HEALTH EDUCATION ON PEDICULOSIS IN A SCHOOL IN A QUILOMBOLA COMMUNITY IN THE OF BAHIA: EXPERIENCE REPORT
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202512161018
Raquel Almeida Miranda1; Isabel Lima da Silva1; Letícia Almeida Avelar de Souza1; Geovanna Vitória Machado Alves Santana1; Maria Ana Garcia Bueno1; Maria Julya Martins Santos1; Tâmara Trindade de Carvalho Santos2
Resumo
A pediculose, causada pelo Pediculus humanus capitis, é uma condição comum na infância, caracterizada por coceira intensa e irritação no couro cabeludo devido à saliva do inseto, que pode gerar desconforto, feridas e constrangimento, o presente estudo teve como objetivo relatar a experiência de uma ação de educação em saúde realizada por estudantes de medicina sobre pediculose. A atividade de extensão foi desenvolvida em uma escola em uma comunidade quilombola que valoriza a cultura afro-brasileira e apresenta vulnerabilidades socioeconômicas. O projeto foi direcionado a alunos do 1º ano do ensino fundamental, faixa etária com maior risco de infestação devido ao contato físico frequente e ao compartilhamento de objetos. Ações educativas são essenciais para integrar escola e comunidade no enfrentamento de problemas de saúde. A proposta utilizou ações participativas e lúdicas para promover compreensão sobre prevenção e cuidados. As atividades buscaram estimular o autocuidado e reduzir estigmas, fortalecendo a comunicação entre escola e comunidade. A intervenção sobre pediculose na comunidade quilombola alcançou o objetivo de fortalecer a compreensão das crianças sobre prevenção e cuidados.
Palavras-chave: Pediculose. Educação em saúde. Crianças. Prevenção. Comunidade.
1 INTRODUÇÃO
A pediculose do couro cabeludo (infestação por Pediculus humanus capitis) constitui uma ectoparasitose altamente prevalente entre crianças em idade escolar, destacando-se como relevante problema de saúde pública pela sua elevada transmissibilidade e pelas repercussões físicas, emocionais e sociais associadas. O parasita instala-se no couro cabeludo, alimentando-se de sangue humano várias vezes ao dia, provocando prurido intenso devido à inoculação de substâncias anticoagulantes e irritativas, além de lesões resultantes do ato de coçar, que podem evoluir para infecções secundárias (GARZONI; CARVALHO, 2021).
Esse tipo de infestação é descrito há mais de 1.300 anos antes de Cristo (a.C), sendo encontrado indícios de piolhos humanos em pentes de múmias pré-colombianas, múmias no Peru, múmias egípcias e múmias no deserto israelense. Indícios de piolhos também foram encontrados no Brasil, em pentes contendo ovos de pediculus humanus capitis, em múmias com mais de 10.000 anos encontradas no Piauí (Ferreira, 2011).
O ciclo completo do pediculus humanus capitis consiste em ovo, ninfa e adultos e é realizado no couro cabeludo dos humanos. Seus ovos, são conhecidos como lêndeas e ficam fixas no fio do cabelo (Neves et al.,2016; Alves, 2018).
Para a prevenção e controle da pediculose, podem ser adotadas duas abordagens principais: a química, baseada no uso de medicamentos tópicos específicos capazes de eliminar o parasita; e a mecânica, que envolve a remoção manual das lêndeas e dos piolhos adultos por meio do uso sistemático de pente fino. A combinação de ambos os métodos costuma ser a estratégia mais eficaz, especialmente em ambientes escolares ou comunitários, onde há maior risco de reinfestação (LIMA, 2017).
De forma geral investigações sobre pediculose concentram-se majoritariamente em crianças em idade escolar, por serem o grupo mais frequentemente afetado pela infestação (DEVERA, 2012). Crianças entre três e 12 anos, residentes tanto em áreas urbanas quanto rurais, figuram como as mais vulneráveis (KO; ELSTON, 2004). Segundo Pilger et al. (2010), a pediculose capitis provavelmente constitui a parasitose mais comum na infância em nível mundial. A elevada incidência nessa faixa etária parece estar associada, sobretudo, ao comportamento infantil, que envolve intensa proximidade física e, consequentemente, maior facilidade de transmissão (BORGES; MENDES, 2002).
Diversos estudos também identificaram maior prevalência da pediculose em indivíduos do sexo feminino (GULGUN et al., 2013; DEVERA et al., 2015; KHAMAISEH, 2018). Conforme Felfemeier (2012), esse achado pode estar relacionado ao padrão de interação social entre meninas, que tende a envolver contato direto mais prolongado. Gulgun et al. (2013) também relacionam essa diferença ao maior comprimento dos cabelos, característica frequentemente observada nesse grupo. Tanto o comportamento feminino quanto maior cumprimento dos cabelos podem favorecer a infestação.
Apesar da maior ocorrência entre crianças do sexo feminino, a literatura demonstra que indivíduos de qualquer idade, gênero ou classe social podem ser acometidos pediculose (NUTANSON et al., 2008). Porém seus efeitos são amplificados em contextos marcados por vulnerabilidades sociais, onde o acesso à informação, aos cuidados preventivos e ao tratamento adequado é limitado. A pediculose, quando presente no grupo infantil, pode comprometer significativamente o desempenho nas atividades educacionais diárias, uma vez que está associada ao absenteísmo, à redução da capacidade de concentração e à ocorrência de episódios de discriminação entre pares (FRANCESCHI ET AL., 2020).
No Brasil, pesquisas mostram prevalência elevada em escolas públicas, creches e comunidades tradicionais, evidenciando que o ambiente escolar desempenha papel central na cadeia de transmissão (GABANI et al., 2010; 2013). Entre as principais formas de disseminação destacam-se o contato cabeça-a-cabeça, a troca de acessórios pessoais e a permanência prolongada em grupos, fatores comuns na rotina infantil.
Comunidades tradicionais quilombolas, são formadas por grupos étnico-raciais descendentes de africanos escravizados, que mantêm território, laços históricos, práticas culturais e formas próprias de organização social, com direitos específicos de proteção social e territorial (BRASIL, 2023).
Muitos dessas comunidades quilombolas ainda enfrentam condições estruturais que favorecem a permanência de agravos evitáveis, como a pediculose, especialmente entre crianças. Estudos mostram que fatores como menor acesso a serviços de saúde, desigualdades socioeconômicas, limitações de saneamento e barreiras educacionais contribuem para altas taxas de infestação por Pediculus humanus capitis (FERRAZ; OLIVEIRA, 2022).
O enfrentamento de agravos como a pediculose deve considerar não apenas os aspectos biomédicos, mas também barreiras sociais, raciais e territoriais que determinam o processo saúde-doença nesses contextos (SILVA et al., 2020).
Além dos impactos físicos, a pediculose repercute no bem-estar psicológico e no desempenho escolar, uma vez que gera sentimentos de vergonha, estigma e exclusão. A associação equivocada entre pediculose e falta de higiene reforça preconceitos e práticas discriminatórias, sobretudo contra crianças de grupos vulnerabilizados, incluindo populações quilombolas, onde o racismo estrutural influencia o julgamento social e a estigmatização (SOUZA, 2021; NOVAES ET AL., 2017).
Por isso, estratégias educativas em saúde para a prevenção da pediculose devem ocorrer principalmente em escolas situadas nessas comunidades quilombolas, evitando abordagens punitivas ou moralizantes, priorizando ações dialógicas, afetivas e respeitosas, conforme orienta a Política Nacional de Educação Popular em Saúde (BRASIL, 2013; NOVAES ET AL., 2017).
A utilização de metodologias participativas, lúdicas e culturalmente contextualizadas fortalece a aprendizagem infantil e transforma crianças em agentes multiplicadores do cuidado dentro de suas famílias e comunidades (FREIRE, 1996).
Em territórios quilombolas, práticas educativas que valorizam saberes locais e fortalecem a identidade étnico-racial têm impacto significativo na autonomia e no senso de pertencimento comunitário, contribuindo para a promoção de saúde integral e para a redução de desigualdades historicamente produzidas.
Diante desse cenário, o presente estudo tem como objetivo relatar a experiência de uma ação de educação em saúde realizada por estudantes de medicina sobre pediculose, com estudantes do 1º ano do ensino fundamental em uma escola situada em uma comunidade quilombola, descrevendo o contexto sociocultural local, as estratégias pedagógicas utilizadas, fundamentadas em princípios da educação popular, do cuidado culturalmente sensível e da promoção do autocuidado, e suas contribuições para o fortalecimento do vínculo entre escola, comunidade e universidade.
2 METODOLOGIA
Trata-se de um relato de experiência de caráter qualitativo, referente a um projeto de extensão universitária com educação em saúde acerca da pediculose, desenvolvido no segundo semestre de 2025. O planejamento das ações considerou os aspectos culturais da comunidade, como a valorização da ancestralidade africana, as práticas tradicionais de cuidado e a dinâmica coletiva das famílias, foi desenvolvido em uma escola municipal situada em uma comunidade Quilombola.
A metodologia adotada fundamentou-se na perspectiva da Educação em Saúde, com caráter dialógico e participativo, inspirada na concepção freireana de que “ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo: os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo” (FREIRE, 1996). Assim, buscou-se promover um processo educativo que reconhecesse os saberes da comunidade, valorizasse a participação ativa das crianças e fortalecesse o sentimento de pertencimento ao cuidado coletivo.
As atividades foram estruturadas em etapas:
1 Estudo Prévio e Fundamentação Teórica:
Inicialmente, realizou-se um levantamento teórico sobre a pediculose, incluindo seus mecanismos de transmissão, formas de prevenção e orientações de manejo. Para isso, foi consultado o Protocolo de Pediculose do Ministério da Saúde, além de artigos científicos e materiais oficiais relacionados ao tema.
Também foi realizado um estudo dos principais tratamentos disponíveis, com ênfase nos shampoos pediculicidas recomendados em documentos oficiais, considerando sua composição, eficácia e segurança. Esse estudo prévio permitiu estruturar uma intervenção fundamentada em evidências e alinhada às diretrizes de saúde pública, garantindo clareza e rigor às orientações transmitidas.
2 Intervenção Lúdica:
O grupo composto por estudantes do curso de Medicina, dirigiu-se a escola, e ao chegar no local da sala de aula, foi feito o acolhimento das crianças, as quais estavam muito animadas e curiosas para participarem da intervenção. Na etapa inicial com as crianças, foi realizada uma roda de conversa com auxílio das professoras da turma, cujo objetivo foi identificar percepções, experiências e crenças relacionadas ao piolho. Esse momento permitiu compreender o conhecimento prévio das crianças, os estigmas presentes no cotidiano e as dúvidas mais frequentes. Em seguida, passamos para uma intervenção mais direta, porém realizada de forma lúdica.
A intervenção Lúdica/educativa foi conduzida por meio de recursos como:
- Tablet para exibir imagens ampliadas do piolho;
- Uma boneca de cabelos longos para demonstração prática (focou-se em ensinar, de forma clara, como ocorre a transmissão do inseto. Utilizando a boneca como instrumento pedagógico, demonstrou-se a maneira correta de realizar a higiene capilar);
- A simulação do cuidado capilar, incluindo lavagem, aplicação de xampu e uso do pente fino;
- Exibição da música “Xô, piolho sapeca!”, que de forma divertida e didática, fala sobre a maneira correta de higienizar o cabelo e todos os cuidados que se deve ter para não se contaminar com o piolho.
Esses recursos tornaram as atividades mais dinâmicas e favoreceram a compreensão das crianças. A ludicidade possibilitou transformar um tema sensível em algo leve, acolhedor e acessível, estimulando a participação espontânea.
Foram distribuídos kits contendo xampu específico, capaz de eliminar o parasita, condicionador e pente fino, para que os cuidados ensinados sejam colocados em prática diariamente. Reforçou-se, ainda, a importância de não compartilhar objetos pessoais, como pentes, bonés, presilhas, tiaras e escovas.
3 RESULTADOS E DISCUSSÕES
Durante as conversas guiadas, identificou-se que os estigmas sociais associados à pediculose estavam fortemente presentes entre as crianças da comunidade quilombola. Muitos estudantes relataram vergonha, receio de serem ridicularizados e medo de mencionar a infestação diante dos colegas, o que confirma o impacto emocional e social desse agravo, já amplamente descrito pela literatura. Estudos nacionais e internacionais destacam que o estigma é um dos fatores que mais dificultam a identificação precoce e a busca por cuidados, perpetuando ciclos de silêncio, atraso no diagnóstico e reinfestação (WEISBERG, 2009; MUMCUOGLU et al., 2021).
A adoção de uma abordagem acolhedora, dialógica e livre de julgamentos mostrou-se essencial para transformar esse cenário. À medida que as atividades avançavam, observou-se redução significativa de comentários depreciativos entre pares, aumento da participação verbal e maior disposição para fazer perguntas. Esses resultados são coerentes com princípios da Educação Popular em Saúde, segundo os quais o diálogo, a escuta ativa e o respeito aos saberes dos sujeitos promovem segurança emocional e favorecem a aprendizagem (BRASIL, 2013). Além disso, a literatura aponta que práticas educativas não punitivas e centradas na valorização do estudante são fundamentais para desconstruir preconceitos e fortalecer o autocuidado (BRASIL, 2016).
Outro achado relevante foi o aumento expressivo do interesse das crianças pelos cuidados capilares. Durante as demonstrações práticas, houve intensa curiosidade e engajamento no uso do pente fino, método mecânico amplamente utilizado e socialmente difundido para combater a pediculose (LIMA, 2017).
As perguntas recorrentes sobre formas de prevenção e manejo indicam que a intervenção despertou senso de responsabilidade e autonomia, o que se alinha aos estudos que reforçam a eficácia de metodologias práticas e participativas na aprendizagem infantil (GORDON, 2019; DE PAULA et al., 2021). Relatos das professoras corroboraram essa observação, indicando que, após as oficinas, as crianças passaram a solicitar mais orientações sobre higiene capilar e prevenção de reinfestações.
A repercussão da intervenção também ultrapassou o espaço escolar: as crianças atuaram como multiplicadoras das informações, compartilhando o que aprenderam com irmãos, primos e responsáveis. Esse efeito expansivo é amplamente descrito por pesquisas que analisam o impacto de ações de educação em saúde no ambiente escolar, destacando-o como um dos espaços mais eficientes para irradiar conhecimento e promover mudanças de comportamento em toda a comunidade (ROLLINS, 2010; GABANI et al., 2013).
Os resultados demonstram que a atividade contribuiu significativamente para reduzir o estigma, promover a expressão das vivências, ampliar o repertório preventivo e fortalecer o autocuidado entre as crianças quilombolas. Tais achados ressaltam a importância de ações educativas humanizadas, culturalmente sensíveis e baseadas no diálogo, elementos fundamentais para promover autonomia, cidadania sanitária e reforçar vínculos entre escola, comunidade e faculdade.
A participação dos estudantes de Medicina em ações de educação em saúde sobre pediculose em comunidades quilombolas representa uma oportunidade formativa de grande valor, pois possibilita o desenvolvimento de competências essenciais à prática médica, como comunicação efetiva, empatia, compreensão dos determinantes sociais da saúde e postura culturalmente sensível.
Ao atuar diretamente com crianças quilombolas, o estudante exercita a escuta qualificada, aprende a adaptar a linguagem a diferentes contextos socioculturais e vivencia, na prática, os princípios da Atenção Primária e da extensão universitária. Essa experiência favorece a formação de médicos mais humanizados, críticos e comprometidos com a promoção da equidade em saúde, ao mesmo tempo em que amplia a capacidade de reconhecer vulnerabilidades, combater estigmas e construir intervenções educativas significativas e dialogadas.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A experiência evidencia que a promoção da saúde vai além da transmissão de informações, constituindo um processo que envolve diálogo, escuta ativa e valorização da realidade local. A intervenção sobre pediculose na comunidade quilombola alcançou o objetivo de fortalecer a compreensão das crianças sobre prevenção e cuidados, ao mesmo tempo em que amplia os vínculos entre escola, comunidade e faculdade. A ação demonstra que a educação em saúde, conduzida de maneira humanizada e participativa, constitui uma ferramenta eficaz para o empoderamento comunitário e para a formação de indivíduos mais conscientes sobre o autocuidado e a saúde coletiva. A experiência também revela a necessidade de continuidade das ações educativas, indicando como limitação a abrangência restrita da intervenção, o que aponta para a relevância de futuras iniciativas que ampliem o envolvimento das famílias e da comunidade.
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1 Discentes do Curso Superior de Medicina da Faculdade Ages Campus Jacobina-Bahia.
2 Docente do Curso Superior de Medicina da Faculdade Ages Campus Jacobina. Pós-doutora em Educação e Diversidade (UNEB). tamara.carvalho@ages.edu.br
