ENDOMETRIOSE E SAÚDE MENTAL: IMPACTOS PSICOLÓGICOS E IMPLICAÇÕES CLÍNICAS EM MULHERES

ENDOMETRIOSIS AND MENTAL HEALTH: PSYCHOLOGICAL IMPACTS AND CLINICAL IMPLICATIONS IN WOMEN

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202602252038


Lara Fiorino1
Pedro Paulo Coutinho Toribio2


Resumo

A endometriose é uma doença ginecológica crônica, inflamatória e estrogênio-dependente que acomete mulheres em idade reprodutiva, sendo caracterizada por dor pélvica crônica, dismenorreia, dispareunia e infertilidade. Além de suas repercussões físicas, evidências crescentes indicam que a endometriose exerce impacto significativo sobre a saúde mental, estando associada a maior prevalência de sintomas depressivos, ansiedade, estresse psicológico e prejuízos na qualidade de vida. O presente estudo teve como objetivo analisar criticamente a literatura científica acerca da relação entre endometriose e saúde mental em mulheres, identificando os principais fatores associados ao sofrimento psicológico e as implicações clínicas dessa condição. Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, realizada nas bases PubMed/MEDLINE, SciELO, LILACS e Google Scholar, contemplando estudos publicados nos últimos dez anos, além de referências clássicas relevantes. Os resultados evidenciam que a dor pélvica crônica constitui o principal mediador entre endometriose e sofrimento psíquico, estabelecendo uma relação bidirecional entre dor e saúde mental. Observou-se maior prevalência de depressão e ansiedade em mulheres com endometriose, independentemente da gravidade anatômica da doença, bem como impacto psicológico associado ao atraso diagnóstico e à infertilidade. Ademais, a literatura aponta limitações das abordagens centradas exclusivamente no manejo biomédico, destacando a insuficiente atenção aos aspectos emocionais da doença. Conclui-se que a endometriose deve ser compreendida como uma condição de caráter biopsicossocial, demandando estratégias de cuidado integradas que incluam a avaliação sistemática da saúde mental e abordagens multidisciplinares. A incorporação desses aspectos no cuidado clínico é fundamental para a melhoria dos desfechos terapêuticos e da qualidade de vida das mulheres acometidas.

Palavras-chave: Endometriose; Saúde mental; Dor crônica; Depressão; Ansiedade.

1 INTRODUÇÃO

A endometriose é uma doença ginecológica crônica, inflamatória e estrogênio-dependente, caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade uterina, acometendo principalmente mulheres em idade reprodutiva (GIUDICE; KAO, 2004). Estima-se que a condição afete cerca de 10% das mulheres nessa faixa etária, configurando-se como importante problema de saúde pública devido à sua elevada prevalência, impacto funcional e custos socioeconômicos associados (ZONDERVAN et al., 2020).

Clinicamente, a endometriose manifesta-se por sintomas como dor pélvica crônica, dismenorreia, dispareunia, dor lombar e infertilidade, os quais podem variar em intensidade e frequência ao longo do tempo (GIUDICE, 2010). O caráter crônico e recorrente da doença contribui para limitações significativas na vida pessoal, social e profissional das pacientes, comprometendo de forma expressiva sua qualidade de vida (DE GRAAFF et al., 2013).

Além das repercussões físicas, evidências crescentes apontam que a endometriose está associada a impactos substanciais sobre a saúde mental das mulheres acometidas. Estudos observacionais demonstram maior prevalência de sintomas depressivos, ansiedade, estresse psicológico e sofrimento emocional em pacientes com endometriose quando comparadas à população feminina sem a doença (FACCHIN et al., 2015; CHEN et al., 2016).

A dor crônica, elemento central da endometriose, desempenha papel fundamental nessa relação, uma vez que está intimamente associada a alterações emocionais e cognitivas. A literatura médica reconhece a interação bidirecional entre dor e saúde mental, na qual transtornos psíquicos podem amplificar a percepção dolorosa, enquanto a dor persistente atua como fator desencadeante ou agravante de quadros psiquiátricos (LORENZ et al., 2017).

Adicionalmente, o atraso diagnóstico, frequentemente relatado em mulheres com endometriose, contribui para sentimentos de invalidação, frustração e desesperança. Estudos indicam que o tempo médio entre o início dos sintomas e o diagnóstico pode ultrapassar sete anos, período no qual o sofrimento físico e emocional tende a se intensificar (NOHARA et al., 2019; ZONDERVAN et al., 2020).

A infertilidade associada à endometriose representa outro fator relevante no impacto psicológico da doença. A impossibilidade ou dificuldade de engravidar pode gerar sentimentos de perda, culpa, baixa autoestima e sintomas depressivos, especialmente em contextos socioculturais nos quais a maternidade ocupa papel central na identidade feminina (FACCHIN et al., 2015).

Apesar dessas evidências, observa-se que a abordagem clínica da endometriose permanece predominantemente centrada no controle da dor e na preservação da fertilidade, com atenção limitada aos aspectos psicológicos e emocionais da doença. Essa fragmentação do cuidado contribui para o subdiagnóstico de transtornos mentais e para a ausência de estratégias terapêuticas integradas (ZONDERVAN et al., 2020).

A Organização Mundial da Saúde reconhece que condições crônicas associadas à dor demandam abordagens biopsicossociais, integrando cuidados físicos e mentais. No entanto, na prática clínica, a saúde mental das mulheres com endometriose ainda é frequentemente negligenciada, apesar de seu impacto direto sobre a adesão ao tratamento e os desfechos clínicos (WHO, 2022).

Diante desse contexto, coloca-se o seguinte problema de pesquisa: quais são os principais impactos da endometriose sobre a saúde mental das mulheres e de que forma esses aspectos têm sido abordados na literatura médica contemporânea? Parte-se da hipótese de que mulheres com endometriose apresentam maior prevalência de transtornos mentais, especialmente depressão e ansiedade, em comparação à população feminina geral, sendo esses desfechos fortemente associados à dor crônica, à infertilidade e ao atraso diagnóstico, além da ausência de uma abordagem multidisciplinar no cuidado.

Assim, uma revisão narrativa da literatura mostra-se pertinente para integrar as evidências disponíveis, identificar lacunas no conhecimento e contribuir para uma compreensão ampliada da saúde mental no contexto da endometriose.

2 METODOLOGIA

Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, cujo objetivo foi sintetizar e analisar criticamente as evidências científicas disponíveis acerca da relação entre endometriose e saúde mental em mulheres. A escolha do delineamento narrativo justifica-se pela necessidade de integrar diferentes tipos de estudos, modelos conceituais e abordagens clínicas, permitindo uma compreensão ampla e contextualizada do tema.

A busca bibliográfica foi realizada nas seguintes bases de dados eletrônicas, amplamente utilizadas na área da saúde: PubMed/MEDLINE, SciELO, LILACS e Google Scholar. Essas bases foram selecionadas por sua relevância na indexação de periódicos médicos nacionais e internacionais, bem como por sua abrangência temática. Foram utilizados descritores controlados e não controlados, combinados por meio de operadores booleanos, incluindo termos em inglês e português.

Os principais descritores empregados foram: “endometriosis”, “mental health”, “depression”, “anxiety”, “psychological distress”, “chronic pain”, “quality of life”, bem como seus correspondentes em português: “endometriose”, “saúde mental”, “depressão”, “ansiedade”, “sofrimento psicológico”, “dor crônica” e “qualidade de vida”. As combinações mais utilizadas incluíram: endometriosis AND mental health; endometriosis AND depression; endometriosis AND anxiety.

Foram incluídos artigos científicos que abordassem a relação entre endometriose e aspectos da saúde mental em mulheres, publicados em periódicos médicos revisados por pares, nos idiomas português, inglês ou espanhol, com publicação nos últimos 10 anos, a fim de garantir a atualidade das evidências. Também foram incluídos estudos clássicos considerados fundamentais para a compreensão conceitual do tema. Foram considerados elegíveis estudos observacionais, ensaios clínicos, revisões sistemáticas, meta-análises e revisões narrativas relevantes. Foram excluídos artigos duplicados, estudos cujo foco principal não fosse a endometriose ou a saúde mental, publicações sem acesso ao texto completo, bem como editoriais, cartas ao editor e resumos de congressos.

A extração dos dados foi realizada de forma narrativa e descritiva, a partir da leitura integral dos artigos selecionados. As informações extraídas incluíram: autor e ano de publicação, tipo de estudo, população avaliada, principais desfechos relacionados à saúde mental (como depressão, ansiedade, estresse psicológico e qualidade de vida), além de fatores associados, como dor crônica, infertilidade e atraso diagnóstico. Os dados foram organizados de maneira sistemática, permitindo a identificação de padrões, convergências e divergências entre os estudos, bem como lacunas no conhecimento científico sobre o tema.

A análise dos dados foi conduzida por meio de síntese narrativa temática, estratégia compatível com o delineamento de revisão narrativa. Os estudos foram agrupados de acordo com eixos temáticos previamente definidos, incluindo: impacto da dor crônica na saúde mental, prevalência de transtornos mentais em mulheres com endometriose, influência da infertilidade e do atraso diagnóstico, e implicações clínicas da abordagem multidisciplinar. A interpretação dos achados priorizou a integração crítica das evidências, considerando o contexto clínico, metodológico e conceitual de cada estudo, sem a realização de análise estatística quantitativa, conforme a natureza do método adotado.

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

A análise dos estudos selecionados evidencia consenso na literatura médica quanto ao impacto significativo da endometriose sobre a qualidade de vida das mulheres acometidas, extrapolando os limites dos sintomas físicos e alcançando dimensões emocionais, psicológicas e sociais. Revisões amplas demonstram que a endometriose deve ser compreendida como uma condição crônica de caráter sistêmico, cujas repercussões vão além da esfera ginecológica, afetando de forma persistente o bem-estar global das pacientes (GIUDICE; KAO, 2004; ZONDERVAN et al., 2020). Os estudos analisados apontam a dor pélvica crônica como o principal mediador entre endometriose e sofrimento psicológico. Evidências indicam que a intensidade e a persistência da dor estão diretamente associadas a maiores níveis de ansiedade, depressão e estresse psicológico, configurando uma relação bidirecional entre dor e saúde mental. Esse achado é consistente em estudos observacionais e revisões narrativas, reforçando o papel central da dor como fator desencadeante e mantenedor do sofrimento psíquico (LORENZ et al., 2017; NNOAHAM et al., 2011). A prevalência de transtornos mentais em mulheres com endometriose mostrou-se significativamente superior àquela observada na população feminina geral. Revisões sistemáticas indicam taxas elevadas de sintomas depressivos e ansiosos, independentemente da gravidade anatômica da doença, sugerindo que o impacto psicológico não está necessariamente correlacionado apenas à extensão das lesões, mas à experiência subjetiva da doença (FACCHIN et al., 2015; CHEN et al., 2016). Outro aspecto recorrente nos estudos analisados refere-se ao atraso diagnóstico, frequentemente relatado por mulheres com endometriose. O prolongado período entre o início dos sintomas e o diagnóstico definitivo contribui para sentimentos de invalidação, frustração e desesperança, agravando o sofrimento emocional. A literatura destaca que a demora no reconhecimento da doença reforça experiências negativas com o sistema de saúde, aumentando o risco de sintomas depressivos e ansiedade (NNOAHAM et al., 2011; ZONDERVAN et al., 2020). A infertilidade associada à endometriose emerge como fator adicional de impacto sobre a saúde mental. Estudos específicos demonstram que mulheres com endometriose e dificuldade reprodutiva apresentam maiores índices de sofrimento psicológico, incluindo baixa autoestima, sintomas depressivos e ansiedade, especialmente em contextos socioculturais nos quais a maternidade é fortemente valorizada (FACCHIN et al., 2017; DE GRAAFF et al., 2013). A análise dos estudos também evidencia prejuízos relevantes na vida social, afetiva e laboral das pacientes. A dor recorrente e imprevisível, associada à fadiga e ao sofrimento emocional, compromete a produtividade, as relações interpessoais e a participação social, contribuindo para isolamento e piora da qualidade de vida. Esses achados reforçam o impacto psicossocial amplo da endometriose (DE GRAAFF et al., 2013; NNOAHAM et al., 2011). No que se refere às estratégias de cuidado, os estudos analisados convergem ao apontar limitações das abordagens exclusivamente biomédicas. A literatura destaca que o tratamento centrado apenas no controle da dor ou na intervenção cirúrgica, sem considerar os aspectos emocionais, mostra-se insuficiente para melhorar os desfechos globais das pacientes (LAGANÀ et al., 2019). Por outro lado, evidências emergentes sugerem que abordagens multidisciplinares, integrando ginecologia, psicologia e, quando necessário, psiquiatria, estão associadas a melhores resultados clínicos e psicossociais. Intervenções psicológicas, como terapia cognitivo-comportamental e estratégias de manejo do estresse, demonstram potencial benefício na redução do sofrimento emocional e na melhora da qualidade de vida, embora ainda existam limitações quanto à padronização e duração dessas intervenções (ZHANG et al., 2022; LAGANÀ et al., 2019). Apesar da consistência dos achados, a análise crítica dos estudos revela lacunas importantes na literatura, incluindo a escassez de estudos longitudinais, a heterogeneidade dos instrumentos utilizados para avaliação da saúde mental e a limitação na avaliação da efetividade a longo prazo das intervenções psicológicas. Essas limitações dificultam a comparação entre estudos e reforçam a necessidade de pesquisas futuras com delineamentos mais robustos (FACCHIN et al., 2015; ZONDERVAN et al., 2020). De forma integrada, a análise da literatura sustenta a hipótese desta revisão narrativa, indicando que a endometriose está associada a maior prevalência de sofrimento psicológico e transtornos mentais, fortemente relacionados à dor crônica, infertilidade e atraso diagnóstico, enquanto estratégias de cuidado multidisciplinares emergem como abordagem promissora, porém ainda sub explorada na prática clínica.

4 DISCUSSÃO

Os achados desta revisão narrativa corroboram a literatura médica ao demonstrar que a endometriose exerce impacto significativo e multifacetado sobre a saúde mental das mulheres acometidas. A análise integrada dos estudos selecionados reforça que a doença não pode ser compreendida apenas sob a perspectiva ginecológica, uma vez que suas repercussões psicológicas e psicossociais são amplamente documentadas e clinicamente relevantes (GIUDICE; KAO, 2004; ZONDERVAN et al., 2020).

A dor pélvica crônica emerge como elemento central na relação entre endometriose e sofrimento psicológico. Estudos consistentes indicam que a intensidade, a duração e a imprevisibilidade da dor estão associadas a maiores níveis de ansiedade, depressão e estresse psicológico, configurando uma relação bidirecional já bem estabelecida na literatura sobre dor crônica (LORENZ et al., 2017). Esses achados sustentam a compreensão de que o manejo inadequado da dor pode contribuir diretamente para o agravamento dos desfechos em saúde mental. A elevada prevalência de sintomas depressivos e ansiosos observada nos estudos analisados reforça evidências prévias de que mulheres com endometriose apresentam risco aumentado para transtornos mentais em comparação à população feminina geral.

Revisões sistemáticas apontam que esse risco independe, em muitos casos, da extensão anatômica da doença, sugerindo que fatores subjetivos, como a experiência da dor e o impacto funcional, desempenham papel determinante no sofrimento psicológico (FACCHIN et al., 2015; CHEN et al., 2016).

Outro aspecto relevante discutido na literatura refere-se ao atraso diagnóstico, frequentemente relatado por pacientes com endometriose. O prolongado intervalo entre o início dos sintomas e o diagnóstico definitivo contribui para sentimentos de invalidação, descrédito e frustração, intensificando o sofrimento emocional e comprometendo a relação médico-paciente (NNOAHAM et al., 2011; ZONDERVAN et al., 2020).

Esse fator reforça a necessidade de maior sensibilização dos profissionais de saúde para o reconhecimento precoce da doença. A infertilidade associada à endometriose também se destaca como importante determinante do impacto psicológico. Estudos indicam que mulheres com dificuldade reprodutiva apresentam maiores índices de ansiedade, depressão e sofrimento emocional, especialmente em contextos socioculturais nos quais a maternidade ocupa papel central na identidade feminina (FACCHIN et al., 2017).

Esse achado evidencia a necessidade de abordagem sensível e integrada nos serviços de saúde reprodutiva. Os estudos analisados apontam ainda prejuízos significativos na qualidade de vida, produtividade laboral e relações interpessoais das mulheres com endometriose. A combinação entre dor crônica, sofrimento psicológico e limitações funcionais contribui para isolamento social e redução da participação em atividades cotidianas, reforçando o impacto psicossocial amplo da doença (DE GRAAFF et al., 2013; NNOAHAM et al., 2011).

No que se refere às estratégias de cuidado, a literatura evidencia limitações importantes das abordagens centradas exclusivamente no tratamento biomédico. Embora o controle da dor e o manejo hormonal sejam fundamentais, estudos indicam que essas estratégias, quando isoladas, não são suficientes para melhorar de forma sustentável os desfechos psicológicos das pacientes (LAGANÀ et al., 2019).

Por outro lado, abordagens multidisciplinares, integrando cuidados ginecológicos, psicológicos e psiquiátricos, mostram-se promissoras. Intervenções psicológicas estruturadas, como terapias cognitivas e estratégias de manejo do estresse, apresentam potencial benefício na redução do sofrimento emocional e na melhora da qualidade de vida, embora ainda haja escassez de estudos longitudinais que avaliem sua efetividade a longo prazo (ZHANG et al., 2022).

Apesar da robustez dos estudos incluídos, esta revisão apresenta limitações inerentes ao delineamento narrativo, como a ausência de avaliação sistemática da qualidade metodológica e a possibilidade de viés de seleção. No entanto, a abordagem narrativa permitiu integrar diferentes perspectivas conceituais e clínicas, oferecendo uma visão abrangente e crítica sobre a saúde mental no contexto da endometriose (FACCHIN et al., 2015).

5 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com base na análise da literatura científica, conclui-se que a endometriose está fortemente associada a impactos negativos sobre a saúde mental das mulheres, com aumento da prevalência de sintomas depressivos, ansiedade e sofrimento psicológico. Esses desfechos estão intimamente relacionados à dor pélvica crônica, ao atraso diagnóstico, à infertilidade e às limitações funcionais impostas pela doença (ZONDERVAN et al., 2020; FACCHIN et al., 2015).

Os achados desta revisão sustentam a hipótese de que a endometriose deve ser compreendida como uma condição crônica de caráter biopsicossocial, demandando abordagens terapêuticas integradas que ultrapassem o foco exclusivo nos aspectos ginecológicos. A negligência dos componentes psicológicos pode comprometer a adesão ao tratamento e os desfechos clínicos globais.

Dessa forma, torna-se fundamental a incorporação sistemática da avaliação da saúde mental no cuidado às mulheres com endometriose, bem como o fortalecimento de estratégias multidisciplinares que integrem ginecologia, psicologia e, quando necessário, psiquiatria. Ademais, recomenda-se que futuras pesquisas priorizem delineamentos longitudinais e intervenções padronizadas, a fim de produzir evidências mais robustas sobre o manejo do sofrimento psicológico nessa população (ZHANG et al., 2022; LAGANÀ et al., 2019).

Em síntese, esta revisão narrativa contribui para a consolidação do conhecimento sobre a relação entre endometriose e saúde mental, reforçando a necessidade de um cuidado integral, humanizado e baseado em evidências, capaz de melhorar não apenas os desfechos clínicos, mas também a qualidade de vida das mulheres acometidas pela doença.

REFERÊNCIAS

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1Discente do Curso Superior de Medicina da UNESC Campus colatina

2Docente do Curso Superior de Psicologia da Multivix Campus Vitória. Mestre em Psicologia Social (PPGPS/UERJ).