EMPREENDEDORISMO SOCIAL NO QUILOMBO IPIRANGA: DA PRÁTICA EDUCATIVA À FORMAÇÃO HUMANA OMNILATERAL

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510291016


Camila Arruda Viana1
Alysson André Régis Oliveira2


RESUMO

O presente artigo apresenta o processo de concepção, desenvolvimento e aplicação do Produto Educacional intitulado “Oficinas de Empreendedorismo Social: da prática educativa à formação humana omnilateral”, desenvolvido no contexto da Comunidade Quilombola do Ipiranga, localizada no município de Conde-PB. A experiência foi realizada com discentes do Curso Técnico em Contabilidade do Instituto Federal da Paraíba (IFPB) – Campus João Pessoa, com o propósito de integrar saberes acadêmicos e populares, fortalecendo a formação crítica e integral dos estudantes e contribuindo para o desenvolvimento sustentável do território. A pesquisa, de abordagem qualitativa e caráter descritivo, envolveu a realização de oficinas temáticas voltadas à educação financeira, precificação e modelagem de negócios, buscando promover a reflexão e a prática empreendedora social. Os resultados apontam que o empreendedorismo social, articulado às práticas extensionistas, constitui-se como uma estratégia formativa emancipatória, capaz de estimular o protagonismo dos sujeitos e consolidar a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.

Palavras-chave: Empreendedorismo Social. Comunidade Quilombola. Formação Humana Omnilateral. Extensão. Educação Profissional.

ABSTRACT

This article presents the conception, development, and implementation process of the Educational Product entitled “Workshops on Social Entrepreneurship: from educational practice to omnilateral human formation”, developed within the Quilombola Community of Ipiranga, located in Conde, Paraíba, Brazil. The experience was carried out with students from the Technical Accounting Course at the Federal Institute of Paraíba (IFPB) – João Pessoa Campus, aiming to integrate academic and popular knowledge, strengthen students’ critical and integral education, and contribute to the sustainable development of the territory. The research adopted a qualitative and descriptive approach, conducted through thematic workshops focused on financial education, pricing, and business modeling, encouraging reflection and social entrepreneurial practice. The results indicate that social entrepreneurship, when articulated with extension practices, emerges as an emancipatory formative strategy that fosters individual protagonism and strengthens the inseparability between teaching, research, and extension.

Keywords: Social Entrepreneurship. Quilombola Community. Omnilateral Human Formation. Extension. Vocational Education.

1. INTRODUÇÃO

O empreendedorismo social constitui-se como uma prática transformadora capaz de articular dimensões econômicas, culturais e humanas na busca por uma sociedade mais justa e solidária. Diferentemente do empreendedorismo tradicional, que tem como foco principal o lucro, o empreendedorismo social orienta-se pela promoção do bem-estar coletivo, pela inclusão produtiva e pela geração de impactos positivos nas comunidades. Ele surge como resposta aos desafios impostos pela lógica capitalista excludente, apresentando-se como alternativa para o desenvolvimento sustentável e emancipatório dos sujeitos historicamente marginalizados.

No contexto brasileiro, observa-se o fortalecimento de iniciativas empreendedoras voltadas à transformação social, especialmente em territórios marcados pela desigualdade e pela vulnerabilidade socioeconômica. Dados recentes do Global Entrepreneurship Monitor (GEM, 2022) indicam que o Brasil é um dos países com maior taxa de envolvimento da população adulta em atividades empreendedoras, o que demonstra o potencial da prática como instrumento de inclusão e desenvolvimento. Entretanto, é o empreendedorismo social que se destaca por promover a articulação entre produção, solidariedade e cidadania, estimulando o protagonismo das comunidades e a construção de novas racionalidades econômicas e sociais.

Neste cenário, as comunidades quilombolas assumem papel relevante, pois representam espaços de resistência e preservação cultural, nos quais a prática empreendedora adquire contornos próprios, sustentados pela coletividade e pela valorização dos saberes tradicionais. A Comunidade Quilombola do Ipiranga, situada no município de Conde-PB, insere-se nesse contexto como um território fértil para o desenvolvimento de ações formativas que aliem o conhecimento científico à sabedoria popular. Sua história, marcada pela luta e pela autossustentação, reflete o potencial do empreendedorismo social como instrumento de emancipação e de fortalecimento da identidade cultural.

O presente artigo deriva de uma pesquisa vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Educação Profissional e Tecnológica (ProfEPT) do Instituto Federal da Paraíba (IFPB) e tem como objetivo relatar a experiência de elaboração e aplicação do Produto Educacional (PE) intitulado “Oficinas de Empreendedorismo Social: da prática educativa à formação humana omnilateral”. A experiência foi conduzida de forma extensionista, junto à Comunidade Quilombola do Ipiranga, com a participação de discentes do Curso Técnico em Contabilidade do IFPB – Campus João Pessoa.

O trabalho baseia-se na compreensão de que o ensino técnico deve transcender a dimensão instrumental, integrando aspectos sociais, éticos e solidários da prática empreendedora. Nessa perspectiva, a formação profissional é entendida como um processo de desenvolvimento integral, que une teoria e prática, ensino e extensão, escola e comunidade. Tal concepção dialoga com a proposta freireana de uma educação emancipatória, voltada para a autonomia e para a transformação social dos sujeitos (FREIRE, 1996).

Assim, as oficinas temáticas de educação financeira, precificação e modelagem de negócios constituíram-se em espaços de troca e aprendizagem mútua, fortalecendo o protagonismo dos participantes e promovendo a integração entre os saberes acadêmicos e populares. A experiência evidencia que o empreendedorismo social, quando articulado às práticas extensionistas, contribui de forma significativa para a formação humana omnilateral e para o desenvolvimento local sustentável, reafirmando o papel da educação profissional e tecnológica como instrumento de transformação social.

2. DESENVOLVIMENTO

A construção de um Produto Educacional (PE) representa, como afirma Kaplún (2003), uma verdadeira “aventura da criação”, pois envolve o desafio de elaborar um material capaz de mediar processos de ensino-aprendizagem significativos e emancipatórios. Nessa perspectiva, o autor propõe três eixos norteadores para orientar a elaboração de materiais educativos: o conceitual, o pedagógico e o comunicacional.

O eixo conceitual requer o aprofundamento teórico sobre o tema que fundamenta o PE, demandando uma compreensão crítica dos conceitos e das relações que os envolvem. Assim, o ponto de partida da construção das Oficinas de Empreendedorismo Social foi a pesquisa teórica sobre o empreendedorismo social, sua interface com a formação humana omnilateral e seu potencial como estratégia de desenvolvimento local. Essa etapa também envolveu o reconhecimento das práticas empreendedoras já existentes na Comunidade Quilombola do Ipiranga, compreendendo os saberes populares e as dinâmicas socioculturais que estruturam suas formas de organização e trabalho.

A pesquisa diagnóstica, de caráter qualitativo, foi essencial nesse processo, pois possibilitou conhecer o contexto, os sujeitos envolvidos e suas necessidades formativas. Por meio de observações e diálogos com membros da comunidade e com os discentes participantes do projeto, identificaram-se desafios relacionados à gestão coletiva, à precificação dos produtos, à organização financeira e à valorização do trabalho comunitário. Esses elementos orientaram a definição dos conteúdos e metodologias do PE, garantindo que a proposta estivesse alinhada à realidade local e às potencialidades do território.

O eixo pedagógico do Produto Educacional foi estruturado a partir dos princípios da educação emancipatória, inspirada nas contribuições de Gramsci e Freire. Para Gramsci, a educação deve possibilitar a superação da dicotomia entre o trabalho manual e o intelectual, promovendo a formação omnilateral dos sujeitos — isto é, uma formação integral que articule técnica, ciência, cultura e ética (SAVIANI, 2007; NOSELLA; AZEVEDO, 2012). Já Freire (1996) defende uma pedagogia voltada à autonomia e à reflexão crítica, na qual educadores e educandos se reconhecem como sujeitos do processo de transformação social. Esses referenciais teóricos fundamentaram a proposta metodológica das oficinas, organizadas de forma participativa e dialógica, buscando integrar saberes acadêmicos e populares.

As oficinas temáticas foram estruturadas em cinco etapas pedagógicas: (1) apresentação dialogada sobre os conceitos de empreendedorismo social e modelagem de negócios; (2) atividade prática em duplas, utilizando materiais acessíveis (papel Kraft, post-its e canetinhas) para preencher os nove blocos do Modelo de Negócios Canvas; (3) socialização dos resultados, em que os participantes apresentaram seus modelos e receberam feedback coletivo; (4) síntese e reflexão teórica, conectando a prática aos fundamentos do Canvas e à perspectiva do empreendedorismo social; e (5) avaliação formativa, realizada por meio de formulário digital, para que os participantes refletissem sobre os aprendizados e a aplicabilidade das ideias discutidas.

O eixo comunicacional, por sua vez, esteve voltado à escolha de uma linguagem acessível e à adoção de estratégias que estimulassem a participação ativa e o diálogo. Considerando o perfil dos participantes — jovens quilombolas e estudantes do ensino técnico —, optou-se por um formato interativo, com dinâmicas colaborativas e exemplos extraídos da realidade local, tornando o conteúdo mais significativo e contextualizado.

O Produto Educacional, portanto, configurou-se como uma proposta de formação que alia teoria e prática, promovendo a integração entre ensino, pesquisa e extensão. Ele foi concebido para ser aplicado em diferentes contextos educativos, com potencial de adaptação a outras comunidades e cursos técnicos. Seu objetivo central é estimular o protagonismo dos participantes na criação de soluções empreendedoras solidárias, valorizando os saberes locais e fortalecendo o desenvolvimento sustentável.

A aplicação das Oficinas de Empreendedorismo Social na Comunidade Quilombola do Ipiranga evidenciou o potencial transformador das práticas extensionistas quando articuladas à educação profissional e tecnológica. As observações e os relatos colhidos junto aos participantes revelaram que as oficinas proporcionaram não apenas o desenvolvimento de competências empreendedoras, mas também a ampliação da consciência crítica e do senso de coletividade.

Os discentes do Curso Técnico em Contabilidade relataram que a vivência com a comunidade permitiu ressignificar a compreensão do trabalho, superando a visão meramente instrumental e mercadológica. Essa percepção dialoga com Saviani (2007), ao afirmar que o trabalho deve ser entendido como princípio educativo, capaz de integrar as dimensões técnica, política e ética da formação humana. Do mesmo modo, Gramsci apud Monasta (2010) e Nosella e Azevedo (2012) reforçam que a formação omnilateral se concretiza quando o sujeito compreende o trabalho como prática social e como elemento de emancipação.

Entre os membros da comunidade quilombola, observou-se o fortalecimento do sentimento de pertencimento e de valorização dos saberes locais. As discussões sobre precificação e modelagem de negócios, mediadas por metodologias participativas, contribuíram para o reconhecimento do potencial econômico das práticas tradicionais e para a construção de uma visão coletiva de sustentabilidade. Essa experiência confirma a perspectiva de Freire (1996), segundo a qual a educação libertadora se fundamenta no diálogo, na problematização da realidade e na construção conjunta do conhecimento.

Além disso, os resultados demonstraram que o uso de ferramentas acessíveis, como o Canvas, adaptadas ao contexto local, favoreceu a aprendizagem significativa e o protagonismo dos participantes. A interação entre estudantes e quilombolas possibilitou a troca de saberes e a criação de soluções criativas para desafios reais da comunidade, reafirmando o caráter omnilateral e emancipatório da prática educativa.

De forma geral, a análise dos dados aponta que o Produto Educacional cumpriu sua função de promover a integração entre ensino, pesquisa e extensão, fortalecendo o papel da escola pública como agente de transformação social e o empreendedorismo social como via concreta para o desenvolvimento sustentável e solidário.

3. PRODUTO EDUCACIONAL (PE): DO PLANEJAMENTO À AÇÃO NO ENSINO

O Produto Educacional (PE) é uma forma de divulgar a pesquisa realizada no mestrado profissional, funcionando como recurso pedagógico que fortalece a prática docente. Sua elaboração exige um processo formativo contínuo, sustentado pela pesquisa.

Para concluir o mestrado, foi desenvolvido um ciclo de oficinas extensionistas voltado à comunidade quilombola do Ipiranga e aos alunos do ensino médio do curso de contabilidade do Instituto Federal da Paraíba. As oficinas abordaram temas de empreendedorismo, com materiais impressos distribuídos para facilitar o acesso e a permanência do conteúdo.

Segundo a Capes, projetos de extensão têm caráter educativo, social, cultural, científico ou tecnológico, com objetivos específicos e duração determinada. O PE foi classificado como “Ferramenta” na plataforma EduCAPES. 

O planejamento das oficinas empreendedoras envolveu entrevistas com membros da comunidade, que indicaram como temas prioritários: educação financeira, precificação e modelagem de negócios. O material educativo foi pensado para apoiar o aprendizado, respeitando o contexto sociocultural do quilombo.

A proposta reconhece que métodos tradicionais podem não ser eficazes nesse ambiente, exigindo inovação pedagógica. As oficinas foram adaptadas para promover uma experiência significativa, valorizando a cultura local e incentivando a autonomia dos participantes.

O PE conecta teoria e prática, com base nos referenciais de Kaplún e Zabala, por meio de oficinas presenciais e materiais interativos. Sua aplicação na Educação Profissional e Tecnológica contribui para uma formação integral, com avaliações contínuas e ajustes conforme o envolvimento da comunidade.

As entrevistas com os quilombolas foram essenciais para compreender suas necessidades e aspirações, fortalecendo o empoderamento por meio da escuta ativa e da valorização de seus saberes.

Quadro 3 – Temas Preferidos para as Oficinas e Participação das Quilombolas

Quilombola EmpreendedoraEducação FinanceiraPrecificaçãoModelagem de Negócios
Empreendedora 1AltaMédiaAlta
Empreendedora 2AltaMédiaAlta
Empreendedora 3MédiaAltaAlta
Empreendedora 4AltaMédiaAlta
Empreendedora 5MédiaAltaAlta
Empreendedora 6AltaMédiaAlta
Empreendedora 7AltaMédiaAlta
Empreendedora 8MédiaAltaAlta
Empreendedora 9AltaMédiaAlta

Fonte: Elaboração própria, a partir de dados da pesquisa (2025).

Essa tabela ilustra a participação e as prioridades expressas pelas nove quilombolas empreendedoras, destacando as áreas nas quais elas se sentem mais interessadas em se aprofundar. A educação financeira se destaca como uma necessidade alta entre a maioria, evidenciando a importância de ajudar as participantes a lidarem melhor com suas finanças. A precificação e a modelagem de negócios também são áreas relevantes, com várias participantes buscando desenvolver habilidades nessas temáticas.

Em relação ao eixo conceitual, a definição clara dos temas foi um passo fundamental para que todos os envolvidos compreendam a relevância dos conteúdos. A educação financeira, por exemplo, é uma ferramenta poderosa que pode transformar a maneira como as quilombolas lidam com seus recursos, ajudando-as a identificarem e utilizarem efetivamente suas receitas e despesas. A modelagem de negócios introduz conceitos sobre como estruturar e planejar um empreendimento de forma eficaz, enquanto a precificação ensina a importância de valorizar corretamente os produtos e serviços oferecidos, garantindo viabilidade e sustentabilidade ao negócio.

O eixo pedagógico, segundo Káplun (2003), é crucial neste processo. As oficinas devem ser organizadas considerando o perfil das participantes, suas experiências anteriores e o ambiente em que vivem. Era fundamental que as oficinas fossem interativas e dinâmicas, promovendo um ambiente de aprendizagem que respeitasse as características e ritmos individuais. Isso incluiria atividades práticas, discussões em grupo e simulações de situações reais que as quilombolas pudessem encontrar em seus processos empreendedores.

A comunicação foi o terceiro eixo a ser considerado. A forma como a mensagem é transmitida tinha de ser clara e acessível, utilizando linguagens e métodos que fizesssem sentido à comunidade, sem perder de vista a cultura e as particularidades locais. A utilização de exemplos práticos e próximos da realidade das participantes facilitou a compreensão dos conteúdos e a aplicação dos conhecimentos adquiridos.

Por fim, as oficinas foram além da simples transmissão de informação, promovendo um espaço de troca de experiências e aprendizado conjunto. Ao valorizar o conhecimento prévio das quilombolas e integrá-las com as técnicas empreendedoras, criou-se um ambiente propício para o desenvolvimento de habilidades que ampliassem as oportunidades econômicas dessa comunidade. A proposta não foi apenas oferecer uma capacitação, mas formar agentes de mudança que pudessem impactar suas famílias e comunidades, contribuindo para um futuro mais próspero e sustentável.

Assim, ao desenvolver este produto educacional, buscamos respeitar e valorizar o saber e a cultura da comunidade quilombola, integrando-os a práticas inovadoras capazes de fortalecer suas iniciativas empreendedoras e promover a autonomia financeira. Cada oficina foi uma oportunidade de aprendizado, reflexão e crescimento, tanto para as participantes quanto para os educadores envolvidos.

A oficina de modelagem de negócios com o uso do Modelo de Negócios Canvas consistiu em uma proposta educativa que introduziu e embasou oficinas posteriores sobre planejamento estratégico e inovação. Afinal, compreender e estruturar modelos de negócios são ações essenciais para empreendedores que desejam construir uma base sólida para seus projetos. A proposta, fundamentada na metodologia do Canvas, foi um passo inicial para desenvolver habilidades de análise e organização de negócios de maneira visual e prática, proporcionando uma experiência de aprendizado participativa.

Oficina de Modelagem de Negócios – Estruturação

Nesta oficina, abordamos: os conceitos e a estrutura do Modelo de Negócios Canvas; os nove blocos que o compõem; exemplos práticos de aplicação e como desenvolver e apresentar um modelo de negócios em dupla. 

Os materiais a serem utilizados durante a oficina foram: papel Kraft (uma folha para cada dupla); canetinhas coloridas (uma caixa para cada dupla); post-its (um bloco para cada dupla); folhas de papel A4 (duas folhas por pessoa), com o modelo do CANVAS impresso. Dividimos a aplicação dessa oficina em cinco passos para facilitar o processo de ensino e aprendizagem. A sequência pedagógica deu-se da seguinte forma:

Primeiro passo: iniciamos com uma apresentação dialogada sobre o conceito de modelagem de negócios, explicando o que é o Modelo de Negócios Canvas, suas origens e sua utilidade na prática empresarial. Esse momento inicial, focado na teoria, teve uma duração média de 30 minutos.

Segundo passo: dividimos as quilombolas em duplas e distribuímos, a cada uma delas, uma folha de papel Kraft e os materiais de escrita. Em seguida, apresentamos e explicamos cada um dos nove blocos do Canvas (segmento de clientes, proposta de valor, canais, relacionamento com clientes, fontes de receita, recursos principais, atividades principais, parceiros principais e estrutura de custos), dedicando cerca de 20 minutos a cada bloco, para que as duplas discutissem e anotassem suas ideias preliminares. Esse segundo momento teve, em média, 60 minutos.

Terceiro passo: após preencherem os blocos do Canvas, as duplas compartilharam suas ideias com a turma. Cada dupla apresentou seu modelo de negócios, colando o Canvas na parede ou quadro e explicando a lógica por trás de cada bloco. Esse terceiro momento de apresentações e trocas de ideias representou um espaço para feedbacks e sugestões dos demais participantes, tendo durado cerca de 30 minutos, dependendo do número de duplas.

Quarto passo: após as apresentações, a facilitadora realizou uma síntese das ideias abordadas, integrando as reflexões de cada dupla aos conceitos teóricos do Canvas e esclarecendo dúvidas que surgiram. Esse quarto momento teve uma duração média de 15 minutos.

Quinto e último passo: para avaliar o processo de aprendizagem, cada participante respondeu a um formulário sobre a importância do Modelo de Negócios Canvas para o desenvolvimento de novos negócios.

Oficina de Educação Financeira – Estruturação

A oficina de Educação Financeira tem como propósito o prévio diagnóstico do conhecimento, comportamento e atitude das empreendedoras quanto às finanças pessoais e empresariais, verificando inicialmente e orientando para a devida separação das contas pessoais das contas da empresa e o uso das informações contábeis e financeiras para fins gerenciais, permitindo o planejamento de curto, médio e longo prazo.

O primeiro passo consiste no diagnóstico do que se conhece como Termômetro de Alfabetização Financeira, que envolve a Educação Financeira em si, além do comportamento e da atitude, que permitem verificar a devida aplicação dos conhecimentos nas práticas pessoais e empresariais. Desse modo, foi enviado às participantes um formulário para o devido mapeamento de pensamentos, sentimentos e ações relacionadas a aspectos de capacitação financeira tanto para lidar com as Finanças no âmbito familiar como empresarial.

De posse das informações provenientes dos questionários, são dimensionadas as principais categorias de análise e associadas aos perfis das empreendedoras, possibilitando o direcionamento das orientações na oficina, utilizando-se também formulários impressos de orçamento e planejamento financeiro familiar e empresarial, esclarecendo as diferenças entre os dois e avançando para os aspectos de uso das informações contábeis e financeiras para fins gerenciais, inclusive de fontes de financiamento mais saudáveis.

No aspecto do financiamento, há a participação de representantes do Programa CrediAmigo do Banco do Nordeste do Brasil – BNB, que apresentam as linhas do banco que sejam mais adequadas aos perfis e necessidades das Empreendedoras.

Diante disso, o conteúdo programático da oficina é composto por:

1 – Das Finanças Pessoais às Finanças Empresariais: Conceitos de Alfabetização Financeira Pessoal/Familiar e Empresarial: Conhecimento Financeiro, Comportamento e Atitude; Separação das Finanças Pessoais das Finanças Empresariais.

2 – Renegociação de Dívidas e Fontes de Financiamento para Pessoa Física e Pessoa Jurídica. Linhas de Financiamento do Banco do Nordeste do Brasil – BNB.

3 – Planejamento Financeiro de curto, médio e longo prazo, utilizando ferramentas de planejamento e controle tanto pessoais como empresariais, tanto na produção como interpretação de relatórios financeiros e contábeis.

Oficina de Precificação – Estruturação

A oficina de Precificação teve o objetivo principal de capacitar as empreendedoras quilombolas a compreenderem e aplicarem técnicas de formação de preço justas, competitivas e sustentáveis, tanto para produtos como para serviços. A precificação correta é fundamental para garantir a viabilidade financeira dos empreendimentos, possibilitando que os custos sejam cobertos, os lucros, planejados, e a competitividade, assegurada.

A atividade partiu da realidade local das empreendedoras, trazendo exemplos práticos do cotidiano e valorizando seus conhecimentos prévios sobre a produção e comercialização. A oficina também buscou esclarecer os erros mais comuns na precificação, como a definição de valores apenas com base no preço do concorrente ou em percepções pessoais, sem considerar custos fixos, variáveis e margem de lucro: i)   O conteúdo foi trabalhado de forma interativa e prática, com atividades de simulação, cálculos em grupo e discussão coletiva sobre estratégias de formação de preço, vinculando a teoria à realidade das participantes; ii) Conteúdo programático da oficina; iii) Conceito e importância da precificação; iv)   Diferença entre custos fixos, custos variáveis e despesas; v) Formação de preço baseada em custos: soma de custos + margem de lucro; i) Precificação baseada em valor percebido pelo cliente; vii) Análise da concorrência e estratégias de mercado; viii) Exercícios práticos: simulações de precificação de produtos e serviços da própria comunidade.

ANÁLISES DO PRODUTO EDUCACIONAL

Os resultados revelaram um consenso significativo quanto à relevância do conteúdo, uma vez que todos os participantes consideraram o material altamente pertinente, assinalando “concordo totalmente”. Tal resultado evidencia que o PE foi percebido não apenas como informativo, mas como significativo e conectado à realidade vivida pelos quilombolas. De modo semelhante, a clareza e a objetividade do material foram unanimemente avaliadas de forma positiva, indicando que a apresentação do conteúdo se mostrou acessível e compreensível, sem necessidade de ajustes adicionais. A facilidade de compreensão manteve-se consistente, reforçando a percepção de que as ideias foram transmitidas de forma clara e acessível a todos os participantes. Quando analisado o desenvolvimento de novas habilidades, 60% dos respondentes assinalaram “concordo totalmente”, e 40%, “concordo”, demonstrando que todos se sentiram contemplados quanto à aquisição de competências. A adequação das atividades foi igualmente bem avaliada, com 60% de concordância total e 40% de concordância parcial, evidenciando um planejamento coerente e ajustado às necessidades do grupo. No que se refere ao tempo de aprendizagem, a maioria (80%) considerou-o suficiente, enquanto 20% indicaram concordância parcial, sugerindo que o cronograma atendeu de maneira satisfatória às expectativas da maioria.

Destaca-se, ainda, que a promoção da reflexão e análise crítica foi unanimemente reconhecida, com 100% dos respondentes assinalando concordância total, indicando uma apreensão sólida da dimensão crítica do PE. Quanto à motivação para participar, também houve avaliação extremamente positiva, reforçando que o engajamento dos quilombolas foi integral e fundamental para a efetivação das oficinas. Por fim, as expectativas de aprendizado foram amplamente atendidas, com 60% de concordância total e 40% de concordância parcial, sem registros de discordância, o que demonstra que o PE correspondeu plenamente às expectativas do grupo.

De forma geral, a avaliação revelou um cenário de respostas altamente positivas, sem registros neutros ou detratores. O PE foi considerado relevante, claro, de fácil compreensão e aplicável à prática, satisfazendo plenamente as expectativas dos quilombolas. 

Quanto às impressões e às sugestões, os comentários qualitativos dos quilombolas trouxeram sugestões para o produto educacional, como “Se houvesse continuidade e acompanhamento do produto”, “Ter mais tempo para aprimorar mais” e “Elaborar um material de apostilas virtual.” “De forma singela parceria com universidades”, evidenciam que há um espaço para aprimorar ainda mais o produto educacional. Outros comentários foram: “Aproveitamos para implantar pensamento crítico e prático de forma gradativa”. Observa-se que não houve registros de comentários negativos, o que evidencia a ampla aceitação do Produto Educacional (PE), o que fortalece a compreensão de sua pertinência prática e valor educativo. Esses relatos, assim como dos discentes, refletem que o PE ultrapassou a mera transmissão de conteúdos, possibilitando experiências concretas de aplicação e fortalecendo a articulação entre teoria e prática. Essa dimensão remete ao que Paulo Freire (1987) aponta ao defender que a educação precisa ser problematizadora e construída no diálogo com a realidade concreta dos sujeitos. Para o autor, “ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo” (Freire, 1987, p. 78), destacando que o aprendizado ganha sentido quando parte da experiência vivida.

Dessa forma, observa-se que a apropriação do conhecimento pelos quilombolas ocorreu de modo mais efetivo quando estes dialogaram diretamente com sua realidade e cultura, favorecendo a ressignificação e a atribuição de sentido social ao aprendizado. Esse movimento reafirma o valor pedagógico do produto educacional (PE) como prática de extensão popular, que vai além do espaço acadêmico e se constitui como experiência formativa integral e emancipadora.

No caso dos discentes, a avaliação do Produto Educacional (PE) foi realizada também a partir de questionário aplicado a 23 estudantes. Cada questão solicitava que o discente indicasse seu grau de concordância em uma escala Likert de 1 a 5, onde 1 = Discordo totalmente e 5 = Concordo totalmente. O objetivo foi verificar a pertinência, clareza, aplicabilidade e contribuição pedagógica do material.

Certamente! Aqui está uma versão com linguagem mais acadêmica e humanizada, mantendo o rigor analítico e valorizando a experiência dos participantes:

A avaliação do Produto Educacional (PE), realizada com um grupo de estudantes, revelou percepções amplamente positivas quanto à sua relevância, clareza e aplicabilidade. Os dados indicam que o material foi considerado pertinente ao processo de ensino-aprendizagem, favorecendo a compreensão dos conteúdos e o desenvolvimento de habilidades empreendedoras.

A linguagem acessível e a estrutura didática do PE foram reconhecidas como facilitadoras da aprendizagem, permitindo que os participantes assimilassem os temas com segurança e autonomia. A maioria dos estudantes demonstrou concordância quanto à clareza dos materiais, o que reforça a adequação dos recursos pedagógicos utilizados.

No que se refere à aquisição de conhecimentos, os resultados apontam que os participantes perceberam avanços significativos em suas competências, embora algumas respostas neutras indiquem a necessidade de tornar esses ganhos mais evidentes. O tempo destinado às atividades foi, em geral, considerado suficiente, ainda que alguns estudantes tenham sinalizado o desejo de maior aprofundamento.

A experiência proporcionada pelo PE também foi avaliada como promotora de reflexão crítica, engajamento e motivação. Os participantes relataram que o material contribuiu para ampliar sua capacidade de análise e tomada de decisão, aspectos fundamentais no contexto do empreendedorismo. Ainda que tenham surgido algumas manifestações neutras e pontuais de discordância, essas observações funcionam como indicativos valiosos para o aprimoramento contínuo do projeto.

De modo geral, os achados evidenciam que o Produto Educacional cumpriu seus objetivos formativos, promovendo uma aprendizagem significativa e contextualizada. A escuta atenta às percepções dos estudantes reforça o compromisso com uma prática pedagógica sensível às necessidades dos sujeitos envolvidos, valorizando suas trajetórias e ampliando as possibilidades de transformação social por meio da educação.

4. CONSIDERAÇÕES 

A experiência relatada evidencia, de forma sensível e crítica, o potencial do empreendedorismo social e das práticas extensionistas como instrumentos pedagógicos capazes de articular saberes técnicos, humanos e cidadãos. O Produto Educacional “Oficinas de Empreendedorismo Social: da prática educativa à formação humana omnilateral” revelou-se um espaço fecundo de aprendizagem dialógica, onde ensino, pesquisa e extensão se entrelaçam de maneira indissociável, promovendo uma formação integral e contextualizada. 

A parceria entre o Instituto Federal da Paraíba (IFPB) e a Comunidade Quilombola do Ipiranga reafirma o papel da educação profissional e tecnológica como promotora de justiça social, sobretudo quando orientada por princípios emancipatórios. Ao reconhecer e valorizar os saberes ancestrais, as práticas culturais e os modos de vida da comunidade, o projeto contribuiu para o fortalecimento da identidade quilombola, promovendo o protagonismo dos sujeitos e estimulando o desenvolvimento sustentável a partir das próprias realidades locais.

A articulação entre escola e comunidade, sustentada nos valores da solidariedade, da cooperação e da autogestão, configura-se como um caminho ético e político para a construção de uma educação comprometida com a transformação social. Trata-se de uma pedagogia que não apenas transmite conteúdos, mas que escuta, acolhe e dialoga com os sujeitos, reconhecendo neles a potência criadora e a capacidade de intervir no mundo. O processo formativo vivido reafirma a importância de promover experiências educativas que ultrapassem os limites físicos e simbólicos da sala de aula, valorizando os territórios como espaços legítimos de produção de conhecimento.

Nesse contexto, o Produto Educacional não se limita a ser um recurso didático, mas se constitui como prática social e política, capaz de mobilizar afetos, saberes e ações coletivas. A escuta ativa das demandas da comunidade, a construção colaborativa dos conteúdos e a valorização das trajetórias individuais e coletivas dos participantes revelam uma concepção de educação que se compromete com a dignidade humana e com a construção de uma sociedade mais justa e plural.

Sugere-se, por fim, que iniciativas como esta sejam ampliadas, sistematizadas e incorporadas às políticas públicas de educação, fortalecendo o papel da extensão como eixo estruturante da formação profissional e reafirmando o compromisso social da escola pública com a emancipação humana. Que a escola, em diálogo com os territórios, possa continuar sendo espaço de esperança, resistência e transformação.

5. REFERÊNCIAS

AGÊNCIA SEBRAE DE NOTÍCIAS. ASN Nacional. Mais de 93 milhões de brasileiros estão envolvidos com o empreendedorismo. 2023. Disponível em: https://agenciasebrae.com.br/cultura-empreendedora/mais-de-93-milhoes-de-brasileiros-estao-envolvidos-com-o-empreendedorismo/. Acesso em: 01 mar. 2024.

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

FEIRE, P. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

FRIGOTTO, Gaudêncio. A produtividade da escola improdutiva: um (re)exame das relações entre educação e estrutura econômico-social capitalista. São Paulo: Cortez, 2001.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

KAPLÚN, Gabriel. Material Educativo: a experiência de aprendizado. Revista Comunicação & Educação, São Paulo, v. 27, p. 46-60, 2003. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2316-9125.v0i27p46-60. Disponível em: https://revistas.usp.br/comueduc/article/view/37491/40205. Acesso em: 8 out. 2025.

MONASTA, Attilio. Antonio Gramsci. Recife: Massangana, 2010.

NOSELLA, Paolo; AZEVEDO, M. L. N. Trabalho e formação humana: leituras gramscianas. Campinas: Autores Associados, 2012.

SAVIANI, Dermeval. Trabalho e educação: fundamentos ontológicos e históricos. Revista Educação e Filosofia, Uberlândia, v. 21, n. 42, p. 95-120, 2007.


1Instituto Federal da Paraíba – IFPB. João Pessoa – Paraíba – http://lattes.cnpq.br/1251786765030948
2Instituto Federal da Paraíba – IFPB. João Pessoa – Paraíba – http://lattes.cnpq.br/1251786765030948