FINANCIAL EDUCATION FOR COUPLES: FINANCIAL ALIGNMENT AS A FACTOR OF MARITAL STABILITY
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202601120901
Juliana de Carvalho Barbosa Cardoso1
RESUMO
A instabilidade financeira é recorrente na literatura como um dos fatores associados aos conflitos conjugais, com impactos sobre o bem-estar familiar e a sustentabilidade econômica dos lares. Nesse contexto, a educação financeira aplicada ao casamento emerge como instrumento relevante para o alinhamento de decisões econômicas e a mitigação de tensões no relacionamento conjugal. Este artigo tem como objetivo analisar a relação entre educação financeira para casais, alinhamento financeiro entre os cônjuges e estabilidade conjugal. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, fundamentada em revisão bibliográfica de estudos nacionais e internacionais sobre educação financeira, finanças comportamentais e relações conjugais, complementada por dados secundários de fontes institucionais brasileiras. A análise da literatura indica que a ausência de diálogo financeiro, a falta de planejamento e o desalinhamento de valores econômicos contribuem para o aumento de conflitos no casamento, enquanto práticas como planejamento financeiro conjunto, definição de metas compartilhadas e transparência nas decisões financeiras apresentam potencial para reduzir o estresse econômico e fortalecer a parceria conjugal. Conclui-se que a educação financeira para casais transcende o controle orçamentário, configurando-se como instrumento de organização familiar, prevenção de conflitos e promoção da estabilidade e da prosperidade familiar.
Palavras-chave: Educação financeira; Planejamento financeiro; Tomada de decisão; Relações conjugais; Estabilidade familiar.
ABSTRACT
Financial instability is recurrently identified in the literature as one of the factors associated with marital conflicts, affecting family well-being and household economic sustainability. In this context, financial education applied to marriage emerges as a relevant tool for aligning economic decisions and mitigating tensions within marital relationships. This article aims to analyze the relationship between financial education for couples, financial alignment between spouses, and marital stability. This qualitative, exploratory, and descriptive study is based on a bibliographic review of national and international literature on financial education, behavioral finance, and marital relationships, complemented by secondary data from Brazilian institutional sources. The analysis indicates that the absence of financial dialogue, lack of planning, and misalignment of economic values contribute to increased marital conflicts, while practices such as joint financial planning, shared goal setting, and transparency in financial decisions show potential to reduce economic stress and strengthen marital partnership. It is concluded that financial education for couples goes beyond budget control, serving as a tool for family organization, conflict prevention, and the promotion of marital stability and family prosperity.
Keywords: Financial education; Financial planning; Decision making; Marital relationships; Family stability.
1 INTRODUÇÃO
As transformações econômicas e sociais observadas nas últimas décadas têm impactado de forma significativa a dinâmica das relações familiares, especialmente no que se refere à administração dos recursos financeiros. O aumento do custo de vida, o acesso facilitado ao crédito e a complexidade das decisões econômicas contemporâneas intensificaram os desafios enfrentados pelos casais no gerenciamento financeiro do lar. Nesse cenário, as finanças deixam de ser apenas uma questão operacional e passam a exercer influência direta sobre a dinâmica conjugal.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística indicam que, em 2022, o Brasil registrou aproximadamente um divórcio para cada 2,3 casamentos, evidenciando um cenário de fragilidade nas uniões formais. Embora os dados oficiais não estabeleçam relações diretas de causalidade entre divórcios e fatores financeiros, estudos nacionais e internacionais indicam que conflitos relacionados ao dinheiro figuram entre os fatores frequentemente associados ao desgaste conjugal, atuando como catalisadores de crises já existentes no relacionamento (KINGSTON et al., 2010).
A literatura sobre comportamento financeiro aponta que as decisões econômicas são influenciadas por aspectos emocionais, culturais e comportamentais, especialmente no contexto familiar. Diferenças de perfil financeiro, ausência de diálogo, endividamento e falta de planejamento são elementos frequentemente associados a conflitos conjugais (LUSARDI; MITCHELL, 2014). Nesse sentido, a educação financeira aplicada ao contexto conjugal apresenta-se como ferramenta capaz de promover maior alinhamento entre os cônjuges, contribuindo para a redução de tensões e para a construção de uma gestão financeira mais equilibrada.
O problema que orienta esta pesquisa pode ser sintetizado na seguinte questão: de que forma a ausência de alinhamento financeiro entre os cônjuges contribui para conflitos conjugais e como a educação financeira para casais pode atuar como fator de estabilidade familiar? A delimitação do problema permite compreender as finanças não apenas como um aspecto técnico, mas como um elemento relacional, dotado de relevância social e aplicabilidade prática.
Diante desse contexto, o objetivo geral deste trabalho é analisar a relação entre educação financeira conjugal, alinhamento financeiro e estabilidade do casamento. Como objetivos específicos, busca-se identificar os principais fatores financeiros associados aos conflitos conjugais, discutir práticas de planejamento financeiro aplicadas ao contexto familiar e analisar como o alinhamento financeiro pode contribuir para a estabilidade e a sustentabilidade do relacionamento conjugal.
A relevância da pesquisa reside em seu caráter social e econômico, considerando que a instabilidade familiar gera impactos que extrapolam o âmbito privado e afetam a organização econômica e social. A compreensão do papel da educação financeira no fortalecimento das relações conjugais contribui para o avanço teórico nas áreas de educação financeira e finanças comportamentais, além de oferecer subsídios práticos aplicáveis à realidade dos casais.
O artigo está estruturado da seguinte forma: após esta introdução, apresenta-se a fundamentação teórica; em seguida, descreve-se a metodologia adotada; posteriormente, são discutidos os resultados à luz da literatura; e, por fim, apresentam-se as considerações finais.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A fundamentação teórica deste estudo apoia-se em três eixos principais: educação financeira, finanças comportamentais e relações conjugais. Esses campos dialogam entre si ao considerar que as decisões financeiras no contexto familiar não são exclusivamente técnicas, mas influenciadas por fatores emocionais, culturais e relacionais.
2.1 Educação financeira e tomada de decisão no contexto familiar
A educação financeira pode ser compreendida como o processo por meio do qual indivíduos e famílias desenvolvem conhecimentos, habilidades e atitudes necessárias para a tomada de decisões conscientes sobre o uso dos recursos financeiros. Segundo Lusardi e Mitchell (2014), a educação financeira contribui para a melhoria do planejamento, da poupança e da gestão do endividamento, impactando positivamente a estabilidade econômica das famílias.
No contexto familiar, a educação financeira assume papel estratégico, pois envolve decisões compartilhadas que afetam diretamente a qualidade de vida do casal. A ausência de planejamento financeiro tende a gerar comportamentos reativos, caracterizados pela improvisação e pelo curto prazo, aumentando a exposição ao endividamento e ao estresse econômico (CHIAVENATO, 2004). Dessa forma, a educação financeira pode ser compreendida como instrumento preventivo, ao promover organização, previsibilidade e maior equilíbrio nas decisões econômicas do lar.
2.2 Finanças comportamentais e perfis financeiros no casamento
As finanças comportamentais ampliam a compreensão das decisões econômicas ao considerar que os indivíduos não atuam de forma plenamente racional. Kahneman (2011) demonstra que fatores emocionais, heurísticas e vieses cognitivos influenciam significativamente o comportamento financeiro, sobretudo em situações que envolvem consumo, risco e planejamento de longo prazo.
No casamento, essas influências tornam-se ainda mais relevantes, uma vez que cada cônjuge carrega experiências, crenças e padrões financeiros adquiridos ao longo da vida. Diferenças de perfil financeiro podem gerar conflitos quando não há alinhamento ou diálogo adequado (VIEIRA; SILVA, 1992). O reconhecimento dessas diferenças favorece a construção de estratégias financeiras mais cooperativas e equilibradas no contexto conjugal.
2.3 Conflitos financeiros e instabilidade conjugal
A literatura indica que conflitos financeiros figuram entre os principais fatores associados ao desgaste conjugal. Problemas relacionados ao endividamento, à falta de transparência e à divergência de prioridades econômicas estão frequentemente presentes em processos de separação (KINGSTON et al., 2010).
O estresse financeiro atua como elemento agravante de conflitos já existentes no relacionamento, comprometendo a comunicação e a confiança entre os cônjuges. A transparência financeira emerge como elemento central para a estabilidade conjugal, reduzindo assimetrias de informação e fortalecendo a parceria no processo decisório (CARVALHO et al., 2010).
2.4 Planejamento financeiro conjugal como estratégia de estabilidade
O planejamento financeiro conjugal consiste na definição conjunta de metas, prioridades e estratégias para o uso dos recursos financeiros da família. A literatura aponta que o planejamento financeiro permite reduzir incertezas, alinhar expectativas e estabelecer limites claros para o consumo e o investimento (LIMA, 1995).
Estudos indicam que casais que adotam práticas sistemáticas de planejamento financeiro apresentam maior nível de cooperação e satisfação conjugal, uma vez que as decisões deixam de ser individuais e passam a refletir um projeto comum (SENGE et al., 2005).
2.5 Educação financeira como promotora de estabilidade familiar
A educação financeira aplicada ao contexto conjugal integra aspectos técnicos, comportamentais e relacionais, contribuindo para a construção de estabilidade financeira e emocional. Quando aplicada de forma sistemática, favorece o alinhamento de valores, a definição de objetivos comuns e a redução de conflitos associados ao uso dos recursos financeiros (LUSARDI; MITCHELL, 2014).
3 METODOLOGIA
Esta pesquisa caracteriza-se como um estudo de natureza qualitativa, com abordagem exploratória e descritiva, cujo objetivo é analisar a relação entre educação financeira para casais, alinhamento financeiro conjugal e estabilidade do relacionamento. A escolha da abordagem qualitativa justifica-se pela necessidade de compreender o fenômeno investigado a partir da análise interpretativa de conceitos, comportamentos e relações descritos na literatura.
Quanto aos procedimentos técnicos, o estudo configura-se como uma pesquisa bibliográfica, desenvolvida a partir da análise sistemática de livros, artigos científicos e documentos institucionais relacionados aos temas educação financeira, finanças comportamentais, planejamento financeiro familiar e relações conjugais. A pesquisa bibliográfica permite identificar, organizar e interpretar o conhecimento produzido sobre o tema, fornecendo suporte teórico consistente para a discussão proposta.
As fontes foram selecionadas com base em critérios de relevância acadêmica, atualidade e reconhecimento científico, priorizando publicações indexadas, livros clássicos das áreas de finanças, administração e comportamento, bem como dados secundários provenientes de órgãos oficiais, como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Publicações sem respaldo científico ou de caráter opinativo foram excluídas, a fim de assegurar a confiabilidade do material analisado.
O delineamento da pesquisa compreendeu as seguintes etapas: levantamento das produções acadêmicas relacionadas ao tema; leitura exploratória para identificação de conceitos centrais; leitura analítica para seleção dos estudos mais relevantes; e análise interpretativa do conteúdo, com vistas à articulação entre educação financeira, comportamento financeiro e estabilidade conjugal.
A análise dos dados foi realizada por meio de análise qualitativa de conteúdo, consistindo na comparação e síntese dos achados teóricos identificados na literatura. Os resultados foram discutidos à luz dos objetivos propostos, permitindo a identificação de convergências e contribuições relevantes para a compreensão do papel da educação financeira no contexto conjugal.
Por se tratar de um estudo baseado exclusivamente em dados secundários e fontes públicas, não houve necessidade de submissão a comitê de ética em pesquisa, sendo observados os princípios éticos da pesquisa científica, especialmente no que se refere à integridade acadêmica e à correta citação das fontes.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise da literatura permitiu identificar padrões recorrentes na relação entre educação financeira, comportamento econômico e estabilidade conjugal.
Os estudos analisados indicam que a ausência de alinhamento financeiro constitui fator relevante de conflitos conjugais, especialmente quando associada à falta de diálogo e planejamento. A educação financeira apresenta relação positiva com a redução do estresse econômico, ao promover previsibilidade e organização financeira.
O planejamento financeiro conjunto emerge como prática central para o fortalecimento da parceria conjugal, favorecendo a cooperação, a corresponsabilidade e a definição de projetos comuns. Além disso, a transparência financeira contribui para o fortalecimento da confiança, elemento essencial para a estabilidade do relacionamento.
De modo geral, a literatura sugere que a educação financeira aplicada ao contexto conjugal atua como instrumento preventivo de conflitos, promovendo estabilidade financeira e relacional no âmbito familiar.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo analisou a relação entre educação financeira para casais, alinhamento financeiro conjugal e estabilidade do relacionamento, a partir de uma abordagem qualitativa baseada em revisão da literatura. Os resultados indicam que a ausência de alinhamento financeiro contribui para o surgimento e intensificação de conflitos conjugais, enquanto práticas de educação financeira favorecem a redução do estresse econômico e o fortalecimento da parceria conjugal.
A educação financeira aplicada ao casamento mostrou-se relevante não apenas para a organização econômica do lar, mas também para a melhoria da comunicação, da confiança e da tomada de decisão conjunta. O planejamento financeiro compartilhado emerge como estratégia eficaz para transformar o dinheiro de elemento de conflito em instrumento de cooperação.
Como limitação, destaca-se a ausência de dados empíricos, o que sugere a necessidade de estudos futuros que explorem a temática por meio de pesquisas de campo. Ainda assim, os resultados contribuem para a compreensão do papel da educação financeira na promoção da estabilidade conjugal e da sustentabilidade familiar.
Conclui-se que a educação financeira para casais representa instrumento relevante de organização familiar e prevenção de conflitos, com potencial impacto positivo sobre a estabilidade conjugal e a prosperidade familiar.
REFERÊNCIAS
ARAÚJO, M. H.; NOGUEIRA, R.; RAMOS, C. A. Dinâmica familiar e conflitos conjugais: uma abordagem psicossocial. São Paulo: Atlas, 1997.
CARVALHO, J. C. et al. Comportamento financeiro e relações familiares. Revista de Administração Contemporânea, v. 14, n. 3, p. 421–439, 2010.
CHIAVENATO, I. Gestão de pessoas: o novo papel dos recursos humanos nas organizações. 2. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.
IBGE. Estatísticas do registro civil 2022. Rio de Janeiro: IBGE, 2023.
KAHNEMAN, D. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.
KINGSTON, D. et al. Financial stress and marital instability. Journal of Family and Economic Issues, v. 31, n. 4, p. 467–478, 2010.
LIMA, A. C. Planejamento financeiro pessoal e familiar. São Paulo: Saraiva, 1995.
LUSARDI, A.; MITCHELL, O. S. The economic importance of financial literacy: theory and evidence. Journal of Economic Literature, v. 52, n. 1, p. 5–44, 2014.
SENGE, P. et al. A quinta disciplina: arte e prática da organização que aprende. Porto Alegre: Artmed, 2005.
VIEIRA, P. R.; SILVA, A. C. Comportamento financeiro e relações conjugais. Psicologia & Sociedade, v. 4, n. 2, p. 33–48, 1992.
1MBA em Gestão Comercial – Fundação Getúlio Vargas (FGV)
Graduação em Gestão Mercadológica de Pequenas e Médias Empresas – UNI-BH
