REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511301727
Bernardo Barcelos Coutinho
Cibele Azevedo de Jesus
Gabriel Carvalho de Almeida
Livia dos Santos Vieira
Patrícia Gomes Mendonça
Vívian da Silva Souza Marins
Profa. Viviane Lopes Brair
RESUMO
A Encefalopatia Espongiforme Bovina (EEB) é uma enfermidade priônica cuja repercussão sanitária ultrapassa o ambiente rural, alcançando a saúde pública e exigindo atenção constante dos profissionais de enfermagem. Ao lidar com um agravo de transmissão complexa, que envolve a contaminação de rebanhos, o risco alimentar e a vigilância epidemiológica, a enfermagem assume papel essencial tanto na orientação quanto no monitoramento de possíveis casos suspeitos. Diante dessa relevância, o objetivo deste estudo foi compreender como a enfermagem atua na prevenção, detecção e manejo das situações relacionadas à EEB, considerando os protocolos nacionais e as diretrizes de biossegurança estabelecidas no Brasil. Para isso, realizou-se uma pesquisa bibliográfica em bases científicas reconhecidas, utilizando artigos, manuais governamentais e publicações nacionais entre 2006 e 2023, selecionados a partir dos descritores “doenças priônicas”, “biossegurança”, “zoonoses” e “enfermagem”. A análise apontou que a prevenção depende de vigilância rigorosa, educação sanitária, inspeção adequada de produtos de origem animal e articulação entre setores da saúde e da agropecuária. Observou-se também que a prática da enfermagem contribui de forma decisiva para reduzir riscos, orientar comunidades e apoiar estratégias de segurança alimentar. Os resultados reforçam a importância da formação contínua e da presença ativa desse profissional em contextos de risco sanitário.
Palavras-chave: Enfermagem; Encefalopatia Espongiforme Bovina; Biossegurança; Vigilância Epidemiológica.
1. INTRODUÇÃO
A Encefalopatia Espongiforme Bovina (EEB) tornou-se, ao longo das últimas décadas, um marco importante no debate sobre doenças priônicas e seus impactos na saúde coletiva. A enfermidade ganhou destaque inicialmente na Europa, mas seus efeitos repercutiram em todo o mundo e despertaram um movimento global de fortalecimento das medidas de vigilância sanitária. No Brasil, embora seja considerada de ocorrência rara, a EEB exige atenção constante, principalmente porque envolve rotinas de inspeção, segurança alimentar e monitoramento de rebanhos. Pesquisadores brasileiros têm discutido os riscos associados a doenças priônicas e reforçado que o cuidado com o ciclo produtivo animal deve ser permanente para evitar episódios de contaminação que possam repercutir na saúde humana, como ressalta Barbosa et al. (2006) e Castro et al. (2012).
Nesse cenário, os serviços de saúde se veem diante da necessidade de compreender que agravos de origem animal não se restringem ao campo veterinário. A enfermagem, ao atuar em vigilância epidemiológica, educação sanitária e orientação de populações expostas, torna-se parte essencial desse processo. A literatura evidencia que profissionais de saúde lidam diariamente com protocolos de biossegurança e com o reconhecimento de riscos biológicos emergentes, conforme discutem Freitas et al. (2020) e Souza et al. (2020). Isso implica que agravos como a EEB precisam ser compreendidos para além do aspecto técnico, envolvendo a percepção do risco, a comunicação clara com a população e a adoção de práticas seguras em ambientes de atendimento.
Outro ponto central é que doenças priônicas possuem características particulares, já que não se comportam da mesma maneira que infecções bacterianas ou virais. Elas envolvem agentes que resistem a técnicas tradicionais de desinfecção e podem provocar impactos severos na cadeia alimentar quando não são identificadas a tempo. Gonçalves et al. (2013) destacam que medidas sanitárias preventivas dependem tanto de políticas públicas bem estruturadas quanto da capacitação profissional. O Ministério da Agricultura e Pecuária (2021) reforça essa perspectiva ao apontar que a prevenção da EEB requer alinhamento entre diferentes setores e atualização permanente dos protocolos de controle.
No campo da saúde coletiva, a enfermagem é chamada a colaborar com ações intersetoriais, acompanhando investigações epidemiológicas, orientando práticas seguras e participando de processos educativos que envolvem comunidades vulneráveis. Costa e Silva (2021) observam que o enfermeiro tem papel estratégico na identificação precoce de zoonoses e na mediação entre serviços de saúde e população, o que reforça sua responsabilidade no contexto da EEB. Essa atuação torna-se ainda mais relevante quando associada às diretrizes institucionais, como as do Ministério da Saúde (2020), que orientam a vigilância de doenças priônicas no território nacional.
Diante disso, o interesse por esse tema se justifica pela relevância crescente da segurança alimentar, pela necessidade de fortalecer a vigilância epidemiológica e pelo papel decisivo da enfermagem no enfrentamento de agravos que ultrapassam fronteiras entre saúde humana e animal. A EEB, apesar de rara no Brasil, continua sendo um desafio sanitário mundial e expõe fragilidades que precisam ser discutidas, sobretudo no âmbito dos serviços de saúde. Assim, permanece a seguinte problemática: como a enfermagem pode fortalecer a prevenção e o controle da Encefalopatia Espongiforme Bovina no contexto brasileiro?
O objetivo deste trabalho é analisar a atuação da enfermagem no enfrentamento da EEB, discutindo práticas de vigilância, biossegurança, educação sanitária, controle de riscos e articulação com setores responsáveis pela inspeção e segurança de produtos de origem animal. Busca-se compreender de que maneira esse profissional contribui para minimizar riscos epidemiológicos, orientar populações e apoiar estratégias voltadas à saúde pública.
A metodologia adotada foi baseada em pesquisa bibliográfica, com seleção de artigos científicos, documentos oficiais e materiais técnicos publicados entre 2016 e 2023. Foram utilizados descritores como “Encefalopatia Espongiforme Bovina”, “doenças priônicas”, “enfermagem”, “biossegurança”, “zoonoses” e “segurança alimentar”. Os critérios de inclusão contemplaram publicações brasileiras ou de autores nacionais, textos disponíveis na íntegra e materiais relacionados à atuação profissional em saúde. Excluíram-se estudos estrangeiros que não dialogassem com a realidade sanitária brasileira, documentos incompletos e textos sem metodologia definida. A partir desse levantamento, foi possível construir uma análise crítica sobre o papel da enfermagem diante dos desafios impostos pela EEB.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 Vigilância epidemiológica, notificação e protocolos de biossegurança aplicados pela enfermagem no contexto da EEB
A compreensão do papel da enfermagem na vigilância epidemiológica da Encefalopatia Espongiforme Bovina (EEB) exige um olhar atento para a forma como os serviços de saúde se organizam diante de agravos que desafiam os métodos tradicionais de controle. A EEB não é uma enfermidade comum, tampouco apresenta padrões transmissíveis semelhantes aos de doenças bacterianas ou virais. Trata-se de uma doença priônica, marcada por mudanças estruturais em proteínas do sistema nervoso central, capazes de gerar quadros neurológicos irreversíveis. Esse caráter atípico obriga os profissionais da saúde a desenvolverem estratégias de prevenção que combinem conhecimento técnico com sensibilidade para reconhecer situações de risco. O Ministério da Saúde (2020) enfatiza que a vigilância de doenças priônicas exige uma abordagem minuciosa, baseada em investigação rápida, registro adequado e adoção de medidas de biossegurança que impeçam qualquer forma de exposição desnecessária.
O trabalho da enfermagem nesse cenário ganha relevância porque é o profissional que, na prática cotidiana, acolhe indivíduos, realiza escutas qualificadas, identifica sinais que possam levantar suspeitas e mantém diálogo direto com populações vulneráveis. Ao lidar com doenças cuja transmissão está ligada à cadeia produtiva de alimentos, a enfermagem não se limita ao atendimento clínico. Ela atua como ponte entre sistemas de saúde e ambientes comunitários, ajudando a esclarecer dúvidas, reduzir pânicos desnecessários e orientar sobre cuidados referentes ao consumo de produtos de origem animal. Costa e Silva (2021) observam que o enfermeiro tem papel expressivo na detecção precoce de zoonoses, especialmente porque sua atuação envolve tanto o cuidado direto quanto a educação em saúde, dois pilares essenciais para evitar a propagação de enfermidades complexas.
Sua vigilância depende de registros bem estruturados e de mecanismos que permitam traçar o percurso de possíveis casos. Embora seja rara no Brasil, a doença continua sendo motivo de alerta para instituições sanitárias, sobretudo porque países com sistemas rígidos de controle já enfrentaram surtos que impactaram economia, agricultura e saúde pública. Barbosa et al. (2006) explicam que as encefalopatias espongiformes transmissíveis alteram o tecido cerebral de maneira progressiva, e esse processo reforça a importância de reconhecer sinais iniciais em animais. Quando o sistema de saúde recebe informações de órgãos agropecuários, a enfermagem passa a integrar o fluxo de vigilância, contribuindo para que possíveis casos suspeitos em humanos — ainda que extremamente incomuns — sejam investigados de forma organizada e segura.
O Ministério da Agricultura e Pecuária (2021) descreve que qualquer suspeita de EEB deve ser prontamente comunicada, e essa estrutura de vigilância depende de profissionais capacitados para reconhecer riscos e registrar adequadamente informações relevantes. Embora a EEB atinja principalmente bovinos, a vigilância humana acompanha situações que possam indicar contaminação por meio de alimentos. Nesse contexto, a enfermagem torna-se responsável por garantir que dados clínicos, histórico alimentar e sinais neurológicos sejam detalhados no prontuário, permitindo que investigações epidemiológicas avancem sem atrasos.
Como envolve agentes priônicos altamente resistentes, os protocolos de limpeza, descarte de materiais e manipulação de possíveis tecidos contaminados devem ser seguidos com rigor. Souza et al. (2020) ressaltam que práticas de biossegurança em ambientes de saúde precisam considerar a resistência de certos agentes infecciosos a métodos tradicionais de esterilização, o que exige atenção redobrada da equipe. Embora os casos relacionados à EEB sejam raríssimos, a enfermagem deve incorporar esses conhecimentos ao cotidiano, adotando atitudes preventivas sempre que houver suspeita epidemiológica vinculada ao consumo de carne contaminada ou à exposição ocupacional.
Quando se observa a cadeia de vigilância, torna-se evidente que a enfermagem ocupa posição estratégica tanto nos serviços de atenção básica quanto em unidades hospitalares. Na atenção primária, por exemplo, cabe ao enfermeiro realizar ações educativas, orientar sobre a importância da compra de alimentos rastreados e incentivar práticas seguras no manuseio de produtos de origem animal. Freitas et al. (2020) reforçam que a educação em saúde constitui uma ferramenta poderosa para reduzir riscos e ampliar a compreensão da população sobre temas que, muitas vezes, geram dúvidas ou informações equivocadas. Em áreas rurais, esse trabalho ganha ainda mais significado, pois comunidades ligadas à pecuária podem ter rotinas específicas de abate, consumo e manipulação de resíduos animais.
A notificação de casos suspeitos é mais eficiente quando os profissionais são capacitados para interpretar sinais clínicos e correlacioná-los a possíveis exposições alimentares. Castro et al. (2012) apontam que enfermidades priônicas possuem longa incubação, o que faz com que os sintomas apareçam muito tempo depois da exposição inicial. Isso exige uma anamnese bem construída, capaz de recuperar hábitos alimentares do passado. A enfermagem, ao conduzir entrevistas, coleta de dados e acompanhamento de famílias, acumula informações que podem ser decisivas para investigações conduzidas por órgãos de vigilância.
Ao observar esse movimento integrado entre setores, percebe-se que a enfermagem atua como um elo fundamental dentro da vigilância epidemiológica, sobretudo pela capacidade de transformar dados técnicos em orientações compreensíveis para a população. Essa habilidade comunicativa é decisiva quando se trata de doenças que geram insegurança, como a EEB, cuja repercussão histórica ainda provoca temor em muitos grupos. Freitas et al. (2020) destacam que a aproximação da equipe de enfermagem com a comunidade facilita a construção de vínculos e amplia a compreensão pública sobre riscos sanitários. Quando as pessoas entendem a lógica das doenças priônicas, os motivos das medidas preventivas e o papel da inspeção de produtos de origem animal, tende a haver maior adesão às recomendações, o que fortalece o trabalho de vigilância.
A atuação prática da enfermagem também envolve atenção às rotinas hospitalares e laboratoriais, principalmente porque os serviços de saúde precisam cumprir protocolos que impeçam a exposição desnecessária a materiais potencialmente contaminados. Embora a chance de contato com tecidos contendo príons seja extremamente baixa no contexto da EEB, a enfermagem adota princípios universais de biossegurança que reforçam a precaução e o cuidado. Souza et al. (2020) mencionam que esses princípios vão além do uso de equipamentos de proteção; eles envolvem organização estrutural, higienização rigorosa, descarte adequado e protocolos definidos de desinfecção. Em situações de investigação epidemiológica, o profissional deve estar preparado para reconhecer procedimentos que exigem isolamento reforçado e acompanhar as orientações institucionais.
No Brasil, casos suspeitos envolvendo doenças priônicas exigem notificações imediatas, conforme previsto nos manuais do Ministério da Saúde (2020). A enfermagem, por trabalhar diretamente com o paciente e por ser responsável por grande parte dos registros clínicos, participa desse processo desde a coleta das informações até o preenchimento dos formulários oficiais. Essa exigência reforça a importância de um trabalho documental minucioso, que registre com clareza os sintomas, histórico alimentar, procedência dos alimentos consumidos e hábitos familiares, especialmente quando há possibilidade de exposição a produtos bovinos contaminados.
O rastreamento de possíveis vínculos epidemiológicos depende também da capacidade do profissional de enfermagem em interpretar as particularidades da doença. Castro et al. (2012) explicam que os príons provocam degeneração cerebral progressiva, podendo gerar sintomas neurológicos que, em um primeiro momento, são confundidos com outros quadros. Isso torna essencial que a enfermagem mantenha atenção às mudanças de comportamento, alterações motoras e sinais de declínio cognitivo, principalmente quando essas manifestações surgem em indivíduos com histórico de consumo de carne oriunda de regiões sob investigação sanitária. Mesmo que a probabilidade de ocorrência humana seja pequena, a triagem adequada reduz ruídos e facilita o trabalho dos setores responsáveis.
Na atenção básica, a enfermagem tem função educativa indispensável. Como muitas comunidades ainda desconhecem o que são doenças priônicas, há espaço para mitos, interpretações equivocadas e até pânico coletivo. Freitas et al. (2020) sinalizam que o trabalho educativo conduzido pelo enfermeiro é uma das estratégias mais eficazes para equilibrar informações, orientar escolhas e promover segurança alimentar. Essa atuação passa por rodas de conversa, visitas domiciliares, campanhas sanitárias e atividades desenvolvidas em escolas e associações comunitárias. Nessas ações, o profissional esclarece dúvidas sobre origem dos alimentos, práticas de manipulação segura e importância da compra de produtos inspecionados.
Ao mesmo tempo, o enfermeiro participa de investigações epidemiológicas em campo sempre que necessário. O Ministério da Agricultura e Pecuária (2021) descreve que, quando há suspeita de EEB em bovinos, equipes especializadas avaliam propriedades, rastreamento de lotes e locais de abate. Embora essa etapa seja conduzida majoritariamente por médicos veterinários e fiscais agropecuários, a saúde humana também passa a ser monitorada, especialmente se houver possibilidade de contato indireto com produtos de risco. Nesse ponto, o enfermeiro auxilia na busca ativa de sinais e na identificação de indivíduos que possam apresentar sintomas compatíveis com enfermidades neurológicas graves.
O papel educativo se amplia quando o profissional precisa orientar trabalhadores de frigoríficos, manipuladores de alimentos e famílias que vivem de atividades de pecuária. Teixeira e Andrade (2019) explicam que doenças priônicas representam desafios para setores produtivos e requerem práticas sanitárias rigorosas para garantir que alimentos consumidos pela população não representem risco. Assim, quando a enfermagem atua em unidades de saúde próximas a regiões rurais, torna-se comum esclarecer dúvidas sobre descarte adequado de resíduos, cozimento seguro de carnes, procedimentos corretos de armazenagem e importância da rastreabilidade dos animais abatidos.
Os protocolos de biossegurança adotados pela enfermagem também dialogam com diretrizes internacionais que reforçam a importância da precaução em situações envolvendo materiais biológicos de origem animal. Esses protocolos precisam considerar a resistência dos príons a métodos comuns de esterilização, o que faz com que materiais clínicos utilizados em procedimentos neurológicos, cirúrgicos ou de necropsia sigam normas diferenciadas. Souza et al. (2020) descrevem que a resistência de agentes específicos obriga equipes de saúde a revisar rotinas e, em alguns casos, utilizar métodos combinados de desinfecção. Embora a EEB apresente risco reduzido no ambiente hospitalar, o conhecimento dessas diretrizes fortalece a segurança do serviço e evita erros que possam comprometer a integridade dos profissionais.
Gonçalves et al. (2013) reforçam que o controle da EEB depende da comunicação eficiente entre órgãos responsáveis pela inspeção do rebanho e equipes de saúde pública. Quando há confirmação de casos em bovinos, mesmo que isolados, a enfermagem deve ser informada para orientar populações, aumentar o monitoramento de sintomas e reforçar medidas de segurança alimentar. Essa integração faz parte do conceito de Saúde Única (One Health), que reconhece a interdependência entre saúde humana, animal e ambiental.
Caso um paciente apresente sinais neurológicos compatíveis com doenças priônicas, é necessário isolar materiais biológicos e adotar procedimentos específicos de descarte. Freitas et al. (2020) explicam que o gerenciamento de resíduos de serviços de saúde precisa seguir rigorosamente as normas técnicas, especialmente quando há suspeita de agentes resistentes a métodos tradicionais de esterilização. Mesmo que na prática a probabilidade de contato com príons seja mínima, a existência de protocolos bem estruturados evita insegurança entre os profissionais e reforça a cultura de proteção dentro dos serviços de saúde.
2.2 Prevenção e controle da EEB: interações entre enfermagem, zoonoses e segurança alimentar
A prevenção e o controle da Encefalopatia Espongiforme Bovina (EEB) demandam um olhar ampliado sobre os processos que conectam saúde humana, saúde animal e segurança alimentar. A enfermidade, apesar de rara no Brasil, possui características que exigem vigilância constante, especialmente devido ao seu potencial de impacto sobre a cadeia produtiva da carne e sobre a confiança da população no sistema de inspeção de alimentos. Para compreender esse cenário, a atuação da enfermagem precisa ser analisada de forma articulada com o conjunto de ações que envolvem identificação precoce de zoonoses, monitoramento de riscos e orientação das comunidades. Costa e Silva (2021) destacam que o enfermeiro ocupa um espaço estratégico nesse processo, pois está presente tanto nos serviços de base comunitária quanto nas unidades hospitalares que acolhem indivíduos com sintomas neurológicos que, eventualmente, podem demandar investigação epidemiológica.
A EEB se insere no grupo de doenças priônicas, cuja compreensão exige bases conceituais sólidas sobre agentes que não seguem os padrões habituais de transmissão observados em infecções bacterianas ou virais. Castro et al. (2012) esclarecem que príons apresentam alto nível de resistência e possuem capacidade de provocar degeneração progressiva no sistema nervoso, tanto de animais quanto, em casos específicos, de seres humanos expostos a tecidos contaminados. Por essa razão, o controle da doença vai muito além da identificação de animais infectados; envolve o monitoramento de subprodutos, a fiscalização de frigoríficos, o rastreamento de lotes bovinos e a conscientização da população sobre práticas seguras de consumo.
Oliveira e Cortez (2019) enfatizam que a qualidade sanitária dos produtos de origem animal está diretamente relacionada à eficácia dos sistemas de inspeção, ao cumprimento das normas de processamento e à capacidade de detectar falhas nos mecanismos de controle. A enfermagem, ao manter contato direto com a população, contribui para esclarecer dúvidas sobre a procedência dos alimentos, auxiliar na compreensão de selos de inspeção e orientar práticas seguras de armazenamento e preparo das carnes. Essas ações, embora simples à primeira vista, têm impacto significativo na percepção de risco e no comportamento alimentar das famílias, especialmente em regiões rurais e em áreas com menor acesso à informação.
Gonçalves et al. (2013) pontuam que o principal mecanismo de prevenção é impedir que bovinos consumam matéria contaminada — especialmente farinhas de carne e ossos oriundas de animais potencialmente portadores de príons. O Brasil, ao adotar políticas rígidas de controle de alimentação animal, reduziu drasticamente a probabilidade de ocorrência da doença no rebanho nacional. Ainda assim, a enfermagem tem papel importante ao atuar junto a comunidades rurais e trabalhadores da pecuária, reforçando a importância de práticas seguras e de atenção às normas agropecuárias. Muitas vezes, dúvidas relacionadas ao descarte de carcaças, manipulação de subprodutos ou presença de inspeção sanitária podem ser minimizadas por meio de ações educativas conduzidas nos territórios.
Além das orientações alimentares, a enfermagem desempenha funções significativas nos serviços de vigilância epidemiológica, acompanhando possíveis alertas emitidos pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (2021). Cada vez que um país registra eventos relacionados à EEB, mesmo que isolados, o Brasil reforça seus protocolos de inspeção e atualiza as equipes de vigilância para assegurar que não haja impactos diretos no consumo interno. Nesse contexto, o enfermeiro participa de reuniões técnicas, recebe boletins epidemiológicos e contribui para disseminar informações atualizadas de forma acessível à população, evitando interpretações equivocadas e pânicos desnecessários.
A atuação da enfermagem na prevenção da EEB também é influenciada pela lógica da Saúde Única, que integra saúde humana, animal e ambiental. Teixeira e Andrade (2019) sublinham que doenças priônicas representam um desafio compartilhado por diferentes setores, e o sucesso das ações depende de articulação constante entre profissionais de saúde, veterinários, fiscais sanitários e gestores públicos. Essa integração possibilita a troca de informações, a construção de estratégias conjuntas e o aprimoramento das rotinas de inspeção e controle alimentar. Assim, quando a enfermagem participa desses processos, contribui de maneira efetiva para ampliar o alcance das ações preventivas, fortalecendo políticas públicas e garantindo que as informações cheguem às comunidades de forma clara.
Pereira et al. (2020) destacam que a manipulação inadequada, o armazenamento incorreto e a falta de higiene em frigoríficos e açougues podem comprometer a segurança dos alimentos e gerar riscos sanitários. Dessa forma, a enfermagem tem sido cada vez mais envolvida em atividades formativas voltadas para esse público, abordando temas como higiene de equipamentos, descarte correto de resíduos, importância da vigilância sanitária e cuidados essenciais durante o abate e a desossa. Esses processos educativos contribuem para reduzir riscos ao consumidor e reforçar o compromisso das empresas com a produção segura.
Além disso, sua prevenção exige atenção contínua às rotinas de biossegurança, principalmente em ambientes hospitalares e laboratórios que lidam com tecidos biológicos. Souza et al. (2020) apontam que príons não respondem da mesma forma aos métodos tradicionais de esterilização, o que torna necessário adotar protocolos especiais para o manuseio de materiais suspeitos. Embora a chance de contato clínico com príons seja extremamente baixa no Brasil, o conhecimento desses protocolos aumenta a segurança institucional e previne falhas que possam comprometer a integridade de profissionais da saúde.
2.3 Desafios da enfermagem na cadeia produtiva bovina e de produtos de origem animal
A presença da enfermagem nos debates que envolvem a cadeia produtiva bovina e os produtos de origem animal tem ganhado espaço progressivamente, sobretudo porque o setor alimentício passou a ser considerado parte essencial da vigilância em saúde. A Encefalopatia Espongiforme Bovina (EEB) evidencia de forma clara como questões relacionadas ao rebanho podem alcançar a saúde humana e exigir ações articuladas entre diferentes áreas. Embora a EEB seja rara em território brasileiro, suas características peculiares e o impacto histórico que representou em outros países reforçam a necessidade de compreender os desafios enfrentados pelos profissionais de enfermagem que atuam direta ou indiretamente com comunidades envolvidas na produção, manipulação e consumo de alimentos de origem animal. Oliveira e Cortez (2019) lembram que a qualidade sanitária desses alimentos depende não apenas do controle industrial, mas também da educação, orientação e comunicação efetiva com trabalhadores e consumidores.
Dentro desse cenário, se depara com o primeiro desafio: comunicar riscos complexos de forma acessível e sem gerar alarmismo. Muitos trabalhadores rurais e manipuladores de carne desconhecem as características das doenças priônicas e, quando expostos ao tema, podem interpretar a EEB como um risco imediato ou generalizado, o que não corresponde à realidade brasileira. Freitas et al. (2020) discutem que a comunicação em saúde precisa equilibrar informação técnica com sensibilidade cultural, considerando o modo como as pessoas compreendem as ameaças sanitárias. Essa habilidade é indispensável, pois fortalece a confiança entre os profissionais de saúde e as comunidades, evitando interpretações equivocadas que possam afetar rotinas produtivas ou gerar pânico coletivo.
O segundo desafio envolve a atuação em regiões rurais e zonas pecuárias, onde a enfermagem muitas vezes realiza visitas domiciliares, acompanha famílias que vivem da criação de gado ou mantém contato com trabalhadores de frigoríficos e pequenos abatedouros. Nessas áreas, nem sempre há acesso fácil a informações atualizadas sobre normas sanitárias, o que aumenta a responsabilidade do enfermeiro em orientar sobre cuidados básicos que impactam diretamente a segurança alimentar. Gonçalves et al. (2013) reforçam que o controle da EEB depende de medidas simples, mas rigorosas, como o correto manejo de resíduos animais, a separação de materiais de risco e a observância das normas impostas pelos serviços de inspeção. A enfermagem, ao interagir com essas populações, torna-se ponte entre as informações oficiais e a prática cotidiana dos trabalhadores.
Em alguns contextos, a informalidade no abate e na comercialização de carne bovina ainda é uma realidade, e esse cenário dificulta a implementação de práticas seguras. Pereira et al. (2020) chamam atenção para o fato de que pequenas falhas na higiene, manipulação e armazenamento podem comprometer a segurança dos alimentos e gerar riscos sanitários consideráveis. Embora a EEB não seja transmitida por falhas de higiene, a precariedade do processo produtivo indica um ambiente onde informações são fragmentadas, e isso reforça a necessidade de orientação contínua. A enfermagem, ao se inserir nesses territórios, ajuda a promover mudanças de comportamento que fortalecem toda a cadeia de segurança.
No entanto, o desafio talvez mais sensível seja integrar a enfermagem às discussões interdisciplinares que envolvem o conceito de Saúde Única. Teixeira e Andrade (2019) argumentam que o enfrentamento de doenças priônicas exige cooperação entre profissionais da saúde humana e animal, gestores públicos e órgãos de inspeção. Apesar disso, o enfermeiro nem sempre é incluído nesses debates estruturais, mesmo quando sua atuação é essencial para o acompanhamento das populações expostas. Inserir a enfermagem nesses espaços não é apenas uma questão de reconhecimento profissional, mas uma estratégia de fortalecimento das ações de prevenção.
Além disso, a atuação da enfermagem na cadeia produtiva bovina enfrenta limitações estruturais relacionadas à falta de capacitação sobre doenças pouco frequentes. A mesma não aparece de forma rotineira no Brasil, o que faz com que muitos profissionais desconheçam detalhes sobre transmissão, diagnóstico e impactos epidemiológicos. O Ministério da Saúde (2020) ressalta que doenças priônicas exigem vigilância especializada e compreensão aprofundada sobre particularidades relacionadas à resistência dos príons e seus mecanismos patológicos. Quando não há formação continuada, a reação frente a um possível alerta sanitário pode ser confusa, e essa insegurança repercute na qualidade das orientações transmitidas à população.
Apesar da baixa ocorrência da doença no Brasil, o país mantém forte vínculo com o mercado internacional de carnes. O Ministério da Agricultura e Pecuária (2021) demonstra que qualquer suspeita de EEB, mesmo isolada e tecnicamente controlada, pode gerar impactos econômicos imediatos, como embargos temporários de países importadores. Em situações como essa, as equipes de saúde podem enfrentar aumento da demanda por orientações, já que a população tende a buscar respostas sobre segurança alimentar. A enfermagem, nesse contexto, precisa transmitir informações com clareza, evitando especulações desnecessárias e reforçando os protocolos que asseguram a segurança dos alimentos disponíveis ao consumidor.
Muitos trabalhadores envolvidos em frigoríficos, abatedouros e açougues lidam diretamente com produtos de origem animal, mas nem sempre possuem conhecimento técnico sobre riscos sanitários, normas de inspeção ou protocolos de manipulação. Magalhães e Villar (2019) apontam que os riscos biológicos presentes nesses ambientes exigem treinamento contínuo, supervisão adequada e compreensão clara sobre a importância da biossegurança. A enfermagem participa desses processos por meio de ações educativas, treinamentos e acompanhamento de práticas que visam reduzir acidentes, contaminações e falhas estruturais.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise sobre a Encefalopatia Espongiforme Bovina permitiu compreender que, mesmo se tratando de uma doença rara no contexto brasileiro, sua existência continua sendo um ponto sensível para a saúde pública e para a segurança alimentar. Ao longo do estudo, tornou-se evidente que a enfermagem desempenha um papel decisivo na prevenção e no controle de agravos que ultrapassam as fronteiras entre o cuidado clínico e o campo das zoonoses. Esse protagonismo aparece tanto na vigilância epidemiológica quanto na capacidade de orientar populações e apoiar processos educativos que reforçam práticas seguras relacionadas ao consumo e à manipulação de produtos de origem animal.
A enfermagem atua como elo entre diferentes setores, ocupando uma posição estratégica na comunicação do risco e na mediação entre os serviços de saúde, a comunidade e os profissionais envolvidos na cadeia produtiva bovina. Essa aproximação contribui para fortalecer a confiança no sistema de inspeção sanitária e evita que situações pontuais causem insegurança ou disseminação de informações equivocadas. O estudo mostrou que, ao compreender melhor a natureza das doenças priônicas, o enfermeiro consegue oferecer orientações mais claras, seguras e fundamentadas, independentemente de ser um agravo de ocorrência habitual ou não.
Por fim, o tema reforça a necessidade de manter a formação continuada e de integrar a enfermagem de forma mais efetiva às discussões interdisciplinares que envolvem saúde humana, saúde animal e segurança dos alimentos. Ao reconhecer a importância das ações preventivas e a relevância da educação sanitária, a enfermagem se fortalece como agente fundamental na manutenção da saúde coletiva. Mesmo diante de uma doença que apresenta baixa probabilidade de ocorrência no país, o profissional de enfermagem permanece como referência na proteção das comunidades, na promoção da segurança alimentar e na defesa de práticas que assegurem o bem-estar da população em diferentes ambientes sociais e produtivos.
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