EFEITOS DA TERAPIA ASSISTIDA POR ANIMAIS (TAA) COMO RECURSO TERAPÊUTICO NA SAÚDE E BEM-ESTAR

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202511122329


Jeniffer Lourrany Pereira Miguel¹
Nicole Melo do Prado²
Silvana Carvalho Martins³
Orientador: Hytalo Mangela


RESUMO

A Terapia Assistida por Animais (TAA) é uma prática complementar que utiliza a interação humano-animal com propósitos terapêuticos, educativos e de reabilitação. Essa abordagem tem demonstrado eficácia em diversos contextos como hospitais, escolas, instituições de longa permanência e programas comunitários, atendendo a públicos variados incluindo crianças, idosos e pessoas com deficiência. Este estudo teve como objetivo analisar os impactos da intervenção assistida por animais como um recurso terapêutico, enfatizando seus efeitos no bem-estar físico, emocional e social dos indivíduos. Para isso, foi conduzida uma pesquisa bibliográfica qualitativa, com buscas em bases de dados nacionais e internacionais, focando em estudos que destacam os benefícios fisiológicos, psicológicos e sociais da interação entre humanos e animais. Os achados indicam que essa prática ajuda a reduzir sintomas de estresse, ansiedade e depressão, além de auxiliar no controle da pressão arterial, frequência cardíaca e no fortalecimento do sistema imunológico. Em termos emocionais, a atividade assistida por animais promove a autoestima, motivação e um sentimento de acolhimento. No âmbito social, a presença dos animais facilita a comunicação, socialização e inclusão, elementos chave em processos de reabilitação e melhoria da qualidade de vida. Conclui-se que essa forma de terapia é uma prática inovadora e eficaz que pode complementar abordagens terapêuticas tradicionais, promovendo o bem-estar integral. Portanto, sugere-se uma maior incorporação das intervenções assistidas por animais em políticas públicas e programas de saúde e educação. 

Palavras-chave: Terapia assistida por animais. Saúde. Bem-estar. Inclusão. 

ABSTRACT

Animal-Assisted Therapy (AAT) is a complementary practice that uses human-animal interaction for therapeutic, educational, and rehabilitation purposes. This approach has proven effective in various settings such as hospitals, schools, longterm care facilities, and community programs, serving a variety of audiences including children, the elderly, and people with disabilities. This study aimed to analyze the impacts of animal-assisted intervention as a therapeutic resource, emphasizing its effects on the physical, emotional, and social well-being of individuals. To this end, a qualitative bibliographic research was conducted, with searches in national and international databases, focusing on studies that highlight the physiological, psychological, and social benefits of human-animal interaction. The findings indicate that this practice helps reduce symptoms of stress, anxiety, and depression, in addition to helping control blood pressure, heart rate, and strengthening the immune system. In emotional terms, animal-assisted activities promote self-esteem, motivation, and a feeling of acceptance. In the social sphere, the presence of animals facilitates communication, socialization, and inclusion, which are key elements in rehabilitation processes and improving quality of life. It can be concluded that this form of therapy is an innovative and effective practice that can complement traditional therapeutic approaches, promoting overall well-being. Therefore, greater incorporation of animalassisted interventions into public policies and health and education programs is suggested. 

Keywords: Animal-assisted therapy. Health. Well-being. Inclusion. 

INTRODUÇÃO 

No século XVII, os animais passaram a ganhar maiores espaços na sociedade, sendo criados em fazendas e chácaras e logo conquistando espaço dentro das residências junto às famílias (Dotti, 2005). A primeira menção terapêutica envolvendo homem e animal ocorreu no final do século XVIII na Inglaterra, em um hospital chamado Retiro York, um ponto de referência clínico para pessoas com necessidades especiais e transtornos mentais. Esse hospital segue atuando ainda hoje com métodos terapêuticos considerados mais humanos (Gonçalves, 2017). 

A história da TAA no Brasil também guarda capítulos importantes. Na década de 1950, a psiquiatra Nise da Silveira utilizou cães e gatos como recurso terapêutico em um hospital psiquiátrico no Rio de Janeiro, em oposição aos tratamentos violentos então praticados, como eletrochoques e lobotomias. Sua prática pioneira evidenciou a facilidade com que pacientes esquizofrênicos interagiam com os animais, despertando novas perspectivas terapêuticas (Rocha, 2015). Atualmente, o uso de animais nos tratamentos continua a se expandir e a ser estudada em diferentes contextos terapêuticos no país.  

De acordo com Ferreira e Gomes (2017), esse método de terapia é um modelo de terapia utilizado na psicologia que tem o animal como elemento central no processo terapêutico. As finalidades da técnica são pré-definidas, considerando, por exemplo, o perfil do paciente, visando uma ideia clara sobre a aplicabilidade dos animais no tratamento e visando proporcionar saúde emocional, física e social. A presença de animais em ambientes terapêuticos atua como mediadora da comunicação e da socialização, especialmente em grupos vulneráveis como crianças, idosos e pessoas com deficiências ou transtornos emocionais. 

As intervenções assistidas por animais são empregadas por equipes multiprofissionais, envolvendo psicólogos, médicos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, veterinários e outros profissionais da saúde. Diversas modalidades foram estabelecidas, como a cinoterapia — que utiliza cães para estimular a motricidade e a socialização — e a equoterapia, atividade reconhecida no Brasil desde 1997 pelo Conselho Federal de Medicina, que envolve cavalos no tratamento de pessoas com necessidades especiais (Santos & Silva, 2016). 

Embora amplamente reconhecida e em expansão no Brasil e no mundo, a efetivação dessas práticas assistidas com animais ainda enfrenta desafios importantes, como a necessidade de capacitação específica dos profissionais envolvidos e a adequação dos ambientes para garantir a segurança sanitária e o bemestar animal. Iniciativas como o Pet Smile e a Fundação Selma, no estado de São Paulo, são exemplos de projetos que relacionam esse tipo de intervenção animal a práticas de reabilitação física e emocional de crianças, adolescentes e idosos (Silva; Moura; Lima, 2024). 

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 

O bem-estar animal tem sido objeto de pesquisas em todo o mundo, gerando conhecimento que subsidia a criação de diretrizes para o uso de animais em intervenções assistidas. Esse tipo de prática, com critérios pré-estabelecidos de comportamento e saúde, torna possível uma atuação dirigida em ambientes hospitalares e clínicas de reabilitação, podendo promover diversos benefícios. Essa abordagem aproveita a relação entre humanos e animais para estimular a saúde física, emocional, social e cognitiva das pessoas (Costa et al., 2018). 

A psicologia busca inovações para tratar a saúde mental, utilizando a relação entre humanos e cães como base. As práticas terapêuticas mediadas por animais incluem o cão como co-terapeuta ou facilitador nas sessões de psicoterapia, ajudando a estabelecer uma conexão entre o terapeuta e o paciente. Para Jorge et al. (2018), o cão pode facilitar essa relação, mas é importante que o psicólogo tenha conhecimento atualizado sobre as intervenções com animais, participe de cursos específicos e compreenda as necessidades do paciente para atuar de forma eficaz. 

Uma das principais limitações das abordagens mediadas por animais é o fator custo. Embora alguns animais possam ser mais acessíveis, muitos deles exigem treinamento especializado, raças específicas e cuidados diferenciados, o que aumenta significativamente o investimento. Por exemplo, cães podem ser obtidos para companhia, mas quando utilizados para tarefas complexas, o treinamento e a seleção de raças específicas elevam o valor. Já atividades com animais como golfinhos são ainda mais caras e não estão disponíveis no Brasil. Apesar do custo elevado, a interação humano-animal é benéfica para ambos, proporcionando conforto e afeto mútuo (Silva et al., 2017). 

Cada sessão de intervenção assistida por animais é adaptada para atender às necessidades específicas de cada cliente, garantindo que o processo terapêutico seja eficaz e significativo. A personalização é fundamental para maximizar os benefícios dessas práticas. Além disso, as Políticas Sociais podem desempenhar um papel importante ao apoiar programas de formação e capacitação para profissionais envolvidos nessas atividades terapêuticas com animais, como terapeutas e profissionais de saúde. Isso pode incluir a promoção de treinamentos uniformizados e de qualidade, garantindo que as ações sejam conduzidas de maneira ética e profissional (Chandler, 2017). 

O uso dessas intervenções como abordagem complementar tem mostrado resultados positivos no tratamento de distúrbios mentais, como depressão, ansiedade e transtornos de humor. A interação com os animais durante o processo terapêutico pode estimular o desenvolvimento cognitivo em crianças, melhorando atenção, concentração e habilidades de aprendizagem. Além disso, fortalece o vínculo emocional entre humanos e animais, proporcionando apoio e conforto adicionais (Braun et al., 2019). 

É fundamental fornecer um ambiente adequado para o tratamento eficaz, considerando o bem-estar tanto do paciente quanto do animal. Uma equipe multidisciplinar deve trabalhar em conjunto para criar um plano personalizado, levando em conta as necessidades específicas do paciente e do animal. Isso inclui selecionar atividades e espécies adequadas para cada situação, além de garantir que os profissionais estejam treinados e capacitados para promover um ambiente tranquilo e seguro. O trabalho de um profissional veterinário é essencial nesse processo, pois é responsável pela saúde e bem-estar do animal, incluindo avaliações clínicas, vacinação, higiene e monitoramento do comportamento animal. Isso ajuda a prevenir qualquer prejuízo para os animais e a garantir a eficácia das práticas terapêuticas mediadas por animais (Lima et al., 2018; Clark et al., 2019). 

MATERIAL(IS) E MÉTODOS 

Este estudo caracteriza-se como uma revisão bibliográfica de caráter qualitativo, com o objetivo de analisar os efeitos da Terapia Assistida por Animais (TAA) na saúde e bem-estar dos indivíduos. Serão incluídos estudos empíricos que abordam a TAA, seu impacto na saúde mental dos pacientes e no bem-estar dos animais terapêuticos, bem como a colaboração multidisciplinar. Os critérios de inclusão abrangem artigos publicados em periódicos acadêmicos revisados por pares, no período de 2014 a 2025, nos idiomas português, inglês, francês e espanhol. Serão excluídos estudos que não estejam diretamente relacionados ao impacto da TAA, artigos não revisados por pares, estudos fora do escopo temporal ou dos idiomas especificados, bem como revisões da literatura, revisões sistemáticas e revisões integrativas. A pesquisa foi realizada em bases de dados nacionais e internacionais, incluindo SciELO, PubMed, Google Scholar e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), utilizando-se como descritores os termos “Terapia Assistida por Animais”, “AnimalAssisted Therapy”, “Saúde Mental”, “Bem-estar” e “Qualidade de Vida”. 

Foram incluídos artigos científicos, teses, dissertações e revisões publicadas nos últimos dez anos, que apresentassem dados sobre a aplicação da TAA em diferentes contextos, como hospitais, escolas, instituições de longa permanência e programas comunitários. Foram considerados estudos envolvendo diferentes faixas etárias, incluindo crianças, idosos e pessoas com deficiência. Trabalhos sem acesso ao texto completo ou que não descrevessem claramente os procedimentos de intervenção com animais foram excluídos da análise. 

A seleção dos estudos seguiu critérios de relevância, rigor metodológico e clareza na apresentação dos resultados. Após a leitura completa dos materiais selecionados, os dados foram organizados em categorias temáticas, destacando os efeitos fisiológicos, emocionais e sociais da TAA. A análise foi conduzida de forma sistemática, permitindo a síntese das informações e a interpretação crítica dos resultados obtidos, garantindo maior confiabilidade e consistência das conclusões da revisão. Foram identificados 100 artigos nas bases acima explicitadas. Os artigos passaram então por processo de verificação e análise, conforme apresentado na Figura 1. O processo inicial de verificação e triagem, primeiramente através da leitura e a análise dos títulos e resumos, 20 estudos foram excluídos, por se tratar de revisões duplicadas, alcançando um número de 80 artigos restante. A avaliação dos artigos após triagem, resultaram na exclusão de 40 artigos com temas irrelevantes para o desenvolvimento da pesquisa bibliográfica e 25 artigos que não atenderam à proposta deste estudo, restando 15 artigos. 

RESULTADOS E DISCUSSÃO 

Um aspecto fundamental para o sucesso das intervenções terapêuticas com animais é reconhecer o papel crucial que eles desempenham no atendimento e na recuperação de pacientes. Independentemente da patologia ou tratamento tradicional, os animais oferecem afeição, conforto e segurança, especialmente para aqueles que experimentam sentimentos de isolamento, solidão e infelicidade, sem apresentar riscos significativos. Além disso, os animais atuam como facilitadores, ajudando os indivíduos a estabelecer vínculos emocionais com eles e, posteriormente, a transferir esses vínculos para as relações sociais humanas. Isso pode resultar em melhorias na comunicação, conforto, bem-estar e apoio emocional, como, por exemplo, através do simples ato de acariciar um animal (Ferreira, 2022). 

Diante da crescente necessidade de práticas que mitiguem os transtornos físicos, mentais e sociais, as terapias não convencionais têm sido mais exploradas. A TAA é uma dessas práticas que vem ganhando visibilidade devido à sua ampla aplicabilidade e flexibilidade. Além disso, essa abordagem terapêutica apresenta um baixo custo em comparação com outras terapias, o que a torna uma opção atraente. Estudos têm demonstrado sua eficácia em intervenções médicas e sociais, tornandoa uma ferramenta valiosa para diferentes faixas etárias e tipos de pacientes. Também pode ser adaptada a diversos contextos, incluindo ambientes residenciais, hospitalares, instituições de longa permanência, escolas e centros de ensino, o que a torna uma abordagem versátil e acessível (Ferreira, 2022). 

O VÍNCULO ENTRE SERES HUMANOS E ANIMAIS  

O vínculo entre seres humanos e animais é uma conexão emocional e afetiva que se desenvolve ao longo do tempo, baseada em interações positivas, cuidado recíproco e proximidade física. Uma característica marcante desse vínculo é o desenvolvimento de afeto mútuo, onde os seres humanos desenvolvem sentimentos de amor e carinho pelos animais, expressando-os por meio de cuidados, brincadeiras e interações afetuosas (Alves & Steyer, 2019). 

A relação humano-animal envolve uma comunicação não verbal profunda, onde os seres humanos aprendem a reconhecer as necessidades e emoções dos animais por meio de gestos, expressões faciais e linguagem corporal. Em contrapartida, os animais respondem de forma empática aos sentimentos e comportamentos humanos. 

A presença de animais de estimação está associada a benefícios físicos e mentais, incluindo redução da solidão, aumento da atividade física e melhoria da qualidade de vida em geral. Essa relação é fundamentada no respeito e cuidado mútuo (Serpell & McCune, 2012; Alves & Steyer, 2019) 

Segundo Fischer e Zanatta, a Terapia Assistida por Animais é uma intervenção terapêutica que envolve a interação direta entre indivíduos e animais treinados em um ambiente controlado e supervisionado. O objetivo é promover melhorias físicas, emocionais, sociais e cognitivas em pessoas com diversas necessidades, incluindo crianças com autismo, pacientes em recuperação, idosos e pessoas com problemas de saúde mental. A presença dos animais e a interação positiva podem criar um ambiente terapêutico acolhedor, facilitando a motivação, comunicação, autoestima e resiliência dos participantes (Fischer & Zanatta, 2021).  

A presença de animais também pode facilitar o desenvolvimento de habilidades sociais, melhorar a comunicação e reduzir a ansiedade e a solidão. Com a redução desses sentimentos negativos, diminui-se também a probabilidade de desenvolver transtornos mentais. A relação entre humanos e animais traz benefícios adicionais, como a redução da concentração de cortisol e adrenalina no sangue, hormônios ligados ao estresse, e o aumento da liberação de ocitocina, aproximando o vínculo homem-animal ao vínculo mãe-bebê (Belletato & Banhato, 2019). 

TAA NO OLHAR CLÍNICO 

Um estudo conduzido por Mandra et al, (2019) demonstrou a contribuição positiva das atividades com animais para o bem-estar físico e emocional de pacientes, equipe de saúde e familiares. Os resultados indicaram redução do estresse e isolamento, facilitando o processo de hospitalização e tratamento. Além disso, os pacientes apresentaram maior equilíbrio emocional e troca de afeto, lembrando momentos agradáveis com familiares ao interagir com os animais. A utilização de animais em terapias é diversificada e depende da avaliação dos profissionais de saúde. Estudos científicos mostram que a interação entre humanos e animais tem sido observada desde o século XVII, com benefícios significativos para a saúde mental, incluindo a redução de sintomas de depressão e melhoria na qualidade de vida dos pacientes. 

Além da Terapia Assistida por Animais (TAA), outros conceitos relacionados envolvem a presença de animais em contextos terapêuticos ou educacionais. A Intervenção Assistida por Animais (IAA) é um termo mais amplo que engloba todas as intervenções que utilizam animais treinados ou domesticados como parte de processos terapêuticos, educacionais ou de reabilitação. Isso inclui a TAA e outras abordagens, como as Atividades Assistidas por Animais. Em alguns países, o termo Zooterapia é utilizado como sinônimo de IAA, referindo-se ao uso de animais em terapias e tratamentos para promover a recuperação e o bem-estar de pacientes (Fine, 2019). 

É importante mencionar o Animal de Apoio Emocional (ESA – Emotional Support Animal), que oferece suporte e conforto emocional ao seu tutor em situações de estresse ou ansiedade. Embora não seja uma terapia tradicional, esses animais desempenham um papel importante no apoio emocional dos cuidadores, mesmo sem treinamento específico para tarefas terapêuticas. Neste contexto, existem vários animais que podem ser utilizados em Intervenções Assistidas, e este trabalho se concentrará nas terapias específicas, com a identificação do termo correspondente para cada animal (Fine, 2024). 

  • A Equoterapia, também conhecida como Terapia com Cavalos, é uma modalidade terapêutica que utiliza esses animais para promover melhorias no equilíbrio, coordenação, força física e bem-estar emocional de indivíduos com diversas condições de saúde ou necessidades especiais. 
  • A Asinoterapia é uma modalidade de Terapia Assistida por Animais que envolve o uso de burros como parceiros terapêuticos. Graças à sua natureza afetuosa e tranquila, esses animais são particularmente adequados para estimular o desenvolvimento sensorial, motor e emocional, além de promover melhorias na comunicação e nas habilidades sociais dos participantes. Essa terapia é aplicada em diversas áreas, incluindo reabilitação física, desenvolvimento infantil, saúde mental e terapia com idosos, sempre sob a orientação de profissionais especializados. 
  • A Terapia Assistida por Coelhos é uma abordagem terapêutica que utiliza a interação com esses animais para promover conforto, reduzir o estresse e estimular o toque e a interação social. Essa terapia tem sido aplicada em contextos de saúde mental, escolas e instituições de cuidados para idosos, mostrando resultados positivos no bem-estar emocional e na redução da ansiedade. 
  • A Terapia Assistida por Porquinhos-da-Índia, também conhecida como Terapia Assistida por Roedores, utiliza esses pequenos animais amigáveis para proporcionar conforto, reduzir o estresse e fomentar a interação social. Essa terapia tem sido aplicada em contextos de saúde mental, escolas e lares de idosos, com resultados positivos. 
  • A Terapia Assistida por Cães, que será implementada no Centro de Atividades e Capacitação para a Inclusão de Montemor-o-Novo da Cercimor, tem sido utilizada em diversas áreas, incluindo saúde mental, reabilitação física, educação e cuidados de idosos. Com sua natureza afetuosa e leal, os cães treinados oferecem suporte emocional e estímulo sensorial aos participantes. 
TAA E A NEURODIVERGÊNCIA 

A neurodivergência refere-se a modos distintos de funcionamento neurológico que se afastam do padrão considerado típico, incluindo condições como o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), a dislexia e outras diferenças cognitivas e comportamentais. Nesse contexto, a TAA tem se mostrado uma ferramenta valiosa nesse contexto, pois favorece a socialização, estimula a comunicação e auxilia na autorregulação emocional. O vínculo estabelecido entre a pessoa neurodivergente e o animal promove um ambiente de confiança e acolhimento, reduzindo barreiras emocionais e comportamentais que muitas vezes dificultam o engajamento em terapias tradicionais. Além disso, a presença do animal atua como mediadora das interações sociais, estimulando a empatia, a concentração e o bem-estar geral (Silva & Osório, 2018). 

Crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), por exemplo, podem se beneficiar significativamente da interação com animais, pois essas interações podem ser mais confortáveis e acessíveis para elas. Isso ocorre porque os animais se comunicam principalmente por meio da linguagem corporal, o que pode ser mais fácil para crianças com TEA entenderem, em comparação com a complexidade da comunicação humana. Os animais podem atuar como facilitadores, ajudando as crianças com TEA a acessar e interagir com seu ambiente social. Eles podem servir como objetos transicionais, permitindo que as crianças estabeleçam vínculos com os animais e, posteriormente, estendam esses vínculos para as relações humanas (Oliveira e Sartié, 2017). 

Silva (2019) investigou se que a presença de cães poderia ajudar crianças com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) a lidar com tarefas difíceis em um ambiente controlado. Dez adolescentes com autismo severo participaram do experimento, que envolveu três estímulos: um cão real, um cão robô e um brinquedo preferido. Após a exposição a cada estímulo, os participantes realizaram uma tarefa que exigia espera para obter uma recompensa. Os resultados mostraram que a interação com o cão real levou a comportamentos mais calmos, maior paciência e redução da frequência cardíaca, diferentemente dos outros estímulos. 

Os cães podem proporcionar estímulos sensoriais e afetivos para indivíduos com diagnósticos neuro divergentes, facilitando o engajamento em atividades prazerosas e ricas em estímulos sensoriais e sociais. Isso ocorre porque os cães, com seus sentidos aguçados, são capazes de desenvolver uma conexão especial com essas pessoas. Além disso, crianças com TEA, frequentemente demonstram interesse especial por cães, o que pode ser atribuído à natureza sociável e interativa desses animais (Silva, 2019).  

As intervenções assistidas por animais são reconhecidas por sua eficácia no desenvolvimento social, cognitivo e motor infantil. Embora a interação humano-animal seja uma prática antiga, a pesquisa científica sobre seus benefícios tem ganhado destaque recentemente. Estudos sugerem que esse tipo de abordagem terapêutica com animais pode ser particularmente benéfico para crianças com Transtorno do Espectro do Autismo, Síndrome de Down ou Deficiência Intelectual. As autoras recomendam que psicólogos e profissionais de saúde considerem essas práticas como uma alternativa terapêutica e encaminhem pacientes quando necessário. Além disso, destacam a importância de mais pesquisas sobre o tema (Marinho & Zamo, 2017). 

A presença do cão trouxe mudanças significativas na rotina da família, desviando o foco excessivo da criança autista e reduzindo a preocupação. Os resultados incluíram mudanças positivas no comportamento da criança, como diminuição da ansiedade e dos surtos emocionais, aumento do período de serenidade e melhora na sensação de segurança. Além disso, a atividade conjunta de cuidar do cão fortaleceu os laços familiares. Outros benefícios incluíram melhor qualidade de sono, aumento das atividades físicas e maior independência do indivíduo. Os pais também experimentaram redução do nível de estresse. Os resultados foram satisfatórios e de grande importância acadêmica (Silva, 2017). 

Os resultados demonstram que os animais desempenham um papel valioso nas práticas terapêuticas mediadas por animais, independentemente da patologia ou abordagem utilizada. A presença dos animais oferece uma fonte de conforto e apoio emocional, sem ameaças ou julgamentos, proporcionando afeição incondicional às crianças. Estudos indicam que essas intervenções podem ser especialmente benéficas para indivíduos que experimentam sentimentos de abandono, solidão e infelicidade, oferecendo sensações de conforto e segurança. Além disso, os animais podem estabelecer uma conexão rápida e eficaz com os pacientes, promovendo bemestar através de interações simples, como o ato de afagar (Manoel, 2019). 

As práticas de atividades com animais têm como objetivo incorporar animais treinados e selecionados para promover o bem-estar físico, social, emocional e cognitivo dos pacientes. A presença dos animais também pode contribuir para o desenvolvimento de habilidades sociais e melhorar a comunicação. De acordo com o estudo “Terapia Assistida por Animais e transtornos do neurodesenvolvimento”, embora a interação entre humanos e animais seja uma prática ancestral, a investigação científica sobre seus benefícios é um campo em constante crescimento (Marinho & Zamo, 2017). 

A Política Social exerce um papel fundamental na consolidação e regulamentação das intervenções assistidas por animais, demandando ações integradas entre o poder público, instituições de saúde, profissionais qualificados e entidades de proteção animal. A criação de diretrizes claras e respaldadas em evidências científicas é essencial para assegurar que essas práticas sejam aplicadas de maneira ética, segura e eficaz. Evidências recentes demonstram que as abordagens terapêuticas mediadas por animais podem ser eficazes na redução da ansiedade entre crianças e adolescentes, o que reforça a necessidade de políticas públicas que promovam seu uso seguro e acessível (Brandão et al., 2025). 

Os animais são “lubrificantes sociais” que facilitam a comunicação humana, tornando suas competências mais funcionais, especialmente no desenvolvimento e regulação de emoções e sistemas de comunicação. Além disso, permitem trabalhar diversas competências, como autonomia funcional, equilíbrio motor e motricidade fina, de forma lúdica e inclusiva, promovendo a educação inclusiva. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A Terapia Assistida por Animais (TAA) enfrenta desafios no Brasil devido à falta de investimento e capacitação profissional. No entanto, considerando os benefícios que essa prática pode trazer para a qualidade de vida das pessoas, é essencial promover sua implementação e divulgação. Isso pode ser feito por meio da Educação em Saúde, conscientizando a população e os profissionais sobre a importância de uma relação ética e respeitosa entre humanos e animais. Além disso, é fundamental fomentar uma cultura de cuidado e respeito pelos animais, reconhecendo seu papel importante na terapia e na sociedade. A interação com animais proporciona alegria e conforto, aliviando o estresse e a ansiedade. 

Além disso, as práticas mediadas por animais contribuem para o bem-estar físico, estimulando a atividade corporal e aprimorando a coordenação motora. Em termos emocionais e sociais, esse recurso terapêutico auxilia na melhora da autoestima e das habilidades de convivência, oferecendo uma sensação de companheirismo e combatendo a solidão. O ato de cuidar de um animal também desenvolve senso de responsabilidade e empatia. 

É fundamental divulgar as experiências bem-sucedidas das terapias mediadas por animais em diferentes contextos, visando sua incorporação nas Políticas Públicas de Saúde do SUS. Isso permitiria que a população tivesse acesso a essa metodologia terapêutica, capaz de contribuir para a promoção, prevenção e reabilitação da saúde. Com o uso dessas atividades assistidas com animais, é possível reduzir o tempo de internação, o consumo de determinados medicamentos e os gastos públicos em saúde, além de minimizar os riscos de infecções hospitalares. Dessa forma, a qualidade do atendimento seria aprimorada, garantindo uma assistência mais integrada e humanizada. 

A pesquisa sobre o interesse e a disponibilidade dos clientes e suas famílias em participar de atividades com fins terapêuticos envolvendo animais no Centro de Atividades e Capacitação para a Inclusão revelou que, embora ainda exista uma lacuna significativa no conhecimento sobre esse tipo de interação terapêutica, há grande receptividade para participar de programas com animais, especialmente cães. Esses resultados destacam a importância de ampliar a conscientização e de oferecer mais oportunidades de participação nessas práticas. 

Para garantir a participação inclusiva, é essencial implementar estratégias educacionais consistentes, personalizar as dinâmicas e adotar modelos adaptativos de terapia. Este estudo oferece contribuições relevantes para a prática institucional e amplia a literatura sobre terapias mediadas por animais em contextos similares. Além disso, identifica áreas que exigem maior atenção e personalização, servindo de base para futuras ações. A implementação cuidadosa dessas práticas terapêuticas com animais mostra-se uma proposta promissora para promover o bem-estar e a inclusão, melhorando a qualidade de vida dos participantes. 

Investir em projetos terapêuticos com animais no Brasil pode representar uma solução inovadora e de alto impacto social. Ao acolher e treinar animais abandonados, é possível criar uma rede de apoio terapêutico que atenda às necessidades físicas, psicológicas e motoras de diferentes públicos. Além disso, essa iniciativa traria benefícios múltiplos, como a redução do número de animais em situação de rua, a geração de empregos qualificados e a ampliação de oportunidades para equipes multiprofissionais. A longo prazo, o investimento nessas iniciativas assistidas por animais poderia se reverter em economia de recursos na saúde pública, reduzindo custos com internações e medicamentos, ao mesmo tempo em que promove uma visão mais integrada e humanizada do cuidado. 

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