EFEITOS DO USO RITUALÍSTICO E TERAPÊUTICO DA AYAHUASCA NO MANEJO DA DEPRESSÃO EM INDIVÍDUOS ADULTOS: UMA REVISÃO NARRATIVA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202512112222


Diogo da Conceição Silva1
Inaê Bartoli Azevedo1
Renato Araújo de Lima1
Anderson Scherer2


RESUMO 

Introdução: A depressão, uma condição psiquiátrica multifacetada, é caracterizada por uma combinação de sintomas emocionais, cognitivos e físicos, afetando milhões de indivíduos em todo o mundo, impactando significativamente sua qualidade de vida e produtividade. Os tratamentos alopáticos muitas vezes trazem efeitos colaterais severos, o que estimula a busca por outras formas de tratamento, como o uso terapêutico da bebida Ayahuasca, tradicional dos povos originários da Amazônia. Objetivo: Explorar e descrever as contribuições da Ayahuasca para o tratamento da depressão em pessoas adultas, principalmente nos casos onde o tratamento alopático se mostrou insuficiente ou ineficaz. Metodologia: Realizou-se uma revisão bibliográfica nas bases de dados PubMed, SciELO, Science Direct e Google Scholar através de levantamento de dados sobre o uso da Ayahuasca para o tratamento da depressão. Foram selecionados 9 artigos publicados entre 2015 e 2025, que atendiam aos critérios de acesso gratuito, texto completo e relevância temática. Resultados e Discussão: Os estudos revisados indicam que a Ayahuasca melhora o quadro depressivo em até 82% já a partir da primeira dose, com efeitos terapêuticos que perduram de 3 a 4 semanas após o uso da bebida. Destaca-se seu potencial integrativo ao considerar os fatores físicos, emocionais e ambientais de cada paciente, contribuindo para um cuidado mais eficiente e duradouro. Considerações finais: O uso fitoterápico da Ayahuasca representa uma opção terapêutica com evidências preliminares de eficácia clínica no tratamento da depressão, apresentando perfil de segurança favorável, com efeitos adversos leves e transitórios. Ressalta-se a necessidade de mais pesquisas clínicas robustas e o fortalecimento do diálogo entre medicina tradicional e contemporânea, visando ampliar as opções terapêuticas com base em evidências e cuidado integral. 

PALAVRAS-CHAVE: Ayahuasca, Depressão, Transtorno Depressivo, Tratamento da Depressão, Saúde Mental, Adulto, Jovem Adulto. 

1 INTRODUÇÃO 

A depressão, uma condição psiquiátrica multifacetada, representa um desafio significativo para a saúde pública global. Caracterizada por uma combinação de sintomas emocionais, cognitivos e físicos, a depressão afeta milhões de indivíduos em todo o mundo, impactando de forma substancial sua qualidade de vida e produtividade. A prevalência dessa condição tem aumentado nas últimas décadas, impulsionada por fatores como mudanças sociais aceleradas, estresse crônico e predisposições genéticas. 

A etiologia da depressão é complexa e envolve interações entre mecanismos biológicos, psicológicos e ambientais. Desequilíbrios neuroquímicos — como a redução dos níveis de serotonina, noradrenalina e dopamina — desempenham papel fundamental em sua fisiopatologia. Da mesma forma, fatores psicossociais, incluindo experiências traumáticas na infância, isolamento social e exposição prolongada ao estresse, contribuem para o aumento da vulnerabilidade ao transtorno. 

Os efeitos da depressão podem ser devastadores, manifestando-se por sintomas como tristeza persistente, anedonia, alterações no sono e apetite, fadiga, prejuízo cognitivo e ideação suicida. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2022), mais de 300 milhões de pessoas sofrem com a condição, que é considerada uma das principais causas de incapacidade global segundo a Pan American Health Organization (PAHO, 2024). No Brasil, a prevalência ao longo da vida é estimada em 15,5%, com maior incidência entre mulheres (20%) em relação aos homens (12%) (Ministério da Saúde, 2022). 

O grupo-alvo deste estudo compreende adultos a partir de 19 anos, faixa etária especialmente exposta a fatores estressores relacionados ao trabalho, relacionamentos e demandas financeiras. A depressão nessa fase da vida pode comprometer tanto o desempenho profissional quanto a saúde física e a vida social.  

As abordagens terapêuticas mais comuns incluem o uso de antidepressivos — como os inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRSs) e os inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSNs) — , psicoterapia e intervenções no estilo de vida. A terapia cognitivo comportamental (TCC), a terapia interpessoal (TIP) e as modalidades psicodinâmicas são amplamente empregadas para desenvolver estratégias de enfrentamento e promover a reestruturação cognitiva. No entanto, uma parcela significativa dos pacientes apresenta resposta insuficiente aos tratamentos convencionais, o que impulsiona a busca por alternativas terapêuticas mais eficazes. 

Nesse cenário, a ayahuasca tem emergido como um potencial tratamento complementar. Tradicionalmente utilizada em rituais amazônicos, a ayahuasca é composta por DMT (dimetiltriptamina) e inibidores de monoamina oxidase (IMAOs), permitindo a ação psicoativa potente do composto. Evidências preliminares (OSÓRIO et al., 2015; SANCHES et al., 2016; PALHANO-FONTES et al., 2019) indicam que a ayahuasca pode produzir efeitos antidepressivos rápidos e clinicamente relevantes, possivelmente associados à modulação de neurotransmissores, ao aumento da neuroplasticidade e à facilitação de experiências psicologicamente transformadoras. 

Os benefícios potenciais descritos incluem redução dos sintomas depressivos, diminuição da ansiedade, melhora do humor e fortalecimento da resiliência emocional. Além disso, estudos recentes (ZEIFMAN et al., 2021) apontam que as experiências induzidas pela ayahuasca podem favorecer processos de introspecção e integração emocional, contribuindo para os efeitos terapêuticos sustentados. 

O uso ritualístico e religioso da ayahuasca foi reconhecido oficialmente no Brasil em 1987, pelo Conselho Federal de Entorpecentes (CONFEN), órgão antecessor ao atual Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (CONAD). Em 25 de janeiro de 2010 o CONAD publicou a resolução nº1, que dispõe sobre normas e procedimentos compatíveis com o uso religioso da Ayahuasca e dos princípios deontológicos que o informam (CONAD, 2010). Nesta mesma resolução há proposições quanto às pesquisas do uso terapêutico da ayahuasca em caráter experimental. 

2 OBJETIVO 

Esta revisão narrativa tem como objetivo investigar os efeitos da ayahuasca no tratamento da depressão em adultos, por meio da análise da literatura científica disponível. Busca-se descrever seus possíveis mecanismos de ação, limitações, eficácia e segurança, especialmente em contextos nos quais os tratamentos alopáticos convencionais mostram resposta limitada. 

3 METODOLOGIA 

Este estudo trata-se de uma pesquisa de revisão de literatura através do levantamento de dados sobre o uso terapêutico da ayahuasca para o tratamento da depressão.  A estratégia de busca foi elaborada com base nos descritores do Medical Subject Headings (MeSH) e no uso de operadores booleanos AND e OR, combinando os termos: “ayahuasca”, “depressão”, “transtorno depressivo”, “tratamento da depressão”, “saúde mental”, “adulto” e “jovem adulto”

Foram realizadas buscas nas bases de dados eletrônicas PubMed, SciELO, ScienceDirect e Google Scholar, utilizando os descritores “ayahuasca”“depression”, “depressive disorder”, “depression treatment”, “mental health”, “adult” e “young adult”

Foram incluídos artigos de ensaios clínicos, estudos controlados randomizados e artigos originais, publicados entre 2015 e 2025, em português ou inglês, que abordassem o uso da ayahuasca como forma de tratamento para processos depressivos, em adultos e jovens adultos, em comparação com intervenções alopáticas. 

Foram excluídas revisões de literatura, estudos com animais, artigos de opinião, editoriais, cartas ao editor, resumos de conferências, pesquisas sem grupo de controle, estudos duplicados, bem como trabalhos sem relação direta com o tratamento da depressão, voltados a outras populações ou que analisassem substâncias isoladas da ayahuasca. 

Figura 1 – Fluxograma de seleção dos artigos 

Fonte: Os autores, 2025 

Foram identificados 11.330 artigos no total, onde 8.529 estão no PubMed, 9 estão no SciELO, 172 estão no Science Direct e 2.620 estão no Google Scholar. O processo de triagem e seleção dos estudos foi conduzido com o auxílio das ferramentas PRISMA e Rayyan, resultando em nove artigos incluídos na análise final desta revisão. Os artigos selecionados estão representados na Tabela 1. 

PICOS:  

P = Pacientes humanos adultos com faixa etária a partir de 19 anos diagnosticados com depressão;  
I = Fitoterapia com uso ritualístico e terapêutico da Ayahuasca; 
C = Comparado ao tratamento medicamentoso alopático; 
O = Melhora rápida e significativa do quadro depressivo desde o primeiro uso; 
S = Avaliado através de exames clínicos e escalas de medição do quadro depressivo. 

4 DISCUSSÃO 

Diversos estudos (OSÓRIO et al., 2015; PALHANO-FONTES et al., 2019; GALVÃO et al., 2018) apontam que a ayahuasca apresenta potencial terapêutico relevante no tratamento da depressão, especialmente em casos de depressão resistente aos antidepressivos convencionais. As evidências (SANCHES et al., 2016) sugerem que uma única dose de ayahuasca pode gerar efeitos antidepressivos rápidos e duradouros, com reduções significativas de até 82% nos escores de depressão (OSÓRIO et al., 2015), observáveis em até sete dias após a administração. 

As pesquisas, que vão desde estudos pioneiros (OSÓRIO et al., 2015) até investigações com neuroimagem (SANCHES et al., 2016), apontam que seus efeitos abrangem mecanismos neuroquímicos relacionados à modulação serotoninérgica e à neuroplasticidade. Esses resultados reforçam o papel da ayahuasca como uma alternativa promissora às terapias tradicionais, destacando sua capacidade de modular sistemas neurotransmissores, especialmente o serotoninérgico e o glutamatérgico. 

Esses ensaios clínicos controlados reforçam esse potencial, destacando melhora rápida e sustentada mesmo em casos de depressão resistente (PALHANO-FONTES et al., 2019). Estudos fisiológicos observaram alterações em biomarcadores, como o cortisol, associadas à melhora emocional (GALVÃO et al., 2018). Além disso, a literatura aponta benefícios prolongados, incluindo redução da ideação suicida (ZEIFMAN et al., 2021) e relatos qualitativos de mudanças duradouras (SANTOS et al., 2018), ampliando o panorama positivo. 

Estudos conduzidos no Brasil (SANCHES et al., 2016; PALHANO FONTES et al., 2019) mostraram melhora rápida e sustentada em diferentes escalas de depressão (HAM-D, MADRS, BPRS), associada ao aumento da perfusão cerebral em áreas ligadas ao processamento emocional. Resultados semelhantes (GALVÃO et al., 2018) também foram observados, nos quais se confirmaram reduções significativas dos sintomas em ensaios clínicos controlados, sustentadas nos dias seguintes à administração da dose. 

Da mesma forma, foram identificadas reduções expressivas nos escores de depressão (ZEIFMAN et al., 2021), com efeitos prolongados por até 21 dias e tamanho de efeito elevado. Um estudo preliminar (OSÓRIO et al., 2015) com amostra menor já havia confirmado estes efeitos antidepressivos rápidos, ainda que com menor consistência ao longo do tempo. 

No contexto internacional, os ensaios realizados na Europa (UTHAUG et al., 2021; ZEIFMAN et al., 2021) com participantes de retiros de ayahuasca reforçaram os achados brasileiros, demonstrando reduções clinicamente relevantes em sintomas depressivos após sessões cerimoniais, acompanhadas de melhora no bem-estar, atenção plena e satisfação com a vida. Entretanto, nesses estudos, os efeitos foram avaliados em ambientes naturais, com menor controle metodológico do que nos ensaios clínicos brasileiros. 

Pesquisas realizadas em retiros e contextos cerimoniais (UTHAUG et al., 2021a; UTHAUG et al., 2021b) reforçam a eficácia da ayahuasca na redução da sintomatologia depressiva e na melhoria do bem-estar subjetivo. Além disso, estudos recentes (VAN OORSOUW et al., 2022) apontam ainda que análogos da ayahuasca apresentam efeitos terapêuticos similares, expandindo as possibilidades de intervenções psicodélicas.  

Além dos efeitos neuroquímicos, diversos autores (UTHAUG et al., 2021; ZEIFMAN et al., 2021) ressaltam o impacto psicológico e emocional das experiências induzidas pela ayahuasca, que podem favorecer processos de autoconhecimento, ressignificação de traumas e ampliação da consciência. Essa combinação de efeitos neurobiológicos e psicoespirituais diferencia a ayahuasca de outros antidepressivos, ao promover não apenas a remissão dos sintomas, mas também mudanças subjetivas e existenciais relevantes para o bem-estar e a saúde mental. 

Uma diferença importante entre os estudos está no delineamento metodológico: enquanto alguns adotaram modelos observacionais abertos (SANCHES et al., 2016; ZEIFMAN et al., 2021; UTHAUG et al., 2021), outros se fundamentaram em ensaios clínicos randomizados e controlados (PALHANO FONTES et al., 2019; GALVÃO et al., 2018), o que fortalece a robustez e validade dos últimos. Além disso, os tamanhos amostrais variaram amplamente — de seis a mais de setenta participantes —, o que limita a generalização de alguns achados. 

Quanto aos efeitos adversos, a maioria dos estudos relatou náuseas e vômitos como reações frequentes, mas geralmente bem toleradas. Não foram observados indícios de mania ou psicose, reforçando a segurança relativa da substância quando utilizada em condições clínicas monitoradas. 

5 RESULTADOS 

Tabela 1 – Tabela de seleção dos artigos 

TÍTULO, PERIÓDICO E ANO AUTORESOBJETIVO E TIPO DE ESTUDORESULTADOSCONSIDERAÇÕE S E CONCLUSÃO
Efeitos antidepressivos de uma dose única de ayahuasca em pacientes com depressão recorrente: um relatório preliminar. Brazilian Journal of Psychiatry, 2015. Osório, F. de L., Sanches, R. F., Macedo, L. R., Santos, R. G., Maia-de-Oliveira, J. P., Wichert-Ana, L., Araujo, D. B., Riba, J., Crippa, J. A., & Hallak, J. E. Avaliar os efeitos de uma dose única de ayahuasca em voluntários com episódio depressivo recorrente. Estudo aberto (open-label) realizado em unidade psiquiátrica. Verificou-se uma redução estatisticamente significativa de até ~82% nos escores de depressão (HAM-D¹, MADRS², BPRS³) entre a linha de base e os dias 1, 7 e 21 após administração da ayahuasca. Não foram induzidos episódios de mania ou hipomania. Os resultados sugerem que a ayahuasca pode ter efeitos antidepressivos e ansiolíticos de ação rápida em pacientes com transtorno depressivo recorrente. Contudo, devido ao desenho de estudo aberto e à pequena amostra (n=6), os achados são preliminares e devem ser replicados em estudos controlados.
Efeitos antidepressivos de uma dose única de ayahuasca em pacientes com depressão recorrente: estudo com SPECT. Journal of Clinical Psychopharmacolo gy, 2016. Sanches, R. F., de Lima Osório, F., Dos Santos, R. G., Macedo, L. R., Maia-de Oliveira, J. P., Wichert-Ana, L., de Araujo, D. B., Riba, J., Crippa, J. A., & Hallak, J. E. Avaliar o potencial antidepressivo de uma dose única de ayahuasca e investigar alterações na perfusão sanguínea cerebral em pacientes com depressão recorrente. Estudo aberto (open-label) clínico. A administração de ayahuasca foi associada a reduções significativas nos escores de depressão (HAM-D¹, MADRS², BPRS³) do momento agudo até o dia 21; aumento da perfusão cerebral em regiões como núcleo accumbens esquerdo, ínsula direita e área subgenual esquerda. Tolerabilidade boa; vômito relatado em ~47% das participantes. Os resultados sugerem que a ayahuasca pode ter propriedades antidepressivas rápidas e sustentadas. No entanto, por tratar-se de estudo aberto sem grupo controle, os achados devem ser interpretados com cautela e replicados em ensaios randomizados controlados. 
Modulação do cortisol pela ayahuasca em pacientes com depressão resistente ao tratamento e controles saudáveis. Frontiers in Psychiatry, 2018. Galvão, A. C. M., de Almeida, R. N., Silva, E. A. D. S., Freire, F. A. M., Palhano-Fontes, F., Onias, H., Arcoverde, E., Maia-de-Oliveira, J. P., de Araújo, D. B., Lobão-Soares, B., & GalvãoCoelho, N. L. Investigar os efeitos agudos de uma dose única de ayahuasca sobre os níveis de cortisol plasmático e salivar em pacientes com depressão resistente ao tratamento e indivíduos saudáveis. Estudo clínico experimental, controlado e comparativo. Antes da administração, os pacientes deprimidos apresentavam níveis significativamente mais baixos de cortisol em comparação aos controles. Após a ingestão de ayahuasca, houve aumento e normalização dos níveis de cortisol, acompanhados de melhora significativa nos sintomas depressivos em até 24 horas. A ayahuasca demonstrou potencial para restaurar a função do eixo hipotálamo hipófise-adrenal (HPA) e promover melhora rápida dos sintomas depressivos em pacientes com depressão resistente. Esses achados reforçam o potencial antidepressivo e modulador neuroendócrino da substância, embora mais estudos controlados sejam necessários. 
Efeitos de longo prazo da ayahuasca em pacientes com depressão recorrente: acompanhamento qualitativo de 5 anos. 
Archives of Clinical Psychiatry (Revista da USP), 2018. 
Santos, R. G. D.; Sanches, R. F.; Osório, F. L.;
Hallak, J. E. C. 
Investigar os efeitos prolongados (4-7 anos) após uma dose única de ayahuasca em pacientes com depressão recorrente. Estudo qualitativo de seguimento. Os participantes relataram que a experiência com ayahuasca foi uma das mais significativas de suas vidas. Os efeitos clínicos antidepressivos diretos parecem ser limitados no tempo, mas muitos mantiveram percepção de bem-estar, autoconhecimento e mudanças 
subjetivas positivas ao longo dos anos. 
A ayahuasca demonstrou boa tolerabilidade e impacto subjetivo relevante a longo prazo para pacientes com depressão recorrente. Entretanto, por se tratar de estudo com desenho 
qualitativo e amostra reduzida, os achados são exploratórios e sugerem a necessidade de estudos quantitativos e de controle para avaliar a efetividade clínica sustentada.
Efeitos antidepressivos rápidos do psicodélico ayahuasca na depressão resistente ao tratamento: um ensaio clínico randomizado controlado por placebo. Psychological Medicine, 2019. Palhano-Fontes, F., Barreto, D., Onias, H., Andrade, K. C., Novaes, M. M., Pessoa, J. A., Mota-Rolim, S.  A., Osório, F. L., Sanches, R., Dos Santos, R. G., Tófoli, L. F., de Oliveira Silveira, G., Yonamine, M., Riba, J., Santos, F. R., Silva Junior, A. A., Alchieri, J. C., Galvão-Coelho, N. L., Lobão Soares, B., Hallak, J. E. C., Arcoverde, E., Maia-de-Oliveira, J. P., Araújo, D. B. Avaliar a eficácia e a segurança da ayahuasca no tratamento de pacientes com depressão resistente, comparando seus efeitos com um placebo. Ensaio clínico duplo-cego, randomizado e controlado. Uma única dose de ayahuasca produziu efeito antidepressivo rápido e significativo em 24 horas, mantido por até 7 dias, em comparação ao placebo. A ayahuasca mostrou potencial terapêutico como tratamento alternativo para depressão resistente, com resposta clínica rápida e boa tolerabilidade. Recomenda-se mais pesquisas para confirmar eficácia e segurança em longo prazo.
Um estudo controlado por placebo sobre os efeitos da ayahuasca, do estado mental e do ambiente na saúde mental dos participantes em retiros de grupo com ayahuasca. Psychopharmacology (Berlin), 2021. Uthaug, M. V., Mason, N. L., Toennes, S. W., Reckweg, J. T., de Sousa Fernandes Perna, E. B., Kuypers, K. P. C., van Oorsouw, K., Riba, J., & Ramaekers, J. GAvaliar se as mudanças em saúde mental observadas após cerimônias de ayahuasca em grupo eram devidas à substância (ayahuasca) ou a fatores de ambiente/contexto (“set e setting”). Estudo observacional em contexto naturalístico com controle por placebo. Houve efeito de tempo significativo: sintomas de depressão, ansiedade e estresse reduziram após a sessão em ambos os grupos (ayahuasca e placebo). Contudo, a interação tratamento×tempo mostrou que a ayahuasca aumentou a empatia emocional implícita para estímulos negativos mais do que o placebo. As melhorias em saúde mental após sessão de ayahuasca podem ser influenciadas não só por efeitos farmacológicos da substância, mas também por fatores não-farmacológicos (expectativa, contexto, ritual). Ressalta a importância de investigações controladas em pesquisas com psicodélicos. 
Efeitos subagudos e de longo prazo da ayahuasca sobre o afeto e o estilo de pensamento cognitivo e sua associação com a dissolução do ego. Psychopharmacology (Berlin), 2021. Uthaug, M. V., van Oorsouw, K., Kuypers, K. P. C., van Boxtel, M., Broers, N. J., Mason, N. L., Toennes, S. W., Riba, J., & Ramaekers, J. G. Avaliar os efeitos subagudos e de longo prazo da ayahuasca no bem-estar e no estilo de pensamento cognitivo. Também avaliar se os efeitos subagudos e de longo prazo da ayahuasca dependem do grau de dissolução do ego experimentado após o consumo da substância. Em relação aos níveis basais, as classificações de depressão e estresse diminuíram significativamente após a cerimônia de ayahuasca, e essas mudanças persistiram por 4 semanas. A ayahuasca produz melhorias subagudas e de longo prazo no afeto e no estilo de pensamento cognitivo em usuários não patológicos. Esses dados destacam o potencial terapêutico da ayahuasca no tratamento de transtornos de saúde mental, como a depressão.  
Diminuição rápida e sustentada da ideação suicida após uma dose única de ayahuasca em indivíduos com transtorno depressivo maior recorrente: resultados de um estudo aberto. Psychopharmacology (Berlin), 2021. Zeifman, R. J., Singhal, N., Dos Santos, R. G., Sanches, R. F., de Lima Osório, F., Hallak, J. E. C., & Weissman, C. R. Examinar o efeito agudo e pós-agudo da ayahuasca sobre a suicidalidade em indivíduos com transtorno depressivo maior recorrente. Estudo clínico aberto (open-label) com uma única administração de ayahuasca.Entre os participantes com suicidalidade no início (n = 15), houve diminuições significativas agudas (40, 80, 140, 180 min após) e pós-agudas (dias 1, 7, 14 e 21) de suicidialidade. Os tamanhos de efeito Hedges’ g variaram de ~1,31 até ~1,75 no dia 21. Quando administrada em contexto apropriado, a ayahuasca pode levar a reduções rápidas e sustentadas da suicidalidade em pessoas com depressão maior. Contudo, devido ao desenho de estudo aberto e amostra pequena, são necessários ensaios randomizados, duplo-cego, com amostras maiores para confirmar esses achados. 
Efeito terapêutico de um análogo da ayahuasca em pacientes clinicamente deprimidos: um estudo observacional longitudinal. Psychopharmacology (Berlin), 2022. Van Oorsouw, K., Toennes, S. W., & Ramaekers, J. G. Avaliar a sintomatologia depressiva antes, 1 mês e 1 ano após participação em cerimônia com análogo de ayahuasca em 20 pacientes com depressão clínica. Estudo observacional longitudinal. Pontuações médias no BDI⁴ caíram de 22,7 (linha de base) para 11,45 (1 dia), 12,89 (1 mês) e 8,88 (1 ano); taxa de remissão (BDI⁴ < 13) de 12/20 no dia 1, 13/19 no mês, 12/17 no ano. Também houveram melhorias em mindfulness e satisfação com a vida. O análogo de ayahuasca mostrou melhorias importantes e sustentadas na saúde mental de pacientes com depressão clínica, destacando seu potencial terapêutico. Enfatiza-se a necessidade de mais pesquisas e ensaios controlados para a consolidação dos resultados. 
Fonte: Os autores, 2025. 

As pesquisas que investigam os efeitos da ayahuasca no tratamento da depressão empregam diferentes instrumentos psicométricos e biomarcadores para avaliar mudanças clínicas e fisiológicas ao longo do processo terapêutico. A sintomatologia depressiva costuma ser mensurada por escalas amplamente validadas, tais como a Hamilton Depression Rating Scale (HAM-D), a Montgomery–Åsberg Depression Rating Scale (MADRS), a Brief Psychiatric Rating Scale (BPRS) e a Beck Depression Inventory (BDI), todas utilizadas para quantificar a gravidade dos sintomas e monitorar sua evolução. Em alguns estudos, a sintomatologia ansiosa também é examinada por meio do State-Trait Anxiety Inventory (STAI), instrumento que diferencia estados e traços de ansiedade. 

Figura 1 – Hamilton Depression Rating Scale (HAM-D) 

Fonte: PALHANO-FONTES, F. et al., 2019. 

Figura 2 – Montgomery–Åsberg Depression Rating Scale (MADRS) 

Fonte: PALHANO-FONTES, F. et al., 2019. 

Além das manifestações emocionais, diversos trabalhos avaliam aspectos da função cognitiva e emocional, incluindo tarefas de atenção, memória, processamento de estímulos afetivos e respostas emocionais moduladas pelo tratamento. A qualidade de vida e o bem-estar global também podem ser analisados por instrumentos como o World Health Organization Quality of Life (WHOQOL) ou outros questionários específicos de saúde mental, permitindo verificar o impacto da intervenção de maneira mais abrangente. 

Considerando que a ayahuasca é uma substância psicodélica, parte dos estudos investiga também a experiência subjetiva dos participantes, abrangendo intensidade dos efeitos, grau de insight e alterações no estado de consciência. Para isso, são frequentemente utilizados questionários desenvolvidos especificamente para avaliar experiências psicodélicas, como o Mystical Experience Questionnaire (MEQ).  

Por fim, alguns ensaios clínicos incorporam marcadores fisiológicos e neuroquímicos, incluindo alterações nos níveis de cortisol, fatores neurotróficos como o Brain-Derived Neurotrophic Factor (BDNF) e padrões de conectividade cerebral observados por técnicas de neuroimagem, entre elas o Single Photon Emission Computed Tomography (SPECT). 

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A ayahuasca se destaca como uma ferramenta terapêutica emergente, que une os avanços da neurociência à sabedoria ancestral dos povos amazônicos, abrindo novas perspectivas para o cuidado integral em saúde mental. 

A presente revisão narrativa sobre os efeitos da ayahuasca no tratamento da depressão demonstra que o seu uso ritualístico e terapêutico apresenta efeitos antidepressivos rápidos e clinicamente relevantes, com reduções expressivas dos sintomas depressivos após uma única dose em contextos clínicos e cerimoniais. Contudo, as evidências disponíveis ainda dependem de amostras reduzidas e estudos preliminares, tornando urgente a realização de pesquisas multicêntricas e de longo prazo para consolidar seu uso clínico com segurança. 

Os estudos analisados nesta revisão apresentam semelhanças importantes em relação aos resultados encontrados, mas também diferenças metodológicas relevantes que influenciam a interpretação dos dados. De modo geral, todos os artigos relatam reduções significativas nos escores de depressão após o uso da ayahuasca, tanto em pacientes com depressão recorrente quanto em indivíduos com depressão resistente ao tratamento. 

Além dos efeitos farmacológicos, destaca-se o papel essencial dos elementos simbólicos e rituais — como música, suporte comunitário e intenção terapêutica — na amplificação dos processos emocionais e existenciais desencadeados pela ayahuasca. Essa compreensão dialoga com a perspectiva integrativa e holística da Naturologia, que reconhece na ayahuasca uma ferramenta de reconexão entre ser humano e natureza. 

Em síntese, os achados desta revisão indicam que a ayahuasca possui efeitos antidepressivos significativos e potencial para ser incorporada em protocolos terapêuticos complementares. No entanto, seu uso deve ser criteriosamente avaliado e acompanhado por profissionais capacitados, respeitando as dimensões biológicas, psicológicas, culturais e espirituais envolvidas em sua administração. 

Embora todos os estudos verificados apontem a ayahuasca como uma alternativa promissora, com evidências preliminares de eficácia no manejo da depressão, as diferenças de contexto (clínico versus cerimonial), características das amostras (pacientes resistentes versus voluntários experientes) e metodologias empregadas (ensaio clínico versus estudo observacional) reforçam a necessidade de mais pesquisas com amostras maiores, acompanhamento prolongado e maior rigor experimental para consolidar os resultados disponíveis. 

A literatura analisada nos artigos selecionados aponta a necessidade de novos estudos para comprovar de forma mais robusta a eficácia, segurança e aplicabilidade clínica da ayahuasca no tratamento da depressão. Assim, torna-se fundamental fomentar pesquisas, formação profissional e políticas públicas que permitam seu uso ético, seguro e responsável, reforçando seu potencial como recurso promissor para a saúde mental em uma abordagem que integra corpo, mente, espírito e ambiente.  

7. REFERÊNCIAS 

BRASIL. Ministério da Saúde. Na América Latina, Brasil É O País Com Maior Prevalência De Depressão. Ministério da Saúde, 22 set. 2022. Atualizado em 4 nov. 2022. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2022/setembro/na-america-latina-brasil-e-o-pais-commaior-prevalencia-de-depressao Acesso em: 10 set. 2025. 

BRASIL. Ministério da Saúde. Depressão. Disponível em:https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/d/depressao Acesso em: 10 set. 2025. 

CONAD (Brasil). Resolução Nº 01, De 25 De Janeiro De 2010. Dispõe Sobre A Observância, Pelos Órgãos Da Administração Pública, Das Decisões Do Conselho Nacional De Políticas Sobre Drogas – CONAD, Sobre Normas E ]

Procedimentos Compatíveis Com O Uso Religioso Da Ayahuasca E Dos Princípios Deontológicos Que O Informam. Diário Oficial da União: Seção 1, nº 17, 26 jan. 2010. Disponível em: https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/suaprotecao/politicas-sobre-drogas/subcapas-senad/conad/atos-do-conad1/2010/11___resolucao_n__01_2010___conad.pdf Acesso em: 16 nov. 2025. 

FOLHA DE S.PAULO. Depressão É A Maior Causa De Incapacitação No Mundo, Diz OMS. Folha de S.Paulo, São Paulo, Cotidiano, 30 mar. 2017. Disponível em:https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2017/03/1871343-depressao-e-a-maior-causa-de-incapacitacao-no-mundo-diz-oms.shtml Acesso em: 10 set. 2025. 

GALVÃO, A. C. M. et al. Cortisol Modulation By Ayahuasca In Patients With Treatment-Resistant Depression And Healthy Controls. Frontiers in Psychiatry, v. 9, n. 185, 2018. DOI:10.3389/fpsyt.2018.00185 

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1Acadêmicos do Curso de Bacharelado em Naturologia — Universidade Anhembi Morumbi 

2Docente orientador do Trabalho de Conclusão de Curso — Universidade Anhembi Morumbi