REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511261008
Alice Rodrigues Sales1
Ana Cristina da Silva Pinto2
Susy Christine Goes de Melo Martins3
Eduardo da Costa Martins4
Resumo:
A síndrome dos ovários policísticos (SOP) é uma condição complexa que envolve alterações metabólicas, hormonais, reprodutivas e psicossociais. Esta revisão analisou dez estudos publicados entre 2015 e 2025 para avaliar os efeitos do exercício físico no manejo da síndrome. Os resultados demonstraram que diferentes modalidades de treinamento, incluindo exercícios aeróbicos, resistidos, combinados e HIIT, promovem melhorias importantes na resistência à insulina, composição corporal, perfil lipídico e marcadores hormonais. Além disso, o exercício mostrou impacto positivo na regularidade menstrual, na ovulação e na qualidade de vida, reduzindo sintomas depressivos e melhorando o bem-estar geral. Apesar da variabilidade metodológica entre os estudos, a convergência dos achados reforça o exercício físico como intervenção essencial, segura e de baixo custo, consolidando seu papel como parte central do tratamento da síndrome dos ovários policísticos.
Palavras-chave: Síndrome dos Ovários Policísticos; Exercício Físico; Treinamento Aeróbico; Treinamento Resistido; HIIT; Resistência À Insulina; Qualidade De Vida; Saúde Reprodutiva.
1 INTRODUÇÃO
A síndrome dos ovários policísticos (SOP) é hoje reconhecida como a endocrinopatia mais prevalente em mulheres em idade reprodutiva, resultado de um percurso histórico que começou com a descrição clássica de amenorreia associada a ovários aumentados e multicísticos por Stein e Leventhal, em 1935, em mulheres com infertilidade, obesidade e sinais de hiperandrogenismo (Stein & Leventhal, 1935). Desde então, o conceito evoluiu de uma entidade predominantemente ginecológica para uma síndrome sistêmica, com repercussões reprodutivas, metabólicas e psicossociais, reconhecida atualmente como um problema de saúde pública que pode afetar entre 6% e 20% das mulheres em idade fértil, a depender dos critérios diagnósticos e da população estudada (Bozdag et al., 2016; Lizneva et al., 2016; Escobar-Morreale, 2018)
Ao longo das últimas décadas, os critérios diagnósticos passaram por sucessivas revisões, refletindo o avanço na compreensão da fisiopatologia e da heterogeneidade fenotípica da síndrome. A literatura recente destaca que a ampliação dos critérios de Rotterdam permitiu incluir fenótipos mais leves e variados, ao mesmo tempo em que aumentou a complexidade na definição de prevalência e na comparação entre estudos, especialmente em adolescentes e mulheres no climatério (Lizneva et al., 2016).
As diretrizes internacionais de 2018 consolidaram o entendimento da SOP como condição de base crônica, que exige uma abordagem integrada de sinais de excesso de androgênios, disfunção ovulatória e achados ultrassonográficos, sempre após a exclusão de diagnósticos diferenciais, reforçando a importância de um diagnóstico precoce e padronizado (Teede et al., 2018; Escobar-Morreale, 2018). Atualizações recentes enfatizam ainda mais a necessidade de incorporar o risco cardiometabólico e o impacto sobre a saúde mental no raciocínio diagnóstico e no seguimento em longo prazo (Forslund et al., 2024).
No campo fisiopatológico, a SOP é atualmente compreendida como um distúrbio multifatorial em que interagem predisposição genética, fatores epigenéticos e ambientais, excesso de adiposidade, resistência à insulina e inflamação crônica de baixo grau (Escobar-Morreale, 2018). A combinação de hiperandrogenismo e resistência à insulina contribui para anovulação crônica, irregularidade menstrual e risco aumentado de hiperplasia e carcinoma endometrial, ao mesmo tempo em que se associa a maior probabilidade de intolerância à glicose, diabetes tipo 2, hipertensão arterial e dislipidemia ao longo da vida (Wekker et al., 2020; Studen & Pfeifer, 2018).
Revisões sistemáticas recentes quantificam esse risco cardiometabólico aumentado e reforçam que a SOP deve ser considerada fator de risco específico feminino para doença cardiovascular, exigindo rastreamento e intervenção precoces (Wekker et al., 2020; Pililis et al., 2024). Além dos impactos reprodutivos e metabólicos, a SOP está fortemente associada a desfechos negativos em saúde mental e qualidade de vida, com diversos estudos relatando maior prevalência de sintomas de depressão, ansiedade e pior percepção de autoimagem e bem-estar em comparação com mulheres sem a síndrome (Chaudhari et al., 2018; Ramos et al., 2016).
Estudos sobre o tema indicam que mulheres com SOP apresentam probabilidade significativamente maior de sintomas depressivos e ansiosos, o que parece ser influenciado por fatores como obesidade, hirsutismo, infertilidade e estigma em relação ao corpo e à sexualidade (Conte et al., 2015; Dybciak et al., 2023). Estudos recentes reforçam esse cenário ao demonstrar que a qualidade de vida é particularmente afetada por irregularidades menstruais, fadiga e sintomas psiquiátricos, inclusive em populações de diferentes contextos socioculturais (Tandoğan et al., 2024; Kocak et al., 2022).
O tratamento da SOP acompanhou essa evolução conceitual, passando de intervenções cirúrgicas como a ressecção em cunha dos ovários para abordagens baseadas em farmacoterapia e mudanças no estilo de vida. As diretrizes recentes defendem um manejo individualizado, centrado na principal queixa da paciente, que pode ser infertilidade, irregularidade menstrual, hiperandrogenismo, sobrepeso ou sintomas metabólicos, sempre dentro de uma perspectiva de cuidado ao longo de todo o curso de vida (Teede et al., 2018; Forslund et al., 2024).
Nesse contexto, mudanças estruturadas de estilo de vida, como alimentação balanceada, cessação do tabagismo e incremento da atividade física, são consideradas intervenções de primeira linha para a maioria das mulheres com SOP, especialmente na presença de excesso de peso ou obesidade central (Lim et al., 2019; Wekker et al., 2020). Revisões sobre intervenções comportamentais mostram que essas estratégias podem reduzir o índice de massa corporal, melhorar o perfil lipídico e modular marcadores hormonais, ainda que a magnitude do efeito varie conforme a intensidade dos programas e a adesão das participantes (de Lima Nunes et al., 2019; Al Wattar et al., 2022).
Dentro do conjunto de modificações de estilo de vida, o exercício físico se destaca como uma ferramenta terapêutica central na SOP, com impacto simultâneo sobre desfechos metabólicos, reprodutivos e psicossociais. Meta-análises recentes demonstram que programas de exercício, isolados ou combinados a intervenções dietéticas, podem reduzir resistência à insulina, circunferência da cintura e marcadores inflamatórios, além de contribuir para o controle ponderal (Lim et al., 2019; Patten et al., 2020).
Pesquisas sobre o estilo de vida em mulheres com SOP destaca que o exercício é um componente indispensável e que, mesmo na ausência de perda de peso expressiva, a melhora da sensibilidade à insulina e da capacidade cardiorrespiratória já representa benefício clínico relevante (de Lima Nunes et al., 2019; Al Wattar et al., 2022). Paralelamente, sínteses mais recentes apontam que níveis adequados de atividade física estão associados à redução de sintomas depressivos, melhora da autoimagem e da percepção de controle sobre a própria saúde, o que reforça o papel do exercício como modulador também dos aspectos emocionais da síndrome (Conte et al., 2015; Ramos et al., 2016).
A literatura sobre exercício na SOP, produzida principalmente a partir de 2015, tem buscado comparar diferentes modalidades, intensidades e formatos de treinamento. Uma revisão sistemática e meta-análise abrangente mostrou que intervenções estruturadas de exercício, com duração mínima de 12 semanas, promovem melhorias significativas em capacidade cardiorrespiratória, composição corporal e resistência à insulina, com protocolos que variam desde caminhadas rápidas até sessões de treinamento intervalado de alta intensidade (Patten et al., 2020). Ensaios clínicos controlados indicam que o treinamento aeróbico supervisionado é capaz de melhorar qualidade de vida, parâmetros metabólicos e, em alguns casos, regularidade menstrual em mulheres com SOP, sugerindo que a intensidade moderada a vigorosa seja uma meta terapêutica realista e eficaz (Costa et al., 2018; Santos et al., 2022).
Outros estudos piloto mostram que tanto o treinamento intervalado de alta intensidade quanto o treinamento de força podem melhorar marcadores cardiometabólicos e hormonais, mesmo sem perda significativa de peso, o que amplia as possibilidades de prescrição individualizada (Almenning et al., 2015; Kite et al., 2022). Revisões de escopo recentes reforçam, ainda, que o treinamento resistido tem potencial particularmente promissor para melhorar massa magra, sensibilidade à insulina e marcadores de risco cardiovascular em mulheres com SOP, embora ainda sejam necessários ensaios clínicos maiores e mais homogêneos (Kite et al., 2022; Butt et al., 2023).
Outro aspecto relevante emergente na literatura é o efeito do exercício físico sobre a função reprodutiva e a saúde mental em mulheres com SOP. Uma revisão sistemática publicada em 2023 demonstrou que a atividade física, em diferentes intensidades e formatos, pode melhorar parâmetros de fertilidade, incluindo ovulação, regularidade dos ciclos e taxas de concepção, ao mesmo tempo em que reduz estresse, ansiedade e sobrecarga psicossocial associada à infertilidade (Butt et al., 2023).
Estudos clínicos que associam programas de exercício supervisionado à avaliação de qualidade de vida e sintomas psiquiátricos relatam reduções significativas em escores de depressão e ansiedade, além de melhora da vitalidade e da percepção de bem-estar, o que se alinha às evidências mais amplas sobre o impacto da atividade física na saúde mental (Ramos et al., 2016; Tandoğan et al., 2024; Dybciak et al., 2023). Em conjunto, esses dados reforçam que o exercício físico não deve ser encarado apenas como coadjuvante no controle de peso, mas como intervenção terapêutica central e multifacetada na SOP.
Nesse cenário, as diretrizes internacionais recentes convergem ao recomendar que todas as mulheres com SOP sejam orientadas a adotar níveis adequados de atividade física, com prescrição adaptada à idade, ao grau de obesidade, às comorbidades associadas e às preferências individuais, sempre que possível em um contexto multiprofissional (Teede et al., 2018; Forslund et al., 2024; Lim et al., 2019). Apesar disso, persistem lacunas relacionadas à melhor combinação de modalidade, intensidade e duração do exercício para diferentes fenótipos da síndrome, bem como à manutenção da adesão em longo prazo, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade social.
Diante da relevância clínica da SOP e da consistência crescente das evidências sobre o papel do exercício físico, torna-se fundamental sintetizar criticamente a produção científica recente, descrevendo não apenas os efeitos metabólicos e reprodutivos, mas também os impactos sobre a saúde mental, a qualidade de vida e o risco cardiometabólico, de forma a embasar intervenções mais eficazes e centradas na realidade das mulheres acometidas.
2 DESENVOLVIMENTO
2.1 METODOLOGIA
2.1.1 Tipo de Estudo
Este estudo consiste em uma revisão integrativa da literatura, conduzida com base nas recomendações de Whittemore e Knafl para revisões integrativas e nas diretrizes PRISMA 2020 para transparência da seleção dos estudos, adaptadas ao objetivo desta pesquisa. O foco da revisão foi identificar e sintetizar evidências sobre os efeitos do exercício físico em mulheres com síndrome dos ovários policísticos (SOP), considerando desfechos reprodutivos, metabólicos, hormonais e de qualidade de vida. Foram incluídas publicações entre janeiro de 2015 e novembro de 2025, em inglês, português ou espanhol, contemplando ensaios clínicos, estudos de intervenção e revisões sistemáticas ou de escopo diretamente relacionadas à SOP e à prática de exercícios físicos.
2.1.2 Banco de Dados
A busca foi realizada nas bases de dados PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science, SciELO e ScienceDirect, complementada por busca manual nas listas de referências dos artigos selecionados e em diretórios de periódicos das áreas de ginecologia, endocrinologia, medicina esportiva e saúde pública.
2.1.3 Descritores DeCS/MeSH e Operadores Booleanos
Foram utilizados descritores controlados do DeCS (Descritores em Ciências da Saúde) e do MeSH (Medical Subject Headings), combinados com palavras livres em inglês e português. Os principais descritores DeCS/MeSH empregados foram:
- DeCS: “Síndrome dos Ovários Policísticos”, “Exercício Físico”, “Atividade Física”, “Treinamento de Resistência”, “Treinamento Aeróbico”, “Qualidade de Vida”, “Resistência à Insulina”.
- MeSH: “Polycystic Ovary Syndrome”, “Exercise”, “Physical Activity”, “Exercise Therapy”, “Resistance Training”, “Aerobic Exercise”, “Insulin Resistance”, “Quality of Life”.
Os operadores booleanos AND, OR e NOT foram utilizados para refinar os resultados. Por exemplo, empregou-se NOT “animal” ou NOT “rat” quando a base permitia esse filtro, a fim de excluir estudos exclusivamente experimentais em modelos animais.
2.1.4 Critérios de Elegibilidade
Foram incluídos nesta revisão apenas estudos que investigavam mulheres com diagnóstico de síndrome dos ovários policísticos confirmado pelos critérios de Rotterdam, NIH ou Androgen Excess and PCOS Society, garantindo uniformidade diagnóstica entre as amostras. Além disso, a intervenção precisava envolver exercício físico claramente descrito, incluindo modalidades como treinamento aeróbico, resistido, combinado ou HIIT, com informações sobre frequência, duração e intensidade. Somente foram considerados os trabalhos que apresentavam desfechos diretamente relacionados à SOP, como composição corporal, perfil metabólico, resistência à insulina, função reprodutiva e marcadores hormonais. Ensaios clínicos, estudos quase-experimentais, revisões sistemáticas, revisões de escopo e meta-análises publicados entre 2015 e 2025 foram priorizados.
Foram excluídos estudos que apresentavam populações mistas sem análise específica para SOP ou que tratavam exclusivamente de intervenções dietéticas ou farmacológicas sem componente de exercício detalhado. Também ficaram de fora resumos sem acesso ao texto completo, artigos publicados em línguas além do inglês, português ou espanhol e estudos com foco em outras terapias, como acupuntura, suplementos ou cirurgias. Pesquisas que não descreviam claramente critérios de seleção, metodologia ou estratégia de busca, incluindo revisões narrativas pouco estruturadas, foram igualmente descartadas, sendo utilizadas apenas como suporte contextual quando necessário.
2.1.5 Seleção de Estudos e Análise de Dados
Após as buscas nas bases PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science, SciELO e ScienceDirect, foram identificados 870 estudos. Após a remoção automática e manual de duplicados, 720 artigos seguiram para triagem por título e resumo. Nessa etapa, foram excluídos estudos laboratoriais, pesquisas envolvendo populações mistas sem análise isolada da SOP, intervenções não relacionadas ao exercício físico e artigos que não apresentavam desfechos de interesse, restando 150 artigos para leitura na íntegra.
A etapa de leitura completa resultou na exclusão de estudos com metodologia insuficientemente descrita, ausência de dados relevantes, protocolos de exercício incompletos, ou sem acesso ao texto completo. Ao final, apenas 10 estudos atenderam plenamente aos critérios de elegibilidade (fluxograma 1). Esse número reduzido decorre da grande heterogeneidade metodológica da literatura sobre SOP, da baixa padronização dos protocolos de exercício e da carência de ensaios clínicos bem controlados, especialmente após 2015.
Para avaliação da qualidade metodológica dos estudos, foi empregado o Joanna Briggs Institute (JBI Critical Appraisal Tools) para ensaios clínicos e estudos quase-experimentais, e o CASP Checklist para revisões sistemáticas. A avaliação indicou consistência metodológica moderada, mas também revelou limitações comuns, como amostras pequenas, ausência de grupos controle e falta de cegamento dos avaliadores.
Fluxograma 1 – Fluxograma de trabalho

Fonte – Elaborado pelo autor, 2025.
2.1.6 Amostragem
No total, 870 estudos foram identificados nas bases de dados selecionadas. Após a remoção automática e manual de duplicados, 720 registros avançaram para a triagem por título e resumo. Essa etapa permitiu a exclusão de trabalhos que não atendiam à pergunta norteadora, incluindo estudos laboratoriais, pesquisas com populações mistas sem análise isolada da SOP, intervenções desvinculadas do exercício físico e artigos sem os desfechos de interesse, resultando em 150 artigos para leitura na íntegra. A análise completa desses textos aplicou critérios metodológicos mais rigorosos, levando à exclusão de estudos com descrição insuficiente das intervenções, ausência de dados relevantes, incompatibilidade entre objetivos e desfechos ou indisponibilidade de acesso ao texto completo. Após esse processo, apenas 10 estudos atenderam plenamente aos critérios de elegibilidade, constituindo a amostra final da revisão.
2.2 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise das dez revisões selecionadas (quadro 1) demonstrou que o exercício físico apresenta efeitos amplamente positivos sobre diversos desfechos associados à síndrome dos ovários policísticos, mesmo diante da heterogeneidade metodológica presente entre os estudos. As revisões e meta-análises incluídas indicaram melhorias consistentes em parâmetros metabólicos, especialmente resistência à insulina, índice HOMA-IR, glicemia, perfil lipídico e circunferência abdominal, com destaque para os achados robustos de Patten et al. (2020) e Cavalcante et al. (2025), que reuniram as evidências mais abrangentes sobre o tema. Esses resultados reforçam que o exercício atua diretamente sobre a síndrome metabólica frequentemente associada à SOP, promovendo adaptações fisiológicas benéficas independentemente de perda de peso significativa.
Além dos desfechos metabólicos, várias revisões evidenciaram melhora de marcadores hormonais e reprodutivos, como regularização menstrual, redução de hiperandrogenismo e aumento da ovulação, especialmente quando o exercício é realizado de forma contínua e supervisionada. Revisões como as de Kite et al. (2019) e Butt et al. (2023) apontam que os benefícios reprodutivos decorrem não apenas da redução da resistência insulínica, mas também de efeitos sistêmicos sobre inflamação, estresse oxidativo e equilíbrio endócrino. O estudo de Hafizi-Moori et al. (2023) acrescenta evidências de que o exercício físico reduz significativamente marcadores inflamatórios como PCR, TNF-α e IL-6, sugerindo papel anti-inflamatório do treinamento físico na fisiopatologia da SOP.
No âmbito comportamental e psicossocial, diversas revisões destacaram melhora da qualidade de vida, redução de sintomas depressivos e melhora da percepção corporal após programas regulares de atividade física. Tais achados reforçam o caráter integral do exercício no tratamento da SOP, indo além dos efeitos fisiológicos e influenciando dimensões emocionais que também fazem parte da expressão clínica da síndrome.
A comparação entre modalidades de exercício mostrou que tanto o treinamento aeróbico quanto o resistido e os protocolos combinados apresentam efeitos positivos, embora com magnitudes diferentes a depender do desfecho analisado. Somente algumas revisões, como as de Colombo et al. (2023) e Sabag et al. (2024), apontaram possível superioridade de protocolos mais vigorosos, como HIIT, para melhora cardiorrespiratória e metabólica. Em contrapartida, outras revisões relataram que exercícios moderados realizados com maior consistência também produzem benefícios significativos, evidenciando divergências metodológicas e a necessidade de estudos mais padronizados.
Apesar da convergência geral dos resultados, todas as revisões consultadas apontam limitações importantes na literatura, como amostras pequenas, intervenções pouco detalhadas, ausência de controle rigoroso da intensidade do exercício e escassez de estudos de longo prazo. Essas limitações explicam a necessidade de critérios rigorosos nesta revisão e justificam o número relativamente pequeno de estudos incluídos, mesmo após uma busca inicial ampla. Ainda assim, o conjunto das revisões demonstra, de forma consistente, que o exercício físico é intervenção segura, acessível e altamente eficaz para melhorar marcadores metabólicos, hormonais e psicossociais da síndrome dos ovários policísticos, consolidando sua posição como componente fundamental do manejo clínico da condição.


Fonte – Elaborado pelo autor, 2025.
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A síntese das dez revisões incluídas demonstra que o exercício físico constitui uma intervenção essencial e amplamente respaldada para o manejo da síndrome dos ovários policísticos. As evidências mostram de forma consistente que diferentes modalidades de exercício aeróbico, resistido, combinado ou intervalado de alta intensidade, promovem melhorias significativas em parâmetros metabólicos, incluindo redução da resistência à insulina, melhora do perfil lipídico e diminuição da circunferência abdominal. Além disso, revisões recentes apontam efeitos favoráveis sobre hiperandrogenismo, regularidade menstrual, inflamação sistêmica e estresse oxidativo, reforçando o papel do exercício na modulação de múltiplos mecanismos fisiopatológicos da SOP.
Os estudos analisados também evidenciam impactos positivos do exercício sobre dimensões psicossociais, como qualidade de vida, sintomas depressivos e bem-estar geral, o que destaca a importância de uma abordagem terapêutica integral. Embora persistam limitações metodológicas na literatura, como heterogeneidade dos protocolos, amostras reduzidas e escassez de estudos de longo prazo, há forte convergência na indicação do exercício como componente central do tratamento. Assim, conclui-se que programas de atividade física regular, adaptados às necessidades e capacidades individuais, devem ser incorporados de forma prioritária às estratégias de cuidado de mulheres com síndrome dos ovários policísticos, contribuindo para a melhoria de desfechos clínicos, metabólicos e psicossociais.
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Centro Universitário Fametro, Brasil
E-mail: alicesales4@gmail.com
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Centro Universitário Fametro, Brasil
E-mail:ana.cristina@fametro.edu.br
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E-mail: susy.christine@gmail.com
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Centro Universitário Fametro, Brasil
E-mail: eduardomartinsorto@gmail.com
