NURSING AND THE IMPACT OF EMOTIONAL SUPPORT IN THE PUERPERIUM: COMPREHENSIVE CARE FOR THE MOTHER BEYOND CHILDBIRTH
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202510211701
Caroline Baptista de Freitas1
Karina Brito da Costa Ogliari (Orientadora)2
Elisangela de Andrade Aoyama (Co-Orientadora)3
Resumo:
Este trabalho aborda o impacto do suporte emocional oferecido pela enfermagem no puerpério, com ênfase na saúde mental materna. Tem como objetivo avaliar o impacto dos fatores emocionais, psicológicos e sociais na saúde mental da puérpera e analisar o papel da enfermagem no cuidado emocional. Foi realizada uma revisão integrativa da literatura, com publicações entre 2020 e 2025, por meio de bases científicas e documentos oficiais. Os resultados evidenciam que a escuta ativa, o uso da Escala de Depressão Pós-Parto de Edimburgo (EPDS) e visitas domiciliares são estratégias eficazes para identificar sinais precoces de sofrimento emocional. Conclui-se que o cuidado contínuo, humanizado e integral da enfermagem contribui diretamente para a promoção da saúde mental e prevenção da depressão pós-parto.
Palavras-chave: Depressão Pós-Parto. Promoção da Saúde. Saúde da Mulher.
Abstract:
This study addresses the impact of emotional support provided by nursing professionals during the postpartum period, focusing on maternal mental health. The objective is to assess the influence of emotional, psychological, and social factors on maternal mental health and analyze the role of nursing in emotional care. An integrative literature review was conducted, covering studies published between 2020 and 2025, using scientific databases and official health documents. Results show that active listening, the use of the Edinburgh Postnatal Depression Scale (EPDS), and home visits are effective strategies for identifying early signs of emotional distress. It is concluded that continuous, humanized, and comprehensive nursing care significantly promotes maternal mental health and helps prevent and address postpartum depression.
Keywords: Depression Postpartum. Health Promotion. Women’s Health.
1 INTRODUÇÃO
Durante a gestação, o corpo passa por mudanças físicas, como o crescimento das mamas para produzir o alimento necessário para o neném, a dilatação do útero, que será a casa do bebê e, consequentemente, isso comprime os órgãos e entre outras mudanças. É um trabalho intenso ao longo dos nove meses da gestação. Além disso, ocorrem mudanças hormonais como o aumento significante do estrogênio que é responsável pela dilatação dos vasos sanguíneos, para potencializar o fluxo sanguíneo e nutrir o bebê. A progesterona mantém o mantém o útero relaxado para evitar contrações precoces, regula o sistema imunológico para proteger o feto. O estrogênio e progesterona são um dos principais hormônios por manter a gestação.
Logo após o parto e a retirada da placenta, acontece uma mudança repentina no corpo da mulher pois a principal fonte desses hormônios é justamente a placenta. (GREINERT et al., 2018 apud SAMPAIO et al., 2023, p. 136).
Com essa mudança, o corpo reage de diversas formas, buscando se readaptar e reencontrar seu equilíbrio. Esse processo não acontece de forma imediata e exige tempo, esse tempo é conhecido como puerpério. O puerpério consiste em um período após o parto, aonde o corpo da mulher trabalha para que volte tudo ao normal conforme era antes da gestação. Com esse desequilíbrio hormonal que ocorre na fase gestacional e se intensificando até o puerpério podem se manifestar os sintomas da depressão pós parto, o que pode ser leve ou evoluir para uma psicose pós parto. A mudança física e hormonal não está inteiramente ligada a depressão pós parto, diversos fatores estão interligados como psicológicos, culturais, econômicos, vivências, entre outros. (SANTOS et al., 2022).
A depressão pós parto (DPP) consiste em: tristeza profunda e persistente, vazio e falta de esperança, perda de interesse, fadiga extrema, alteração no sono, mudança no apetite como aumento ou perda, ansiedade, entre outros. Existem três níveis de DPP: Baby blues, depressão pós parto e psicose puerperal. O Baby blues consiste em tristeza e irritabilidade, desaparecem após 21 dias. A depressão pós parto seus sintomas devem surgir até quatro semanas após o nascimento. Já a psicose puerperal é a condição mais agravante, afetam mulheres com histórico pessoal ou familiar de distúrbio bipolar ou psicose pós parto seus sintomas são mais graves e consiste em alucinações, pensamentos de prejudicar e fazer mal para si mesma ou o bebê, confusão mental, delírios e mudanças repentinas do humor, entre outros (SAMPAIO et al., 2023; CARMO et al., 2024; RUFINO et al., 2024).
No Brasil, a Lei nº 10.216/2001 assegura o direito ao tratamento humanizado e adequado para pessoas com transtornos mentais, incluindo as puérperas que ainda enfrentam desafios emocionais nesse período. De acordo com o ministério da saúde é um dever do Estado brasileiro que tem a responsabilidade em oferecer condições dignas de cuidado em saúde para toda população. A saúde mental não é um aspecto isolado, mas sim influenciado pelo meio em que vivemos. Isso demonstra que ela resulta da interação entre fatores biológicos, psicológicos e sociais (BRASIL, 2001).
Esse estudo busca evidenciar a importância do papel da equipe de enfermagem no cuidado continuo, desde a gestação até o puerpério. É direito de cada indivíduo ter um acompanhamento integral conforme descrito na Lei nº 8.080/1990 que regulamenta o Sistema Único de Saúde (SUS) e garante a atenção integral à saúde de todos os cidadãos. O papel da equipe de enfermagem é fundamental pois estamos em contato constante com a mulher, desde a consulta ginecologia, pré natal, parto e pós parto. Trazendo uma autonomia para o enfermeiro e um olhar amplo fazendo-o identificar sinais de DPP e prevenir, oferecendo uma saúde holística e humanizada (BRASIL, 1990).
Nesse contexto, este estudo tem como objetivo avaliar o impacto dos fatores emocionais, psicológicos e sociais na saúde mental da puérpera, com foco na relação entre esses aspectos e o desenvolvimento de transtornos como a depressão pós-parto; analisar o papel da enfermagem no cuidado emocional da puérpera durante o período pós-parto, com foco nas práticas de suporte emocional para o bem-estar mental da mãe; examinar as estratégias de cuidado integral adotadas pela equipe de enfermagem para promover a saúde mental durante o puerpério, com ênfase no acompanhamento contínuo e personalizado. Diante disso, surge a seguinte questão: como o suporte emocional da enfermagem no puerpério pode influenciar a saúde mental materna e ajudar na prevenção e tratamento da depressão pós-parto?
Essa pesquisa justifica-se pelo índice aumentado da depressão pós-parto, que impacta negativamente o bem-estar da mulher e sua capacidade de exercer o papel de mãe. Nesse contexto, as equipes de enfermagem têm um papel crucial no suporte emocional, promovendo saúde mental e bem-estar. O cuidado e o apoio emocional são fundamentais para ajudar a mãe a enfrentar os desafios do pós-parto, fortalecendo-a para cuidar de si mesma e do bebê. Dessa forma, a pesquisa busca entender como a enfermagem pode contribuir de forma eficaz para a prevenção e o tratamento da depressão pós-parto, melhorando a promoção da saúde e do acolhimento continuo para às mulheres nesse período.
2 METODOLOGIA
Este estudo foi conduzido por meio de uma revisão integrativa da literatura, método que possibilita reunir, analisar e sintetizar o conhecimento científico disponível sobre determinado tema, permitindo uma análise crítica e abrangente das evidências encontradas. A escolha por essa abordagem se justifica pela necessidade de compreender, de forma sistemática, o impacto do suporte emocional oferecido pela enfermagem no período do puerpério, considerando o cuidado integral à saúde mental da puérpera. A análise abrangeu aspectos relacionados ao papel da enfermagem, aos fatores biopsicossociais e às estratégias de cuidado emocional desenvolvidas no pré-natal e no pós-parto. A elaboração desta revisão foi guiada pela seguinte questão norteadora: “Quais são os impactos do suporte emocional da enfermagem na saúde mental da puérpera, considerando os fatores biopsicossociais envolvidos no período do puerpério?”.
A busca bibliográfica foi realizada entre os meses de março e setembro de 2025, priorizando publicações entre 2020 e 2025, de forma a garantir atualidade e pertinência das informações. As bases de dados utilizadas foram PubMed, Lilacs, SciELO e BDENF, além de documentos oficiais do Ministério da Saúde, da Organização Mundial da Saúde (OMS) e legislações brasileiras voltadas à saúde mental e saúde da mulher. Os descritores empregados, selecionados no DeCS (Descritores em Ciências da Saúde), foram: “Saúde da Mulher”, “Promoção da Saúde” e “Depressão Pós-Parto”.
Foram estabelecidos como critérios de inclusão: artigos disponíveis na íntegra e de acesso gratuito, publicados em língua portuguesa, no período de 2020 a 2025, que abordassem diretamente a temática proposta e que contemplassem ao menos um dos eixos centrais do estudo: fatores biopsicossociais que influenciam a saúde mental da puérpera, o papel da enfermagem no suporte emocional e as estratégias de cuidado integral no ciclo gravídico-puerperal. Foram excluídos artigos duplicados, estudos fora do recorte temporal ou que não apresentassem relação direta com os objetivos do trabalho.
No processo de seleção, foram inicialmente identificados 619 estudos. Após a leitura de títulos e resumos, 586 forma excluídos por não atenderem ao meu tema, 4 por não estarem disponível na integra e 9 por estarem duplicados, restando 20 artigos. Desses, 9 forma excluídos por não responderem à questão norteadora, resultando em 8 artigos incluídos na revisão. Esse processo de identificação, seleção e inclusão dos estudos pode ser visualizado no fluxograma adaptado do modelo Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA) (Figura 1).
A análise do material coletado foi conduzida por meio de leitura exploratória, seletiva e analítica, buscando identificar conteúdos que respondessem aos objetivos específicos da pesquisa. Os dados foram organizados em categorias temáticas, respeitando os princípios da coerência teórica e metodológica.
Figura 1 – Fluxograma da busca de artigos.

Quadro 1: Distribuição dos artigos incluídos na revisão de acordo com o autor/ano, título, objetivo, tipo de estudo e resultados/conclusão.
| Autor/Ano | Título | Objetivo | Metodologia | Resultados/Conclusão |
| SILVA et al. (2024 | Identificação de sinais precoces de alteração/transtornos mentais em puérperas para promoção do autocuidado | Identificar sinais precoces de alterações e/ou transtornos mentais em puérperas para promoção do autocuidado. | Estudo quantitativo. | As puérperas participantes enquadram-se como mulheres em idade reprodutiva, classificadas como mães adolescentes e mães adultas jovens. São mulheres que reconhecem a necessidade da prática da do autocuidado, mas que possuem alguns entraves ligados às mais diferentes realidades e cotidiano em que estas estão inseridas, tornando fatores de risco para transtornos/alterações mentais durante o ciclo gravídico-puerperal. Conclusão: a efetivação da assistência integral à saúde das mulheres, ocorridas durante o pré-natal, parto e nascimento, são condições essenciais para a prevenção de transtornos e doenças mentais ocorridos numa fase tão ímpar que é o período puerperal. |
| SANTOS et al. (2021) | Sintomas de depressão pós-parto e sua associação com as características socioeconômicas e de apoio social | verificar a prevalência de sintomas de depressão pós-parto em puérperas atendidas em uma maternidade pública e sua associação com características socioeconômicas e de apoio socia | estudo epidemiológico, analítico, do tipo transversal | a prevalência de sintomas de DPP foi de 29,7%. A idade entre 14 e 24 anos (PR:1,60; 95%CI: 1,10–2,34), ter até 8 anos de escolaridade (RP:1,39; IC95%:1,01–2,14) e o baixo nível de suporte social afetivo (RP:1,52; IC95%:1,07–2,14) e emocional (RP:2,12; IC95%:1,41-3,19) estiveram associados à maior prevalência de sintomas de DPP. Conclusão e implicações para a prática: nesse contexto, os profissionais de saúde podem possuir um papel essencial no qual podem desenvolver, em conjunto, um plano de cuidados de acordo com as necessidades da mulher em período gravídico-puerperal. |
| SILVA et al. (2022) | Transtorno mental comum na gravidez e sintomas depressivos pós-natal no estudo MINA- Brasil: ocorrência e fatores associados | Investigar a ocorrência e os fatores associados com os transtornos mentais comuns na gestação e sintomas depressivos no pós-parto, bem como a associação entre ambos na Amazônia Ocidental Brasileira | Estudo observacional, quantitativo, de coorte prospectiva, com caráter descritivo e analítico | Um total de 461 mulheres completaram as duas avaliações clínicas na gestação; dessas, 247 completaram as três avaliações pós-parto. A ocorrência de transtorno mental comum durante a gestação foi de 36,2% e 24,5% na primeira e segunda avaliações, respectivamente, e a incidência cumulativa foi de 9,2%. Ademais, 50,3% mantiveram o transtorno entre as avaliações. Durante o pós-parto, aproximadamente 20% das mães apresentaram sintomatologia depressiva ao longo do primeiro ano de vida de seus filhos. A paridade (≥ 2) foi associada ao transtorno mental comum, enquanto a baixa escolaridade materna associou-se com sintoma depressivo pós- parto. Mulheres com transtorno mental comum nas duas avaliações na gravidez apresentaram 5,6 vezes mais chance (IC95% 2,50–12,60) de desenvolverem sintoma depressivo pós-parto. CONCLUSÃO: A ocorrência de transtorno mental comum em qualquer momento avaliado durante a gravidez, mas principalmente sua persistência a partir do segundo trimestre, foi fortemente associado ao sintoma depressivo posterior ao parto. Tais achados evidenciam a necessidade de rastreamento precoce e monitoramento da saúde mental de gestantes no início do pré-natal, a fim de reduzir possíveis impactos negativos para a saúde do binômio mãe-filho causados por tais eventos. |
| SANTOS et al. (2020) | Percepção de enfermeiros sobre diagnóstico e acompanhamento de mulheres com depressão pós-parto | Analisar as percepções de enfermeiros sobre diagnóstico e acompanhamento da depressão pós-parto em Divinópolis- MG | Estudo qualitativo e descritivo | Os enfermeiros não possuem suporte literário pré-definido para seguir caso deparem com mulheres em depressão pós- parto, sendo essas direcionadas para o psicólogo ou psiquiatra. Nas unidades não existem capacitação para os profissionais relacionados à temática, impactando negativamente nos atendimentos, tornando-o fragmentado. Não há um assessoramento por parte do município para auxiliar os profissionais de enfermagem a lidarem com essas mulheres. São utilizados mecanismos relacionados a busca ativa na maioria das unidades do estudo. Conclusão: É de suma importância o assessoramento municipal diretamente relacionado a temática, uma vez que contribui para um atendimento integral que vai de acordo com as diretrizes do Sistema Único de Saúde |
| Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia-Febrasgo. (2020) | Depressão pós-parto Protocolo FEBRASGO de Obstetrícia n°3 | Orientar profissionais de saúde sobre a definição, rastreamento, fatores de risco e tratamento da depressão pós-parto | Protocolo clínico baseado em evidências | A prevalência estimada é de 20%; fatores de risco incluem depressão prévia, ausência de apoio social e baixa escolaridade. Recomenda rastreamento sistemático e manejo multiprofissional desde o pré-natal |
| ALCANTARA et al. (2023) | Assistência de enfermagem diante do diagnóstico precoce da depressão pós-parto | Verificar como ocorre a assistência de enfermagem diante do diagnóstico precoce da depressão pós-parto | Estudo exploratório, descritivo, com abordagem qualitativa | Os enfermeiros demonstraram compreensão sobre a temática, destacando a importância da detecção precoce e identificação de sinais de alerta. Contudo, evidenciou-se carência de discussões acadêmicas sobre DPP e pouco aprendizado na graduação. Conclui-se que o vínculo entre enfermeiro e paciente é fundamental para rastrear riscos e realizar diagnóstico precoce. |
| BRITO, Ana Paula Almeida. (2023) | Implementação de evidências científicas no rastreio da depressão pós-parto | Avaliar o impacto de um protocolo institucional associado à implementação de práticas baseadas em evidências no rastreio da depressão pós-parto no HU-USP. | Revisão sistemática qualitativa e estudo de intervenção. | resultou em duas sínteses principais: a necessidade de capacitação e Após a implementação do protocolo institucional e das estratégias educativas, houve aumento expressivo na conformidade com as melhores práticas. Na auditoria de seguimento, os critérios analisados apresentaram taxas entre 89,6% e 100% de conformidade. A pesquisa demonstrou que a aplicação de práticas baseadas em evidências melhora significativamente o rastreio da depressão pós- parto, contribuindo para a qualidade do cuidado. As estratégias desenvolvidas serão mantidas na UCIN e expandidas para outras áreas do HU-USP. |
3 REVISÃO DE LITERATURA
Este capítulo apresenta uma análise teórica fundamentada em autores e documentos científicos que abordam a importância do suporte emocional oferecido pela enfermagem durante o puerpério. Os tópicos foram organizados conforme os objetivos específicos da pesquisa, permitindo uma compreensão aprofundada dos aspectos emocionais, sociais e profissionais envolvidos no cuidado integral à mulher após o parto.
3.1 Impacto dos fatores biopsicossociais na saúde mental da puérpera:
O pós-parto é um período delicado e cheio de transformações que vão muito além do nascimento do bebê. A mulher passa por uma queda repentina nos níveis dos hormônios estrogênio e progesterona, que durante a gestação eram mantidos principalmente pela placenta. Com a sua retirada, o corpo sofre um desequilíbrio hormonal (FEBRASGO. 2020).
Ao mesmo tempo, ela enfrenta mudanças físicas, como dores, cansaço intenso e a recuperação do parto, além da nova rotina com o bebê, que exige cuidados constantes e noites mal dormidas. Tudo isso, somado à pressão de se adaptar rapidamente ao papel de mãe, pode abalar profundamente o equilíbrio emocional da mulher, tornando esse período um momento de grande vulnerabilidade (SILVA et al., 2024).
Apesar das alterações biológicas terem grande impacto nesse período, elas não atuam sozinhas. Aspectos emocionais, como baixa autoestima, histórico de transtornos mentais, insegurança sobre a maternidade e experiências traumáticas anteriores também influenciam bastante. Além disso tem as questões sociais como falta de uma rede de apoio, dificuldades financeiras, sobrecarga de tarefas, conflitos familiares e isolamento. contribuem para fragilizar ainda mais a saúde mental. A junção de todos esses fatores mostra que o equilíbrio emocional da puérpera depende de uma rede complexa de elementos físicos, psicológicos e sociais, revelando que a saúde mental da puérpera é resultado da interação entre diferentes dimensões da vida: o corpo, a mente e o contexto social em que está inserida (SILVA et al. 2024).
No contexto do puerpério, esses fatores podem se manifestar através de transtornos emocionais que variam em intensidade e duração. O primeiro deles, e também o mais comum, é o chamado “baby blues”. É uma fase marcada por uma instabilidade emocional passageira, choro fácil, irritabilidade, cansaço e ansiedade, que costuma surgir nos primeiros dias após o parto e desaparecer espontaneamente até o 21º dia. Apesar de não se tratar de uma patologia, é um estado que precisa ser acompanhado de perto para evitar a progressão para transtornos mais sérios (ALCANTARA et al. 2023).
A depressão pós-parto (DPP) é uma condição mais séria e duradoura. Os sintomas geralmente surgem nas primeiras quatro semanas após o parto e incluem tristeza profunda e persistente, vazio, apatia, sensação de culpa, alterações no apetite e sono, fadiga extrema, perda de interesse nas atividades, desinteresse sexual, medo de não ser uma boa mãe e, em alguns casos, pensamentos de morte (ALCANTARA et al. 2023; SANTOS et al. 2022). A DPP afeta significativamente a capacidade da mulher de cuidar de si mesma e do bebê, além de prejudicar a formação do vínculo afetivo.
A psicose puerperal é considerada a forma mais grave dos transtornos mentais no puerpério e, embora rara, exige atenção imediata. Seus sintomas mais graves incluem alucinações, delírios, pensamentos suicidas ou de machucar o bebê, confusão mental, desorganização do pensamento e comportamento. Essa condição acomete principalmente mulheres com histórico pessoal ou familiar de transtorno bipolar ou psicose e necessita de intervenção psiquiátrica imediata (BRITO, 2023).
Diversos estudos também associam a ocorrência da DPP com fatores como gravidez não planejada, falta de apoio do parceiro, histórico de violência, baixa escolaridade, vulnerabilidade social, múltiplos filhos, desemprego, consumo excessivo de álcool ou uma experiência de parto negativa (SILVA et al. 2024; SANTOS et al. 2021)
Os estudos sobre a DPP revelam a importância de considerar a vida da mulher, seu ambiente social, suas condições financeiras, afetivas e seu histórico pessoal ao entender sua saúde mental. É fundamental perceber que o puerpério não se resume às mudanças hormonais, mas envolve diversos fatores interligados. Isso é essencial para criar cuidados mais eficazes e que considerem a mulher de forma mais humana.
Dessa forma, identificar precocemente os sinais de sofrimento emocional e compreender o impacto dos fatores biopsicossociais na vida da mulher é um passo importante para garantir uma maternidade mais saudável e segura. Isso permite que a puérpera seja acolhida em sua totalidade, recebendo o cuidado necessário para superar esse momento delicado com mais leveza e apoio.
3.2 O papel da enfermagem no cuidado emocional da puérpera
A atuação da enfermagem no período do puerpério não está resumida apenas no cuidado físico, mas principalmente no suporte emocional à mulher que está vivenciando mudanças repentinas em sua rotina, corpo e principalmente em sua identidade. Desde o pré-natal, o enfermeiro assume um papel fundamental na construção de vínculos com a gestante, contribuindo para seu bem-estar mental e para o fortalecimento da relação com a equipe de saúde. Esse vínculo também auxilia a mulher na vivência do seu papel materno, tornando esse período, muitas vezes desafiador, em uma experiência mais leve e significativa tanto para ela quanto para sua rede de apoio (FERREIRA, et al., 2021).
A presença do enfermeiro desde o início da gestação permite que ele acompanhe não apenas as condições clínicas da gestante, mas também os aspectos emocionais que se intensificam nesse período. Nas consultas de pré-natal, o enfermeiro não deve somente focar nas condutas do exame físico e laboratoriais, deve acolher a mãe com escuta ativa e um olhar holístico e integral, pois isso permite que a gestante exponha suas dúvidas e medo, o que constrói um vínculo entre profissional-paciente (ALCANTARA et al. 2023).
Essa escuta ativa é essencial para identificar medos, inseguranças e quaisquer sinais de instabilidade mental que podem se manifestar ainda durante a gravidez. No entanto, ainda existe um bloqueio entre as gestantes em relação as consultas de enfermagem, principalmente com aquelas que são mães de primeira viagem, existe uma resistência e receio em relação à consulta de enfermagem, dando mais importância ao atendimento médico. Essa percepção evidencia a necessidade de fortalecer a autonomia do profissional de enfermagem no contexto do cuidado pré-natal (ALCANTARA et al. 2023).
Cuidar da parte emocional da puérpera exige preparo técnico e sensibilidade, com um olhar mais atento que perceba não só o que ela fala, mas também seus gestos, expressões e tudo aquilo que não é dito com palavras. Nos primeiros dias após o parto, a mulher encontra-se emocionalmente fragilizada, podendo apresentar sintomas de tristeza, irritabilidade, insegurança ou sentimentos de incapacidade. O vínculo que o enfermeiro construiu no pré-natal faz toda diferença, porque nesse momento delicado ele se torna alguém em quem a mulher pode confiar e se apoiar. Por isso, manter esse vínculo desde o início da gestação é tão importante, pois permite que ela se sinta à vontade para se abrir, e o profissional possa de forma leve e acolhedora aplicar ações de cuidado e prevenção (FERREIRA, et al., 2021).
A atuação do enfermeiro permite observar sinais iniciais de quaisquer transtornos, como depressão pós-parto, e encaminhar a paciente para acompanhamento psicológico ou psiquiátrico, caso seja necessário. Além disso, o enfermeiro também pode atuar diretamente na prevenção, abordando o tema com sensibilidade e oferecendo orientações que ajudam a reduzir os riscos. Pelo vínculo estabelecido com a mulher durante o pré natal se torna mais fácil o enfermeiro ter autonomia e conseguir identificar sinais precoces e iniciar ações de cuidado que não se limitam apenas ao encaminhamento, mas que acolhem, orientam e fortalecem emocionalmente a puérpera (ALCANTARA et al. 2023).
Estudos evidenciam que a identificação precoce de fatores de risco emocionais durante o pré-natal e o puerpério pode reduzir significativamente a prevalência de depressão pós-parto, além de melhorar a qualidade do vínculo entre mãe e bebê. Esse acompanhamento preventivo está entre as diretrizes de políticas públicas como o Programa de Humanização no Pré-natal e Nascimento, proposto pela Rede Cegonha, que enfatiza a educação em saúde como estratégia para promover tranquilidade, confiança e vínculo na relação enfermeiro-mulher. (FERREIRA et al., 2021).
O cuidado humanizado feito pela enfermagem vai muito além das técnicas ou do momento do parto. É sobre a mulher ser tratada como protagonista da sua jornada, sendo ouvida e respeitada em cada etapa. Criar vínculo, acolher com empatia e respeitar tudo o que ela sente e vive nesse processo são atitudes que fazem toda a diferença na forma como o enfermeiro cuida nesse período. (FERREIRA, et al., 2021, p. 5).
A legislação brasileira também respalda esse cuidado. De acordo com a Lei nº 10.216, de setembro de 2001, garante o direito ao tratamento digno e humanizado para pessoas com transtornos mentais, o que inclui as puérperas que enfrentam desafios emocionais no pós-parto (Brasil, 2001). Dessa forma, é importante que a equipe de enfermagem esteja atenta e preparada para perceber possíveis sinais de sofrimento emocional, agindo com sensibilidade, responsabilidade e respeito, para garantir um cuidado completo e acolhedor à puérpera. Nesse contexto, a relação entre enfermeiro e paciente torna-se um fator determinante na qualidade da assistência. Essa relação deve se basear no diálogo, na confiança e na troca de informações, criando para a puérpera um ambiente de escuta e acolhimento. É essencial que o enfermeiro enxergue a mulher por completo, levando em conta não só os aspectos clínicos, mas também sua história de vida, sua rede de apoio, seu contexto social e como ela se sente em relação à maternidade. Essa abordagem melhora os serviços de saúde e ajuda a promover o bem-estar mental no pós-parto. (FERREIRA, et al., 2021, p. 5).
Assim o enfermeiro vai além de simplesmente executar procedimentos, assumindo um papel fundamental como facilitador do cuidado, contribuindo para a promoção do bem-estar mental, fortalecendo os vínculos afetivos e assegurando que a mulher se sinta verdadeiramente acolhida, apoiada e compreendida em sua nova jornada como mãe
3.3 Estratégias de cuidado integral adotadas pela equipe de enfermagem
Reconhecer o puerpério como uma etapa contínua do cuidado à mulher mesmo após o pré-natal, é fundamental para garantir um acompanhamento completo e sensível às suas necessidades. Esse período que por muitas vezes é deixado em segundo plano, é cheio de mudanças que influenciam a vida da mulher e da família. Por isso, a presença do enfermeiro não deve se encerrar com o parto. Pelo contrário, é nesse momento que seu papel se torna ainda mais importante, oferecendo um olhar amplo, empático e acolhedor para identificar possíveis sinais de sofrimento emocional e garantir um suporte verdadeiramente humanizado (SILVA et al. 2024).
Ainda é muito comum que mesmo após o parto, os cuidados se voltem exclusivamente para o bebê, enquanto as necessidades da mulher acabam sendo deixadas de lado. É justamente nesse momento que ela mais precisa de atenção e acolhimento. O pós-parto pode trazer um misto de sentimentos como insegurança, instabilidade emocional, dúvidas e até sensação de incapacidade frente aos novos desafios da maternidade. Por isso, o acompanhamento contínuo à puérpera não deve ser esquecido, mas sim fortalecido. (SILVA et al. 2024).
Existem estratégias de identificação precoce que se tornam fundamentais, como é o caso da Escala de Depressão Pós-Parto de Edimburgo (EPDS), ilustrada na figura 2, é uma ferramenta fácil e eficaz, composta por 10 perguntas que ajudam a identificar os sintomas mais comuns da depressão pós-parto, como alterações no humor, dificuldades para dormir, perda de prazer, pensamentos suicidas e sentimento de culpa. De fácil aplicação, ela pode ser usada tanto durante a gestação quanto no puerpério, permitindo ao enfermeiro identificar de forma precoce sinais de sofrimento emocional e direcionar as ações de cuidado de maneira mais assertiva. No Brasil, quando a pontuação atinge 12 pontos ou mais, é sinal de que é necessário investigar a possibilidade de depressão pós-parto (SILVA et al. 2022).
Figura 2 – Primeira parte da Escala de Depressão pós parto de Edimburgo (EPDS)

Vale ressaltar que a EPDS não substitui o diagnóstico clínico, mas é uma ferramenta valiosa que ajuda o profissional a identificar o momento certo de intervir. Ao utilizar essa estratégia, o enfermeiro reforça sua autonomia na Atenção Primária à Saúde (APS), ampliando seu papel para além dos cuidados físicos e oferecendo um acompanhamento mais completo e humanizado para a mulher. A aplicação da escala deve ser feita com sensibilidade, em um ambiente acolhedor, onde a mulher se sinta segura e confortável para responder de maneira honesta e sem receios (SILVA et al. 2022).
Diante dos desafios diários na assistência como a falta de estrutura nas unidades de saúde, insegurança profissional ou até a resistência das mulheres em compartilhar suas emoções, o vínculo criado com a família e o conhecimento do território se tornam aliados essenciais para que o enfermeiro consiga realizar cuidados eficazes e sensíveis. O primeiro contato com a puérpera, muitas vezes feito durante a consulta de vacinação ou o teste do pezinho, oferece uma oportunidade valiosa para escuta e acolhimento, sendo crucial para criar um ambiente seguro e de confiança (SANTOS et al.2020).
O acompanhamento domiciliar no puerpério surge como uma ideia de estratégia, pois permite ao Enfermeiro e Agente Comunitário da Saúde observar de perto o ambiente familiar, identificar sinais de sobrecarga emocional ou a falta de uma rede de apoio, e oferecer orientações personalizadas. Essas visitas não só fortalecem o vínculo com a puérpera, como também ajudam a esclarecer dúvidas, proporcionar tranquilidade e garantir que ela se sinta ouvida e acolhida, favorecendo o seu bem-estar emocional (SANTOS et al.2020).
Nesse contexto, é essencial investir na capacitação contínua da equipe de enfermagem, para que eles possam oferecer um cuidado emocional seguro, sensível e eficaz. A criação de espaços educativos, como rodas de conversa e encontros com gestantes, tem se mostrado uma estratégia valiosa. Essas iniciativas não apenas ajudam na prevenção da depressão pós-parto, mas também fortalecem a autonomia das mulheres, permitindo que se sintam mais confiantes e cuidadas em relação ao seu bem-estar emocional (ALCANTARA et al .2023).
Apesar dos desafios que ainda enfrentamos, tanto em termos de estrutura quanto de recursos nas instituições de saúde, é essencial que busquemos constantemente reorganizar e melhorar os serviços para garantir que a saúde mental da puérpera receba a atenção integral e eficaz que merece. A enfermagem desempenha um papel fundamental nesse processo, adotando estratégias de cuidado que não só promovem a saúde da mulher, mas também previnem problemas emocionais e fortalecem o laço tão precioso entre mãe e bebê. Reconhecer e atender às necessidades emocionais da puérpera vai além de um simples cuidado, é um compromisso com sua saúde integral, respeitando sua individualidade, contexto social e emocional (ALCANTARA et al .2023).
4 DISCUSSÃO
Em relação ao primeiro objetivo específico que trata do papel da enfermagem no cuidado emocional da puérpera, os autores consultados destacam a importância da atuação do enfermeiro já no pré-natal, que se torna uma etapa fundamental para a criação de um vínculo de confiança entre profissional e gestante. Nesse sentido, orientar a gestante desde o início da gravidez, por meio da educação em saúde, contribui para prepará-la emocionalmente e psicologicamente para os desafios que surgem após o parto. Essa preparação ajuda a mulher a enfrentar o puerpério com mais segurança, permitindo que se sinta mais confiante para lidar com as mudanças que acontecem nesse período (FERREIRA et al., 2021; ALCANTARA et al., 2023). Além disso, os estudos reforçam a importância de construir, ao longo do acompanhamento, uma rede de apoio que envolva tanto os profissionais quanto os familiares, garantindo que a mulher tenha com quem contar, o que pode reduzir os riscos de sofrer com transtornos emocionais nesse período. Com isso, o enfermeiro, ao criar uma relação de confiança com a gestante, consegue identificar com mais facilidade suas necessidades emocionais.
Apesar da relevância dessa relação, ainda existe uma certa resistência em algumas gestantes, principalmente as mulheres que estão na primeira gestação, que costumam valorizar mais o atendimento médico. Essa realidade evidencia a importância de fortalecer a autonomia do enfermeiro e aumentar o reconhecimento do seu papel no cuidado integral da saúde da mulher durante a gestação e o pós-parto. Também é essencial desenvolver políticas públicas e ações educativas que valorizem o trabalho da enfermagem, garantindo um apoio emocional mais consistente em todo o período gravídico-puerperal (ALCANTARA et al., 2023).
Silva et al. (2024) enfatizam a importância da escuta ativa e de um olhar integral durante o acompanhamento da gestante. Quando o enfermeiro acolhe e escuta as dúvidas, medos e inseguranças da mulher, ele contribui para que ela se sinta verdadeiramente confortável, fortalecendo o vínculo entre profissional e paciente. A combinação do acolhimento emocional com o conhecimento técnico é essencial para um cuidado humanizado, pois compreende e atende de forma ampla as necessidades físicas, emocionais e sociais da paciente.
Nesse contexto, Ferreira et al. (2021) destacam que a presença contínua do enfermeiro durante todo o ciclo gravídico-puerperal ajuda a identificar cedo os fatores de risco e permite criar estratégias de cuidado personalizadas, pois levam em conta as necessidades específicas de cada mulher. Dessa forma, o acompanhamento contínuo pela enfermagem favorece a promoção da saúde integral da puérpera, diminuindo os riscos de complicações emocionais e oferecendo um suporte mais eficaz ao longo desse período.
Quanto ao segundo objetivo específico, que investigou as estratégias de cuidado integral adotadas pela equipe de enfermagem, observou-se que o acolhimento contínuo, a escuta ativa e o acompanhamento no pós-parto são ações fundamentais para garantir um suporte emocional efetivo. Ferreira et al. (2021) apontam que práticas como visitas domiciliares, rodas de conversa e grupos de apoio são ferramentas eficazes para fortalecer o vínculo entre gestante e profissional. Nesse sentido, a visita domiciliar promovida pela Atenção Básica tem se mostrado essencial, pois permite uma escuta qualificada e um olhar mais atento à realidade daquela mulher e de sua família, viabilizando um cuidado mais próximo e integral tanto durante a gestação quanto no período puerperal. Mesmo diante de dificuldades e limitações do sistema de saúde, a atuação da enfermagem se destaca pelo acolhimento, pela escuta ativa e pelo compromisso em tornar os atendimentos mais humanizados (SANTOS et al., 2020; FERREIRA et al., 2021).
Nesse contexto, a Estratégia Saúde da Família (ESF) tem se tornado importante no cuidado à mulher durante o puerpério, período após o parto. Por meio da ESF, o enfermeiro atua próximo à comunidade e em conjunto com outros profissionais da saúde, o que permite uma compreensão mais completa da realidade de cada puérpera. Isso facilita o reconhecimento de situações que podem afetar sua saúde emocional, como a falta de apoio da família, dificuldades financeiras ou até experiências anteriores com transtornos mentais. Entretanto, ainda existem desafios relacionados à capacitação das equipes de enfermagem para identificar e lidar adequadamente com quadros de depressão pós-parto (SANTOS et al., 2021; SILVA et al., 2022).
Embora estratégias de saúde pública no Brasil recomendem o uso de instrumentos de triagem, como a Escala de Depressão Pós-Parto de Edimburgo (EPDS), sua aplicação ainda ocorre de forma irregular, devido à falta de familiaridade ou treinamento dos profissionais com esse tipo de abordagem. É preciso investir na formação contínua das equipes para garantir que as estratégias sejam aplicadas na prática, promovendo um cuidado integral e atento às necessidades emocionais das mulheres durante a gestação e o puerpério. Para apoiar esse processo de identificação precoce, entre as diversas práticas adotadas pela equipe de enfermagem no cuidado à puérpera, destaca-se o uso da EPDS, ferramenta de fácil aplicação e importante para o rastreamento inicial da DPP (SILVA et al., 2022).
Em relação ao terceiro objetivo específico, os resultados mostram que a saúde mental da puérpera é afetada por uma combinação de fatores biológicos, emocionais e sociais. Embora a queda hormonal após o parto seja um dos elementos envolvidos, ela não é suficiente para explicar sozinha o sofrimento vivido por muitas mulheres. Silva et al. (2024) e Santos et al. (2021) reforçam que sentimentos de insegurança, falta de apoio, sobrecarga e experiências traumáticas anteriores também têm forte impacto nesse período. Um exemplo disso é o “baby blues”, que afeta grande parte das puérperas nos primeiros dias após o parto. Apesar de passageiro, esse quadro exige atenção, pois pode evoluir para a depressão pós-parto se não houver suporte adequado (ALCANTARA et al., 2023).
A DPP, por sua vez, tem sintomas mais intensos e duradouros e está fortemente associada à ausência de rede de apoio, dificuldades financeiras e contextos de vulnerabilidade social. Nos casos mais graves, como a psicose puerperal, o risco se torna ainda maior, exigindo intervenção imediata da equipe multiprofissional (BRITO, 2023; SILVA et al., 2024).
Tabela 1 – Comparativo entre baby blues, DPP e psicose puerperal
| Condiçã o | Início dos sintomas | Duração esperada | Sintomas principais | Gravidade |
| Baby blues | 2º ao 5º dia após o parto | Até 21 dias | Irritabilidade, choro fácil, ansiedade leve | Leve/transitória |
| DPP | Durante até 4 semanas após o parto | Sem tratamento, pode durar meses | Tristeza profunda, apatia, distúrbios de sono, dificuldade de vínculo com o bebê | Moderada/grave |
| Psicose puerper al | Entre 48h e 2 semanas após o parto | Prolongada sem intervenção | Delírios, alucinações, risco de agressão a si ou ao bebê | Grave/emergencial |
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em vista dos argumentos apresentados ao longo deste trabalho, é possível afirmar que o suporte emocional oferecido pela enfermagem no puerpério tem um papel essencial na prevenção da saúde mental da puérpera. Por ser um período de muitas mudanças, o cuidado do profissional de enfermagem pode fazer a diferença. A pergunta norteadora ‘’quais são os impactos do suporte emocional da enfermagem na saúde mental da puérpera, considerando os fatores biopsicossociais envolvidos no período do puerpério?’’ foi respondida. Ficou claro que o suporte emocional influencia diretamente o bem-estar mental daquela mulher, contribuindo tanto para a prevenção quanto para o tratamento da depressão pós-parto. Quando a equipe de enfermagem oferece apoio atento e contínuo, os impactos negativos das dificuldades físicas, emocionais e sociais tendem a diminuir, o que ajuda no seu bem-estar e recuperação.
Tendo em vista os aspectos observados, os objetivos propostos neste trabalho foram alcançados. O objetivo geral que era avaliar o impacto dos fatores emocionais, psicológicos e sociais na saúde mental da mulher, foi atendido ao demonstrar como esses elementos se interligam e aumentam o risco de transtornos como a depressão pós-parto.
O primeiro objetivo específico que era analisar o papel da enfermagem no cuidado emocional, revelou que o enfermeiro tem um papel fundamental desde o pré-natal até o pós-parto, construindo vínculos e oferecendo apoio emocional continuo. E o terceiro que era examinar as estratégias de cuidado integral, destacou práticas como a escuta ativa, o uso da EDPS, as visitas domiciliares e a rede de apoio como formas eficaz.
Com isso, fica evidente que o cuidado da enfermagem no puerpério precisa ir além das orientações técnicas. É essencial que o enfermeiro una conhecimento científico com sensibilidade para acolher a mulher em sua totalidade. Também é fundamental fortalecer a rede de apoio, incentivar rodas de conversa e integrar a atuação da equipe multiprofissional, criando espaços seguros onde a mulher possa se sentir amparada, compreendida e fortalecida. Esse olhar mais humano contribui diretamente para a promoção da saúde mental materna e para um puerpério mais leve e digno. Levando-se em consideração esses aspectos, é fundamental que os profissionais enxerguem a mulher de forma integral e com sensibilidade, respeitando sua história e emoções.
A capacitação contínua, a criação de espaços para escuta e o fortalecimento dos vínculos são caminhos importantes para oferecer um cuidado mais humano e eficaz no pós-parto. Portanto, espera-se que este estudo sirva como contribuição para a valorização do cuidado emocional no puerpério, e que incentive novas práticas e reflexões que priorizem a saúde mental materna como parte essencial da assistência em enfermagem.
REFERÊNCIAS
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1Graduando do Curso de Enfermagem, do Centro Universitário do Planalto Central Apparecido dos Santos – Uniceplac. E-mail: carolinebaptistadefreitas@gmail.com
2Mestre em Enfermagem pelo PPGENF/UNB. Especialista em Docência em Enfermagem. Graduada em Enfermagem. Docente no Centro Universitário do Planalto Central Apparecido dos Santos – Uniceplac. Brasília, Distrito Federal, Brasil. E-mail: karina.ogliari@uniceplac.edu.br
3Mestra em Engenharia Biomédica. Pós-graduada em Docência do Ensino Superior e Gestão em Educação Ambiental. Graduada em Ciências Biológicas e Pedagogia. Docente no Centro Universitário do Planalto Central Apparecido dos Santos – Uniceplac. Brasília, Distrito Federal, Brasil. E-mail: elisangela.aoyama@uniceplac.edu.br
