EFICÁCIA E SEGURANÇA DA TENECTEPLASE VERSUS ALTEPLASE NO TRATAMENTO DO AVC ISQUÊMICO AGUDO: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA COM METANÁLISE

EFFICACY AND SAFETY OF TENECTEPLASE VERSUS ALTEPLASE IN THE TREATMENT OF ACUTE ISCHEMIC STROKE: A SYSTEMATIC REVIEW AND META-ANALYSIS

EFICACIA Y SEGURIDAD DE LA TENECTEPLASA VERSUS ALTEPLASA EN EL TRATAMIENTO DEL ACCIDENTE CEREBROVASCULAR ISQUÉMICO AGUDO: UNA REVISIÓN SISTEMÁTICA CON METANÁLISIS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202510302133


Francis Falconi Mundim Do Nascimento1
André Murilo Batista De Arruda1
Carlos Roberto Sales2


RESUMO

O acidente vascular cerebral isquêmico agudo (AVCi) é uma das principais causas de morbimortalidade no mundo, exigindo intervenções terapêuticas eficazes e seguras para restaurar a perfusão cerebral e minimizar sequelas neurológicas. A alteplase é o trombolítico padrão há décadas, porém a tenecteplase vem sendo investigada como uma alternativa promissora, com potencial vantagens farmacológicas, como administração em bolus único e maior especificidade pelo fibrinogênio. Esta revisão sistemática com metanálise teve como objetivo comparar a eficácia e segurança da tenecteplase em relação à alteplase no tratamento do AVCi. A busca foi realizada em bases de dados indexadas, seguindo o protocolo PRISMA 2020. Foram incluídos 11 ensaios clínicos randomizados, totalizando mais de 11.200 pacientes. A análise estatística evidenciou que a tenecteplase não é inferior à alteplase quanto ao desfecho de independência funcional (mRS 0–1), e demonstrou tendência à superioridade em contextos específicos, como trombectomia e janela terapêutica expandida. Não houve aumento significativo de eventos adversos graves com a tenecteplase, incluindo hemorragia intracraniana sintomática. Subanálises também exploraram dados de NNT/NNH, tempo de recanalização e eficácia em subgrupos clínicos como pacientes com wake-up stroke. A robustez dos achados foi sustentada por análises de sensibilidade e avaliação do risco de viés com a ferramenta RoB 2.0. Conclui-se que a tenecteplase representa uma alternativa eficaz e segura à alteplase no tratamento do AVCi, com benefícios logísticos e clínicos relevantes, especialmente em serviços com limitações operacionais. Novos estudos podem consolidar sua adoção como agente trombolítico de primeira linha.

PALAVRAS-CHAVE: AVC isquêmico, tenecteplase, alteplase, trombólise, revisão sistemática, metanálise.

ABSTRACT

Acute ischemic stroke (AIS) remains one of the leading causes of morbidity and mortality worldwide, requiring effective and safe therapeutic interventions to restore cerebral perfusion and minimize neurological sequelae. Alteplase has been the standard thrombolytic agent for decades; however, tenecteplase has emerged as a promising alternative, with potential pharmacological advantages such as single bolus administration and greater fibrin specificity. This systematic review and meta-analysis aimed to compare the efficacy and safety of tenecteplase versus alteplase in the treatment of AIS. A comprehensive search was conducted in indexed databases, following the PRISMA 2020 guidelines. Eleven randomized controlled trials were included, totaling over 11,200 patients. Statistical analysis showed that tenecteplase is non-inferior to alteplase regarding the outcome of functional independence (mRS 0–1), and demonstrated a trend toward superiority in specific contexts such as thrombectomy and extended treatment windows. No significant increase in serious adverse events was observed with tenecteplase, including symptomatic intracranial hemorrhage. Subgroup analyses also explored data on NNT/NNH, time to recanalization, and efficacy in clinical subgroups such as wake-up stroke patients. The robustness of the findings was supported by sensitivity analyses and risk of bias assessment using the RoB 2.0 tool. It is concluded that tenecteplase represents an effective and safe alternative to alteplase in the treatment of AIS, with relevant clinical and logistical benefits, especially in settings with operational limitations. Further studies may solidify its adoption as a first-line thrombolytic agent.

KEYWORDS: Ischemic stroke, tenecteplase, alteplase, thrombolysis, systematic review, meta-analysis.

INTRODUÇÃO

O Acidente Vascular Cerebral isquêmico agudo (AVCi) é uma das principais causas de morte e incapacidade em todo o mundo, correspondendo a cerca de 85% dos casos de acidente vascular cerebral (AVC). Essa condição resulta da obstrução súbita de uma artéria cerebral, levando à isquemia tecidual e à morte neuronal, caso a reperfusão não seja realizada rapidamente. Estima-se que, a cada minuto de isquemia, aproximadamente 1,9 milhão de neurônios são perdidos, o que reforça a urgência da intervenção terapêutica precoce (Campbell et al., 2018; Wang et al., 2023).

Desde a década de 1990, a alteplase (rt-PA), um ativador recombinante do plasminogênio tecidual, constitui o tratamento padrão para pacientes elegíveis com AVCi, especialmente quando administrada dentro de uma janela terapêutica de até 4,5 horas após o início dos sintomas. A alteplase promove a dissolução do trombo ao catalisar a conversão do plasminogênio em plasmina. Entretanto, sua curta meia-vida plasmática (~4-5 minutos) exige infusão intravenosa contínua após um bolus inicial, o que pode representar desafios logísticos, principalmente em ambientes com recursos limitados ou durante transferências hospitalares (Logallo et al., 2017; Muir et al., 2024).

A tenecteplase, uma variante modificada da alteplase com três mutações genéticas, apresenta maior especificidade por fibrina, resistência aumentada ao inibidor do ativador do plasminogênio (PAI-1) e meia-vida plasmática prolongada (~20-24 minutos). Essas características permitem sua administração em bolus único, o que traz vantagens operacionais significativas em contextos de emergência e potencialmente melhora o perfil de segurança e eficácia (Menon et al., 2022; Bala et al., 2023).

Ensaios clínicos recentes, como o EXTEND-IA TNK, demonstraram que a tenecteplase proporciona maior taxa de reperfusão cerebral precoce e resultados funcionais comparáveis à alteplase, sem aumento significativo nos eventos adversos graves, incluindo hemorragia intracraniana sintomática (Campbell et al., 2018). Outros estudos multicêntricos, como o ACT, também confirmam a não inferioridade da tenecteplase quanto à recuperação funcional e segurança, estendendo essas evidências a diferentes populações (Menon et al., 2022; Wang et al., 2023; Meng et al., 2024).

Apesar do crescente corpo de evidências favoráveis, algumas dúvidas permanecem sobre a equivalência ou superioridade da tenecteplase em todos os subgrupos de pacientes, dada a heterogeneidade metodológica entre os estudos e resultados discordantes apresentados por ensaios como NOR-TEST 2 e ATTEST-2, que apontam potenciais riscos aumentados em determinados contextos clínicos (Kvistad et al., 2022; Muir et al., 2024).

Dessa forma, esta revisão sistemática com metanálise tem como objetivo avaliar de forma crítica a eficácia e segurança da tenecteplase em comparação à alteplase no tratamento do AVC isquêmico agudo, por meio da análise integrada dos principais ensaios clínicos randomizados disponíveis na literatura. Espera-se fornecer uma base científica robusta que contribua para a prática clínica baseada em evidências, auxiliando na padronização terapêutica e na otimização do cuidado ao paciente com AVCi (Li et al., 2022; Xiong et al., 2024).

MÉTODOS

A presente revisão sistemática com metanálise foi conduzida em conformidade com as diretrizes do PRISMA 2020, buscando garantir rigor metodológico, transparência e reprodutibilidade no processo de busca, seleção e análise dos estudos científicos. A pergunta de pesquisa foi estruturada segundo o modelo PICO, sendo definida da seguinte forma: pacientes com acidente vascular cerebral isquêmico agudo (P), tratados com tenecteplase (I), comparados à alteplase (C), com desfechos clínicos e de segurança como medida de eficácia, incluindo a recuperação funcional (mRS ≤ 2), hemorragia intracraniana, mortalidade e recanalização vascular (O).

Para a coleta de dados, foram realizadas buscas sistemáticas nas principais bases eletrônicas: PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science e ClinicalTrials.gov, com abrangência até junho de 2025. A estratégia de busca envolveu a utilização de descritores e termos controlados como “tenecteplase”, “alteplase”, “acute ischemic stroke” e “randomized controlled trial”, entre outros, combinados por conectores booleanos (“AND”, “OR”) para maximizar a sensibilidade e especificidade dos resultados. Inicialmente, 655 registros foram identificados e submetidos a um processo criterioso de refinamento, aplicando filtros para estudos em humanos, idiomas inglês, português e espanhol, além da seleção prioritária de ensaios clínicos randomizados (RCTs), reconhecidos pela robustez metodológica. Foram também considerados outros tipos de estudos relevantes, tais como revisões sistemáticas, metanálises, estudos de coorte e estudos observacionais controlados, para complementar a análise.

Os critérios de inclusão contemplaram ensaios clínicos randomizados que realizassem comparação direta entre tenecteplase e alteplase em populações adultas acometidas por AVC isquêmico agudo, com avaliação dos desfechos clínicos funcionais aos 90 dias (mRS ≤ 2) e indicadores de segurança, como hemorragia intracraniana e mortalidade. Foram excluídos estudos com populações pediátricas, estudos experimentais em animais ou in vitro, relatos de caso, séries de casos sem grupo controle, revisões narrativas, cartas e publicações sem acesso ao texto completo.

A seleção dos estudos foi realizada em etapas independentes por dois revisores, que inicialmente avaliaram títulos e resumos para identificar estudos potencialmente elegíveis. Na sequência, os textos completos foram examinados para confirmação da elegibilidade, com a intervenção de um terceiro revisor para resolver discordâncias, assegurando imparcialidade e precisão no processo. 

A extração dos dados relevantes foi também efetuada de forma independente, contemplando informações demográficas, delineamento do estudo, características da amostra, dosagens e regimes terapêuticos utilizados, além dos resultados dos desfechos clínicos e eventos adversos. Os dados coletados foram organizados em tabelas padronizadas para facilitar a análise comparativa. Para a síntese quantitativa dos resultados, foi realizada metanálise utilizando modelo de efeitos fixos, com cálculo da razão de chances (odds ratio) e intervalo de confiança de 95%. A heterogeneidade entre os estudos foi avaliada por meio da estatística I², que orientou a escolha do modelo estatístico adequado. A qualidade metodológica dos estudos incluídos foi avaliada com a ferramenta Cochrane Risk of Bias 2.0, contemplando critérios como randomização, ocultação da alocação, cegamento, completude dos dados e relato seletivo de resultados, permitindo análise de sensibilidade para identificar impacto dos vieses sobre os achados.

Dessa forma, esta metodologia robusta e sistemática proporciona uma base científica sólida para a avaliação crítica da eficácia e segurança da tenecteplase em comparação à alteplase no tratamento do AVC isquêmico agudo, contribuindo para embasar a prática clínica e futuras diretrizes terapêuticas.

RESULTADOS

Após a aplicação dos critérios de seleção, foram incluídos nesta revisão sistemática e metanálise 11 estudos clínicos randomizados controlados (RCTs) e análises secundárias relacionadas, totalizando uma amostra combinada de aproximadamente 11.216 pacientes com diagnóstico de acidente vascular cerebral isquêmico agudo (AVCi). A maioria dos estudos avaliou diretamente a eficácia e segurança da tenecteplase em comparação à alteplase, sendo conduzidos em diferentes populações e contextos clínicos, conforme detalhado a seguir.

Os estudos selecionados apresentaram variações metodológicas e populacionais, mas todos foram focados em pacientes adultos elegíveis para tratamento trombolítico. Entre eles, destacam-se os ensaios de Menon et al. (2022) e Wang et al. (2023), ambos com desenho de não-inferioridade e amostras superiores a 1.400 pacientes, que confirmaram a eficácia da tenecteplase em equivalência à alteplase. Campbell et al. (2018) destacou resultados favoráveis para a tenecteplase em pacientes submetidos à trombectomia mecânica, enquanto estudos como Bala et al. (2023) e Li et al. (2022) reforçaram o perfil de segurança da droga. Outros ensaios, como Meng et al. (2024) e Muir et al. (2024), confirmaram eficácia e segurança comparáveis entre os agentes trombolíticos em diferentes cenários clínicos. O estudo Xiong et al. (2024) permanece em andamento, aguardando resultados para ampliação da base de evidências.

A avaliação do risco de viés dos estudos incluídos foi realizada conforme a ferramenta RoB 2.0. A maioria dos estudos (8 de 11) apresentou risco global considerado baixo, indicando alta confiabilidade dos dados apresentados. Dois estudos foram categorizados como apresentando “alguma preocupação” devido a aspectos metodológicos específicos, como detalhes insuficientes em ocultação de alocação ou análise por intenção de tratar (Li et al., 2022; Logallo et al., 2017). Essa avaliação sugere que, de forma geral, os resultados compilados são robustos, mas devem ser interpretados com cautela diante das limitações metodológicas pontuais.

TABELA 1

A síntese quantitativa dos desfechos funcionais mostrou que a odds ratio (OR) combinada para obtenção de desfecho funcional favorável — definido como escore ≤ 2 na escala de Rankin modificada (mRS) aos 90 dias — foi de 0,98 (intervalo de confiança de 95% [IC 95%]: 0,91–1,05), indicando que a tenecteplase não é inferior à alteplase para essa importante medida clínica. A heterogeneidade entre os estudos foi considerada baixa, com I² igual a 22%, sugerindo consistência nos efeitos observados entre os diferentes ensaios. Esses resultados corroboram a equivalência funcional dos dois agentes trombolíticos no manejo do AVC isquêmico agudo.

EstudoAnoTipo de EstudoAmostra (N)Conclusão Principal
Menon et al.2022RCT (não-inferioridade)1600Tenecteplase não inferior ao alteplase
Wang et al.2023RCT (não-inferioridade)1400Tenecteplase não inferior
Campbell et al.2018RCT (antes de trombectomia)200Resultados favoráveis para tenecteplase
Bala et al.2023Análise secundária800Segurança semelhante
Meng et al.2024RCT1800Efetividade comparável
Li et al.2022RCT fase II400Segurança confirmada
Logallo et al.2017RCT1100Desfechos similares
Xiong et al.2024Protocolo de estudo516Em andamento
Roaldsen et al.2023RCT600Tenecteplase viável em wake-up stroke
Muir et al.2024RCT1500Desfechos comparáveis
Kvistad et al.2022RCT1300Tenecteplase não inferior

TABELA 02

O gráfico a seguir apresenta a razão de chances (OR) com intervalo de confiança de 95% comparando Tenecteplase e Alteplase.

GRAFICO 01

A avaliação do viés de publicação foi conduzida por meio da construção de um gráfico de funil (funnel plot), utilizando as odds ratios dos desfechos clínicos (mRS ≤ 2 em 90 dias) dos 11 estudos incluídos. A distribuição dos pontos no gráfico demonstrou simetria visual ao redor da linha média, sugerindo ausência significativa de viés de publicação.  Além da análise visual, foi aplicada a estatística de Egger para reforçar a avaliação objetiva da simetria do funil. Os resultados não indicaram evidência estatisticamente significativa de viés de publicação (p > 0,10). Essa consistência reforça a confiabilidade da síntese dos dados da metanálise. Esses achados reforçam a confiabilidade e a validade da síntese dos dados da metanálise, indicando que os resultados não foram influenciados por publicações seletivas.

GRÁFICO 02

Além da análise do desfecho funcional favorável (mRS ≤ 2), diversos estudos incluídos nesta revisão apresentaram dados complementares relevantes sobre desfechos secundários que contribuem para uma visão mais abrangente da eficácia e segurança da tenecteplase em comparação à alteplase. Entre os desfechos secundários, o tempo até a recanalização arterial foi um dos parâmetros avaliados em estudos que utilizaram técnicas de imagem vascular (como angiotomografia ou angiografia digital). Estudos como Campbell et al. (2018) e Roaldsen et al. (2023) sugeriram que a tenecteplase proporcionou maior taxa de recanalização precoce antes da trombectomia, especialmente em pacientes com oclusões proximais de grandes vasos. Embora os tempos absolutos variem entre os estudos, foi observada uma tendência de início mais rápido do tratamento em virtude da administração em bolus único, o que pode contribuir indiretamente para a redução do tempo até a reperfusão.

Em relação à independência funcional completa (mRS = 0–1 aos 90 dias), os resultados foram similares entre os grupos, com odds ratio combinada estimada em 1,02 (IC 95%: 0,95–1,10), reforçando a equivalência entre os agentes trombolíticos também em desfechos mais exigentes de recuperação neurológica.

No tocante aos eventos adversos específicos, poucos estudos relataram dados detalhados além da hemorragia intracraniana. Entretanto, Li et al. (2022) e Logallo et al. (2017) identificaram casos isolados de angioedema orofaríngeo, com incidência semelhante entre os grupos, sem impacto clínico significativo. Casos de reinfarto cerebral precoce foram raros e não mostraram diferença estatística relevante entre os trombolíticos. Náuseas, vômitos e hipotensão transitória foram efeitos colaterais inespecíficos relatados em baixa frequência.

A análise exploratória do NNT (número necessário para tratar), com base nos dados de mRS ≤ 2, indicou que seria necessário tratar aproximadamente 24 pacientes com tenecteplase em vez de alteplase para beneficiar um paciente adicional (NNT = 24), embora essa estimativa varie conforme a população-alvo e os critérios de elegibilidade. Já o NNH (número necessário para causar dano) referente à hemorragia sintomática foi estimado em acima de 100, sugerindo risco muito baixo de dano adicional com tenecteplase em relação à alteplase.

Por fim, as análises de subgrupos clínicos também revelaram aspectos importantes. Em pacientes com wake-up stroke, definidos por sintomas neurológicos ao despertar e ausência de horário claro de início, os dados do estudo Roaldsen et al. (2023) mostraram que a tenecteplase foi segura e eficaz, especialmente quando guiada por imagem com ressonância magnética. Em pacientes submetidos à trombectomia mecânica, os estudos EXTEND-IA TNK e Campbell et al. (2018) demonstraram taxas de recanalização mais altas e desfechos funcionais favoráveis com tenecteplase. Já em pacientes tratados fora da janela terapêutica convencional de 4,5 horas, ou em janelas expandidas baseadas em imagem de perfusão (como nos protocolos DAWN ou DEFUSE), a evidência ainda é limitada, mas estudos em andamento como Xiong et al. (2024) podem contribuir com dados futuros.

Essas informações complementares reforçam não apenas a equivalência clínica entre tenecteplase e alteplase, mas também destacam potenciais vantagens logísticas e operacionais que podem beneficiar determinados subgrupos de pacientes com AVCi, sobretudo em contextos onde o tempo e a simplicidade da administração são cruciais.

DISCUSSÃO

Os achados desta revisão sistemática e metanálise demonstram que a tenecteplase apresenta eficácia equivalente à alteplase no tratamento do acidente vascular cerebral isquêmico agudo (AVCi), particularmente em relação à recuperação funcional avaliada pelo escore de Rankin modificado (mRS ≤ 2) aos 90 dias (MENON et al., 2022; WANG et al., 2023). Essa equivalência é reforçada pela baixa heterogeneidade estatística observada entre os estudos (I² = 22%), o que sugere consistência dos resultados em diferentes populações e contextos clínicos (SILVA et al., 2024). Essa constatação tem importante relevância prática, visto que o uso de tenecteplase pode superar limitações logísticas associadas à alteplase, sobretudo em sistemas de saúde com restrições estruturais.

Além da eficácia, a análise dos desfechos secundários revela que a tenecteplase pode favorecer uma reperfusão mais rápida, especialmente em pacientes candidatos à trombectomia mecânica, como evidenciado no estudo EXTEND-IA TNK (DESCHAINTRE et al., 2023). A administração em bolus único, facilitada pela meia-vida plasmática prolongada da tenecteplase (~20-24 minutos), permite início mais ágil do tratamento e reduz a complexidade operacional, o que pode ser crucial em unidades de pronto atendimento e durante transporte inter-hospitalar (BUCK et al., 2022; MUIR et al., 2024).

Os resultados relacionados à independência funcional mais estrita (mRS 0–1) também não mostraram diferenças significativas entre tenecteplase e alteplase, indicando que a tenecteplase não compromete a recuperação neurológica completa (SINGH et al., 2023). Isso é especialmente relevante para o prognóstico de longo prazo dos pacientes, pois atingir mRS 0–1 implica qualidade de vida significativamente preservada.

No que tange à segurança, o perfil da tenecteplase se mostra comparável ao da alteplase, com incidência semelhante de eventos adversos graves, incluindo hemorragia intracraniana sintomática e angioedema (ALMEIDA et al., 2024; BALA et al., 2023). A baixa frequência de eventos como reinfarto e complicações hemorrágicas sustenta o potencial da tenecteplase como alternativa segura, embora seja fundamental o monitoramento contínuo em contextos clínicos diversos.

Outro aspecto importante é a análise dos parâmetros clínicos como o número necessário para tratar (NNT) e o número necessário para causar dano (NNH). Estimativas indicam que o NNT para tenecteplase pode estar em torno de 24 pacientes para evitar um desfecho funcional desfavorável, enquanto o NNH permanece elevado, o que sugere uma boa margem terapêutica e reforça a segurança da droga (WANG et al., 2023). Essa relação positiva entre benefício e risco apoia o uso da tenecteplase em protocolos clínicos, sobretudo quando consideramos seu menor custo operacional.

A análise de subgrupos clínicos revela potencial para ampliar as indicações da tenecteplase. Em pacientes com wake-up stroke, onde a janela terapêutica tradicional é incerta, a tenecteplase demonstrou segurança e eficácia em estratégias baseadas em imagens avançadas para seleção de pacientes (MENON et al., 2022; ROALDSEN et al., 2023). Além disso, em casos submetidos à trombectomia mecânica, a tenecteplase mostrou maior taxa de recanalização precoce, o que pode traduzir-se em melhores resultados funcionais e redução da mortalidade (BUCK et al., 2022). Contudo, evidências para janelas terapêuticas expandidas ainda são limitadas e demandam estudos prospectivos adicionais.

Apesar das evidências favoráveis, algumas limitações metodológicas dos estudos incluídos merecem consideração. A variação nas doses administradas de tenecteplase (0,25 mg/kg versus 0,4 mg/kg), diferenças nos critérios de inclusão, e heterogeneidades na definição e mensuração dos desfechos secundários podem influenciar a comparabilidade direta dos resultados (DESCHAINTRE et al., 2023; LI et al., 2022). Além disso, embora a maioria dos estudos apresente baixo risco de viés, alguns possuem “alguma preocupação” quanto à ocultação da alocação e análise por intenção de tratar, o que requer cautela na interpretação e aplicação dos dados (SILVA et al., 2024).

No cenário prático, a adoção da tenecteplase pode trazer benefícios significativos, como simplificação do protocolo de trombólise, redução do tempo porta-agulha e potencial melhora na eficiência do sistema de saúde (ALMEIDA et al., 2024). Em ambientes com recursos limitados, a administração em bolus único pode aumentar o acesso ao tratamento trombolítico e facilitar a integração com redes regionais de AVC.

Por outro lado, há a necessidade de ampliar a investigação sobre a eficácia e segurança da tenecteplase em populações específicas, incluindo pacientes idosos, portadores de comorbidades complexas e aqueles com AVCi em janelas terapêuticas estendidas (XIONG et al., 2024). Ademais, estudos econômicos comparativos são essenciais para subsidiar decisões políticas e de financiamento, especialmente em sistemas públicos de saúde (SANTOS et al., 2023).

Por fim, o presente estudo contribui para o avanço da prática clínica baseada em evidências, fornecendo uma síntese abrangente e atualizada sobre o papel da tenecteplase no AVC isquêmico agudo. Futuros ensaios clínicos randomizados, com amostras maiores e maior diversidade populacional, assim como análises de custo-efetividade, serão fundamentais para consolidar o papel dessa terapêutica e otimizar os desfechos para os pacientes.

CONCLUSÃO

Esta revisão sistemática com metanálise fornece evidências robustas de que a tenecteplase representa uma alternativa eficaz e segura à alteplase no tratamento do acidente vascular cerebral isquêmico agudo. Os resultados apontam para equivalência na taxa de recuperação funcional, medida pelo escore de Rankin modificado ≤ 2 aos 90 dias, e não demonstram aumento significativo na ocorrência de eventos adversos graves, como hemorragia intracraniana sintomática e mortalidade. Esses achados são particularmente relevantes considerando as vantagens farmacocinéticas e operacionais da tenecteplase, que, com sua meia-vida prolongada e administração em bolus único, simplifica o manejo trombolítico, potencialmente reduzindo o tempo até o início do tratamento e facilitando a administração em ambientes com recursos limitados.

Adicionalmente, a análise de subgrupos sugere que a tenecteplase pode oferecer benefícios específicos em populações como pacientes com wake-up stroke, aqueles que se submetem à trombectomia mecânica e indivíduos tratados em janelas terapêuticas expandidas, embora esses achados demandem confirmação em estudos futuros com maior poder estatístico. A flexibilidade e a praticidade proporcionadas pela tenecteplase podem favorecer a ampliação do acesso ao tratamento trombolítico em sistemas de saúde com desafios logísticos, especialmente em regiões remotas ou com infraestrutura limitada.

Apesar da evidência favorável, ressalta-se que alguns estudos destacaram preocupações metodológicas e resultados divergentes, o que reforça a necessidade de condução de ensaios clínicos adicionais para validar a eficácia e segurança da tenecteplase em diferentes cenários clínicos e subpopulações, incluindo pacientes com comorbidades específicas e variabilidade genética. A avaliação econômica do uso da tenecteplase, considerando custos diretos e indiretos, também é fundamental para orientar políticas públicas e protocolos institucionais.

Em suma, a tenecteplase emerge como uma opção terapêutica promissora que pode melhorar a eficiência do tratamento do AVC isquêmico agudo, mantendo desfechos clínicos comparáveis à alteplase. A incorporação dessa droga nos protocolos clínicos deve ser feita de forma criteriosa, com monitoramento contínuo dos resultados e consideração das particularidades locais, visando otimizar o cuidado ao paciente e reduzir o impacto do AVC na morbimortalidade global.

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1Graduando em Medicina pela Uninassau/Vilhena/Ro
1Graduando em Medicina pela Uninassau/Vilhena/Ro
2Graduando em Medicina pela Uninassau/Vilhena/Ro