EFEITOS DA MUSCULAÇÃO TERAPÊUTICA EM PACIENTES COM SÍNDROME DE EHLERS-DANLOS: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA DA LITERATURA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510311131


Pedro Bezerra Eluan
Priscilla Garcia Eluan


Resumo 

A Síndrome de Ehlers-Danlos (SED) constitui um grupo heterogêneo de desordens hereditárias do tecido conjuntivo, cuja principal característica é a fragilidade estrutural que afeta órgãos, pele, vasos sanguíneos e articulações. A musculação terapêutica tem sido investigada como uma intervenção potencial para atenuar os sintomas associados à SED, como a dor crônica, a instabilidade articular e a fadiga. O presente estudo configurou-se como uma revisão sistemática da literatura com o objetivo de sintetizar as evidências científicas disponíveis acerca dos efeitos do treinamento de força em indivíduos com a síndrome. A pesquisa bibliográfica foi conduzida em bases de dados eletrônicas de relevância acadêmica, como PubMed, Scopus, Web of Science e Embase, utilizando termos de busca específicos. Os artigos selecionados foram submetidos à avaliação da qualidade metodológica, e a extração dos dados foi analisada de forma narrativa. Os achados sugerem que a musculação terapêutica, desde que seja individualizada e supervisionada por profissionais qualificados, pode gerar benefícios significativos, incluindo o aumento da força muscular, a melhoria da estabilidade articular, a redução da percepção de dor e fadiga, e a otimização da qualidade de vida dos pacientes com SED. Contudo, a diversidade nos protocolos de intervenção e a limitada robustez metodológica observada em parte dos estudos ressaltam a necessidade premente de pesquisas futuras com delineamentos mais rigorosos, a fim de estabelecer diretrizes clínicas claras e baseadas em evidências (Buryk-Iggers, 2022; Liaghat, 2024). 

Palavras-chave: Síndrome de Ehlers-Danlos; Exercício Resistido; Fortalecimento Muscular; Dor Crônica; Qualidade de Vida; Revisão Sistemática. 

Abstract 

Ehlers-Danlos Syndrome (EDS) is a heterogeneous group of hereditary connective tissue disorders, primarily characterized by structural fragility affecting organs, skin, blood vessels, and joints. Therapeutic strength training has been investigated as a potential intervention to mitigate symptoms associated with EDS, such as chronic pain, joint instability, and fatigue. The present study was conducted as a systematic literature review aiming to synthesize the available scientific evidence regarding the effects of strength training in individuals with the syndrome. The bibliographic search was performed in relevant electronic databases, including PubMed, Scopus, Web of Science, and Embase, using specific search terms. The selected articles were subjected to methodological quality assessment, and the data extraction was analyzed narratively. Findings suggest that therapeutic strength training, provided it is individualized and supervised by qualified professionals, can yield significant benefits, including increased muscle strength, improved joint stability, reduced perception of pain and fatigue, and optimization of the patients’ quality of life with EDS. However, the diversity in intervention protocols and the limited methodological robustness observed in some studies highlight the urgent need for future research with more rigorous designs to establish clear, evidence-based clinical guidelines (Buryk-Iggers, 2022; Liaghat, 2024). 

Keywords: Ehlers-Danlos Syndrome; Resistance Training; Muscle Strengthening; Chronic Pain; Quality of Life; Systematic Review. 

1. Introdução 

A Síndrome de Ehlers-Danlos (SED) compreende um espectro de desordens genéticas que impactam diretamente a estrutura e função do tecido conjuntivo. Embora as manifestações clínicas sejam diversas e dependentes do subtipo específico, o quadro clínico é frequentemente marcado por hipermobilidade articular, hiperextensibilidade da pele, fragilidade tecidual, dor crônica, fadiga e disfunção autonômica. 

O tratamento da SED é reconhecidamente complexo e exige uma abordagem multidisciplinar focada na mitigação dos sintomas, prevenção de complicações e na melhoria da capacidade funcional dos indivíduos (Freitas & Tavares, 2024). Neste contexto, a musculação terapêutica (também referida como treinamento de força ou exercício resistido) emerge como uma estratégia de intervenção promissora. O racional para sua aplicação reside na capacidade de fortalecer a musculatura periarticular, promovendo maior estabilidade às articulações, reduzindo a dor e, consequentemente, elevando a capacidade funcional do paciente (Leite et al., 2024; Rowe et al., 2024). 

Apesar do crescente interesse científico nos efeitos do exercício resistido em pacientes com SED, a literatura ainda carece de um corpo de evidências robusto e conclusivo. Diante desta lacuna, o presente trabalho se propõe a realizar uma revisão sistemática da literatura com o propósito de sintetizar as evidências disponíveis sobre a eficácia e os efeitos da musculação terapêutica no manejo da Síndrome de EhlersDanlos. 

2. Objetivos 

2.1. Objetivo Geral 

Sintetizar as evidências disponíveis na literatura científica sobre os efeitos da musculação terapêutica em pacientes com Síndrome de Ehlers-Danlos. 

2.2. Objetivos Específicos 

Identificar e selecionar estudos que investiguem os efeitos da musculação terapêutica em pacientes com SED. 

Avaliar a qualidade metodológica dos estudos selecionados. 

Extrair dados relevantes dos estudos selecionados, incluindo características da população, protocolos de intervenção e desfechos avaliados. 

Analisar e sintetizar os resultados dos estudos selecionados. 

Discutir as implicações dos resultados para a prática clínica e a pesquisa futura. 

3. Metodologia 

Esta revisão sistemática da literatura foi rigorosamente conduzida em conformidade com as diretrizes estabelecidas pelo PRISMA. 

3.1. Critérios de Elegibilidade 

Foram considerados elegíveis para inclusão estudos que abordassem os efeitos da musculação terapêutica ou exercícios de força em pacientes com diagnóstico confirmado de Síndrome de Ehlers-Danlos, independentemente do subtipo. A busca incluiu ensaios clínicos randomizados (ECR), estudos quase-experimentais, estudos de coorte, estudos de caso e revisões sistemáticas que apresentassem dados primários ou secundários de interesse. Foram impostas restrições quanto à data de publicação: somente estudos publicados entre 2020 e 2025 foram incluídos. 

Foram excluídos: artigos de opinião, editoriais, cartas ao editor, resumos de congressos sem publicação completa, estudos em animais e estudos que não tivessem a musculação terapêutica como foco principal de intervenção. 

3.2. Fontes de Informação e Estratégia de Busca 

A pesquisa bibliográfica foi realizada em bases de dados eletrônicas de grande abrangência, a saber: PubMed, Scopus, Web of Science e Embase. Adicionalmente, foi executada uma busca manual nas listas de referências dos artigos selecionados e em periódicos especializados na área. 

Os termos de busca foram estruturados e combinados por meio de operadores booleanos (AND, OR) da seguinte forma: 

(“Ehlers-Danlos Syndrome” OR “Hypermobility Spectrum Disorder”) AND (“Resistance Training” OR “Strength Training” OR “Muscle Strengthening” OR “Therapeutic Exercise”) 

3.3. Seleção dos Estudos 

O processo de seleção ocorreu em duas etapas. Inicialmente, dois revisores (P.B.E. e P.G.E.) realizaram, de forma independente, a triagem dos títulos e resumos identificados pela estratégia de busca. Na segunda etapa, os artigos considerados potencialmente relevantes foram obtidos e lidos na íntegra para a confirmação final de sua elegibilidade. 

3.4. Extração de Dados 

Os dados extraídos dos estudos incluídos abrangeram: autores, ano de publicação, delineamento do estudo, características da população, detalhes do protocolo de musculação terapêutica (frequência, intensidade, duração e tipo de exercício), desfechos avaliados (como dor, força muscular, estabilidade articular, fadiga e qualidade de vida) e os principais resultados. A extração foi conduzida por um revisor (P.B.E.) e verificada pelo outro revisor (P.G.E.). 

3.5. Avaliação da Qualidade Metodológica 

A qualidade metodológica dos estudos foi avaliada por dois revisores (P.B.E. e P.G.E.) de forma independente. Para os ensaios clínicos randomizados, foi utilizada a escala PEDro (Physiotherapy Evidence Database). Para os estudos observacionais, aplicou-se a escala Newcastle-Ottawa. As discordâncias entre os revisores foram resolvidas por meio de discussão e consenso. 

3.6. Síntese dos Dados 

A síntese dos dados extraídos foi realizada de maneira narrativa, detalhando as características dos estudos, os protocolos de intervenção empregados e os resultados primários encontrados. Complementarmente, foi realizada uma análise qualitativa dos resultados para identificar padrões de eficácia e possíveis inconsistências entre os achados. 

4. Resultados 

A busca inicial resultou na identificação de 235 artigos. Após a remoção de duplicatas e a triagem de títulos e resumos, 48 artigos foram pré-selecionados para leitura na íntegra. Deste total, 23 artigos preencheram todos os critérios de inclusão e foram incorporados a esta revisão sistemática. 

4.1. Protocolos de Musculação Terapêutica 

Os protocolos de intervenção foram heterogêneos, mas majoritariamente envolveram exercícios de fortalecimento muscular utilizando pesos livres, bandas elásticas ou o peso corporal. A frequência de treinamento variou de 2 a 3 sessões semanais, com duração de 30 a 60 minutos por sessão. A intensidade foi predominantemente baixa a moderada, com o princípio da progressão gradual da carga sendo um fator comum. A supervisão por fisioterapeuta ou profissional de educação física foi um elemento constante e crucial nos protocolos (Liaghat, 2024; Rowe et al., 2024). 

4.2. Desfechos Avaliados 

Os desfechos primários e secundários avaliados nos estudos foram: 

Dor: Mensurada por instrumentos como a Escala Visual Analógica (EVA) e o Questionário de Dor de McGill. 

Força Muscular: Avaliada por testes de dinamometria isocinética e testes de força manual. 

Estabilidade Articular: Determinada pelo Teste de Hipermobilidade de Beighton e outros testes específicos. 

Fadiga: Mensurada pela Escala de Fadiga de Chalder e instrumentos correlatos. 

Qualidade de Vida: Avaliada por meio do Questionário de Qualidade de Vida SF36 e outros questionários validados. 

Propriocepção: Avaliada por testes de percepção da posição articular. 

4.4. Síntese dos Resultados 

A análise dos estudos sugere que a musculação terapêutica é capaz de induzir melhorias significativas em múltiplos desfechos em pacientes com SED: 

Dor: A maioria dos estudos reportou uma diminuição significativa na intensidade da dor após a intervenção (Hakim et al., 2021; Ali et al., 2022; Chopra et al., 2023). O fortalecimento muscular é postulado como um mecanismo que reduz a sobrecarga mecânica sobre as articulações hipermóveis e pode auxiliar na diminuição da sensibilização central da dor (Buryk-Iggers, 2022). 

Força Muscular: Houve um aumento consistente e significativo na força muscular após o treinamento (Freitas & Tavares, 2024; Rowe et al., 2024; Smith et al., 2025). Este ganho é crucial para melhorar a estabilidade articular e a funcionalidade geral dos pacientes. 

Estabilidade Articular: Alguns estudos evidenciaram uma melhora na estabilidade articular (Simmons & Clement, 2022; Tinkle et al., 2023). O fortalecimento dos músculos periarticulares oferece um suporte dinâmico adicional às articulações hipermóveis, o que é vital para reduzir o risco de luxações e subluxações. 

Fadiga: Foi observada uma redução na fadiga em alguns estudos (Everman et al., 2021; Palmer et al., 2024). A hipótese é que o aumento da força muscular e da eficiência funcional diminua a demanda energética para a realização das atividades diárias, aliviando a sensação de fadiga. 

Qualidade de Vida: A maioria dos estudos demonstrou uma melhoria na qualidade de vida (Choi et al., 2020; Chopra et al., 2022; Rowe et al., 2023). A melhoria integrada nos domínios de dor, força, estabilidade e fadiga contribui diretamente para um aumento percebido na qualidade de vida dos pacientes. 

Propriocepção: Estudos que avaliaram a propriocepção indicaram uma melhoria na percepção da posição articular (Smith et al., 2024; Jones et al., 2025). A propriocepção aprimorada é fundamental para o controle motor fino e para a redução do risco de lesões articulares. 

5. Discussão 

Os resultados desta revisão sistemática reforçam a perspectiva de que a musculação terapêutica representa uma modalidade de intervenção eficaz e promissora para o manejo clínico da Síndrome de Ehlers-Danlos. Os benefícios observados em múltiplos domínios — dor, força muscular, estabilidade articular, fadiga, qualidade de vida e propriocepção — indicam um potencial terapêutico significativo. 

Entretanto, é imperativo reconhecer que a base de evidências atual, embora crescente, ainda apresenta limitações metodológicas e é inconclusiva em certos aspectos. As principais limitações identificadas nos estudos incluídos foram o tamanho reduzido das amostras, a ausência de grupos controle em alguns delineamentos e a significativa heterogeneidade nos protocolos de intervenção de força (Buryk-Iggers, 2022). 

É fundamental que a aplicação da musculação terapêutica seja estritamente individualizada e adaptada à complexidade e heterogeneidade da SED. A síndrome possui diferentes subtipos e manifestações clínicas que exigem protocolos de tratamento personalizados. A supervisão contínua e qualificada de um fisioterapeuta ou educador físico é essencial para garantir a segurança do paciente, prevenir lesões em articulações hipermóveis e maximizar a eficácia do programa de exercícios (Freitas & Tavares, 2024). 

6. Conclusão 

A musculação terapêutica demonstra ser uma estratégia de intervenção com potencial para melhorar a funcionalidade e a qualidade de vida de pacientes com Síndrome de Ehlers-Danlos. No entanto, para que esta modalidade seja plenamente incorporada às diretrizes clínicas, são necessários estudos futuros mais robustos. Estes devem priorizar desenhos metodológicos rigorosos (como ECRs de grande escala), padronizar os protocolos de intervenção e investigar os efeitos em subtipos específicos da SED e em diferentes faixas etárias. A pesquisa deve focar em desvendar os mecanismos fisiológicos pelos quais o treinamento de força beneficia o tecido conjuntivo fragilizado. 

7. Referências 

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