EFEITOS PSICOSSOCIAIS DA DEPRESSÃO NA SAÚDE BUCAL: UMA REVISÃO DE LITERATURA

PSYCHOSOCIAL EFFECTS OF DEPRESSION ON ORAL HEALTH: A LITERATURE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510311416


SILVA, Maria Vitória1
MOTA, Soraia Mayane Souza2


RESUMO

A depressão é um transtorno mental de elevada prevalência global e nacional, caracterizado por sintomas como desmotivação, anedonia, alterações no sono, fadiga e ideação suicida. Esses fatores repercutem não apenas no bem-estar psicológico, mas também em diferentes dimensões da saúde física e bucal. Esta revisão narrativa da literatura teve como objetivo analisar os efeitos psicossociais da depressão sobre a saúde oral, considerando aspectos clínicos, comportamentais e sociais. O levantamento bibliográfico foi realizado nas bases SciELO, LILACS e PubMed, no período de 2015 a 2023, utilizando descritores em português e inglês combinados por operadores booleanos. As evidências apontam que pacientes com depressão apresentam maior prevalência de cáries, doenças periodontais, dor orofacial e perda dentária, em razão da negligência do autocuidado, do isolamento social e dos efeitos colaterais de antidepressivos, como a xerostomia. Além disso, a condição oral precária reforça sentimentos de baixa autoestima, vergonha e exclusão, intensificando o quadro depressivo e configurando uma relação bidirecional. Grupos vulneráveis, como idosos, gestantes e adolescentes, apresentam maior risco de complicações decorrentes dessa interação. Conclui-se que a integração entre saúde mental e saúde bucal é fundamental, sendo necessária uma prática odontológica holística, acolhedora e interdisciplinar, articulada com políticas públicas de saúde que promovam um cuidado integral e humanizado.

Palavras-chave: depressão; saúde bucal; fatores psicossociais; transtornos mentais.

ABSTRACT

Depression is a mental disorder with a high global and national prevalence, characterized by symptoms such as demotivation, anhedonia, sleep disturbances, fatigue, and suicidal ideation. These factors affect not only psychological well-being but also different dimensions of physical and oral health. This narrative literature review aimed to analyze the psychosocial effects of depression on oral health, considering clinical, behavioral, and social aspects. The bibliographic search was conducted on the SciELO, LILACS, and PubMed databases from 2015 to 2023, using Portuguese and English descriptors combined with Boolean operators. The evidence shows that patients with depression have a higher prevalence of cavities, periodontal diseases, orofacial pain, and tooth loss due to self-care neglect, social isolation, and the side effects of antidepressants, such as xerostomia. Furthermore, poor oral health reinforces feelings of low self-esteem, shame, and exclusion, intensifying the depressive state and establishing a bidirectional relationship. Vulnerable groups, such as the elderly, pregnant women, and adolescents, are at a higher risk of complications resulting from this interaction. In conclusion, the integration of mental health and oral health is essential, requiring a holistic, welcoming, and interdisciplinary dental practice, articulated with public health policies that promote comprehensive and humanized care.”

Keywords: depression; oral health; psychosocial factors; mental disorders.

INTRODUÇÃO

A depressão é um transtorno de alta prevalência global, afetando mais de 300 milhões de pessoas em todo o mundo (Brito et al., 2022). Constitui uma das principais causas de incapacidade e sofrimento psíquico, impactando diretamente a rotina e as práticas de autocuidado. Conforme descrito no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) (American Psychiatric Association, 2013), a sintomatologia da depressão vai além da tristeza, incluindo desmotivação, perda de interesse (anedonia), fadiga e alterações no apetite e no sono (Dalgalarrondo, 2008; Harvey, 2003).

Essa elevada prevalência reflete-se não apenas na saúde mental, mas também na qualidade de vida e nas atividades diárias dos indivíduos. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde evidenciam que a depressão autorreferida representa um desafio significativo de saúde pública no Brasil (Brito et al., 2022). As manifestações clínicas da depressão frequentemente resultam na negligência da higiene oral, aumentando o risco de cáries, gengivite e doenças periodontais (Campos et al., 2024; Macedo et al., 2023; Costa, 2020; Fernandes et al., 2015). A desvalorização do autocuidado e a falta de energia para realizar atividades básicas, como escovação e uso do fio dental, são reflexos diretos da sintomatologia depressiva (Martins; Santos, 2021).

Historicamente, a saúde bucal foi tratada de forma dissociada da saúde geral, sendo considerada uma área especializada isolada. No entanto, essa perspectiva tem sido progressivamente superada, reconhecendo-se que a cavidade oral é parte integral do organismo. Infecções e doenças periodontais não se limitam à boca e podem estar associadas a condições sistêmicas, como doenças cardiovasculares e diabetes, reforçando a necessidade de uma abordagem que considere a interconexão entre o bem-estar físico e oral (Souza; Silva, 2019).

Além do aspecto biológico, a saúde bucal é fundamental para funções básicas como mastigação e fala, assim como para a estética, autoestima e interação social. Problemas como dor crônica, perda dentária e halitose impactam negativamente a qualidade de vida, evidenciando que dentes e gengivas saudáveis constituem pilares do bem-estar geral (Slavin et al., 2019; Locker, 1998; Garcia, Allen, Kayser-Jones, 2001).

A relação entre saúde bucal e saúde mental é complexa e bidirecional (Hoare et al., 2023). Tradicionalmente tratadas de forma separada — a saúde bucal como questão biológica e a saúde mental como questão psicológica —, pesquisas recentes e políticas de saúde defendem uma visão holística, reconhecendo que o bem-estar físico e mental estão intrinsecamente ligados (Bendo et al., 2014; Locker, 1998; Touyz, 2014; Ferreira; Vieira, 2016; Souza; Silva, 2019). Estudos demonstram que problemas em uma área frequentemente afetam a outra, evidenciando uma comorbidade recorrente e um ciclo de causalidade mútua (Gorman, 2011; National Institute of Mental Health, 2023).

Problemas bucais, como dor crônica, comprometimento estético do sorriso e perda de dentes, impactam diretamente a autoestima, socialização e qualidade de vida do indivíduo (Slavin et al., 2019; Locker, 1998; Garcia, Allen, Kayser-Jones, 2001). Tais condições podem gerar vergonha, ansiedade social e baixa autoconfiança (Armfield, 2010), limitando o convívio social e, consequentemente, intensificando a depressão existente (Link; Phelan, 2001; Stuart, 2016). Esse ciclo de prejuízos mútuos evidencia a necessidade de uma abordagem integrada por profissionais de saúde (Lima et al., 2021; Ferreira; Gonzaga, 2017). Barreiras financeiras e de acesso a cuidados odontológicos de qualidade agravam ainda mais o problema (Baker, 2010; Samuel et al., 2019).

Diante desse contexto, compreender a interconexão entre os fatores psicossociais da depressão e a saúde bucal é fundamental. Pesquisas nessa área contribuem para o desenvolvimento de práticas odontológicas mais humanizadas e eficazes, que considerem o paciente em sua totalidade. O presente estudo tem como objetivo analisar os efeitos psicossociais da depressão sobre a saúde bucal, com ênfase nos impactos comportamentais e sociais que interferem nos cuidados odontológicos e na qualidade de vida, contribuindo para uma visão mais holística da saúde. A justificativa para esta pesquisa reside na lacuna existente na literatura sobre a integração prática e metodológica entre saúde mental e saúde bucal, especialmente na atenção primária, onde o cirurgião-dentista desempenha papel estratégico na identificação e manejo precoce desses casos.

REVISÃO DE LITERATURA

A depressão configura-se como um dos transtornos mentais de maior prevalência em nível mundial, afetando mais de 300 milhões de pessoas e representando uma das principais causas de incapacidade funcional e sofrimento psíquico (De Lima; De Medeiros, 2017). O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) descreve manifestações clínicas variadas, entre as quais se destacam a desmotivação, a perda de interesse por atividades antes prazerosas, fadiga persistente, alterações significativas no sono e no apetite, além de sentimentos de desesperança e, em casos mais graves, ideação suicida (Brown, 2019). Esses sintomas repercutem de maneira ampla na vida do indivíduo, comprometendo não apenas o bem-estar psicológico, mas também sua saúde física e, de forma particular, a saúde bucal.

Estudos apontam que a depressão pode levar ao aumento da procura por serviços de saúde, mas paradoxalmente também à dificuldade de adesão aos tratamentos propostos, o que inclui a área odontológica (Souza-Machado et al., 2013). O Brasil apresenta prevalência de depressão autorreferida em mais de 10% da população adulta, constituindo um problema relevante de saúde pública (Brasil, 2021). No contexto global, dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam que, entre 2005 e 2015, houve um aumento de aproximadamente 18% no número de indivíduos diagnosticados com depressão, evidenciando o caráter crescente e preocupante desse transtorno (OMS, 2017).

No que se refere à saúde bucal, há um reconhecimento cada vez maior de que ela deve ser compreendida como parte integrante da saúde geral. A visão reducionista, que por muito tempo considerou os problemas bucais de forma isolada, vem sendo substituída por uma abordagem ampliada, capaz de integrar dimensões biológicas, psicológicas e sociais (Souza; Silva, 2019). Condições como cárie dentária e doença periodontal não apenas comprometem a função mastigatória e a fala, mas também estão relacionadas a doenças sistêmicas, como as cardiovasculares e o diabetes mellitus (Carvalho et al., 2022). Além disso, aspectos estéticos e funcionais da saúde oral influenciam diretamente a autoconfiança, a autoestima e as relações interpessoais. Quando negligenciada, a saúde bucal pode resultar em dor crônica, halitose e perda dentária, situações que repercutem negativamente sobre a qualidade de vida e a interação social dos indivíduos (Ramos; Lima, 2011; Slavin et al., 2019).

O impacto da depressão sobre a saúde bucal se expressa de maneira ainda mais acentuada em populações vulneráveis. Entre os idosos, a prevalência tanto da depressão quanto do edentulismo é elevada, o que gera uma relação de retroalimentação: a perda dentária compromete funções básicas e a estética facial, provocando baixa autoestima e favorecendo isolamento social, o que, por sua vez, pode agravar ou desencadear quadros depressivos (Samuel et al., 2019; Slavin et al., 2019). No caso das gestantes, os sintomas depressivos reduzem a disposição para o autocuidado, dificultando a adesão ao pré-natal odontológico e comprometendo a realização de medidas preventivas essenciais para a saúde materno-infantil (Carvalho et al., 2022). Já em crianças e adolescentes, a associação entre depressão e saúde bucal deficiente se expressa tanto pelo descuido com hábitos de higiene oral quanto pelos impactos sociais da estética dentária. Problemas bucais visíveis podem ser motivo de bullying escolar, com repercussões negativas na autoestima e intensificação do sofrimento emocional (Touyz, 2014).

Outro ponto central nessa discussão refere-se às barreiras psicossociais e de acesso ao cuidado odontológico. Pessoas em sofrimento psíquico frequentemente enfrentam o estigma relacionado à saúde mental, o que se soma ao estigma em torno das doenças bucais. Esse duplo preconceito dificulta a busca por atendimento especializado (Stuart, 2016). Além disso, as desigualdades socioeconômicas intensificam os obstáculos: indivíduos em situação de vulnerabilidade têm menor acesso a serviços odontológicos de qualidade, muitas vezes em decorrência de barreiras financeiras (Samuel et al., 2019). Somam-se a essas questões as barreiras emocionais, como medo, ansiedade odontológica e vergonha, que podem impedir a procura por tratamento ou levar ao abandono do cuidado antes de sua conclusão (Barros et al., 2015).

Nesse cenário, torna-se evidente a necessidade de práticas de saúde pública que integrem de forma mais efetiva a saúde mental e a saúde bucal. A literatura recente reforça que a compreensão dessa relação é fundamental para o desenvolvimento de práticas odontológicas humanizadas, que reconheçam o paciente como sujeito integral, atravessado por determinantes sociais e psicológicos (Silva; Mota, 2023). A integração da saúde mental no contexto da saúde bucal é especialmente relevante na Atenção Primária à Saúde, onde o cirurgião-dentista tem contato direto com diferentes grupos populacionais e pode desempenhar papel estratégico na identificação precoce de sinais de depressão, bem como no encaminhamento para acompanhamento especializado (Pereira; Guimarães, 2018).

A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) surge como um dispositivo fundamental nesse processo, mas ainda carece de ações que incluam explicitamente a saúde bucal em suas estratégias de cuidado. Uma abordagem interdisciplinar que promova o diálogo entre odontologia, psicologia, psiquiatria e serviço social é essencial para ampliar a resolutividade e a efetividade do cuidado em saúde (Carvalho et al., 2022). Nesse sentido, programas de prevenção e de educação em saúde que integrem a dimensão mental e bucal são fundamentais para fomentar o autocuidado, reduzir o impacto da depressão na saúde oral e promover maior bem-estar geral (Souza; Silva, 2019).

Assim, os efeitos psicossociais da depressão na saúde bucal devem ser compreendidos a partir de uma perspectiva ampliada, que considere não apenas os desdobramentos clínicos da doença, mas também as barreiras sociais, emocionais e de acesso que atravessam a vida dos indivíduos em sofrimento. Reconhecer essas inter-relações é o primeiro passo para a construção de políticas públicas mais inclusivas e de práticas odontológicas que contemplem o ser humano em sua integralidade, fortalecendo a visão do cuidado como direito e como processo que articula corpo, mente e sociedade.

MATERIAIS E MÉTODOS

O presente estudo caracteriza-se como uma revisão narrativa da literatura, método que possibilita uma análise aprofundada e qualitativa de um tema de interesse, sem a rigidez estatística exigida em revisões sistemáticas. A escolha dessa abordagem justifica-se por sua capacidade de sintetizar, interpretar e discutir criticamente um corpo amplo e heterogêneo de publicações, oferecendo uma visão abrangente e contextualizada sobre a relação entre depressão e saúde bucal, considerada uma temática complexa e multifacetada (Ferreira; Vieira, 2016).

O levantamento bibliográfico foi realizado em três das principais bases de dados eletrônicas em saúde: SciELO (Scientific Electronic Library Online), que reúne produções científicas da América Latina, Caribe, Espanha e Portugal; LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), com foco regional em saúde pública; e PubMed (U.S. National Library of Medicine), reconhecida como a maior base de dados biomédica mundial. A utilização de múltiplas bases foi essencial para garantir uma cobertura ampla, contemplando tanto estudos globais quanto regionais.

Para a identificação dos artigos, foi utilizada uma estratégia de busca estruturada, combinando descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e termos equivalentes em inglês (MeSH), articulados por operadores booleanos. Entre os descritores selecionados, destacam-se: “depressão” (depression), “saúde bucal” (oral health), “transtornos mentais” (mental disorders), “qualidade de vida” (quality of life) e “fatores psicossociais” (psychosocial factors). Foram realizadas combinações como “depressão AND saúde bucal” e “transtornos mentais AND qualidade de vida”, possibilitando a identificação de produções científicas que abordassem de maneira direta ou indireta as interfaces entre saúde mental e saúde oral em diferentes contextos.

O levantamento bibliográfico foi realizado sem restrição de período, com prioridade para estudos recentes, de modo a contemplar uma visão abrangente sobre a temática. Foram incluídos artigos de revisão, estudos transversais e ensaios clínicos que discutissem explicitamente a relação entre saúde mental e saúde bucal, com ênfase nos aspectos comportamentais e psicossociais. Admitiram-se publicações nos idiomas português e inglês, desde que disponíveis em formato integral.

Os critérios de exclusão compreenderam: artigos cujo texto completo não estivesse disponível; produções publicadas fora do período temporal definido; trabalhos que não abordassem de forma direta a temática proposta; e estudos centrados em transtornos mentais distintos da depressão, exceto nos casos em que a comorbidade estivesse relacionada ao tema central.

A análise do material selecionado ocorreu de forma qualitativa e interpretativa, orientada pela construção de uma narrativa crítica e reflexiva. O objetivo não foi apenas descrever os achados, mas relacioná-los de maneira integrada, de modo a evidenciar os múltiplos determinantes psicossociais que conectam a depressão à saúde bucal (Nascimento; Pires, 2019; Ceccim; Feuerwerker, 2004).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

As evidências da literatura analisada apontam para uma forte e complexa correlação entre os efeitos psicossociais da depressão e o comprometimento da saúde bucal. Uma metanálise publicada em 2015 demonstrou que pacientes com depressão apresentam cerca de 70% mais chances de desenvolver doenças periodontais em comparação com a população geral (Fernandes et al., 2015). De forma semelhante, revisão sistemática recente indicou que indivíduos com transtornos mentais, incluindo a depressão, têm aproximadamente o dobro de probabilidade de relatar a perda de um ou mais dentes em relação à população sem tais condições, o que afeta diretamente a autoimagem e a qualidade de vida (Hoare et al., 2023).

Essa relação mostra-se bidirecional: a depressão impacta a saúde bucal e, ao mesmo tempo, a condição oral precária intensifica os sintomas depressivos. Um exemplo claro é a dor bucal crônica, como a relacionada à disfunção temporomandibular, que está associada à presença de sintomas depressivos em cerca de 60% dos pacientes (Dworkin; Leresche, 1992). Do mesmo modo, fatores iatrogênicos, como os efeitos colaterais de antidepressivos, desempenham papel central. A xerostomia, comum nesse grupo de medicamentos, reduz a ação protetora da saliva e aumenta o risco de cáries em até 80% dos pacientes, com prevalência variando de 32% a 58% a depender da classe farmacológica utilizada (Granjeiro et al., 2015).

No âmbito dos impactos comportamentais e fisiológicos, a depressão contribui significativamente para a deterioração da saúde oral. Sintomas como desmotivação, fadiga e anedonia reduzem a frequência e a qualidade da higiene bucal, favorecendo o acúmulo de biofilme e a progressão de cáries e doenças periodontais (Lobo; Nash; McConnell, 2014; Andrade et al., 2013; Fernandes et al., 2015; Jauhiainen et al., 2019). Além disso, alterações de comportamento alimentar, como maior consumo de alimentos ricos em açúcar, aumentam a suscetibilidade a lesões cariosas (Alegre et al., 2022).

Paralelamente, os efeitos adversos do tratamento farmacológico agravam ainda mais esse quadro. A redução do fluxo salivar decorrente da ação de antidepressivos, sobretudo os tricíclicos, compromete a neutralização de ácidos, a remineralização dentária e o controle bacteriano, elevando o risco de cáries, erosão dentária e periodontite (Granjeiro et al., 2015; Tehyä et al., 2017). Essa interação entre negligência no autocuidado e efeitos colaterais de medicamentos cria um cenário de alta vulnerabilidade, tornando os pacientes mais suscetíveis a patologias orais (Souza-Machado et al., 2013).

O isolamento social, sintoma central da depressão (Harvey, 2003), é outro fator que repercute diretamente na saúde bucal. A evitação de interações sociais e a perda de interesse em atividades rotineiras reduzem a procura por atendimento odontológico preventivo, seja por falta de motivação, vergonha ou medo de julgamento (Neff, 2003; Alegre et al., 2022; Baker, 2010; Fonseca et al., 2015). Essa ausência de acompanhamento profissional perpetua problemas bucais que poderiam ser resolvidos precocemente. O estigma relacionado à saúde bucal, somado ao estigma da doença mental, potencializa sentimentos de baixa autoestima e exclusão social (Link; Phelan, 2001; Stuart, 2016).

Entre as principais repercussões clínicas da depressão destacam-se: maior prevalência de doença periodontal e cárie dentária; distúrbios como bruxismo e disfunção temporomandibular; xerostomia induzida por antidepressivos; além de infecções oportunistas, como candidíase e queilite angular. Tais condições, quando não tratadas, ampliam o sofrimento físico e emocional dos pacientes, estabelecendo um ciclo de retroalimentação entre saúde mental e saúde oral.

Nesse contexto, a literatura sustenta a relação bidirecional entre as duas dimensões. Problemas bucais como dor crônica, perda dentária, halitose e comprometimento estético do sorriso não apenas afetam a função mastigatória e a fala, mas também impactam de forma direta a autoimagem e a autoestima (Touyz, 2014; Bendo et al., 2014; Slavin et al., 2019). A consequência é a intensificação do isolamento social, característica da depressão, e a redução da qualidade de vida, abrangendo limitações para se alimentar, sorrir e se comunicar adequadamente (Locker, 1998; Garcia; Allen; Kayser-Jones, 2001). O estigma social associado à saúde bucal deficiente reforça sentimentos de inadequação e desesperança (Stuart, 2016), perpetuando um ciclo no qual a depressão agrava os problemas orais e estes, por sua vez, intensificam os sintomas depressivos (Link; Phelan, 2001).

Diante dessa complexa interdependência, destaca-se o papel estratégico do cirurgião-dentista na atenção integral à saúde. A prática odontológica deve transcender a dimensão técnica e considerar o paciente em sua integralidade, reconhecendo os aspectos físicos e psicossociais envolvidos (Oliveira; Santos, 2020). A escuta ativa, a criação de um ambiente acolhedor e a adaptação dos planos de tratamento às necessidades emocionais do paciente são medidas fundamentais para o fortalecimento da confiança e da adesão terapêutica (Ramos; Lima, 2011). Além disso, a atuação do cirurgião-dentista em equipes multiprofissionais possibilita o encaminhamento para suporte psicológico e psiquiátrico, promovendo um cuidado interdisciplinar mais eficaz (Moura; Pimenta, 2020; Pereira; Rodrigues, 2022).

Apesar dos avanços, observa-se uma lacuna na literatura quanto a protocolos claros e metodologias práticas que orientem a integração entre saúde mental e saúde bucal no cotidiano dos serviços. A ausência de diretrizes específicas limita a capacidade do cirurgião-dentista em identificar precocemente sinais de sofrimento psíquico e atuar como agente de promoção da saúde integral (Ferreira; Vieira, 2016; Brasil, 2011). Esse cenário reforça a necessidade de pesquisas aplicadas e de políticas públicas que incentivem uma abordagem mais holística, consolidando a prática odontológica como parte essencial da atenção psicossocial.

CONCLUSÃO

Este estudo reforça a necessidade de uma abordagem holística e integrada na prática odontológica, uma vez que a depressão influencia diretamente a saúde bucal por meio de fatores psicossociais. O ciclo vicioso entre sintomas depressivos, negligência do autocuidado, isolamento social e agravamento de patologias orais evidencia a complexidade dessa relação bidirecional. Da mesma forma, as repercussões estéticas e funcionais da saúde bucal comprometida intensificam sentimentos de baixa autoestima e desesperança, perpetuando o sofrimento do paciente.

Cabe ao cirurgião-dentista reconhecer sinais de sofrimento psíquico durante o atendimento, compreendendo a higiene precária e a baixa adesão ao tratamento como possíveis reflexos de um quadro depressivo. O acolhimento empático, aliado ao encaminhamento para equipes multiprofissionais, é essencial para garantir um cuidado integral.

Assim, a integração entre saúde bucal e saúde mental deve ser prioridade tanto na prática clínica quanto nas políticas públicas, promovendo um cuidado humano e eficaz. O desafio futuro é transformar esse conhecimento em protocolos clínicos aplicáveis, assegurando que o tratamento odontológico contribua de forma efetiva para o bem-estar global do indivíduo.

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1Graduanda em odontologia pelo Centro Universitário Dinâmica das Cataratas – UDC* e-mail para correspondência: barravick@hotmail.com
2Cirurgiã dentista e docente no Centro Universitário Dinâmica das Cataratas – UDC

* e-mail para correspondência: sol.mayane@hormail.com