EDUCAÇÃO MATEMÁTICA E LUDICIDADE: APLICAÇÃO DO BANCO IMOBILIÁRIO ADAPTADO PARA O ENSINO DE OPERAÇÕES COM NÚMEROS NATURAIS NO ENSINO FUNDAMENTAL II

MATHEMATICAL EDUCATION AND PLAYFULNESS: APPLICATION OF THE ADAPTED MONOPOLY GAME FOR TEACHING OPERATIONS WITH NATURAL NUMBERS IN MIDDLE SCHOOL (GRADES 6-9)

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202512311223


José Lieno Sousa de Oliveira1
Tatiely da Silva Martins2
Orientador Prof.: Me. Edison Garreta de Andrade3


Resumo

O presente trabalho apresenta uma investigação sobre a eficácia do jogo Banco Imobiliário Adaptado como recurso didático para mitigar as dificuldades conceituais e operacionais de estudantes do 6º ano do Ensino Fundamental nas operações fundamentais com números naturais. O contexto é demarcado pela persistência de lacunas significativas na fluência aritmética, um obstáculo frequentemente associado a metodologias de ensino excessivamente abstratas ou baseadas na memorização. Nesse aspecto, a utilização de abordagens lúdicas e jogos pedagógicos como catalisadores para a aprendizagem significativa, destacando sua capacidade de diversificar a dinâmica de ensino e conectar conceitos abstratos à prática. A intervenção consistiu na adaptação intencional do jogo tradicional, onde as regras e a jogabilidade foram reestruturadas para exigir a aplicação sistemática e contextualizada das operações matemáticas (adição, subtração, multiplicação e divisão) em cenários de negociação. A pesquisa-ação foi o método adotado, com intervenção em uma turma de 38 alunos, utilizando fases de revisão, jogo guiado, jogo autônomo e discussão coletiva. A coleta de dados incluiu a comparação entre um teste diagnóstico e um teste final, além de observações qualitativas. Os resultados revelaram uma melhoria significativa no desempenho dos alunos: o percentual de acertos aumentou de 75,68% para 89,32%, e a taxa de erros diminuiu de 24,32% para 10,68%. Além disso, o jogo promoveu a cooperação entre os alunos, que se auxiliavam mutuamente, e estimulou maior fluência nos cálculos mentais, indicando uma aprendizagem mais sólida e engajada. Logo, conclui-se que a adaptação de jogos tradicionais é uma ferramenta essencial para a prática pedagógica, capaz de aumentar o interesse pela Matemática e promover o desenvolvimento de habilidades de raciocínio lógico e colaboração.

Palavras-chave: Prática Pedagógica. Banco Imobiliário. Tabuleiro. Matemática. Jogos lúdicos.

Abstract

This paper presents an investigation into the effectiveness of the adapted Monopoly game as a teaching resource to mitigate the conceptual and operational difficulties of 6th-grade elementary school students in fundamental operations with natural numbers. The context is marked by the persistence of significant gaps in arithmetic fluency, an obstacle frequently associated with excessively abstract or memorization-based teaching methodologies. In this aspect, the use of playful approaches and educational games as catalysts for meaningful learning is highlighted, emphasizing their ability to diversify teaching dynamics and connect abstract concepts to practice. The intervention consisted of the intentional adaptation of the traditional game, where the rules and gameplay were restructured to require the systematic and contextualized application of mathematical operations (addition, subtraction, multiplication, and division) in negotiation scenarios. Action research was the method adopted, with intervention in a class of 38 students, using phases of review, guided game, autonomous game, and collective discussion. Data collection included a comparison between a diagnostic test and a final test, in addition to qualitative observations. The results revealed a significant improvement in student performance: the percentage of correct answers increased from 75.68% to 89.32%, and the error rate decreased from 24.32% to 10.68%. Furthermore, the game promoted cooperation among students, who helped each other, and stimulated greater fluency in mental calculations, indicating more solid and engaged learning. Therefore, it is concluded that the adaptation of traditional games is an essential tool for pedagogical practice, capable of increasing interest in mathematics and promoting the development of logical reasoning and collaboration skills.

Keywords:  Teaching Practice. Monopoly. Board Game. Mathematics. Playful Games.

1. Introdução

A Matemática, apesar de sua importância essencial no currículo escolar, continua sendo uma das disciplinas mais desafiadoras para os alunos, especialmente no que tange às operações fundamentais. A aprendizagem das quatro operações com números naturais continua sendo um desafio significativo para os professores de Matemática, visto que diversas dificuldades são frequentemente identificadas pelos alunos. Os estudantes frequentemente demonstram insegurança em relação às quatro operações básicas, seja por não dominarem a tabuada, por apresentarem fragilidades na execução dos algoritmos ou por não conseguirem transferir esses conhecimentos para situações-problema do cotidiano (Santos et al., 2019). Além disso, muitos alunos chegam ao 6º ano do ensino fundamental com lacunas significativas no entendimento das operações aritméticas, um problema que compromete seu desempenho em outras áreas da Matemática e até nas disciplinas correlatas (Dantas, 2014).

Essa dificuldade com as operações básicas é atribuída, em grande parte, à falta de estratégias eficazes de ensino que conectem os conceitos abstratos às situações concretas do cotidiano dos alunos. Muitos alunos continuam percebendo a Matemática como uma disciplina baseada em procedimentos mecânicos e rotineiros, o que contribui para a sensação de distanciamento e dificulta a construção de significado (Grando, 2000). Diante desse cenário, torna-se imprescindível buscar alternativas pedagógicas que tornem o ensino da Matemática mais acessível e envolvente.

A utilização de jogos pedagógicos e materiais manipulativos é considerada uma alternativa eficaz no ensino da Matemática. Tais recursos diversificam a dinâmica de ensino, colocando o aluno no centro do aprendizado, aproveitando o potencial lúdico para facilitar o aprendizado significativo, permitindo que os estudantes explorem conceitos de forma prática e divertida (Barbosa & Ribeiro, 2022).

Neste contexto, o uso de jogos adaptados, como o Banco Imobiliário, tem se mostrado uma estratégia promissora para a aprendizagem das operações, uma vez que, os materiais manipulativos e jogos pedagógicos além de estimular o interesse dos alunos, também proporcionam situações em que podem experimentar e consolidar conceitos matemáticos de forma concreta e dinâmica (Lemes et al. 2024).

O presente estudo tem como objetivo investigar a eficácia do Banco Imobiliário Adaptado como recurso pedagógico para o ensino das operações com números naturais no 6º ano do Ensino Fundamental. Para tal, a pesquisa busca analisar como a aplicação deste jogo pode contribuir para a superação das dificuldades dos alunos nas operações, promovendo uma aprendizagem mais ativa, colaborativa e significativa. 

2. Referencial Teórico

2.1 A perspectiva Lúdica na Educação: Bases Teóricas

O uso de jogos e brincadeiras transforma a experiência de ensino, promovendo o desenvolvimento integral (físico, social e cognitivo) do estudante. Para Sant’Anna e Nascimento (2011), o lúdico envolve a brincadeira, o jogo e a diversão, porém, não pode ser resumido ao simples ato de brincar. Ao integrar atividades lúdicas planejadas, o professor converte o ambiente escolar em um espaço motivador, o que auxilia no combate à evasão e facilita a assimilação de habilidades e conhecimentos, especialmente no Ensino Fundamental II (Gomes et al., 2018).

As atividades de caráter lúdico atuam como aliadas no processo de ensino, criando um clima de aprendizagem mais leve e estimulante, capaz de incentivar a curiosidade e favorecer a compreensão de conteúdos complexos. Implementada de forma planejada, essa abordagem torna o aprendizado da Matemática envolvente e prazeroso, contribuindo para a formação de sujeitos críticos, aptos a aplicar o conhecimento no cotidiano (Santos, 2024).

O processo de desenvolvimento cognitivo demanda práticas pedagógicas atentas às necessidades inerentes ao sujeito. Neste cenário, incorporar o brincar e o jogo às práticas escolares contribui para que os alunos aprendam de forma mais significativa, pois permite que explorem ideias e conceitos de maneira espontânea e criativa. A ludicidade, enquanto expressão espontânea e natural, converte-se em um recurso pedagógico potente em qualquer fase do ensino, desde que seja conduzida com intencionalidade e propósito definidos (Cunha, 2024). 

Ao engajar-se em atividades lúdicas, o indivíduo demonstra o nível de suas capacidades cognitivas e, simultaneamente, estrutura seu processo de construção do saber. Essa relevância é assegurada pela Base Nacional Comum Curricular (Brasil, 2018), que sublinha a importância da ludicidade ao determinar que o brincar e a interação sejam dimensões essenciais das práticas pedagógicas (Silva, 2024).

No contexto educacional, o uso de atividades lúdicas, incluindo jogos e interações diversas, desempenha um papel fundamental. Tais práticas são catalisadoras do desenvolvimento de competências cognitivas cruciais, como as funções executivas (planejamento, memória de trabalho e controle inibitório), além de aprimorarem as habilidades emocionais e sociais, essenciais para uma formação integral do estudante (Oliveira, 2024).

2.2 O Jogo de Tabuleiro como Ferramenta para o Raciocínio Matemático

Diante da crescente valorização dos jogos de tabuleiro modernos, especialmente aqueles de estilo alemão, caracterizados por mecânicas estratégicas, baixa dependência de sorte e forte interação entre os participantes, abre-se um vasto campo de possibilidades para sua utilização em contextos educacionais. A popularização desses jogos, evidenciada pela realização de campeonatos dedicados e pela expansão dos jogos lúdicos, revela que o impulso lúdico permanece ativo e em constante refinamento (Pimentel; Nicolau, 2018).

A ascensão dos jogos de tabuleiro no cenário cultural atual não apenas confirma a permanência do brincar como prática humana essencial, mas também destaca seu papel como instrumento pedagógico e social relevante, capaz de fomentar habilidades cruciais para a vida em sociedade. Ao serem desafiados a pensar estrategicamente e a solucionar problemas complexos, os estudantes tornam-se agentes ativos na construção do próprio conhecimento, desenvolvendo formas mais elaboradas de raciocínio (Silva, G; Silva, M, 2025).

A utilização de jogos didáticos constitui estratégias pedagógicas versáteis, capazes de atender a múltiplas dimensões do processo de ensino-aprendizagem. Além de contribuírem para o aprimoramento do raciocínio lógico, esses recursos favorecem o desenvolvimento de diversas habilidades cognitivas e sociais. O engajamento no jogo oferece aos estudantes a possibilidade de argumentar e formular conceitos, contribuindo significativamente para o processo de construção da autonomia (Silveira, 2023).

2.3 A Adaptação de Jogos Existentes: Fundamentos e Estratégias

Entre as abordagens pedagógicas contemporâneas mais eficazes para enfrentar as dificuldades de aprendizagem e ressignificar a percepção dos alunos em relação à Matemática, destaca-se o uso de metodologias lúdicas, especialmente por meio da adaptação de jogos (Macedo; Pacheco, 2024). Essa estratégia busca inserir os conteúdos matemáticos em contextos mais acessíveis e estimulantes, promovendo maior engajamento e motivação por parte dos estudantes (Morales et al., 2025).

A adaptação se concentra em manter o prazer e o desafio originais do jogo, mas introduzindo ou modificando regras para que o foco da resolução de problemas recaia sobre conceitos matemáticos específicos. Por exemplo, adaptar um jogo de percurso com dados para que as casas exijam a resolução de operações ou problemas verbais antes de avançar (Sobrinho; Santos, 2024).

As estratégias de adaptação incluem modificar as regras do jogo original, como pontuação e condições de vitória, para focar no conteúdo matemático. Dessa maneira, ao inserir novas peças, cartas ou tabuleiros que exijam cálculos ou cartas de desafio matemático em um jogo de tabuleiro genérico, o educador transforma a atividade lúdica em uma ferramenta de aprendizagem ativa, onde o avanço da partida depende diretamente da resolução de problemas e da aplicação prática dos conceitos estudados (Souza; Melo; Guerra, 2024).

A aplicação prática da teoria que reconhece os benefícios dos jogos no contexto educacional requer um planejamento pedagógico sistemático e intencional. Para que os jogos educacionais sejam efetivamente incorporados ao processo de ensino, é necessário estabelecer objetivos instrucionais claros, selecionar recursos adequados sejam digitais ou analógicos e integrá-los de forma coerente ao conteúdo programático (Silva et al., 2025).

A adaptação dos jogos deve considerar o contexto da turma, sendo a cocriação uma prática inclusiva. Para além do entretenimento, os jogos desenvolvem habilidades como observação, análise e tomada de decisão. Nesse contexto, o professor precisa planejar, ajustar regras e promover a reflexão pós-jogo para conectar a experiência ao conteúdo (Dias, 2021).

3. Metodologia

Este estudo adotou a metodologia de pesquisa-ação, com o objetivo de promover uma intervenção pedagógica em uma turma do 6º ano do Ensino Fundamental, composta por 38 alunos, utilizando o Banco Imobiliário Adaptado como recurso didático para o ensino das operações com números naturais. A pesquisa-ação, na perspectiva de Tripp (2005), buscou transformar a prática pedagógica por meio de um ciclo de planejamento, ação, observação e reflexão. O objetivo foi avaliar como o uso desse jogo adaptado contribuiu para a superação das dificuldades conceituais dos alunos em relação às operações matemáticas.

A intervenção foi realizada com uma única turma de 38 alunos, que foram divididos em grupos de 5 participantes. A escolha dessa turma foi motivada pela identificação de dificuldades recorrentes dos alunos nas operações fundamentais, como adição, subtração, multiplicação e divisão, que foram o foco principal da intervenção.

A coleta de dados foi realizada por meio de instrumentos quantitativos e qualitativos. Inicialmente, foi aplicado um teste diagnóstico para identificar as principais dificuldades dos alunos nas operações com números naturais. Este teste foi composto por questões relacionadas às operações básicas, com níveis de complexidade progressiva.

A intervenção foi dividida em quatro fases. A primeira fase, chamada de aula introdutória, teve como objetivo revisar os conceitos fundamentais das operações com números naturais, abordando adição, subtração, multiplicação e divisão de forma simplificada e contextualizada. Durante essa fase, o professor utilizou recursos visuais, como explicações no quadro, para garantir que todos os alunos compreendessem as operações básicas antes de iniciar o jogo. 

A segunda fase consistiu no jogo guiado, onde os alunos jogaram o Banco Imobiliário Adaptado sob a supervisão do professor, projetada com modificações para facilitar o ensino das operações matemáticas. As modificações incluem ajustes no tabuleiro, nas cartas e nas regras do jogo, de modo que os alunos precisassem realizar operações matemáticas a cada negociação. O tabuleiro adaptado é ajustado para refletir as operações, associando valores numéricos às negociações e às propriedades (Marcolino et al., 2022). 

As cartas de “Sorte” e “Revés” foram adaptadas para incluir desafios matemáticos, nos quais os jogadores tinham que resolver problemas de operações para determinar os valores a serem pagos ou recebidos. A jogabilidade do Banco Imobiliário Adaptado seguiu um formato de regras adaptadas, com a ideia da negociação com aluguel e hipoteca em caso de falência, mas com o incremento das operações matemáticas em cada jogada (Santos; Schettino, 2024). 

Para avançar no jogo, os jogadores devem realizar corretamente as operações e resolver as questões propostas nas cartas. O objetivo do jogo foi o mesmo do Banco Imobiliário tradicional: o jogador que acumulasse mais riquezas, sem declarar falência, venceria a partida. No entanto, para que o jogador realize transações, ele precisaria resolver corretamente as operações relacionadas às negociações (Cruz; Barbosa; Silva, 2021).

A adaptação do Banco Imobiliário visa tornar o aprendizado das operações mais significativo e divertido. Este recurso lúdico permite que os alunos apliquem os conceitos matemáticos de maneira prática e contextualizada, em um ambiente de jogo que estimula a interação e o engajamento (Tapajós Junior; Souza; Evangelista, 2024), ao combinar teoria e prática, com ênfase no desenvolvimento das habilidades matemáticas dos alunos por meio de um recurso lúdico que facilita o entendimento das operações (Avanço; Lima, 2020).

Para a realização da atividade, a turma foi dividida em grupos de dois a cinco alunos, e cada grupo utilizou um tabuleiro do Banco Imobiliário Adaptado. Inicialmente, todos os jogadores escolheram um peão e o posicionaram na casa de partida. As propriedades foram distribuídas via sorteio de cores, garantindo que cada jogador inicie com um conjunto específico de terrenos correspondentes à sua cor atribuída.

Caso um jogador não disponha de dinheiro suficiente para saldar seus débitos, ele pode recorrer à hipoteca de suas propriedades. Nessa situação, as posses são entregues ao banco pelo valor de hipoteca, e os valores de estadia passam a ser recolhidos pelo banco. Se, mesmo após a hipoteca, o jogador não conseguir pagar as dívidas, a falência é caracterizada, resultando na sua remoção da partida e na transferência dos recursos restantes ao jogador credor.  

Um dos participantes de cada grupo assume o papel de banqueiro. Este jogador é responsável pelo controle financeiro do jogo: realizar pagamentos, receber valores devidos e administrar o caixa. Cabe ao banqueiro organizar e distribuir a quantia inicial de dinheiro a cada jogador, conforme os valores estabelecidos no manual do jogo adaptado.

O tabuleiro apresenta duas casas especiais cruciais para a dinâmica: Sorte/Revés e Imposto. Ao parar na casa Sorte/Revés, o jogador deve retirar e ler em voz alta uma carta correspondente, executando a instrução ali apresentada. Já ao parar na casa Imposto, o jogador efetua um pagamento fixo de R$ 50,00 ao banco. Como mostram as figuras 1 e 2 a seguir.

Figura 1– Banco Imobiliário Adaptado.

Fonte: Autores (2025).

Figura 2– Demonstração da casa Sorte ou Revés

Fonte: Autores (2025).

Após a organização, o jogo se inicia com a determinação do primeiro jogador, feita pelo lançamento de um dado, seguindo a ordem no sentido horário. Na sua vez, o jogador lança o dado, movimenta o peão e executa a ação da casa em que parou. Se o local for uma propriedade de outro jogador, deve-se pagar uma taxa de estadia. O valor dessa taxa é o foco pedagógico, sendo calculado multiplicando-se o número obtido no dado pelo valor fixado na propriedade.

O objetivo dessa fase foi garantir que os alunos compreendessem as regras do jogo e a aplicação das operações matemáticas em situações práticas. Durante essa fase, o professor circulou entre os grupos, oferecendo suporte quando necessário.

Na terceira fase, o jogo autônomo, os alunos jogaram de forma independente, aplicando as operações sem a supervisão direta do professor. O objetivo foi promover a autonomia dos alunos e incentivá-los a resolver as operações por conta própria. O professor e os estagiários realizaram observações, mas não interferiram diretamente nas jogadas. 

A última fase da intervenção foi a discussão coletiva, onde os alunos compartilharam suas experiências e estratégias de jogo, e o professor reforçou os conceitos trabalhados, corrigindo possíveis equívocos e aprofundando o entendimento das operações matemáticas.

Essa etapa metodológica integrou-se ao processo de coleta de dados da intervenção, que foi organizada em quatro fases distribuídas ao longo de cinco encontros. No primeiro dia, com duração de um horário-aula, aplicou-se o teste diagnóstico. No segundo encontro, com dois horários consecutivos, foi desenvolvida a primeira fase, correspondente à aula introdutória. No terceiro dia, também com dois horários, realizaram-se a segunda e a terceira fases, referentes ao jogo guiado e ao jogo autônomo. Na semana seguinte, em um encontro de um horário, aplicou-se o teste final e, no último dia, com dois horários, ocorreu a discussão coletiva acompanhada do questionário de percepção. A Figura 3 ilustra um dos momentos da aplicação do jogo em sala de aula, evidenciando a participação ativa dos alunos durante a intervenção.

Figura 3– Aplicação do jogo.

Fonte: Autores (2025).

A análise dos dados foi feita de forma mista. Quantitativamente, foram comparados os resultados dos testes diagnóstico e final, focando no desempenho dos alunos nas operações matemáticas. As observações qualitativas, registradas no diário de campo, ajudaram a identificar as estratégias de aprendizagem dos alunos, o grau de motivação durante o jogo e as dificuldades encontradas. Além disso, o questionário de percepção forneceu uma visão mais detalhada sobre o impacto do jogo na motivação e no engajamento dos alunos.

Ao final da intervenção, foi aplicado um teste final semelhante ao diagnóstico, com o objetivo de avaliar o desempenho dos alunos após a aplicação do Banco Imobiliário Adaptado. Os dados dos testes diagnóstico e final foram analisados de forma quantitativa, comparando os acertos e erros da turma antes e depois da intervenção. Também foi aplicado um questionário de percepção para coletar informações qualitativas sobre a experiência dos alunos durante o jogo e seu impacto na aprendizagem.  

4. Resultados e Discussão

A turma é composta por 38 alunos, porém, optou-se por não utilizar 16 dos alunos nesta análise, pois, no processo de aplicação dos testes diagnóstico, final e questionário de percepção, houve ausência de alunos. Foram retirados da análise dos dados 6 alunos que fizeram teste diagnóstico, mas não participaram do teste final, assim como 7 alunos que estiveram ausentes no teste diagnóstico, mas participaram do teste final, além de outros 3 alunos que não estiveram presentes no questionário de percepção. Desta forma, se faz importante salientar sobre a não utilização dos dados destes alunos, para não comprometer a integridade dos dados analisados.

A aplicação do Banco Imobiliário Adaptado revelou resultados significativos tanto no desempenho dos alunos quanto em termos de engajamento e colaboração entre eles. A análise quantitativa dos testes diagnósticos e finais, conforme mostrado na tabela abaixo, ilustra a melhoria no desempenho dos alunos nas operações com números naturais após a intervenção. A tabela 1 apresenta os percentuais de erros e acertos das avaliações diagnóstica e final.

Tabela 1 – Apresenta o total de pontos considerando toda a turma, bem como os percentuais de erros e acertos das avaliações diagnóstica e final.

PONTUAÇÃO TOTAL DA TURMAPONTUAÇÃO TOTAL DA TURMA (MÉDIA)PERCENTUAL DE ACERTOS DA TURMAPERCENTUAL DE ERROS DA TURMA
AVALIAÇÃO DIAGNÓSTICA DA TURMA
83,25

3,62

75,68%

24,32%

AVALIAÇÃO FINAL DA TURMA

98,25

4,27

89,32%

10,68%

Fonte: Autores (2025).

Os resultados indicam uma melhoria clara no percentual de acertos da turma. Na avaliação diagnóstica, a turma alcançou 75,68% de acertos, enquanto na avaliação final aumentou para 89,32%. Esse aumento de cerca de 13,64% nas taxas de acerto sugere que a intervenção teve um impacto positivo no aprendizado das operações aritméticas.

Por outro lado, a taxa de erros diminuiu de 24,32% na avaliação diagnóstica para 10,68% na avaliação final, o que pode indicar que os alunos se tornaram mais confiantes e precisos na resolução das operações. A redução de erros está diretamente ligada ao engajamento mais profundo com os conceitos durante o jogo e ao fato de os alunos terem internalizado as operações de maneira mais prática e contextualizada.

Um aspecto notável durante a aplicação do jogo foi a cooperação entre os alunos. Aqueles que apresentavam mais dificuldade em realizar cálculos foram auxiliados por seus colegas, criando um ambiente de mediação entre os pares. Essa dinâmica de aprendizagem colaborativa reflete a importância do contexto social e da interação no processo de construção do conhecimento, conforme a teoria da Zona de Desenvolvimento Proximal (ZPD), destacada por Vygotsky (1986). A ZPD demonstra que o aprendizado ocorre de forma mais eficaz quando o aluno é auxiliado por um par mais capaz, o que foi evidenciado no ensino de conceitos matemáticos.

Neste caso, o Banco Imobiliário Adaptado proporcionou oportunidades para os alunos aplicarem o conhecimento de maneira prática, enquanto interagiam e ajudavam uns aos outros. Essa cooperação não apenas facilitou o aprendizado dos alunos mais lentos, mas também reforçou o entendimento de conceitos pelos outros, que, ao explicarem os conceitos, consolidaram seu próprio aprendizado.

Durante a realização do jogo, foi possível observar que muitos alunos realizaram os cálculos de soma e subtração mentalmente, evidenciando uma maior fluência das operações, o que é um reflexo de uma aprendizagem mais sólida e de maior envolvimento com a atividade proposta. O uso do jogo como ferramenta pedagógica não só motivou os alunos, mas também os desafiou de forma divertida e dinâmica, o que resultou em um maior interesse pela matemática.

Tabela 2: Questionário de percepção

PERGUNTASRUIMRAZOÁVELBOMÓTIMO
Compreensão do jogo0%4,55%13,64%81,82%
Relação com os testes passados em sala0%4,55%63,64%31,82%
Jogo utilizado0%4,55%31,82%63,64%
Auxiliou na compreensão das operações com números naturais.4,55%4,55%54,55%36,36%

Fonte: Autores (2025)

Os dados coletados por meio do questionário de percepção fornecem insights valiosos sobre a experiência dos alunos durante a aplicação do Banco Imobiliário Adaptado. A avaliação positiva dos alunos é clara, especialmente no que diz respeito à compreensão do jogo, com 81,82% dos alunos classificados como ‘Ótimo’. Além disso, a relação com os testes anteriores e a utilidade do jogo na compreensão das operações matemáticas foram consideradas boas por uma grande parte dos participantes, com mais de 60% atribuindo notas de ‘Bom’ ou ‘Ótimo’. Esses resultados confirmam que o uso de jogos adaptados não apenas engajou os alunos, mas também contribuiu significativamente para o entendimento das operações com números naturais, destacando a importância dessa metodologia no processo de ensino-aprendizagem.

Para Lemes et al. (2024) e Barbosa & Ribeiro (2022), essa premissa é corroborada pela teoria que postula que a aplicação de atividades e métodos lúdicos não só estimula significativamente o engajamento dos estudantes, mas também desempenha um papel crucial na redução da ansiedade associada à disciplina.

O uso do Banco Imobiliário Adaptado como estratégia pedagógica se mostrou eficaz para abordar as dificuldades dos alunos nas operações com números naturais. A metodologia da intervenção, dividida em fases de introdução, jogo guiado, jogo autônomo e discussão coletiva, permitiu que os alunos fossem expostos, de maneira gradual e contextualizada, às operações matemáticas, favorecendo a construção do conhecimento de forma colaborativa.

5. Considerações finais

Este estudo reforça a importância de se utilizar recursos lúdicos, como o Banco Imobiliário Adaptado, como parte integrante da prática pedagógica no ensino da Matemática. A adaptação de jogos tradicionais, quando bem planejada, pode facilitar a compreensão dos alunos e aumentar o interesse pela disciplina, ao mesmo tempo em que promove o desenvolvimento de habilidades socioemocionais e de raciocínio lógico. No entanto, é necessário que o uso desses recursos seja cuidadosamente mediado pelo professor, garantindo que o foco do jogo permaneça no ensino dos conceitos matemáticos e na aplicação correta das operações.

Recomenda-se que a proposta do Banco Imobiliário Adaptado seja replicada em outros contextos educacionais, com ajustes necessários às especificidades de cada turma e aos objetivos de aprendizagem de cada conteúdo. A continuidade da pesquisa sobre o impacto dos jogos pedagógicos no ensino da Matemática pode proporcionar insights valiosos para a melhoria das práticas pedagógicas, consolidando os jogos como uma ferramenta essencial para a promoção de uma aprendizagem ativa, colaborativa e significativa.

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1Filiação institucional: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA), Paragominas, PA, Brasil. E-mail: jslienosdeo@gmail.com.- Orcid: 0009-0008-1915-7661
2Filiação institucional: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA), Paragominas, PA, Brasil. E-mail: tatielymartins6@gmail.com – Orcid: 0009-0004-6579-1066
3Filiação institucional: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA), Paragominas, PA, Brasil. E-mail: edison.andrade@ifpa.edu.br – Orcid: 0009-0001-0644-3932