escolhas individuais não ocorrem no vazio, mas são profundamente atravessadas por condições históricas, culturais e estruturais. Com isso, não apenas construiu uma tipologia inovadora, mas também abriu caminho para interpretações sociológicas de fenômenos tradicionalmente considerados subjetivos e individuais.
As críticas que sua teoria recebeu ao longo do século XX e XXI, sobretudo oriundas das abordagens críticas, longe de desmerecerem seu trabalho, evidenciam a vitalidade de sua contribuição e a necessidade de atualizá-la frente às transformações do sofrimento contemporâneo, marcadas por desigualdades estruturais, dinâmicas identitárias complexas e precarização das relações sociais.
Em um contexto em que o suicídio permanece como uma grave questão de saúde pública e expressão dolorosa das crises do sujeito moderno, revisitar Durkheim é reafirmar a importância de uma Sociologia atenta às dimensões coletivas do sofrimento humano. Seu legado, portanto, segue sendo fundamental não apenas para compreender o suicídio, mas para refletir sobre o próprio sentido da vida em sociedade.
Referências
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1 Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS). E-mail: karla.thalaris@gmail.com.
2 Prof. Dr. Carlos Eduardo França. Professor do Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS). Orientador do trabalho.
