EFICÁCIA E SEGURANÇA DO MIDAZOLAM ORAL NA SEDAÇÃO CONSCIENTE DE PACIENTES ADULTOS EM ODONTOLOGIA

EFFICACY AND SAFETY OF ORAL MIDAZOLAM IN CONSCIOUS SEDATION OF ADULT PATIENTS IN DENTISTRY

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511081518


Mykaela Maria Gomes Dias¹
Tâmara da Silva Guimarães¹
Yasmin Almara Aires Lopes Pereira¹
Orientador: Prof. Luís Otávio Jonas²


RESUMO 

Introdução: A ansiedade odontológica é frequente entre adultos e representa um obstáculo à adesão ao tratamento. A sedação consciente com midazolam oral surge como alternativa eficaz e segura para o controle da ansiedade e do medo, promovendo conforto ao paciente e melhor desempenho do cirurgião-dentista. Metodologia: Realizou-se uma revisão narrativa da literatura com buscas nas bases PubMed, Cochrane, LILACS e SciELO, incluindo publicações de 2015 a 2025. Foram selecionados estudos que abordaram a eficácia, segurança e aplicabilidade clínica do midazolam oral em adultos submetidos à sedação consciente. Resultados: Nove estudos preencheram os critérios de inclusão, abrangendo ensaios clínicos, revisões sistemáticas e estudos retrospectivos. As doses variaram entre 7,5 mg e 15 mg, com início médio de ação de 12 a 30 minutos e duração de 1 a 2 horas. Observou-se redução significativa da ansiedade, melhora da colaboração e amnésia anterógrada em parte dos pacientes. Os efeitos adversos foram leves e transitórios, como sonolência e tontura, sem depressão respiratória ou alterações hemodinâmicas. Discussão: O midazolam oral demonstrou eficácia comparável a outros sedativos, como o óxido nitroso e a Passiflora incarnata, com perfil de segurança superior e amnésia previsível. Divergências sobre dose e tempo de ação refletem variações metodológicas, reforçando a necessidade de padronização dos protocolos clínicos. Considerações Finais: O midazolam oral confirma-se como o padrão-ouro da sedação consciente, unindo eficácia ansiolítica, segurança fisiológica e praticidade, permitindo um atendimento mais seguro, previsível e humanizado.

Palavras-chave: Adulto. Midazolam. Odontologia. Sedação consciente.

ABSTRACT  

Introduction: Dental anxiety is frequent among adults and represents a barrier to treatment adherence. Conscious sedation with oral midazolam emerges as an effective and safe alternative for controlling fear and anxiety, improving patient comfort and dentist performance. Methodology: A narrative literature review was conducted through the PubMed, Cochrane, LILACS, and SciELO databases, including publications from 2015 to 2025. Studies evaluating the efficacy, safety, and clinical applicability of oral midazolam in adults undergoing conscious sedation were selected. Results: Nine studies met the inclusion criteria, comprising clinical trials, systematic reviews, and retrospective studies. Doses ranged from 7.5 mg to 15 mg, with an average onset of 12 to 30 minutes and a duration of 1 to 2 hours. Findings demonstrated a significant reduction in anxiety, improved cooperation, and anterograde amnesia in some patients. Adverse effects were mild and transient, including drowsiness and dizziness, with no respiratory depression or hemodynamic instability reported. Discussion: Oral midazolam showed comparable efficacy to other sedatives, such as nitrous oxide and Passiflora incarnata, but presented a better safety and amnesia profile. Differences regarding dosage and onset time reflect methodological variations, highlighting the need for standardized clinical protocols. Final Considerations: Oral midazolam is confirmed as the gold standard for conscious sedation in dentistry, combining anxiolytic efficacy, physiological safety, and practicality, enabling a safer, predictable, and humanized dental care experience.

Keywords: Adult. Midazolam. Dentistry. Conscious sedation.

1. INTRODUÇÃO

A ansiedade odontológica é um fenômeno amplamente documentado, que afeta entre 3,8% e 25% da população adulta, com variações atribuídas ao estilo de vida, fatores culturais, tipo de atendimento e acesso aos serviços de saúde bucal (Scandiuzzi et al., 2019). No Brasil, estudos demonstram que mais de um quinto dos pacientes apresenta níveis de ansiedade clinicamente relevantes, o que impacta diretamente na adesão ao tratamento odontológico, contribuindo para a negligência da saúde bucal e a evolução de quadros clínicos simples para situações mais complexas (Santos et al., 2025; Abed, 2025).

Além dos prejuízos clínicos, a ansiedade interfere negativamente na relação profissional-paciente e na experiência do atendimento, promovendo respostas fisiológicas como taquicardia, sudorese, desconforto respiratório e até síncope. Muitos pacientes evitam o consultório odontológico até que a dor se torne insuportável, agravando ainda mais o quadro clínico. Nesse cenário, estratégias que favoreçam o conforto, a colaboração e o controle emocional tornam-se essenciais na prática clínica contemporânea (Scandiuzzi et al., 2019; Santos et al., 2025).

A sedação consciente, especialmente por via oral, tem se consolidado como uma técnica eficaz, segura e ética para o controle da ansiedade em procedimentos odontológicos, sobretudo em adultos (Araújo et al., 2018; Julio et al., 2025). Entre os agentes farmacológicos disponíveis, os benzodiazepínicos se destacam pela ampla margem terapêutica, facilidade posológica e bons resultados clínicos. O midazolam, em particular, tem sido amplamente utilizado por via oral por sua ação rápida, efeito ansiolítico e amnésico, e boa aceitação por parte dos pacientes (Julio et al., 2025; Georgeno et al., 2025).

O midazolam atua sobre os receptores GABA-A, promovendo inibição neural e induzindo efeitos como sedação, redução da ansiedade e relaxamento muscular. Estudos clínicos demonstram sua eficácia na redução da ansiedade em adultos, especialmente em procedimentos como extrações dentárias e implantes, apresentando baixo risco de efeitos colaterais graves (Kim, 2022; Zhang et al., 2020). Quando comparado a outros fármacos, como a dexmedetomidina ou o remimazolam, o midazolam via oral se mantém como uma alternativa acessível e eficiente, apesar de limitações como tempo de início mais lento e maior variabilidade na resposta individual (Yamamoto et al., 2025).

Apesar da ampla utilização, a literatura ainda carece de consenso quanto ao protocolo ideal para o uso do midazolam via oral em adultos na odontologia, havendo variações nas doses, tempo de administração, indicações e monitoramento dos efeitos. Ademais, muitas investigações se concentram em populações pediátricas ou utilizam a via intravenosa, o que reforça a necessidade de estudos voltados especificamente para o uso ambulatorial em adultos ansiosos submetidos a tratamentos odontológicos eletivos (Zhang et al., 2020; Araújo et al., 2018).

Portanto, o objetivo desta revisão narrativa é reunir, analisar e discutir criticamente as evidências disponíveis na literatura sobre o uso do midazolam por via oral como método de sedação consciente em pacientes adultos submetidos a procedimentos odontológicos. Busca-se compreender sua eficácia, segurança, vantagens, limitações e comparações com outros agentes sedativos, contribuindo para a atualização do conhecimento e a qualificação da prática clínica odontológica voltada ao manejo da ansiedade.

2. METODOLOGIA

Este estudo trata-se de uma revisão narrativa da literatura, elaborada com o propósito de reunir, organizar e discutir criticamente as evidências científicas mais recentes sobre o uso do midazolam administrado por via oral em adultos submetidos a procedimentos odontológicos, com foco em aspectos relacionados à sua eficácia, segurança e aplicabilidade clínica.

A busca por publicações relevantes foi realizada entre os meses de julho e agosto de 2025, por meio de pesquisas sistematizadas nas bases de dados PubMed/MEDLINE, Cochrane Library e LILACS. Para isso, foram utilizadas combinações de descritores controlados e palavras-chave livres em português e inglês, tais como “midazolam”, “oral sedation”, “conscious sedation”, “adult patients”, “dentistry”, entre outras. A estratégia de busca visou abranger o maior número possível de estudos pertinentes ao tema, respeitando os critérios de elegibilidade definidos previamente.

Foram considerados para inclusão os artigos publicados nos últimos dez anos, com disponibilidade de texto completo gratuito e que abordassem, de forma direta, o uso do midazolam por via oral em adultos (a partir de 18 anos) no contexto de procedimentos odontológicos ambulatoriais. Foram incluídos tanto estudos primários (ensaios clínicos, estudos observacionais, estudos de coorte) quanto revisões sistemáticas e revisões narrativas que apresentassem dados relevantes à temática proposta.

Foram excluídas as publicações cujo foco principal fosse o uso de midazolam por outras vias de administração (como intravenosa, intranasal ou intramuscular), bem como estudos realizados exclusivamente em populações pediátricas, geriátricas institucionalizadas ou em ambientes hospitalares complexos, como unidades de terapia intensiva ou centros cirúrgicos sob anestesia geral. Também foram excluídos os artigos indisponíveis em texto completo, publicados em idiomas distintos do português, inglês ou espanhol, ou que não apresentassem relação direta com o objetivo deste trabalho.

Após a busca e o levantamento inicial dos estudos, foi realizada uma triagem dos resultados por meio da leitura dos títulos e resumos. Os artigos que atendiam aos critérios de inclusão foram, então, lidos na íntegra, e os dados extraídos foram organizados em categorias temáticas previamente definidas: dados epidemiológicos e de contexto, técnicas de sedação em odontologia, características farmacológicas do midazolam oral, evidências de eficácia clínica, perfil de segurança, lacunas identificadas na literatura e relevância da investigação para a prática clínica.

A análise dos dados foi conduzida de maneira descritiva, buscando destacar os principais achados de cada estudo e as contribuições que oferecem para a compreensão do uso do midazolam oral em odontologia. Essa abordagem permitiu a construção de uma visão crítica e atualizada sobre o tema, considerando as diferentes perspectivas clínicas, farmacológicas e metodológicas apresentadas na literatura científica contemporânea.

3. RESULTADOS

A presente revisão narrativa reuniu nove estudos publicados entre 2015 a 2025, abrangendo ensaios clínicos, revisões sistemáticas e estudos retrospectivos que avaliaram o uso do midazolam administrado por via oral em adultos durante procedimentos odontológicos. De forma geral, as evidências apontam que o fármaco apresenta alta eficácia ansiolítica, boa aceitação clínica e baixo índice de eventos adversos, configurando-se como uma alternativa segura e prática para o controle da ansiedade em consultórios odontológicos (Georgeno et al., 2025; Dantas et al., 2017).

As doses de midazolam utilizadas nos estudos variaram entre 7,5 mg e 15 mg, administradas geralmente 30 minutos antes do procedimento, com início médio de ação de 20 a 30 minutos e duração de 1 a 2 horas (Weissheimert et al., 2016; Storskrubba e Gabre, 2024). Essa variação depende do metabolismo individual e da idade, sendo as doses mais baixas preferidas em pacientes idosos devido à maior sensibilidade farmacológica (Weissheimert et al., 2016). A via oral mostrou-se amplamente preferida por eliminar a necessidade de acesso venoso e proporcionar maior conforto ao paciente. Em casos de medo intenso ou deficiência cognitiva, alguns autores sugerem a associação do midazolam ao óxido nitroso, para potencializar a sedação e facilitar a execução dos procedimentos (Storskrubba e Gabre, 2024).

Tabela 1 – Características clínicas dos estudos incluídos

Autor/AnoTipo de EstudoN (Adultos)Dose (mg)Início deação (min)Tipo de procedimentoResultados principais
Storskrubba e Gabre, 2024Retrospectivo2657,3 mg (média)22Exodontia, restauração91,9% sucesso; 2,2% EAs leves
Dantas et al., 2017Ensaio clínico4015 mg30Exodontia 3º molar70% menos ansiosos; 20% amnésia
Georgeno et al., 2025Ensaio clínico300,5 mg/kg12,7 ± 2,3Procedimentos geraisVAS ↓6,2; 76% satisfação
Araújo et al., 2021Revisão sistemática977,5–15 mgImplantes, exodontiaAlta eficácia; sonolência leve
Sampaio, 2022Comparativo407,5 mgExodontia 3º molarSimilar ao N₂O; FC estável

Fonte: Elaboração própria (2025) com base nos estudos analisados.

Os estudos revisados incluíram pacientes adultos entre 18 e 60 anos, com predominância do sexo feminino e histórico de ansiedade odontológica leve a moderada (Storskrubba e Gabre, 2024; Dantas et al., 2017). Os principais procedimentos realizados foram exodontias, restaurações e implantes dentários, sendo a sedação mais indicada em indivíduos com medo dentário ou experiências prévias negativas. Autores como De Lima Nunes e Rocha (2022) ressaltam que o midazolam não apenas reduz o medo e a tensão muscular, mas também promove amnésia anterógrada, tornando o atendimento mais tranquilo e menos traumático.

Os resultados demonstraram redução significativa dos níveis de ansiedade, evidenciada tanto por medidas subjetivas (como a Escala Visual Analógica) quanto por parâmetros fisiológicos, incluindo frequência cardíaca e pressão arterial (Georgeno et al., 2025). Em ensaios clínicos, observou-se que mais de 70% dos pacientes relataram sensação de calma após a administração de 15 mg do fármaco, sendo que cerca de 20% apresentaram amnésia anterógrada — um efeito considerado benéfico em cirurgias breves (Dantas et al., 2017).

De forma comparativa, Araújo et al. (2021) constataram eficácia semelhante entre o midazolam e sedativos alternativos, como a Passiflora incarnata e a clonidina, mas com maior índice de satisfação (77%) e início de ação mais previsível. Por outro lado, Sampaio (2022) observou que o midazolam e o óxido nitroso apresentaram eficácia semelhante, embora o midazolam necessite de maior tempo de latência. Essa diferença, contudo, não comprometeu o controle da ansiedade, reforçando que o fármaco é uma escolha adequada em procedimentos ambulatoriais planejados.

A segurança foi um ponto de consenso entre os autores. Os eventos adversos mais relatados foram sonolência leve, tontura e relaxamento muscular, geralmente de curta duração e sem necessidade de intervenção médica (Dantas et al., 2017; Georgeno et al., 2025). Em 418 sedações avaliadas, Storskrubba e Gabre (2024) identificaram apenas 2,2% de eventos leves, sem registro de depressão respiratória ou complicações cardiovasculares. Essa estabilidade clínica reforça o excelente perfil de segurança do midazolam oral, desde que haja monitorização básica com oximetria.

O uso de flumazenil como antagonista é indicado em casos de sedação excessiva, oferecendo controle rápido e seguro sobre os efeitos do fármaco (De Lima Nunes e Rocha, 2022). Embora o óxido nitroso possua ação mais rápida, sua aplicação requer equipamentos específicos e profissionais treinados, o que limita sua utilização fora de centros especializados (Sampaio, 2022). Assim, o midazolam oral se destaca por ser uma opção acessível, prática e previsível para a maioria dos consultórios odontológicos.

Tabela 2 – Comparação de eficácia e segurança entre sedativos

FármacoViaDoseEficácia (Controle de Ansiedade)Efeitos adversosVantagensDesvantagens
MidazolamOral7,5–15 mgAltaSonolência leveSeguro, amnésico, custo baixoInício mais lento
Óxido NitrosoInalatória40–60%AltaNáusea ocasionalAção rápida, reversívelRequer equipamento
Passiflora incarnataOral260 mgModeradaNenhumNatural, tolerávelMenor potência
ClonidinaOral150 µgAltaHipotensão leveEficaz, ansiolíticoBradicardia
DiazepamOral10 mgModeradaSedação prolongadaAmplo usoLenta eliminação

Fonte: Elaboração própria (2025) com base nos estudos revisados.

Os autores analisados convergem ao reconhecer que o midazolam oral reúne eficácia ansiolítica, segurança fisiológica e boa aceitação clínica. Entretanto, há pequenas divergências quanto à dose ideal e à previsibilidade dos efeitos, sobretudo em comparação com a sedação intravenosa, que apresenta início mais rápido (Georgeno et al., 2025). Mesmo assim, a via oral se mantém como a opção mais viável em consultórios de rotina, especialmente quando o objetivo é proporcionar conforto e cooperação do paciente (Storskrubba e Gabre, 2024).

Dessa forma, os resultados obtidos nesta revisão confirmam que o midazolam oral permanece como o fármaco de referência para a sedação consciente de adultos em odontologia, equilibrando eficácia terapêutica, segurança clínica e aplicabilidade prática. Sua ampla margem de segurança, aliada à previsibilidade dos efeitos e ao baixo custo, reforça seu papel essencial na odontologia moderna humanizada e centrada no bem-estar do paciente.

4. DISCUSSÃO

Os achados desta revisão indicam que o midazolam oral permanece como o sedativo de referência na odontologia contemporânea para o controle da ansiedade e promoção de amnésia anterógrada. Sua eficácia clínica foi observada de forma consistente, independentemente do tipo de procedimento odontológico, com redução significativa da ansiedade e alto índice de satisfação dos pacientes (Araújo et al., 2021; Storskrubba e Gabre, 2024). Essa constância de resultados reflete o equilíbrio entre segurança e efetividade, atributos que consolidam o fármaco como uma escolha terapêutica versátil e previsível.

A literatura analisada mostra que as doses de 7,5 mg a 15 mg são as mais utilizadas e bem toleradas, com início de ação variando entre 12 e 30 minutos e duração média de 1 a 2 horas (Weissheimert et al., 2016; Georgeno et al., 2025). Essa diferença de tempo pode ser explicada por fatores farmacocinéticos e pela formulação administrada, visto que soluções líquidas tendem a ter absorção mais rápida do que comprimidos. Além disso, o ajuste de dose conforme idade ou peso demonstra ser determinante para a segurança, uma vez que doses mais elevadas (15 mg) estão associadas a maior incidência de sonolência e tontura (De Oliveira Araújo et al., 2021). Assim, o controle rigoroso da dose é essencial para garantir sedação adequada sem comprometimento fisiológico.

Do ponto de vista farmacológico, o midazolam atua como agonista do receptor GABA-A, potencializando o efeito inibitório do ácido gama-aminobutírico e promovendo relaxamento muscular, ansiólise e amnésia (Weissheimert et al., 2016). Sua alta lipossolubilidade e ausência de metabólitos ativos explicam o início rápido de ação e a curta meia-vida, resultando em recuperação previsível e sem efeitos residuais, ao contrário do diazepam, que possui eliminação prolongada (De Lima Nunes e Rocha, 2022). Essa diferença farmacológica justifica por que o midazolam é considerado o benzodiazepínico de eleição para sedação consciente, enquanto o diazepam é mais indicado para terapias ansiolíticas prolongadas.

Os estudos convergem em reconhecer a segurança respiratória e cardiovascular do midazolam oral quando administrado dentro de protocolos clínicos adequados (Storskrubba e Gabre, 2024; Dantas et al., 2017). Mesmo em amostras extensas, como a de Storskrubba e Gabre (2024), que avaliou 418 sedações, apenas 2,2% dos casos apresentaram eventos adversos leves, como náusea ou sonolência. A ausência de depressão respiratória foi confirmada em ensaios recentes, reforçando o amplo perfil de segurança do fármaco (Georgeno et al., 2025). Tais dados fortalecem a aplicabilidade do midazolam em consultórios odontológicos que adotam monitorização básica e possuem flumazenil disponível como antagonista em situações emergenciais.

Contudo, existem divergências relevantes entre os autores quanto à eficácia comparativa com outros sedativos. Enquanto Sampaio (2022) identificou níveis de sedação semelhantes entre o midazolam oral e o óxido nitroso, Georgeno et al. (2025) observaram que o midazolam apresentou menor redução na Escala Visual Analógica de ansiedade. Essa diferença pode decorrer do tempo mais lento de absorção oral, já que o N₂O atua de forma quase imediata. Em contrapartida, o midazolam oferece o benefício de amnésia anterógrada, relatada por 20% dos pacientes, o que o torna preferível em situações de fobia dentária e cirurgias curtas (Dantas et al., 2017).

A amnésia anterógrada é, de fato, um dos efeitos mais citados como benéfico na literatura, pois reduz o impacto emocional de experiências negativas e favorece a colaboração do paciente durante o procedimento (De Lima Nunes e Rocha, 2022). Ainda que alguns autores relatem reações paradoxais de excitação em casos isolados (Sampaio, 2022), essas ocorrências são raras e autolimitadas. De modo geral, a amnésia associada ao midazolam é considerada terapêutica e protetora, especialmente em pacientes ansiosos, reforçando seu papel em um contexto de odontologia humanizada.

Outro ponto de consenso entre os estudos é a aceitação clínica do midazolam pelos pacientes. De Oliveira Araújo et al. (2021) relataram 77% de satisfação com a dose de 7,5 mg, e Dantas et al. (2017) observaram que 52,5% dos pacientes preferiram o midazolam à Passiflora incarnata, devido à amnésia induzida. Essa alta aceitação reflete não apenas a eficácia, mas também a sensação de conforto e tranquilidade proporcionada pela sedação consciente, tornando o atendimento mais previsível para o cirurgião-dentista e menos traumático para o paciente.

Do ponto de vista metodológico, as pesquisas analisadas apresentam lacunas significativas. Muitos estudos exibem amostras reduzidas, ausência de padronização das doses e diferentes escalas de mensuração da ansiedade (De Oliveira Araújo et al., 2021). Storskrubba e Gabre (2024) destacaram a falta de registro padronizado de variáveis clínicas, como peso e saturação, o que compromete a comparabilidade entre investigações. Essas limitações metodológicas demonstram a necessidade urgente de ensaios clínicos randomizados com protocolos uniformes, que incluam monitorização padronizada e critérios objetivos de avaliação da sedação.

No campo das implicações clínicas, o midazolam oral se destaca por aliar segurança, previsibilidade e facilidade de administração, sendo indicado para pacientes ansiosos, fóbicos e com doenças sistêmicas compensadas (De Lima Nunes e Rocha, 2022). Seu uso contribui para a redução de intercorrências médicas, melhor controle comportamental e adesão ao tratamento odontológico. Entretanto, seu emprego requer o cumprimento rigoroso de normas éticas e legais, incluindo anamnese detalhada, consentimento informado e observação pós-procedimento (Corcuera-Flores et al., 2016). Tais medidas garantem a segurança do paciente e a responsabilidade profissional.

Embora a literatura reafirme o midazolam oral como o padrão-ouro da sedação consciente, ela também evidencia a necessidade de estudos mais recentes que avaliem novos fármacos e formulações. A dexmedetomidina, por exemplo, tem sido apontada como uma alternativa promissora, por oferecer sedação cooperativa com menor risco de efeitos adversos (De Lima Nunes Rocha, 2022). Além disso, pesquisas futuras devem investigar variações farmacocinéticas entre diferentes faixas etárias e perfis metabólicos, a fim de aprimorar os protocolos de sedação personalizada (Georgeno et al., 2025).

Assim, os resultados e comparações entre os autores demonstram que o midazolam oral reúne eficácia ansiolítica comprovada, segurança fisiológica e boa aceitação clínica, características que justificam sua ampla utilização na odontologia moderna. No entanto, a heterogeneidade metodológica e a escassez de ensaios robustos evidenciam a necessidade de padronização dos protocolos e de uma abordagem científica contínua. O aprimoramento desses parâmetros permitirá consolidar o uso racional do midazolam, garantindo uma sedação consciente mais previsível, segura e humanizada para pacientes adultos.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os resultados desta revisão permitem concluir que o midazolam administrado por via oral é um fármaco eficaz e seguro para a sedação consciente de pacientes adultos em odontologia. As evidências apontam que doses entre 7,5 mg e 15 mg proporcionam controle satisfatório da ansiedade, promovendo relaxamento, amnésia anterógrada e conforto durante o atendimento. A via oral mostrou-se vantajosa por ser prática, de fácil administração e bem aceita pelos pacientes, sem exigir infraestrutura complexa. Esses fatores explicam por que o midazolam oral se consolidou como uma alternativa viável e amplamente utilizada para o manejo da ansiedade odontológica.

De forma convergente, os estudos analisados indicaram que o fármaco mantém estabilidade hemodinâmica e respiratória, apresentando apenas efeitos adversos leves e transitórios, como sonolência e tontura. Sua rápida absorção e curta meia-vida favorecem uma recuperação previsível e segura, diferenciando-o de outros benzodiazepínicos, como o diazepam. Ainda assim, diferenças metodológicas entre os estudos como, por exemplo, amostras reduzidas, variação de doses e ausência de padronização das escalas de ansiedade evidenciam a necessidade de protocolos clínicos uniformes e novos ensaios randomizados que fortaleçam o nível de evidência disponível.

Conclui-se, portanto, que o midazolam oral representa o padrão-ouro da sedação consciente em odontologia, por aliar eficácia ansiolítica, previsibilidade farmacológica e segurança clínica. Entretanto, seu uso deve estar sempre associado à monitorização dos sinais vitais, obtenção do consentimento informado e disponibilidade do antagonista flumazenil, garantindo a segurança do paciente. A ampliação de estudos controlados e o desenvolvimento de novas formulações podem aprimorar ainda mais essa prática, consolidando o midazolam como um recurso essencial para uma odontologia moderna, segura e humanizada.

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¹Acadêmica do Curso de Odontologia – Afya Porto Nacional.
²Professor do curso de Odontologia–Afya Porto Nacional (Orientador).