REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202511090931
Ana Karollyna da Costa Ramos1
Arthur de Aguiar Oliveira2
Lívia Marques Santos Rodrigues3
Gwynne Borlot Delunardo4
Orientadora: Beatriz Coutens de Menezes5
RESUMO
Esta revisão narrativa analisa a relação bidirecional entre doença periodontal e diabetes mellitus, destacando mecanismos fisiopatológicos, repercussões clínicas e estratégias de cuidado integradas. A busca bibliográfica (SciELO, PubMed/MEDLINE, LILACS, ScienceDirect e Google Scholar), realizada entre março e outubro de 2025, considerou publicações de 2015–2025 em português, inglês e espanhol, incluindo estudos clínicos, observacionais, revisões e documentos técnicos nacionais. As evidências convergem para um ciclo de retroalimentação patológica: a hiperglicemia crônica intensifica estresse oxidativo, formação de AGEs e ativação de RAGE, com hiperexpressão de citocinas (IL-6, TNF-α, IL-1β), disfunção imune e disbiose oral; por sua vez, a inflamação periodontal sistêmica eleva mediadores inflamatórios, piora a resistência à insulina e dificulta o controle glicêmico. Clinicamente, diabéticos apresentam maior prevalência e severidade de periodontite, progressão acelerada e resposta terapêutica menos previsível, enquanto a periodontite ativa se associa ao aumento de HbA1c. Modelos interdisciplinares (odontologia, endocrinologia, nutrição, enfermagem e psicologia), aliados a tecnologias de telemonitoramento e educação em saúde, mostram melhora simultânea de parâmetros periodontais e metabólicos; adjuvantes locais, como gel de metformina a 1%, apresentam resultados promissores. Persistem limitações metodológicas (heterogeneidade diagnóstica, amostras reduzidas e seguimento curto), reforçando a necessidade de ensaios multicêntricos e avaliação de desfechos psicossociais e epigenéticos. Conclui-se que integrar a saúde bucal às linhas de cuidado do diabetes é essencial para desfechos clínicos superiores e para políticas públicas mais resolutivas no SUS.
Palavras-chave: Doença periodontal; Diabetes mellitus; Inflamação sistêmica; AGEs/RAGE; HbA1c; Cuidado interdisciplinar.
INTRODUÇÃO
De acordo com Pannuti et al. (2024), a doença periodontal é um problema de saúde bucal bastante comum e, muitas vezes, silencioso, pois ela afeta os tecidos que sustentam os dentes, como a gengiva, o ligamento periodontal e o osso alveolar, provocando inflamações que, com o tempo, podem levar à perda dentária e a complicações mais amplas. Nas palavras dos autores
A doença periodontal é uma condição inflamatória crônica multifatorial que afeta os tecidos de suporte dos dentes. Ela é iniciada pela formação do biofilme bacteriano subgengival e modulada pela resposta imunológica do hospedeiro, resultando em destruição progressiva do ligamento periodontal e do osso alveolar. Trata-se de uma das doenças bucais mais prevalentes no mundo, estando associada a fatores comportamentais, genéticos e sistêmicos que influenciam sua gravidade e evolução clínica (Pannuti et al., 2024, p. 3, tradução nossa).
Embora sua origem esteja relacionada principalmente à presença de biofilme bacteriano subgengival, a evolução da doença depende de uma interação complexa entre fatores locais, comportamentais e sistêmicos, que determinam a intensidade da resposta inflamatória do organismo (Pannuti et al., 2024). Nesse cenário, a diabetes mellitus surge como uma condição especialmente relevante, não só por aumentar a vulnerabilidade à doença periodontal, mas também porque sofre influência negativa direta de sua presença (Oliveira et al., 2023).
Isso porque, pessoas com diabetes, principalmente quando não conseguem manter níveis glicêmicos adequados, apresentam uma probabilidade significativamente maior de desenvolver periodontite. Além disso, essas pessoas costumam apresentar uma progressão mais acelerada do quadro clínico e uma resposta menos satisfatória aos tratamentos convencionais (Belizário et al., 2024).
A presença da diabetes mellitus está fortemente associada ao aumento da prevalência e da severidade da doença periodontal. Indivíduos com diabetes mal controlada têm risco aumentado de desenvolver periodontite, apresentam progressão mais rápida da destruição dos tecidos periodontais e mostram respostas menos previsíveis aos tratamentos convencionais. Essa interação é explicada por alterações imunológicas, microvasculares e inflamatórias que criam um ambiente propício para a doença periodontal, ao mesmo tempo em que a inflamação periodontal interfere no controle glicêmico, estabelecendo uma relação bidirecional complexa (Belizário et al., 2024, p. 5).
Essa relação não é casual, uma vez que alterações microvasculares, disfunções nas células de defesa, aumento da liberação de citocinas inflamatórias e o acúmulo de produtos finais da glicação avançada criam um ambiente sistêmico inflamatório que facilita a destruição dos tecidos periodontais (Arbildo-Vega et al., 2024). Por outro lado, a própria inflamação periodontal crônica eleva mediadores como IL-6, TNF-α e proteína C-reativa, interferindo na sensibilidade à insulina e dificultando o controle da glicemia (Trullenque-Eriksson et al., 2024). Assim, instala-se um ciclo de retroalimentação em que as duas doenças se potencializam mutuamente.
No Brasil, esse fenômeno também tem sido observado com clareza, pois há a associação expressiva entre periodontite e doenças crônicas não transmissíveis, incluindo a diabetes, revelando que essa interação amplia o risco de complicações metabólicas e cardiovasculares (De Mendonça et al., 2024). Além disso, atualmente no Brasil, Ferreira et al. (2024) novas formas de intervenção, como o uso de gel de metformina a 1 % como complemento ao tratamento periodontal, mostrando resultados positivos tanto na saúde oral quanto no controle glicêmico. Com isso, evidencia-se a importância de compreender a relação bidirecional entre essas condições de forma integrada, unindo saberes da medicina e da odontologia para oferecer um cuidado mais completo às pessoas afetadas (Oliveira et al., 2023).
A relação bidirecional entre doença periodontal e diabetes mellitus levanta questões relevantes para a compreensão dos mecanismos que unem essas duas condições crônicas. Apesar dos avanços científicos que elucidam os processos fisiopatológicos envolvidos, ainda persistem lacunas importantes quanto ao reconhecimento clínico dessa interação e à aplicação prática desse conhecimento na atenção à saúde. Nesse contexto, surge o problema de pesquisa que orienta este estudo: de que maneira a relação entre doença periodontal e diabetes mellitus impacta o controle glicêmico e a saúde periodontal dos pacientes, e como uma abordagem interdisciplinar pode contribuir para melhores desfechos clínicos?
Parte-se da hipótese de que pacientes com diabetes mellitus não controlada apresentam maior gravidade e progressão da doença periodontal, ao mesmo tempo em que a presença de periodontite dificulta o controle glicêmico, estabelecendo um ciclo patológico de retroalimentação. Além disso, pressupõe-se que estratégias terapêuticas integradas entre as áreas médica e odontológica favorecem melhorias simultâneas nos parâmetros periodontais e metabólicos, contribuindo para um manejo mais eficaz das duas condições.
O objetivo geral deste trabalho é analisar a relação bidirecional entre doença periodontal e diabetes mellitus, destacando os mecanismos fisiopatológicos envolvidos, os impactos clínicos dessa interação e a importância de uma abordagem interdisciplinar para a melhoria dos desfechos em saúde. Como objetivos específicos, busca-se descrever os principais conceitos e características clínicas de ambas as condições, revisar os mecanismos biológicos que explicam sua inter-relação, identificar evidências recentes sobre os efeitos mútuos no controle glicêmico e periodontal, discutir experiências clínicas com intervenções integradas e refletir sobre os desafios e possibilidades da prática interdisciplinar no contexto brasileiro.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 Aspectos Clínicos e Epidemiológicos da Doença Periodontal
A doença periodontal constitui uma das condições inflamatórias crônicas mais prevalentes na população mundial, afetando os tecidos de suporte dos dentes gengiva, ligamento periodontal, cemento e osso alveolar e representando uma importante causa de perda dentária e comprometimento funcional em adultos (Salvi et al., 2023).
Seu desenvolvimento envolve a interação complexa entre fatores microbianos e respostas imunoinflamatórias do hospedeiro, que determinam a extensão e a severidade dos danos teciduais. Clinicamente, a periodontite é caracterizada por sinais como sangramento à sondagem, aumento da profundidade de sondagem, retração gengival, mobilidade dentária, envolvimento de furca e perda óssea alveolar detectável radiograficamente, os quais refletem tanto a atividade inflamatória presente quanto as sequelas de processos infecciosos anteriores (Salvi et al., 2023; Gasmi Benahmed et al., 2024).
De acordo com Villoria et al. (2024), a periodontite deve ser compreendida como uma condição sistêmica, pois os efeitos da inflamação periodontal ultrapassam o ambiente bucal, interferindo na saúde geral do indivíduo e estando intimamente associados a comorbidades crônicas, como diabetes mellitus, doenças cardiovasculares e respiratórias.
Essa concepção reforça a ideia de que a periodontite não é apenas uma doença localizada, mas parte de um processo inflamatório sistêmico que contribui para a morbidade geral e o declínio da qualidade de vida. Em estágios avançados, a perda dentária decorrente do colapso do suporte periodontal compromete funções essenciais, como mastigação, fonação e estética facial, gerando impactos psicossociais relevantes (Herrera et al., 2024).
Do ponto de vista epidemiológico, estima-se que a doença periodontal afeta cerca de 62% dos adultos dentados, sendo as formas graves responsáveis por aproximadamente 23,6% dos casos globais, o que a torna a principal causa de perda dentária em adultos (Gasmi Benahmed et al., 2024). A prevalência aumenta progressivamente com a idade e é maior entre homens, fumantes, indivíduos com baixa escolaridade e populações residentes em áreas rurais (Higham et al., 2024).
Tal distribuição evidencia a influência de determinantes sociais da saúde, reforçando o papel do status socioeconômico e da educação em saúde bucal como moduladores da doença. Além disso, condições sistêmicas como o diabetes mellitus figuram entre os principais fatores de risco, uma vez que a hiperglicemia crônica compromete a resposta imunológica e favorece a inflamação periodontal (Zhao et al., 2023).
A etiologia da doença periodontal é multifatorial, e embora o biofilme bacteriano seja o agente primário, sua progressão depende da susceptibilidade do hospedeiro. Li et al. (2024) demonstram que há correlação positiva entre periodontite e cárie dentária, ainda que seus patógenos principais apresentem antagonismo microbiológico, sugerindo a necessidade de estratégias preventivas integradas que considerem a complexidade do ecossistema oral. Em perspectiva fisiopatológica, o desequilíbrio entre microrganismos patogênicos e resposta imune do hospedeiro resulta em destruição progressiva dos tecidos de sustentação, caracterizando o processo como um distúrbio de resposta inflamatória crônica (Baima et al., 2023).
Do ponto de vista sistêmico, a periodontite tem sido associada a um aumento dos níveis de marcadores inflamatórios circulantes, como proteína C-reativa, IL-6 e TNF-α, que contribuem para a inflamação de baixo grau observada em diversas doenças crônicas (Herrera et al., 2024). Esse fenômeno explica, em parte, sua relação com desfechos cardiovasculares adversos, complicações metabólicas e maior risco de neoplasias (Baima et al., 2023; Ge et al., 2024). De modo particular, estudos recentes apontam que a disseminação de microrganismos periodontopatogênicos e seus produtos inflamatórios pode contribuir para a aterogênese e a trombose, reforçando a importância da manutenção da saúde bucal para a prevenção de doenças sistêmicas (Ge et al., 2024).
Além do impacto biológico, o ônus socioeconômico da doença periodontal é expressivo, refletindo-se em custos diretos relacionados ao tratamento odontológico e indiretos, como perda de produtividade e incapacidades funcionais (Villoria et al., 2024). Essa realidade reforça a necessidade de políticas públicas de prevenção e manejo precoce, integrando a saúde bucal às estratégias de atenção primária e de controle de doenças crônicas não transmissíveis. Assim, a periodontite deve ser compreendida não apenas como uma afecção odontológica, mas como um desafio de saúde pública global que exige ações interdisciplinares voltadas à promoção da saúde e à redução das desigualdades sociais.
2.2 Mecanismos Fisiopatológicos da Relação entre Diabetes Mellitus e Doença Periodontal
A inter-relação entre diabetes mellitus (DM) e doença periodontal é amplamente reconhecida como bidirecional e multifatorial, sustentada por mecanismos metabólicos, imunológicos e microbiológicos que se retroalimentam em um ciclo de inflamação e destruição tecidual crônica (Mirnić et al., 2024). Em indivíduos com diabetes, a hiperglicemia crônica atua como gatilho para o estresse oxidativo e para a formação de produtos finais da glicação avançada (AGEs), que alteram a resposta inflamatória do hospedeiro e comprometem a integridade dos tecidos periodontais (Zhao et al., 2023). Em contrapartida, a inflamação periodontal persistente amplifica a resistência à insulina e dificulta o controle glicêmico, exacerbando as complicações metabólicas típicas do diabetes mellitus (Li et al., 2023).
O estresse oxidativo é considerado um dos principais elos fisiopatológicos dessa relação. O excesso de glicose circulante aumenta a geração de espécies reativas de oxigênio (ROS), o que prejudica os sistemas antioxidantes endógenos e promove danos estruturais às células do periodonto (Mirnić et al., 2024). Essa disfunção redox ativa vias inflamatórias que elevam a expressão de citocinas como IL-6, TNF-α e IL-1β, mediadores cruciais na degradação do colágeno e na reabsorção óssea alveolar (Nibali et al., 2022).
Além disso, os AGEs, ao se ligarem aos seus receptores específicos (RAGE) nas células endoteliais e imunológicas, desencadeiam uma cascata de sinalização inflamatória que intensifica o recrutamento leucocitário e a liberação de proteases e metaloproteinases de matriz, promovendo a destruição do tecido conjuntivo periodontal (Zhao et al., 2023).
Do ponto de vista imunológico, indivíduos com diabetes exibem alterações funcionais nas células de defesa, incluindo neutrófilos, macrófagos e linfócitos T, que apresentam resposta exacerbada e desequilibrada frente ao desafio microbiano. Essa hiper-reatividade inflamatória, associada à deficiência na fagocitose e no reparo tecidual, favorece a progressão da periodontite e impede a resolução adequada do processo inflamatório (Vlachou et al., 2024). Barutta et al. (2022) propõem que o fenômeno da imunidade treinada, uma forma de reprogramação epigenética de células mieloides inatas, pode representar um mecanismo unificador entre diabetes e periodontite, explicando a persistência da inflamação mesmo após o controle glicêmico parcial.
No contexto microbiológico, a hiperglicemia parece modificar a composição do microbioma oral, promovendo um ambiente favorável ao crescimento de patógenos periodontais como Porphyromonas gingivalis e Aggregatibacter actinomycetemcomitans (Tang et al., 2022).
Essas bactérias, por sua vez, intensificam a inflamação local e sistêmica ao liberar lipopolissacarídeos e enzimas proteolíticas, que estimulam a resposta imune e amplificam o desequilíbrio entre destruição e regeneração tecidual. Tal disbiose bacteriana também pode influenciar o metabolismo glicêmico, uma vez que os mediadores inflamatórios periodontais circulantes interferem na sinalização insulínica periférica, agravando a resistência à insulina (Li et al., 2023).
Além desses fatores, estudos recentes indicam o envolvimento de biomarcadores epigenéticos, como microRNAs inflamatórios e metabólicos, na mediação dessa interação. Mata-Monterde et al. (2024) identificaram miRNAs como miR-146a, miR-155 e miR-223 como potenciais reguladores de vias associadas à resposta imune e ao metabolismo da glicose, sugerindo seu uso como marcadores diagnósticos e prognósticos tanto para a diabetes quanto para a periodontite. Esse achado reforça o caráter integrado da resposta biológica entre ambas as doenças, mostrando que alterações moleculares sistêmicas podem se refletir diretamente na saúde periodontal.
Do ponto de vista clínico, observa-se que pacientes com diabetes mal controlada apresentam maior prevalência e severidade de periodontite, além de maior resistência aos tratamentos convencionais (Costa et al., 2023). A inflamação periodontal crônica, por sua vez, contribui para o aumento da hemoglobina glicada (HbA1c) e para a instabilidade metabólica, configurando um ciclo patológico no qual ambas as doenças se reforçam mutuamente. Essa reciprocidade patogênica evidencia que o tratamento periodontal eficaz pode levar à melhora significativa do controle glicêmico, assim como a estabilização metabólica favorece a recuperação periodontal (Gheonea et al., 2024).
Por fim, a literatura recente aponta que mediadores hormonais e enzimáticos, como a dipeptidil-peptidase-4 (DPP-4) e o peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1), participam dessa interconexão ao influenciar tanto o metabolismo glicídico quanto a resposta inflamatória oral (Gheonea et al., 2024). De acordo Gheonea et al., (2024) com elevação dos níveis de DPP-4 no fluido gengival de pacientes diabéticos com periodontite indica um possível elo molecular entre a atividade inflamatória periodontal e a regulação sistêmica da glicose, abrindo caminhos para abordagens terapêuticas inovadoras que integrem medicina e odontologia.
Assim, o entendimento dos mecanismos fisiopatológicos que unem a diabetes mellitus e a doença periodontal permite reconhecer a necessidade de estratégias integradas de prevenção e tratamento, voltadas não apenas para o controle local da infecção, mas para a regulação sistêmica da inflamação e do metabolismo, pilares indispensáveis para a promoção da saúde global.
2.3 Abordagens Terapêuticas e Interdisciplinares no Manejo Integrado
O manejo integrado da doença periodontal em pacientes com diabetes mellitus requer uma abordagem interdisciplinar, centrada no indivíduo e pautada na colaboração entre profissionais de saúde de diferentes áreas. Essa integração é fundamental para romper o ciclo bidirecional que perpetua a inflamação sistêmica e o descontrole glicêmico, promovendo uma melhora simultânea dos parâmetros metabólicos e periodontais (Vora et al., 2024). Tal modelo de atenção reconhece que condições crônicas complexas, como diabetes e periodontite, não podem ser tratadas de maneira isolada, exigindo intervenções coordenadas que contemplem os aspectos biológicos, comportamentais e sociais do adoecimento (O’Brien et al., 2025).
A literatura aponta que os modelos interdisciplinares de cuidado envolvem equipes multiprofissionais integradas: odontologistas, endocrinologistas, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos e educadores em saúde, que atuam de forma colaborativa e contínua, compartilhando informações e decisões sobre o tratamento (Tops et al., 2024).
Essa integração favorece uma visão ampliada do paciente, possibilitando a formulação de planos terapêuticos personalizados e o monitoramento sistemático de indicadores clínicos, como glicemia, hemoglobina glicada (HbA1c) e profundidade de sondagem periodontal. De acordo com Nicolau et al. (2023), programas de atenção integrada demonstram maior efetividade quando há comunicação constante entre os profissionais, padronização de condutas e foco na continuidade do cuidado.
No contexto da relação entre diabetes e periodontite, as abordagens terapêuticas integradas incluem desde o controle rigoroso da infecção periodontal até a otimização do manejo metabólico. Ferreira et al. (2024) relatam resultados promissores com o uso de gel de metformina a 1% como coadjuvante ao tratamento periodontal, promovendo redução significativa da profundidade de sondagem e melhora do controle glicêmico.
Essa intervenção evidencia que terapias farmacológicas locais podem potencializar os efeitos do tratamento convencional, reforçando o papel da interdisciplinaridade entre odontologia e endocrinologia. Complementarmente, Fanelli et al. (2025) destacam que o suporte psicológico e o acompanhamento contínuo dos pacientes com diabetes e periodontite favorecem maior adesão terapêutica, controle de estresse e redução da resistência à insulina, apontando para a importância da integração da psicologia na prática clínica.
Outro componente essencial do cuidado interdisciplinar é a educação em saúde e o empoderamento do paciente. O envolvimento ativo de pacientes e familiares nos processos de decisão e nas estratégias de autocuidado tem se mostrado decisivo para a manutenção dos resultados obtidos e para a prevenção de recidivas (Paganin, 2024).
A aplicação de terapias multifamiliares e o uso de metodologias participativas contribuem para o fortalecimento da autonomia dos indivíduos e para a compreensão de sua condição de saúde de forma mais ampla, favorecendo mudanças sustentáveis no comportamento de autocuidado. Essa abordagem colaborativa, segundo Connell et al. (2022), promove também melhora da qualidade de vida, maior satisfação com o tratamento e redução das taxas de complicações associadas.
Além disso, o avanço tecnológico tem possibilitado o desenvolvimento de modelos híbridos de atendimento, que combinam o cuidado presencial e o digital, especialmente úteis no acompanhamento de condições crônicas. A incorporação de ferramentas digitais, como telemonitoramento, prontuários eletrônicos compartilhados e aplicativos de autocontrole, fortalece a comunicação entre profissionais e pacientes e amplia o acesso ao cuidado especializado (O’Brien et al., 2025). Esses recursos tornam-se especialmente relevantes no acompanhamento contínuo de pacientes com diabetes e periodontite, permitindo intervenções mais rápidas diante de alterações clínicas e melhorando a adesão aos protocolos terapêuticos (Goldhammer et al., 2022).
Os resultados de intervenções integradas são consistentes ao demonstrar melhoras clínicas significativas em múltiplos parâmetros de saúde. Vora et al. (2024) e Nicolau et al. (2023) evidenciam que modelos de cuidado interdisciplinar reduzem complicações sistêmicas, aprimoram o controle metabólico e diminuem a morbimortalidade associada às doenças crônicas.
Em paralelo, a atuação conjunta entre odontologia e medicina, sustentada por protocolos de referência e contrarreferência, contribui para a detecção precoce de agravos e para a consolidação de uma prática clínica centrada na pessoa, conforme defendem Fanelli et al. (2025) e O’Brien et al. (2025).
Por fim, o paradigma do manejo integrado representa não apenas uma estratégia terapêutica, mas uma mudança estrutural na forma de compreender a saúde. No caso da relação entre diabetes e doença periodontal, a interdisciplinaridade traduz-se em uma prática clínica ampliada, sustentada pelo diálogo entre especialidades e pela coparticipação do paciente no processo terapêutico. Essa abordagem permite não apenas o controle das manifestações locais e sistêmicas, mas também a promoção de uma saúde integral, que reconhece o indivíduo em sua totalidade biológica, psicológica e social.
3 METODOLOGIA
O presente estudo trata-se de uma revisão narrativa da literatura, de caráter qualitativo e descritivo, elaborada com o objetivo de analisar a relação bidirecional entre a doença periodontal e o diabetes mellitus, bem como compreender de que modo as abordagens interdisciplinares podem contribuir para o manejo mais eficaz dessas condições crônicas. Conforme afirmam Souza, Silva e Carvalho (2010), a revisão narrativa consiste em um método que permite a síntese crítica do conhecimento existente sobre determinado tema, integrando diferentes perspectivas teóricas e resultados empíricos para oferecer uma visão ampla e interpretativa do fenômeno estudado. Essa modalidade de revisão não segue um protocolo rigidamente sistematizado, como ocorre nas revisões sistemáticas, mas se fundamenta na seleção criteriosa de estudos científicos e fontes relevantes, permitindo uma análise reflexiva e contextualizada das evidências disponíveis.
A elaboração desta revisão foi guiada pela seguinte questão norteadora: de que maneira a relação entre doença periodontal e diabetes mellitus impacta o controle glicêmico e a saúde periodontal dos pacientes, e como uma abordagem interdisciplinar pode contribuir para melhores desfechos clínicos? A partir dessa indagação, buscou-se identificar os mecanismos fisiopatológicos que explicam a conexão entre as duas doenças, os efeitos clínicos decorrentes dessa interação e as estratégias de cuidado integradas que têm demonstrado maior efetividade na literatura recente.
A busca bibliográfica foi realizada de forma planejada e iterativa entre os meses de março e outubro de 2025, contemplando publicações científicas disponíveis nas bases Scientific Electronic Library Online (SciELO), United States National Library of Medicine – Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (PubMed/MEDLINE), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Google Scholar e ScienceDirect, além de documentos institucionais publicados pelo Ministério da Saúde (MS) e pelo Conselho Federal de Odontologia (CFO), com o intuito de integrar evidências internacionais e nacionais pertinentes ao contexto brasileiro.
Para maximizar a sensibilidade da busca, empregaram-se descritores controlados (MeSH/DeCS) e termos livres combinados por operadores booleanos (AND/OR), com sinônimos e variações ortográficas. A construção dos conjuntos de termos foi precedida por uma etapa piloto para refinar o vocabulário e reduzir ruído. Exemplos de combinações utilizadas foram: “doença periodontal” OR “periodontite” AND “diabetes mellitus” AND (“controle glicêmico” OR “hemoglobina glicada” OR “HbA1c”) OR (“inflamação crônica” OR “citocinas”) OR (“abordagem interdisciplinar” OR “cuidado integrado” OR “multidisciplinaridade”) OR (“metformina tópica” OR “gel de metformina”). Ajustes finos foram feitos por base (p. ex., uso de MeSH em PubMed e DeCS em LILACS/SciELO), respeitando as especificidades de indexação. As buscas foram delimitadas ao período de 2015 a 2025, em português, inglês ou espanhol, privilegiando textos disponíveis na íntegra para permitir avaliação crítica do método, resultados e limitações. A escolha desse recorte temporal justifica-se pela atualização das diretrizes diagnósticas e terapêuticas em periodontia e diabetes ao longo da última década, pelo avanço de marcadores biológicos e pela emergência de modelos de cuidado integrados no SUS e em outros sistemas de saúde.
O processo de elegibilidade seguiu etapas sucessivas para assegurar foco e rigor. Inicialmente, os resultados foram triados por título e resumo, removendo-se duplicidades e estudos manifestamente fora do escopo (como relatos exclusivamente laboratoriais ou de peri-implantite sem interface com periodontite/diabetes). Em seguida, realizou-se a leitura na íntegra dos textos potencialmente relevantes, verificando-se a aderência aos critérios de inclusão: estudos originais (ensaios clínicos, observacionais e quasi-experimentais), revisões de literatura (narrativas e sistemáticas) e documentos técnicos que abordassem a associação bidirecional entre periodontite e diabetes, a caracterização clínica/epidemiológica dessa interface, os mecanismos fisiopatológicos implicados (p. ex., estresse oxidativo, AGEs/RAGE, disbiose, imunidade treinada) e/ou intervenções terapêuticas com enfoque interdisciplinar (odontologia integrada à endocrinologia, nutrição, enfermagem e psicologia).
Foram excluídos relatos de caso, estudos com animais ou exclusivamente in vitro (mantidos apenas como contextualização mecanística quando necessário), duplicados entre bases, artigos sem clareza metodológica e publicações sem relação direta com a questão norteadora. Optou-se por incluir revisões sistemáticas e escopos recentes como fontes de síntese e mapeamento, sem, contudo, substituir a leitura de estudos primários quando dados clínicos específicos eram necessários.
Concluídas as etapas de triagem, chegou-se a um conjunto final de vinte e cinco estudos considerados mais representativos e atuais para responder à questão proposta, abrangendo diferentes delineamentos (ensaios clínicos não cirúrgicos em periodontia com e sem adjuvantes, coortes e transversais analíticos com desfechos periodontais e metabólicos, revisões com foco em mecanismos e manejo integrado, e diretrizes/relatos técnicos). A seleção preservou diversidade geográfica e assistencial, contemplando tanto experiências em sistemas públicos (incluindo dados brasileiros) quanto em contextos ambulatoriais especializados, o que favorece a transferibilidade dos achados para a prática clínica.
A análise do material foi conduzida em duas camadas complementares. Na camada descritiva, identificaram-se as características essenciais dos estudos (população, critérios diagnósticos de periodontite: profundidade de sondagem, perda clínica de inserção, sangramento à sondagem, perda óssea radiográfica, tipo de diabetes e forma de aferição do controle glicêmico, HbA1c, glicemia de jejum, resistência à insulina , intervenções propostas e tempo de seguimento). Na camada interpretativa, procedeu-se à leitura comparativa e crítica dos resultados, cotejando convergências (p. ex., associação entre mau controle glicêmico e maior severidade periodontal; melhora simultânea de desfechos periodontais e metabólicos após intervenção integrada) e divergências (diferenças nas magnitudes de efeito, heterogeneidade em critérios diagnósticos e métricas), além da identificação de lacunas (escassez de avaliações psicossociais, padronização insuficiente de desfechos e poucos estudos com seguimento prolongado).
Para organizar a síntese e facilitar a compreensão, os achados foram integrados em três eixos temáticos previamente definidos: (i) aspectos clínicos e epidemiológicos da doença periodontal; (ii) mecanismos fisiopatológicos da relação com o diabetes mellitus; (iii) abordagens terapêuticas e interdisciplinares no manejo integrado. Essa estruturação permitiu conectar evidências mecanísticas (como o papel de citocinas, AGEs e disbiose) a resultados clínicos (redução de profundidade de sondagem e de HbA1c) e a modelos organizacionais de cuidado (equipes multiprofissionais, telemonitoramento, educação em saúde).
Embora se trate de uma revisão narrativa, adotaram-se cuidados para mitigar vieses comuns a este tipo de estudo. Primeiramente, priorizou-se a inclusão de trabalhos recentes e de alto impacto, garantindo atualidade e consistência teórica. Em seguida, buscou-se triangulação de fontes (bases distintas e literatura cinzenta dirigida) e checagem cruzada de referências (snowballing) para identificar estudos relevantes eventualmente não recuperados na busca inicial. Em passagens que exigiram citação literal de autores estrangeiros, procedeu-se à tradução para o português, indicada como “tradução nossa”, preservando o sentido técnico original.
Em razão da natureza narrativa, não se aplicaram checklists quantitativos de qualidade nem metanálise; contudo, a discussão explicitou limitações recorrentes nos estudos (p. ex., heterogeneidade de amostras e critérios diagnósticos, seguimentos curtos, ausência de padronização de desfechos centrados no paciente), reforçando a leitura crítica dos resultados e a cautela na extrapolação.
Por fim, manteve-se atenção à coerência com a questão norteadora, de modo que cada evidência selecionada contribuísse para responder como a periodontite interfere no controle glicêmico e como o diabetes agrava a doença periodontal, bem como para sustentar a pertinência de modelos interdisciplinares como estratégia de melhoria de desfechos clínicos e metabólicos.
Cabe destacar que, por se tratar de uma revisão narrativa, não foram aplicadas ferramentas quantitativas de avaliação de qualidade metodológica ou metanálise dos resultados, o que representa uma limitação inerente ao tipo de delineamento adotado. Ainda assim, buscou-se garantir a fidedignidade e o rigor científico do processo por meio da seleção de estudos de reconhecida relevância, da análise criteriosa das evidências e da utilização de referências atualizadas, publicadas majoritariamente entre 2020 e 2025.
Reconhece-se, no entanto, que a subjetividade na escolha e interpretação dos artigos pode introduzir vieses analíticos, ainda que mitigados pela triangulação de fontes e pela sustentação teórica consistente. Dessa forma, o método adotado possibilitou uma compreensão aprofundada e crítica sobre o tema, articulando diferentes perspectivas científicas e clínicas e contribuindo para o debate contemporâneo acerca da integração entre saúde bucal e saúde sistêmica.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os achados reunidos ao longo desta revisão evidenciam, de maneira convergente, que a relação entre doença periodontal e diabetes mellitus é bidirecional, complexa e sustentada por uma rede de mecanismos biológicos, imunológicos e metabólicos interdependentes. O conjunto das pesquisas analisadas aponta que o mau controle glicêmico exerce efeito direto sobre a progressão da periodontite, enquanto o processo inflamatório crônico típico da doença periodontal interfere negativamente no controle metabólico da glicose, criando um ciclo de retroalimentação patológica que intensifica ambas as condições (Zhao et al., 2023; Mirnić et al., 2024).
4.1 Achados clínicos e epidemiológicos
Os estudos mais recentes indicam que indivíduos diabéticos apresentam risco duas a três vezes maior de desenvolver periodontite grave quando comparados à população sem diabetes (Villoria et al., 2024). Essa associação é explicada, em parte, por mecanismos fisiopatológicos relacionados à hiperglicemia crônica, que induz alterações microvasculares, disfunções na resposta imune e acúmulo de produtos finais da glicação avançada (AGEs). Essas substâncias aumentam a produção de citocinas pró-inflamatórias, como IL-6, IL-1β e TNF-α, levando à destruição acelerada dos tecidos periodontais (Gasmi Benahmed et al., 2024; Salvi et al., 2023).
Figura 1 – Relação bidirecional entre doença periodontal e diabetes mellitus.
O diagrama representa o ciclo de retroalimentação entre a inflamação periodontal e o descontrole glicêmico. O diabetes aumenta a produção de espécies reativas de oxigênio (ERO) e produtos finais de glicação avançada (AGEs), ativando receptores RAGE e promovendo liberação de citocinas inflamatórias (IL-6, TNF-α). Em contrapartida, a inflamação periodontal amplifica a resistência à insulina e eleva a hemoglobina glicada (HbA1c), agravando o diabetes.

Fonte: elaboração própria (2025), adaptado de Zhao et al. (2023) e Trullenque-Eriksson et al. (2024).
Por outro lado, a periodontite ativa contribui para o agravamento do quadro glicêmico, elevando os níveis de hemoglobina glicada (HbA1c) e aumentando a resistência periférica à insulina (Herrera et al., 2024). Isso porque, os pacientes com periodontite crônica não tratada podem apresentar um aumento médio de 0,4% a 1,0% nos níveis de HbA1c, o que, clinicamente, representa um risco significativo de complicações micro e macrovasculares (Li et al., 2023). Assim, a literatura confirma que a doença periodontal não é apenas uma manifestação oral do diabetes, mas um fator capaz de modificar o curso metabólico da doença sistêmica.
4.2 Mecanismos fisiopatológicos e biomoleculares
Os resultados apontam também que a conexão entre as duas patologias é mediada por múltiplos mecanismos fisiopatológicos, com destaque para o estresse oxidativo, a disbiose microbiana e a reprogramação epigenética das células imunes. Mirnić et al. (2024) destacam que o estresse oxidativo resultante da hiperglicemia leva à geração de espécies reativas de oxigênio (ROS), que promovem dano celular e perpetuam a inflamação periodontal. Barutta et al. (2022) ampliam essa compreensão ao propor o conceito de “imunidade treinada”, segundo o qual as células mieloides adquirem uma memória inflamatória persistente que mantém o processo inflamatório mesmo após o controle glicêmico parcial.
Outros estudos, como os de Tang et al. (2022) e Mata-Monterde et al. (2024), introduzem uma dimensão molecular à discussão, demonstrando que o microbioma oral em diabéticos apresenta composição alterada, com maior prevalência de espécies patogênicas, e que microRNAs inflamatórios, como miR-146a, miR-155 e miR-223, regulam negativamente genes relacionados à resposta imune e ao metabolismo da glicose. Essa interação epigenética explica a persistência da inflamação periodontal mesmo em pacientes com bom controle glicêmico, confirmando que a relação entre as doenças é sustentada por alterações sistêmicas profundas e não apenas por fatores locais.
4.3 Abordagens terapêuticas e integração interdisciplinar
Os resultados terapêuticos também reforçam a importância da integração entre odontologia, endocrinologia, nutrição e psicologia no tratamento de pacientes diabéticos com doença periodontal. Ferreira et al. (2024) demonstraram que a aplicação de gel de metformina a 1% como adjuvante ao tratamento periodontal não cirúrgico reduziu de forma significativa a profundidade de sondagem e melhorou os níveis de glicemia em jejum. Esses resultados sugerem que a metformina, além de seu efeito hipoglicemiante sistêmico, exerce uma ação anti-inflamatória local sobre os tecidos periodontais.
Fanelli et al. (2025) e O’Brien et al. (2025) reforçam que o manejo interdisciplinar é essencial para o sucesso terapêutico, pois a integração de suporte psicológico, educação em saúde e monitoramento clínico contínuo favorece a adesão ao tratamento e reduz recaídas. Estudos de Vora et al. (2024) e Nicolau et al. (2023) evidenciam que modelos de cuidado integrado reduzem significativamente complicações metabólicas e cardiovasculares, além de melhorarem a qualidade de vida e a autopercepção de saúde.
Além disso, a incorporação de tecnologias digitais e telemonitoramento tem se mostrado promissora para o acompanhamento de pacientes com doenças crônicas. Plataformas digitais de registro clínico e aplicativos de controle glicêmico facilitam o intercâmbio de informações entre profissionais, permitindo intervenções precoces e personalizadas (Goldhammer et al., 2022; Connell et al., 2022).
Em conjunto, os resultados corroboram a hipótese central deste estudo: a doença periodontal e o diabetes mellitus mantêm uma relação bidirecional que agrava mutuamente suas manifestações clínicas e sistêmicas. A literatura contemporânea sustenta que o tratamento periodontal adequado pode resultar em redução média de 0,3% a 0,6% nos níveis de HbA1c, um impacto comparável ao obtido por medicamentos hipoglicemiantes adjuvantes (Ferreira et al., 2024). Dessa forma, a saúde bucal deve ser considerada um componente essencial no manejo do diabetes, e a odontologia deve integrar os protocolos de cuidado de doenças crônicas.
Apesar dos avanços significativos, as pesquisas apresentam limitações metodológicas que devem ser reconhecidas. Primeiramente, há heterogeneidade entre os estudos clínicos no que se refere ao tamanho das amostras, ao tipo de diabetes avaliado (tipo 1 ou tipo 2), ao tempo de acompanhamento e aos critérios diagnósticos empregados para periodontite, pois tal diversidade metodológica foi evidenciada por Li et al. (2023) e Costa et al. (2023), que destacaram a ausência de padronização dos parâmetros clínicos e laboratoriais utilizados para definir a gravidade da doença periodontal. Essa variabilidade dificulta a comparação direta entre os resultados e compromete a formulação de protocolos universais de tratamento que possam ser aplicados de forma homogênea em diferentes populações (Vlachou et al., 2024; Herrera et al., 2024).
Outra limitação importante refere-se à escassez de ensaios clínicos randomizados e de longo prazo que avaliem o impacto das intervenções interdisciplinares sobre o controle metabólico e a progressão da periodontite. A maioria das evidências recentes é derivada de estudos transversais e revisões narrativas, como as de Barutta et al. (2022) e Mirnić et al. (2024), que, embora contribuam para elucidar os mecanismos fisiopatológicos, apresentam limitações quanto à causalidade e à generalização dos resultados.
Além disso, revisões como as de Nicolau et al. (2023) e Tops et al. (2024) enfatizam que os modelos de cuidado interdisciplinar ainda carecem de validação empírica em contextos clínicos diversos e com amostras representativas, restringindo a força das conclusões quanto à sua eficácia em longo prazo.
Poucos estudos também abordam dimensões psicossociais e de qualidade de vida, aspectos fundamentais para a adesão terapêutica e para o sucesso clínico das intervenções. Fanelli et al. (2025) e Paganin (2024) argumentam que a ausência de instrumentos padronizados de avaliação subjetiva impede a compreensão integral dos benefícios psicológicos e comportamentais decorrentes das práticas integradas de cuidado, o que representa uma lacuna importante na literatura contemporânea.
Adicionalmente, há escassez de pesquisas sobre biomarcadores sistêmicos e epigenéticos, que poderiam oferecer avanços na detecção precoce e na personalização terapêutica. Mata-Monterde et al. (2024) e Tang et al. (2022) destacam que o papel dos microRNAs, como miR-146a e miR-223, e das alterações epigenéticas ainda é incipiente, sendo necessário ampliar o número de investigações experimentais para validar seu potencial diagnóstico e terapêutico. Da mesma forma, Zhao et al. (2023) e Gasmi Benahmed et al. (2024) ressaltam a necessidade de explorar novas terapias baseadas em agentes imunomoduladores, anti-inflamatórios locais e probióticos, que poderiam auxiliar na modulação da resposta inflamatória periodontal em pacientes diabéticos.
Portanto, o conjunto das evidências revisadas demonstra que a integração interdisciplinar e o manejo conjunto entre odontologia e medicina não apenas promovem melhorias clínicas mensuráveis, mas também configuram um novo paradigma na atenção às doenças crônicas complexas. Essa conclusão é reforçada por Vora et al. (2024) e O’Brien et al. (2025), que comprovam que programas de cuidado integrado em condições metabólicas crônicas resultam em redução da morbimortalidade, melhor controle glicêmico e maior satisfação dos pacientes.
A compreensão da interdependência entre diabetes e periodontite, portanto, exige políticas públicas voltadas à inclusão da saúde bucal nos programas de acompanhamento de doenças crônicas, especialmente no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Nesse sentido, os trabalhos de Nicolau et al. (2023) e Ferreira et al. (2024) reforçam que o tratamento periodontal pode gerar benefícios sistêmicos concretos, devendo ser incorporado às estratégias de atenção primária.
Dessa forma, o presente estudo confirma a relevância clínica dessa relação e aponta caminhos promissores para a construção de modelos de cuidado integrados, baseados na comunicação interprofissional, na educação em saúde e na adoção de tecnologias assistivas, como pilares de um atendimento humanizado, contínuo e eficaz.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Retomando a questão norteadora deste estudo de que maneira a relação entre doença periodontal e diabetes mellitus impacta o controle glicêmico e a saúde periodontal dos pacientes, e como uma abordagem interdisciplinar pode contribuir para melhores desfechos clínicos , pode-se afirmar, à luz das evidências analisadas, que a interação entre essas duas condições crônicas é profundamente interdependente e de caráter bidirecional. A literatura científica contemporânea demonstra que o diabetes mellitus, sobretudo quando não controlado, atua como um fator de risco determinante para o desenvolvimento e a progressão da periodontite, devido às alterações metabólicas, microvasculares e imunológicas que comprometem a resposta inflamatória do hospedeiro e reduzem a capacidade reparadora dos tecidos periodontais.
De modo recíproco, a presença da inflamação periodontal crônica eleva mediadores sistêmicos como IL-6, TNF-α e proteína C-reativa, os quais interferem na sinalização insulínica e dificultam o controle glicêmico. Essa relação de retroalimentação patológica evidencia que a periodontite não é apenas uma consequência do diabetes, mas também um potencial fator agravante da própria doença metabólica, ampliando o risco de complicações cardiovasculares, renais e imunológicas. Desse modo, confirma-se a hipótese central de que o controle isolado de uma das condições é insuficiente para alcançar estabilidade clínica duradoura.
Os resultados reunidos reforçam ainda que o manejo interdisciplinar, envolvendo profissionais da odontologia, medicina, enfermagem, nutrição e psicologia, constitui a estratégia mais efetiva para romper o ciclo inflamatório e metabólico que conecta as duas doenças. Abordagens terapêuticas integradas, como o uso adjuvante do gel de metformina a 1% associado à terapia periodontal convencional, demonstraram efeitos positivos simultâneos na redução da inflamação gengival e na melhora dos níveis de hemoglobina glicada, evidenciando a eficácia de protocolos colaborativos entre as áreas médica e odontológica.
Entretanto, as limitações metodológicas observadas nos estudos,como heterogeneidade de amostras, tempo reduzido de acompanhamento e ausência de padronização diagnóstica, indicam que ainda há necessidade de investigações longitudinais e multicêntricas que consolidem esses achados e validem novas terapias integradas. A carência de pesquisas que abordem aspectos psicossociais, qualidade de vida e marcadores epigenéticos, como microRNAs inflamatórios, também revela lacunas importantes para o avanço do conhecimento clínico e científico na área.
Portanto, o presente estudo permite concluir que a relação bidirecional entre doença periodontal e diabetes mellitus exige uma abordagem integral, capaz de articular prevenção, tratamento e educação em saúde sob a ótica interdisciplinar. Essa integração deve ser incorporada de forma estruturada às políticas públicas de atenção às doenças crônicas, especialmente no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), de modo a ampliar o acesso a um cuidado mais resolutivo e humanizado. A compreensão dessa interdependência representa, assim, um marco essencial para a consolidação de um novo modelo de cuidado, centrado no paciente, baseado em evidências e sustentado pela colaboração entre os diferentes campos do saber.
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1Acadêmica do Curso de Odontologia da Faculdade Multivix – E-mail: karollynacr@gmail.com
2Acadêmico do Curso de Odontologia da Faculdade Multivix
3Acadêmica do Curso de Odontologia da Faculdade Multivix – E-mail: liviamarquesr@gmail.com
4Acadêmica do Curso de Odontologia da Faculdade Multivix – E-mail:gwynne_delunardo@hotmail.com
5Doutoranda em Patologia Geral – Docente Multivix – Vitória
